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32 Aulas e jogos
Notas iniciais
Trinta e dois
Evelin petrificou quando olhou para o lugar, sentindo suas bochechas perderem a cor.
O diretor a olhava sério e seu “convidado” estava de costas, sentado numa das cadeiras a sua frente.
Carlos se virou, não esboçando nenhum sorriso como a autoridade ali.
Só uma coisa passava pela cabeça da garota.
Será que ele havia contado?
~*~
Enquanto isso, no estacionamento da escola, Majô caminhava até o carro, onde Armando já a esperava para levá-la pra casa. Colocava o pé dentro do veículo quando gritaram seu nome.
⁃ Majô! Espera! — virou na direção da voz e viu Lucas correndo em sua direção. Sorriu para ele.
⁃ Ah, olá Lucas.
⁃ Oi. — respondeu ofegante. — Me desculpa vir falar com você só agora, mas eu tenho um convite pra te fazer.
⁃ Pode falar.
⁃ Camila já deve ter te contado, eu e ela estamos meio que namorando. — Majô arqueou uma sobrancelha para ele.
⁃ Ela disse sim.
⁃ Então, mas não é nada oficial ainda, a gente não contou para ninguém e eu... — passou a mão pelo cabelo. — Quero mudar isso, sabe? Camila é uma das melhores coisas que me aconteceu, sabe? Eu quero falar isso para o mundo, ela merece isso. — disse olhando para o chão envergonhado. Nesse momento, Majô quase explodiu em arco íris.
⁃ Lucas... isso é incrível! Eu fico extremamente feliz por vocês dois. — ele sorriu tímido.
⁃ Obrigado.
⁃ E o que você pretende fazer?
⁃ Na verdade é o que eu vou fazer. Vou pedir ela em namoro oficialmente hoje, no amistoso de futebol, não sei se você está sabendo. O futebol é uma parte importante da minha vida também, então achei que seria legal. — Majô não conseguia conter o sorriso, estava genuinamente feliz pelos dois.
⁃ Ai, a Camila vai amar, ela ama coisas extravagantes. Comprou flores? Chocolates? É a cara dela tudo isso. — Lucas riu da empolgação da amiga.
⁃ Comprei sim, e comprei dois daqueles negócios de atirar confetes e mandei dois dos caras soltarem quando ela aceitar.
⁃ Em formato de coração?
⁃ Com certeza. — Majô riu.
⁃ Eu te desejo toda sorte do mundo, vai dar certo!
⁃ Obrigado, mas não foi por isso que eu vim. É que eu quero que você esteja lá no momento. — o grande sorriso de Majô foi lentamente se desfazendo. Ela sabia exatamente o que isso significava. — É que você é a melhor amiga suprema da Camila, ela sempre fala de você e do quanto você é importante na vida dela e, querendo ou não... — passou a mão pelo cabelo, nervoso. — ...essa coisa entre nós só aconteceu por causa de você. De você e... — ele parecia realmente nervoso. — ...do Ben. — Majô assentiu, sem dizer nada. — Olha... eu sei que as coisas estão meio... complicadas, mas... por favor, vá. Por nós. — a menina respirou fundo.
⁃ Tudo bem, eu vou. Não poderia perder, não é?
⁃ Mas eu não quero que você pense que eu to querendo passar por cima de tudo isso com o Ben e tal... — Majô o encarou indignada.
⁃ Mas é claro que não, Lucas! Eu nunca pensaria algo assim. — o garoto sorriu.
⁃ Então, vamos?
⁃ Por favor. — Majô explicou a situação para Armando, que compreendeu perfeitamente. Os dois alunos, então, caminharam até o ginásio, mas Lucas desviou o caminho para o vestiário, deixando Majô entrar sozinha e para não levantar suspeitas dos dois entrando juntos.
~*~
⁃ Sente-se, por favor, Evelin. — o diretor apontou para a cadeira acolchoada a sua frente, do lado de Carlos.
Nesse momento, Evelin travou uma luta consigo mesma. Ela chegava “confessando”, mas tentando contornar a situação ou esperava o diretor falar o que tinha que falar e se fazer de desentendida? Se dirigiu até a cadeira, sentando-se lentamente, como se ela fosse feita de pregos. Decidiu pela segunda opção, já que tecnicamente ela não sabia por que estava ali.
