Como dizer adeus em robô
18 Hermione vs. Hermione
Notas iniciais
Então, como explicar para quem não estava lá? Viagens no tempo e bruxaria nunca combinaram e nenhum de nós parecia acreditar no que estava acontecendo, mas tanta coisa louca já tinha acontecido em Hogwarts que aquele parecia ser só mais um dia comum.
A ideia veio de Pamela. Ela e Zabini tinham roubado um livro do estoque particular de Sutcliffe. Empoeirado, velho, que no meio das páginas que não tinham sido devoradas por traças, falava de um ritual para ver o futuro.
Estávamos na Sala da Presidência, o que sinceramente não me agradava muito, por motivos óbvios.
— Velhos amigos, novos amigos, um antigo amor, um novo amor — eu li no livro, fazendo careta. — É isso?
— Parece ridículo — Malfoy dissera ao meu lado.
— Parece perca de tempo — concordei.
— Bom, eu preciso de respostas — Pansy deu de ombros, tirando o livro da minha mão.
— Sem sacrificar virgens? — Zabini brincou do nosso lado. Nós três o olhamos, sérios. Ele ficou sem graça.
— É por isso que estou aqui? Novos amigos? — eu peguei o livro de volta.
— E um novo amor — Pansy disse, apontando para Draco e eu.
Nós dois nos olhamos e rimos. Pansy revirou os olhos. Blaise colocou a mão na boca, segurando o riso.
— Nós terminamos, não sei se esteve em Hogwarts nas últimas semanas — respondi.
— Ah, por favor, vocês nunca vão acabar de verdade — ela respondeu, jogando os cabelos castanhos para trás. Elegante, ela se sentou no chão, colocando o livro na frente dela, esperando nossa reação — E eu preciso de vocês... eu preciso saber...
Draco e eu olhamos para Zabini, que deu de ombros.
— Parece loucura, eu sei, mas... qual é, vocês não querem saber como vai ser daqui para frente? — ele respondeu, sincero.
Se eu quero saber? Aquela pergunta me intrigava. Valia a pena saber? Eu vou gostar do que vou ver?
Draco foi o primeiro a se manifestar.
— Foda-se, o que tenho a perder? — ele respondeu, sentando-se ao lado de Pansy, que sorriu.
— Mione? — ela chamou. Os três ficaram me olhando, esperando.
Olhei Draco sentado no chão. Estava irritada desde que ele terminou comigo e estava evitando tanto encontrá-lo que nem nos mesmos corredores eu passava mais. Inclusive, o Mapa do Maroto nunca foi tão útil. Eu precisava fazer aquilo, porque sentia que se não desfizesse os laços afetivos, faria nós o resto da vida. E doía. A história toda me doía.
Será que ele fazia parte do meu futuro? Será que éramos amigos? Será que conseguiríamos superar tudo aquilo e seríamos felizes?
Pensar no futuro me dava calafrios, mas eu também não queria mais pensar no que seríamos se Draco não tivesse decidido que éramos muito melhor sozinhos... e que ele era melhor sozinho.
Bom, todo mundo sabia que ele não era.
Me sentei no chão calmamente e Blaise se sentou ao meu lado, entre Draco e eu.
Pansy nos fez dar as mãos e fechar os olhos, enquanto ela pronunciava algumas palavras em uma língua que eu não conhecia.
Droga, eu estava obviamente participando de um ritual de magia negra.
— O que você quis dizer com não acabamos de verdade? — Draco perguntou, de repente. Eu abri o olho instantaneamente e ele estava olhando para Pansy, que estava concentrada.
— Você acha que vocês terminaram de verdade? — ela perguntou, quase que retoricamente.
— Acho — ele respondeu, firme.
— Acha? — eu perguntei, sem pensar.
— Quer dizer... — Draco tentou se corrigir, gaguejando. — Não sei. Você acha que não?
Eu olhei para ele. Não sabia ao certo responder e um filme se passou pela minha cabeça. Eu estava tão magoada com ele, aquilo tinha acabado comigo e custava para mim admitir que estava doendo.
— Eu não sei — admiti.
Draco parecia triste, de repente.
— Se quer saber minha opinião — Zabini pigarreou ao meu lado — Muita água ainda vai passar por essa ponte. E eu não acho justo falar que é o fim... E também, nós adoramos vocês!
— Quando vocês estavam juntos — Pansy corrigiu, abrindo os olhos. Só naquela hora que eu percebi que ela era a única que estava com os olhos fechados ainda – Mesmo sabendo só depois... O que, para ser sincera, nunca perdoei.
— Me desculpe — Draco e eu respondemos em uníssono.
— E agora vocês declararam guerra um contra o outro de novo... — Zabini começou falar, mas foi interrompido.
— Não declaramos guerra! – nós dois protestamos automaticamente. Draco me olhara, curioso, e eu, irritada.
Zabini suspirou e respondeu, em um tom quase debochado:
— O que quero dizer é que em todos esses anos não conheci alguém que mexesse tanto com o Malfoy quanto a Granger faz. E é por isso que eu acho que não acabou.
Olhei para Draco e talvez ele estivesse fazendo muito esforço para não dar um soco no melhor amigo.
— Blaise, não vá por esse caminho — Draco avisou.
— Eu preciso que vocês se concentrem — Pansy falou antes que Blaise pudesse responder. Ela tinha voltado a fechar os olhos.
— Eu não tenho nada a ver com isso mais — eu retruquei para Zabini.
— Você bem que queria... — Zabini respondeu, sútil.
— Por que estamos discutindo minha vida amorosa? — Draco por fim falou. Pansy riu.
— Você quis saber!
— Agora eu quero que vocês parem de falar! — ele respondeu, olhando-a irritado.
Pansy ia responder, mas mudou de ideia: um feixe luminoso saiu do livro velho de Sutcliffe. A poeira do livro estranhamente formou um pequeno redemoinho com as luzes saindo em frenesi. Todas as janelas da Sala da Presidência se abriram com um vento forte, fazendo quadros que estavam pendurados caírem, vasos, copos, livros. Nós três levantamos imediatamente mas Pansy nos segurou.
