Notas iniciais
I'm beginning to trust you. And that's scaring me a little.

Orfanato: dia 1

“Tenho a impressão de que se darão bem”

Sério mesmo, Sarah?

Coitada. A idade provavelmente já estava a afetando. A frase psicopata devia ser corrigida para “tenho a impressão de que você vai morrer”.

Não faziam nem cinco minutos desde que Nico tinha visto o colega de quarto (ou melhor, de cela) pela primeira vez, e ele já queria sair dali o mais rápido possível. Mas para ter força o suficiente para voltar aos Estados Unidos, e pior, voltar exatamente par o Acampamento Meio Sangue, Nico precisaria de tempo. Bastante tempo.

– Solte-me – Ricky ordenava, com o sorriso ameaçador.

– Não vou te soltar – Nico resistia, tentando ignorar o mais novo, mas estava ficando assustado.

– Solte-me – ele repetia.

– Não!

– Será que ainda não entendeu? Eu sou tão perigoso preso quanto solto! Solte-me e eu deixo você viver!

– Você não tem força sobre mim enquanto preso. Não pode me obrigar a fazer nada.

– Não? – Nico não olhava para o menino, mas quase pode escutar o sombrio sorriso – você tem certeza?

A estranha sensação de desejo voltou para Nico.

– Olhe para a janela – mandou Ricky – não te parece tentadora?

Parecia. Parecia muito. O semideus queria correr, quebrar o vidro, saltar. Queria cair. Queria sentir a dor do impacto.

Mas desviou o olhar.

– Não – ele respondeu – tudo o que parece é que meu companheiro de quarto é um sociopata lunático de dez anos de idade.

– Ora, mas eu não tenho dez anos.

– Não me importo.

Ricky riu.

– Você é forte. A maioria já teria pulado no seu lugar. Com toda a força que eu estou fazendo...

Ao dizer a palavra “força”, a vontade atingiu Nico mais forte do que nunca. Ele chegou a se levantar e andar, mas conseguiu dar meia-volta.

– Como você faz isso?

– Parceiro – Ricky sorriu, mais com os olhos do que com a boca, dessa vez – eu poderia até te contar, mas você não acreditaria.

Nico não estava impressionado. Já tinha visto muitas coisas que qualquer mortal e até alguns meio sangues não acreditariam.

– Eu também tenho segredos e truques. Não espere que eu pare de resistir muito fácil.

A risada de Ricky, desta vez, foi a pior. Alta, fria, maníaca, sem um mínimo de humor e completamente insana. Os olhos não se fechavam, entretanto. Eram abertos e fixos, enquanto seu corpo sacudia na cama, juntando a gargalhada e a vontade de sair.

– Boa sorte com isso – ele disse, a voz rouca – porque você vai precisar de força todos os dias. A sorte de conseguir resistir a cada dia da sua vida, neste e no seguinte, e no seguinte, e no seguinte, você sempre precisará de sorte. Mas eu – ele riu baixinho – eu só preciso de sorte uma única vez.

˜˜˜

Orfanato: dia 2

Dormir o ajudava. Ricky podia penetrar em seus sonhos, e a vontade de Nico sempre visitava, mas como estava dormindo, ele não podia se machucar de propósito. Os sonhos eram horríveis, mas era melhor do que ficar acordado com um garotinho tentando te suicidar, que pode soar esquisito, mas era o que ele fazia.

O menino não tinha a menor dúvida de que o mais novo tinha poderes. Ele não sabia se era um monstro, um deus, um semideus ou apenas um lunático sortudo que havia sido abençoado por um deus... ou talvez por um demônio. Mas ele era algo. Com certeza era ago.

Ele havia tirado sonecas o tempo todo, sempre que conseguia. Sempre acordava em dez minutos, com Ricky gritando ou algo do tipo, mas não tinha problemas, já que ele estava cansado o suficiente para sempre voltar a dormir. Somando cada cochilo, ele passou um bom tempo dormindo e descansando.

Em uma das vezes em que acordou, Ricky avisou-o:

– É hora do almoço. Desça, coma e traga algo para mim.

Nico não havia notado o quanto estava com fome, mas assim que ouviu a palavra “almoço”, seu estômago roncou, e ele saiu do quarto sem dizer nada.

