Como odiar o amor II
10 Know your enemies
Notas iniciais
POV Ricky
Ricky estava no banho, tentando achar uma temperatura entre lava e neve, quando ouviu alguém bater à porta.
– Entre se quiser morrer – ele avisou.
– Não preciso entrar – era Nico – só quero avisar que a gente decolou e, se não tiverem ataques, o que é improvável, a gente vai chagar à terra ressecada rápido.
– Ah, eu senti o barco decolar. Eu quase fui fervido, e depois, congelado, por causa desse maldito tremor.
Nico riu um pouco antes de ir embora.
Ricky desistiu de ficar girando o registro feito um idiota e resolveu parar na temperatura menos neve que ele achou após alguns soquinhos no chuveiro. Congelar era levemente mais confortável que derreter.
Tomou um banho rápido, por costume, secou o cabelo como um cachorro e se enrolou na toalha. Olhou para o pijama que usava no orfanato, que estava no chão do banheiro, e, rindo, atirou-o da janelinha da sala.
Te vajo no inferno, pensou, vendo a roupa cair. Nunca pensou que pudesse sentir tanto ódio de um pedaço de pano.
Abriu uma fresta da porta, e depois de conferir que não tinha ninguém, saiu de fininho. Tudo bem, ele estava coberto, mas sua reputação ia ser despedaçada se alguém o visse enrolado na toalha ridícula que o tal de Leo havia deixado no banheiro. Ele correu para o corredor que lembrava ser onde os quartos de cada um estava. As portas tinham desenhos cuidadosamente pintados à mão. Ricky passou analisando cada um.
O primeiro tinha um coração branco com flechas vermelhas. Jill. O segundo tinha um sol com algumas notas musicais no centro. Cori. O terceiro tinha duas lanças vermelhas cruzadas. Scott. O quarto tinha uma caveira. Nico.
Ele já ia entrar quando notou uma quinta porta, onde estava escrito “para visitas inesperadas”. Ricky sorriu e se aproximou dessa última. Passou a mão na madeira, pensando em um jeito de marcar seu território, quando teve a ideia perfeita.
Ele mordeu a parte mais gordinha da mão esquerda com muita força. Geralmente não se machucava de propósito, mas a situação exigia isso. Foi apertando os dentes cada vez mais, sem sentir a menor dor, apenas uma sensação muito boa, mas não era isso que procurava. Ele procurava o gosto de sangue. Quando o gosto metálico atingiu sua língua, ele afastou a mão da boca a passou o dedo indicador no machucado. Levantou para a porta e escreveu a primeira letra, mas o sangue não foi o suficiente. Passou de novo e escreveu a letra seguinte, e de novo, de novo, de novo.
Afastou-se e observou seu nome escrito na porta de madeira em sangue. Não havia maneira melhor de representá-lo.
Algumas gotas escorriam do R, do K e do Y, o que dava um toque especial à coisa toda.
Saltitou para longe da porta, orgulhoso, e entrou no quarto de Nico sem nem bater, pois sabia que o amigo não estava lá. Haviam algumas roupas dobradas em um armário por ali, e Ricky bagunçou tudo procurando pela menor peça de roupa que houvesse ali.
No final da busca, o quarto estava uma zona, e Ricky havia vestido uma calça jeans preta que ficou ligeiramente folgada, o que não importava muito, pois havia achado um cinto. Ele vestia uma camiseta também preta, que passava bastante de sua cintura, mas a altura era, na verdade, bem aceitável. Ela tinha um desenho de uma caveira quebrada, que Ricky achou simplesmente incrível. E obviamente não estava de cueca, porque, cá entre nós, ele não se importava.
Ele foi para a sala de jantar, onde todos os amigos estavam sentados conversando. Os queixos de cada um, menos Nico, caíram ao verem Ricky entrar.
– Ah meus deuses – Jill comentou.
– Pois é – Scott respondeu.
– Estamos todos pensando a mesma coisa? – Cori perguntou. Jill e Scott concordaram com a cabeça sem tirar o olhar de Ricky.
– No que estamos pensando? – Ricky e Nico perguntaram em uníssono.
– Você está brincando? – Jill riu – ele é um mini você, Nico!
– É só olhar – Scott foi apontando enquanto falava – tudo dele pode ser reforçado, mas o cabelo bagunçado, a pele pálida, os olhos fundos, a expressão de vou-te-matar-enquanto-você-dorme, e agora para completar, as roupas! Como eu não tinha notado isso antes?
– Não é, não! – Nico levantou-se e ficou de pé ao lado de Ricky, comparando o que o amigo dissera – ele... ah... bem, ele não...
– Aceita que dói menos – Cori sugeriu.
– Eu sou um mini você! – Ricky se horrorizou – mais malvado, perverso, engraçado e bonito, mas um mini você!
Os outros semideuses não conseguiam parar de rir.
– Vamos mudar de assunto – Ricky e Nico disseram ao mesmo tempo, o que só aumentou as risadas – aah! – reclamaram juntos.
Scott estava vermelho e tossindo de tanto rir. Jill parecia muito concentrada para não explodir em gargalhadas, mas obviamente estava dando errado. Cori ria alto demais.
Ricky soube o que fazer para parar as risadas. Ele levantou a mão esquerda: a mão mordida.
Assim que viram o ferimento, os semideuses ficaram pálidos e o silêncio voltou.
– Como fez isso?
– Me mordi.
– Por quê?
– Por motivos. Mas agora que tenho a atenção de vocês, quem está pilotando o barco?
– Piloto automático – Jill respondeu , ainda meio em choque – foi só colocar a direção.
– Beleza. Vocês acham que a gente chega sem sofrer nenhum ataque?
