Como odiar o amor II
3 Ricky
Notas iniciais
Nico simplesmente viajou nas sombras. Basicamente, foi simples assim. Ele não fazia ideia para onde estava indo, ele só estava. As lágrimas o confundiam. Embaçavam sua visão, ele podia sentir isso mesmo mergulhado em meio à escuridão.
Ia longe, sabia disso. Estava a um bom tempo enfiado na sombra.
Maldito bilhete.
Há quanto tempo não chorava desse jeito... enquanto escrevia, as lembranças voltaram-lhe à tona, cada uma atingindo-o como socos no estômago, tanto as ruins quanto as boas. Principalmente as boas.
Era como ar em uma caixa. Se você manter a mesma quantidade de ar, mas reduzir a caixa, a pressão aumenta. Por mais que você queira comprimir o ar, ele ainda existe, ainda ocupa espaço. E, quando chegar no seu limite, o espaço vai ser pequeno demais para aquele ar. Ele vai ter que sair. E toda aquela pressão liberada de repente pode machucar. O ar comprimido sairá com uma força e velocidade incríveis para ar.
E é apenas ar.
Imagine a dor que as lembranças não causam.
Nico começou a se sentir cansado e decidiu chegar ao seu aleatório destino, saindo da sombra. Logo, estava em um prédio velho, caindo aos pedaços. Olhou para os lados, perguntando-se se já tinha estado ali antes.
– Olá – cumprimentou alguém atrás dele – procurando algo?
Ele virou-se. Uma senhorinha o olhava com um caloroso sorriso.
– Não... – ele fechou os olhos – não sei. Pode me dizer onde estou?
– No Orfanato Sarah Potter – ele reconheceu o sotaque: britânico – eu sou Sarah Potter.
– Obrigado, mas, poderia ser menos específica?
O rosto dela tomou uma expressão confusa.
– O que quer dizer? Rua? Bairro?
– País? – ele sugeriu.
– Ora, estamos na Inglaterra, é claro – ela voltou a sorrir.
Os olhos dele se arregalaram e Nico se apoiou na parede.
– Okay – ele disse à si mesmo – não estou assim, tão longe. Achei que chegaria à China.
A expressão no rosto da doce senhora foi de pura confusão, como se pensasse que ele era louco. E foi impagável.
De qualquer maneira, ela voltou com o sorriso que Nico havia entendido ser bem frequente.
– O que faz aqui, meu anjo? E qual é seu nome?
– Nico, prazer – ele esticou a mão – eu vim aqui por acaso, mas gostaria de ficar por um tempo.
Ele precisava descansar, afinal. Fora difícil fazer a viagem com tantas distrações em sua cabeça. Não conseguiria voltar ao acampamento por um tempo.
– Você tem pais?
– Sim – ele respondeu, rápido, lembrando de Hades, mas pensou em Maria – mais ou menos – lembrou-se que o pai não era presente – não – e era imortal – é confuso.
– Percebi – Sarah afagou seu cabelo com um risinho – fique no quarto de Ricky, 304. Tenho a impressão de que se darão bem.
Ela andou devagar até um balcão velho e entregou uma chave enferrujada ao menino.
– Obrigado – ele agradeceu, tentando sorrir de modo tão aconchegante quanto a senhora – estou indo. Eu me viro.
Enquanto andava para longe, ouviu a velinha fazendo o tom mais alto de sua voz, que não era grande coisa:
– Dê uma chance ao menino, por favor. Ele precisa.
Ele virou-se, ainda andando, e piscou como resposta.
Dê uma chance, parte dele repetiu.
Como? O nome do garoto é Ricky. Eu automaticamente não gostei dele, a outra respondeu.
Dê uma chance, a outra repetiu.
E Nico começou a rir com a estupidez da discussão com ele mesmo.
.
O lugar era um labirinto. Nico estava levemente irritado.
Não, ele estava muito irritado.
Mas onde raios ficava o maldito quarto 304? Sinceramente! Ele já tinha andado de um lado para o outro, subido e descido cada degrau da escada empoeirada, mas não se achava. Os números não faziam sentido. Ele literalmente havia visto o quarto 303, e o seguinte era o 277.
Mas que sentido isso faz?
