Como o Fogo
11 Capítulo 10 - Jellal
Notas iniciais

20 de janeiro de 2015, Fronteira do México com E.U.A
– Querido, por favor, me prometa que vai tomar cuidado. – pediu a senhora exasperada.
– Prometo-te madre. – disse Jellal beijando as duas bochechas de sua mãe – Agora tenho que ir.
– Mas por que mi hijo tiene que ir? – os olhos castanhos adornados pelas rugas adquiridas pela idade e pelo árduo trabalho nas plantações de milho, começavam a lacrimejar e a despejar lágrimas que desciam pelas bochechas bronzeadas.
– Tu sabes que não é isso que quero para mi madre, nem para usted. Prometo que quando passar a fronteira, vou achar um emprego honestamente e quando tiver dinheiro suficiente, venho te buscar.
– Madre de Dios, por que não me deu uma menina prendada para ser uma fiel? – rogou a mulher olhando para o céu.
– Sei que a senhora prefere ter um filho aventureiro do que um prendado. – resmungou Jellal dando um meio sorriso sozinho, mas que logo sumiu ao ver a caminhonete velha estacionar em frente ao casebre de madeira em que moravam – Preciso ir agora madre, prometo que te ligo assim que passar a fronteira.
E com muito pesar no coração, Jellal se viu afastando-se a passos curtos da mãe, indo em direção a caminhonete com a pintura vermelha desbotada. Suspirou ao jogar sua pequena trouxa de roupas na caçamba do veículo, para logo imita-la e se aconchegar, mantendo-se escondido por debaixo da capa negra que jogaram por cima de sua cabeça.
Seria uma viajem longa e exaustiva, ele já previa isso, além de todos os riscos que passaria ao finalmente chegar a fila para cruzar a fronteira. Seu coração pulsava descontroladamente em seu peito só de imaginar a polícia pedindo para que a caminhonete encostasse para ter a devida revista. Mas batia cada vez mais forte, ao notar o quão perto estava de realizar um de seus sonhos.
– Vamos luego. – pode ouvir o motorista gritar impaciente para logo arrancar com a velha caminhonete em um rugido potente do motor e um tranco violento.
Jellal sentia tudo a sua volta chacoalhando ao extremo, sua cabeça entrando em contato diversas vezes com a superfície metálica enferrujada da caçamba. Sua vista antes nítida, ou ao menos no máximo do que se é possível de se enxergar no breu, começara a se tornar turva, tonta. Sentia-se fraco logo no início da viagem e não queria se imaginar no final desta. Estaria só o pó, pensando positivamente.
–Acho que vou vomitar. – resmungou Jellal para si mesmo enquanto colocava uma de suas mãos sobre a boca, numa tentativa de impedir que o refluxo saísse. O que não deu muito certo, já que quando Jellal estava quase normalizando seu estomago, a caminhonete freou bruscamente o fazendo colocar para fora tudo o que havia comido no café da manhã.
Sentia aquele gosto azedo na boca e o estomago vazio, a famosa tontura por falta de comida já estava se fazendo presente e, junto com o escasso oxigênio que Jellal tinha graças a manta preta que o cobria, fizeram com que o homem perdesse a consciência aos poucos, não antes de perceber uma claridade cegar sua debilitada visão e um forte puxão em suas pernas.
Seu corpo fora jogado sem nenhum cuidado contra o chão arenoso, onde continuara a ser arrastado por mais alguns minutos, que pareceram horas na cabeça do homem semiconsciente.
Seu nariz ardeu em busca de oxigênio, com o peito estufado e tossindo por causa do engasgo com a saliva, Jellal tentava assimilar o que estava acontecendo. Era muito cedo, e muito rápido, para que eles já tivessem passado a fronteira, ainda mais sem nenhum problema com os federais.
– O... que? – tentou perguntar enquanto sua visão se acostumava com a intensa luz do sol que banhava seu rosto sem nenhum pudor.
– Cale-te. – pode ouvir a grossa voz masculina ralhar – No estragues tudo agora, perro.
E, antes que Jellal conseguisse pronunciar mais alguma palavra, pressentiu o abrupto movimento que o fez perder a consciência com um maldito soco na cara.
Suas pálpebras pesavam e seu estomago clamava por comida.
Foi assim que Jellal finalmente recobrou a consciência e começou a vasculhar o estranho local onde se encontrava.
O desespero já estava se fazendo presente.
