Compartilhados
14 As branquelas e apostas de paintball
Notas iniciais
Quatorze
Já era quinta feira, o dia que Majô, Ben e Jack trabalhariam juntos nos preparativos do baile. Surpreendentemente, Benício estava aparecendo todos os dias, como combinado. Todos ficavam boquiabertos quando ele dava alguma ideia boa — o que não era raro, diga-se de passagem -, já que nunca imaginavam algo assim vindo do garoto.
As últimas aulas do dia já tinham acabado. Ben e Majô andavam pelos corredores depois de terem tirado as algemas com Antonio na portaria da escola. Estavam indo em direção à sala de artes, onde ocorria os preparativos, quando viram um Jack correndo afobado chamando por eles.
⁃ Ben, Majô! Parem! — os dois se viraram para o garoto e este parou ofegante, apoiando as mãos nos joelhos.
⁃ O que foi, Jack? Aconteceu alguma coisa? — Majô disse preocupada. Jack recuperou o fôlego antes de olhar para a garota com uma súplica de desculpas.
⁃ Na verdade, sim. — ele finalmente falou constrangido.
⁃ O que aconteceu? — dessa vez foi Ben.
⁃ Eu não vou poder ficar hoje, eu sinto muito.
⁃ O quê? — os dois disseram em uníssono, surpresos.
⁃ Eu tinha esquecido que eu marquei de fazer um trabalho. Vale dois terços da nota, eu não posso faltar. — explicou e Majô suspirou.
⁃ Ok, Jack...
⁃ Tá tudo bem?
⁃ Tudo bem não está, mas né... — Ben revirou os olhos.
⁃ Eu sei, me desculpa. Eu fico mais dias na semana que vem, ok? — os dois assentiram e o garoto tirou uma chave do bolso e os entregou.
⁃ Aqui. A chave da sala de artes.
⁃ Valeu. — Ben disse.
⁃ Bom trabalho, Jack. — Majô desejou.
⁃ Para vocês também. Tentem não se matar.
⁃ Vai ser difícil. — ela disse e Jack riu. Ben revirou os olhos.
⁃ Vou indo, tchau.
⁃ Tchau. — os dois disseram juntos e se entreolharam.
Ficariam sozinhos. Numa sala cheia de tintas, pincéis, trabalhos de artes e coisas para fazer. Por umas boas horas.
Para Ben, uma oportunidade.
Para Majô, um martírio.
Enquanto se encaravam tentavam descobrir o que aconteceria naquele tempo. Poderia ser bom, produtivo para o baile; poderia ser produtivo para Ben; poderia ser um saco pra Majô; poderia ser horrível para ambos; poderia acarretar a terceira guerra mundial no final... enfim... era um universo de possibilidades correndo entre aqueles olhares.
⁃ Vamos? — Ben decidiu quebrar o silêncio.
⁃ Hum... vamos. — ela deu de ombros e os dois voltaram a caminhar.
Tiveram que andar por consideráveis minutos sob um silêncio constrangedor, já que a sala ficava no último andar do prédio oposto ao que eles estavam e nenhum sabia realmente o que dizer. Afinal, eles não tinham intimidade. Quando finalmente chegaram, observaram a sala que não iam desde a oitava série.
Ela era bem grande. As mesas, em vez de serem individuais, eram circulares e grandes, podendo dar lugar para até seis pessoas fazerem suas artes. As paredes da sala eram cobertas com desenhos de alunos e a janela se estendia de um canto de uma parede a outro. No fundo da sala havia uma pia grande de metal para lavarem o que utilizavam e a porta que levava ao depósito de materiais. Suspiraram. Lara havia dito que tudo estaria lá. Majô bateu uma palma.
⁃ Então vamos?
⁃ Claro... — Ben disse cansado.
A garota abriu a porta do depósito e os dois entraram, vendo tudo o que já havia sido feito e o que fariam naquela tarde. Começaram a vasculhar por entre aquele lugar pequeno e lotado de penas, glitter, fitas e tudo para o grandioso baile.
