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9 Reuniões e deduções
Notas iniciais
Nove
Era a décima quinta a vez que Ben olhava entediado para o relógio pendurado no fundo da sala, em cima de alguns quadros com imagens do corpo humano.
Estava com fome, sono e com o braço doendo por ficar tanto tempo esticado enquanto a garota em que estava algemado ficava desenhando animadamente no quadro. Até parecia que fora ela quem deu a ideia do novo tema pela tamanha empolgação, mas o verdadeiro dono estava lá, quase morrendo de cansaço com tudo aquilo.
"Como uma baile pode dar tanto trabalho?", ele pensava.
Eram nove horas da noite, mas para ele parecia que já estava há anos preso entre aquelas quatro paredes. Metade dos alunos já haviam ido embora, por que que ele deveria continuar ali? Encarou o resto da sala que ainda sobrevivia, notando que não era o único que estava quase se fundindo a cadeira. Jack encarava Majô com a boca aberta e o rosto apoiado no braço, parecendo que estava em qualquer outro lugar, menos naquela reunião. Ben não o culpava. A pequena e tímida Carla estava com a cabeça encostada na mesa, dormindo. Ele a invejou.
Quando se virou para Alícia, ela o encarou de volta e, não conseguindo se segurar, piscou pra ela e lhe enviou um sorriso sedutor, que se transformou num divertido após ela lhe mostrar o dedo do meio. Voltou seus olhos para Lili, que também olhou para ele, só que, diferentemente da anterior, lhe enviou um olhar suplicante, como se pedisse socorro.
Então ele finalmente olhou para Majô, que estava animada falando coisas que ninguém mais assimilava. Será que ela não percebia que todo mundo estava esgotado e quase implorando para sair dali?
Foi então que Ben entendeu.
Era claro. Ela estava os mantendo ali por vingança por mudar o tema do baile. O tempo realmente era meio apertado para mudar tudo, então por que não mostrar que todos estavam "errados" os torturando? Realmente, essa carinha de anjo só engana os que não conheciam, mas ele conhecia bem demais. Semicerrando os olhos para a garota, ele se levantou.
⁃ Marjorie, seu monólogo de quatro horas está realmente muito interessante... — começou sarcástico. — Mas é sexta feira à noite, todo mundo está cansado, por que você não nos dispensa e a gente vai embora?
⁃ Faria isso se a gente tivesse tempo. — ela disse com um toque de irritação. — Bom, você quis mudar a coisa toda que demorou quatro meses para preparar, esperava o quê? A partir de agora, Benício... — cutucou seu peito com o dedo. — ... as coisas serão assim. — "realmente, uma bruxinha", ele pensou.
⁃ Eu não sabia que você era tão infantil assim Marjorie, só por causa de uma pequena mudança tem que ficar com essas "vingançinhas". — fez aspas com os dedos e rolou os olhos.
⁃ Pequena? — ela riu. — Não estou fazendo vingança nenhuma, Benício, só quero que esse baile seja perfeito. E não ouse em pensar em sair. Você que quis entrar nisso, estávamos muito bem sem você. Cada escolha, uma renúncia. — recomeçou a escrever no quadro.
⁃ Não está vendo que isso não está sendo produtivo? Olhe para eles. — apontou para o resto da sala. — Com isso desse jeito a última coisa que esse baile será é "perfeito". — ela olhou os outros alunos por alguns segundos.
⁃ Ainda não decidimos quem irá para comprar o material... — ela disse depois de um tempo e Ben bufou impaciente.
⁃ Eu vou com você, está bem? Agora será que você podia liberar? — ela bufou.
⁃ Certo. Estão liberados. — disse e todos os alunos comemoraram e começaram a sair da sala. — E você... — apontou para Ben. — Vai comigo segunda. Quero os materiais prontos para começar o quanto antes.
⁃ Tá bom, bruxa Onilda. — resmungou baixo.
⁃ O que disse?
⁃ Eu disse "tá bom, Marjorie". — disse dando de ombros.
⁃ Sei...
Arrumaram a sala e finalmente saíram, trancando a porta. Caminharam até a portaria onde outro segurança os aguardava. Até António tinha ido embora, Ben não se indignava. Ele retirou as algemas e os dois desceram as escadas, se sentando nos últimos degraus. Ambos pegaram os celulares e discaram. Após finalizar a ligação, Ben olhou para Majô, que ainda tentava ligar, impaciente. Ele suspirou, não acreditando no que estava prestes a fazer.