– Difícil – Nico respondeu – nós já temos uns dois inimigos confirmados. A pessoa que controlou Leo e Joseph.
– Joseph? – Ricky se surpreendeu – por que Joseph?
Os outros semideuses também pareciam querer saber.
– Você falou que ele era imune ao seu poder. Desde que eu soube disso, soube que ele seria problema. E, depois, no almoço, quando você o desafiou, ele estava voltando para o nosso quarto normalmente, como se nós não tivéssemos literalmente sumido na frente dele. Joseph é algo.
– Eu preciso falar uma coisa que sei – Cori parecia envergonhada, e soltou as palavras como se nunca fosse ter outra chance – “Água gelada queima”... isso significa algo. Eu não sei por que não disse antes para vocês, mas é uma espécie de aviso de algum deus. Eu não queria preocupar vocês...
– Que deus? – Nico atirou a pergunta – que deus, Cori, você sabe?
Olhando para baixo, ela assentiu baixinho.
– Água gelada, Nico. O que é água muito gelada?
– Gelo – ele respondeu, dando de ombros.
– Sim, mas... – ela parecia realmente envergonhada por não ter dito nada aos amigos antes – como se chama o gelo que cai do céu?
– Granizo? – Scott tentou.
– Acho que ela se refere à neve – Jill comentou – não é?
– Quione?! – Nico bradou – não é possível!
Ricky não estava entendendo nada. Quem demônios era Quione? Uma deusa com nome de cereal não podia assustar Nico tanto.
– Sim – Cori confirmou – Quione. Pense: “água gelada”, neve. “Queima”, bom, a primeira coisa que vem na minha mente é fogo. Qual é o deus do fogo? Hefesto.
– Ela estava controlando Leo – Nico percebeu.
– Desculpe interromper – Ricky inclinou a cabeça para frente – quem é Quione?
– O capeta em forma divina – nico cuspiu as palavras, como se tivesse ódio.
– O que é muito irônico, se você pensar – Ricky mudou o peso de um pé para o outro – mas, sério, o que ela fez?
– Coisas ruins – Nico encerrou o assunto com uma expressão que Ricky ainda não o tinha visto assumir.
O silêncio invadiu a sala com um impacto tremendo enquanto Nico andava de um lado para o outro tentando absorver a informação que recebera. Ele passava a mão no cabelo, atordoado, como se lembrasse de cenas e histórias que queria esquecer.
– Tão ruins assim? – Ricky arriscou-se a perguntar.
– Não – Nico respondeu rápido – mas muito impactantes, com certeza. Eu odeio essa maldita imortalidade divina, um semideus devia ser capaz de matar um deus para o resto de toda a eternidade, mas não... a gente passa a vida lutando contra monstros e deuses que, malditos sejam, não morrem!
Todos os semideuses na sala respeitaram o mini ataque de Nico, mas, de repente, todos caíram no chão.
Literalmente. Todo mundo simplesmente caiu no chão.
– O que foi isso? – Scott alarmou-se, e foi o primeiro a levantar.
Vocês chagaram ao seu destino, a voz gravada de Leo soou no barco, boa sorte e não morram.
– Mas já? – Cori surpreendeu-se – a que velocidade isso viaja?
Muita, a voz de Leo respondeu.
– Isso é sensor de voz? –Nico testou.
Sim.
– E você tem a resposta para todas as perguntas?
Sim.
– O que fica maior quanto mais você tira?
Um buraco.
– O que fica mais molhado quanto mais seca?
Uma toalha.
– Quando uma porta não é uma porta?
Eu assisto essa série. Quando está entreaberta.
Ricky virou os olhos.
– Se eu conheço alguém com tempo livre demais, esse alguém é Leo.
– De qualquer maneira – Cori interrompeu – vamos sair e começar a busca?
– Não, espera, a última pergunta: o que todos têm, mas ninguém pode....
– Não fala! – Cori apertou as orelhas com as mãos – não cheguei nesse capítulo ainda!
Ricky encarava os amigos como se olhasse para um bando de malucos, o que se aproximava bastante da realidade.
– Eu não sei do que vocês estão falando, então eu vou dar o fora.
E, assim, ele saiu da sala.
.
POV Nico
– Vamos, gente – Nico sugeriu – a viagem não teve ataques nenhum, significa que a missão vais ser tranquila, né?
Não, definitivamente não. A viagem foi segura demais. Seguro demais é sempre motivo para desconfiar de algo, pelo menos para um semideus. Tinha algo muito errado, mas enquanto as coisas estavam tranquilas, era melhor a missão começar de uma vez.
– Você está certo – Jill concordou – vamos dar o fora daqui de uma vez e começar a procura por seja lá o que. Afinal, ainda não temos nenhum inimigo.
Assim que saíram da sala, se arrependeram de terem sido tão positivos o tempo todo, pois a cena que viram era perturbadora.
Joseph estava no barco, na frente deles, segurando Ricky, uma mão sobre sua boca e a outra segurando uma adaga perto à sua garganta.
– Pensem de novo, amiguinhos. Eu posso fazer um acordo: eu posso matar todos vocês e levar Ricky ou eu posso levar Ricky sem ter que matar todos vocês.
Os semideuses recuaram um passo, assustados.
– Esse é o tal de Joseph? – perguntou Scott.
– Sim – respondeu Nico baixinho, e depois elevando a voz – e se nós não aceitarmos nenhuma das duas opções?
Joseph sorriu e apertou a adaga contra a garganta de Ricky, fazendo este engasgar um pouco. Nico viu uma lágrima desesperada descer pela bochecha do amigo.
– Eu o mato.
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