⁃ Bom, eu posso fazer o molde das borboletas para aquelas bolas vazadas, sabe? Adiantaria muita coisa. — Ben riu.
⁃ Você está doida com essas borboletas, não? Só fala delas...
⁃ É que eu acho que fica tão bonito.
⁃ Sabe que você vai ter que fazer umas boas dezenas daquelas, né? — Majô tirou vários papéis laminados, lápis, balões e cola de algum lugar e olhou para o garoto.
⁃ Eu gosto de desafios. — piscou para Ben e saiu da sala. O garoto riu e a acompanhou. — E o que você vai fazer, garotão? Se eu não me engano, seus talentos artísticos não eram os melhores quando a gente estudava junto na terceira série. — o garoto pareceu pensativo.
⁃ Ah, os anos que Majô era o prodígio das artes na sala. Sorte que nos separamos no ano seguinte, não? — a garota riu.
⁃ Mas mesmo assim você não parou de me irritar.
⁃ Eu prometi a mim mesmo que eu te irritaria enquanto a gente convivesse até no máximo cem metros de distância um do outro. — Majô revirou os olhos.
⁃ Tá explicado. — um silêncio se instaurou entre eles por alguns segundos.
⁃ Eu posso fazer os cartazes. — Ben finalmente falou.
⁃ Os cartazes? Aqueles que vão ter várias formas geométricas em tinta dourada super detalhadas e trabalhosas? Acha que consegue, Moretto?
⁃ Eu gosto de desafios. — piscou para ela e entrou novamente no depósito. Majô riu pela repetição das palavras que dissera mais cedo. Logo em seguida Benício voltou com vários papéis-cartão pretos, potinhos de tinta dourada e pincéis de tamanhos diversos. Sentou a uma mesa de distância da garota e estendeu todos os materiais de um modo muito concentrado enquanto esta só observava segurando a risada. Percebendo o olhar de Majô, Ben se virou para ela. — Ao trabalho, Marjorie. Falta menos de um mês para o baile, não há tempo para ficar observando a minha beleza à toa. Você já tem as aulas de manhã pra isso. — a menina revirou os olhos.
⁃ Não seja tão convencido a ponto de se iludir, Benício. — ele riu e finalmente começaram o trabalho, cada um muito concentrado nas respectivas tarefas.
Ben algumas vezes perguntava sobre as frases e se Majô achava que ele devia fazer um esboço em lápis primeiro e esta perguntava sobre o tamanho das borboletas, se as asas estavam iguais entre outras poucas coisas. O resto do trabalho eles ficavam num silêncio um tanto quando cansativo, que particularmente estava deixando Ben irritado. Majô estava passando o molde inicial das borboletas para o papel laminado quando Ben parou o que estava fazendo e pegou seu celular para colocar uma música qualquer a fim de quebrar aquele silêncio insuportável. Bufou e soltou o aparelho de qualquer jeito na mesa quando viu que a tela não ligava.
⁃ Me empresta seu celular? — perguntou se voltando para Majô.
⁃ Pra quê? — ela disse sem desviar o olhar de seu trabalho.
⁃ Pra eu colocar uma música. Esse silêncio está horrível.
⁃ Por que não usa o seu? — perguntou ela indiferente. Ben bufou sem muita paciência.
⁃ Se ele estivesse com bateria eu usaria. — a garota suspirou e revirou os olhos, pegando o celular da mesa e entregando para Ben depois de colocar a senha.
⁃ Não faça nenhuma gracinha.
O garoto pegou o celular e o observou. Não tinha muitos aplicativos e o plano de fundo era um azul bem claro com desenhos de nuvens brancas. Revirou os olhos e abriu o aplicativo de músicas, rolando o dedo pelos títulos, parando em um em especial.
⁃ Eu não acredito que você tem essa música. — o garoto riu e começou a mexer em sua mochila.
⁃ Qual? — a garota finalmente olhou para ele. Ben tirou uma pequena caixa de som de sua bolsa e conectou ao celular por um cabo USB enquanto a garota se perguntava quem trazia uma caixinha de som para a escola. Ele tocou na tela do celular e logo a melodia de "A Thousand Miles" entrou em seus ouvidos. Majô riu.
