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17 Refeitórios e Ciúmes
Notas iniciais
Dezessete
⁃ Então, eu acho que é bom a gente fazer um plantão do baile essa semana. — foi como Marjorie quebrou o silêncio no carro naquela terça-feira. Manuel olhou de relance pelo retrovisor e Ben, que estava com o braço apoiado na janela, quase dormindo, apenas virou a cabeça para encará-la, com os olhos semicerrados.
⁃ O quê? — ele perguntou, sem entender.
⁃ Eu mandei mensagem para o pessoal dizendo que quanto mais pessoas puderem ficar todos os dias dessa semana, melhor. Assim, eu acho que dá para acabar tudo até quarta ou quinta. Aí é só arrumar o resto. — Ben se endireitou um pouco mais no banco.
⁃ Por que não me mandou também?
⁃ Não tenho seu número, esqueceu? — Ben suspirou e levou sua mão no bolso de sua calça, tirando o celular de lá. Estendeu para Marjorie.
⁃ Tó, digita o seu aí. Te mando uma mensagem quando eu estiver acordado o suficiente. — Majô riu e balançou a cabeça, pegando o celular da mão do vizinho. Ficou surpresa quando viu que o aparelho não tinha senha e o plano de fundo era uma cidade à noite toda iluminada, só que preto e branco. Majô riu. Não podia ser mais ele. Entrou nos contatos e apertou para adicionar um novo, colocando seu número logo em seguida.
Observou os aplicativos do garoto por pouco tempo e viu que ele tinha mensagens. Ela se sentiu tentada a olhar o que seu vizinho tinha ali. Ela acreditava que dava para conhecer muito de uma pessoa pelo seu celular e Benício Moretto era realmente uma caixinha de surpresas. O que será que o garoto escondia? Balançou a cabeça quase que imperceptivelmente e devolveu o aparelho para Ben, que observou o número e sorriu.
Finalmente tinha o número de sua vizinha e estava feliz por isso. Quer dizer, só porque poderia significar mais um avanço do seu plano, lógico. Encarou o número novamente. Que nome colocaria no contato de Marjorie? Que nome ela merecia? Sorriu mais. Ah, ela ficaria tão irritada. Digitou rapidamente "Bruxa Onilda" e salvou, guardando seu celular logo em seguida. Mais tarde mandaria uma mensagem, para não parecer muito desesperado. Encostou a cabeça de novo na janela e fechou o olho. Marjorie o olhou de relance.
~*~
As aulas passaram e agora estava quase todos ali reunidos na sala de artes, trabalhando arduamente na decoração ao som de ops, I did it again, da Britney Spears que Jack tinha colocado. Todos estavam cantando e rindo e o trabalho estava indo muito bem. Alicia já não olhava para Ben com desprezo e até que aprendera a aturar a presença do garoto. Ela e as gêmeas estavam fazendo as borboletas que ficariam penduradas no teto do ginásio com algumas luzinhas de led, iluminando o local. Jack e Lili ainda terminavam as árvores decorativas e Marjorie e Ben estavam fazendo as cortinas de serpentina brilhante e colorida, que daria um toque especial no salão. Estavam ali há uma hora.
⁃ Tô com fome. — Benício de repente falou e Majô revirou os olhos.
⁃ Novidade. Você só quer sair daqui.
⁃ Ô, coisa chata. Não como desde o almoço, dá um desconto. — disse e Majô finalmente o olhou, dando risada.
⁃ Eu sei, Benício. E também sei que você ama fazer parte dessa turma do baile, todo artístico.
⁃ Nos seus sonhos. — revirou os olhos e todos o olharam. — Sem ofensas. — todos deram de ombros. — Enfim, como eu sei que a Ditadora Marjorie não vai nos deixar fazer uma pausa, eu vou no refeitório e já volto. Querem que eu compre algo para vocês? — Majô o olhou boquiaberta, mas logo deu de ombros e tirou dez reais de sua bolsa.
⁃ Tanto faz. Compra um suco de laranja natural para mim. — Majô pediu e estendeu a nota para ele.
⁃ Olha, vocês viram que ela não negou. — ele disse e todos começaram a rir.
⁃ Vai logo, Benício.
⁃ Eu quero um pão de queijo. — disse Alicia.
⁃ Para nós um Fandangos. — Sarah pediu.
⁃ Dois Kit-kats pra mim e pra Lili. — dessa vez foi Jack.
⁃ Caramba. Tá bom. Já volto. — pegou o dinheiro e saiu em direção ao refeitório. Dona Sônia sorriu abertamente quando o viu. Era uma senhora de quase 70 anos que trabalhava lá desde que ele se lembrava e sempre gostou dele. Uma vez disse que queria que o garoto fosse seu neto, mas quase sempre batia em sua bunda quando o encontrava pelo corredor.
⁃ Boa tarde, Dona Sônia.
⁃ Boa tarde, garotão. Fiquei sabendo que você está vindo de carro com a Marjorie agora de manhã.
⁃ Pois é... — sorriu sem graça.
⁃ Quem diria, não? Vocês sempre brigavam, mas sempre achei vocês bonitinhos juntos. Se não pode ser eu, vai ela, não é mesmo? — Ben riu. — Ai se eu tivesse meus vinte anos... Você não me escapava. — disse sapeca e Ben começou a gargalhar. Gostava muito dessa senhorinha.
⁃ Sou todo seu, Dona Sônia. — disse brincando, mas deu um beijo em sua bochecha. A velhinha sorriu de felicidade e Ben pegou seu pedido, se despedindo logo em seguida e pegando o caminho de volta para a sala.
Faltava uns corredores para chegar quando ouviu seu nome ser chamado por uma reconhecida voz melosa. Olhou para trás e viu Evelin seguindo com passos rápidos em sua direção. Suspirou.
⁃ Oi, gatinho. — disse e deu um selinho rápido e inesperado no garoto.
⁃ Oi, Evelin. — cumprimentou tentando disfarçar a voz desinteressada.
⁃ Você sumiu essas últimas semanas... A última e praticamente a única vez que eu te vi foi terça da semana passada. — ah... Ben se lembrava. O dia que Marjorie e ele descobriram que praticamente faziam parte de um reality show barato. O dia do corredor, que se escondeu com ela no espaço apertado do corredor e pôde sentir o perfume suave e delicado de sua vizinha de perto. Aquele perfume combinava tanto com ela... Encontrou a Evelin por um acaso e precisava espairecer dos seus próprios pensamentos. Do jeito que as coisas andavam, parece que não deu muito certo.
⁃ Ah... é porque eu estava meio ocupado. Essa coisa do baile e tal... — deu uma desculpa qualquer.
⁃ Ah é, né? Foi você que mudou todo o tema de última hora, não? Eu sinceramente amei, soube que a tontinha da Marjorie até chorou. — disse com deboche e Ben precisou apertar o pacote do pão de queijo e do fandangos em sua mão para não xingar aquela garota. Como ela ousava falar assim de Marjorie? Se tem alguém que pode falar assim de sua vizinha e ainda por cima irritá-la era ele. Única e exclusivamente ele.
⁃ É, certo... Eu preciso ir agora. — se virou para sair, mas Evelin segurou seu braço, o que o fez derramar um pouco do suco de laranja de Marjorie.
⁃ Espera. — sorriu. — Não quer marcar de sair?
Enquanto isso, Majô acabava de terminar de mostrar para as meninas das borboletas como colar as luzinhas de led nas asas.
⁃ Cadê o Benício? Ele está demorando, não? — Alicia perguntou.
⁃ Se ele sumir não fui eu que sequestrei. — disse Jack e todas riram.
⁃ Minha mão está cheia de cola, eu vou ao banheiro lavar e aproveito para ver se Benício está folgando com a gente, porque se estiver ele vai ver.
⁃ E se estiver, Majô? Você vai fazer o quê? Encher ele de beijos? — Jack perguntou malicioso e todas da sala soltaram um som provocativo.
⁃ Só se eu estivesse ficando maluca... — a garota revirou os olhos teatralmente.
⁃ E está... Maluquinha de amor por ele. — Lili falou atrevida. E o som provocativo foi ouvido novamente.
⁃ Ata, como se isso fosse possível. — ela cruzou os braços, emburrada.
⁃ Ah, por favor, Majô. Está na cara que está rolando algo entre vocês. Mesmo que não queiram admitir. — Alicia falou.
⁃ É... antes vocês nem se falavam e agora até estão vindo no mesmo carro. — Sarah, uma das gêmeas se manifestou.
⁃ É porque é desnecessário usar dois carros se eles vão fazer exatamente o mesmo caminho. — Majô tentou explicar, completamente na defensiva.
⁃ Ah... e só se tornou desnecessário ontem, nos últimos anos não tinha problema algum. — Lara completou e o grupo riu mais ainda. A garota bufou irritada.
