Competições de Abril
24 Traição
ROMANCES MENSAIS
LIVRO IV – COMPETIÇÕES DE ABRIL
CAPÍTULO XXIII — TRAIÇÃO
O forte cheiro de morfo no local é a primeira coisa que noto quando chegamos ao esconderijo de nossos sequestradores. Eu estava com uma mordaça em minha boca e um saco preto em minha cabeça, impedindo que eu enxergasse alguma coisa. Eu estava em pânico. Sem qualquer senso de direção e menos ainda do que acontecia a minha volta, tudo o que eu conseguia fazer era chorar em silêncio e rezar para que Barry ainda estivesse vivo.
Sem qualquer aviso, a pessoa que me conduzia pelo local desconhecido me empurra contra uma cadeira de metal e por muito pouco não vou ao chão. Ele amarra meus braços e pernas na cadeira e sinto a corda usada machucar a minha pele. Pouco tempo depois, o saco que cobria minha cabeça é tirado e finalmente consigo observar o esconderijo, que mais parecia uma casa abandonada de madeira com muita bagunça, morfo e pó.
Desesperada, começo a me debater, tentando me soltar, mas isso só fazia meus braços e pernas ficarem ainda mais feridos. Ao olhar para o lado, encontro Barry ainda desacordado e, assim como eu, amarrado em uma cadeira com uma mordaça na boca. Isso me deixa ainda mais angustiada. Ele havia levado um golpe muito forte na cabeça e já estava inconsciente há muito tempo. Sua blusa manchada de sangue também não ajudava em nada a me acalmar.
E então nosso sequestrador se revela mais uma vez. O rapaz de aparência jovial com cabelos que iam até os ombros, encarava meu namorado com os olhos preocupados. Isso chegava a ser irônico, já que ele havia sido o culpado por deixá-lo naquela situação. Cisco Ramon era um dos colegas de trabalho e melhores amigos de Barry. Jamais imaginaríamos que ele seria capaz de machucar qualquer um de nós.
Apesar de não conhecer tão bem o rapaz, Barry já havia falado muito sobre ele e de como Cisco o ajudou a se adaptar ao trabalho com seu jeito divertido e alto astral. Nas poucas vezes que nos encontramos, ele também havia sido uma pessoa muito gentil e acolhedora, por isso, era difícil acreditar na traição do rapaz.
Cisco então me encara e se encolhe ao sentir meu olhar nada amigável. Ele abre e fecha a boca algumas vezes, como se procurasse alguma forma de se justificar, mas não conseguia dizer nada. Um celular começa a tocar no local onde estávamos e isso o assusta. Um segundo homem aparece e sai do cômodo para atender a ligação, deixando-nos as sós.
Tomada pela ira, começo a xingar Cisco, debatendo-me cada vez mais, mas tudo que se torna audível são resmungo por causa da mordaça em minha boca. O rapaz parecia cada vez mais incerto sobre o que fazer. Seus olhos se alternavam entre Barry e eu, demonstrando toda a culpa que sentia pelo que havia feito. Ainda assim, eu não conseguia deixar de pensar em formas de esquartejar aquele maldito traidor.
— Para! Você vai se machucar! — Pede o rapaz, segurando minha cadeira no momento em que eu iria a chão de tanto me debater. — Fica calma! Não vamos machucar vocês. Eu vou tirar essa mordaça de você, mas tem que me prometer que não vai fazer escândalos.
Rio com ironia de sua afirmação. Ele suspira e olha para os lados, como se confirmasse que estávamos sozinhos. Cisco me encara como se exigisse uma resposta e isso me faz revirar os olhos. Bufo e assinto, angustiada demais por ter aquele pano na minha boca. Ele então tira a mordaça de minha boca e eu finalmente consigo respirar direito.
— Traidor! — Exclamo, encarando-o enojada. Ele se encolhe mais uma vez. — Como você teve coragem de fazer isso com o seu próprio amigo?
— Eu não tive escolha! — Cisco parecia desnorteado, enquanto leva a mão a cabeça e começa a andar de um lado para o outro.
— Sempre tem uma escolha. — Afirmo, quase cuspindo as palavras. Cisco nega veemente, nitidamente transtornado. — Você escolheu nos matar.
— Não! Eles me garantiram que não vão matar vocês. Só precisam nos dizer onde estão os documentos com as informações sobre o Hawkins National Laboratory e vocês serão soltos. — Explica o colega de trabalho de meu namorado e isso me faz gargalhar.
