Como o Fogo
8 Capítulo 7 - Ezra
Notas iniciais

03 de novembro de 2005, Mississippi, E.U.A
Os primeiros raios solares da manhã invadiam o alvo quarto do hospital onde Ezra descansava depois do incidente com Simon. Sua cabeça repousava no travesseiro, pendendo para o lado, deixando seus cachos ruivos esparramados pelo tecido embranquecido da fronha hospitalar.
O rosto do ruivo estava inchado e cheio de hematomas roxos. Seu olho direito, que fora tanto apunhalado pelo punho de Simon, estava tão machucado que Ezra não conseguia abri-lo. Mais tarde o médico viera dizer que isso traria graves sequelas, como por exemplo, a perda de visão.
Mas o ruivo não se preocupava no quão deplorável a sua aparência estava, ou no fato de que perdera a visão do olho direito. Ficava se martirizando durante esses dois dias que estivera no hospital sobre como seria a reação de sua família, principalmente a de seu pai ao descobrir que seu primogênito era a tão conhecida aberração desprezada pela igreja.
Imaginava-se sendo expulso a ponta pés de casa, sendo xingado e humilhado pelas pessoas que mais amava. Perguntava-se que tipo de Deus era aquele que gostava de ver seus filhos, seus próprios filhos, sofrendo, matando uns aos outros. Na própria bíblia estava escrito que não deveríamos julgar uns aos outros, mas que deveríamos amar e respeitar o próximo, afinal de contas, somos todos irmãos perante Deus. Porém acontecia o contrario, ao invés do amor ser ensinado, o ódio era disseminado por aqueles que se auto julgavam a voz de Deus na Terra, ou simplesmente padres, pastores e ministros, como queria chamar.
Tinha acordado cedo naquele dia. Talvez falar que tinha acordado seja muito forte, já que Ezra nem tinha dormido a noite, pensando em como se explicaria para seus entes, sem que estes o culpassem depois por suas “escolhas”.
Repudiava o fato das pessoas acharem que isso era uma escolha, ou que só faziam isso para chamar atenção. Que tipo de pessoa escolheria ter uma vida onde seria mortalmente odiado pelos outros? Isso era loucura, ninguém aguentaria uma vida assim.
Pensando nisso, o menino deixou que algumas lágrimas saíssem de seus olhos, fazendo seu orbe direito comichar e arder. Soluços saiam de sua boca e faiam seu tronco tremer de dor. Com a mão esquerda Ezra tentou enxugar as lágrimas que saiam de seus olhos, mas não teve sucesso, já que com o mínimo movimento que fazia liberava espasmos de dor insuportáveis pelo seu corpo. E, obviamente, com o fio do soro ligado ao seu braço canhoto não tornava a ação mais fácil.
Continuou chorando por longos muitos, até suas lágrimas finalmente pararem de sair, restando somente seus gaguejos e soluços. Ouvira um leve toque na porta madeira, que logo fora aberta dando visão para uma enfermeira com vestes passadas e tão limpas e brancas quanto o resto daquele quarto de hospital.
– Vejo que esta acordado, querido. – começou ele lhe lançando um sorriso gentil enquanto se aproximava da cama onde o rapaz estava deitado – Trouxe seu café da manhã, coma tudo direitinho e em pouco tempo poderá ir pra casa.
Seus olhos eram de um caloroso castanho que brilhavam mais intensamente por causa das lentes finas do óculos de grau que usava, seus cabelos cor de mel estavam presos em um coque no alto de sua cabeça. Continuava com um sorriso dócil estampado em seus lábios finos, que eram coloridos por um brilho labial cor de rosa.
– Melancia. – Ezra falou sem pensar chamando a atenção da enfermeira que arqueou a sobrancelha direita, parando de ajeitar o suporte que servia como uma espécie de mesa em cima da cama.
– Disse algo querido? – perguntou ela olhando atentamente para o ruivo, que começava a ganhar uma coloração avermelhada. O que o deixou extremamente fofo.
– N-não. – gaguejou Ezra tentando disfarça suas bochechas coradas – Q-qual o seu n-nome?
– Oh, eu não lhe disse? – exclamou ela espantada depositando a bandeja coma comida do garoto no suporte – Me chamo Evergreen, mas pode me chamar de Ever. Todos me chamam assim.
– Meu nome é Ezra. – sussurrou o ruivo.
