Como Vivem Os Anjos
58 Um Estranho No Ninho
Notas iniciais
Não estamos interessados no bem dos outros; só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro.
(1984
— George Orwell)
Contemple e recorde. Contemple este solo,
Muito, muito além das fábricas e dos prados.
Certamente, lá, certamente eles o deixarão passar.
Fale, então, interrogue a floresta e o barro.
O que você ouve? O que ordena a terra?
O território foi tomado: este não é o seu lar.
(Travelogue For Exiles
— Karl Shapiro )
OoO
Há exatamente um ano, no dia 26 de agosto de 2013, Ethan Lemnsack fundara a Anhert Corporation em Middleland, no Condado de Southeria, sem sede definida, e comemorara a data esvaziando a garrafa do caríssimo vinho que Cornelius Goldenschild havia lhe mandado como presente em seu apartamento simplório na Rua Symphonia, junto a seus dois fabulosos irmãos, sozinhos, ansiosos e felizes. Naquela época, continuava sendo apenas um adolescente sem muito conhecimento do que o poder lhe reservara, embora fosse mais capacitado do que o adolescente que há muitos e muitos meses começara a vivenciar o delírio de reconstruir a Kruger-Vorheel.
Agora, no dia 26 de agosto de 2014, comemorava o aniversário de um ano da Anhert num caríssimo terno Armani, levantando uma taça de uma champanhe cara na frente de uma pequena e extremamente rica multidão acoplada no belo salão de baile de pedra rosa-clara do Palácio Real Hentz. A decoração era discreta e de bom gosto e havia uma banda própria tocando música clássica, assim como todo um batalhão de garçons para servir o enorme buffet a todos aqueles ricos esnobes, o que era curioso porque eles não pareciam comer nunca.
Cornelius Goldenschild estava lá conversando com meia dúzia de bilionários, assim como o Primeiro Ministro da Califórnia Clarke Heath e vários outros políticos importantes, embaixadores e diplomatas de diferentes nacionalidades, e Sua Majestade, o Rei Senn, impecável naqueles trajes reais. Quando foi dar declarações cordiais a Ethan, quase não fez-se perceber que havia perdido a virgindade com ele.
— É um prazer revê-lo — ele disse enquanto Ethan fazia-lhe uma reverência necessária. O rei não mais príncipe tinha cabelos castanhos de tamanho mediano, brilhantes e volumosos, e lindos olhos verde-acinzentados. — Como está seu ombro?
Às vezes Ethan se esquecia de que no ano anterior salvara a vida de Senn pondo-se na frente de uma bala por ele. Desde então, teorias da conspiração pipocavam em todas as partes sobre o motivo da tentativa de assassinato. Ethan só conhecia a verdade porque um certo príncipe bêbado de vinho havia lhe contado.
— Não dói há meses e está bem cicatrizado, obrigado, Vossa Majestade. Gostaria que eu lhe falasse sobre as opções de doação para a Fundação Nicholas Hentz?
— Eu agradeceria.
Foi essa a desculpa que arrumou para afastar-se da multidão com ele. Era difícil sumir com um rei, mas Ethan conseguiu trancando os dois num banheiro. Senn foi mais violento do que ele esperava. Seu método de satisfazer o leve fetiche sadomasoquista de Ethan era bem peculiar: simplesmente afundava as unhas na pele de suas costas e as descia lentamente para baixo enquanto mordiscava-lhe os lábios.
— Eu senti falta disso — Ethan sussurrou para seu adorado monarca. — Como você está?
— Estou começando a entender por que Henrietta era tão amarga com a vida — Senn sussurrou de volta ajeitando seu precioso cabelo no espelho do banheiro. — Você não sabe como minha rotina é insuportável. Você pensa que quando é rei pode fazer o que quiser, mas isso é ingenuidade. Eu acordo às seis da manhã todos os dias. Seis da manhã! Isso não é saudável para uma criança em crescimento. E como você está?
Ethan deu-lhe um beijo delicado no pescoço branco. Era agradável ter uma amizade colorida com aquele garoto dois anos mais novo.
— Como sempre — respondeu-lhe, os dois agora de frente para o outro. — Gostaria que fôssemos dois adolescentes normais, e não você um rei e eu um bilionário, mas apenas dois amigos de infância que dividem um apartamento no subúrbio de Los Angeles e trabalham meio-período numa cafeteria para pagar a universidade enquanto lutam contra desilusões amorosas?
— Tenho certeza que é assim que os roteiristas da HBC fazem para criar novas séries de TV. Por que não faz uma sugestão? Os Mauricinhos de Beverly Hills. Sim, eu gostaria. Mas as coisas nem sempre são o que preferimos que elas sejam, e sim o que deveriam ser.
— É verdade. Vamos voltar à festa.
Ethan deu-lhe outro selinho e então recuperou a compostura, assim como ele. Seu sorriso deixou de ser excitado para apenas formal e seus olhos estavam cabisbaixos e orgulhosos, do modo que os olhos de um nobre deveriam ficar.
De volta à festa, Ethan viu que Jules estava conversando com jovens empresários da informática cuja probabilidade de se tornarem bilionários da noite para o dia era absurda; Nick estava falando com atores e atrizes famosos, tão compenetrado em suas tentativas de fazê-los rir — que funcionavam perfeitamente —, que nem notou o pequeno Lorenzo falando com a Princesa Antoniette, geralmente chamada de Toni para não ser confundida com a mãe homônima. Toni era idêntica a Senn. Tinha cabelos compridos e castanhos e olhos esverdeados e lindos, além de um porte tão nobre que só podia ser irmã do rei daquele país. Também tinha a idade de Lorenzo, havia acabado de fazer onze anos. Os dois haviam se falado uma vez na festa de posse do Primeiro Ministro, no ano passado.
— Apesar de não poder ver seu vestido, eu tenho certeza que ele está lindo — Lore disse adoravelmente, fitando-a fixamente nos olhos, como Nick havia lhe ensinado a fazer. A princesa enrubesceu, sorrindo graciosa para ele, hipnotizada por seus olhos cinzentos.