⁃ Minha mãe assistia muito esse filme, acabei gostando. — deu de ombros.
⁃ "As branquelas" é um clássico. — disse Ben e aumentou o volume, começando a cantar junto de um jeito dramático.
⁃ Ben, não aumenta muito, não.
⁃ Relaxa, não tem aula nesse andar.
⁃ Mesmo assim, que exagero. — o garoto revirou os olhos, aumentou mais o volume e de seu lugar, indo em direção à mesa de Majô. Afastou os materiais enquanto a garota protestava e subiu na mesa.
⁃ "Starting blankly ahead, Just making my way, making my way..." — Ben começou a cantar muito alto e dramático, usando o pincel sujo de dourado como microfone.
⁃ Ben! Sai de cima da mesa, você vai estragar tudo! — a garota gritou porque estava irritada e para que sua voz sobressaísse a música, enquanto o garoto "cantava" o resto da letra. Ao ouvir, parou e abaixou apoiando os braços em uma perna, olhando para a garota de cima.
⁃ "And I need you..." — chegou mais perto dela. — "And I miss you..."
⁃ Chega! Desce daí! — Inesperada e rapidamente, Ben virou o pincel sujo e passou no pescoço dela, que soltou um pequeno gritinho.
⁃ Você é muito chata. — disse e voltou a sua grande performance em cima da mesa. Majô, ainda mais irritada, saiu rapidamente de sua mesa e pausou a música, ganhando um resmungo de protesto de Ben.
⁃ Eu disse para você parar! Você nem sabe se eu tenho alergia a essa tinta, Benício. — Ben revirou os olhos e sentou na mesa, apoiando os braços nas pernas.
⁃ A tinta é atóxica, sua fresca.
⁃ Isso não importa... você que...
⁃ Você que não sabe se divertir. — Ben a interrompeu.
⁃ O que?
⁃ Você não sabe se divertir. Desde que eu coloquei essa música você só 'tá reclamando. Eu hein... idosos de 106 anos são menos rabugentos e tem mais energia que você. — Majô abriu a boca, ofendida.
⁃ Eu sei me divertir! — disse com uma voz esganiçada.
⁃ Sei... — Ben revirou os olhos novamente.
⁃ Quer ver?
⁃ Eu pago pra ver, Majô. — disse seu nome com sarcasmo. A frase inteira soava como um desafio. Depois de se recuperar de sua irritação, a garota pegou a caixinha de som e subiu na mesa em que Ben estava, enquanto este descia e a acompanhava com os olhos. Majô apertou o play.
⁃ "If I could fall into the sky..." — começou a cantar alto e com tanto drama como Ben, senão mais. Começou a se soltar e se movimentar em cima da mesa e o garoto riu. Ele não demorou a subir e ocupar o pequeno espaço da mesa junto a garota e os dois começaram a gritar a música, rindo quando Ben fazia a segunda voz, se fosse possível.
⁃ "If I could just see you tonight" — terminaram e caíram na gargalhada como dois idiotas. Demoraram algum tempo para se recuperarem e, quando o fizeram, viram que estavam perto, muito perto.
⁃ Viu? Eu sei me divertir. — disse Majô encarando Ben e este ficou pensativo.
⁃ Não sei, eu ainda não estou convencido. Qualquer um pode fazer isso que você fez. — a garota arqueou as sobrancelhas, sem acreditar.
⁃ Bom, se você me ajudar a arrumar tudo aqui bem rápido, eu ligo para Manuel e ele nos leva num lugar onde posso te provar o meu ponto. — dessa vez foi Ben quem arqueou as sobrancelhas.
⁃ O que? Você quer sair da escola? Wow, no meio do trabalho? Não é um pouco demais, não? Não gosto de você, mas também não quero que você entre em colapso nervoso. — Majô o encarou boquiaberta, antes de pegar o pincel na mão de Ben e passar em sua bochecha, arrancando um protesto do garoto. Desceu rápido da mesa antes que Ben pudesse fazer alguma coisa e se dirigiu a deste para organizar e olhar o que ele tinha feito. Ficou surpresa ao ver o trabalho.
