Thatiane estava frustrada após descobrir que todo o estoque de caixinhas de suco em promoção havia acabado. Recebera a notificação em seu aplicativo mais eficiente sobre promoções de bebidas frutíferas e correra imediatamente para um dos milhares de mercadinhos de seu bairro gigantesco. Atravessou quilómetros de terras destruídas e repletas de pessoas perigosas – embora nenhuma fosse mais do que ela — para chegar à parte mais rica do bairro.

—Tá me tirando, minha filha? –Gritou. –Você não sabe o sofrimento que eu passei para chegar aqui. Corri mais rápido que um bicho, lutei com pessoas três vezes maiores do que eu, quase fui atropelada duas vezes, pulei por cima de um trem em movimento que estava no caminho e quase caí de um penhasco. Meu pé até fez uma bolha! Você tem ideia do trabalhão que vai levar para eu me livrar disso?

—Moça, acho que a senhora está um pouco exaltada. –Tranquilamente, uma mulher de boné vermelho e uniforme empilhava latas próximo à placa que indicava os sucos que estiveram em promoção cinco minutos atrás, antes que fossem completamente extintos por consumidores vorazes. Ela usava coletes a prova de balas e provavelmente era muito mais forte do que parecia, por estar tão tranquila.–E nós nem temos um penhasco aqui na região.

—Ah, então era apenas mais um buraco que a prefeitura não arrumou. –Deu de ombros. Notou que o mercado era repleto de seguranças armados com fuzis. Isso não era o bastante para impedi-la, afinal, o cliente sempre tem razão e ela não hesitaria em armar um barraco. –Mas voltando ao assunto: Eu acho inadmissível ter passado por tanto sufoco pra nada!

—Moça, eu não posso fazer nada.

—Olhe bem! –Interrompeu, colocando o celular tão próximo ao rosto da garota que quase se encostava a seu nariz. –A propaganda da promoção ainda está no aplicativo, como se tudo fosse mil maravilhas. Aí eu chego aqui e onde está a promoção? Nada de promoção! Sabia que eu posso processar vocês por propaganda enganosa? Tenho os meus contatos. E vai bastar um piscar de olhos para derrubar essa espelunca que você chama de mercado. Onde está o gerente? Hein? Onde está esse arrombado, eu quero falar com ele! Chame ele agora!

—Eu posso te garantir que não há nada para fazer quanto a isso...

—Ei! –Thati parou um pedestre aleatório que caminhava em frente ao mercado. Era uma senhora baixa carregando sua habitual sacola de compras e uma arma de fogo junto ás mesmas, como se fosse apenas mais um legume. Ela tinha uma faixa de granadas ao redor de seu tronco e usava óculos escuros. –Você sabia que esse mercado é enganador? Divulgam informações falsas e não cumprem a lei! Aposto que até os preços são falsos. E a carne do açougue deles, então? Estou começando a pensar que a origem é bem duvidosa, tome cuidado!

Assustada, a senhora olhou feio para a repositora e fugiu daquele local, sussurrando maldizeres e deixando a dupla novamente sozinha.

—Olha, moça, eu não acho que isso...

A discussão foi interrompida por um som breve e agudo. Thati, em silêncio, retirou o celular que havia guardado no bolso da calça e viu que acabara de receber uma notificação. Entre as curtidas e comentários em redes sociais lá estava a novidade mais chamativa: o mercado havia acabado de oferecer uma nova promoção.

—Por que não me disse que os mini pimentões estavam tão baratos?! –Gritou. –Parece que o serviço de vocês não é tão ruim, afinal.

—Eu não...

Ignorando qualquer coisa que a mulher pudesse ter dito (caso ele houvesse, de fato, dito algo), Thati retirou uma faixa de seu bolso e a amarrou na testa, pronta para uma corrida. Após amarrar os cadarços, encarar com fogo nos olhos seu ponto de chegada (do outro lado do mercado, onde muitas pessoas se reuniam), suspirou fundo e correu, gritando para aumentar sua motivação.

A repositora enfiou o polegar embaixo de seu boné e coçou a cabeça, assistindo ao grupo de pessoas que pareciam animais selvagens lutando por vegetais baratos. Todos queriam levar vantagem e sair com alguma coisa em mãos. De repente, ela escutou um som de ambulância e, no mesmo momento, deparou-se com um médico e uma médica muito sérios parados ao seu lado, além de uma maca sendo carregada por paramédicos.

—Esses eventos sempre são catastróficos... –Disse o médico com as mãos na cintura, sem tirar os olhos do amontoado de pessoas animalescas, como se fosse apenas mais um problema rotineiro.

—Preciso de mais uma ambulância. –A médica utilizava uma espécie de walkie talkie para se comunicar com o hospital. –Já posso confirmar duas fraturas expostas e alguns cortes bem feios. Uma pessoa está desacordada, vou verificar a situação. Câmbio.

Assim que terminou a chamada, os dois correram em direção ao povo e a repositora acompanhou com os olhos as pessoas que passavam gemendo de dor, sendo carregadas pelos paramédicos nas macas.

Vitoriosa, Thatiane saiu do meio da multidão com apenas um arranhão no rosto, um mini pimentão vermelho e duas cenouras e meia. A outra metade provavelmente estava no olho de alguém ou em algum outro buraco em que ela não prestou atenção durante a luta.