Ele agradeceu e Lorenzo retirou do próprio pescoço a gargantilha de diamantes feita do Diamante Hentz e pôs no pescoço dela delicadamente. Disse-lhe que sentia que ficara mais bonita agora. Ethan sentiu uma pontada de orgulho ao ver o irmão de onze anos fazer uma princesa perder a compostura com flertes infantis. Tinha de lembrá-lo de pegar a gargantilha de volta antes do final da festa.
Quando percebeu, Nick estava ao seu lado, parcialmente bêbado.
— Chega de champanhe para você — falou a ele. — Não beba mais. E certifique-se de comer alguma coisa.
— Seria indiscreto eu pedir autógrafos de todos os convidados nessa festa?
— Sim, seria. Não ouse.
— Do que adianta fazer uma festa e enchê-la de atores famosos se não posso admitir ser fã de nenhum deles? Angelina Jolie está quase adotando Lorenzo. Ele está tão lindo falando com Toni. Tão feliz. Não parece ter câncer terminal. As pessoas me perguntam se ele está usando peruca.
Ethan mordeu o lábio inferior e respirou fundo. Seu irmãozinho ainda conseguia andar, mas eles diziam que isso não duraria muito tempo.
Semanas antes, após Nick ter tomado alguns calmantes para parar de gritar e chorar após o terrível aviso da Dra. Vivienne King e da Dra. Lindsay Carmell, estava os três irmãos sozinhos no quarto de hospital de Ethan. Nick tinha os olhos mais vermelhos que Ethan já vira na vida e não conseguia falar nada, ou acabaria recomeçando a chorar. O que mais doeu no coração de Ethan foi perceber que Lorenzo não conseguia perceber isso. Sua percepção de sentimento alheio estava desaparecendo.
— O que é? — Lore perguntou com as sobrancelhas franzidas. — Eu estava no meio de um milk-shake de chocolate quando você me chamou. Sabe como eu gosto de chocolate. O que poderia ser mais importante que chocolate? Espero que alguém esteja morrendo.
— Oh, Lorenzo. — Ethan não se permitiu chorar. Não se permitiu chorar na morte de seus pais e repetiria a dose naquele momento. Em poucas palavras, resumiu o que as duas médicas haviam lhe dito. Tumor enorme em seu cérebro. Completamente inoperável. Quimioterapia…
— Não! — o menino gritou. Ethan pensou que fosse uma negação da doença, mas não era isso. — Não posso, não vou fazer quimioterapia. Ethan, você não entende? Você não… — Ele começou a chorar. — Se eu injetar veneno nas minhas veias para viver alguns meses mais, vou destruir todo o resto dos meus poderes. Toda a minha habilidade de ver sem enxergar e de escutar mentiras vai se esvair! Não sei por que, mas sei que isso vai acontecer. As Sombras vão me abandonar como abandonavam Oliver quando ele tomava os remédios dele.
— Lorenzo… Lorenzo, Lore, meu Lorenzo. — Ele o puxou para si e o abraçou fortemente. — Você não entende, se você sofrer a quimioterapia, você vai viver mais. Morrer dá medo, Lorenzo. Eu sei disso. Eu morri ontem.
— Ethan, eu sei que isso soa estranho, mas eu tenho muito medo de ficar cego. — Ele ainda choramingava, as palavras ficando engroladas em sua garganta. — Por favor, não me obrigue a isso. Por favor, não me deixe cego, por favor, por favor… — Agora já não dizia coisa com coisa. Tudo o que se ouviam eram seus soluços e algumas únicas frases a mais: — Estou com medo. Estou com medo de morrer. Não me deixe… não me deixe morrer.
— Com licença — disse Nick, a primeira coisa que falava ali. — Vou sair por alguns momentos.
— Para onde vai?
— Queimar algumas igrejas.
Nick não queimou nenhuma igreja porque Ethan não o deixou sair do quarto. Pensava em como conseguiria beijar um nos lábios sem que o outro percebesse quando notou que havia terminado com Nicholas no dia anterior. A doença de Lorenzo havia ocupado tanto espaço em sua mente que isso de repente se tornou absurdo, como um fato que não devesse existir ali naquela compreensão de situações porque simplesmente não fazia sentido.
Ao invés disso, um silêncio pesado caiu sobre eles. Não era tranquilo, quieto ou calmo, era mais como se todos os sons houvessem sido de repente sugados violentamente de suas caixas vocais e eles estivessem impossibilitados de falar, de pensar, de se expressar. Os olhos cinzentos de Lorenzo estavam marejados e paralisados, a pele em volta dos olhos estava vermelha e inchada, como fica quando o indivíduo chora. Nick era um pouco diferente, mas só um pouco. Ele não chorava e provavelmente não choraria mais, só sentia ódio. Ódio da doença, do irracional e do que não podia ser evitado. Ódio do destino e das divindades que controlavam aquele mundo, se é que havia alguma. Ódio do ódio. Sua raiva era a única coisa capaz de substituir a tristeza e a depressão que deveria sentir.
Quando suas médicas voltaram ao quarto para falar com eles sobre possibilidades de tratamento para estender a vida de Lorenzo, Ethan contou-lhes que ele decidira não fazer tratamento algum. É claro que a princípio comentaram sobre o fato de Lorenzo ter apenas onze anos e não entender com toda a clareza as implicações de não fazer tratamento algum, e que apesar de a cura ser improvável, bem, milagres aconteciam. Afinal, um não acabara de acontecer quando Ethan voltou à vida?
Suas insistências inúteis por fim resultaram que ambas decidiram que Lorenzo deveria passar por uma avaliação psicológica para determinar se ele possuía ou não a clareza necessária para tomar aquela decisão. Mecanicamente, ele aceitou e foi a todas as suas sessões. O resultado foi previsível. Lorenzo tinha plena capacidade de decidir aquilo, o que era uma coisa óbvia, talvez por isso que as sessões tenham sido limitadas. Ou isso ou o fato de que era uma criança de onze anos prestes a morrer consideravelmente aterrorizante e sinistra quando queria.
