Notas iniciais
I am in love with a memory

POV Ricky

Como assim ele não estava respirando?

Ótimo. Acabara de chegar a um lugar novo e já tinha matado alguém.

– Acorda, Nico, por favor, acorda... – ele sacudia o amigo. Todas as pessoas ao redor observavam a cena, assustados.

Tinha uma menina ao lado dele. Ela parecia ser próxima de Nico. Deve ter sido horrível vê-lo de tal modo.

Ele estava coberto de sangue da cabeça aos pés, mas não tinha cortes. Era estranho. O cabelo estava encharcado, as roupas estavam empapadas e, a pele, manchada do escuro e frio sangue.

– De onde veio todo esse sangue? – a garota perguntou. Ela não parecia muito assustada, mas Ricky concluiu que estava em choque. E não queria estar lá quando ela saísse da tal transe.

– Eu não sei, eu não... – a voz falhou. Ele sacudiu Nico mais uma vez e continuou a murmurar – eu não sei, eu não sei, eu não sei...

Ele se deixou desabar sobre o amigo e começou a tremer. De frio. De medo.

– Eu não sei, eu não sei, eu não sei...

– Ei, ei – a garota tentava acalmá-lo, passando a mão em seu cabelo – fica calmo, tá? A gente dá um jeito... Alguém traz algo para o garoto se cobrir, por favor?

Ouvindo o pedido, um garoto saiu correndo para longe. Ricky continuou a sacudir Nico, implorando para que ele acordasse.

– Licença, saiam da frente, cai fora – ele ouviu alguém dizer entre a multidão. Em pouco tempo, um cara mais velho, moreno de pele mas loiro de cabelo, abaixou-se ao seu lado.

– Will, que bom que voltou – a garota falou para o outro – trouxe?

– Sim – o tal Will respondeu, levantando um recipiente e um conta-gotas.

– O que... o que é isso? – Ricky perguntou, a voz embargada.

– Néctar – ele respondeu, já pingando um tanto na garganta de Nico – vai fazer ele se sentir melhor.

Não houve resultado. Will pingou mais.

Ainda nada.

– Mais – pediu a menina.

– Vai ser a última vez, Jill – o garoto respondeu – estou pingando muito, se passar do limite, você sabe o que acontece.

Com essas palavras, ele pingou mais algumas gotas.

E nada aconteceu.

– Como esse líquido ajudaria em alguma coisa? – Ricky perguntou, sentindo a raiva crescer. Ele não queria explodir assim, logo de cara, no primeiro dia, mas não suportou a cena – O que esse maldito suquinho faz?!

– Ele tira a dor – a suposta Jill respondeu.

– Ah, fala sério, era só me avisar antes!

Todos ao redor olharam com expressão confusa.

– Como assim? – alguém perguntou.

– Eu posso explicar ou posso salvar Nico, o que você prefere?

Silêncio.

– Foi o que eu imaginei.

De algum modo, Ricky sabia o que fazer, embora nunca tivesse feito. Era primeira vez que experimentava o poder, já que era, também, a primeira vez que se importava com alguém.

Com cuidado, ele posicionou a mão no peito do amigo. Fechou os olhos.

– Passez-moi votre enfer.

Ele sentiu algo entrando em sua mão. O processo começara.

Ele não sentia nada: não era bom nem ruim. Era como se ele estivesse vazio. Mas tinha algo, era como se um líquido quente corresse suas veias, em rumo ao coração. No momento em que atingiu seu peito, Nico sentou-se, tossindo desesperadamente.

– Funcionou – Will maravilhou-se.

– Está funcionando – Ricky corrigiu.

Nico ainda tossia, mas o menino não tirava a mão. Ainda não era a hora. Ele precisava ver a luzinha saindo.

E ela saiu. Na tosse final e mais forte de Nico, uma bolinha escura, mas luminosa, saiu de sua boca, flutuando em direção ao peito do mais novo.

– O que está fazendo? – Nico perguntou, assim que recuperou o fôlego, como se não notasse as pessoas ao redor – me devolve minha alma.