⁃ Nossa, isso até que não está ruim, Benício. Linhas retas, bem pintadas... está...
⁃ Ótimo? — ele completou. Ela balançou a cabeça.
⁃ Surpreendentemente sim. Ótimo. — disse ela analisando o trabalho. Ben riu.
⁃ Você duvida muito da minha capacidade, Marjorie.
Terminaram de arrumar tudo e trancaram no depósito. Majô ligou para Manuel perguntando se ele poderia levá-los "naquele lugar", recebendo uma resposta positiva do motorista. Fecharam a sala e caminharam até o prédio da saída da escola. Não demorou muito para Manuel estacionar o carro e os dois subirem, começando o caminho pelo lugar misterioso. Ben reconheceu o caminho afastado da cidade, já tinha o feito várias vezes, mas não acreditou quando o carro parou na frente do estabelecimento.
⁃ Paintball? Isso é sério? — disse ao descer do carro.
⁃ Qual é o problema? — Majô franziu o cenho.
⁃ Você joga paintball? — ele perguntou sem acreditar.
⁃ O quê? Só porque eu sou mulher? — cruzou os braços.
⁃ Não, né? Mulher deve fazer o que quiser, a questão é que você é você.
⁃ Não entendi.
⁃ Não? Deixa eu exemplificar pra você: — coçou a garganta antes de começar a sua grande atuação. — "Ai, esses sapatos não foram feitos pra limpar refeitórios", "Para, Benício, eu não consigo correr com esses sapatos", "Você nem sabe se eu tenho alergia a essa tinta"... você sabe que paintball é tinta, né?
⁃ É atóxica. — deu um sorrisinho sarcástico.
⁃ Você é pessoa mais fresca que eu conheço, Marjorie. Não dá para te imaginar jogando isso. — apontou para o estabelecimento.
⁃ Você quer apostar que eu ganho? — disse e Ben riu.
⁃ Apostar?
⁃ Sim, Benício. Ou está com medo de perder para a fresca aqui? — ele suspirou, rindo.
⁃ Se eu ganhar, você faz o relatório inteiro sozinha.
⁃ Se eu ganhar, você me paga um lanche e admite que eu sou melhor que você. — Ben deu de ombros e estendeu a mão.
⁃ Feito. — se soltaram e Majô entrou no estabelecimento sendo seguida pelo garoto.
⁃ Olá, Daniel. — ela disse para o homem atrás do balcão.
⁃ Oi, Majô. Fala aí, Ben. — ele disse para o garoto logo atrás e Majô olhou para ele.
⁃ Então você é conhecido aqui. — Benício deu de ombros.
⁃ Pelo jeito você também.
⁃ Bom, Daniel. Só estamos em dois... você e os garotos estariam dispostos a jogar com a gente? — Daniel riu.
⁃ Sempre, Majô. Quatro contra quatro está bom para você?
⁃ Claro. E queremos um jogo rápido, por favor. Ben vai ter que me pagar um lanche.
⁃ Isso é o que vamos ver. — Ben disse e Daniel riu.
⁃ Bom, vocês já sabem onde ficam os equipamentos, se preparem que eu vou chamar os caras. — Daniel entrou em algum lugar e os dois se olharam.
⁃ Ainda dá tempo de desistir, Majô. — o garoto disse.
⁃ A gente se vê no campo, Ben. — Majô disse seu nome com sarcasmo. Ben riu e foi se preparar.
~*~
O campo era amplo. Havia galões de gasolina vazios e pneus empilhados um sobre o outro em diversos pontos, além de ter três fardos grandes de feno em lugares estratégicos. Muitos pontos estavam manchados com a tinta fluorescente das bolas de paintball. O lugar era muito familiar para os dois vizinhos.
⁃ Bom... — Daniel começou. — Como estamos em pequeno número e os dois aqui querem um jogo rápido, vamos fazer três partidas, cada um com uma vida. Vocês querem dividir as equipes? — se voltou para Ben e Majô.