Mais tarde, já na festa beneficente e de aniversário de um ano da Anhert, quando conseguiram outro tempo livres, Nick empertigou-se na frente de Ethan, estufou o peito e declarou orgulhosamente:
— Eu dormi com Shane Spencer.
Ethan demorou um tempo para compreender o que ele falou. Quando isso aconteceu, pensou ter ouvido errado, mas afinal era com o fabuloso Nicholas Hentz com quem falava, por quem os maiores absurdos frequentemente eram feitos.
— Você fez o quê? — indagou desesperadamente.
— Dormi com o namorado de Jules — ele confirmou alegremente. — Assim, eles vão terminar e Jules vai ficar com você. Viu como eu sou uma ótima pessoa? Eu poderia ter dormido com Jules, ao invés de Shane, e então começar a ignorá-lo. Ele se demitiria e sumiria das nossas vidas e tudo voltaria ao normal. Shane me disse que Jules foi apaixonado por mim no primeiro semestre desse ano. Talvez por isso ele tenha vindo trabalhar aqui. Irônico, não é? Se isso fosse ficção, seria um drama dos infernos porque Jules não superaria meu desinteresse por ele e você ficaria com raiva de mim e do mundo por ele gostar de mim e não de você… enfim, um triângulo amoroso. Mas Deus é pragmático. Nicholas Hentz também.
Ethan sentiu vontade de bater nele e então beijá-lo. Era fácil sentir as duas coisas por Nick ao mesmo tempo.
— Meu Deus, você faz ideia do quanto é inconsequente?
— Não, não sou, nem um pouco. Eu me arrisco, mas sempre tomo precauções. Veja bem, Shane é basicamente um idiota. Quando eu o fiz gozar, ele começou a chorar baixinho e a pedir perdão a Deus. Não acho que Deus o condenaria menos por estar trepando com os lindos cabelos louros de Jules, mas isso não importa. Eu disse a ele que ele deveria contar a verdade a Jules se quisesse ser perdoado. Ele vai fazer isso, mas não vai citar o meu nome porque acha que eu farei isso também. Acho que vai fazer hoje à noite. Por telefone. Também sugestão minha.
— Nicholas, eu juro por Deus…
— Ele vai estar chorando em algum lugar, então será a sua chance de agarrá-lo e comê-lo, se ainda não terminou com Sua Majestade. Percebe que é a segunda vez que eu te arrumo um namorado? Você ferrou as coisas com o primeiro, então, por favor, não repita com o segundo. Jules não é Gabriel. Ele não é uma moça submissa e completamente passiva e dependente emocionalmente de você como Gabriel era. Ele não perdoará uma traição, então peça a seu pênis para se contentar com ele.
— É engraçado você dizer isso quando você foi o responsável pela primeira traição que eu cometi com Gabriel.
— Fui? Não lembro. De qualquer forma, sofri tanto desde então que tenho certeza que todos os meus pecados foram expiados. Só para ter certeza, vou subir todos os degraus desse prédio, do estacionamento subterrâneo à cobertura, de joelhos, rezando uma Ave-Maria e um Pai-Nosso em cada degrau. Volto antes da festa terminar.
Então ele se afastou, mas não na direção das escadas, como bem previra, e sim do banheiro em que Ethan e Senn haviam acabado de sair e onde Lorenzo havia acabado de entrar.
Quando Nick entrou no banheiro, encontrou Lorenzo de joelhos com a cabeça parcialmente enfiada no vaso sanitário. Ele cuspia e tossia. Nick ajoelhou-se ao seu lado e passou uma mão em suas costas e a outra em seu cabelo para evitar que o sujasse de restos de comida e bile. Sabia que não deveria haver bile ali, mas também não deveria haver um maldito tumor na cabeça daquele menino adorável, então não importava. Tudo estava errado.
Ao terminar de vomitar, Lorenzo sentou-se de costas para a bela parede de granito e abraçou os joelhos, então enfiou a cabeça entre eles e começou a chorar. Nick limpou seus lábios com um pedaço de papel higiênico, jogou-o fora e deu descarga no vaso. Sentou-se ao lado do irmão e passou o braço por volta de seu pescoço sem dizer nenhuma palavra.
— Não sei como aguentei ficar sem vomitar por tanto tempo — o menor sussurrou ainda com os olhos marejados. — Todo o cheiro daquela comida estava me deixando louco, e no péssimo sentido. Eu ia para o banheiro quando a princesa veio falar comigo. Eu a reconheci pela voz, nenhuma garota daquela idade usa mesóclises. Dei minha gargantilha a ela para que pudesse me afastar.
— Quantas vezes isso aconteceu hoje?
— Seis vezes. E quer saber de algo engraçado? Eu não comi nada hoje!
— Entendo. Venha comigo, vou te levar para a cama. A noite terminou para você.
Puxou-o pela mão e seguiu pela sala onde o elevador particular se prostrava, subiu um andar e caminhou pelos incontáveis corredores até chegar ao seu quarto. Não o de Lorenzo, o de Nick. Os dois dormiam juntos há dias, e às vezes ele dormia com Ethan. Tinha medo de ficar sozinho e morrer no meio da noite envolto em Sombras.