Notou que tinha que fazer o mesmo processo de entrar para poder sair. era só a segunda vez que o fazia, e já estava ficando irritado. Ele não era o exemplo de pessoa paciente.

Desceu o labirinto (enfim!) até o andar que achava ser o refeitório. Não ficou surpreso ao ver que não era, mas seguiu dois garotinhos que passavam pelo corredor e acabou chegando ao lugar certo.

A comida era simples e em pouca quantidade. Mas, o que eles podiam fazer, faziam com qualidade. Seu prato continha um montinho de arroz, uma cenoura e um pedaço de carne, todos quentinhos e gostosos. Tentou comer com calma, mas obviamente fracassou, e acabou enfiando tudo goela abaixo. Ao terminar sua refeição, uma menininha, com uns sete anos, talvez, se aproximou dele:

– Você é novo aqui? – ela perguntou, balançando-se se um lado para o outro e mexendo no cabelo, um tanto envergonhada.

– Sou sim – ele sorriu. Ela ficou vermelha.

– Você tá com o Ricky?

– Sim.

– Pediram pra eu entregar isso pra você – ela esticou a mão e entregou-lhe uma marmita. Tinha um garfinho de plástico colado com fita adesiva ao lado – acho que é para ele.

– Obrigado – ele mexeu em uma das marias-chiquinhas arrumadas da menina e segurou a encomenda. Ela foi para longe, meio correndo meio saltitando, e começou a conversar com uma amiga.

Nico, vendo que algumas pessoas já se retiravam, fez o mesmo, e voltou para o quarto, com o caminho em mente e a chave em mãos.

Passando pela série de portas, entrou no cômodo, e a cena o deixou desconfortável.

Ricky estava de pé.

– C-como... – Nico tentava perguntar, assustado – como você...

– Você sinceramente achava que eu pudesse ser segurado por algumas tiras de couro? – o menino o encarava. Arrancou da mão do outro a marmita e sentou no chão, abrindo-a — Tenho minhas técnicas. E não me sentiria confortável com você me dando comidinha na boquinha.

Nico ainda estava imóvel, observando o mais novo comer. Ele notou.

– Que foi? – perguntou, a boca cheia – eu não vou te matar agora. Não teria um desafio. Prefiro enlouquecê-lo até que você decida matar-se sozinho – esticou a marmita – quer um pouco?

Com os olhos arregalados, Nico recusou com a cabeça. Ricky deu de ombros e voltou a comer.

– Você sempre se solta e se prende de novo? – ele teve coragem de perguntar.

– Mais ou menos – o mais novo engoliu a comida em sua boca – quando chega um menino novo, eu me prendo e peço para ele me soltar. Se ele o fizer na hora, eu o mato, para ele aprender a não confiar nas pessoas tão fácil.

– Claro – Nico sussurrou, mas Ricky o ignorou.

– Mas se não, eu faço o que fiz com você. Mas você foi um caso diferente, já que não pulou quando eu “mandei” – ele fez as aspas com a mão – então ao invés de me soltar até a chegada do próximo menino, eu vou me soltar e ficar assim, a não ser nas inspeções. Quer saber,– o menino se levantou num pulo e Nico tomou um susto, mas tentou disfarçar – eu estou considerando o que vou fazer com você.

– Isso é bom?

– Para você, é ótimo. Gostei da sua reação. Você não se deixou se levar muito fácil. Me diz, você tem algum truque?

– É quase isso.

– O que é?

– Só te conto se você me contar o seu.

Ricky sorriu e jogou-se novamente no chão, apanhando novamente seu almoço.

– Eu gosto cada vez mais de você.

– Sarah disse que tinha a impressão de que nos daríamos bem – Nico lembrou.

– Foi, é? Acho que ela diz isso para todos que ela manda para cá, e não são poucos. Acho que ela quer alguém para me curar ou algo assim. Mas talvez ela estivesse sendo sincera dessa vez. Aquela vaca.

– Que isso! – Nico se surpreendeu – a conversa estava até ficando normal, que jeito é esse de falar de uma mulher com quantos anos? Oitenta?

– Mais para oitocentos – ele corrigiu – e, sim, uma completa vaca. Babaca. Acredite.

– Oitocentos?

– Acredite. Difícil?