— Não! Não podemos sair daqui! — ela dissera.
A porta abriu com um estrondo e de repente o professor Sutcliffe entra na sala, com a varinha na mão. Ele nos olha, uma mistura de surpresa e irritação. Então Pansy, boquiaberta e sem saber o que fazer, fecha o livro, fazendo a ventania parar.
Sutcliffe nos encara e eu reparo que um dos seus olhos está piscando compulsivamente.
— Vocês estão ferrados — ele dissera entrando na sala — Não se brinca com o tempo!
— Precisávamos saber! — Pansy protesta, se levantando. Faço o mesmo.
— Sabe o quanto essa magia é poderosa? Sabe o quanto ela é perigosa, Srta? — Sutcliffe diz, pegando o livro velho das mãos de Pansy.
— Não deu certo — Pansy cruzou os braços — Você conseguiu chegar a tempo.
Sutcliffe suspirou, massageando as têmporas.
— Como sabia que estávamos aqui? — Zabini perguntou.
Sutcliffe riu, apontando para Draco e eu.
— Novos amigos e um novo amor.
— Somos muito previsíveis — Zabini sussurrou para Pansy, que lhe deu um tapa.
— Não podiam ter feito isso – Sutcliffe dissera para Pansy e Blaise, e então nos deu as costas – Tudo bem, se alguém ver ou sentir algo estranho, me procure.
E deixou a Sala da Presidência.
(…)
Ainda naquela noite, eu segurava o cabelo de Pansy Parkinson enquanto ela vomitava no banheiro feminino do segundo andar.
Apesar de Pansy jurar que estava assim porque tinha comido algo estragado, nós duas sabíamos que toda aquela ansiedade para saber do futuro, os enjoos, as noites mal dormidas e as mudanças de humor não tinham nada com ver com tortas de abóbora. Até mesmo a Murta sabia.
— Pan… – ela estava deitada no meu colo, sem falar nada há um tempo. Eu deslizava os dedos pelo seu cumprido cabelo preto — Pansy…
— Está atrasado — ela dissera sem me olhar. Sabia que estávamos pensando na mesma coisa, mas não queria falar em voz alta
— Quantos dias? — perguntei.
— Já faz um mês — ela resmungou — Mas não é isso. Eu não estou grávida.
— Pansy, por que você não falou antes? — falei. Pansy me olhou, triste. Tudo bem, não era a hora de sermões, ela precisava de uma amiga e eu seria a amiga.
Respirei fundo.
— Não sei o que faço – ela respondeu com a voz fraca.
— Primeiro, nós precisamos saber... Vamos para Hogsmeade e eu faço uma poção.
— Não vou para Hogsmeade — ela cruzou os braços. No Mundo Mágico, fazíamos poções para descobrir se estávamos grávidas. Mas não era com ingredientes comuns, que encontramos com facilidade em Hogwarts. Gostaria que fosse um pouco mais simples que fazer xixi no potinho, mas poções nunca falham.
— Ótimo, eu vou sozinha. E você faz a poção — me levantei.
— Tudo bem — ela suspirou e me olhou triste: — Obrigada, Mione.
— Não me agradeça ainda — respondi.
(…)
Hogsmeade estava toda decorada para o Natal. Eu tinha obrigado Ron ir comigo porque me recusava fazer aquilo sozinha. Não gostava mais do Natal tanto quanto achava e daquela vez não iria para casa dos meus pais. Nem para a casa dos Weasleys. Aliás, nenhum de nós voltaria para casa.
Ficamos por causa de Harry. Mas nos últimos dias, Harry nem aparecera para o jantar. Parecia entretido demais seguindo Malfoy por todo canto em Hogwarts.
— Ainda era melhor quando vocês estavam juntos – ele dissera uma noite.
Alguma coisa naquilo me deixava irritada com Harry. Irritada porque ele achava que estava ajudando alguém enquanto perseguia Draco, onde quer que ele fosse.
— Isso não parece certo – eu dizia.
— Mione, eu sei que vocês dois…
— Tanto faz – eu lhe cortara abanando a mão. Sabia o que ele ia dizer, porque já tinha ouvido demais aquela desculpa.
Mione, sei que vocês dois tiveram um lance, mas isso não torna ele inocente… Mione, ele ainda é um comensal… etc.
O que claramente queria dizer "Hermione, você não conseguiu fazer com que Draco passasse para seu lado, agora tenho que dar um jeito". Era ridículo.
— Então, o que você tem para fazer aqui? – Ron perguntou, entregando um copo de cerveja amanteigada.
— Gengibre? – perguntei. Ele assentiu e eu peguei o copo.
— Do jeito que você gosta.
Não era hora para cerveja amanteigada. Nem dia, porque estava muito frio.
— Preciso comprar algumas poções, não vou demorar – respondi, bebericando minha cerveja. — E você? O que vai fazer?
— Três Vassouras — ele respondeu, como se fosse óbvio.
Eu fitei ele: – Ronald… Você comprou seus presentes?
— Não sei se estou a fim de fingir que está tudo bem.
— Faz muito tempo que você está fazendo isso.
— Hermione… – ele bebeu mais um pouco de sua cerveja, divertido –, não é hora para isso. Eu fui um idiota, eu entendi.
— Não, Rony, você foi medroso — eu respondi e ele me olhou triste.
Ele sabia que eu estava falando de Lilá. E fugia dessa conversa sempre que podia, mas eu percebia que ainda tocava ele, de um jeito triste. Como um assunto não revolvido, não terminado. Aquilo me fez pensar no que Pansy e Blaise falaram naquela manhã, me dando conta que amores assim nunca acabam de verdade, nem mesmo quando acabam.
Então, Lilá Brown tinha ido embora, mas aquele era o final, Ronald Weasley?
— E mudaria alguma coisa? Ir atrás dela? — Ronald perguntou, retórico. — E, além do mais, ela nem fala com você, por que falaria comigo?
Eu lhe lançara um olhar feio. Rony então revirou os olhos e pediu desculpas.
