Competições de Abril
22 Mirakuru
ROMANCES MENSAIS
LIVRO IV – COMPETIÇÕES DE ABRIL
CAPÍTULO XXI — MIRAKURU
O silêncio que se fazia era quase ensurdecedor. Depois de fecharem a loja, Natsu, Aki e Haru nos guiavam pelas ruas desertas e sombrias de Tóquio. Aquele lugar não parecia em nada com a paisagem brilhante e divertida que presenciamos no festival. Mesmo sendo madrugada, eu sentia o clima abafado e úmido do verão nos sufocando.
Em determinado momento, com nossos passos sendo o único som presente em um dos becos em que entrávamos, Natsu para de frente a uma porta que estava escondida em meio a escuridão da noite. Aki tira uma chave que guardava dentro do bolso de sua calça e olha em volta, como se confirmasse que havia apenas nós naquele lugar.
A mão de Barry aperta a minha, em um sinal claro de que estava preparado para correr se fosse preciso. Engulo em seco, tentando conter a minha ansiedade. A demora por respostas e toda a situação em que estávamos me deixava com os nervos a flor da pele. Mas o que me surpreende é sentir a mão de Haru sobre o meu ombro.
Assustada, viro-me para encarar a garota de cabelos vermelhos escarlates, que sorri, provavelmente se divertindo com a cara que eu havia feito. Barry também se vira para encarar a garota. Respiro fundo, tentando me acalmar. O nervosismo não nos levaria a lugar algum e ainda me impediria de agir se fosse necessário.
— Vocês são tão desconfiados. — Comenta Haru, rindo. — Não se preocupem. Não vamos machucar vocês. Se fossemos fazer isso, teríamos feito muito antes. Vocês deixaram muitas brechas desde que chegaram a Tóquio.
— Vamos. — Avisa Aki, abrindo a porta.
Sem dizer nada, Natsu e Haru entram. Barry e eu nos encaramos antes de entrar. Aki fecha a porta e somente nesse momento percebo que o lugar era uma espécie de galpão abandonado com várias ferramentas e outros equipamentos que eu não conseguia identificar que estavam espalhados pelo lugar. Por estar escuro, eu não conseguia ver muita coisa e com a bagunça que estava o lugar, eu não fazia ideia do motivo de estarmos ali.
— Cuidado onde pisam. — Alerta Aki, logo atrás de nós. — Esse lugar tem muitos objetos perigosos.
Seguimos os irmãos até uma sala que ficava ao fim do depósito. Aki pega mais uma chave e abre a porta da sala. Eu estava começando a me perguntar qual o sentido de tantas portas e mistérios. Ao entrarmos, noto então que aquele lugar era um escritório. Havia uma grande prateleira de livros, uma mesa de madeira com cadeiras antigas, um sofá e um tapete que cobria boa parte do chão da sala. Natsu retira então o tapete e revela mais uma porta no piso que estava escondida. Ele levanta a porta com um pouco de dificuldade e Aki e Haru começam a descer pelas escadas que levavam ao andar inferior.
— Para onde vocês estão nos levando? — Pergunta Barry a Natsu com determinação. — Não iremos a lugar algum até que nos digam.
— Entendo que estejam inseguros, mas precisam confiar em nós. Eu prometo que vamos contar tudo o que vocês quiserem saber. — Afirma o rapaz de cabelo platinado, aproximando-se de nós. Ele me encara intensamente e dá um bonito sorriso malicioso. Era como se eu estivesse diante daqueles bad boys de filmes que com apenas um olhar consegue nos fazer suspirar. No mesmo instante, Barry entra na minha frente, impedindo que eu conseguisse ver Natsu.
— Sem gracinhas. — Resmunga Barry, enciumado. Preciso rir de seu comportamento. Mesmo em uma situação extrema como nós estamos, ele não deixa de lado a sua insatisfação pelos olhares de Natsu sobre mim. Aquilo era adorável. Se fosse em outro momento, eu talvez aproveitaria a cara de pau de Natsu apenas para provocar Barry. Eu nunca me canso de ver como ele fica fofo quando está com ciúmes.
— Tudo bem. — Concordo, suspirando. Pego no mão de Barry e o puxo para descer as escadas. — Mas espero que não demore para chegar ao nosso destino final, Sr. Mistério. Eu não sou o tipo de mulher paciente e essa falta de respostas está começando a me irritar.