Ele dedicou uns cinquenta minutos, no mínimo, em sua procura. Não achava de jeito nenhum. Chegou a perguntar para uma garotinha que passava pelo corredor aonde ficava o quarto, mas ela balançou a cabeça, com os olhos arregalados, e saiu correndo sem dizer uma palavra. Nico teve vontade se correr atrás dela só para lhe dar um pescotapa. Mas seguiu em frente.
O último andar tinha escadas que davam a uma porta trancada. Ele se perguntou se talvez não fosse aquele o tal do quarto, mas a chave não abria, não devia ser. Ele já estava quase gritado quando viu uma telinha azul do lado da porta. Curioso, tocou-a, e depois de dois segundos, uma voz robótica anunciou:
Entrada autorizada.
E um barulho de tranca foi emitido. Era muita tecnologia para um lugar tão pobre. Será que era importante o suficiente para que todo o dinheiro fosse gasto naquilo? E porque Nico pode entrar? A máquina não deveria reconhecer e permitir a entrada de digitais conhecidas?
Um pensamento veio à sua cabeça e causou-lhe um arrepio.
E se não fosse para deixar alguém específico entrar, mas para não deixar alguém específico sair?
Ele engoliu seco. Respirou fundo. Tomando coragem, abriu a porta.
Deu de cara com um longo e escuro corredor e teve vontade de voltar atrás. Mas adentrou no lugar e começou a andar.
Em pouco tempo, se deu com outra porta e outra tela.
Digite seu nome.
Nico viu um teclado e escreveu:
Nico
A tela mudou:
Carregando...
Nico. Autorizado. Entrada autorizada há: menos de uma hora.
A porta abriu sozinha. O menino estava surpreso com a segurança do lugar. Nico hesitou, mas continuou a andar.
Em um minuto, mais ou menos, chegou à porta que esperava ser a última. Como não havia tela nem nada, apenas girou a chave, e finalmente, chegou a um quarto. Olhou a porta. O número 304 fora riscado na grossa madeira.
Ele entrou no cômodo e tentou lembrar do nome do companheiro de quarto.
– Olá? – como era? Era infantil. Timmy? Não, era com “R”... – Ricky? – lembrou-se – olá, Ricky? Está aí?
Uma risada soou a sua direita. Um garoto estava em uma pequena cama.
– A nova vítima chegou? – ele perguntou – vamos, parceiro, tire meu lençol. Ajude um novo amigo.
Nico se aproximou e obedeceu, com medo. Viu que ele se encontrava preso, como faziam com gente maluca em filmes, com aquelas espécies de cintos. Havia um em seu peito, um um pouco abaixo dos cotovelos e dois nas pernas. Ele usava um pijama que parecia existir a mais tempo que ele próprio.
– Agora me faça um favor maior – os olhos dele brilharam – me solte, parceiro.
– Vamos conversar antes – Nico sentou-se no chão. Ricky riu e concordou com a cabeça.
O garoto era sinistro.
Devia ter uns onze para doze anos, apenas. Sua pele era quase translúcida, como se ele nunca tivesse visto a luz do sol. Os cabelos escuros não eram longos, era como se tivessem sido raspados há uns meses e estivesse voltando a crescer do modo mais bagunçado o possível. As olheiras sob seus olhos davam a impressão de que ele não dormia há anos. E ele era magro como se não comesse por opção. Os olhos eram fundos e sem vida, mas cruéis.
Mas o pior de tudo era o sorriso.
Um sorriso fixo, maníaco, acompanhava sua expressão o tempo todo. Sua risada era fria.
Nico estava apavorado, mas tentou manter a calma.
– E sobre o que quer conversar, parceiro?
– Pare de me chamar assim. Meu nome é Nico.
– Nico – ele repetiu – que nome patético.
– Ricky não é muito melhor.
– Como se esse fosse mesmo meu nome.
– Não é? Porque te chamam assim, então?
– Porque todos amavam o Ricky. Todos precisavam do Ricky – ele sorriu – então tiveram que substitui-lo quando eu o matei.
Nico abriu a boca, mas o som não saía.
– Foi o meu primeiro – ele parecia orgulhoso – depois do segundo, me isolaram. Do terceiro, colocaram uma das portas pelas quais você passou. Do quarto, a outra. Do quinto, me amarraram e, atualmente, me deixam assim dia e noite, com apenas um companheiro de quarto para me ajudar a sobreviver. Mas quem não sobrevive – o sorriso dele aumentou – são eles.