– Na verdade – Nico sorriu – não. Você ainda está tentando me enlouquecer, não?

– Garoto esperto.

– Bom, estou acostumado com essas maluquices. Eu fiquei me perguntando, Ricky... se lembra de seus pais?

– De minha mãe.

– Ela está viva?

– Sim – os olhos de Ricky brilharam – e vai continuar assim por muito tempo.

– Meu pai também.

Os olhares deles se encontraram. Eles sabiam do que ambos estavam falando. Ricky abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompido por uma voz vinda do corredor, baixinha:

Joseph. Autorizado. Entrada autorizada há: quinze anos.

– Ah, não – reclamou o mais novo, com uma expressão... assustada? – é o inspetor. Tempos duas opções: ou a gente me prende na cama muito rápido ou eu finjo estar te atacando.

– Você não vai ter consequências?

– Poucas, se você colaborar – os passos foram ficando mais próximos. Ricky parecia tenso – mas eu gostaria de estar preso. Vamos fazer assim, a gente tenta me prender e qualquer coisa eu enceno que estava tentando sair para te atacar.

– Boa – Nico elogiou, enquanto o mais novo se jogava na cama e já prendia a o primeiro cinto da perna.

Eles tinham, no máximo, quinze segundos.

Ele prendeu o segundo da perna com rapidez: tinha experiência. Reclamou, num sussurro:

– Para de encarar e ajuda!

Nico correu para cima dele e puxou o cinto do braço quando ouviu um barulho metálico na porta. A chave. Não daria tempo.

Olhou para Ricky. Mal conhecia o menino e já sabia, não era qualquer coisa que colocaria medo nele. Sentiu pena dele.

Não faria sentido uma encenação de ataque àquele ponto. O inspetor já teria escutado gritos.

Não daria tempo.

Nico decepcionaria Ricky assim, cedo.

A porta começou a abrir, e foi como se tudo tivesse entrado em câmera lenta. A expressão de Ricky. O ranger da madeira. O couro escorregando por suas mãos.

A ideia surgindo em sua cabeça.

Foi na hora certa que Nico puxou o lençol embolado alto o suficiente para cobrir os cintos abertos. Um segundo antes do tal Joseph conseguir ver os meninos.

Depois de alguns segundos de silêncio, ele se apresentou.

– Oi, sou Joseph, o inspetor – ele era novo. Devia ter, no máximo, dezesseis anos – vim só checar se está tudo certo.

– Sim – Nico respondeu.

– O que estavam fazendo?

– Conversando. Só.

O inspetor parecia desconfiado.

– Há quanto tempo está aqui? – dirigiu-se à Nico?

– Esse é meu segundo dia.

– Segundo dia? — ele voltou-se para Ricky – e ele ainda não cometeu suicídio? Eu me pergunto quanto tempo vai demorar para que esse aqui não te aguente mais. Ele está indo bem, até agora, não acha?

O menino não respondeu, mas abriu o clássico sorriso sombrio, o que impediu o mais velho de rir de sua própria piada.

– Vou embora, então – ele anunciou, saindo. No momento em que fechou a porta, Ricky tirou a mão debaixo do lençol e mostrou o dedo do meio para Joseph, mesmo que esse não pudesse enxergá-lo, e talvez essa fosse a intenção mesmo.

Nico abriu a boca para dizer algo, mas Ricky levou um dedo aos lábios, que acabou sendo o do meio mesmo, pedindo silêncio. Depois de uns segundos, ouviu-se, bem baixinho:

Joseph. Autorizado. Saída autorizada há: quinze anos.

– Você é um gênio – agradeceu Ricky na mesma hora que a voz robótica parou de falar.

˜˜˜

Orfanato: dia 3

Os meninos não haviam retomado a conversa de onde haviam parado quando o tal do Joseph os interrompeu. O assunto passou a ser o inspetor, e depois variou para muitas coisas, mas não voltou para a mãe de Ricky ou o pai de Nico.

E, por isso, essa foi a segunda coisa que Nico fez ao acordar, sendo a primeira:

– Obrigado pela noite decente de sono.

Ricky estava do lado oposto do quarto, mas com certeza pode escutá-lo, mesmo com sua voz de sono, devido ao silêncio da manhã.

