Como o Fogo

5 Capítulo 4 - Gray


Notas iniciais
Oi oi xentem Como vão? Espero que bem

03 de Março de 2005, Moscou, Rússia

A neve caia lenta e preguiçosamente na cidade de Moscou, formando um manto branco e fofo sobre a calçada e asfalto. Uma imagem bastante bonita para os turistas, porém muito perigosa para aqueles que não são acostumados a um país aos riscos do inverno.

O que era algo extremamente estranho, já que a Rússia não estava perto do inverno, mas sim no começo da primavera. E isso preocupava os cidadãos que se assustavam com a quantidade exorbitante de neve que tinham que tirar de suas calçadas e o asfalto congelado, que aumentava consideravelmente os acidentes de transito, já o contrário poderia ser dito do governo, que estava lucrando cada vez mais com os turistas indo e vindo cada vez mais fascinados com o cenário da cidade.

Porém, não eram todos que saiam lucrando com o repentino inverno na Rússia. Os mais pobres, por exemplo, sem condições de comprar roupas apropriadas ou até de conseguir uma moradia, que era o caso dos mendigos, morriam aos poucos, dia após dia. O governo fazia o máximo para conseguir esconder os corpos e acobertar as noticias sobre as mortes, já que isso não passaria uma boa imagem para Moscou.

E, em uma condição semelhante a essa, era que Gray vivia.

Não que o pequeno garoto de sete anos fosse morador de rua ou coisa do tipo, mas a instalação precária que o orfanato fornecia para as crianças que ali viviam, não era nem de longe boa ou suficiente para manter crianças e empregados. O que fez a proprietária, Kinana, demitir os empregados com muito pesar, poucos sensibilizados, continuaram a ajuda-la na administração do orfanato como voluntários.

Suspirando novamente e olhando pela janela do quarto, Gray observava a neve cair. Levou sua mão direita até o vidro que, ao entrar em contato com a pele do garoto, congelou, o fazendo afastar a mão apressadamente e a olhar assustado.

Não era a primeira vez que isso acontecia, mas de uns tempos pra cá estava começando a piorar. Não queria criar problemas para Kinana, tentava ao máximo esconder que algo estranho estava acontecendo consigo. Mas era assustador para ele que, tão novo, já tinha que arcar com grandes responsabilidades e suas consequências.

– Droga, droga. – resmungou ele correndo para o pequeno baú que se encontrava na frente de sua cama. Com cuidado abriu o mesmo e de lá tirou dois pares de luva, colocando-as em seguindo sentindo um pouco de alivio, que logo sumira ao perceber que as luvas cinza começavam a adquirir um tom azulado e os movimentos de seus dedos estavam ficando cada vez mais limitados.

– Gray, venha o jantar esta pronto. – Kinana entrou repentinamente no quarto do garoto o assustando que por reflexo jogou as luvas longe, que se quebraram ao caírem no chão – Brincando com gelo novamente? Você sabe que vai ficar doente se continuar com essas brincadeiras, por mais que você seja menos sensitivo ao frio que as outras crianças, isso não quer dizer que você poss...

A fala travara na garganta da mais velha, que quando se abaixara para limpar a bagunça que Gray havia feito, constatou que aquilo não era gelo puro, mas sim as luvas congeladas.

– Gray...

– Me desculpe, por favor. Não é minha culpa. Não quero te trazer problemas, mas, por favor, não me expulse daqui. Por favor, por favor, eu juro que não faço. Eu tento, mas, por favor, me deixe ficar. – lágrimas tentavam cair dos olhos do menino, mas só tentavam mesmo, pois assim que saiam de seus orbes, já congelavam, algumas ainda escapavam, caindo no chão e se estraçalhando, outras ficavam grudadas em seus cílios, dificultando sua visão.

Colocando as mãos sobre a boca, Kinana se afastara um pouco do menino assustada. Mas logo mudara de expressão quando notou que o desespero do garoto só aumentara quando Gray a sentiu se afastar.

– Gray. – chamou ela se aproximando dele e tentando passar a mão por seus cabelos negros em forma de carinho.

– NÃO SE APROXIME!! – gritou ele se afastando — Não quero te machucar.

O choro se intensificara cada vez mais, os soluços ficaram cada vez mais e mais altos, as costas do menino pulavam e tremiam. As lágrimas mais grossas e constantes congelavam rapidamente.

Com as pequenas e pálidas mãos, Gray tentou limpar seu rosto. Porém só piorou a situação, quando sua mão entrou em contato com as lágrimas, que se solidificaram formando uma grossa crosta de gelo, não conseguiu mais afasta-las, que ficaram grudadas aos olhos do menino.

– Gray, olhe para mim. – pediu Kinana com uma voz dócil – Você não vai me machucar, OK? Eu vou te ajudar, em nenhum momento eu iria te expulsar daqui. Estou aqui para te ajudar e as outras crianças também. Agora tira essas mãozinhas do rosto e me de aquele sorriso que só você sabe dar.

Balançando a cabeça negativamente e chorando cada vez mais, Gray dava passos para trás – Eu não consigo.

– Claro que sim, querido.