Mas era verdade, Rony estava certo; nunca mais soubemos nada de Lilá, ela não respondia. E eu ainda escrevia para ela, cartas e cartas que nunca tinham resposta.
— Eu pelo menos ainda tento – dei de ombros, melancólica. Porque, claro, para mim, Lilá também era um tópico sensível.
— Ela não merece – ele dissera bebendo sua cerveja — Se quer saber? Ela não merece. Ela foi embora e nós nunca mais soubemos nada sobre ela e, porra, o que a gente viveu não foi nada? Não quis dizer absolutamente nada para ela? Eu não era nada... Nós não éramos nada...
Eu parei, surpresa, não sabia ao certo o que dizer. Fazia tanto esforço para Ronald abrir seu coração e falar dos seus sentimentos que, quando ele fez, eu não sabia o que dizer.
Abri a boca e fechei duas vezes e Ronald deu de ombros, bebendo o resto da sua cerveja.
— Não precisa dizer nada. Só que... foi escolha dela, Hermione, o que eu posso fazer?
— Eu sei que foi escolha dela, mas a gente não deixa alguém que a gente ama ir assim, sem mais nem menos... A gente faz ficar — eu respondi.
Ele riu, sarcástico: — Você sabe que não é tão fácil assim.
Eu balancei a cabeça. Podia descrer nas histórias de amor, mas não em Rony e Lilá.
— Se você olhar para trás com raiva, sempre vai sentir raiva e é muito mais difícil viver com raiva — falei, virando meu copo.
Aquilo pareceu fazer Rony pensar, porque ele não respondeu.
Ouvimos os garotos da Grifinória chamarem Rony na rua e, quando nos viramos, dei de cara com Draco e Zabini saindo do Três Vassouras, rindo. Alec e Mark logo atrás, equilibrando canecas de cerveja na mão.
É muito confuso poder ter momentos em que tudo parece simples, sem ter que pensar no que está acontecendo fora de Hogwarts — ou dentro. E aqueles momentos eram tão raros que eu desejava poder tirar uma foto quando aconteciam. Eu não via Draco rindo daquele jeito havia dias, talvez semanas. E uma parte minha desejava tanto estar com ele e poder compartilhar aqueles momentos. E quando Draco me olhou, eu sei que estávamos pensando a mesma coisa. E ele também.
Em todos aqueles anos, ninguém havia mexido tanto com Hermione Granger quanto Draco Malfoy. E era por isso que não tinha acabado ainda.
Draco acenou com a cabeça e eu acenei de volta.
— Então vocês terminaram – Rony disse, quebrando o silêncio.
— É — respondi, seca.
— Você sabe que a única coisa que o mantinha nos eixos era você, não sabe?
— Você sabe que Harry e Draco fizeram um acordo, não sabe? — Eu rebati.
— Ele não está do nosso lado — Rony simplesmente respondeu.
— A Ordem sabe o que faz — falei.
— E nunca vai estar. Antes de qualquer acordo, ele é um Malfoy — ele respondeu, me ignorando completamente.
— Rony – eu parei e olhei para ele de cenho franzido —, eu não quero ouvir falar do Draco nos próximos meses. Nada de "ele é um comensal", "ele está aprontando alguma", nada disso! Acabou, já foi. A Ordem e Dumbledore já decidiram como as coisas vão ser.
— Como você pode fingir que não está acontecendo nada? — ele pergunta, de cenho franzido. Aquilo, sinceramente, era uma ofensa.
— Nada aconteceu, só acabou.
— Se você olhar para trás com raiva, sempre vai sentir raiva e é muito mais difícil viver com raiva — ele me disse, sarcástico. Aquilo me fez rir.
— Olha, Rony – comecei, ele revirou os olhos e eu o peguei pela mão, procurando pela a loja de poções para Pamela. — Eu e Draco terminamos, terminamos mesmo… Se é que o que tivemos foi realmente válido… E é Natal e eu não quero pensar a respeito.
Rony bufou, mas não dissera nada. Nossas cervejas já tinham chego ao fim e só me restava o gosto de gengibre. Lá estávamos nós; dois amigos abandonados por duas pessoas que não hesitaram em deixá-los, lamentando pelo coração partido e pelo resto da cerveja.
— Escreva para Lilá – eu dissera por fim. A loja estava bem ali e o Três Vassouras não muito longe. Rony então se inclinou, me deu um beijo na bochecha e pegou meu copo vazio.
— Eu vou. Já está na hora, não é mesmo?
— Já.
E entrei na loja.
(…)
Eu disse que era complicado tentar contar para quem não estava lá para ver. Eu estava na loja de poções, procurando pelos ingredientes que Pansy usaria quando percebi que uma mulher um pouco mais alta que eu e um pouco mais ajeitada na vida do que eu me fitou por uma das prateleiras, me fazendo derrubar alguns frascos no chão.
Eu soltara um palavrão e a dona da loja me olhara feio.
— Desculpe… boas festas – eu dissera me abaixando.
Procurei a mulher pela loja e levei outro susto ao vê-la bem ali do meu lado, me ajudando. E quando me dei conta de quem se tratava, fiquei de boca aberta.
Era eu.
Era Hermione Granger.
— Você… Quem é você? – tipo, talvez a cerveja tenha começado fazer efeito, mas não me lembro de ter virado mais de um copo. De qualquer forma, achei que estava ficando louca. Era como olhar para um espelho, mas lá estava ela; muito mais bonita, muito mais mulher do que eu, com aquele olhar de “você está fazendo tudo errado e eu vou ter que consertar".
Ela me dera um peteleco no nariz.
— Shhhh… Não chame atenção assim! – ela dissera baixinho, colocando as coisas de volta na prateleira com um feitiço.
— Da onde você surgiu? – eu perguntei. E me aproximei dela, quase que sussurrando: – Eu estou ficando louca?
Ela me deu na mão a poção de Pansy e me puxara para o caixa. A dona da loja me deu um sorriso empático ao ver do que se tratava a poção, o que tinha me deixado incomodada.
