Como odiar o amor II
5 Let's get out of the asylum
Notas iniciais
POV Scott
Faziam três dias desde que Nico havia sumido. Quatro, em algumas horas. E, para ser sincero, Scott estava preocupado, e achava que todos também deviam estar, mas não queriam acreditar no pior. Ele não queria parecer o pessimista, mas, no fundo, sabia que na verdade estava sendo o realista.
Os dias passaram estranhamente silenciosos, quietos. Um pouco de tranquilidade era bom, ainda que um tanto suspeito, mas ele teve a chance de conversar bastante com Cori, pelo menos. Afinal, a menina era mesmo filha de Apolo, tinha sido reclamada há quase um ano antes. Ela era engraçada, inteligente e muito, muito esquisita. O queixo dela mexia de um jeito fofo quando ela ria. Ela brincava com as trancinhas quando nervosa ou envergonhada. Mordia o lábio inferior após dizer algo impactante, como uma frase esperta ou uma piada. E levantava as sobrancelhas o tempo todo, abrindo os olhos junto.
E que olhos.
Era o azul mais profundo que ele já vira. Não era aquele olho azul que as pessoas já se acostumaram, não, era quase como uma nova cor. E, em contraste com sua pele escura, cor de chocolate, os olhos ficavam ainda mais bonitos. Às vezes, quando ela olhava fixo para algo, parecia até que era cega.
Apesar de meio doidinha em relação ao Nico, como uma fã, algum tipo de “Nicolete”, uma viciada, a única coisa que ela não sabia era a sua localização no momento. Ela não conseguia nem chegar a uma conclusão a partir da situação e da reação dela em relação as mesmas.
– Se ele sente saudades da irmã, provavelmente foi para onde ela morreu – ela levantou as sobrancelhas – mas isso não faria sentido, pois estamos indo para lá na missão.
– Ele pode ter ido para onde eles viveram? – Scott sugeriu.
– A casa na Itália, você quer dizer? A que foi destruída?
– É... Acho que não, né?
– Você quem me diz. Mas você não foi totalmente burro – ela sorriu – talvez ele tenha ido ao Cassino Lótus, onde ele passou décadas de sua vida, mesmo sem saber.
Ele já tinha escutado essa história alguma vez, mas sempre se surpreendia.
– Desculpa, se eu perdesse mais de setenta anos da minha vida para um cassino eu não gostaria de voltar para lá.
– Tem razão.
– O que a gente faz, então?
Cori encarou-o com seus grandes olhos.
– A gente espera.
.
POV Nico
Era o quarto dia de Nico no orfanato e ele queria, mais do que tudo, sair dali.
Imaginava como Ricky se sentia, estando ali desde... bem, sua memória não alcançava nada que tivesse acontecido antes.
Eles tinham conversado bastante, e, surpreendentemente, Nico havia rido algumas vezes. Os dois meninos tinham um humor bem parecido. Na verdade, pensando um pouco, isso não é assim tão surpreendente.
Era hora do almoço de novo. Nico estava quase descendo quando escutou.
– Espere – Ricky estava quase acabando o processo de se prender, mas quando o amigo virou-se, viu que o mais novo havia passado a se soltar – espere só um pouco.
– Que foi?
– Eu vou com você.
– Não sei se isso á uma boa ideia – Nico considerou.
– Não tem problema. Tem um jeito, é só que ninguém usou antes. Porque não tiveram a chance.
Uma vez solto, ele correu para a cama onde Nico dormia e afastou-a da parede. Daquela frestinha ele puxou uma espécie de coleira.
– Fizeram isso para você poder sair do quarto?
– Sim – ele respondeu.
– Você não sai desde que matou pela primeira vez?
– Eu não saio desde que tenho uns seis anos, quando me prenderam. Teve todo um processo antes, esqueceu?
– Seis anos? – Nico resolveu não perguntar a idade que ele tinha quando matou o verdadeiro Ricky, mas resolveu saber de mais algumas curiosidades – quantos anos você tem atualmente?
– Uns onze.
– O que quer dizer com “uns”?
– Que não faço ideia de quando seja meu aniversário.
Isso era triste. Ricky tinha uma história triste, mas talvez não soubesse disso muito bem simplesmente por não ter com quem comparar.
– E qual é seu nome verdadeiro?
– Quer mesmo saber?
– Acho que sim.
Ricky olhou-o nos olhos, mas bem mais profundo do que isso. A boca fazia a curva de um sorriso que o olhar não mostrava.
– Meu nome é Enfer.