– Era o mínimo que eu podia fazer. Falando nisso, eu decidi não te matar por enquanto, mas tenta não pisar na bola, eu posso mudar de ideia.

Nico nunca achou que ficaria feliz ouvindo uma frase como aquela.

Ei, era um progresso!

– Obrigado.

– Imagina.

Era estranho o sentimento que ele tinha em relação à Ricky... era como se confiasse nele. Como se parte dele soubesse que isso era errado, e a outra dissesse que daria certo no final. A segunda gritava mais alto. E se ele fosse apenas um menino que precisava de ajuda? Nico entendia esse sentimento. Podia ajudar. Mas, para isso, precisava confiar.

E meio que já confiava.

– Então... – ele começou – vai demorar para nossos pais morrerem.

– Sobre isso – Ricky continuou – nós estamos falando da mesma coisa, né? Porque soaria muito estranho se não.

– Fale um país no três. Um, dois, três!

– Grécia – eles disseram em uníssono.

– Okay, é a mesma coisa – Ricky se convenceu – quem é seu pai?

– Hades.

– Você está zoando?! – ele saltou da cama. Nico também, mas de susto. Esquecia de que ele consegui se soltar – você é filho de Hades? Tipo, o Hades? O senhor dos mortos?

– Isso mesmo.

– Wow, que legal! – ele sorria de empolgação dessa vez, e Nico achou legal ver tal expressão em seu rosto – minha mão não é nada comparado a isso. Hades? Sério? Dos três grandes?

– Isso – Nico sorriu – quem é sua mãe?

– Isso vai dar trabalho para explicar. Ninguém a conhece.

– Ah, não exagere...

– Algos.

Mas quem infernos é Algos?

Vendo a confusão do amigo, que provavelmente já era esperada, Ricky disparou palavras as palavras, como se respondesse as perguntas e soubesse de cor quais elas seriam.

– Algos é a daemon da dor, tanto física como emocional. Um daemon é um ser intermediário entre os homens e deuses. Não é classificado como bom ou mau, pode se apresentar como qualquer um deles, dependendo do relacionamento que tem com aquele que sofre a sua influência, no caso de Algos, que sofre dor.

– Você tem poderes? – Nico enfiou sua fala no meio da do... amigo.

– Droga! Ia ser a próxima coisa que eu ia falar. Sim, tenho. Posso sentir a dor presente nos outros e tirar parte dela, dependendo do caso, até ela inteira. Sou imune à dor. E o meu favorito, que explica muita coisa: — os olhos dele brilharam, maravilhado – eu posso fazer os outros quererem sentir dor!

– Lindo – Nico comentou.

– Né?

– Foi sarcasmo – então, algo voltou à mente dele – você é imune à dor física e emocional?

– Só física, infelizmente. E não é que eu seja imune, eu sinto prazer. Por exemplo, se você enfiar uma faca no meu braço agora, eu vou gostar da sensação. Mas como eu sei que isso me prejudica e blá blá blá, eu evito a dor física tanto quanto uma pessoa normal.

– Por que você explicou isso?

– Porque sua próxima pergunta ia ser o motivo pelo qual eu tenho medo do Joseph. Não?

Nico considerou.

– Sim – admitiu.

– Pois é.

Eles se olharam por um tempo. Nico sorriu.

– O que? – Ricky perguntou – o que foi?

– Você gostaria de sair daqui?

– Muito – ele respondeu na hora.

– Eu conheço um lugar bom para você, se você me prometer não matar as pessoas de lá.

– Vou pensar.

Eles riram um pouco.

– Eu vejo se consigo nos levar amanhã.

Viajar com mais uma pessoa ia levar quase o dobro do trabalho.

– Me levar como?

– Pelas sombras, é claro.

.

POV Ricky

Era estranho o sentimento que ele tinha em relação à Nico... era como se confiasse nele. Como se parte dele soubesse que isso era errado, e a outra dissesse que daria certo no final. A segunda gritava mais alto. E se ele fosse apenas um menino querendo ajudar? Nico parecia entender o que fazia. Podia ajudar. Mas, para isso, precisavam confiar um no outro.

E meio que já confiavam.

Notas finais
Comentem aí embaixo o que estão achando :3 me desejem sorte com as provas D: