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10 Lanches retrôs e planos infalíveis
Notas iniciais
[leia as notas iniciais, por favor ♥]
Dez
Ben estava debruçado sobre o carrinho de compras enquanto o empurrava por entre as prateleiras da enorme papelaria da cidade. Majô ia mais à frente, com uma lista inacabável de itens que ela julgava totalmente necessários e com um marca texto rosa fluorescente em mãos.
⁃ Sua sorte é que sobrou uma verba considerável para tudo isso. — disse para Ben e logo voltou a andar. Ele apenas revirou os olhos. — Qual tinta branca eu levo? — perguntou quando parou no corredor e ficou encarando a prateleira, a encarando minuciosamente.
Como Ben gostaria de não ter se precipitado e feito aquele acordo com ela na fatídica sexta-feira que ficou preso naquela reunião. Agora estava ali, numa plena segunda feira depois da aula empurrando aquele negócio e tendo que aguentar a garota indecisa para tudo quanto é coisa.
⁃ Marjorie, é a droga de uma tinta. É só pegar qualquer uma e pronto.
⁃ Não é tão simples.
⁃ Não é tão simples? — arqueou as sobrancelhas para ela.
⁃ O dinheiro não é nosso, Benício. Quanto mais pudermos economizar, melhor. A tinta tem que ser boa e barata ao mesmo tempo. Que tal fosca? — pegou o potinho na mão. Ele analisou a prateleira e pegou dois potinhos, impaciente.
⁃ Pronto, leva essa. — empurrou as tintas pra ela, que bufou e colocou no carrinho.
⁃ Como você é idiota.
⁃ E você é fresca. — ela revirou os olhos teatralmente e respirou fundo, sorrindo falsamente para ela sem seguida.
⁃ Agora os confetes e os papéis laminados para ficar jogando pelo ginásio.
E então recomeçaram a andar pelos longos corredores em silêncio em direção as frescuras — segundo Ben — para ficar jogando pelo salão, até que ele se lembrou do sábado de manhã, quando seus amigos invadiram sua casa e insinuaram qualquer coisa entre eles dois e Majô negou com nojo. Não que ele algum dia fosse admitir isso em voz alta, mas ficou um pouco ofendido.
Não que ele se importasse com a opinião da garota nem nada disso, mas, fala sério, ela com certeza estava mentindo.
Afinal, ele era Ben Moretto, o garoto mais desejado da escola, o arrasador de corações, o que apreciava bons corações partidos no café da manhã e todas o queriam.
Não?
⁃ Você definitivamente estava mentindo. — disse e Majô parou de caminhar e o olhou confusa e desentendida.
⁃ Quê?
⁃ Sábado de manhã, quando os caras apareceram lá em casa. Você não podia estar falando a verdade.
⁃ Em que parte?
⁃ A que você disse que nada nunca aconteceria entre a gente. Quer dizer, pela minha parte não mesmo, mas eu tenho umas teorias. — ela se virou pra ele completamente e cruzou os braços, como num desafio.
⁃ Ah é? E quais seriam?
⁃ Você tenta me odiar porque senão esse sentimento seria outro. O oposto de ódio, na verdade. — completou e Majô ficou olhando para ele por alguns segundos antes de explodir em risos.
⁃ Você só pode estar brincando. — disse sem fôlego por estar dando risada. — Eu nunca ouvi tanto absurdo assim.
⁃ Você sabe que é verdade.
⁃ Existem inúmeros motivos para eu não gostar de você, Benício, e eu poderia ficar citando eles o dia todo. Na verdade, você não é uma pessoa gostável. Muito menos apaixonável.
⁃ Ah é? — ele disse arqueando as sobrancelhas e ela revirou os olhos.
⁃ Como se você não soubesse. Olha pra você. Super desinteressado, grosso e babaca. Você faz as garotas descerem pela sua cerca viva. Você quase me fez atrasar na aula pra ficar se atracando com aquela cuíca.
⁃ Evelin. Eu acho.
⁃ Tá vendo? Nem lembra o nome da garota! E você prometeu ligar para a Alicia. Você o fez? Não! Você é um cafajeste.