Nick ajudou-o a tirar as roupas formais e aproveitou para observar como crescera desde o início do ano. Na verdade, era uma coisa impossível de não ser notada. Lorenzo estava a poucos centímetros de atingir sua altura e tinha apenas onze anos, mas os ombros haviam enlarguecido, os braços e pernas haviam ficados mais compridos e estas últimas estavam mais musculosas e torneadas. As costelas quase não se projetavam mais de seu peito pálido, os quadris haviam crescido, seu próprio rosto estava se tornando menos infantil. A voz estava deixando de ser rouca para passar a ser uma voz adolescente. Era estranho pensar em tudo isso porque Nick sempre projetava a imagem de uma borboleta saindo do casulo. Havia alguma coisa estranha acontecendo com Lorenzo, quase como se todas as forças invisíveis e ultrapoderosas do mundo estivessem concentradas nele, focando algo. Se ele ainda conseguisse ver as Sombras, poderia dizer se isso estava acontecendo, mas as que via serviam apenas para guiá-lo pelos caminhos.
Aliás, Nick também estava começando a ficar ligeira e sexualmente atraído por ele. Era impossível negar que o garoto estava crescendo.
Após ajudá-lo a escovar os dentes e a vestir o pijama, deitou-o na cama e deitou-se ao lado dele até que adormecesse, como fazia sempre. O cheiro de seu cabelo misturado ao de sua pele estava quase o enlouquecendo.
— Lorenzo, eu o amo — sussurrou com um teor que julgou ser quase apaixonado. Nick não podia se apaixonar por mais um irmão. Sua vida já estava ruim o suficiente. E aquela ereção estava quase a mostra.
— Eu também o amo, Nick. — Ele se virou para encará-lo, seu lindo rosto invisível na escuridão a exceção dos olhos, cinzentos e cortantes como a lâmina de uma faca. Era impossível não se aperceber notado por aqueles olhos, não se sentir absoluta e intrinsecamente desejado por eles.
Deus do céu, eu vou enlouquecer se ficar aqui por mais um momento.
No entanto, Lorenzo beijou sua bochecha lentamente. Abraçou-o, unindo-se ao irmão com as pernas e os braços. Nick não conseguiria mais esconder a própria ereção, estava toda encostada em seu baixo-ventre. Como se algo o obrigasse a isso, segurou-o pela cintura, apertando o abraço, e seguiu com a mão para baixo, por suas nádegas macias e pelas coxas que há pouco haviam engrossado. Era um absurdo que um garoto tão novo fosse tão cruelmente sensual, e tão cruelmente… irmão.
— Nicholas… — ele sussurrou em seu ouvido. Parecia implorar. Nick tinha a mão esquerda em sua coxa. Mais uma palavra naquele rouco sotaque italiano e Nick não aguentaria mais. Mais uma palavra e faria aquele pijama em tiras. Mais uma palavra e quebraria aquela cama com seu Lorenzo.
— Shh, fique quieto. Eu preciso sair. Preciso ir embora. Deixe-me…
No entanto, sem que notasse, Lorenzo deslizou a mão por baixo das cobertas e através do corpo de Nick e agarrou seu sexo duro por cima da calça social. Nick gritou, mas então abafou o grito. Havia apenas dois tipos de tecido separando a mão de Lore de seu membro, mas o aperto era como se não houvesse nada.
— Eu não sou um garotinho inocente — ele declarou cansado. — E também não quero morrer virgem.
Então Lorenzo o beijou. Mas não foi um selinho como aquele dado nas portas da sala de reuniões de Ethan, foi um beijo selvagem, molhado, desesperado e com gosto de pasta dental de limão. Nick tirou a mão da coxa de Lorenzo e enfiou-a por dentro do short de seu pijama e da cueca, apertando aquele carne tão macia e suculenta. Parou um pouco para pensar se deveria levar aquilo até o fim e se Ethan o perdoaria se algum dia descobrisse, mas não conseguiu pensar em nada porque Lore enterrou o rosto em seu pescoço e afundou os dentes ali.
— Já que você não é um garotinho inocente, vou tratá-lo como o que você é. Eu quero que você fique de quatro.
— Sim, Nick — ele falou com volúpia na voz. Nick sentiu que queria ser mandado, ordenado, que queria simplesmente ser comido. — Vou obedecer você. Tudo o que disser.
Ele ficou na posição e para deleite do mais velho, empinou o quadril o máximo que podia quando Nick abaixou seu short do pijama. Passou a língua pela pele descoberta das bordas da cueca e depois a arrancou. Sua língua resvalou desde os testículos até seu ânus completamente liso que piscava e implorava por aquilo. A sensação daquele calor em sua boca o levou a gemer como não gemia há muitas semanas.
Com uma rapidez desesperadora, arrancou a própria calça e a cueca. Ajoelhou-se na frente do irmão e segurou um punhado de seus cabelos com uma mão para guiar sua boquinha deliciosa ao pau duro e inchado.
— Não deixe cair nem uma gota ou vou te dar uma surra.
Lorenzo vibrou com seu tom de voz duro e autoritário. Não podia estar mais contente. Tinha o lendário pênis de Nicholas Hentz entre os dedos finos e estava prestes a colocá-lo na boca, como bem queria, e o melhor era que estava sendo obrigado a isso. Era difícil Nick se comparar a Ethan quando o assunto era tom de voz arrogante ao falar com alguém a quem não realmente considerava inferior, como os dois irmãos, no caso. No entanto, quando inconscientemente considerava, era sempre deste modo que falava, mesmo que nunca percebesse. Talvez por isso a maioria dos funcionários da HBC o achasse que era um príncipe mimado e arrogante. Ele não fazia ideia de que passava essa imagem.
E era essa a imagem que passava agora, a imagem que Lorenzo queria ouvir, com aquela voz sexy e ora rouca ora estridente ordenando-lhe.
Primeiro colocou a glande na boca e brincou com ela com a língua. De quatro, tinha a cabeça enfiada entre as pernas dele quando sentiu um tapa nas nádegas. Não foi indolor ou freado para evitar que deixasse marca, foi com força suficiente para lançá-lo para frente, e aquele pau para mais fundo de sua boca. Lorenzo pensou que gozaria ali.