— E você acreditou nisso? Como pôde ser tão ingênuo? — Pergunto, sem acreditar que Cisco realmente havia caindo naquela história estúpida. — Você pode usar essa desculpa esfarrapada para se livrar da culpa, mas no fim, você será o responsável pela nossa morte.
— Você não entende! — Fala Cisco, quase em prantos. — Eu me envolvi com algo que não devia e agora estou nas mãos deles. Se eu não cooperar, eles vão machucar a minha família. Eu nunca quis ferir ninguém, mas eu não tive escolhas além de colaborar com eles.
De repente, Barry começa a se mexer. Um suspiro de alívio deixa meus lábios ao ver que ele estava vivo. Quando ele finalmente abre os olhos, sua reação não é muito diferente da minha. Ao reconhecer o colega de trabalho, ele se debate furioso. Tomado pela cólera, Barry parecia pronto para matar aquele que um dia ele confiou. Cisco observa o amigo e antes que dissesse alguma coisa, seu parceiro volta a aparecer na sala.
O homem alto e musculoso tinha tatuagens até mesmo na cabeça raspada que se assemelhavam ao da Yakuza. A arma em sua cintura era mais um acessório para tornar aquele homem ainda mais assustador. Seus olhos pequenos brilhavam, divertindo-se com nossos olhares aterrorizados.
— Ah, então ele finalmente acordou? Eu já estava começando a ficar preocupado que o amigo de vocês tivesse quebrando o crânio do super gênio. — Ironiza o homem com um sorriso perigoso nos lábios, enquanto passa o braço por cima dos ombros de Cisco. — Não estão felizes por esse lindo reencontro?
— O que você vai fazer com a gente? — Pergunto, sentindo todos os poros de meu corpo ficarem em alerta.
— Isso depende da colaboração de vocês. — Responde o homem, aproximando-se de Barry, que continuava a se remexer e a ter seus gritos abafados pela mordaça em sua boca. O homem aperta o queixo de Barry e o obriga a encará-lo. — Se vocês forem bonzinhos, nada demais vai acontecer, mas se tentarem bancar os espertinhos para cima de mim, vocês podem sair muito, muito machucados.
— Nós não sabemos de nada. Deixe-nos em paz! — Imploro, sentindo as lágrimas descerem pelo meu rosto mais uma vez.
— Você está com medo, princesa? — Questiona o homem, vindo em minha direção. Assim que ele me toca, a primeira reação que tenho é cuspir em seu rosto. Ele limpa o rosto lentamente e sorri, antes de me dar um forte tapa na face, que me faz cair no chão, completamente desorientada.
— Não! Você disse que não os machucaria. — Implora Cisco, ajudando-me a levantar. Barry estava cada vez mais agitado. A situação toda era assustadora e ao mesmo tempo revoltante.
— Fiquem quietos ou eu atiro nela! — Exige o homem, sacando a arma antes de apontar para mim. No mesmo instante, Barry começa a murmurar e balançar a cabeça em negação. Cisco mantinha os olhos arregalados e parecia não saber como reagir.
— Se divertindo sem mim, Hiroki? — Uma voz feminina surge de repente e ao ver de quem se tratava, a raiva se torna ainda maior dentro de mim. Ela se aproxima com um sorriso convencido no rosto e nos encara com aquela maldita superioridade. — Olá, docinhos. Sentiram a minha falta?
— Mas é claro que a cadela ia estar envolvida nisso. — Ironizo, tomada pela raiva. — Lisa Snart.
— Caitlin Snow. Não sabe o prazer que sinto por te ver em um estado tão deplorável. — Comenta a mulher, sorrindo com satisfação. Ela então se vira para Barry e como uma serpente prestes a dar o golpe, ela desliza as mãos pelo peito dele e se aproxima do ouvido dele. — O que foi, meu amor? A gata comeu a sua língua?
— Eu juro que quando eu sair daqui, e eu vou sair, irei esfregar essas sua cara de vadia no asfalto quente até ser impossível de te reconhecer. — Ameaço, demonstrando todo o meu desprezo pela vadia que fazia questão de acariciar Barry, enquanto me encarava com um sorriso malicioso. Ela tira a mordaça da boca de Barry e se afasta.
— Eu vou matar vocês! Seus malditos! — Grita meu namorado, completamente alterado.
— É mesmo? Estou ansiosa para ver como vocês vão conseguir fazer isso estando a sete palmos do chão. — Responde Lisa, alternando o olhar entre Barry e eu.
— Vocês me prometeram que...