— Vocês não vão se arrepender. — Afirma Natsu com aquele ar charmoso de bad boy, fazendo Barry bufar mais uma vez. Rio e desço as escadas com meu namorado emburrado logo atrás de mim. Diferente dos caminhos que havíamos pego até agora, o local onde tivemos acesso era bastante iluminado e arejado.
— Que lugar é esse? — Sussurra Barry, assim que chegamos ao subterrâneo.
Haru e Aki nos encaram com sorrisos divertidos. Não demora muito para que Natsu apareça e seguíssemos pelo espaçoso e vazio corredor branco. Nossos passos ecoavam pelo lugar e eu me via exatamente em um daqueles filmes de ficção científica onde os protagonistas são parte de um experimento de laboratório. Eu nem mesmo sabia o que fazer além de seguir os irmãos misteriosos com nomes de estações do ano.
Depois de andarmos mais um pouco, andando em ziguezague pelos tuneis subterrâneos, encontramos mais uma sala, onde Natsu digita uma senha na porta eletrônica e ela se abre, revelando um avançado laboratório, com tecnologia de última geração. Os irmãos entram no lugar e ligam computadores e outras máquinas que eu nem mesmo sabia dizer o que eram. De repente, uma tela que estava no fundo da sala é ligada.
— Aproximem-se. — Pede Aki, apontando para duas cadeiras que estavam de frente para a tela que mais parecia ser de cinema. A porta atrás de nós se fecha, assustando. — Sentem-se, por favor.
Desconfiados, fazemos o que Aki pede. Os irmãos então vão para nossa frente e nos encaram com intensidade. Eu ainda observava tudo a nossa volta, surpresa com tamanha tecnologia que havia naquele laboratório. Como cientista, aquele lugar era o meu sonho de consumo para realizar minhas pesquisas.
— Antes de tudo, eu vou nos apresentar novamente. Eu me chamo Natsu Onizaki e essas são Aki Onizaki e a caçula, Haru Onizaki. Nossa família é responsável por cuidar do Mirakuru desde a Segunda Guerra Mundial. Nosso tataravô, Takashi Onizaki, foi quem criou o soro milagroso que poderia modificar o corpo humano. Ele tinha o objetivo de curar doenças que até o momento eram incuráveis. O problema é que os militares descobriram que esse soro podia aumentar a força humana e os tornar muito mais resistentes. Com o objetivo de criarem supersoldados, eles tentaram usar a fórmula em vários de seus homens, mas poucos conseguiam sobreviver. — Conta Natsu, mostrando a foto do tataravô deles em um laboratório antigo.
— Sentindo-se culpado por ter criado uma arma, nosso tataravô tentou colocar um fim ao Mirakuru, mas nossa tataravó, Marie Miyake, achava que aquela fórmula poderia salvar vidas e escondeu uma amostra dele e sua receita sem contar ao marido. A guerra acabou e Takashi morreu achando que havia se livrado de tudo que tivesse a ver com o Mirakuru. — Continua Aki e a foto muda para a tataravó dos irmãos. Ela era uma mulher muito bonita. — Nossa tataravó conseguiu manter o soro em segredo até que antes de morrer, entregou o segredo para nosso avô com uma carta, explicando o perigo de se ter aquela fórmula em mãos. Sem ter coragem de expor isso ao mundo, nosso avô também escondeu a fórmula até o dia de sua morte, onde entregou tudo o que tinha sobre o Mirakuru ao nosso pai.
— Bom, nosso pai não era tão bonzinho quanto nossos ancestrais e acabou refazendo a receita de nosso tataravô na tentativa de vender o soro e se tornar bilionário. O problema é que isso atraiu a atenção de muitas pessoas que conheciam a história. Assim como ocorreu em 1944, muitas pessoas morreram ao experimentar o soro, inclusive nosso pai. Poucas pessoas conseguiam sobreviver. Mas a maior parte deles não conseguia suportar o que aquela droga podia fazer com o corpo do ser humano. Era como se ele fosse um anabolizante super potente que sobrecarregava todo o sistema e leva a pessoa a morte. A informação de que possuíamos uma amostra do Mirakuru e a receita para se fabricar se espalhou. Nós ficamos em perigo e foi então que Clint Barton entrou em ação e nos salvou. — Revela Haru, ficando séria pela primeira vez desde que nos conhecemos. — Ele lutou contra todos que tentaram nos machucar. Ele arriscou a vida dele várias vezes para garantir que mais nenhuma pessoa de nossa família se ferisse. Clint nos manteve em segurança dando a loja de yukata para que cuidássemos e nos ajudou a manter a fórmula longe da Yakuza, que era o nosso maior inimigo.