– Só porque é escuro não significa que é sua alma, animal – Ricky sorriu, e Nico também. Todos que estavam presentes provavelmente não entenderam que tipo de humor era aquele – isso é sua dor. Estou absorvendo.

– Claro – Nico observava.

A bolinha entrou no peito de Ricky. E doeu muito.

Definitivamente não era o que o garoto esperava do processo. Porque doía? Mas não era hora de refletir. Ricky começou a gemer de dor, e tudo ao seu redor parecia ficar embaçado e lento.

Dor era pior do que ele imaginava que fosse.

– Ricky? – ouviu Nico chamar. E ouviu várias vezes, martelando em sua cabeça, cada vez mais baixo...

– Ricky? – alto de novo, depois baixo, baixo, baixo, baixo...

Ele olhou para o amigo, mas só via um grande borrão. Voltou-se novamente para o chão, com dificuldade em respirar, e começou a tossir muito.

– Ele está tossindo sangue – ouviu alguém dizer. Ou imaginou, era difícil saber – levem-no para a enfermaria.

Ele olhou para um vulto, provavelmente Nico, levantando-o no colo, mas depois tudo foi ficando escuro, escuro, escuro...

.

Ele acordou em uma cama, com Nico, duas garotas e outros dois garotos o encarando.

– Ele está acordando – um deles murmurou.

– Eu já acordei – Ricky rosnou em resposta.

– Não se esqueça do combinado – Nico sorriu, nervoso – sem matar os coleguinhas.

– Tanto faz. Quem são essas pessoas e porque elas estavam observando meu sono?

– Se você chama um desmaio com murmúrios de ameaça de mortes e cuspes de sangue de “sono”, temos um problemas – o garoto mais alto comentou. Ricky o reconheceu, era o tal de Will.

– Você é o Will – ele apontou – e você é a Jill. Mas quem são vocês?

– Eu sou o Scott e essa é a Cori – o garoto apresentou.

– Scott. Nico me falou sobre você.

– Ah, foi? – ele animou-se – e o que ele disse?

– Que você é um mimadinho metido e arrogante.

– Eu nunca falei isso! – Nico protestou – juro pra você, Scott. É que o nosso amigo Ricky aqui tem um probleminha de agressividade e está afim de descontar o que está sentindo na primeira pessoa que aparecer.

– Não é mentira – Ricky deu de ombros – cadê o médico?

Will levantou a mão.

– O que diabos aconteceu comigo?

– É difícil explicar – o mais velho começou – Nico apenas comentou que você não sente dor, o que não ajuda nada, na verdade só confunde mais... Mas, como você disse que estava sugando a dor de Nico, eu imaginei que talvez você só seja imune à sua própria dor.

– Faz sentido – ele considerou – e eu desmaiei e esse drama todo por que foi a primeira vez que senti?

– Basicamente, já que foi literalmente a maior dor que você já sentiu.

– Legal. Posso ir embora agora?

– Será que você poderia descrever como se sentiu antes? Preciso disso para o seu arquivo.

– Como se duas paredes estivessem se fechando vagarosamente, uma contra a outra, comigo no meio, tirando o meu ar, espremendo meus órgãos, quebrando meus ossos um por um enquanto eu escuto o barulho do meu corpo sendo lentamente esmagado e todo meu sangue sendo espremido para fora de mim.

– Lindo – Nico comentou, depois de algum tempo de silêncio e olhares assustados.

– E agora, posso ir embora?

– De jeito nenhum – Jill negou – só depois que você e Nico contarem tudo o que aconteceu.

– Mas você ainda não contou, seu inútil? – Ricky se virou para o amigo – podia ter me poupado disso.

– Eu não contaria direito – ele sorriu.

– Tudo bem, crianças – o mais novo revirou os olhos – sentem que lá vem história. E calem a boca porque eu não vou repetir.

– Antes de mais nada – Will interferiu – será que posso dar a minha opinião?

– Não – Ricky retrucou.

– Vou dar mesmo assim. Não acho que você devia falar, muito menos contar uma história, com a mandíbula quebrada.

– Minha mandíbula quebrou? – ele abriu e fechou a boca repetidamente. Não sentia nada.

– Nico mencionou um soco...?