⁃ Ai credo, vocês são muito chatos. Quando foi que eu decidi virar amiga de vocês? — ela disse andando até a porta. — Estão precisando de óculos... De óculos não, de um transplante, mesmo. — disse e finalmente saiu da sala, fechando a porta atrás de si, sem antes deixar de ouvir:
⁃ Marjorie Moretto até que soa bem, querida. — Jack gritou e Majô não pôde evitar rir.
Começou a caminhar até o banheiro, que ficava longe da sala de artes. Os corredores estavam vazios, provavelmente só estava eles ali. Chegando na porta do local, bufou ao ver que estava interditado, então decidiu descer as escadas para ir no de baixo. Estava quase nos últimos degraus quando ouviu duas vozes, uma conhecida e outra nem tanto, e resolveu parar. Começou a caminhar devagarinho, torcendo para não ser ouvida, até que seu vizinho e a tal da Evelin entrarem em seu campo de visão.
Franziu o cenho, não gostando nada do que via. Evelin apoiada em Ben, passando o dedo com a unha comprida esmaltada de vermelho pelo seu peito e o garoto sorrindo de lado para ela. Não soube o motivo, mas aquilo a irritou profundamente.
⁃ Hum... Claro, Evelin. Eu te ligo. — Evelin sorriu e ficou na ponta dos pés, dando um longo selinho no garoto. Majô quis socar alguém. Alguém específico. Por que estava se sentindo desse jeito? Ah, claro. Porque em vez de ajudar, o idiota do Benício saiu para ficar com essa garota, fugindo completamente das responsabilidades dele. Sim, era claro que era só por isso.
⁃ Eu vou esperar. — disse a garota ao se desgrudar dos lábios de seu vizinho e começou a caminhar para o outro lado do corredor. Majô pôde ouvir Benício suspirar e passos, então saiu de seus pensamentos e correu escada acima. Pouco importava lavar a mão agora. Entrou na sala de artes afobada e todos olharam para ela com olhares de questionamento. Respirou fundo e se recompôs, voltando para sua mesa de trabalho. Ben abriu a porta um minuto depois, tentando equilibrar tudo em seus braços.
⁃ Alguém pode dar uma ajudinha? Eu quase derrubei tudo no corredor algumas vezes. — pediu e Lili se levantou correndo para ajudar.
⁃ Eu imagino o porquê. — Majô disse com um quê de irritação e revirou os olhos. Ben semicerrou os olhos para ela, sem entender.
⁃ O quê? — perguntou.
⁃ Nada.
⁃ Obrigada por comprar nossas coisas, Ben. — Sarah agradeceu e todos a acompanharam.
⁃ Não tem de quê. — pegou o suco de sua vizinha e levou até ela, que sono olhou de relance, pegou o suco de sua mão e voltou ao trabalho.
⁃ Cadê o troco? — perguntou sem desviar o olhar e levando o canudo a sua boca. Ben semicerrou mais os olhos, não entendendo nada do que estava acontecendo. Colocou a mão no bolso e estendeu o dinheiro para ela, que simplesmente pegou e colocou dentro de sua bolsa. O que ele tinha feito agora?
Sentou-se a sua frente e voltou ao trabalho, se perguntando o porquê as garotas eram tão complicadas. Não, o porquê de sua vizinha ser tão complicada. Deu de ombros, decidindo se concentrar em cortar o papel em sua frente.
Ainda estavam trabalhando quando Manuel, André e Rafael entraram afobados na sala.
⁃ Temos uma coisa para mostrar para vocês. — André disse e Manuel tirou o notebook da mochila, colocando em cima de uma mesa redonda da sala. Todos se aproximaram para ver. Depois de ligar, ele entrou num programa e mostrou os cartazes do baile, preparados cuidadosamente e com detalhes caprichados. Todos soltaram suspiros, impressionados.
⁃ Olha, esse é o banner que vai ficar pendurado nas paredes da sala. Vai ser o maior. — foi passando as fotos. — Esses são os cartazes das paredes, pensamos em fazer no papel A3. Esses são os para distribuir. E esses são os convites. Vai ficar muito bonita a impressão dessas partes douradas. — os desenhos eram como as formas geométricas do filme e dos cartazes feitos a mão de Ben.
⁃ Uau, são os mais bonitos que eu já vi. Parabéns, pessoal. — Majô elogiou.