Quando paguei, Hermione me puxou para fora da loja e continuou me puxando até chegarmos ao Cabeça de Javali, onde ela parou na porta, e, com as mãos nos meus ombros, me olhou séria e disse:
— Você parece péssima.
Eu a olhei, pasma.
— Quem é você? — perguntei.
— Eu sou você, Hermione. Daqui 10 anos.
— Como você pode provar isso? — eu cruzei os braços. Ela riu, sarcástica.
— Sabia que iria pedir isso — então quando eu não respondo, ela me olha, surpresa: — É sério?
Balancei a cabeça. Ela bufou.
— Estou esperando... Me fale alguma coisa que ninguém sabe.
— Vai se arrepender disso — ela respondeu, e pigarreou — Nós colamos no último teste surpresa de McGonagall.
Ok, era eu mesmo.
Tudo bem, era verdade. Eu colei. Eu estava tão cansada e tinha dias que eu não estudava para qualquer coisa, então quando Minerva passou o teste, eu colei de Parvati.
Foi a primeira e última vez.
Fiquei sem reação e ela riu, passando a mão pelo meu ombro.
— Eu falei que você não ia gostar — ela me puxara para dentro do Cabeça de Javali, atraindo um pouco de atenção tanto de quem estava fora quanto de quem estava dentro. Hermione não era muito discreta, ou não se importava. Escolheu uma mesa no canto do salão e ignorou as olhadas e investidas até chegar lá, com cara de nojo. O Cabeça de Javali ainda me causava arrepios, mesmo com as vindas no ano passado para as reuniões da Armada Dumbledore.
— O feitiço de Pansy te trouxe aqui? – eu perguntei rapidamente.
— Não exatamente… É complicado… É uma magia complicada – ela respondeu. — Viagens no tempo são terríveis. Você descobre coisas que não queria.
— Ainda temos o Vira-Tempo?
— Temos, mas eu vi o futuro e não está mais com a gente.
— Você viu o futuro?
— Está em boas mãos – ela levantou a mão e pediu uma cerveja.
— Como funciona essas viagens no tempo?
Hermione me encarou. Eu não gostei dela por um instante. Era daquele jeito que eu olhava para as pessoas? Por isso Rony tinha tanto medo de mim. Descansei os ombros, meio envergonhada.
— Eu sei o que está pensando e a resposta é não.
— Ah!, você não sabe – eu protestei. Idiota, é claro que ela sabe.
— Eu não sei por que eu e você temos essa coisa de querer salvar todo mundo.
— Eu não quero — eu respondi e ela me olhou sarcástica — É só que… salvaria muita gente, sabe?
— Hermione, vou te contar uma coisa... Se não fosse assim, seria de outro jeito.
Dei de ombros, achei melhor não discutir. Eu tinha tantas perguntas, mas duvidava que ela respondesse.
— O que você está fazendo aqui então?
— Eu nem sei por que estou aqui — ela me contou.
— O quê? Como não sabe? — perguntei.
— Olha, eu não estou aqui porque eu quero. Simplesmente falaram "você vai voltar para Hogwarts" e eu não achei que seria assim em 1996. E não, não é possível salvar ninguém.
— Então você não tem nenhuma missão em especial? – eu perguntei – Por que veio atrás de mim? – e então eu parei – Você não estava atrás de mim, não é?
— Eu estava… desde Hogwarts – ela disse. – Mas não era para você me ver. Quer dizer, de início… Hermione, eu poderia ter ido para qualquer lugar, mas… Sei que está se sentindo perdida esse ano, e vai demorar um pouco para as coisas se ajeitarem, mas acho que… acho que você está precisando dos seus amigos mais do que nunca agora, e eles de você.
— Amigos…
— Sim, e Draco.
— Draco? Você veio aqui para falar do Draco?
Ela suspirou: – Eu tenho que tomar cuidado com o que falo, eu sei.
— O que acontece com ele?
Ela me olha de novo. Mas não parece brava e eu não fico assustada. Ela me olha com calma nos olhos, como se dissesse que tudo ia ficar bem, apesar de não estar agora.
Parecia outra pergunta idiota, mas ela encosta na cadeira e sorri, amigável.
— Vocês vão ficar bem.
Eu me inclinei na mesa: – Vocês estão bem?
— Estamos – ela disse.
Eu bufei e ela deu risada.
— Não acredito que depois de tudo e ele ainda está na minha vida.
— Não precisa perdoar ele agora. Ainda tem muito pela frente e esse, meu amor, é o menor dos seus problemas.
Eu bebi um pouco da cerveja.
— E Pansy?
Hermione abanou a mão na minha frente: – Não importa!, você vai descobrir que não sabe tanto quanto gostaria. Pansy é uma caixinha de surpresas, amor.
— Como vai ser?
— Eles vão dar um jeito.
— Você podia ter falado antes… – eu balancei os vidros da poção na sua frente.
— Pansy precisa disso. Pansy precisa de você – ela dissera, calma, mas como quem dá um sermão. – Esteja por perto.
— Eu não sei… ela quer ir embora! – eu a lembrei. E estava indo, por mais que disséssemos para ela ficar, mas no fundo querendo ir também.
— Ela não pode, ouviu bem? Pansy tem que ficar.
— Falar disso não muda o rumo das coisas?
— Não. Lembra que eu sei o que acontece? – ela arqueou a sobrancelha.
Eu bufei de novo, bebendo mais cerveja. Pensei em Rony muito bêbado comprando presentes para o Natal sozinho.
— Você está sozinha? – perguntei.
— O quê? Achou que fosse uma viagem de férias com os amigos?
— É só que… – eu tentei me explicar, mas ela me olhou com uma sobrancelha arqueada. Eu bebi mais cerveja – Você é rabugenta.
Hermione massageou as têmporas: – Eu sei, eu vi meu futuro e não sei o que achar dele.
Eu dei tapinha nas suas costas, talvez assim ela não se sinta mal. Quer dizer, era meu futuro também.
– Lilá não fala com você, não é? — ela dissera de repente.
— Não.
— Ainda?
— Ela vai me responder?
— Ela vai – Hermione disse. Parecia de repente uma tia. Ela sorriu: – E não vai parar mais.