⁃ Julie, Marcelo e Careca na minha. — Ben logo disse.
⁃ Contanto que eu esteja na oposta da dele, para mim está ótimo. — Majô disse e Daniel riu.
⁃ Claro. Então Julie, Marcelo e Careca com Ben e Luis, Junior e eu com Majô. Estão de acordo?
⁃ Vamos logo. — Ben disse e se aproximou de Majô. — Pronta para fazer um relatório de química?
⁃ Ah, sim... — ela respondeu com sarcasmo. — E espero que você tenha trazido dinheiro suficiente para o hambúrguer. — Ben sorriu de lado e passou a mão no cabelo.
⁃ Boa sorte. — disse ao olhar para ela.
⁃ Boa sorte para você também, Ben. Você vai precisar. — piscou e saiu.
As equipes, então, se espalharam pelo campo, cada qual no seu lado. Uma sirene soou e o jogo começou. A disputa era acirrada. Todos eram muito bons. Ben eliminou Majô e Junior na primeira partida, mas sua equipe perdeu quando Daniel o eliminou logo em seguida. Na segunda partida, Luís atirou em Careca, Majô eliminou Julie e logo em seguida atirou em Ben, marcando uma vitória para sua equipe. Na terceira, Júnior eliminou Julie, que tinha atirado em Daniel, que havia eliminado Marcelo alguns minutos antes. Majô eliminou Careca, que já tinha atirado em Luís. Quando Ben finalmente atirou em Júnior, todos prenderam a respiração.
O garoto olhou para o banco em que estavam os que não participavam mais do jogo e só então constatou o que os outros já haviam percebido:
Estava apenas com Majô em campo.
Sorriu. Aquilo seria divertido. Era o terceiro e último jogo, aquele que desempataria o placar e finalmente mostraria quem ganhou aquela aposta entre os dois. Não sabia há quanto tempo estavam jogando, mas aquilo estava sendo mais desafiador para ele do que imaginava. A garota realmente era boa naquilo, seus movimentos pareciam bem treinados e se pegou imaginando quem a ensinara tudo aquilo ou se tinha aprendido sozinha, pela prática.
Ben não sabia da origem daquele talento de Marjorie, mas agora tinha a certeza que não podia mais subestimar a garota. Em qualquer aspecto.
⁃ Somos só eu e você, Marjorie. — gritou para Majô, onde quer que ela estivesse dentro daquele campo, e se moveu por entre duas pilhas de galões de gasolina, olhando atento para todos os lados, sempre apontando sua arma. — Acho que não somos tão diferentes no final.
⁃ Ah, somos sim. — ouviu de algum lugar do campo que não conseguiu reconhecer e se moveu para detrás de uma pilha de pneus. — E sabe qual é a grande diferença?
⁃ Hum, acho que não, me informe, por favor. — moveu-se novamente para um fardo de feno.
⁃ A diferença é que você perde... — Ben sentiu uma pontada de dor um pouco abaixo de seu ombro esquerdo. Olhou para o local e viu a mancha de tinta rosa fluorescente escorrendo em seu colete. Olhou para frente e viu Majô sem o capacete de proteção, com os cabelos soltos balançando com o vento e arma apontada em sua direção. A mancha dourada ainda estava em seu pescoço. — ... e eu ganho.
Ao dizer isso, todos de sua equipe começaram a comemorar e correr em direção a ela, segurando e jogando-a para cima. Ben riu e balançou a cabeça em negativa. Realmente não podia subestimar a garota. Ele estava atento ao jogo, mas mesmo assim não a viu chegando.
Depois da folia para cima de Majô, Ben se aproximou e estendeu a mão.
⁃ Parabéns. Você foi muito bem. — a garota encarou a sua mão e o encarou de volta, sem apertar.
⁃ Não foi essa a aposta. — Ben revirou os olhos.
⁃ Parabéns, Marjorie. Você é melhor que eu.
⁃ Diz isso mais uma vez? — ela perguntou com voz inocente.