⁃ Algum problema, diretor? — fez sua melhor voz de inocente. Pode sentir o olhar de Carlos sobre si.
⁃ Evelin, eu sinceramente não sei o que aconteceu com você. — seu coração começou a bater mais rápido.
⁃ Como assim? — tentou não gaguejar. O diretor pegou o envelope pardo em cima de sua mesa e tirou um papel de dentro, estendendo até Evelin. Era uma cópia de seu suposto boletim do último semestre.
⁃ Você foi muito mal nesses últimos bimestres, principalmente nas provas finais. — estranhamente, Evelin relaxou, soltou o aperto que fazia nos braços da cadeira e que deixavam os nós de seus dedos brancos. — Temo que sequer suas notas nos primeiros poderão salvar. — a menina arregalou os olhos.
⁃ Então quer dizer que eu... que eu vou repetir de ano? — não conseguiu não transparecer o desespero em sua voz.
⁃ Não imediatamente. Carlos... — apontou para o menino ao seu lado. — ...se ofereceu para te dar aulas particulares durante as férias, ele é o do melhor aluno de sua turma. Você terá aulas com ele todos os dias da semana até dia vinte de dezembro, no qual você passará o dia todo fazendo uma prova de recuperação final. — a garota arregalou os olhos.
⁃ O que? Eu não quero que esse aí me dê aulas!
⁃ Infelizmente, Evelin, ou é ele ou você repete de ano. — a garota intercalou o olhar entre Carlos e a autoridade ali. — O que vai ser? — bufou e se esparramou na cadeira. — Foi o que eu pensei. Vocês podem ter sua primeira aula agora.
⁃ Na verdade, eu queria ver o amistoso. — o diretor sorriu falsamente.
⁃ Tenha a aula e talvez você chegue no final. Sala 12. — Evelin bufou e saiu a passos pesados e apressados da sala, sendo seguida por Carlos.
⁃ Você ficou com medo, não ficou? — a garota olhou de relance para trás com desprezo.
⁃ Não sei do que você está falando.
⁃ Ah é? Esqueceu do mesmo jeito que você se “esqueceu” do nome de alguém que estudou na mesma sala que você praticamente a vida toda? — Evelin parou bruscamente e se virou para ele.
⁃ Escuta aqui, moleque. Eu não pedi sua ajuda. Você não percebe que eu quero distância de você?
⁃ Você deveria é estar me agradecendo. Ninguém se ofereceu para te dar aulas a não ser eu, Evelin. Você repetiria de ano se não fosse por mim. Deveria ficar feliz por alguém pensar em você quando você não faz isso por si própria.
⁃ Eu não te dei liberdade pra você falar assim comigo. Tenha limites. — Carlos riu em deboche.
⁃ Você é a última pessoa que pode falar de liberdades e limites. — Evelin arregalou os olhos ofendida, mas logo se virou e continuou o caminho até a sala.
~*~
Assim que Majô viu o ginásio, começou a se sentir estranha, quase como se tivesse passando mal. Começou a ter lembranças do dia do baile e de tudo que tinha acontecido e sentido. Olhou no relógio do celular, constatando que ainda faltava uns bons minutos antes do treino começar. Lucas tinha dito que pediria Camila quando ele acabasse. Suspirou longamente, resolvendo dar uma volta por fora do ginásio, tentando afastar esses pensamentos, não estava ali para isso. Precisava ficar de cabeça erguida, aquele momento era único e exclusivo de Camila, ela deveria estar lá por sua amiga não importa o que acontecesse, ou do que ela lembrasse.
Ela caminhava pelo gramado não tão rasteiro quando viu algo dourado brilhando no chão, um pouco longe de onde ela estava. Franziu o cenho e se aproximou e abaixou, analisando o objeto. Como aquilo tinha ido parar ali? Pegou a delicada correntinha entre os dedos finos, passando a mão nela para tirar a terra. Levou próximo aos olhos, observando o pingente. Os pequenos pontos de strass nas pétalas douradas reluziam com a luz do sol. Não sabia o que a fazia pensar nisso, mas era um dos colares mais bonitos que já tinha visto. Não conseguia imaginar o quanto o dono estava sentindo falta dele.
Olhou para seu celular, constatando que faltava poucos minutos para o amistoso começar, não ia dar tempo de levar até os achados e perdidos. Ainda por cima, não tinha bolsos em seu vestido e não havia trazido sua bolsa.