– Prazer em te conhecer querido, apesar de que seria bom se tivesse sido de outra forma. Agora coma, precisara de energia, tem bastante gente na sala de espera, impacientes para dar o horário de visita. Quando terminar a aperte o botão da cama que virei pegar a badeja. Nos vemos de pois, querido. – despediu-se Evergreen saidno do quarto.
Fazendo um pouco de esforço, Ezra se ajeitou na cama, até ficar em uma posição semelhante à de ficar sentado. Pegou com cuidado a colher e a dirigiu em direção ao iogurte natural, mergulhando-a no alimento cremoso e logo fazendo o caminho para sua boca. Refez a viagem quadro vezes até conseguir raspar a embalagem, indicando que o iogurte chegara ao fim. Ainda sentindo fome, mirou o pedaço de mamão que estava em um prato dividido com duas torradas. Comeu o mamão com avidez, não importando com a dor presente em seus braços.
Estava comendo a segunda torrada quando a porta do seu quarto abriu novamente. Esperava ser Evergreen para pegara a bandeja a avisar que o horário de visita tinha chego e que seus familiares estariam entrando em poucos segundos no quarto. Mas surpreendeu-se ao ver a figura de seu pai com uma feição nada agradável em seu rosto.
– Precisamos conversar Ezra. – falou Jack fechando a porta atrás de si e se aproximando do leito de seu filho sentando-se na poltrona que ficava do lado da cama – Há quanto tempo?
Ezra, não sabia o que dizer. Nunca pensara que seus pais ficariam sabendo de sua situação dessa forma. Queria poder sentar com eles na varanda de casa e lhes explicar com calma sobre tudo. Involuntariamente, lágrimas voltaram a sair de seus olhos, estas sendo mais intensas.
– Diga-me. – berrou seu pai levantando-se abruptamente do estofado duro e avançando no filho, que se encolhera na cama soluçando sofregamente, tentando se proteger.
– DESCULPEE!! – gritou Ezra soluçando – Eu nunca quis ser a desgraça da família. Não queria ter nascido assim, não queria ter nascido. Me desculpe, por favor me desculpe!!
– Ezra. – Jack o chamou – Ezra olhe para mim, estou mandando. Eu sou seu pai, menino irresponsável. Eu te criei, te dei amor e carinho pra receber em troca todas essa desconfiança? Que tipo de monstro você acha que eu sou? Diga-me, achou que eu iria te chutar de casa ao descobri que você é gay?
Agora ambos choravam.
Ezra tentava inutilmente parar de chorar, lutando contra os tremeliques de suas costas, quanto seu pai deixava as lagrimas caírem livremente, contornando seu rosto quadro com o maxilar travado.
– Ezra, há quanto tempo? – perguntou novamente.
– Desde sempre. – sussurrou o menino – Sempre preferi brincar com as bonecas da prima Canna do que com os carinhos que você me dava de presente. Sempre gostei de coisas de garota e o senhor sempre falava que isso era errado. Juro, juro que tentei mudar. Juro que pensei que isso seria uma fase e que já acabaria, mas não acabou. Me desculpe pai, por favor, me perdoe.
– Ezra, pare de chorar. Por favor, pare de chorar. Pare de pedir desculpas, não é sua culpa, não é culpa de ninguém. Mas olhe o seu estado garoto. Sabe o quanto sua mãe ficou preocupada com você? E se não tivesse sido na fazenda dos Mikazuchi? E se tivesse acontecido enquanto você voltava da escola? Ezra, você poderia ter sido espancado até a morte. – Jack estava desesperado, não sabia o que fazer apara acalmar seu filho, que chorava cada vez mais e se encolhia a cada palavra dita — Ez, eu sou seu pai. Estou aqui para o que der e vier. Estou aqui para te dar apoio em todas as decisões que você tomar, mas não pode continuar escondendo as coisas como acabou de fazer.
– Me desculpe, por favor. Eu só não queria que você e a mamãe me odiassem.
Secando as lágrimas e com um sorriso dócil nos lábios, Jack se sentou na cama de Ezra, o puxando cuidadosamente para seus braços, o circulando de forma protetora.
– Ez, entenda. Continuaremos te amando sempre, mesmo que você goste de garota ou de garoto, ou dos dois. Você sendo um menino ou uma menina, eu e sua mãe vamos sempre te amar, não importa o que aconteça.
Desesperado por carinho, o ruivo enroscou seu único braço bom em volta da cintura do pai, derramando todas as suas angustias junto das lágrimas.
Seus pais continuariam o amando, não o abandonariam.
Estava feliz, muito feliz.
Por favor, leiam as notas finais, é importante.
Fale com o autor