⁃ Se seu ego precisa disso, tudo bem. — fez uma pausa. — Você é melhor que eu! — Ben gritou. — Feliz?
⁃ Ah, meu ego está pulando de felicidade nesse momento. — os dois se encararam por alguns segundos antes de começar a rir. — Eu estou com fome, você não? — Majô perguntou depois de se acalmarem.
— Toda esse exercício me deu vontade de um hambúrguer grande e suculento.
⁃ Engraçada você. Onde quer ir, madame?
⁃ Tenho certeza que você conhece mais lugares que eu. Me surpreenda. — Ben riu.
⁃ Certo. — caminharam até os outros jogadores, que estavam juntos conversando.
⁃ Bom, muito obrigada pelo jogo, pessoal. — Majô começou. — Ben perdeu como o esperado. — todos riram, Ben só revirou os olhos.
⁃ Não foi fácil para você também, Marjorie.
⁃ Não importa porque agora você vai me levar para comer lanche. E é melhor que seja gostoso... — se voltou para os jogadores. — Obrigada de novo galera.
⁃ Imagina, Majô. Esperamos vocês de volta.
⁃ A gente vai voltar sim. — Ben se pronunciou e começou a se despedir de todos. Majô fez o mesmo.
Se trocaram, pegaram suas mochilas e saíram e começando a caminhar para longe do lugar. O sol já estava se pondo, o céu adquirindo tons de laranja e amarelo escuro.
⁃ Você se importa de caminhar? O lugar é aqui perto. — Ben perguntou.
⁃ Não... — Majô respondeu.
Continuaram caminhando por uns dez minutos até chegarem num restaurante familiar numa parte bem elevada da cidade. As paredes eram de madeira e pequenas lâmpadas iluminavam todo o lugar. Os dois entraram e Ben se dirigiu a parte dos fundos que revelou a vista de cima da cidade e do mar. Escolheram uma mesa no terraço, que permitia enxergar apenas os pequenos pontos de luz. Majô olhava boba para a paisagem.
⁃ Costumava vir aqui com meus pais. — Ben comentou e a garota olhou para ele. — Quer dizer, antes deles terem tanto compromisso e só ficarem viajando.
⁃ Sei como é. Os meus também. — Ben suspirou.
⁃ Enfim. O hambúrguer é ótimo. Aproveitei que a gente estava aqui perto. Esse lugar está bom para você? — apontou para uma mesa.
⁃ Sim, está ótimo. Essa vista é linda. — comentou olhando para as luzes e para o céu, que agora adquiria tons rosados e arroxeados e o sol sumia no horizonte. Ben olhou também.
⁃ É... — ficaram mais alguns segundos observando até pegarem o cardápio e começarem a olhar.
Depois de cinco minutos, o garçom veio e anotou o pedido dos dois, os hambúrgueres que Ben havia sugerido e duas latas de Coca-Cola. Saindo o moço, Majô mexeu em sua bolsa e tirou de lá uma pasta de sacos plásticos, uma prancheta e seu estojo, enquanto Ben só observava os movimentos da garota. Ela folheou sua pasta e tirou de lá um desenho em especial, colocando na prancheta. Abriu seu estojo, tirou de lá uma lapiseira rosa e uma borracha, começando a rabiscar a folha. Ben suspirou.
⁃ Ah, não. Você acabou de brigar comigo dizendo que sabia se divertir e quando a gente vem num lugar desses, com essa vista linda, tudo que você faz é ficar olhando para baixo desenhando? Tem coisas melhores para se ver aqui em cima, Marjorie. — Majô revirou os olhos, sem tirá-los do desenho.
⁃ Isso para mim é diversão. Além do mais, são os últimos retoques do meu novo vestido para o baile. — Ben deu um sorriso malicioso.
⁃ Ah é? Então deixa eu ver. — antes que Majô pudesse dizer ou fazer alguma coisa, o garoto puxou a prancheta de suas mãos.