Colocou o resto na boca lentamente, dando-se tempo para acomodá-lo naquela cavidade quente e úmida. Nicholas brincava com seu ânus com os dedos, massageando-o e enfiando-o. Ethan nunca o havia penetrado realmente, de modo que Lorenzo perfeitamente se considerava virgem, mas não se deixaria perder com Nick. Não sabia por que e nem pensava se isso tinha algum sentido, só sentia que tinha que ser com Ethan e com ninguém mais.
Nicholas começou a gemer e a resfolegar como um animal no cio prestar a ejacular dentro da fêmea, e foi exatamente o que ele fez em sua boca. Encheu a garganta de Lorenzo num jato único de sêmen, marcando o momento com um grito de satisfação. Ethan também não o deixava cuspir ou desperdiçar nenhuma gota. Na única vez que Lorenzo se engasgou com o gozo dele, Ethan deu-lhe tantas palmadas que ficara sem conseguir se sentar pelo dia seguinte. Fora absurdamente excitante.
Nick não se contentou com aquilo. Jogou novamente o corpo de Lore na cama como se ele fosse um boneco e deitou-se em cima dele. Beijou-lhe a boca, as bochechas, sua teste e nariz, o pescoço, os ombros, os mamilos claros e o resto do tórax, cheio de amor e deleite. Lorenzo percebeu que ele estava se apaixonando, mas Nick era de certa forma apaixonado por Ethan também. Ainda achava um absurdo tremendo que os dois nunca houvessem tido um caso ou algo parecido.
Ele foi descendo lentamente até colocar seu pênis na boca. Chupou-o por não muito tempo, experiência que Lore já havia experimentado com Ethan, Goldie Lovegood e Marco Chioren, e então voltou a seu ânus. Deitado de barriga para cima, Lorenzo levantou as pernas até seus joelhos tocarem o peito, gemendo baixinho ao sentir aquela língua deliciosa tocando-lhe ali. Sabia que depois dali ele iria para suas coxas, depois para as pernas e então para os pés, e faria mais ou menos as mesmas coisas que Ethan gostava de fazer. Não sabia se aquilo significava alguma coisa. Talvez Nick tivesse ensinado Ethan a fazer sexo, uma vez que ele começara a namorar Gabriel com dezesseis anos e àquela altura Nick já tivesse treze… bem, se havia uma coisa que Lorenzo fazia para tentar preservar seu juízo era evitar fazer cálculos sobre as idades que seus irmãos tinham quando as coisas aconteceram com eles e perguntas sobre o período em que ainda não os conhecia.
— Lorenzo — Nick gemeu enquanto ainda trabalhava em suas pernas. — Quando você cresceu tanto? Você era um duende quanto eu te conheci e agora está mais alto aos onze anos do que eu era aos treze. Estou falando sério. Tenho a impressão de que você cresceu dez centímetros esse ano. Isso é normal? Não sei, depois pergunto a Ethan. — Ele parou de falar por um momento. Lore só ouvia o som de sua respiração. — Vou fazê-lo gozar agora. Volte a ficar de quatro.
— Não.
Ao invés de obedecê-lo, Lorenzo o puxou com violência e o deitou na cama, prensando o corpo dele contra o colchão. Ethan já sabia que ele gostava de mandar depois de ser mandado e sempre se deixava dominar, tanto porque Lore não tinha força para dominá-lo realmente. Mas talvez pudesse se engalfinhar numa luta com Nick e vencer.
— Agora você vai me obedecer — sussurrou para ele. — E fará o que eu disser. Fique de bruços.
Aparentemente também excitado com aquilo, Nick obedeceu. Virou o rosto contra o colchão e empinou o traseiro para o ar. Lorenzo deu-lhe um tapa lá e depois outro e mais outro até que suas nádegas ficassem vermelhas. Então calmamente aproximou a boca dali e fez nele tudo o que fazia com Ethan. Beijar alguém tão poderoso quanto Ethan ali era tão gostoso que se Lore tocasse em seu membro, acabaria gozando. Uma vez isso acontecera e Ethan o puniu, o que foi igualmente prazeroso.
Lore mordeu suas duas nádegas e subiu pelas costas dele. As de Ethan eram mais largas, mas a bunda de Nick era maior. Era difícil compactuar as duas coisas. Às vezes Lorenzo só queria ter os dois irmãos de uma vez, mas aquela ideia não estava muito certa.
— Gostaria que Ethan estivesse aqui? — perguntou de súbito.
— Não, ele me mataria.
Lorenzo começou a pressionar seu membro duro contra o ânus de Nick, o calor das nádegas dele o envolvendo todo.
— Não. Estou falando… aqui, na cama. Sem roupa. Conosco.
Nicholas gemeu de prazer. Começou a rebolar os quadris junto com as investidas de Lorenzo, que sentia vontade de penetrá-lo, mas, novamente, sentia que não era o momento certo.
— Não sei. Talvez. Se ele teve tantos amantes deve ser porque sabe como usar o que tem dentro da cueca. Me foda mais forte.
— Por que não tentamos fazer isso?
— Fazer o quê?
— Você sabe. Nós três. Ao mesmo tempo.
Lorenzo agora virou o irmão, pondo-o na mesma posição em que estava antes, com os joelhos dobrados tocando seu peito, seu ânus completamente a mostra. Deitando-se, Lore enterrou o rosto ali novamente.
— É só uma sugestão — falou antes de voltar a beijá-lo ali. Pouco depois, passou para suas coxas, pernas e pés, assim como ele o fizera e assim como fizera com Ethan e ele com Lorenzo.
— Apenas goze, Lorenzo.
Nick começou a masturbá-lo com seus próprios pés enquanto Lore voltava a colocar seu membro na boca. Não demorou muito para ele estremecer numa torrente de gozo semitransparente de desejo. Sua libido, agora, lentamente desapareceria.
— Ainda quer Ethan aqui, entre nós? — Nick indagou. Lore estranhou a pergunta.
— Sim, eu quero. Eu o quero agora e depois. E você também. Eu quero nós três juntos. Não diga que nunca sentiu desejo por Ethan. Nós poderíamos…
— Está bem, irmãozinho. Quando voltar a pensar nisso, se masturbe, como todos os garotos fazem. Mas não tente seduzir Ethan. Você não faz ideia do que acontecerá.