⁃ Eu te levo, se você quiser. — ela o encarou surpresa, para logo depois arquear as sobrancelhas e semicerrar os olhos.
⁃ Sério? Não vai me deixar perdida numa rua do meio do nada por aí não?
⁃ Tentador, mas dessa vez não. Além do mais, somos vizinhos. Se os protetores do meio ambiente soubessem que estamos liberando gás carbônico na atmosfera a toa, estaríamos ferrados. — Majô riu, balançando a cabeça negativamente.
⁃ Se esse fosse o caso, deveríamos vir no mesmo carro pra escola.
⁃ Os protetores do meio ambiente que me perdoem, mas não estou pronto para isso.
⁃ Nem me fale, aqueles minutos são os únicos de paz antes de me algemar a você.
⁃ Hoje é uma exceção. Não se acostume.
⁃ Ah, eu não vou, não se preocupe. — deu dois tapinhas no joelho de Ben. Depois disso eles ficaram em silêncio por alguns minutos. — Obrigada. — ela disse rápido e ele a encarou.
⁃ Não se acostume. — disse e ela revirou os olhos.
Armando, o motorista de Ben, não demorou a chegar. Logo os dois estavam dentro das dependências do condomínio, seguindo para suas casas. Passaram o caminho todo em silêncio, cada um com seus pensamentos. Majô preocupada com o baile, não sabia se tudo daria certo e sairia como ela queria. Ainda estava irritada por Ben chegar e mudar tudo, apesar do tema ser bem legal. Já Ben estava pensando na festa que iria nessa noite, nada de muito complexo.
O carro parou finalmente parou em frente às casas e eles desceram.
⁃ Obrigada, Armando. — Majô disse ao motorista.
⁃ Não tem de que, Majô. — o senhor sorriu polido.
⁃ Tchau, Benício.
⁃ Tchau, Marjorie. — eles caminharam para as respectivas casas, mas Ben parou observando a garota entrar em sua casa e sumir de vista. Balançou a cabeça e finalmente entrou.
Armando, observador, ficou à espreita enquanto isso acontecia. Balançou a cabeça em negativo, e ligando o carro novamente para estacioná-lo, suspirou.
⁃ Essas crianças...
Ben estava exausto, esgotado apesar de não ter feito nenhum grande esforço físico. Sim, suas costas doíam e seu braço também e parecia que todo seu corpo tinha pegado o formato daquela cadeira, mas o pior de tudo foi ter ficado parado por muito tempo ouvindo gente chata — vulgo sua vizinha — falando sobre coisa chata. No começo da reunião, até que a coisa toda estava bem produtiva, ele deu ideias e estava um tanto quanto animado com tudo, mas depois de duas horas não deu mais. Desde então estava morrendo.
Finalmente chegando ao quarto, sua vontade foi de simplesmente se jogar na cama e só levantar de manhã, mas ainda tinha a festa que havia prometido ir com seus amigos. Suspirou longamente antes de separar uma roupa qualquer e se arrastar para o banheiro, entrar no box e tomar banho.
Ficou mais minutos que o necessário no chuveiro, só sentindo a água quente escorrer pelos ombros, enquanto quase dormia em pé mesmo. Aquela água era tão relaxante, ainda mais depois daquele longo dia.
Quando finalmente se forçou a sair de baixo do chuveiro, encarou a roupa estendida na cama e suspirou pesadamente. Apesar do alívio causado pela água quente, suas costas doíam e ainda estava cansado pelo dia cheio. Rapidamente pegou seu celular em cima da escrivaninha e abriu nas mensagens.
"Não vou poder ir hoje. Depois explico."
Sem esperar resposta, colocou seu celular de volta onde estava e se jogou na cama, adormecendo logo em seguida.
~*~
⁃ Ben. — sentiu alguém o chacoalhar enquanto ainda estava de olhos fechados. Não querendo acordar tão cedo, simplesmente se desvencilhou das mãos da pessoa e virou do outro lado. — Ben, acorde. Tem alguém lá embaixo querendo falar com você. — abriu os olhos lentamente quando reconheceu a voz de Tereza.
⁃ Quem? — disse mau humorado.
⁃ Majô. — ela disse com cautela. Sabia que o relacionamento dos dois não era um dos melhores.
⁃ Marjorie? — ele arqueou as sobrancelhas e riu de escárnio. — Bom, então fale pra ela voltar em 2025.
⁃ Ben... — ela disse com tom de repreensão.