— O quê? Que não os machucaria? Ah, por favor, Francisco! Nem uma criança é tão ingênua de acreditar em uma história dessa. — Afirma a agente de maneira impaciente. — Eu já tive o suficiente dessas pestes. Depois de descobrirmos onde essa ameba escondeu os documentos do Hawkins National Laboratory, nós finalmente vamos nos livrar deles. E se você tentar nos impedir, faremos o mesmo com você e a sua família, então é melhor você ficar quietinho.
— Traidor maldito! Eu confiei em você! Como teve coragem de se vender para esse bandidos? — Barry encarava Cisco com os olhos quase vermelhos de ódio.
— Não é nada disso! Eu sinto muito, Barry! Eu não...
— De todas as pessoas nesse mundo, você era uma das últimas que eu imaginei ser capaz de fazer algo assim. Eu te considerava um irmão e você me apunhalou pelas costas. — A voz cheia de dor e amargura de meu namorado parece deixar Cisco ainda mais desolado. — Como pôde me trair dessa maneira tão covarde?
— Chega! Essa sessão de lamentações está me deixando entediada. — Resmunga Lisa, impaciente.
— E então? Vocês vão nos dizer agora onde estão os documentos que sua mãe roubou do Hawkins National Laboratory ou teremos que arrancar a informação de vocês da maneira mais divertida para mim? — Pergunta o tal Hiroki com um sorriso divertido em seus lábios.
— Eu já disse que eu não sei onde a droga desses documentos estão! — Grito, furiosa. — Acha mesmo que se eu soubesse estão esses documentos eu já não teria entregado para a polícia? Eu não sei! Quantas vezes eu terei que repetir isso?
— Pelo visto, eles querem que da maneira mais difícil. — Cantarola Lisa, sorrindo animada. — Hiroki, prepare as minhas ferramentas.
Com um sorriso prazeroso nos lábios, Hiroki deixa a sala, indo em direção ao que imaginei ser um quarto. No momento em a vadia abre a boca para dizer alguma merda, o celular dela toca. Ela me encara com tédio e pega o aparelho para verificar quem ligava. Vejo suas expressão se tornar confusa e sem dizer nada, ela deixa a sala para atender a ligação.
Cisco nos encara por um momento e morde o lábio inferior, como se estivesse pensando no que deveria fazer. Ele estava agitado e nervoso. Por fim, ele olha em volta e corre para a minha cadeira. De repente, sinto o rapaz mexendo nas cordas que me prendiam contra a cadeira, como se tentasse me soltar.
— O que você está fazendo? — Sussurro, alarmada.
— Eu não sei. Uma grande besteira, talvez. — Responde, tentando desatar os nós apertados que me prendiam na cadeira.
— Eles vão te matar. — Sussurra Barry, encarando o rapaz de maneira confusa.
— Do jeito que as coisas estão indo, eu tenho certeza de que eu serei morto de qualquer maneira. — Fala Cisco de maneira melancólica. — Eu sinto muito por ter colocado vocês nessa situação. Nunca foi minha intenção machucar vocês. Eu só não sabia o que fazer para garantir a segurança de minha família. Fui ingênuo demais em acreditar nas palavras sedutoras de Lisa. Mas dessa vez, eu não vou cometer o mesmo erro. Apenas me prometam que vão garantir a segurança da minha família. Eu sei que vocês possuem poder o bastante para isso.
— Cisco... — Sussurro, sem acreditar que aquele rapaz estava mesmo disposto a colocar sua vida em risco dessa forma.
— Prometam! — Implora Cisco, chorando em desespero.
— Nós prometemos. — Afirma Barry, encarando o rapaz com seriedade. — Mas nós três sairemos dessa vivos, por isso, pare com isso. Eu não vou deixar você morrer tão fácil assim pela mão desses desgraçados. Eu ainda quero a minha vingança pela traição.
— Barry. — Cisco sorri e tenta limpar as lágrimas que caiam. — Eu...
— Que cena adorável. — Comenta Lisa, aparecendo na sala mais uma vez. — Uma pena que eu vou ter que estragar o momento de cumplicidade de vocês.
E sem que tivéssemos chance de reagir, Lisa saca sua arma e dispara contra Cisco, atingindo seu peito. Arfo, sem acreditar no que havia acontecido. O rapaz cai no meu lado, com o braço esticado. Ele tenta balbuciar alguma coisa, mas não demora muito para que fechasse os olhos. Observo-o, assustada. Lisa sorri e se aproxima de nós com a arma ainda em mãos.
— E então? Quem será o próximo?
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