Majô abriu o fecho da correntinha, colocando em seu pescoço logo em seguida. Acabando o jogo ela levaria para a secretaria.
Caminhou até o ginásio, constatando que naquele dia ele estava muito, muito cheio. Não era um jogo oficial, mas as pessoas levavam quase tão a sério quanto. Com toda aquela agitação e problemas do baile, nem lembrava que isso ia acontecer. A escola que ia jogar era uma das grandes rivais da Águas Claras, então até um amistoso era importante. A reputação da escola que estava em jogo.
Colocou a mão em sua testa para tapar o sol e tentar localizar suas amigas. Seus olhos míopes quase não permitiram ver elas quase na fileira do meio do outro lado do ginásio. Com muito custo, chegou até elas. Ao vê-la, Camila soltou um gritinho animado.
⁃ Majô! O que você está fazendo aqui?
⁃ Ah, final de ano, achei que seria bom fazer algo que eu nunca tinha feito antes. — inventou qualquer desculpa. — Essa semana está sendo de novidades. — Camila assentiu.
⁃ Ai, você vai ver o Lucas jogando, ele é incrível. — Majô riu da cara de apaixonada que sua amiga fez.
⁃ É, eu imagino.
Pelo microfone, foi anunciado primeiro os jogadores visitantes. O grupo não prestou muita atenção nisso, mas mesmo assim parou de falar quando os uniformes amarelos apareceram no campo. Quando o time da casa foi anunciado, todos fizeram um verdadeiro alvoroço, gritando, assoviando e batendo palmas. Assim que Lucas apareceu, Camila gritou seu nome. Como se tivesse ouvido, o garoto se voltou para ela, mandando um beijo no ar e fazendo um coração com os dedos, apontando para ela logo em seguida. Isso foi o suficiente para que ela derretesse na arquibancada, falando o quanto ele é incrível e o quanto ela o amava. Porém Majô não estava prestando atenção. Benício olhava para aquela direção, acompanhando com os olhos os gestos de seu amigo. Por um milésimo de segundo ela imaginou que seus olhos tinham se encontrado, mas ele desviou, passando a mão pelo cabelo.
Os corações não puderam evitar baterem mais rápido. Já as mentes não puderam evitar tentarem controlar esses impulsos. Era a primeira vez em todos esses anos que Marjorie aparecia para um jogo. Depois do susto inicial, Benício se perguntou do motivo dela estar ali. Seu olhar mudou quando ele percebeu que ela provavelmente estava ali para desconcentrá-lo, já que desde o baile ela estava provando ser esse tipo de pessoa. Naquele momento, ele a odiou mais ainda. Cerrou os punhos e se aproximou da roda que seu time formara.
Discutiram a formação e quem jogaria no primeiro quarto de jogo, colocando as mãos no centro e fazendo o grito de guerra típico dos Eagles. Os dois times, então, se juntaram no meio do campo para o cara ou coroa. O da casa venceu, optando por dar o kick—off. Se colocaram em posição e se iniciou o jogo. Não foi difícil para os Eagles tomarem vantagem em relação aos Lobos durante o jogo.
Nos últimos segundos, Ben arremessou a bola para Lucas, que segurou habilmente e correu as últimas jardas, desviando de alguns adversários, até chegar na endzone e fazer o último touchdown do jogo, fazendo a torcida explodir em palmas, gritos e assobios pelo time da casa ter ganhado. Os ganhadores levantaram Lucas e Benício do chão, jogando-os para o alto numa famosa comemoração. No meio disso, o primeiro lançou um olhar rápido e cúmplice para Majô, que acenou levemente com a cabeça, o encorajando, enquanto Camila gritava e pulava de felicidade. Ela mal podia esperar, Majô pensou.
Lucas se soltou de seus amigos e começou a correr até a cabine em que se narrava o jogo para chamar sua, até então, não-namorada. Estava no meio do caminho quando ouviu seu amigo gritar. Virou-se para o campo e viu Benício parado no meio dele, olhando para uma direção específica e gesticulando com movimentos amplos para a pessoa se aproximar. Olhou naquela direção e viu uma Evelin confusa, sem saber o que fazer.