Você, pelo visto, também não faz a mínima ideia, pensou levemente irritado. Por que ele se segurava tanto? Nicholas obviamente não tinha pudor algum quando escolhia alguém para transar e estava pouco se importando se Lorenzo era seu irmão ou não. Quer dizer, biologicamente ele não era, mas Nick não sabia disso. Ele apenas lhe deu um selinho de boa noite.
— Vá dormir. Depois eu venho e fico com você.
— Não. — Lorenzo se aconchegou na cama e tateou o pijama que usava para vesti-lo de novo. — Acho que vou dormir sozinho hoje.
Quando Nicholas voltou à festa, estavam no meio de um espetáculo. Ethan havia contratado uma famosa cantora de blues inglesa e ela chegara quarenta e cinco minutos atrasada e meio embriagada. Não fazia mal. Toda festa da alta sociedade necessitava de suas próprias polêmicas. O Rei Senn e o Primeiro Ministro já tinham ido embora, como manda a etiqueta, mas todas as outras celebridades de Hollywood ainda se encontravam aos montes. A maioria era um monte de parasitas. Nick reconheceu um famoso comediante, alguns diretores e produtores de cinema e uma famosa cantora de ópera. Não encontrou Jules du Pont em lugar algum, o que era bom. Shane deveria ligar para ele àquela noite.
Ethan estava entretendo um grupo de magnatas do petróleo e membros influentes da família Goldenschild, alguns políticos e outros banqueiros, quando Nick se afastou com ele sutilmente, puxando-o pelo cotovelo.
— Está na hora de você se retirar — anunciou-lhe com um tom imperativo na voz. — Não pode se forçar demais. São ordens médicas. Não deveria nem ter feito essa festa hoje.
— É o aniversário de um ano da Anhert. Como não poderia fazê-la?
— Quando for adolescente ela não se lembrará se teve um aniversário de um ano ou não. E ouvi dizer que semana passada Melchior foi convidado pelo Centro Médico Hentz a fazer uma palestra para oncologistas de todo o país. Ele tem dezesseis anos, não tem que ficar dando palestras.
— Ele criou um meio de revolucionar o combate ao câncer. Não posso me dar ao luxo de perdê-lo. Se o Centro Médico Hentz o rejeitar, ele procurará outro. A última coisa que quero é Melchior alimentando meus concorrentes. Ele pode ser um maníaco psicótico, mas não podemos negar que tem chances absurdamente altas de um dia ganhar o Nobel da Medicina.
— Você é um maníaco psicótico por trabalhar com ele.
— Sabe como dizem. Mantenha os amigos pertos e os inimigos mais perto ainda. Nunca vou perder Melchior de vista.
— Espero que não. Já recebi dúzias de ofertas de filmes e seriados de Hollywood. Eles ficam abismados ao verem que eu não tenho um agente. Acha que devo arrumar um?
— Para que precisaria de um agente quando você já tem um contrato com a HBC? Quer fazer um filme ou um seriado? Arranjarei os dois.
— Não posso mais trabalhar para a HBC.
— Por que não? — ele indagou espantado.
— Porque é a Hentz Broadcasting Corporation, e eu sou Nicholas Hentz. Não aguento mais as pessoas dizerem que eu só arranjei aquele papel porque sou seu irmão. Ano que vem, quando meu contrato acabar, creio que pensarei seriamente em ir para Los Angeles. Qual parte da cidade você acha que detém as melhores mansões, Hollywood ou Beverly Hills? — Ethan ainda estava com as sobrancelhas arqueadas, a boca levemente entreaberta. — Ethan, responda. Você é um bilionário, dez segundos seus valem mais do que dez horas de qualquer um nessa sala.
— Você quer mesmo se mudar?
— Não tem mais nada para mim aqui em Middleland. Nós dois terminamos, Lorenzo vai morrer, não posso trabalhar na HBC. Você disse que as coisas estavam mudando e que nada dura para sempre. É verdade. Nada dura para sempre. E você mesmo me sugeriu que eu fosse para lá.
— Eu tinha acabado de sair de uma cirurgia e de ser ressuscitado, como Jesus. Não estava com a cabeça no lugar.
Nicholas sorriu e ficou na ponta dos pés para dar-lhe um beijo na bochecha. Esperava que algum fotógrafo houvesse capturado aquele momento e o vendesse por cem mil dólares a uma revista. Nick e Ethan podiam ter acabado de mandar seu filho para a universidade.
— Prometo que volto todo Natal, Ano Novo e Dia de Ação de Graças.
— Não tem graça.
— Então é apenas Dia de Ação?
Ethan suspirou lenta e irritadamente, então mais uma vez, forçando-se a ficar calmo para afastar a própria hipocrisia.
— Eu comprei a villa de Antonella. O lugar em que ela morava com Lorenzo antes de mandá-lo para cá e ser assassinada.
— Pensei que o lugar houvesse sido incendiado.
— Ele foi, mas eu mandei restaurá-lo. Comprei há alguns meses, na verdade. Ficará pronta até o fim desse mês, e quando ficar, você, eu e Lorenzo iremos para a Itália até que aconteça. Eu acho que ele merece falecer na terra onde nasceu. E sim, antes que você pergunte, eu vou tirar férias.
— Está bem. Pode me fazer um favor? Peça para que a banda não toque Como Vivem Os Anjos. Eu não sei o que você tinha na cabeça quando disse que Lorenzo deveria gravar essa música. Ela não para de passar na rádio e quanto mais a escuto, mais percebo o quanto é ridícula.
— Claro que é ridícula, você a escreveu.
— Vá se foder.
— Mas ela ganhou um prêmio.
— Sim, um prêmio do tamanho do nosso irmãozinho. Do nosso irmãozinho que vai morrer de uma doença absurda. Por que essas coisas acontecem com a nossa família, Ethan? O que é que há com os Hentz?