O silêncio fazia um zumbido incômodo. Nico teve vontade de recuar, mas conseguiu ver na expressão do menino que era exatamente o que ele tinha medo que o amigo fizesse.
Nico não falava francês, mas essa palavra ele conhecia. Piper ficava nervosa, às vezes, quando se lembrava de que Percy e Annabeth haviam no tártaro, e tagarelava em francês sem perceber. Um dia, soltou a frase “ils sont coincés dans l'enfer” para Nico, e depois explicou o significado.
“Eles estão presos no inferno”.
Enfer é, literalmente, inferno, em francês.
– Eu sei o que significa, se é isso que está se perguntando – o menino falou – e, por favor, não diga isso à ninguém. E não me chame assim.
– Sem problemas. Você é francês?
– Meu pai era.
– Você conheceu seu pai?
– Não. Mas minha mão prendeu algumas memórias na minha mente antes de me mandar para cá. Como meu nome. Meu pai. Ela. Meus poderes.
Ele olhou para baixo, como se quisesse apenas fugir do olhar que o amigo o lançava, mas acabou pousando os olhos na coleira.
– Estou com fome. Esqueça esse assunto todo. Temos um almoço para comparecer.
Ele entregou a coleira para Nico e mostrou como funcionava.
– Isso aqui vai no pescoço e essas nas mãos. As mão ficam na frente do corpo para eu poder comer, mas a corrente entre elas é para eu não poder abrir os braços mais do que o suficiente para isso, entendeu?
Ele falou como se a coleira não fosse para ele.
– Vamos lá, é só colocar.
Bem devagar e tremendo um pouco, Nico passou o maior dos círculos de couro pelo pescoço do menor e apertou.
– Pode apertar mais.
Nico obedeceu.
– E agora?
– Está me incomodando um pouco.
– Desculpa – ele já ia afrouxar quando foi interrompido.
– Não, isso é ótimo. Vão desconfiar se você me deixar confortável.
– Certo.
Nico colocou as das mãos e apertou até o menor mandar parar.
– Perfeito – Ricky girou em torno de si mesmo, como se apresentasse uma roupa – como estou?
– Fabuloso.
Os dois caíram na gargalhada.
Fazia tempo que Nico não se divertia com alguém desse modo. Era difícil de explicar.
E parecia que Ricky tinha o mesmo sentimento.
– Vamos – ele disse – segure a ponta da corrente.
Nico segurou e puxou-o para fora.
– Que exagero – Ricky comentava, cada vez que passavam por algo de segurança.
– Cara, nem você sabe quantas pessoas matou.
Ele dava de ombros e continuava a andar.
Eventualmente, chegaram ao refeitório, mas antes de entrarem, Ricky comentou:
– Eu vou assustar todo mundo lá dentro. Vai ser engraçado.
Nico abriu a porta e entrou, trazendo o amigo (que sorria ameaçadoramente, claro) atrás. Todos os olhares se direcionaram para eles, as conversas sendo trocadas por sussurros abafados e olhares assustados. Algumas pessoas pareciam entender o que estava acontecendo, mas as crianças mais novas, na maioria, não.
Os dois meninos ficaram de pé, esperando a porta fechar atrás deles lentamente, prestando atenção nas pessoas. As vozes pararam. Só se ouvia a respiração pesada e os corações acelerados de medo. A tensão no ar era quase palpável.
– Quem é ele? – uma garotinha, no fundo do refeitório, perguntou aos sussurros, mas o silêncio permitiu que todos escutassem.
Ricky trocou o simples sorriso por uma risada alta e sinistra. As pessoas na sala ficaram pálidas e algumas até mesmo começaram a tremer.
– Você sabe quem eu sou – ele respondeu, mas sem olhar para alguém específico – eu sou Ricky.
Os sussurros na sala voltaram, mais altos dessa vez. Nico captou algumas palavras, frases e nomes.
“Aquele que ficou maluco?” – um menininho, talvez com cinco anos.
“Ele fica no quarto lá em cima...” — uma garota mais velha falando com uma menor.
“...Tony, Carter, Harold, Peter, Isaac, Jack, Henry, Ben, Andrew, Aaron...” – um cara contando com os dedos.
Ricky então voltou a gargalhar com aquela expressão de insanidade e todas as pessoas da sala começaram a gritar e correr. Em alguns segundos, o refeitório estava vazio, e a risada do menino ficou normal.
– Você viu a cara deles? – Ricky mal conseguia respirar de tanto rir.
– Eu ouvi a voz, muito bem obrigado – Nico apertou os dedos nos ouvidos – você é como uma lenda aqui, né?