⁃ E você gosta. — lhe enviou um olhar malicioso. E ela bufou.
⁃ Ah, por favor. Nunca!
⁃ Se eu sou um monstro tão horrível assim e não presto, quem presta? Quem é seu príncipe encantado, Majô? — disse seu apelido como um xingamento e ela arregalou os olhos.
⁃ Como se isso fosse da sua conta...
⁃ Não, porque se eu sou tão péssimo deve ter alguém perfeito pra você se basear, não? Quem é? O Nate? — outro nome que saiu como um xingamento e Majô finalmente explodiu.
⁃ Quer saber? Sim! É ele mesmo. O Nate. Ele é tudo que você não é e jamais será e mais um pouco. Eu consigo ver um futuro com ele, já com você...
⁃ Você já está pensando no seu futuro com o cara? Pelo amor, você só tem 16 anos!
⁃ Não estou pensando no meu futuro com ele, eu só quero o meu futuro bem longe de você! — respirou fundo, tentando se acalmar. — Sabe... eu tenho dó da garota que um dia vai se apaixonar por você. Se isso for possível.
⁃ E eu tenho dó do cara que um dia se apaixonar por você. Tenho dó até do Nate, porque para te aguentar...
⁃ Argh! Seria melhor se eu tivesse vindo sozinha. — Ben a encarou e bufou.
⁃ Que bom que você acha. E eu eu concordo. Tchau. — se virou no corredor, ameaçando sair.
⁃ Não ouse fazer isso, Benício. Você prometeu que vai ajudar e você vai. Por bem ou por mal.
⁃ Só o fato de eu estar aqui e agora com você é "por mal".
⁃ Como eu não gosto de você...
⁃ Igualmente.
E depois desse escândalo, que atraiu vários olhares curiosos e indignados, diga-se de passagem, eles permaneceram em silêncio até o fim das compras, presos em seus próprios pensamentos
Majô não acreditava que por um tempo durante os seus cinco aninhos pôde ter uma quedinha pelo garoto, minúscula. Eles já não se gostavam, mas naquele tempo ela achou que ele só era boboca porque gostava dela. Até que ele cortou metade se sua trancinha com a tesoura sem pontas da escola. A partir daí sua mente e coração voltaram fechados para qualquer coisa positiva do garoto. Ele não prestava desde pequeno e por causa desse fatídico dia ela teve que cortar os cabelos até então compridos e esvoaçantes. Não sobrava nada além de puro desgosto.
Sua mente finalmente se voltou para Nate. Ele era uma pessoa maravilhosa e como um bônus era lindo. A fazia se sentir especial e era confortável estar ao seu lado. Ainda por cima, ele viria para o baile, sairia do seu país atual por ela. Sorriu e soube que era nele em quem devia focar. O resto... era resto.
Ben já pensava em todas as palavras que a garota tinha lhe dito. Realmente, não era a melhor pessoa do mundo, mas não era de todo mal. Queria se divertir, isso era proibido? Muita gente esperava muito dele e ele sabia que grandes coisas esperavam por ele no futuro, então, por enquanto, não queria ter responsabilidades e nem se preocupar. Suspirou baixo e olhou para Majô, que sorria boba. Devia estar pensando naquele tal de "Nate", com certeza.
Se lembrou de sua infância, mais ou menos cinco anos, quando percebeu que a garota tinha uma quedinha por ele. Por favor, ele nunca foi bobo. Quando descobriu, ele sentiu uma coisa que nunca soube o que era, mas não gostava. "Garotas são nojentas, eca!" Era o que o pequeno Ben pensava, então não queria que Marjorie gostasse dele. Por isso fez a coisa mais sensata que pensou: cortou sua trança. Ia crescer de novo, afinal. A partir daí a garota começou a ser mais cruel com ele que antes, e ele gostava disso. Retribuía na mesma moeda. E sempre foi assim.
Agora ela estava lá, sorrindo como uma pateta para o nada pensando num cara. "Você não é uma pessoa gostável. Muito menos apaixonável." Foi o que ela disse.
De repente ele sorriu, tendo uma ideia.