⁃ Eu não quero falar com ela, Tereza. — fez birra. — Ela me impediu de ir numa festa ontem.
⁃ Ah, isso é ótimo. Devia agradecê-la. — Ben riu. Sabia que Tereza não gostava que ele saísse tão tarde da noite.
⁃ Avise que eu estou descendo. — pediu e se espreguiçou.
⁃ Vai descer mesmo? — ela levantou a sobrancelha de um jeito que sempre intimidava Ben.
⁃ Não confia em mim? — fez uma cara de anjo e ela arqueou mais ainda a sobrancelha. Ele revirou os olhos. — Vou, Tereza.
⁃ Acho bom.
...
Saindo do quarto de Ben, Tereza desceu as escadas e seguiu para a sala, onde Majô aguardava sentada no sofá com a coluna ereta e mãos apoiadas no joelho. A senhora riu com a sua postura e logo seguiu ao seu encontro.
⁃ Ele já está descendo, Majô. — a menina deu um pequeno pulo com a presença repentina de Tereza, mas logo depois sorriu para ela.
⁃ Ah, obrigada Tereza.
⁃ Sem problemas, querida. E não precisa ficar tão dura desse jeito, você está entre amigos.
⁃ Amigos e Benício. — Majô revirou os olhos e Tereza riu balançando a cabeça.
⁃ Bom, é verdade. Quer um suco de laranja enquanto ele não chega?
⁃ Seria ótimo, obrigada. — a senhora assentiu e saiu.
Ela ficou olhando por mais algum tempo a decoração bem planejada do lugar até que ouviu passos rápidos na escada. Ben surgiu na sala poucos segundos depois, com os cabelos molhados, cara de sono e o pior, exibindo o tórax bem definido.
"Por que ele sempre tem que estar sem camisa?", Majô pensou.
Ele encarou a garota sentada na sala por alguns segundos, pensando por que raios ela estaria ali aquela hora da manhã. Tinha conferido o relógio antes de sair de seu quarto, constatando que num final de semana normal ficaria por pelo menos mais duas horas dormindo tranquilamente. Ficou irritado quando percebeu que sua rotina fora destruída por sua vizinha que estava ali na sua sala. Ele cruzou os braços.
⁃ Se veio aqui para bolar outro plano para tirar as algemas pode ir embora. Não deu certo da última vez e provavelmente não vai dar agora.
⁃ Não, Benício. Eu infelizmente estou tentando me acostumar com a dor de estar ao seu lado. — ele bufou.
⁃ Por que está aqui, então?
⁃ Por causa do baile, claro. Já que nós vamos sair para a buscar a decoração, imaginei que devia estar tudo planejado.
⁃ Claro que imaginou. — ele revirou os olhos teatralmente. — Vamos na cozinha, ainda tenho que tomar meu café da manhã. "Que seria café da tarde se você não tivesse vindo", completou mentalmente.
⁃ Ok. — ela se levantou e começou a caminhar na sua frente.
Chegando na cozinha, ela se sentou numa das cadeiras da ilha e começou a abrir o caderno que tinha trazido. Enquanto Ben abria e fechava os armários com um barulho um tanto quanto exagerado. Decidiu por cereal com leite. Colocou tudo na mesa e começou a encher a tigela, enquanto Majô só observava. Tereza entrou na cozinha.
⁃ Ah, Majô. Já estava levando o seu suco, só deixei para gelar um pouquinho. — ela abriu a porta da geladeira e pegou o jarro de suco, colocando num copo com uma pedrinha de gelo e entregou a Majô.
⁃ Obrigada, Tereza. — deu um gole no suco, que estava fresquinho.
⁃ Imagina. Agora se me der licença eu vou deixar vocês crianças sozinhas e colocar a roupa no varal.
⁃ Claro. — disse e saiu.
⁃ Não vai falar nada? — Ben disse quando levou a primeira colherada de cereal a boca, fazendo um barulho estranho. Majô respirou fundo e o encarou.
⁃ Bom, como já dissemos ontem, como o tema é Anos 20, decidimos nos inspirar nas festas de O Grande Gatsby. Eu vi algumas imagens e achei umas coisas bem legais. É tudo bem extravagante com brilho, plumas... — parou de falar quando Ben fez aquele barulho irritante de novo. — Você pode parar, por favor?
⁃ Não... — deu um sorrisinho inocente. Irritada, Majô bufou e se levantou da mesa, indo em direção à porta da frente. Ele se levantou também. — Espera, onde vai? — perguntou à seguindo, mas ela nem se deu ao trabalho de parar.
