Notas iniciais
Pain is inevitable.

POV Nico

Ele não sabia o que fazer. Apenas observava as lágrimas do amigo deslizarem em sua bochecha, imóvel. Paralisado. Não podia deixar Joseph levá-lo, de jeito nenhum... mas como impedi-lo? Só porque Ricky não sentia dor não significava que era imortal.

Os outros semideuses estavam congelados também, mas por dentro, as reações eram outras. Ninguém, tinha uma relação com Ricky como Nico. Por eles, não fazia diferença tê-lo ou não na missão, mas eles não sabiam pelo que ele havia passado, eles não haviam sentido tal dor.

Sim, dor. Ricky era cheio de dor. De seus pés à sua cabeça, Ricky transbordava dor. Tanta dor que ele alcançava a insanidade. Talvez fosse por isso que não sentia dor, por falta de espaço.

Mas no momento em que Joseph apertou a adaga contra sua garganta, a dor deve ter sido insuportável.

Voltar às mãos daquele que por tanto tempo o maltratou e desprezou ou morrer nas mãos do mesmo, assistindo a vida que quase tivera em sua frente durante sua morte? Nico não podia imaginar-se em tal situação.

– Eu deixo você levá-lo – Scott disse, fazendo Nico arregalar o olho. Ele quase interrompeu o amigo, mas este continuou – se você nos vencer antes.

Scott arrancou do dedo um anel de ouro que Nico nunca nem havia notado e jogou-o no chão. Em um piscar de olhos, o objeto se transformou em uma bela lança, que o menino segurou com orgulho, parecendo animado por ter a chance de usá-la por uma primeira vez (Nico assumira que era a primeira vez, pois nunca havia visto a arma antes).

Jill imediatamente sacou seu arco e flecha, e Cori puxou duas belas adagas de bronze que Nico também nunca havia visto. Perguntou-se quantas coisas ele havia perdido ao ficar no orfanato.

Por fim, sacou sua espada negra, sua querida arma, e apontou para Joseph.

– Vocês estão em desvantagem – Joseph deu de ombros – cada um de vocês têm uma arma, para ataque. Eu tenho uma arma – ele balançou a adaga – e um escudo – apontou para Ricky – vamos, ataquem se quiserem. Eu posso me defender.

Mais lágrimas aflitas escorregavam pelo rosto de Ricky enquanto Joseph voltava a segurar a lâmina perto de sua garganta. O silêncio invadira o local.

Ouviu-se o barulho de Jill puxando a corda do arco devagar. Joseph posicionou Ricky na direção da flecha e riu.

– Posso lutar com vocês segurando o garoto – anunciou. Os olhos de Nico ferviam de raiva.

Ele levantou a espada com rapidez, e quase na mesma velocidade, Joseph puxou Ricky como escudo. Nico já havia começado a abaixar a espada quando viu o amigo à sua frente, e conseguiu desviar no último segundo ao ouvir o grito dele, abafado pela mão do mais velho.

Scott notou o momento de vulnerabilidade e bateu com o cabo na lança na cabeça de Joseph antes que ele parasse de se focar em Nico. Ele cambaleou para frente, meio zonzo, mas logo voltou à sua postura.

– Vocês vão precisar de mais do que uma lancinha para me derrotar – avisou, com desprezo. Nico avaliou o que Joseph poderia ser: um semideus muito poderoso? Um mortal com ajuda divina? Um monstro, talvez? Provável.

– Ai! – Joseph reclamou de repente, tirando a mão da boca de Ricky e balançando – filho da mãe, você me mordeu!

– Não se preocupem em me machucar, mas me tirem daqui, vivo de preferencia! – Ricky vomitou as palavras durante o pequeno tempo que Joseph levou para colocar a mão de novo em sua boca. Balançou a cabeça, como se precisasse dizer algo a mais, e depois de algumas tentativas, atirou as palavras – mas morto serve também!

Nico olhou para Jill e tentou captar seu olhar. A menina entendeu que devia fazer algo. Nico então levantou a espada mais uma vez, justamente para atrair a atenção de Joseph, que virou-se para ele instantaneamente. Entendendo o plano, Jill levantou sua arma e atirou a flecha nas costas de Joseph.

Nico quase sorriu, mas perdeu a vontade ao ver a flecha cair no chão sem penetrar a pele do mais velho.

– Como... – Jill balbuciou.

– Eu já disse – Joseph riu – vocês precisarão tentar mais. E eu ainda nem estou atacando.

– Como você espera nos atacar segurando uma pessoa? – Scott perguntou.

Ricky encarou-o com um olhar mortal, como quem diz “precisava perguntar?”. Depois, fechou os olhos, com força, imaginando o que viria.

– É muito simples – Joseph riu – eu tiro o poder de Ricky de não sentir dor...