~*~
Tinha uma lanchonete na cidade que abria de segunda. Ela era decorada toda num estilo retrô e servia uns lanches ótimos. O preferido de Ben era o de cheddar com cebolas caramelizadas. Estava babando por um lanche daqueles.
Foi por isso que chamou seus amigos lá, no mesmo dia da papelaria, para comunicar a sua ideia brilhante. Unindo o útil ao agradável.
Um a um foi chegando, ocupando duas mesas de estilo bistrô na parte de fora do restaurante. A noite estava fria e Ben usava sua amada jaqueta de couro preta — amada não só por ele, já que ele via alguns olhares sendo lançados em sua direção — . Seus amigos, João, Lucas, Marcos, Pedro e Henrique, devidamente agasalhados também, pediram seus hambúrgueres — afinal, estavam numa lanchonete para quê — e olharam para Ben, que tinha os convidado dizendo que tinha tido o melhor plano.
⁃ Então... — Lucas disse. — Por que nos trouxe aqui, Ben? — perguntou e Ben se ajeitou na banqueta animado.
⁃ Eu tive a melhor das ideias.
⁃ Tá, isso você disse, mas qual foi essa "ideia brilhante"? — Pedro fez aspas com os dedos.
⁃ Majô vai se apaixonar por mim. — ele jogou no ar e todos ficaram em silêncio o encarando por um tempo.
⁃ Quer se explicar? — Henrique se pronunciou.
⁃ Na verdade eu vou fazer ela se apaixonar por mim. — ele disse e os garotos continuaram do mesmo jeito.
⁃ Quer tentar de novo? — Henrique quebrou o silêncio outra vez e Ben bufou revirando os olhos.
⁃ Como vocês sabem, hoje eu fui com ela a papelaria pra comprar as coisas para o baile de final de ano. Chegou uma hora que eu disse que ela estava mentindo quando disse pra vocês que nunca ficaria comigo e tal... Enfim. No meio da discussão ela disse que nunca se apaixonaria por mim. Encarei como um desafio.
⁃ Então por causa disso você decidiu que vai ser o "príncipe encantado" da garota só pra ela se apaixonar e depois dar um fora nela? — Marcos perguntou.
⁃ Colocando assim fica meio idiota... — ele coçou a cabeça.
⁃ Cara, desculpa, mas não "fica meio idiota", essa é a coisa mais idiota e sem noção que eu já ouvi. — João disse por todos.
⁃ É só pra ensinar ela a nunca dizer nunca.
⁃ Ben. É uma garota no meio de um monte que faria qualquer coisa para ficar com você. Supera. — Henrique, o sensato, disse.
⁃ Ela vai superar. Não pretendo que seja nada irreversível.
⁃ Parece um plano infalível do Cebolinha, cara. Que péssimo. — Pedro disse mordendo um pedaço do seu lanche. Em algum momento eles tinham chegado.
⁃ Nem eu tô achando isso legal, Ben. E olha que eu não posso ser considerado um puritano. — Marcos disse a verdade, nada menos que a verdade.
⁃ São os sentimentos de uma pessoa, cara. — Lucas disse.
⁃ Ah, qual é. Eu vou tentar, não é como se eu fosse conseguir. O coração daquela coisa é mais duro que pedra.
⁃ Você por um acaso não está tentando provar nada para si mesmo, né? — dessa vez foi João.
⁃ Óbvio que não. — Ben deu uma risada nasalada.
⁃ Ben. Por um acaso você não está... gostando dela, está? — Lucas perguntou com cautela.
⁃ Eu nunca sentiria uma coisa dessas. — disse com convicção e os garotos se entreolharam. Henrique suspirou e balançou a cabeça.
⁃ Bom, faz o que você quiser, cara. Mas depois não diga que não avisamos.
⁃ É, Ben. Se você está brincando com fogo, é melhor estar preparado para se queimar. — Lucas disse.
⁃ Ah, qual é. Vocês falam como isso fosse possível. — ele riu e não foi respondido, os garotos se entreolharam de novo, como numa conversa silenciosa.
Ele ia tentar ensinar a garota a nunca dizer nunca, mas respondeu com um "nunca" rápido demais quando foi questionado sobre seus sentimentos. O que isso significava?
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