Eu estava mais feliz por causa disso. Graças a Merlin aquela garota vai dar sinal de vida!
— E Harry? Você não falou de Harry.
— Merlin, muita coisa vai acontecer – ela suspirou – Quer dizer, muita coisa ainda está acontecendo… Não estava querendo estar aqui, mas por que acha que estou? – ela me deu outro tapa e eu a olhei feio, mas Hermione ignorou – Vocês precisam se ajudar. Kim foi embora e foi uma idiota.
— Harry… – voltei falar.
— Espera para ver.
— Ah, qual é?!
— Hermione, não tem como eu falar do Harry… Ele é o estopim disso tudo! – Hermione se inclinara na mesa, divertida – Quer os números da Mega Sena Bruxa também?
Eu semicerrei os olhos: – Não seja ranzinza!
Ela deu de ombros: – Eu não ligo. Aprende que tem coisa que a gente não precisa saber.
Fiz ela pedir mais uma cerveja para mim. Fazia quanto tempo que estávamos lá?
— Qual é… Só me fala uma coisinha — insisti.
— É sério, Hermione. Olhe aqui – ela parou e me fitou. Ela era linda, não consegui imaginar como ficaria daquele jeito. Poderia convencer facilmente qualquer um do que queria, não por sua beleza, nós duas sabíamos, mas por ser quem era, aquele tipo de pessoa que faz você querer ser quando crescer. – Não fica achando que você pode mudar alguma coisa nessa história toda. Draco precisa de você, mas não é como se você pudesse salvá-lo... E isso é muito suicida até para você.
— Eu sei.
— O que está feito está feito.
— Eu sei.
— Eu estou falando de Draco… Sei que a gente odeia essa coisa que a gente sente, mas não é o fim do mundo e vai ver que as coisas não se encaixar. Só quero que entenda que para isso acontecer você não pode desacreditar e precisa ser paciente…
Eu revisei os olhos. Ela estava claramente me dizendo que aquilo ainda ia doer por muito mais tempo do que eu planejava e, fora isso, eu ainda não poderia desistir sem nem saber ao menos do que se tratava.
— Você disse que viu o futuro… Do que você não gostou? — eu tentei perguntar.
Hermione me olhou, séria de novo. Respirou fundo e revirou os olhos. Achei que outro sermão estava por vir, mas não veio.
— Não quero falar a respeito – ela então olhou para os vidros da poção de Pansy na mesa – Você está esquecendo da sua amiga.
Eu me levantei rapidamente. Deixei alguns galeões na mesa e puxei Hermione para fora do bar e só paramos quando vimos Ronny com sacolas na mão. Ele nos olha, confuso.
— Por que eu não estou surpreso? — ele falou, passando a mão no rosto.
— Não é a coisa mais estranha que já aconteceu com a gente — respondi.
— O que está acontecendo? — ele perguntou.
— É complicado... Mas sou eu, daqui dez anos — falei.
— Olá, Rony — Hermione acenou.
— Eu tenho muitas perguntas — Ronald disse.
— Eu não vou responder nenhuma — ela disse, seca.
Eu empurrei os dois para dentro do primeiro coche, apressando-os enquanto Rony fazia perguntas. Ele parecia bêbado – como todas as vezes desde que Lilá foi embora e ele resolveu agir de um jeito idiota –, mas pelo menos trazia algumas sacolas. Eu estava fechando a porta mas alguém segurou a porta pelo lado de fora e, antes que eu pudesse falar alguma coisa, Draco Malfoy entrou no coche.
Mas, bem, como posso explicar? Não era o meu Draco Malfoy, era o Draco Malfoy dela. Draco Malfoy de daqui dez anos.
Ele olhou para Hermione, como se pedisse permissão para entrar, e ela acenou com a cabeça, passando para o lado. Tudo ficou ainda mais confuso quando Draco apareceu e entrou no coche.
— Preciso explicar? — ele disse me olhando. Parecia nervoso e mal humorado, enquanto o Malfoy mais velho parecia que estava se divertindo fazendo ele sofrer um pouco.
— Meu Merlin, eu tenho que parar de beber — Ronald exclamou olhando nós quatro — Vocês me devem uma explicação, isso é praticamente um sequestro.
— Para ser sincero, não entendi até agora do porquê vir do futuro para nos importunar — Draco responde.
Malfoy mais velho responde: — Estou te fazendo um favor. Estou te ajudando, estou salvando sua vida…
— Até agora você não me disse nada que fizesse sentido! — Draco briga.
— Você não pode saber de tudo ainda, Draco — Hermione fala, cortando o assunto. Draco a olha irritado, mas fica quieto. Ela respira fundo e se vira para Ronald — Queríamos ver o futuro e voltamos para o passado… Foi isso que aconteceu.
— Por que queriam ver o futuro? O que aconteceu para decidirem isso? — Rony perguntou. Muito esperto…
— Olha, muita coisa mudou, mas vocês ainda são carne e unha, ok? Só não faça perguntas difíceis pelo seu próprio bem, Wesley — Malfoy mais velho responde.
— E o que vocês vão fazer? Como vão voltar? — eu pergunto.
Malfoy e Hermione respiram fundo. Sei que estão sem paciência e ela responde, quase rangendo os dentes:
— Vamos falar com Dumbledore.
— Dumbledore não dá sinal de vida faz um tempo – Rony disse.
— Certo, vamos procurar Sutcliffe – Malfoy disse.
Rony encarou ele, que, mais alto e mais velho, o olhara divertido.
— No futuro eu ainda não gosto de você? – Ron perguntou. Draco ao meu lado começou a rir.
— Você acha que não? – ele respondeu. Draco parou de rir.
— Certo, vocês vão entrar em Hogwarts como? Porque é no mínimo estranho — Draco perguntou.
— Todos estão em Hogsmeade e, de qualquer forma, não vai ter problema nenhum de usar um ou dois feitiços para apagar algumas memórias de curto prazo — Malfoy respondeu, malicioso. Hermione sorriu, brincalhona. Lá estava uma história que não sabíamos e eu preferia continuar sem saber.