⁃ Embora. Eu sabia que não podia contar com você, desde o começo. Eu sabia. Como pude ser tão burra de te deixar falar alguma coisa? Sempre assim.
⁃ É só um barulho de cereal...
⁃ "É só um barulho de cereal" — ela tentou imitar a voz grossa de Ben, falhando miseravelmente, o que fez o garoto rir. — Você tem me tratado como lixo desde que cheguei aqui! — fez uma pausa, vendo o garoto dar risada. — Tá rindo de quê?
⁃ De nada. Olha, desculpa, tá legal? É que você já estragou meus planos para ontem à noite, agora vem a essa hora da manhã aqui? — ela revirou os olhos e cruzou os braços. É claro que para ela não era cedo. — Mas eu quero ajudar, eu realmente quero.
⁃ Vai colaborar dessa vez?
⁃ Vou. — ela suspirou.
⁃ Então vamos. — e voltou para a cozinha, sendo seguida por Ben.
Depois de acomodados — e Ben sem fazer barulho — ela recomeçou a falar.
⁃ Como eu estava dizendo, é tudo muito extravagante. Tem uma decoração de borboletas que eu achei linda, elas formam tipo umas bolas vazadas, eu estava pensando em fazer com papel laminado colado em papel cartão, já que precisa ficar duro... — e ela continuou a falar por um tempo, se surpreendendo com as boas ideias que Ben dava, diferentemente do que ela pensou que aconteceria. Estavam terminando de ajeitar os últimos detalhes quando ouviram a campainha tocar e se entreolharam.
⁃ Ah não. Por um acaso você não convidou aquela sua "turma do baile", né?
⁃ Claro que não. Por um acaso você convidou alguma novata para vir aqui?
⁃ Não... — deu de ombros e se dirigiu até o hall de entrada, sendo seguida por Majô. Quando abriu a porta, pessoas começaram a o empurrar. Seus amigos.
⁃ E aí Ben? Por que furou com a gente ontem, cara? Sabe que a gente sente sauda... — Lucas começou quando entrou na casa, mas logo parou quando seus olhos encontraram os de Majô, meio arregalados pela surpresa e o tumulto. — Majô?
⁃ É cara, o que aconte... — Marcos também parou pela surpresa de ver a menina ali, mas logo sua expressão mudou para uma maliciosa. — Ah... — falou lentamente com os olhos semicerrados, como se entendesse tudo o que estava acontecendo ali. — O relacionamento de vocês evoluiu rápido. — quando finalmente entendeu o peso de suas palavras, Ben os olhou surpreso e Majô esbugalhou os olhos.
⁃ O quê? NÃO! — ela berrou. — Não, que nojo, nunca. — continuou e Ben a encarou ofendido, mas ela não pareceu perceber porque continuou. — Eu vim aqui para decidir a nova decoração do baile, que o Ben teve o prazer de mudar o tema.
⁃ Foi por isso que eu não fui ontem. Eu estava exausto porque essa daí me prendeu por umas cinco horas naquela reunião chata. O que vocês estão pensando nunca aconteceria.
⁃ Nunca mesmo! Sério. — ela cruzou os braços e ele voltou a encará-la.
⁃ Vocês que dizem, eu não... — Marcos levantou os braços em rendimento.
⁃ Bom, eu vou indo embora. Já terminamos mesmo. — foi para a cozinha pegar suas coisas e voltou ao hall, se preparando para sair, mas parou e se voltou para alguém em especial. — Você é nojento, Marcos.
⁃ Eu sei que você me ama, Majô. — ele deu risada.
⁃ Nos seus sonhos. Tchau, gente.
⁃ Tchau... — os meninos disseram em uníssono.
Ela finalmente ouviu a porta sendo fechada atrás de si e se apressou para chegar na sua casa. Subiu para o seu quarto quase correndo e se jogou na cama, pensando. Pensou nas boas ideias de Ben e o quanto ele pareceu um pouco mais dedicado depois que ele parou de ser babaca. Pensou nos amigos de Ben e na dedução de um em especial.
Bufou e revirou os olhos. Que nojo. Desprezou Ben desde que lembrava e ainda desprezava. Ele era um idiota mulherengo e fazia questão de provar com situações como a ruiva descendo de sua sacada, aquela menina do carro quando ela quase se atrasou para a aula, os beijos nojentos com essa mesma menina no banheiro feminino...
Respirou fundo.
Eles não se suportavam. E isso não mudaria.
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