— Ele não é um Hentz.
— É sim. Qualquer um que passe muito tempo conosco é um Hentz. Depois vamos recomeçar nossas vidas. Você vai se casar com Jules e eu vou para Hollywood ser a maior estrela que esse mundo jamais viu. Depois teremos filhos esnobes e eles se verão ocasionalmente. Estenderemos nossos tentáculos pelo mundo inteiro e a dinastia Hentz criará um império.
— Ele já foi criado. Chama-se Anhert. Por que não trabalha aqui? Não na HBC, na administração da empresa?
A risada de Nicholas foi tão longa, divertida e zombeteira que Ethan provavelmente sentiu vontade de bater nele.
— Eu gostei muito disso. Deveria largar o posto de Presidente do Mundo e virar comediante. Qual é sua próxima ideia? Me mandar para Harvard? Ethan, os únicos momentos em que usarei um terno serão numa première ou no papel de um jovem executivo. Só isso. Ou posso me tornar um cantor.
— Eu já o ouvi cantando no seu quarto. Esqueça essa ideia.
— Está bem, tanto faz. Você só me atrapalharia. — Nicholas fez uma careta e Ethan o beijou na bochecha. Outra foto, outro filho na faculdade.
— Eu comprei uma ilha no Brasil. Chama-se Ilha Esmeralda.
— A renomeie para Ilha Hentz. Não porei os pés em lugar algum que não tenha meu nome nele. O que acha de Hentzwood? É melhor que Hollywood, certo? Ninguém sabe quem é Holly.
— Você pode visitá-la, meu eu pretendo usá-la como destino de… — Ele pigarreou — lua-de-mel.
— Oh — Nick murmurou, visivelmente surpreso e talvez um pouco magoado. Não era para menos. Nick era conhecido por usar o sarcasmo e o humor ácido como fórmula de escape para os problemas emocionais. — Está bem. Eu não gosto de calor, de qualquer jeito. É estranho porque eu moro na Califórnia. Bem, não importa. Shane já deve ter ligado para ele. Vá fazê-lo chupar o seu pau enquanto está sensível e deprimido. Eu vou para a cama. E deixe a festa rolar, ela vai acabar naturalmente.
Ethan realmente deixou o salão principal e seguiu por uma sala de descanso lateral que dava num corredor que dava na cozinha feita especialmente para o salão. Jules estava no corredor, completamente imóvel, recostado na parede, com os braços cruzados, seu lindo rosto coberto pelos cabelos loiros. Ele virou o rosto quando Ethan abriu a porta para ver quem entrava, mas virou-se para o lado contrário logo depois de vê-lo.
Ethan sabia que tinha de agir surpreso. Ele não fazia a mínima ideia do que havia acontecido. E Jules não poderia jamais descobrir o que Nicholas havia feito, pois afinal não entenderia que ele fizera aquilo por amor.
— O que há com você? — perguntou com ternura, aproximando-se dele. Tinham a mesma altura, mas ele estava mais baixo por causa da posição contra a parede em que se encontrava.
— Não é nada — Jules murmurou. Seus olhos da cor de um dia nublado estavam úmidos e o rímel que claramente passara nos cílios havia borrado. Não podia estar mais adorável. — Sério. Volte à festa.
— Não voltarei a parte alguma. Deixe-me tirar a sua maquiagem.
Ele afinal concordou, o que foi um ótimo pretexto para irem ao quarto de Ethan, que era o único local daquele andar com demaquilante. Enquanto Jules lavava o rosto no banheiro, Ethan ligava a lareira holográfica, uma maravilha tecnológica, diminuía as luzes e regulava a temperatura. Tinha um pequeno estoque de vinhos caros num belíssimo armário refrigerado revestido por madeira. Serviu duas taças e entregou uma a ele quando finalmente saiu do banheiro com o rosto totalmente natural.
— Quer me dizer agora qual o problema? — perguntou afavelmente.
Ele murmurou em algumas poucas palavras o que Ethan já sabia. Shane ligara e confessara a traição. Os dois haviam terminado. O plano de Nicholas saíra com perfeição, como sabia que deveria ter sido. Como havia sido com Gabriel Melnick.
— Eu sinto muito por isso — sussurrou-lhe. Estavam sentados lado a lado na beirada da cama, Ethan com o braço nos ombros de Jules. — Às vezes as coisas não são o que deviam ser e nem sempre ocorrem do modo que a gente gostaria. Simplesmente não era para ser.
O cheiro almiscarado do cabelo dele era tão delicioso que Ethan sentiu vontade de engoli-lo. Mas tinha que esperar o momento certo.
— Eu sei — ele sussurrou. — Eu fui um idiota.
— Você não é idiota. — Ethan aproximou-se e beijou-lhe a bochecha demoradamente, aspirando seu cheiro natural no processo. Não escondia o quanto o desejava há meses, nem o quanto o amava há semanas, simplesmente não conseguia. Sentia-se ligado a ele, conectado como se fossem apenas um, duas almas fundidas num só corpo. — Você é maravilhoso e eu amo você. Você merece mais que isso, Jules du Pont.
Você merece ser chamado de Jules Hentz.
— Oh, Ethan — ele murmurou abraçando-o. — Eu o amo.
Depois tudo ocorreu naturalmente.
Enquanto estava em cima de Jules, penetrando-lhe profundamente pela primeira e mais magnífica vez, Ethan sentiu um amor tão grande que sentiu vontade de pedi-lo em casamento ali, mas não era tão estúpido. Ao invés disso, fê-lo sentir prazer, tanto prazer quanto Jules um dia pensou ser possível sentir. O pôs em todas as posições sexuais que conhecia e segurou a ejaculação até o último minuto quando, já exausto, Jules rebolava em seu colo, Ethan sentado na beira da cama com o louro de frente para ele, abraçando-o fortemente. O orgasmo veio com uma miríade de pequenas explosões de prazer, como um êxtase de pura glória, o apogeu dos deuses.
