Como odiar o amor II

12 The unsaved and the savior


Notas iniciais
"Shots", Imagine Dragons.

POV Ricky

Ele resolveu deixar o sentimental para depois, até porque a ficha do que tinha acontecido ainda não tinha caído. Com algum do fôlego que ainda tinha, perguntou para Joseph enquanto viajavam pelo escuro:

– Por que está fazendo isso? – o fôlego acabou quase imediatamente. A viajem parecia muito com a que fizera com Nico, mas era mais sufocante.

– Te explico lá, garoto – ele também parecia salvar energias.

– Lá onde? – os pulmões de Ricky buscavam por ar, quase em desespero.

– Lá.

Ele até faria mais perguntas, mas começou a ficar tonto e teve a sensação que desmaiaria se abrisse a boca mais uma vez. Calou-se enquanto tentava não se enojar com a mão de Joseph segurando-o.

A dor da facada voltou. Ele gemeu e esticou o braço para checar a ferida nas costas: era funda, quase atravessava-lhe o corpo. Os acontecimentos começaram a atingi-lo.

Os amigos tentaram protege-lo, ele pode ver. Até mesmo Scott. E vê-los aflitos enquanto tentava ajudar... Ricky teve pena. Não queria que os amigos tivessem se preocupado tanto. Não sabia que eles teriam essa reação. Imaginou que teria doído menos se Nico tivesse dito “onde você estava? Leve o tampinha logo, anda. Não aguento mais”. E nem é por causa da facada.

Foi só pensar em facada que a ferida ardeu de novo. Claro que doía constantemente, afinal era uma maldita facada, mas tinha momentos em que a dor atacava como se ele estivesse recebendo um novo golpe no mesmo lugar.

De repente, tudo passou da escuridão total para uma escuridão menos escura, mas que em relação ao que tinha acabado de sair parecia uma claridade cegante.

Conforme foi se adaptando ao lugar e recebendo o tão esperado oxigênio, Ricky notou que estava em um quarto muito parecido com o inferno do quarto 304 do Orfanato Sarah Potter. Mas não era o mesmo, ele passara tempo o suficiente trancado lá para reconhece-lo de cara.

– Bem vindo de volta – Joseph abriu os braços.

– Não estou de volta. Esse não é o meu quarto – ele respondeu secamente.

– Como sabe? – Joseph sorriu, mas parecia nervoso.

– Eu passei metade da minha vida no 304. Posso desenhar cada rachadura da parede, cada mancha de sangue e, principalmente, cada maldita goteira no teto. Você sabia que chove muito na Inglaterra?

– Por que você acha que o quarto era no sótão e não no porão?

– Eu te odeio. E falando nisso, a facada foi desnecessária. Eu iria com você.

– Como se eu não soubesse disso – Joseph começou a andar pela sala – mas drama faz bem.

– Dor não faz bem. Eu estou com dor – Ricky reclamou – eu não gosto disso. A cada palavra que eu falo, a cada suspiro que eu tomo, eu sinto o mundo girar e meu rosto empalidecer. Eu preciso do meu poder, por favor, até eu me recuperar.

Joseph considerou a ideia por alguns segundos, mas riu.

– Garoto, eu até devolveria, mas eu preciso disso.

– O que você quer fazer comigo? Por que precisa de mim?

O mais velho sentou-se na cama velha e analisou os cintos de couro.

– Ricky, eu preciso que você seja sincero – ele parecia sério – o que sente por mim?

– Ódio. Raiva. Nojo. E não precisava pedir por sinceridade.

Joseph sorriu.

– Eu até gosto de você, garoto. Seu jeito desafiador é interessante – ele se levantou com um suspiro – mas você é um perigo para a humanidade. Você e seus amiguinhos semideuses. Eu e Sarah precisamos fazer o que ela começou e eu continuarei.

– O que houve com Sarah?

– Morreu no momento em que você fugiu. Foi punida por não ter cumprido sua missão.

– Punida? – Ricky assustou- se um pouco – por quem?

– Phobos e Deimos, é claro.

– É claro? Como assim, “é claro?” – Ricky provavelmente nunca esteve mais confuso – não tem nada de claro aqui! Você e a velha eram o que, escravos de Phobos e Deimos?