– O que você faz com eles?
– Nada – Ricky parecia maravilhado – eles fazem tudo sozinhos. Pulam da janela, se enforcam com uma corda qualquer, acham uma lâmina por aí... eu continuo preso.
Nico precisava sair daquele quarto. Precisava sair daquele lugar. Precisava do acampamento.
– Eu me pergunto – Ricky disse, lenta e pausadamente – qual das opções você vai escolher.
Ele explodiu em uma gargalhada que transbordava loucura, e Nico olhou pela pequena janela do quarto com um certo desejo.
.
POV Jill
Faziam três dias desde que Nico havia ido embora. Ninguém estava preocupado, entretanto, ele voltaria. A certeza em relação a isso era surpreendente para quem não tem provas.
Ela resolveu visitar Leo, pela primeira vez desde que Nico sumiu.
O barulho no Bunker 9 era absurdo. Martelos, serras, parafusos, tantos sons que ela não reconhecia, tudo misturado e ampliado. Tantas coisas em sua visão. Ela ficou tonta no momento em que entrou.
– Leo? – gritou – Leo! – pareciam sussurros. Chegou perto de uma garota qualquer e berrou em seu ouvido – Preciso falar com Leo!
A menina levantou o dedão e correu. Um minuto depois, um elfo sujo e mais despenteado que o normal apareceu, guiado por ela. As meninas trocaram um olhar de “obrigada-de nada” e Jill puxou o quase irreconhecível Leo pela mão para a floresta.
– Quanto tempo você dá para esse troço ficar pronto?
– Uma semana no mínimo.
– Uma semana?! – Jill achou esse tempo longo demais – precisamos disso para ontem! Quanto demora para filhos do deus de construir coisas realmente construírem algo?
– Eu estou fazendo meu melhor – Leo pareceu ofendido – os chalés de Hefesto, Atena, Ares, Hécate entre outros deuses com nomes esquisitos estão trabalhando em conjunto para conseguir esse barco! Acha que é fácil fazer um barco mágico que tem modos de defesa, ataque, dormitório, banheiro, cozinha, espaços para lazer, manual de instruções para quatro semideuses de catorze anos e que ainda por cima voa? Você devia me agradecer por ser só uma semana!
– Nossa – Jill estava sem palavras – você está mesmo fazendo tudo isso? Achei que você fosse construir uma canoinha para se livrar disso e só...
– De jeito nenhum. Quero fazer o melhor.
– Ele vai mesmo voar?
Leo se mostrou empolgado. Os olhos brilharam.
– Aham!
– Porque está fazendo tudo isso?
A animação no rosto do mais velho foi substituída por um triste sorriso.
– Eu sei como é querer alguém de volta. Ter a chance para trazê-las deve ser a melhor sensação de todas. Eu quero que Nico consiga. Embaixo da alma fria, sinistra, assustadora, medonha...
Jill deu uma risada. Leo sorriu.
– ...ele é um bom menino. Gosto dele.
Jill abraçou o amigo.
– Você acha que conseguiremos?
– A missão de vocês não está clara agora, mas já que a maluca que escreveu vai acompanhar vocês, vai ser fácil saber o que fazer. Se vocês quiserem e confiarem em si mesmos, vocês conseguem.
– Quem eu estou abraçando e o que você fez com Leo?
O menino riu.
– Você quer uma resposta Leozada? Bom... pergunte de novo.
– Você acha que conseguiremos?
– Essa é a hora que eu digo algo sentimental e finjo que sim, mesmo sabendo que vamos todos morrer porque vocês não sabem o que está na profecia.
Ela riu e beijou a bochecha dele.
– Você me deixa menos nervosa. Obrigada.
Ela se virou e andou em direção ao seu chalé.
– E você me deixa nervoso – ele anunciou – me deixa trabalhar em paz, menina inconveniente!
Ela riu e olhou para trás. Leo sorria.
– Xô – ele disse, fazendo gestos com as mãos – vaza.
– Te vejo no Elísio, quando todos nós morrermos.
– Eu estarei no Tártaro, querida – ele se virou e entrou novamente no Bunker. – Te esperando!
Ela riu uma última vez e andou para o chalé, definitivamente dessa vez.
Fale com o autor