– Ah, é, é verdade. Obrigado pelos cuidados médicos ou parentais, sei lá, mas eu vou contar a história de qualquer jeito.

Ricky viu Nico se esforçando para não rir. Há quanto tempo não via uma pessoa com o mesmo tipo de humor que ele!

– Começando, então. Eu sou filho de Algos...

– Quem é Algos? — interromperam.

.

Demorou bastante para contar a história.

.

POV Leo

Uma semana era o prazo que ele tinha. E, olha, uma semana era pouco tempo para fazer um barco tão incrível. Bem pouco, por sinal.

Mas, adivinha quem tinha acabado antes do prazo! Sim, exato, Leo!

E outras dezenas de semideuses com poderes e habilidades incomuns de construção, mas... meh. Eles nem trabalharam assim, tanto... Talvez um pouquinho assim.

O barco estava pronto, e sobravam dois dias para o prazo final. Dois dias? Talvez um, talvez três... Leo perdera noção do tempo. Precisou contar nos dedos.

De qualquer maneira, o importante da história é que ele podia avisar Jill e os outros semideuses da profecia que eles já podiam partir em sua missão.

Ele estava ansioso. Procurava os amigos já fazia um bom tempo, mas saltitava, paciente. Agitava os dedos das mãos dentro do bolso de seu casaco, mexendo em parafusos que ele nem sabia que estavam ali. Sorria. Seus cachinhos pulavam no mesmo ritmo que ele.

– Porque todo mundo esquece da enfermaria? – perguntou para si mesmo, ao se lembrar de procurar nesse lugar. Óbvio que os amigos estariam ali assim que ele abrisse a porta, era quase um clichê, então ele não se surpreendeu quando isso foi o ocorrido.

Mas outra coisa o assustou um pouco. Com os amigos havia um garotinho sinistro, magricela, pálido, com grandes olheiras e olhos hipnotizantes.

– Quem é você? – ele perguntou.

– Ah, não, acabei de falar – o garotinho jogou a cabeça para trás.

– Esse é Ricky – Nico respondeu por ele.

Nico respondeu por ele. Nico.

Nico! – Leo gritou, correndo para abraçar o mais novo – eu não tinha visto que tinha voltado!

– É, pois é, né – Nico estava claramente irritado com o abraço, mas deixou que o outro o espremesse por mais alguns segundos – okay, chega.

Leo não se importou com o empurrão do amigo, estava muito animado para fazer qualquer coisa a respeito.

– Você chegou na hora certa – ele anunciou – o barco está pronto!

– Pronto?! – Jill sorriu.

– Pronto!

Os dois começaram a gritar e pular juntos, como duas garotinhas indo ao show do cantor favorito.

Ricky observava a cena com uma expressão quase de nojo, e trocou um olhar meio assustado com Nico.

– Ah, deuses, tipo totalmente pronto? – Jill perguntou, meio ofegante, ainda sem acreditar.

– Totalmente. Se eu fosse um de vocês, iria logo hoje.

– Vamos esperar para amanhã – Nico comentou – preciso de um descanso. Com toda essa história do Ricky e do orfanato...

– Para onde vocês vão? – o mais novo perguntou – que barco é esse? Quem é esse mexicano?

– Eu não sou mexicano – Leo interferiu.

– Adivinha? Não me importo. Alguém me responde?

Nico bateu com a palma da mão na testa.

– Ah, não. Cara, você vai ter que vir com a gente. Não posso deixar você sozinho em um acampamento cheio de gente, bizarrices, natureza e oxigênio, ou seja, coisas que te irritam.

– Eu topo se você me disser para onde vamos e o que vamos fazer.

“O morto na luta pelo amor irá me acompanhar / A terra ressecada, nosso destino será / Buscar algo que já foi meu / E algo dele que também se perdeu / O deus castigado não será obstáculo / Mas outros inimigos farão parte do espetáculo / Em nome de meu pai, para ele devo achar / Procurar um destino que irá nos procurar” – Cori recitou. Notou o olhar de Ricky – é a profecia da nossa missão.

– Valeu, esquisita.

– Eu escrevi – ela comentou.