– NÃO DA! – berrou ele – Elas congelaram. Tudo que eu toco congela. Eu sou um monstro.

– Ei, ei. Pare com isso. Você não é um monstro só porque possui algo de diferente. Todos nós somos especiais de alguma forma, alguns com ações outros com dons, como você, Gray.

– Não quero ter esse dom então.

– Não é assim que as coisas funcionam querido. – respondeu Kinana se abaixando até ficar da altura da criança – Me espere aqui, vou trazer seu jantar e um pouco de agua quente. Tente se acalmar enquanto isso.

Acenando positivamente com a cabeça e parando se chorar, só restando os incômodos soluços, Gray rumou para sua cama, esbarrando-se nos poucos objetos que decoravam o quarto. Respirando fundo, quando achou a cama e se sentou nela, o menino tentou se acalmar. Pensando positivamente que Kinana iria realmente trazer o que lhe fora prometido e não aparecer no quarto com policias o mandando para fora. Tal pensamento fez com que sua respiração ficasse mais descompassada e lágrimas teimassem em sair de seus olhos.

O tempo foi passando e nada de Kinana aparecer novamente, os braços de Gray já estavam cansados e começavam a ficar doloridos por causa da posição. Já desesperado com a demora da mulher, o moreno tentava desgrudar os mãos na base da força.

– Gray. – gritou Kinana assim que entrou no quarto – Não faça isso, vai acabar se macucando e ficando até cego, falei para me esperar não falei?

Assentindo com a cabeça, a criança parou de se debater.

– OK, agora eu vou passar um pouco de agua no seu rosto. Não se assuste. Fique com o corpo um pouco inclinado para frente, vai ter uma bacia no seu colo. Um, dois, três e... Já. – Falou Kinana despejando um pouco de agua no rosto do menino que grunhiu ao sentir o agua quente entrar em contato com sua pele fria – Consegue afastar as mãos agora?

– Mais ou menos. – respondeu ele se preparando para Kinana jogar mais um pouco de agua em seu rosto.

– E agora? – perguntou ele após jogar pela segunda vez a agua, vendo que o menino conseguiu afastar as mãos dos olhos – Pronto. Agora seque esse rosto, temos que conversar.

– Mas e se a toalha ficar grudada no meu rosto também?

– É só você tomar cuidado, não esfregar com muita força, mas com suavidade. Eu vou ficar te esperando aqui. – sorriu a mais velha vendo Gray se distanciar.

Chegando ao banheiro, Gray pegou a toalha com o máximo de cuidado que possuía, tentando ao máximo se concentrar em não congelar o tecido felpudo em suas mãos. Com movimentos lentos e calculados, o menino secou o rosto. No final, feliz por finalmente ter conseguido fazer algo sem congelar o objeto, Gray se distraiu e elevou as mãos para o alto em forma de comemoração. Assustado com o repentino frio que sentira no cômodo, Gray olhou a redor, para constatar que o banheiro todo estava congelado.

– Droga! – gritou ele pela terceira vez naquela tarde.

Kinana que estava no quarto, se assustou com o grito que o menino soltara, pronta para correr na direção em que Gray estava se espantou mais uma vez quando a janela antes fechada com o vidro devidamente limpo de arranhões se espatifou quebrando o vidro e deixando o forte vento entrar no quarto.

– Mas o que..? – correndo para a janela, a mais velha viu o quão caótica estava à vista do lado de fora. A neve que antes caia lenta e tranquilamente, agora virara uma tempestade, o vento gélido que soprava fazia barulhos amedrontadores e Kinana não duvidava que ele estivesse forte o suficiente para fazer desastres na cidade. Perdida em pensamentos, Kinana fora acordada com o barulho de algo pesado caindo no andar de baixo e os gritos das crianças desesperadas – As crianças!

Exasperada, Kinana correu para o andar debaixo sendo surpreendida pela quantidade de neve que entrava pela porta de frente, preocupada com as crianças e os amigos que estavam na cozinha, a mulher, que estava distraída pensando na segurança dos outros, não percebera que os degraus da escada estavam congelados e com um passo em falso escorregou, caindo rolando pela escada e batendo a cabeça no ultimo degrau tento como ultima vista antes de perder a consciência o lustre congelado no teto.

Gray, que continuava no banheiro, olhando para as paredes e teto com temor, ficou desligado do que acontecia ao seu redor. Observando suas mãos, o menino pode ver pequenas gotículas cristalinas saindo de seus dedos. Os movimentando de um lado para o outro, faziam a fascinação de estar fazendo sua própria magica, por assim dizer, aumentar.

– Kinana, você tem que ver isso. – gritou ele saindo correndo do banheiro e indo em direção ao quarto – Kinana?

Assustado com a visão que tivera do quarto, da janela quebrada, a neve e o vento forte entrando pela mesma e as paredes do quarto congeladas juntamente com chão, fez com que Gray ficasse mais preocupado com a mulher mais velha.

– Kinana. — chamou ele mais uma vez quando saiu do quarto e andou em direção as escadas, parando no topo ao ter a visão da mulher que o criou estirada no chão com o rosto virado para a porta e um rastro de sangue que saia de sua cabeça marcando a trajetória do inicio da queda até o final.