— Ou era isso que pensávamos até descobrir que nosso pai já havia vendido uma cópia da fórmula para o Hawkins National Laboratory. — Continua Natsu, desligando a tela que refletia as fotos. Ele parecia frustrado. — Eles começaram a desenvolver testes absurdos com pessoas. Não sabemos exatamente qual é o objetivo deles, mas desde que descobriu que o Hawkins National Laboratory iniciaram sua pesquisa com o Mirakuru, Clint resolveu iniciar pesquisas para diminuir o efeito do soro, por isso criou esse laboratório de último geração, onde temos trabalhado desde então. Foi assim que ele conseguiu salvar a vida de Sara Hopper.
— O fato é que vocês são a única esperança para impedir que os testes no Hawkins National Laboratory continuem. Caitlin, você possui todas as provas que mostram que Ted Wheeler e Martin Brenner são os verdadeiros culpados pela corrupção e os testes realizados em seres humanos no Projeto MKUltra. Por causa da Yakuza, eles já devem saber que você está em posse desses documentos e por isso você corre perigo. — Afirma Natsu e isso me surpreende.
— Está me dizendo que o nosso verdadeiro inimigo não é a Yakuza? — Pergunta Barry, desconfiado.
— Eles ainda apresentam perigo para vocês, mas estão muito mais cautelosos por causa de Clint. O problema é que isso é algo positivo para Ted Wheeler. Se vocês morrerem, poderão facilmente colocar a culpa na Yakuza e todas as provas do Projeto MKUltra serão apagadas para sempre. — Explica Aki, suspirando.
— O problema é que eu não faço ideia de onde esses documentos estão. Todos estão dizendo que eles estão comigo, mas não me lembro de minha mãe ter me dado nada assim. E nem mesmo faz sentido ela me dar algo de tão importante assim. Por que ela simplesmente não entregou essas provas para a polícia? — Pergunto, confusa.
— Ela tentou, mas antes que conseguisse entregar, sua mãe quase foi morta. Para proteger você, ela então fugiu para Gas City, uma pequena cidade no estado de Indiana. Seu pai se tornou médico e abriu uma clínica na cidade. Sua minha mãe se cientista com especialidades em biologia que ajudava nas farmácias da cidade. Vocês permaneceram fora do radar de Ted Wheeler, até que Caitlin se envolveu com você, Barry, justamente o legista responsável por investigar a morte de Cassandra Wexford e Christopher McFeely, os responsáveis por criar o Mirakuru e entregar ao Hawkins National Laboratory. — Explica Natsu, suspirando. — As investigações de Barry chamaram muita atenção e o informante dentro do Departamento de Polícia de Hawkins entregou vocês para Ted.
— Vocês sabem quem é esse informante? — Questiona Barry, preocupado.
— Não. Mas acho que não vai demorar muito tempo até que vocês descubram. — Responde Haru, andando de um lado para o outro. — Se nossos palpites estiverem certos, o Hawkins National Laboratory vai agir enquanto vocês estiverem em Tóquio. Longe do apoio da CIA e no país de origem da Yakuza, será muito mais fácil apontar a culpa para eles. Além disso, com você de casa, Caitlin, seria muito mais fácil eles procurarem as provas que precisam sobre o envolvimento do presidente do laboratório e o homem que usou a própria filha como cobaia dos estudos com medicamentos e o Mirakuru e, que ironicamente, se tornou sobrinha de Clint.
— Os pais de Mike e Eleven. — Sussurra Barry, parecendo não acreditar na informação.
— Mas pelo que sabemos, Ted Wheeler já está sendo alvo de inúmeras investigações. Agir assim não o colocaria em evidência e poderia piorar ainda mais a situação dele?
— Pelo contrário, Caitlin. Ele está agindo agora enquanto a polícia ainda não tem provas contra ele sobre o envolvimento dele no Projeto MKUltra. Quanto mais a CIA e o FBI investigam o passado de Ted, mais próximos se tornam de descobrir a verdade sobre o laboratório. Se vocês conseguirem entregar as provas a Natasha, ela e Sara finalmente vão conseguir encerrar o caso sobre o Mirakuru. — Explica Haru e isso nos surpreende.