Ela olhou para os lados e depois apontou para si mesma, os lábios se movimentando formando a pergunta se era ela mesma. Benício gritou que sim e gesticulou novamente. Evelin abriu um sorriso que chegava a ser assustador de tão grande e correu até o portão que dividia a arquibancada e o campo, desviando e esbarrando em várias pessoas no processo. Quando finalmente entrou, ainda relutou, procurando em Ben algum vestígio de dúvida ou de brincadeira. Quando não encontrou nenhum, correu mais ainda até pular nos braços do garoto por quem estava apaixonada há um ano, beijando-o e se sentindo feliz como há muito tempo não sentia. Tudo tinha valido a pena, afinal.
⁃ Que acontecimento mais célebre para o último jogo do ano! — a voz do narrador ecoou pelos auto-falantes. — Nosso quarterback finalmente decide mostrar para todos quem é que ocupa esse coração cobiçado. — imediatamente a multidão bateu palmas, gritou e assobiou mais ainda enquanto os dois faziam questão de aprofundar o beijo.
Marjorie encarou toda aquela cena sem realmente acreditar que ela estava acontecendo, sem acreditar no quanto seu vizinho era um filho da mãe ridículo. Procurou Lucas pelo campo e, quando finalmente o encontrou ele já o encarava com uma expressão que beirava a tristeza. Ele balançou a cabeça em negativo lentamente para ela, que na hora entendeu a mensagem.
⁃ Ah, Lucas... — olhou para Camila, que encarava a cena no meio do campo de olhos arregalados, como todo mundo ali. Olhou para o garoto, que já seguia para o vestiário de cabeça baixa. — Eu sinto muito...
Ela, como todo mundo ali, sabia o que aquela cena ridícula significava, como também sabia que não daria para fazer nada de especial depois dela. Nunca, em todos os anos que jogavam, Benício havia aparecido com alguém, mesmo quando teoricamente estava ficando sério com alguma garota. Ele era famoso por isso, e todos aguardavam o dia que ele finalmente faria aquilo que ele estava fazendo no momento com Evelin. Ele, mais uma vez, havia roubado toda a cena. Não seria um momento especial para Lucas e Camila depois disso.
A cada segundo mais, Majô sentia sua raiva crescer dentro do peito, chegando quase a ser física. Era óbvio que não era por Evelin que Benício se apaixonara, ele só queria chamar a atenção. Mas tudo tem limites. Ele atrapalhou o momento de seu melhor amigo por causa de um orgulho idiota. Isso não tinha perdão. Num impulso, ela correu por entre todas aquelas pessoas descendo até entrar no campo e seguir para o corredor dos vestiários, por onde Benício já havia sumido, já sem Evelin em seu encalço. Sentia suas unhas compridas machucarem a palma de sua mão, mas pouco se importava.
Quando terminou de descer as escadas, viu as costas de seu vizinho no meio do corredor, andando tranquilamente. Majô respirou fundo antes de correr e, com toda a força que tinha, empurrar seu vizinho, que pela surpresa se desequilibrou.
⁃ Qual é o seu problema, Benício? — gritou. Após se recuperar, ele virou a encarando num misto de confusão e indignação. — Você não tem respeito nenhum? Nem pelo seu melhor amigo?
⁃ Do que você tá falando? — Majô o encarou indignada por alguns segundos, depois riu de escárnio.
⁃ Você nem presta mais atenção neles, nem se importa mais. — suspirou antes de continuar. — Lucas ia pedir a Camila em namoro na frente de todo mundo hoje. — Benício arregalou minimamente os olhos. Coçou a cabeça e olhou para baixo, tentando disfarçar.
⁃ Eu... eu não sabia. — Majô riu sarcástica novamente.
⁃ É claro que não sabia, você só se preocupa com você mesmo. Você sempre quer parecer ficar por cima de tudo. — Benício a encarou.
⁃ Escuta aqui...
⁃ Escuta aqui o que? — ela o interrompeu. — Você gosta da Evelin, Benício? Depois de tudo? Você quer que eu realmente acredite naquela cena patética lá no meio do campo?
⁃ Não preciso que você acredite ou não...
⁃ Você quer que eu realmente acredite que não foi uma tentativa de me atingir? — se aproximou um passo dele, que parecia não saber muito o que fazer.
⁃ O mundo não gira em torno de você, Marjorie.
⁃ Você está iludindo ela. Você está usando a Evelin. — seu tom de voz aumentou.
⁃ Chega! — ele praticamente gritou.