Na mesma hora, o coche parou em frente ao castelo e Rony deu um salto pra fora, passando por cima das duas versões de Draco. Ronald estava nervoso, a presença de Draco fazia isso com ele.
Eu estava sem paciência, Draco parecia que preferia estar mergulhando no lago frio do que dividir o mesmo ar que eu e Ronald estava fazendo o maior esforço para não surtar, tudo isso na frente de duas versões nossas mais velhas que não cooperavam em nada para resolver. Mas Draco foi o primeiro a se pronunciar, entendendo o que estava acontecendo:
— Vocês não podem ficar aqui — Draco concluiu e Hermione e Malfoy olharam para ele com tédio — Não sei do que estão fugindo, mas não vieram pra cá a toa e não é aqui que vocês vão ficar.
Malfoy deu risada e Hermione ficou sem saber o que dizer. Mesmo com raiva dela, tive vontade de defendê-la e tentar entender o que estava acontecendo, mas me mantive calada enquanto Malfoy destilava seu veneno.
Muita coisa tinha mudado? Ou nada tinha mudado? Por que os dois pareciam dois cúmplices?
— Quem é você para decidir isso, moleque? — Malfoy respondeu. — Que que você sabe? Você não sabe de nada!
Draco abriu a boca para falar, mas Ronald foi mais rápido:
— Claro que não sabemos… Vocês não se preocuparam em falar!
— E vai continuar assim — Hermione falou. — Vocês não podem saber de tudo. Onde estão com a cabeça? O que vocês sabem já é o suficiente…
— E vocês não vão ficar em Hogwarts — Draco a cortou, sério.
Malfoy deu uma gargalhada. Uma gargalhada alta. Hermione respirou fundo.
— Foda-se, moleque – Malfoy disse. – Até onde eu me lembro, você é um idiota.
— E pelo que estou vendo, eu deixei de ser um idiota para ser um fantoche da Granger — Draco respondeu, deixando todos nós de boca aberta.
Hermione arregalou os olhos, tive quase certeza que por essa ela não esperava. Senti meu maxilar travar apesar de não me surpreender com a resposta e o fato dele não concordar em me manter na sua vida.
Partindo meu coração mais uma vez, como se eu já não estivesse fazendo o máximo de esforço para ele continuar batendo.
Mas Malfoy foi mais ágil e antes que eu ou Hermione pudesse falar, ele se aproximou de Draco e lhe dera um soco, fazendo Draco dar um passo pra traz. Com o nariz sangrando, Draco devolve o soco no Malfoy. No meio disso, Ronald largou seus presentes de Natal no chão e entrou entre os dois, separando-os.
— Por mais que eu gostasse muito de ver vocês se matando, não é o melhor jeito de resolver isso — Rony disse empurrando Draco no chão.
— Não quero nem imaginar o que você faz para chegar vivo até aqui – Draco ralhou, vociferando para o Malfoy enquanto Rony o segurava.
— Você vai saber… Hoje você é só mais um moleque mimado, mas as coisas vão mudar – Malfoy dissera movimentando o maxilar e então apontou o dedo para Draco — E pense duas vezes antes de abrir a boca para falar de Hermione, seu babaca.
— Parecem duas crianças – Hermione revirou os olhos. Os dois, na verdade, pareciam aliviados. Draco por socar alguém e Malfoy por ser capaz de se dar um soco.
Eu olhei para Hermione: – Só isso? Vai falar só isso?
Ela deu de ombros: – Acha que sou quem? Narcisa? Draco que se vira.
Fiquei quieta. Escolhi ficar quieta, lembrando que eu não sabia de tudo. Ela, inclusive, foi para o lado de Malfoy perguntar se estava tudo bem.
Lembrei de Pansy na hora. Não tinha ideia de quanto tempo tinha durado aquilo e tínhamos lá duas versões de Draco com o rosto marcado.
— Vamos logo – eu chamei, mostrando os vidros da poção na mão.
(…)
A poção de Pansy já estava pronta. Ela só precisava esperar para ver resultado e, quando ele veio, nós duas ficamos cerca de cinco minutos olhando-o, petrificadas. Positivo. Tinha dado positivo. Duas vezes.
Por mais que eu soubesse, não consegui acreditar no primeiro momento. Hermione tinha dito que eles ficariam bem, mas, depois de ver Draco socar Draco e descobrir que no futuro eu seria uma versão mais idiota do que de costume, eu já não tinha certeza se ficaríamos bem.
— Eu… eu preciso ficar sozinha. Eu… – Pansy ia começar chorar, mas ignorou isso. Começou arrumar a bagunça e jogou o resultado da poção na pia do banheiro.
— Pansy…
— Agora não – ela disse, me fazendo sair do banheiro.
Tentei pedir para abrir a porta diversas vezes, mas Hermione e Malfoy, que estavam no corredor, só balançaram a cabeça, como diz “deixa ela…”. E Draco e Ron, que não estavam entendendo absolutamente nada, penas me puxaram para sairmos dali.
(…)
A sala do professor Sutcliffe ficava na torre da Lufa-Lufa e após três batidas, ele apareceu na porta.
— Tenha santa paciência… eu estou de folga! – Sutcliffe ralhou, fazendo sinal para entrarmos. Sutcliffe não parecia surpreso, mas nos olhou, coçando a barba – Nós nos conhecemos de algum lugar?
— É por sua causa que estamos aqui – Malfoy foi o primeiro. Sutcliffe dera um passo para trás. Malfoy, mais alto e mais velho, se recompôs e sentou-se no sofá.
— Vocês vieram de quando? Dois mil e seis? – ele perguntou e todos assentiram. – Fico feliz por estar vivo em 2006.
— Por que acha que estamos aqui? – Hermione perguntou, irônica.
Os olhos de Sutcliffe brilharam: – Para me salvar?
— Precisa nos mandar de volta – Hermione dissera.
Sutcliffe coçou a barba de novo, desapareceu na cozinha e voltou bebendo alguma coisa em uma caneca da Lufa-Lufa.
— Não vai rolar.
— Você nos trouxe aqui, você nos chamou! — Hermione discutiu.