⁃ NÃO! Benício, devolve! Ninguém viu esse vestido ainda, é surpresa. — ele a encarou, ainda com o desenho em mãos. Ela bufou. — Tá, se você quiser ver alguma coisa, veja esses aqui. — pegou a pasta e estendeu na direção de Ben, que pegou prontamente.
A pasta estava muito cheia de desenhos de todos os tipos de roupas. Folheando, Ben percebeu que predominava vestidos de noiva. Os detalhes eram bem trabalhados em todos, ela até fazia o jogo de luz e sombra neles. Os brilhos realmente pareciam brilhos e era tudo muito sofisticado. Era claro que Majô tinha um talento e tanto. Ben sorriu discretamente.
⁃ Nossa, isso aqui é muito bom, Marjorie. — finalmente olhou para ela. — De verdade. Você nasceu para isso. — Majô sorriu abertamente.
⁃ Obrigada, é muito bom ouvir isso. É o que eu quero fazer o resto da minha vida.
⁃ Continuando desse jeito, você vai ser uma estilista e tanto. — a garota riu.
⁃ Uma estilista de noivas, mais especificamente.
⁃ Isso. Uma estilista de noivas. — o garçom voltou trazendo suas bebidas.
⁃ Obrigada, Benício. — Majô voltou a falar. — Sei o quanto foi difícil para você admitir isso. — Ben riu.
⁃ Ah sim... está doendo até agora. — colocou a mão no peito e fingiu uma expressão de dor tão mal feita que fez a garota rir.
⁃ E você? — Majô disse depois de pararem de rir.
⁃ O que tem eu? — Ben perguntou desentendido e bebeu um gole de seu refrigerante.
⁃ O que quer fazer da vida? — explicou e apoiou os cotovelos na mesa, juntando as mãos e apoiando a cabeça nelas.
⁃ Meus pais querem que eu tome o comando da empresa.
⁃ Não foi isso que eu perguntei. — disse e o garoto franziu o cenho, sem entender. — Eu perguntei o que você quer fazer da vida. — Ben deu uma risada nervosa e suspirou passando as mãos no cabelo.
⁃ Eu não sei. — disse ao voltar seu olhar para ela. — Desde pequeno eles esperam isso de mim e eu só aceito. Nunca parei para pensar em outra coisa.
⁃ Nada? Ah, com certeza deve ter algo que você queira muito fazer.
⁃ Eu... eu sei lá. Eu realmente não sei. Sempre ouvi de todo mundo que eu ia ser especial e fazer grandes coisas, mas eu não sou nada disso. Não sou como o meu pai, que começou uma empresa do zero e a tornou milionária. Não tenho vontade nem talento para ser um médico e salvar vidas em outros países. Ou fazer qualquer outra coisa digna de orgulho.
⁃ Você não precisa salvar o mundo para ter algo com que se orgulhar, Ben. Você não precisa ter em mente todas as coisas ou toda a sua vida. Você não precisa saber. Talvez você simplesmente ainda não tenha achado algo que te cative. Isso não é um problema.
⁃ Eu não sei, Ma. Às vezes eu sinto que eu só sou... eu. — Ben se surpreendeu ao sentir a mão gelada da garota tocando sua pele por cima da mesa, criando um pequeno choque térmico com sua mão quente. Buscou os olhos da garota, que já estavam fixos nos seus.
⁃ E isso já é uma grande coisa. — sorriu e Majô soltou sua mão bruscamente quando o garçom surgiu do nada colocando os hambúrgueres na sua frente.
Começaram a comer silenciosamente, Ben olhando disfarçadamente para a garota de vez em quando. Tinha acabado de desabafar suas preocupações com a vizinha que odiava desde que se lembrava. Tinha acabado de destruir a barreira daquela imagem de um Ben que sabe tudo, pode tudo e não liga pra nada nem ninguém na frente da pessoa que menos esperava e menos queria. Havia dito coisas que nunca tinha externado para a garota que há um tempo queria ferrá-lo na aula de Geografia. E o pior: não se arrependia.
Poderia ser muito cedo ou muito tarde para Ben perceber, mas não estava sendo ninguém além dele mesmo com Marjorie.
Fale com o autor