– Sente, acalme-se. Eu vou explicar – suas palavras eram calmas, mas seu olhar era mortal, e Ricky achou melhor sentar – bom, você foi um terror para Phobos e Deimos. Um semideus que não sente dor? Onde estaria o medo, o pânico, o desespero? Eles não podiam deixar ninguém fora do alcance deles. Então eles mataram seu pai – Joseph olhou para Ricky como se esperasse que ele fosse chorar ou ter um ataque, mas o garoto se controlou – e trouxeram-no para o orfanato quando tinha poucos dias de vida. Sua mãe não ficou feliz com a ideia, mas não era párea para os irmãos deuses, e tudo que pode fazer era te dar a memória de seus próprios poderes. De qualquer maneira, Phobos e Deimos fizeram um trato conosco: agiríamos como se você fosse normal, mas quando sua natureza começasse a aparecer, não o impediríamos. Só alimentaríamos seu ódio, sua raiva, cada vez mais e mais, para que você pudesse matar todos que apareciam em sua frente. E, sabe de uma coisa? Todos aqueles que você matou, cada um deles, era um semideus. Atraíamos eles para que você fizesse o resto.

Ricky não podia nem piscar. Encarava Joseph, perplexo com tudo que ouvira. Até a dor das costas havia sumido: Ricky finalmente entendera a sua própria história.

– Vocês me usavam... – ele conseguiu perguntar, sem desviar o olhar fixo – para matar semideuses?

– Sim – Joseph parecia orgulhoso – você era uma máquina de matar, facilitava tanto. E Phobos e Deimos ficavam satisfeitos, porque você tem um estilo de matar que ajuda-os muito. Você deixa a pessoa em pânico, desespero, medo. Então, já que eles não podia fazer você sentir isso, fizeram você fazê-lo nos outros.

– Joseph – Ricky ainda estava perplexo – eu matei mais de duzentas pessoas. Mais de duzentos semideuses. Talvez até quase trezentos.

– Sim. Incrível, não é?

Ricky finalmente desviou seu olhar para fixa-lo diretamente ao do mais velho.

– Como isso pode ser bom?! São semideuses! Você me forçou a matar semideuses! E ainda assim, depois de matar centenas deles, muitos deles me ajudaram... – Ricky pensou em Nico. E se tivesse o matado também?

– Ricky, você não precisa ficar assim – Joseph se aproximou – junte-se a mim. Você não terá de sofrer. Poderá matar quantos quiser, como quiser, e ter a imortalidade enquanto fizer seu trabalho, como os gêmeos prometeram a mim.

– Não! – Ricky levantou, e a dor da ferida voltou. Ele não conseguiu manter-se de pé e tombou no chão, forçando para que as lágrimas não escorressem.

Joseph aproximou-se dele e passou algo no machucado. Ricky não pode dizer o que, mas não protestou. Em poucos segundos, a espécie de pasta esquentou em suas costas, e a dor foi sumindo aos poucos. Ricky sentou-se no chão e olhou para o mais velho, desconfiado, enquanto este sorria. Ele passou a mão nas próprias costas: onde antes estava o machucado, jazia uma grande cicatriz fechada como se há anos.

– Eu tenho mais benefícios para te mostrar – Joseph ofereceu – coisas que mais ninguém tem e nunca terão, que ajudarão em cada momento que você precisar. Você só precisa me aceitar como parceiro.

– Eu tenho um irmão? – o pensamento veio à mente de Ricky. Sarah morrera quando ele fugiu, mas Joseph não... sua morte sim que teria sido um grande benefício.

– Não – o mais velho cerrou os olhos – mas tinha uma irmã. Como você acha que matávamos as semideusas?

– Tinha? – o detalhe ficara na cabeça do menino – como assim, tinha?