— Foi necessário — ele se defendeu. — A Srta Parkinson resolveu mexer com magia do tempo e, se ela tivesse conseguido, a linha do tempo de vocês ficaria totalmente bagunçada.
— Por isso que demos essa volta? Por isso vimos nosso futuro e vimos nosso passado? — Hermione arregalou os olhos.
— Porque eles precisavam ver o futuro deles — Sutcliffe explicou, apontando para nós.
— Não precisava ter nos mandado pra cá! Não precisava ter nos tirado das nossas vidas pra isso! — Hermione bateu o pé.
— Sei que viu o que não queria e entendo que acha que pode descontar em mim, e eu sinto muito, mas você não pode me culpar pelas suas decisões, Srta Granger. Ou Sra Malfoy… Como quiser — Ringo dissera, calmamente. — Eu tive que trazê-los ou eles iriam até vocês… E você, mais do que qualquer pessoa aqui nessa sala, sabe que teríamos mais problemas com isso.
O “Sra Malfoy” fez Draco instantaneamente olhar pra mim, enquanto meu maxilar travava. Resolvi que não ia perguntar nada e estava desejando internamente que Draco decidisse a mesma coisa. Não queria saber mais e nem deveria.
— Ringo, apenas nos mande de volta — Malfoy falou.
— Bem, só vocês sabem como fazer isso e o que busca, inclusive, está na casa das cobras — ele dissera — Agora, se me dão licença… Eu já fiz minha parte…
(…)
— Eu sei o que está pensando – Malfoy, mais velho e mais alto, dissera para Draco no corredor – E é por isso.
— O quê? – eu perguntei.
— Por isso que ele me acha um idiota – Draco respondeu na mesma hora.
— Vocês estão trocando farpas o dia inteiro por causa disso? Porque terminamos agora e no futuro nós somos casados? – eu perguntei.
— Vocês não trocaram farpas o ano inteiro por causa disso? – Hermione rebateu.
— Você está do lado de quem? – eu estava me irritando com ela. Por não me apoiar ou por não ser clara comigo. Estava nítido que nós não gostamos uns dos outros. Malfoy odiava Draco, sua versão de 1996, e Hermione me detestava, por algum motivo.
Ela dera de ombros e eu soube a resposta; de Malfoy, ela estava do lado dele porque sabia coisas que eu não sabia.
— As coisas estão ficando tensas por aqui – Rony pigarreou. Nós duas o olhamos, irritadas, mas para ela, ele dissera, tranquilo: – Mione, supera. Quem era você com 16 anos?
Ela massageou as têmporas, ignorando-me:
— Tem razão. Para onde vamos?
— Para onde mais seria? — Malfoy riu, indo em direção às masmorras.
— Preferia que fosse a Floresta Proibida – Hermione resmungou na escadaria — Não acredito que vou entrar nesse ninho de cobras.
— Está praticamente vazia. Todo mundo foi embora — Malfoy explicou.
Mais uma vez naquele dia, nós nos olhamos sem entender, mas decidimos não perguntar. Tentei ignorar o fato de que eu e Rony estávamos entrando na Sonserina por livre e espontânea vontade e sem nenhuma poção polissuco.
As Masmorras conseguiam ser o lugar mais sombrio do castelo, mas ainda esbanjava um tremendo luxo e aquele velho sonserino parecia amar tudo aquilo. Eu sabia que Draco era tão fiel a Hogwarts quanto qualquer um de nós. Voltar para casa era uma péssima escolha enquanto tínhamos o castelo para nos abrigar, e sua casa não estava nas melhores condições.
Paramos quando chegamos na escadaria da Sala Comunal e eu me recordei que a última vez que passei por aquela porta gigante tinha sido no aniversário do Malfoy, e meu coração doía só de pensar que já tinha se passado alguns meses desde as várias promessas que fizemos naquele dia e hoje sequer trocamos uma ou duas palavras.
— Acho melhor eu voltar para a torre de... – eu me virei para ir embora, mas Draco, atrás de mim, me impediu.
— O que foi? Não é como se fosse sua primeira vez aqui — ele dissera baixo, me fazendo lembrar de novo de quando estive na casa das cobras e como tinha acabado.
— É por causa de Slytherin – eu respondi, entediada — Não posso entrar em outro Salão além do meu.
— Isso não te impediu pra última vez — ele dissera com a voz rouca.
— Eu claramente não estava lúcida — respondi, ríspida.
Ele deu de ombros, passando na minha frente. Rony ao meu lado apenas revirou os olhos. Ele tinha a mesma ideia que eu, que era sair sem que ninguém percebesse, mas fomos pegos por Hermione, bem atrás de nós com um sorriso sarcástico.
— Vem logo, somos da Grifinória. Temos mesmo que fazer revolução – Hermione dissera puxando Rony e eu para dentro.
Meu estômago estava revirado.
A Sala Comunal da Sonserina era uma longa sala com paredes de pedras cobertas por quadros e tapeçarias de sonserinos famosos que eu desconhecia. E lustres. E castiçais. E tudo possivelmente elegante e ostensivo, com grandes janelas grandes cobertas por caras cortinas caras. Tinha ali uma enorme lareira, mesas e poltronas medievais. Tudo verde, prata e caro.
Malfoy parecia estar em casa, mergulhado em uma nostalgia que parecia que ninguém seria capaz de tirar. Os olhos dele brilhavam ao entrar na sala e passar de um dormitório para o outro, como se tivesse 16 anos de novo enquanto Draco estava parado olhando uma das tapeçarias antigas das paredes da Sonserina. Eu me sentia em um ninho de cobras.
— Minha família nunca vai me perdoar — Rony dissera ao meu lado.
— Não é tão ruim assim – Hermione olhara a sua volta. Nós três paramos o olhar na tapeçaria, curiosas. Malfoy conversava com algum sonserino e parecia incrivelmente entusiasmado em revê-lo. Hermione sorriu.
— Ah, não aguento ficar mais um segundo aqui… — Rony resmungou se levantando.