Nesse combate, conseguiu testar alguns aplicativos novos que lhe foram úteis e deram vantagem na hora da briga. Um deles emitia um som tão alto que afastava qualquer pessoa que se aproximasse. Outro produzia o mesmo efeito, porém com uma música funk.

Voltar para casa não era fácil quando se vivia no maior e mais perigoso bairro do país. No caminho precisou ameaçar cinco pessoas com sua pistola guardada na cintura e uma com o punhal, já que roubaram a pistola em certo momento. Mais tarde conseguiu recuperá-la e ganhou outras duas que estavam descarregadas e, logo, não foram úteis para seu adversário.

—Acho bom você ir passando tudo o que tem, tá me escutando? Eu tenho uma pistola carregada e não tenho medo de usá-la.

—Menina, tudo o que eu tenho é uma garrafa de água e alguns remédios para a minha família que está precisando! Você tem ideia de como foi difícil roubar isso?

—Hum. – Do alto, Thatiane analisava o homem caído que estava na sua sombra, encolhendo-se no chão com as mãos para cima, rendendo-se. Ele tentava ignorar a pistola apontada para si olhava a garota diretamente nos olhos. –Ok, dá só uma caixinha desses remédios mesmo. Da última vez precisei amputar a perna do meu vizinho por falta de um desses.

Ele retirou uma das caixinhas do bolso e jogou para ela, que pegou com a mão livre. Tranquila, abaixou a arma.

—Pode ir.

O homem levantou-se e, antes que Thati pudesse se afastar, ele rapidamente puxou seus pés, fazendo com que a garota caísse e ele habilmente pegasse a pistola antes mesmo que ela tocasse o chão. Todavia, Thatiane aprendera a lidar com pessoas imprevisíveis desde que era criança e sempre tinha uma carta na manga. No mesmo segundo, retirou a adaga que guardava no sapato e riscou o tornozelo da pessoa que se achava muito esperta. Com um urro de dor, ele largou a arma que caiu diretamente nas mãos de Thati; ela, por sua vez, não esperou nem mais um segundo e correu para casa.

—Eu só não te dou um tiro porque é minha última bala!

No caminho, a garota passou pela enorme fábrica que chamava a atenção de todos os moradores por seus mistérios. Cercada de corvos e sempre com uma nuvem negra e tempestuosa pairando sobre ela, a indústria era protegida por segurança de ponta. Embora seja famosa por ser a usina elétrica da região, nenhum civil que resolveu entrar para investigar seu paradeiro saiu de lá. Thatiane pensou que era melhor manter distância. Ouviu falar que o lugar servia de entrada para o subsolo e que muitas coisas estariam escondidas abaixo do chão, já que o bairro foi supostamente construído em cima de uma parte escondida da indústria. Mas isso era apenas um boato.

—O que está olhando? –Um homem com roupas totalmente negras com cara de astronauta falou com a garota distraída. Ele usava uma máscara para que não respirasse substâncias tóxicas, o que alterava o som de sua respiração e o deixava assustador. Carregava uma arma laser muito comprida.

—Nada não, tio... –Tremendo, deu alguns passos para trás, com olhos fixos na máscara. Sem pensar mais, correu como uma criança que foge de encrenca. Para sua sorte, ele não a perseguiu; manteve-se apenas acompanhando-a com o olhar.

Chegando em casa, após trancar as portas com grossas correntes e cinco cadeados grandes, decidiu que estava na hora de preparar um delicioso bolo de cenoura. Mais um dia pacato e normal.

Viver em uma região pós-apocalíptica tinha seu desafios. O bairro Jardim da Amanda era famoso pela enorme quantidade de ladrões que rondavam toda a cidade de Horrorlândia a procura de suprimentos ou simplesmente para espalhar o caos, já que as condições da cidade levavam muitos de seus moradores à loucura. A luta era constante, seja por água, gasolina ou a comida que, quando distribuída nas lojas, era muito disputada. Por ser cara, muitas pessoas roubavam ou deixavam de comer, já que os funcionários dos mercados poderiam ser treinados para combate e era arriscado tentar a sorte.

Mais tarde, enquanto Thati comia um delicioso pedaço de bolo de cenoura, o alarme soou pela casa. Poderia ser um aviso para que todos se escondessem no abrigo antibombas ou que deveriam se manter dentro de casa, mas dessa vez era apenas um aplicativo lhe avisando que a lista de aprovados da POC acabara de ser publicada. A garota cruzou os dedos queimados pelo sol imperdoável que castigava aquele bairro apocalíptico. Correu para o aplicativo da universidade, com medo de checar a lista, até que finalmente criou coragem para encará-la.

—Eu... Eu não estou encontrando meu nome... –Sussurrava tão baixo que era como se sua voz quase não existisse. –Bem, eu já esperava isso... Peraí!

Thatiane limpou os óculos embaçados e fixou seus olhos castanhos na pequena lista de beneficiados com a bolsa integral do curso.

—Eu passei... Eu passei! –Gritou. –E isso aí, caralho, eu passei! Eu passei, porra! –Mas algo a incomodou. -Ah, qual é! Para de tocar esse alarmezinho aí, eu já recebi a notificação. Que aplicativo ruim.

No entanto, dessa vez era o alarme antibombas.

Notas finais
Horrorlândia tem o maior índice de roubo de carros, mas pelo menos temos um shopping tá legal? Respect