⁃ Eu to errada? — ela gritou, sobressaindo a voz dele. Eles estavam muito perto. — Me diz se eu to errada, Benício.
Ben encarou os olhos arregalados de sua vizinha, só tomando consciência de sua proximidade naquele momento. Ele não sabia o que falar, não queria dar o braço a torcer, mas também existia alguma coisa que impedia ele de mentir. De repente, algo lhe chamou a atenção. Desviou o olhar para o pescoço da menina, vendo o colar que escolhera para ela reluzir ali.
Imediatamente, sentiu um turbilhão de sensações atingirem, como se tivesse levado um soco no estômago. De algum jeito, aquele colar conseguiu chegar aonde deveria desde o princípio, e sua vizinha ficava ainda mais linda com ele. Por algum motivo, ela usá-lo parecia simplesmente certo, mesmo depois de tudo.
Por esse motivo, Benício sentiu a raiva começar a crescer dentro de si. Por isso e pelo fato de, mesmo depois de tudo o que ela tinha feito, ele querer mais ainda percorrer aquele colar com os dedos, beijá-lo, sentindo a pele quente de sua vizinha junto em seus lábios.
⁃ O que é isso? — disse olhando na direção do colar. Com custo, ele conseguiu fazer sua voz sair. Majô arregalou os olhos e levou uma mão a correntinha.
⁃ Eu... eu achei. — disse com estranhamento. O que aquilo tinha a ver, afinal?
⁃ Ele não é seu. — Benício disse, muito sério.
⁃ Eu sei, eu coloquei para não perder.
⁃ Porque você está se preocupando em não perder algo que não é seu? — Benício disse irritado, Majô a encarou indignada.
⁃ Eu coloquei para levar nos achados e...
Então ela entendeu. O nervosismo dele quando viu o colar, o pingente em formato de rosa, aquele dia que teve que cuidar de Benício bêbado, a história que ele lhe contou. Ele disse que ele, criança, não conseguia parar de olhá-la. Ela deu um passo para trás, longe do garoto de cabelos bagunçados a sua frente, sentindo seu coração acelerar como nunca antes, chegando quase a doer, sentiu seus olhos começarem a esquentar.
⁃ Ben... — falou com um fio de voz. — Você... você ia me dar esse colar no baile? — ele a olhou, vendo os olhos de sua vizinha vermelhos. Ele se odiou ao sentir seus próprios esquentarem.
Cerrou os punhos, numa tentativa de se controlar. Como ele a odiava, como ele odiava sentir o que sentia por ela e por causa dela. Se aproximou, vendo Marjorie endireitar a postura. Ela petrificou quando ele levou a mão até a corrente, tomando cuidado para não encostar em sua pele.
⁃ Por que eu faria isso? — ele finalmente falou depois de longos segundos. — De mim, Marjorie, você só tem desprezo. — enroscou a mão na correntinha e puxou, arrebentando-a num movimento rápido.
Majô o encarou de olhos arregalados, sentindo as lágrimas virem com mais força ainda. Não aguentando mais ficar ali, deu meia volta e correu para fora do corredor, deixando Benício para trás. O garoto demorou alguns segundos antes de virar para continuar seu caminho até o vestiário, encontrando Lucas, Marcos e Pedro olhando para ele. Lucas ri quando Benício para por eles.
⁃ Você é um bosta, Benício, de todas as formas.
⁃ Me desculpa por atrapalhar seu pedido de namoro, Lucas, eu não sabia o que você ia fazer. — Lucas ri sarcástico.
⁃ Ultimamente você não sabe de mais nada, parece que está tão ocupado, não? — Benício seguiu pelos corredores do vestiário, em direção ao seu armário.
⁃ Olha, eu...
⁃ Mas não é só por isso. Eu esperava qualquer coisa de você, Ben. Esperava até que você fizesse aquele plano ridículo da Marjorie se apaixonar por você só porque você já tava apaixonadinho por ela, mas eu não esperava você usando uma pessoa daquele jeito, não esperava você fazendo aquilo no corredor com a Marjorie. Não esperava que você fosse ser tão baixo assim. — Benício riu.
⁃ Acho que você não me conhece bem então, Lucas.
⁃ É, eu acho que não. Deve ser por essa sua personalidade de merda que a Majô não quis saber de você.
No meio do vestiário, no meio do time todo, Benício virou um soco em Lucas.
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