⁃ Bom, tivemos uma ajuda do Ben. — Rafael disse e todos olharam para o garoto.
⁃ Ata. O maior trabalho foi de vocês.
⁃ O diretor disse que pode imprimir os panfletos para distribuir para as pessoas, mas que os maiores vai ter que ir na gráfica imprimir. E quanto mais cedo melhor. — Manuel explicou.
⁃ Tudo bem, eu posso ir agora, já estou quase terminando aqui. — Majô se ofereceu. Não aguentava mais ficar ao lado do dissimulado do seu vizinho.
⁃ Eu vou junto. — e o idiota falou e ela fechou a cara. Parecia que ele conseguia ler seus pensamentos e fazer tudo ao contrário do que queria só para irritá-la.
⁃ Não precisa, eu posso muito bem ir sozinha. — disse emburrada.
⁃ Eu sei que pode, mas eu quero ajudar. São cartazes bem grandes.
⁃ Você ainda não terminou de cortar suas serpentinas.
⁃ Eu corto, Majô. — Lara se ofereceu e Majô quis se enfiar num buraco. O que estava acontecendo, um complô? — Eu já terminei as coisas aqui e não dá tempo de começar mais nada hoje. Pode deixar comigo.
⁃ Sim, Marjorie. Pode deixar com a Lara. Ela é bem mais caprichosa que eu. — Ben disse inocente e Majô levantou uma sobrancelha. Sério mesmo, Benício?
⁃ Tudo bem. — bufou. — Vamos logo, daqui a pouco vai fechar.
Passaram até a diretoria para pegar o dinheiro e logo estavam no caminho para a papelaria. Majô andava rapidamente e alguns passos à frente do garoto, nada disposta a trocar palavras com o babaca, enquanto ele andava atrás sem entender nada. Passaram todo o caminho em silêncio. Finalmente chegaram e apenas trocaram algumas palavras se queriam papel brilhante ou normal e essas coisas totalmente necessária. Saíram da papelaria com vários cartazes em papel brilhante nas mãos e agendado para buscar os painéis dos corredores e os ingressos no dia seguinte.
Não aguentando mais aquele silêncio e aquela repentina mudança de humor de Marjorie, Ben andou rápido para alcançá-la e pegou na sua mão, a girando para ficar de frente para ele. Ela o encarou com os olhos arregalados por alguns segundos, até que ele finalmente soltou as mãos, tendo um lampejo rápido de constrangimento.
⁃ O que está acontecendo com você?
⁃ O que está acontecendo comigo? — arqueou as sobrancelhas. — Nada, nada está acontecendo comigo.
⁃ Então porquê está desse jeito comigo? Ficou estranha do nada.
⁃ Eu não sei... por que não vai perguntar para a Evelin? — disse com deboche e voltou a caminhar. Ben ficou parado no lugar alguns segundos, sem entender. Até que finalmente o raio da compreensão o atingiu e ele sorriu, correndo e segurando a mão de Marjorie mais uma vez.
⁃ Dá pra parar de fazer isso? — ela disse irritada e puxou sua mão.
⁃ Você me viu com a Evelin? Foi me procurar, Majô? — disse provocativo.
⁃ Não, eu fui lavar a mão e acidentalmente esbarrei com vocês dois se atracando em cima do meu suco. Só não deixei de beber porque é feio jogar no lixo. — Ben fez uma sequência de olhar para baixo, e passar a mão pelo cabelo com aquele sorrisinho idiota, o que fez Majô ficar ainda mais irritada.
⁃ Ciúmes, Majô? — provocou quando finalmente olhou para ela.
⁃ Ciúmes? Eu? — disse com a voz meio esganiçada. — Por favor, Benício. Só achei muita cara de pau você sair só pra se encontrar como uma garota. Fora que foi totalmente irresponsável. — Ben riu e se aproximou de Marjorie.
⁃ Não se preocupe, Ma. — disse e chegou perto do ouvido da garota. — Sou só seu. — sussurrou e Majô pode sentir o ar quente da respiração de seu vizinho em sua pele. Sentiu impulsos elétricos totalmente incoerentes e sem sentido percorrerem seu corpo e empurrou o garoto para longe, voltando novamente a caminhar.
⁃ Sai fora, Benício. Deixa de ser um babaca pervertido. — Ben riu mais e começou a andar.
Percorreram o não tão longo caminho até a escola sem falar mais nada, como quando vieram. A única diferença era bem perceptível.
Benício e Marjorie andaram lado a lado.
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