O menino ia citar a Bloody Mary como exemplo, mas achou que o mais novo não conheceria essa lenda.
– Basicamente. Nenhuma daquelas pessoas havia me visto antes. Das que me viram antes que ainda estão vivos são o Joseph, a Sarah e você.
Nico ficou feliz com isso, de algum modo. Depois se sentiu idiota por ficar feliz com isso.
– Agora temos um refeitório tranquilo – o menino continuou – nossa, esse lugar não mudou nada. Deixa ver se eu lembro.
Ele andou um pouco até o lugar com o almoço, de olhos fechados.
– É aqui que pega a comida?
– Sim.
Ele abriu os olhos e riu, provavelmente impressionado. Ficara anos sem sair de um miserável quarto, pequeno, sujo. Nico entendeu porque ele chamara Sarah de vaca.
Se ele tivesse sido preso por uma mulher em um cubículo sujo e descuidado, amarrado a uma cama desconfortável e recebido a visita de várias pessoas com o mesmo olhar de medo, ainda por cima, tudo com a desculpa de ajudar... só de pensar ele já ficou com raiva.
Vale a pena saber que Sarah foi obrigada a fazer isso para proteger os outros, mas, sinceramente, ela perdeu a razão ao mandar mais pessoas para lá. Era como prender um leão em uma jaula por matar uma gazela e prender gazelas com ele. Óbvio que vai dar errado. O leão não sabe o que é certo ou errado, está na natureza dele. Assim como com Ricky.
Ele nunca teve ninguém para ensiná-lo que machucar as pessoas é errado. Mais do que na natureza dele, isso fazia parte dos poderes e das memórias dele. O que esperar disso?
– Nico! – ele ouviu o amigo gritar. Ele sacudiu a cabeça, notando que tinha sido levado por pensamentos e estava olhando fixo – cara, o que aconteceu? Te chamei umas quinhentas vezes!
– Viajei, desculpa.
– Vem pegar a comida – ele deu de ombros.
Nico andou até o amigo. A comida era a mesma de todos os outros almoços, mudando apenas o vegetal.
– Porque eles servem um legume diferente a cada dia? – Nico perguntou.
– Eles tem uma horta. É para não cansar as pessoas de comer exatamente a mesma coisa.
– Como você sabe que eles tem uma horta?
– Eu passei a vida inteira nesse orfanato, mas não somente naquele quarto. Afinal, você vai comer ou não?
Nico pegou um prato e começou a se servir. Ricky estava andando para a mesa quando Nico pisou na corrente da coleira, fazendo o amigo tossir e recuar.
– Ai! – ele reclamou – porque fez isso?
– Me espera – ele colocou uma colher de arroz no prato.
Ricky tentou fazer uma expressão séria, mas uma risadinha escapou. Nico gostou do modo como conseguiu fazer uma amizade com um psicopata e ver que, atrás da loucura dele, uma parte do menino normal ainda restava. Bem, na verdade, um semideus nunca é normal, mas isso não interferiu tanto no pensamento dele. Ele viu que Ricky não queria ser como era. Ele foi, de algum modo, forçado.
Mas aproveitava isso, já que não mudaria sua situação. Assustar os outros era incrível para ele.
– Você viu o jeito que eles me olharam quando eu falei meu nome? – ele disse, enquanto se sentavam.
– E quando você riu?
– Nem me fale – ele sorriu.
– Como você ri daquele jeito?
– Como? Assim?
E ele riu. Daquele jeito. Nico sentiu um frio na espinha, e os pelinhos em sua nuca se arrepiaram.
– Sim, assim mesmo – Nico disse, quando o outra acabou.
– Sei lá – ele continuou comendo, como se nada tivesse acontecido.
– É legal assustar as pessoas, né?
– Você assusta as pessoas daquele lugar para onde vamos?
– Não tanto quanto você aqui. Já sou próximo de algumas. Mas antes, nossa, tinha um garoto chamado Jason... ele é daqueles que é conhecido por ser corajoso e blá blá blá... ele chegou a matar um titã – Ricky levantou as sobrancelhas – mas você tinha que ver a cara dele quando eu aparecia. Teve uma vez que ele e os amigos estavam conversando, e na hora que eu cheguei, tinham feito uma pergunta que eu sabia responder. Eu estava atrás dele, e respondi. Ele pulou, tentou disfarçar e me olhou com a cara pálida... foi impagável. Foi tipo:
Nico virou-se de costas e imitou a cena, fazendo o mais novo gargalhar, mas de verdade. Ele tinha uma risada gostosa, daquelas criancinhas de filme.