— Fique por perto, Ronald — Hermione falou para ele, que revirou os olhos e deixou a sala. Hermione bufou, mas não disse nada.
De novo, apenas nós duas. Respirei fundo e perguntei:
— O que houve comigo e com Draco?
— Sabe que não vou responder, por que perguntou?
— Eu preciso saber — fui sincera e ela me olhou triste.
Pensei por um instante que teria que pedir de novo e já estava ensaindo um discurso para convencê-la, mas ela falou, melancólica:
— Somos só amigos. Nós tentamos e não deu certo.
Que tapa na cara.
— Você… ama ele?
— Você ama? – ela arqueou uma sobrancelha.
— Você sabe o que eu sinto – rebati.
Ela suspirou.
— Vai passar, Hermione.
— Eu sei, mas como a gente fica?
Ela riu: – Hermione, por favor. Você vai sofrer demais, você sabia disso… Você não se apaixonou apenas por um sonserino, você se apaixonou por um comensal. Você se apaixonou por um Malfoy.
Eu revirei os olhos: – Nós terminamos.
— Ninguém acredita nisso, nem você.
— Draco acredita… Ele não quer. Ele não me quer. E o que eu faço? Você só está falando e não me dizendo nada.
— Hermione, não sou eu que tem que te falar o que fazer — ela me olha com aqueles olhos castanhos brilhando — Essa resposta você já tem… Vai se resolver com ele.
— Eu não consigo… Eu estou quebrada. Eu gostaria de ser essa protagonista, mas me sinto como uma telespectadora vendo a vida passar sem conseguir sair do lugar.
Ela chegou perto de mim, o suficiente para falar baixo e eu a ouvir. Ela era linda, muito linda. Fazia você querer ter a atenção dela e não falar coisas idiotas ou burras, caso contrário ela perderia o interesse e você a perderia para outra coisa.
Eu tinha dito uma coisa idiota, dava para perceber.
— Espero que você pare logo de ter pena de si porque você é melhor do que isso. Draco não tirou nada de você e você prefere se agarrar à essa imagem de você mesma que só está na sua cabeça. Você esqueceu quem você é? Estou aqui para te lembrar. Estou aqui para te dizer que vai passar, Hermione. Momentos ruins passam, momentos bons passam também… Mas você não pode se perder dessa forma e viver daqui pra frente com medo.
Apesar de me sentir vencida, abri a boca para falar, mas Malfoy apareceu do nosso lado com um livro na mão. Draco e Rony vinham logo atrás.
Era o mesmo livro que Pansy tinha naquela manhã. Velho, empoeirado, praticamente amaldiçoado. Se o que ela queria deu certo ou não, não saberia dizer, mas estamos ali e era alguma coisa.
— Bom, temos um jeito de voltar. Sutcliffe deve ter deixado aqui quando pegou de volta da nossa querida amiga Pamela Parkinson — Malfoy explicou, sarcástico.
— Precisamos de mais pessoas… Velhos amigos, novos amigos, um antigo amor, um novo amor — lembrei.
— Essa é uma magia diferente… Precisamos voltar — Hermione explicou.
— Tem uma magia… Mas é artes das trevas e eu não vou mexer com isso — Rony explicou folheando o livro velho.
Nós automaticamente olhamos para os dois Malfoy parados ao nosso lado, que bufaram em uníssono.
— Você é mais velho, tem mais experiência — Draco disse para Malfoy passando o livro velho para ele, que revirou os olhos.
Malfoy empurrou o livro de volta para Draco:
— Eu não faço mais magia das trevas.
Rony e eu arqueamos as sobrancelhas, surpresos.
— Que orgulho, é mesmo um homem de família — Draco revirou os olhos — Eu faço, contanto que não tenha nenhuma coação moral da Armada Dumbledore.
— Você tem sido muito acobertado ultimamente, não acha? — Rony respondeu, irritado.
— Assim como você, eu também não queria estar aqui, mas não temos essa opção, ou temos? — Draco dissera, sarcástico, estendendo a mão para Rony, que, contrariado, cedeu.
— Precisamos de um terceiro bruxo para selar o Voto Perpétuo — Rony respondeu, seco.
Eu bufei, me levantando para fazer meu papel de mediador como fiador do feitiço, quanto via a corrente de fogo saindo da minha varinha e entrelaçando as mãos de Draco e Ron, sem acreditar que eu e minha varinha estávamos passando por aquilo.
Por fim, o Voto Perpétuo estava selado, o que unia os dois em um juramento mágico que poderia resultar em morte.
Não era o tipo de coisa que eu achei que aconteceria naquele dia quando levantei da cama.
— Mais algum pedido? — falei, retórica quando as luzes de fogo sumiam aos poucos.
Draco e Ron, ainda de mãos entrelaçadas, se olhavam mortalmente.
— Você sabe que eu não gosto de você e só faço isso pela segurança dela, certo? — Rony dissera. No sofá, eu me encolhi.
— É recíproco, Wesley — Draco respondeu.
— Tudo bem, vamos acabar com isso — eu interrompi estendendo a mão para Draco, que me fitou e sorriu. Olhei para ele sem entender.
— Você não precisa fazer o Voto Perpétuo comigo, Hermione.
Eu balancei a cabeça. Queria discutir, mas me contive.
— Que gentil… — respondo sarcástica, mas tinha sido pega de surpresa. Eu não precisava? Ele ainda achava aquilo de mim?
— Bom, hora de voltar — Malfoy interrompeu, sentando-se no chão, nos fazendo formar um círculo de cinco. — Gostaria de dizer que foi um prazer estar aqui.
— Não podemos dizer o mesmo… — Rony resmungou, de olhos fechados.
— Preciso que fiquem quietos… — Draco murmurou.
Antes de fechar os olhos e ouvir apenas a voz grossa de Draco falar na língua das trevas, olhei para Hermione e sussurrei um inaudível “obrigada” que a fez sorrir.
Bem, estava tudo bem.
Fechei os olhos e quando abri, quando Draco parou de falar, estávamos só nós três na vazia Sala Comunal da Sonserina.
Depois desse dia, nunca mais falamos a respeito.
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