— Então é isso que a Natasha e a Sara estão investigando. Elas estão em busca de provas para acabar com o Hawkins National Laboratory. — Concluo e os irmãos assentem, concordando. — Pelo que vocês estão falando, se eu encontrar as provas que minha mãe escondeu, posso por um fim a toda essa confusão.
— Nesse caso, tudo o que você precisa fazer é ligar para sua mãe e perguntar sobre onde ela pode ter guardado essas provas. Damos as informações para tia Tasha e tudo terá um final feliz. — Fala Barry, esperançoso.
— Não é tão simples assim. — Respondo, pensativa.
— A Dra. Carla Tannhauser sofreu um acidente de carro a cinco anos atrás e perdeu boa parte da memória. Provavelmente pelo trauma, ela esqueceu completamente do tempo em que ela trabalhava no laboratório. Pela investigação de Clint, a Dra. Carla Tannhauser perdeu cerca de cinco anos de sua memória. Dificilmente ela saberá dizer onde pode ter escondido as provas contra o laboratório. — Conta Natsu e Barry me encara, esperando que eu confirmasse a história. Suspiro e assinto, concordando. — Além disso, vocês com certeza estão sendo monitorados. Se tentarem entrar em contato com a mãe de Caitlin de alguma forma para falar a respeito das provas do Projeto MKUltra, vocês vão acabar revelado que estão atrás do Hawkins National Laboratory e isso pode colocar vocês e suas famílias em um perigo ainda maior.
— Não se esqueça que a mãe de seu melhor amigo, Benjamin Florian está nas mãos do Hawkins National Laboratory, Barry. — Relembra Aki, encarando meu namorado com preocupação. — Eles podem querer usá-la para atingir você.
— Droga! Não me diga que o tratamento de tia Bela está sendo realizado com o Mirakuru. — Barry parecia dividido entre a frustração e a raiva. Natsu, Haru e Aki trocam olhares e isso parece ser o bastante para que meu namorado confirmasse suas suspeitas. — Merda!
— O que vocês sugerem que a gente faça então? — Pergunto, começando a perder minhas esperanças. — Pelo que vocês estão dizendo, ou nós acabaremos morrendo ou alguém importante para nós.
— Primeiro vamos descobrir quem é o informante que está dentro do Departamento de Polícia de Hawkins. Se nossas suspeitas estiverem certas, ele deve usar a ligação que tem com vocês como isca para levá-los a uma armadilha, onde irão matá-los como se fosse algo que só a Yakuza poderia ter feito. — Fala Haru, dando um sorriso determinado. — Assim que garantirmos a segurança de vocês, ajudaremos a encontrar as provas contra Ted Wheeler, que provavelmente devem estar em Gas City.
— Quem garante que esse plano dará certo? — Indaga Barry, desconfiado.
— Ninguém. Mas isso é o melhor que podemos fazer nesse momento. Claro, a Yakuza também pode atacar vocês, afinal, não sabemos qual é a lealdade de Kenichi Shinoda para com Clint. — Responde Natsu, sorrindo em desafio. — Fica a critério de vocês se vão confiar em nós ou não.
— Basicamente, estamos contando com a sorte. — Comenta meu namorado, frustrado. — Eu não gosto disso. Eu sou um cientista. Gosto da exatidão e de respostas concretas.
— Ainda assim, vocês estão certos sobre essa ser a nossa melhor opção no momento. E vocês parecem estar sendo sinceros. Clint geralmente consegue seus aliados através de favores, então eu não duvido que ele tenha ajudado vocês. Esse lugar parece mesmo algo que ele construiria. — Afirmo, relembrando um pouco de meu chefe. Eu quase conseguia sentir toda a excentricidade de Clint naquele lugar.
— Nós aceitamos a ajuda de vocês. — Responde Barry, um pouco contrariado.
Respiro fundo, tentando me acalmar. Todas as incertezas em volta desse plano me deixava bastante insegura, mas algo me dizia que eu podia confiar nos irmãos Onizaki. Assim, tudo o que nos restava era confiar em seu plano maluco. Se realmente conseguirmos prender Ted Wheeler, essa pode ser a nossa chance de nos vermos livres de uma vez por todas da maldição do Mirakuru.
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