– Uma vez, quando eu ainda podia sair do quarto – Ricky começou a contar – eu dei um susto enorme no Joseph, mas foi completamente sem intenção. Estava de noite, e ele estava passando por um corredor. O silêncio era mortal. Eu fui perguntar uma coisa para ele, e como eu sabia que ele estava lá, fui para o corredor. Aí uma criancinha, de dentro de um quarto, falou “boa noite”, provavelmente para o colega de quarto ou para o amigo imaginário, sei lá, só sei que o Joseph acendeu a lanterna e apontou para o fim do corredor, só que eu ainda não tinha chegado lá. Eu cheguei na hora que ele girou em torno de si e fui falar com ele, normal. Nossa... – ele deu uma risada – na hora que ele voltou a lanterna para o ponto de início... ele me viu ali, e, cara – ele continuou a rir. Era contagiante. Os dois estavam rindo baixo – ele deu um berro – a risada aumentou – e caiu para trás – os dois começaram a gargalhar muito alto.
Ricky tentava falar, mas não conseguia respirar, e voltava a apoiar a cabeça nas mãos, de tanto rir. A barriga de Nico doía. Cada vez que a risada diminuía, eles se olhavam e explodiam em gargalhadas novamente.
Isso durou até a porta ser aberta.
Os meninos enxugaram os olhos e olharam para quem entrava.
Joseph.
O clima do lugar mudou instantaneamente.
– O que está fazendo aqui em baixo? – Joseph gritou, claramente irritado.
Nico olhou para o amigo. O queixo do mais novo tremia levemente.
– Eu posso descer – ele falou, baixinho, levantando as mãos atadas – eu posso descer com isso.
Joseph parecia avaliar a situação.
– O que é isso?
– Sarah deixou no meu quarto para eu poder sair às vezes – ele olhava para baixo – pode perguntar para ela, se quiser.
– E você nunca usou até hoje?
– Não.
Joseph abriu a boca para dizer algo, mas Nico o interrompeu.
– Eu pedi para ele vir. Ele não teve nada a ver com isso.
– Cale a boca, garoto! Não se humilhe ao ponto de defender esse psicopata! – ele apontou para Ricky e andou na direção do garoto, voltando-se para ele — você acabou de traumatizar todas as crianças desse lugar. Obrigado, mesmo. Vamos ser obrigados a entregar crianças com problemas de pesadelo à pais que querem apenas filhos comuns. Mais vidas estragadas por sua culpa.
Ricky ainda olhava para o chão.
– Você nunca sairá daqui. Nunca. Tente pelo menos ser normal enquanto tiver outra pessoa por perto, não é difícil. Cada vez que você se aproxima de uma pessoa, é uma vida que vai embora além da sua. É pedir demais para que você estrague só a sua?
– Eu vou sair daqui – ele continuava olhando para o chão – e não me importo com a vida de ninguém desse lugar. Tomara que eu deixe a vida deles horríveis. Nunca vai chegar aos pés da vida que eles me deram. Da que você me deu.
Nico apenas observava. Ricky continuava a fitar o chão, enquanto Joseph aproximava seu rosto cada vez mais, com um sorriso.
– Que bonito. Fiquei emocionado – Joseph segurou Ricky pelo cabelo e forçou-o a olhar para ele – você. Não. Vai. Sair. Daqui. Nunca. Sinceramente, Ricky! Se você acredita mesmo nisso, tem mais problemas do que eu pensava. Até mesmo antes de enlouquecer, nenhum dos casais que vieram aqui avaliaram você como opção. E depois de enlouquecer, mandamos apenas um casal para entrevistar você – ele soltou o cabelo do menor, mas este continuou a encará-lo – e você os matou.
Nico arregalou os olhos, fitando o amigo, que por sua vez virou a cabeça novamente para baixo. Devolveu o olhar para o outro, como sentisse vergonha de ser verdade.
– Isso não é mais um orfanato, Ricky, isso é um hospício. Por sua culpa. Você é louco, um psicopata!
– Você é louco também! Todos somos! – Ricky respondeu – eu só gosto de mostrar.
O mais velho suspirou, como se lembrasse do tempo em que Ricky não estava ali.
– E, agora – Joseph continuou, ignorando o mais novo – eu vou sair desse refeitório e você também. O seu coleguinha vai te arrastar de novo para aquele miserável quarto e você não vai sair até o dia de sua morte, você me ouviu bem?
Ricky tremia.
– Foi uma pergunta!
– Ouvi – ele sussurrou.