– Você pode fazer isso? – Nico interrompeu-o, surpreso. Os olhos de Ricky estavam arregalados, demonstrando tanta surpresa quanto ele.

– Claro. E já fiz. Mas ele não deve se lembrar, porque ao usar, usava ao máximo, e ele não se lembrava do que tinha acontecido quando acordava.

Ricky piscou, confuso. Nico olhou ao redor: os amigos pareciam estar entendendo a crueldade de Joseph, e todos – até Scott – aparentavam começar a ter pena do mais novo.

– E depois de tirar a imunidade dele – Joseph continuou – eu faço isso.

Ele apertou o pescoço de Ricky, que imediatamente começou a tentar tirá-la, murmurando coisas como “pare, por favor”.

Nico reconhecia isso. Era o que tinha acontecido quando Ricky desmaiou na enfermaria.

Joseph soltou a mão do pescoço do mais novo que caiu de joelhos, tossindo. Os semideuses se aproximavam, mas Joseph levantou a adaga, ameaçando matar Ricky se alguém desse mais um passo.

– É isso que você faria? – Ricky caçoou – me estrangularia?

– Claro que não – ele respondeu – isso fui eu tirando seu poder temporariamente. Isso é o que eu faria.

Com essas palavras, ele afundou a adaga nas costas do mais novo, que por sua vez, soltou um agonizante grito de dor.

– Se chegarem perto, eu esfaqueio em algum local mortal – ele avisou, impedindo qualquer um de proteger o amigo.

– Pare com isso! – Nico gritou, sabendo que era o único modo de ajudar – Joseph, a gente faz qualquer coisa, mas não faça isso de novo, por favor!

– Só o que eu quero é levar o garoto!

– Por quê? – Ricky perguntou, tossindo sangue. Sua voz estava fraca – por que você precisa de mim?

– Você não entende? Não entendeu por que te maltrato? Você tem raiva de mim, Ricky, e quer me machucar. E não sabe controlar isso, não sabe controlar nada disso. Mas seu poderzinho não me afeta. Então vai para outra pessoa. Esse é o ponto de tudo isso, Ricky. Com dor o suficiente – ele sorriu – voc6e machuca os outros.

Joseph segurou com mais força no cabo da adaga e começou a girá-la dentro de Ricky, fazendo este gritar mais, de dor e ódio. Jill havia desviado olhar, com os olhos em lágrimas. Cori e Scott pareciam horrorizados e congelados.

E Nico sofria tanto vendo o amigo sofrer, sem poder se mexer.

Era melhor que ele sofresse muito agora para viver bem depois do que ele morrer. Não era?

O sangue escorria da boca de Ricky junto com o grito. Sua expressão era de pura dor.

– Joseph – ele tentou dizer – pare, por favor, eu vou com você... eu vou com você, eu juro... deixe-os em paz, não me faça machucá-los...

Ouvindo essas palavras, Joseph tirou a adaga do menor, que desabou no chão.

– Gente – Ricky disse, baixinho – eu vou com ele, não se preocupem... – ele deu um sorriso dócil – vocês não poderiam ter feito mais. Obrigado.

Não, isso não estava acontecendo. Não podia estar. Tudo passava tão rápido...

Joseph riu e levantou o mais novo.

– Boa sorte na missão. Não procurem por nós.

Em um piscar de olhos, Joseph sumiu, levando Ricky consigo.

– Não! – Nico mal teve tempo de gritar antes de ver o amigos ser levado. Correu para onde os dois estavam – Ricky! – sua voz falhava – não! – ele ajoelhou-se e desabou a chorar – Ricky, não...

Os outro semideuses se aproximaram, imóveis, ainda sem entender o que haviam presenciado.

Nico havia falhado com Ricky. Tinha conseguido levá-lo tão longe, só para jogá-lo novamente ao buraco de onde viera. Aliás, ele nem sabia se Joseph o levaria de volta para o orfanato. Não sabia o que Joseph era, o que queria, o que faria. Não sabia nada. Sabia que o amigo confiara nele, justamente nele, entre tantas pessoas que já passaram por sua vida que poderiam ajudá-lo, Ricky confiara em Nico. E Nico falhou.

De novo.

Nico falhou de novo. Com outra pessoa.

Depois de tanto tempo que demorou para confiar de novo em alguém e em si mesmo, tudo o que havia conquistado desmoronou.

Ricky fora embora.

Nico não sabia para onde ou para que. Não havia como achá-lo.

Sabia apenas que o mais novo sofreria.

“não poderiam ter feito mais”, ah, Ricky, Nico queria ter tido coragem de fazer tanto mais para te ajudar. Mas fora covarde. E falhara.

Mais uma vez, a coisa que Nico mais queria de todas era o colo da irmã. Mas havia algo diferente dessa vez.

Ele também queria a risada de Ricky.

Notas finais
Pois é, eu demorei um pouco... mals Comentem por favoor