– Parabéns, devia estar orgulhosa – Leo estava impressionado com a quantidade de sarcasmo que cabia em um garoto tão pequeno — O que isso tudo significa?

– Pois é – Nico interferiu – não sabemos.

– Lindo – ele suspirou.

O silêncio invadiu a sala, e pouco a pouco, as cabeças foram se virando para Leo. Demorou, mas em um momento, todos encaravam o menino.

– Eu posso sair se vocês quiserem.

– Se você quiser – Scott comentou.

– Dá o fora de uma vez – Ricky ordenou.

Leo se virou e foi embora, ainda feliz e saltitante, em direção ao seu chalé.

Já tinha saído em missões, não culpava os mais novos por quererem conversar entre si. Sabia que era uma etapa importante do processo, ainda mais tão perto assim do grande dia da partida. E com um integrante surpresa? A conversa era urgente.

Leo sentia-se relaxado, mas exausto ao mesmo tempo. Decidiu que precisava dormir um pouco, mesmo que nem ao menos tivesse jantado ainda.

Saltitou até seu chalé, com um sorriso de orelha a orelha. Lembrou-se da expressão de Jill quando ele deu a notícia. O menino sentia falta dessa expressão. Sentia falta de ser desafiado quando o desafiador torcia por ele. Sentia falta de querer fazer algo por alguém. Sentia falta de se dedicar a um trabalho pensando mais em outra pessoa do que em você.

Sentia falta de Calipso.

Lembrando da menina, o grande sorriso se reduziu a uma melancólica curva nos lábios. Passou o resto do caminho pensando em seu plano durante o período de guerra contra Gaia, o quanto havia dado errado.

Entrou no chalé e se jogou em uma cama qualquer. Lembrou-se de montar em Festus com a menina e de sair da ilha voando. Mas ela caiu, de repente, e a correnteza a puxou de volta para Ogígia. Ele tentou voltar, realmente tentou, mas a ilha não estava mais lá. E nem Calipso.

Logo, como de costume, Leo tirou sua máscara de garoto animado e chorou até adormecer.

*

– Leo – uma voz doce soava baixinha – Leo.

Ele levantou-se, meio tonto. Sua vista estava embaçada, tudo estava claro, mas ele via uma silhueta de pessoa, de garota, aproximando-se dele.

– Leo – a menina repetia – está acordado?

Ele olhou ao redor. Não sabia onde estava, mas não era seu chalé.

– Não – ele respondeu – estou sonhando.

Ele pode ver a garota sorrindo enquanto sua vista se fixava. Ele olhava diretamente para... para Calipso.

– Calipso? – ele murmurou.

– Sim – ela sorriu – eu vim te avisar, Leo.

– Eu sinto tanto a sua falta – ele esticou a mão em direção ao rosto da menina, mas não conseguiu tocar em nada – tanto...

– Nós podemos nos ver de novo, Leo. Podemos fugir juntos, é possível, e muito mais fácil agora. Você só precisa de um barco.

– Eu posso fazer.

– Não, Leo. Você já fez.

– Mas... – ele apertou os olhos – não posso usar aquele barco. É de amigos meus.

– Só aquele barco pode fazer isso, Leo.

– Mas eu não posso. Não posso desapontá-los.

– Esses seus amigos são mais importantes para você do que eu, Leo?

– Não – ele abaixou a cabeça, envergonhado, de certa forma, por admitir aquilo – não são.

– Então – Calipso se aproximava cada vez mais – por que o barco precisa ser deles? Nico sente falta da irmã? Ele já se acostumou a ficar sem ela!

Leo respirou fundo, absorvendo o cheiro de canela da menina que há tanto tempo não via.

– Venha, Leo – Calipso se afastou alguns passos – me segure.

E ela caiu no vazio.

– Não! – ele tentou segurá-la, mas seus braços não se tocaram. Ele não a salvou. Exatamente como havia feito antes.

Ele precisava de Calipso. E precisava logo. Não queria se acostumar à distância.

Ele precisava do barco.

Notas finais
Minhas provas acabaram hoje!! Vou postar capítulos maiores, com mais frequência. Amo vocês! Comentem! :3