– Mais alto.
– Ouvi.
– Mais alto!
– Ouvi!
– Agora me chame de senhor.
Ricky encarou-o com o ódio transbordando no olhar.
– Eu ouvi, senhor.
Joseph sorriu, maldoso, como se amasse fazer aquilo. Mas não era como os sorrisos de Ricky, não: Ricky gostava de fazer o que fazia no geral. Joseph gostava de fazer aquilo com Ricky.
– Ótimo – o mais valho sorriu e andou em direção à porta.
Ouvia-se apenas o som do sapato dele se afastando, mas esse padrão foi quebrado no momento em que ele tocou a maçaneta.
– Vá se foder! – Ricky gritou. Fora o som mais alto que Nico ouvira em algum tempo. E no mesmo instante, soube que tudo daria errado.
– O que disse? – Joseph virou-se e correu em direção ao menino – o que foi que você disse?!
Mas Ricky não respondeu. Apenas fitava-o com o sorriso sombrio.
Nico continuava a observar a cena como se fosse a plateia de uma peça de teatro. Mas soube que teria de reagir quando Joseph levantou a mão e atingiu Ricky com um soco, fazendo o menor cair.
– Você nunca mais vai dizer isso para mim, seu monstrinho maníaco!
– Não vou – Ricky concordou, ainda deitado no chão.
Joseph lançou-o um olhar afiado e virou-se para ir embora, enquanto Nico abaixava-se do lado do amigo.
– Vai brincar consigo mesmo – Ricky soltou.
– Ah, sinceramente – Nico reclamou, segurando o braço do mais novo e viajando pelas sombras para seu quarto.
Ao chegarem, a primeira coisa que Ricky fez foi cuspir sangue no chão.
– E agora você entendeu porque eu odeio o Joseph.
– Mas você pediu, também, né? Poxa! Eu estava salvando energia para levar você para o acampamento, não trazê-lo para o quarto! – Nico segurou a coleira do amigo e começou a soltar.
– Desculpa, mas eu não podia deixar ele me atacar desse jeito e sair andando. E eu sabia que você faria alguma coisa. Falando em fazer alguma coisa, porque você não nos tira desse, como ele bem descreveu, hospício?
– E se ele sempre faz isso com você — Nico o ignorou — porque você não faz ele querer sentir dor?
– Eu já tentei – Ricky suspirou e esfregou as mãos, quando Nico as libertou – lembra quando eu disse que tinha medo dele? Talvez eu tenha omitido um detalhe...
– O que foi? – Nico tirou a tira do pescoço.
– Eu usei o máximo da minha força nele. Várias vezes. E ele nunca teve reação.
O silêncio invadiria a sala, se uma voz não tivesse anunciado, fora do quarto:
Joseph. Autorizado. Entrada autorizada há: quinze anos.
Era agora ou nunca. Não importava o nível de força que ele tinha. Se Joseph entrasse no quarto, estaria tudo acabado.
Nico segurou o braço do amigo e, rezando para Hades, viajou pelas sombras, focando no acampamento.
.
POV Jill
Ela correu para a enfermaria assim que soube, esperando encontrar Scott e Cori conversando, como de costume. E foi o que viu.
Ela havia sido avisada por Solace. Ainda não tinha visto, mas pelo rosto do amigo, parecia ser verdade. Ele estava pálido. Parecia um tanto aliviado, um tanto em pânico, um tanto confuso. E quando ela ouviu suas palavras gaguejadas, teve a mesma reação.
Ele devia estar exagerando.
Não tinha como aquilo ser verdade. Não tinha como ter acontecido.
Não daquele jeito.
– Venham comigo – ela pediu, ofegante, assim que encontrou os amigos.
Eles perguntaram algo, mas ela não ouviu e não se importou. Só queria saber se era verdade.
Ele disse que estavam no lago, e foi para lá que ela correu.
Quando chegou, viu que era verdade.
Nico estava no lago, coberto de sangue, acompanhado de um desconhecido.
Mas o garotinho estava nadando, puxando Nico, inconsciente, pelo braço.
Ela se aproximou da margem, desviando de todas as pessoas ali, e conseguiu passar por todo mundo no momento em que o menino saiu da água. Ela ajudou-o a tirar Nico de lago.
– Obrigado – ele sussurrou, e depois tossiu e cuspiu no chão: água mesclada a sangue.
– Quem é você? – ela perguntou.
– A gente resolve isso depois – ele respondeu, rude – temos um problema maior.
Ele posicionou o indicador logo abaixo do nariz de Nico.
– Ele não está respirando.
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