– Sua irmã morreu, Ricky. Douleur, sua irmã gêmea, morreu por insanidade, Ricky. Ah, desculpe-me: Enfer. — Douleur? Esse era o nome dela?- Nós a chamávamos de Carol, mas sim, Douleur era o nome dela, assim como funciona com você. Que diferença faz?, Ricky pensou. Ela está morta. Ricky estava tentando mesmo não chorar ou demostrar qualquer tipo de fraqueza às palavras de Joseph. Só continuou as perguntas como se nada o afetasse:- E o que você pretende fazer comigo agora?- Eu quer continuar o que tenho a fazer, por bem ou por mal – ele levanto uma espécie de coleira, mas sem corrente – decisão sua.- Por mal – Ricky insistiu – não vou passar para o seu lado – Ricky ainda pensava em Nico, Jill, Cori... Scott, um pouquinho... parte dele queria que eles continuassem a missão normalmente, não queria atrapalhá-los em algo tão importante. Mas, no fundo, ele se sentia egoísta, mas queria ser salvo, pois não suportaria voltar à vida de antes. Ou talvez a uma pior. Em um movimento rápido como uma águia, Joseph segurou Ricky pelo braço de um modo a o imobilizar, e conseguiu colocar a coleira em torno de seu pescoço, mesmo com o mais novo se debatendo. No instante em que foi solto, Ricky tentou arrancar a tira. — O que é isso? O que isso faz? – ele não conseguia tirar.- Isso – Joseph apertou um botão de um controle que estava em seu bolso. Ricky sentiu um choque e pulou, sem esperar aquilo.Era o limite. Ricky não podia segurar sua raiva nem por mais um segundo. Tentou usar seu poder sobre Joseph, tentou mais do que nunca. Cerrou os punhos com tamanha força que a ponta das unhas penetraram a pele. Direcionou todo o seu ódio para Joseph, o que não era difícil, mas não importava o que ele fizesse, não dava resultado.- Guarde seu esforço – ele disse, percebendo o que Ricky tentava fazer. E, com essas palavras, ele se retirou da sala, abrindo a porta com uma chave e levando-a consigo.- Guarde seu esforço? – Ricky murmurou. — Olá? – ele ouviu alguém atrás dele chamar. Virou-se: um garoto, talvez com a mesma idade de Nico, estava dentro do quarto – oi, sou Noah. Sabe me dizer como cheguei aqui, e principalmente, como sair daqui?Ricky encarava-o como se ele tivesse três cabeças.- Amigo? – Noah chamou.- Oi – ele respondeu baixinho – Eu sou Ricky – ele olhou ao redor, tentando perceber o que aconteceria. Qual era o plano de Joseph, afinal? – não queria ter chegado aqui e não sei como sair. Noah abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompido pelo grito de Ricky ao receber mais um choque, seguido de raiva. Estava quase voltando aos velhos modos de lidar com a raiva quando notou o que Joseph queria. Outro choque. Outro grito.- O que houve? – o outro se preocupou.Mais um choque, depois outro. Ricky queria matar Joseph, fazê-lo sofrer, tirar sangue dele com as próprias mãos.Controle-se, disse a si mesmo. Respire fundo. Aprenda a se controlar. Eu te ajudo a sair, mas me explique o que está acontecendo! – Noah afligiu-se. — Eu não sei como sair – Ricky pousou seus olhos nos dele – mas é o que você tem que fazer, rápido. — Mas o que... Outro choque. Ricky precisava ver Joseph sofrer. Queria devolver tudo que ele o fez passar. Queria mata-lo pelo que o mais velho fizera com ele, e pelo que ele fizera com todos aqueles semideuses. Mais um choque. Ricky precisava ver o sofrimento de Joseph.

Outro choque. Ricky precisava ver sofrimento.

Gargalhou em insanidade como há muito tempo não fazia e virou-se para Noah.

Ah..., pensou, mirando o outro com o olhar, melhor que ninguém venha tentar me ajudar.

.

POV Nico

A missão não parecia importar muito mais. Nico não desviava o pensamento de Ricky. O modo como havia ele sido levado o fazia estremecer.

Mas toda vez que se lembrava de Bianca, sentia-se culpado... era certo abandonar a missão para salvar um amigo, mesmo que isso significasse diminuir as chances de ter a irmã de volta?

Nico não queria ser levado a mal, até porque sentia saudades absurdas de Bianca, mas, no fundo, ela se fora há tanto tempo... e afinal, ela estava no tal “lugar melhor”, não é?

Bom, não era o caso de Ricky. Se tem um adjetivo impossível para usar para o lugar para onde ele foi, não importa qual seja esse lugar, esse adjetivo é “melhor”.

De qualquer jeito, cada vez que se encontrava em dúvida, Nico pensava:

“O que Bianca faria?”

Bianca não deixaria Nico se machucar, não enquanto tivesse algo a fazer que pudesse ajudar. Não, nunca. Ela o protegeria enquanto ainda fosse capaz de respirar. Nico seguiria esse exemplo.

Decidira que deixaria os amigos continuarem a missão. Alcançaria todos assim que voltasse. Com Ricky.

Afinal, era o que Bianca faria com seu pequeno Nico.

E Ricky nada mais era do que um pequeno Nico, sendo Nico sua grande Bianca.

Notas finais
talvez eu demore um tempão porque eu vou viajar :( Por favor comenteeeeem :3