Como o Fogo
13 Capítulo 12 - Erza
Notas iniciais

20 de Janeiro de 2015, New York, E.U.A
Por lei e por respeito, é dito que, quando um homem ou uma mulher opta pela mudança de sexo, se por sua escolha, o nome jurídico deve ser esquecido e, no lugar deste, seu nome social dever ser usado.
Porém, esse pequeno (grande) detalhe, é completamente esquecido por aqueles que julgam como errado, a desobediência perante a ordem divina das coisas.
E era assim que a vida de Ezra, agora Erza, virara.
A falta de respeito e o preconceito lhe jogados na cara por aqueles que ela julgou como confiáveis e próximos, tornaram-se frequentes em seu cotidiano quando completara seus dezessete anos e decidira, junto de seus pais, que um corpo masculino não era algo para si.
E Erza acabara se acostumando com isso, coisa que, em hipótese alguma, nunca deveria ter acontecido. Mas era muito difícil e doloroso ter que lutar contra pessoas queridas e seus princípios arcaicos.
A solução mais fácil era desistir. Deixar que a vida fluísse como um pequeno córrego em busca de sua desembocadura no mar, com calma e paciência – e esperança de que um dia tudo iria melhorar.
Mas seu pequeno e doce coração pulsava fortemente em seu peito, a avisando de que esse dia nunca iria chegar. E ele sangrava toda vez que Erza encostava sua cabeça no travesseiro, espalhando suas madeixas alaranjadas pelo decorrer do tecido macio, e lembranças de sua infância e adolescência percorriam seu cérebro como uma fita de um filme antigo qualquer.
Eram tão boas as lembranças. Sua mãe varrendo a casa e cantarolando uma canção country qualquer, seu pai descarregando fardos de feno e sempre lançando o mesmo olhar apaixonado para sua mãe durante anos. A torta de maçã que sua mãe fazia todos os finais de semana e o obrigava (quando menino) a levar para a fazenda ao lado.
A fazendo dos Mikazuchi.
Ainda sentia o vento lhe soprar os cachos ruivos sempre a abria o pequeno portão para adentar no terreno vizinho. Conseguia ouvir os berros estridentes de felicidade que Kagura soltava toda vez que o via passar pela propriedade. Do Sr. Anthony a cumprimentando com um sorriso e um aceno de mão. E Simon...
Sua primeira paixonite e sua primeira decepção.
E que decepção.
Seu coração nunca doera tanto como naquele dia, nem mesmo quando Erza presenciou o ataque cardíaco que Sayla tivera, causando sua morte. Nunca conhecera bem a matriarca Mikazuchi, já que esta sempre se encontrava fora da fazenda, mas nunca deixou de ouvir a quão bonita e gentil ela era – afinal de contas fora Sayla quem fizera seu primeiro vestido.
Eram tantas lembranças.
Boas e ruins. Mas que moldaram o que o mundo conhece hoje como Erza Scarllet.
– Erza, você esta pronta? – perguntou Hades entrando no camarim da ruiva, que se olhava no espelho, deixando as lágrimas escorrerem livremente por sua face bronzeada.
– Sim. – respondeu ela limpando o rosto rapidamente e se alevantando e saindo de frente da penteadeira, dando uma rodadinha logo em seguida, mostrando-se para Hades – Como estou?
– Linda, como sempre. – elogiou ele com um singelo sorriso no rosto — E vai ficar mais ainda quando conseguir todo o dinheiro e sair dessa vida miserável.
– Hades...
– Erza, eu sei que você realmente gosta do que estava fazendo. Mas isso não é vida pra uma mulher comum. E você não é uma simples mulher comum, você é especial e precisa de um lugar especial. Essa não é uma vida merecida para alguém como você. – interrompeu ele segurando nas mãos suaves com as unhas impecavelmente pintadas de vermelho – Você consegue algo melhor que isso. Quem sabe não se case com um galã de novela mexicana e termine vivendo em uma casa com duas crianças melequentas correndo de um lado para o outro?
– Hades... – gaguejou ela – Isso é o que eu mais quero. Mas você sabe que não é assim tão fácil. O destino...
– Para com essa desculpa de destino mulher. É você quem trilha seu próprio caminho. Portanto, você conseguir esse maldito dinheiro, terminar com aquela maldita cirurgia e ser a mulher mais linda e feliz desse mundo medíocre. – terminou Hades acariciando o rosto de Erza, secando a lágrima solitária que saíra – Agora saia daqui e vá mexer com a cabeça de todos naquela plateia.
Acenando positivamente com a cabeça, Erza passou delicadamente a ponta dos dedos por debaixo dos os olhos e, soltando um suspiro tentando controlara a enorme vontade de chorar, ela soltou um sorriso para Hades e saiu caminhando calmamente para fora do camarim pensando no porque estava fazendo aquilo, e sorrindo ainda mais ao lembrar-se do motivo.
O caminho do seu camarim até o palco não era comprido, mas aquela roupa colada não estava ajudando, “Por quê raios, entre tantas roupas, eu tive que escolher essa bendita porcaria?”.
– Faixa dois. – falou ela apontando para o roadie que se comunicava loucamente com todos, por um pequeno rádio – Por favor. Obrigada.
Concluiu ela sorrindo gentilmente para o homem, que corou violentamente quando esta virou-se de costas e saíra caminhando, fazendo seu quadril dar um leve balançar, simulando um rebolado.
Oras essas, ela era uma mulher na flor dos seus vinte e cinco anos, e o coordenador de palco não era de se jogar fora.
Chegando na coxia do palco, Erza visualizou o público de hoje. Percebendo que a casa estava cheia, não como alguns meses atrás, mas estava cheia.
– Dois minutos Erza. – falou-lhe Kanna, aparecendo de supetão de assustando a ruiva, que colocara a mão sobre o peito esquerdo dramatizando a situação – Sem drama, ajeite-se logo. Hades vai te chamar agora.
– Mas não eram dois minutos? – perguntou a ruiva indignada.
– Mudei de ideia. – sorriu a morena mandando uma piscadela para a amiga e a puxando para o centro, onde a cortina iria se dividir e dar a imagem da ruiva para a plateia – Merda e arrasa ruiva.
Acenando positivamente com a cabeça, Erza sentiu a familiar sensação do frio na barriga e as borboletas lhe subindo a boca do estomago. A paixão por fazer aquilo o que mais gosta, não se importando com o retorno financeiro ou com o que os outros pensariam dela.
Ajeitou-se, assumindo a pose de início, sem antes conferir se suas roupas estavam nos conformes. Passou as mãos bronzeadas pelos fios ruivos, que desciam pelas costas afeminadas como labaredas do mais puro fogo, os bagunçando. Dando lhe um ar sexy e selvagem, mas sem deixar de transparecer sua inocência e gentileza.
Sentiu a aspereza da luva vermelha de encontro com a pouca pele exposta. Suspirou mais uma vez, sentindo o espartilho lhe esmagar o tronco, se preparando a noite onde deixaria sua real identidade, para assumir o seu alter ego mais desejado.
– E sem mais delongas, uma salva de palmas para Red. – pode ouvir Hades a chamando, como a cegueira repentina de quando as cortinas eram apertas e os holofotes eram direcionados para seu rosto.
Não pode deixar de sorrir com isso, iniciando sua apresentação, a mais perfeita e delicada dança. Não se esquecendo da dublagem que deixa tudo mais fantasioso.
Afinal de contas ela era...
Red, a prodígio nas apresentações burlesques de New York.
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