Junto com o martírio de não ter dado ouvidos a sua mãe, quando está lhe dissera que essa viagem não seria uma boa ideia. Uma péssima ideia na verdade.
E de fato não fora. Fora a ideia mais estupida que Jellal já conseguira colocar em sua cabeça oca de heroico aventureiro, na tentativa de ajudar sua família. A ideologia de sua ideia, em si, fora algo nobre. Porém é como dizem, fácil falar, difícil fazer. Mas o que dizer de um ser que clamava por intensas aventuras e o risco de viver sempre no limite?
Bem, acho que já deu parar imaginar que conselhos e advertências eram coisas que, se não fossem completamente ignoradas por ele, passavam despercebidas por seus ouvidos e seguiam com o vento até a janela aberta e sumiam na imensidão azul do céu.
E, agora, preso e amarrado a uma cadeira de madeira velha, dentro de alguma construção que se assemelhava a um casebre ou armazém abandonado, Jellal se colocava a chorar, sussurrou uma pequena reza, em busca de uma pequena esperança de que tudo isso não passasse de um tremendo mal entendido. Em busca de ajuda, pedindo um resgate rápido.
– Mira, Pablo. Parece que a princesinha finalmente acordou. – assustado, Jellal levantou a cabeça, olhando diretamente nos olhos negros do homem que, suspostamente, o ajudaria a fazer sua pequena expedição sem muitos problemas, mas que obviamente lhe trouxera um, e um bem grande.
– O que... O que...
– O que está acontecendo? — interrompeu o tal de Pablo – O que se sucedió? Aconteceu que seu guia turístico, achou alguém que pagaria bem mais do que você algum dia iria conseguir. E, como dinheiro é a única coisa confiável nos dias de hoje, já deu pra perceber o que aconteceu, né? Não me faça ter que explicar ou desenhar, isso tudo é uma grande perda de tempo.
– Mas... Eu...
– O que você tem a ver com tudo isso, deve estar se perguntando. Bem, vou ser um cara bonzinho e te explicar tudo direitinho. – começou a falar Pablo puxando uma cadeira, que estava sabe-se Deus onde naquele lugar, e sentar-se de frente para Jellal – Como deve saber, o México tem dezenas de traficantes e os Estado Unidos, milhares de revendedores e outros milhares de usuários.
– Não entendo... – confusão e medo se misturavam-se nos olhos do refém.
– Estamos te propondo um acordo meu caro amigo. Nos te ajudamos a entrar na América sem problemas e a ter uma vida digna de um rei e, em troca, você será o nosso fiel funcionário de boca, irá entrar com um carregamento de armas e mais alguns quilos de drogas.
– Não... Não...
– Não? É uma proposta muito pequena pra você garotão? Vejo que temos um cara muito ambicioso entre nós, rapazes. Que tal aumentarmos a oferta? Você faz tudo o que te mandamos e, em contrapartida, não damos os pedaços da sua adorável madre para os cachorros. – sorriu macabro ao ver os olhos arregalado de Jellal – O que me diz? Assim está o suficientemente bom para você, mi amigo?
– Você não vai fazer isso. – afirmou Jellal com a voz pesada – Nem sabe onde ela se encontra ou quem ela é.
– Que pagar pra ver garoto? – com os olhos semicerrados, Pablo se alevantou do seu assento, jogando a cadeira para um canto qualquer – Não se esqueça que seu guia te traiu, e ele sabe exatamente onde sua amada madre está, ou estava. Agarra la perra.
Suspirando em alivio, por estar afastado do hálito podre do homem, Jellal pregou seus olhos na porta, local onde Pablo aguardava sorridente a chegada de alguém, a tal perra talvez.
Fechando os olhos e negando com a cabeça, Jellal, sabia que aquilo tudo não se passava de alguma pegadinha. Tinha que ser uma pegadinha de mal gosto feita a mandado da mãe, tentando lhe dar uma lição de não abandonar seu lar e de manter não só os pés, mas como a cabeça também, no chão.
Mas todas as suas esperanças morreram ao ver sua mãe, amordaçada e amarrada, sendo tratada como um saco de lixo por aqueles homens.
E foi como um choque da realidade, que Jellal finalmente percebeu que Pablo não estava brincando, a aquilo não era uma preda. Era real.
Como o fato de sua mãe estar posta de joelhos, a sua frente, com uma arma mirada atrás de sua cabeça.
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