Com a respiração presa no peito e o choro querendo voltar, Gray desceu as escadas cuidadosamente, se segurando no corrimão.

– Kinana? – murmurou ele com a voz manhosa.

Terminando de descer a escada, o menino andou a passos lentos e curtos ate o corpo da mulher desacordada. Lágrimas voltaram a sair de seus olhos, estas agora sendo de uma mistura cristalina avermelhada, que cortavam a pele quando deslizavam livremente pelo rosto da criança.

Com cuidado e com as mãos tremendo, tentou se aproxima de Kinana e toca-la sem causar grandes estragos, quando obteve sucesso em tocar na pele frigida da mulher, Gray correu para abraça-la.

– Kinana, me perdoa, por favor. – a cada lágrima derramada pelo garoto, ele apertava cada vez mais o abraço, tentando ao máximo sentir o calor humano que Kinana passava para outras crianças. Tentou se lembrar dos momentos felizes que eles possuíam, como há três anos quando o orfanato ainda tinha dinheiro para bancar os empregados e eles foram acampar, Gray ainda se lembrava da alegria de ver os primeiros vagalumes começarem a iluminar a quente noite de junho. Ou quando ela tentou ensinar as crianças a fazer bonecos de neve quando o inverno acabara de chegar, mas que não deu muito certo, já que Gray se envolvera em uma briga com os garotos mais velhos do orfanato, fazendo Kinana ficar nervosa e castiga-los.

Em meio a tantas lembranças felizes que Gray possuía com a mulher, o som de algo se partindo no meio o despertou do mundo dos sonhos. Assustado, olhou para baixo, vendo a pele clara de Kinana tomar uma cor azulada e os lábios desta, começarem a ficar roxos.

– Não, não, não. – começou a murmurar desesperado tentando sacudi-la. Abraço-a mais uma vez tentando passar o calor do seu corpo para o dela, tentou se agarrar a pequena esperança de que conseguiria salvar sua mãe de criação. Só que, com o aumento da força do abraço no corpo frio da mulher, o processo de congelação que Gray fazia nas coisas quando as tocava, avançou, fazendo com o que corpo, agora congelado de Kinana, partisse aos pedaços nos braços da pequena criança que olhava para tudo aquilo com os olhos arregalados.

Lágrimas misturadas ao sangue de Gray pararam de cair de súbito quando este jogou a cabeça para trás soltando um grito doloroso, tentando fazer com que a dor que alastrava seu coração sumisse.

Lá fora, a tempestade continuava forte e devastadora, agora destruindo casas e congelando cada vez mais as ruas, mantendo pessoas presas dentro de seus carros com os pneus congelados ao asfalto. O desespero era algo mutuou, mães agarravam-se as suas crianças já se preparando para o pior, homens deixavam de lado a sua tão “orgulhosa masculinidade” e choravam feito crianças.

Foi quando, de repente, para não se falar do nada, a tempestade se dissipou, dando lugar ao cenário de uma cidade devastada pela neve. As pessoas saiam de seus carros ou dos comércios em que se abrigavam com cautela, suspirando em alivio ao perceberem que a tempestade tinha ido embora. Porém esse último suspiro voltou sugando todo o ar que as pessoas possuíam quando voltaram sua atenção para o pequeno morro onde o orfanato se localizava.

Uma enorme massa branca azulada flutuava em cima da construção precária. Era como se alguém estivesse controlando a tempestade, a fazendo se juntar e formar aquela grande bola de neve.

– Mas que porra é aquela? – sussurrou um homem qualquer.

A tensão ficava cada vez mais presente no ar, foi quando a bola se moveu, se encolheu para ser mais exata, e foi se encolhendo e encolhendo cada vez mais, até que finalmente ela explodiu, destruindo a precária casa que estava por baixo e tirando gritos de todos aqueles que presenciaram a cena.

Na manha seguinte, todos os jornais da região falavam sobre o estranho acontecimento e prestavam luto por aqueles que estavam dentro do orfanato, a pericia deu sua palavra de que nenhum dos órfãos ou voluntários havia sobrevivido, porém com a contagem dos corpos e os documentos das crianças que ali moravam, dois corpos foram dados como desaparecidos.

O da dona, Kinana Mi’Lck, e de um órfão, Gray Fullbuster.

– Os corpos encontrados estavam em uma estranha condição, quase como se tivessem sido presos ao local. A policia ainda investiga o suposto acidente. E quanto aos dois desaparecidos, esperamos que eles estejam bem, onde quer que tenham conseguido abrigo. – finalizou o jornalista com extremo pesar a reportagem – E agora vamos à previsão do tempo, onde teremos uma semana ensolarada.

Notas finais
Hey, hey se você chegou até aqui não se esqueça de comentar, favoritar e recomendar pros migos a fic. Espero de coração que vocês tenham gostado do capítulo e quem quiser que eu faça a brincadeira escreva aqui em baixo que topa e se quiser mande ideias, isso ajuda muito. Peixos Peixosos Pros Noujentos da Mi-san