— Quando você disse que iria passar a língua em cada centímetro do meu corpo, dos pés ao pescoço, não pensei que estivesse falando sério — ele falou, cansado e feliz, com o torso manchado de esperma. Não haviam usado camisinha em momento nenhum.
— Eu sempre falo sério — Ethan disse de volta, tão feliz quanto um adolescente com o primeiro namorado. Deu-lhe um beijo cálido e apaixonado. — Seria desagradável se eu perguntasse se você quer ser meu namorado depois de você ter acabado de terminar com o seu?
— De maneira alguma.
— Você quer ser meu namorado, Jules du Pont?
— Sim.
— Tem certeza? As pessoas que se relacionam conosco têm a fama de morrer ou irem embora. Meera Cinneto, Carmenia e Victoria Goldenschild, Goldie Lovegood, Gabriel Melnick, Robb Thanathos…
— Eu vou correr esse risco, mas eu espero que você compreenda que eu não sou como Gabriel, que Deus me perdoe. Eu não vou tolerar que você aja comigo do mesmo modo que agia com ele.
— Depois de Shane Spencer? Não, eu prometo que serei diferente.
Tomaram banho juntos na enorme hidromassagem do banheiro de Ethan, que não pretendia fazer sexo de novo, afinal, mas quando o louro segurou seu sexo por baixo da água e o massageou até que endurecesse novamente, não conseguiu resistir e mudou de ideia.
— Coloque na boca — ordenou-lhe e ele fez. O resto foram só gemidos e prazeres deliciosos.
Já era madrugada quando finalmente deitaram-se para dormir apenas de roupa íntima. Jules mantinha a cabeça recostada no peito de Ethan, respirando normalmente, parecendo um anjo de mármore dourado. Ele era seu, ele finalmente era seu. Como deveria ser. Como, daqui para frente, seria, tudo seguindo um fluxo contínuo e imparável como um rio caudaloso.
— Sabe, você é um amante maravilhoso — Ethan sussurrou a ele.
Jules sorriu.
— Não posso evitar. Sou francês.
Quando Jules dormiu, Ethan levantou-se sorrateiramente e vestiu suas antigas roupas. Apesar do que dissera Nicholas, decidiria enxotar todos os convidados restantes ele mesmo por nenhum motivo, mas o que não sabia era que essa sua estranha vontade mudaria os rumos das vidas de todos a sua volta por alguns bons meses.
Uma série de acontecimentos estranhos assolou o Palácio Real Hentz àquela madrugada, ou melhor, no fim dela. Nicholas Hentz, adormecido e mergulhado num sono tubuloso e infeliz, foi acordado quase às sacudidas por Jules du Pont, cujos olhos cinzentos estavam arregalados como duas pérolas. A princípio, ainda meio zonzo de sono, Nick pensou por um momento terrível que Shane havia contado que dormira com ele, mas depois tirou essa ideia da cabeça ao ver o desespero estampado em sua face.
— O que há? — indagou a ele, apertando os olhos contra a claridade do abajur.
— Eu não faço a mínima ideia — ele falou de volta. — Veja, há algumas horas eu adormeci… eh, eu adormeci no… no…
— No quarto de Ethan, com ele — completou pacientemente.
— Sim, isso mesmo. Desculpe. Bem, há pouco tempo eu acordei e ele não estava mais lá. Pensei que havia ido enxotar os últimos convidados, o que seria algo natural da parte dele, mas quando fui checar o salão, ele estava trancado e vazio.
Nick pensou na possibilidade de que Ethan já estivesse colocando chifres em Jules. Com Gabriel demorara um pouco mais; a primeira vez fora na França, com Danny Nevarnost. No entanto, não fazia sentido. Quer dizer, Ethan sabia ser bastante estúpido, mas não o suficiente para arriscar seu mais novo namoro com o rapaz com quem pretendia se casar apenas por uma pulada de cerca. Aliás, não havia ninguém tão bonito ali naquela festa.
— E daí? — perguntou complacentemente.
— Nicholas, aquelas portas nunca ficam todas trancadas ao mesmo tempo porque isso prejudica a locomoção pelo andar. O salão de baile fica no meio de quase tudo.
Nick se sentou na cama.
— Todas as saídas estão bloqueadas? Todas as quatro?
— Sim.
— Bem, pelo menos isso nos prevenirá de outro Casamento Vermelho.
— Estou falando sério, isso é muito estranho. As luzes ainda estavam acesas. Ethan deveria ter mandado a equipe de limpeza para lá após a festa terminar, como mandava a programação.
Contra a sua vontade, Nick passou a ficar mais interessado.
— Então eu segui para o escritório de Ethan. Pretendia pegar o elevador particular quando me lembrei que não posso usá-lo por causa das impressões digitais, então peguei a escada. Quando cheguei no hall antecedente ao escritório, ouvi um barulho de hélices de helicóptero que depois se afastou até sumir. Havia alguém decolando.
— Provavelmente era ele.
— Não, não era. Ele deixou tudo no escritório. E quanto a isso… bem, acho que você deveria vir comigo e ver por si só.
Tomado por um súbito pavor, Nicholas obrigou-se a levantar da cama. Seu primeiro instinto foi ver se Lorenzo estava bem. Seu corpo pequenino estava perfeitamente bem sob os lençóis da cama do quarto dele, mas ele parecia estar tendo um pesadelo. Nick não queria acordá-lo. Entre os dias de agonia, a hora do sono era a única em que Lore tinha algum descanso.
— Há outra coisa que esqueci de dizer — Jules falou enquanto eles se afastavam. — A energia do elevador privativo foi cortada.
Por isso pegaram o elevador comum, que ia dar nas portas do hall. Quando chegaram lá, Nick sentiu que seu coração ia pular boca afora. Com a respiração descompassada, aproximou-se da porta do escritório. Mal podia acreditar no que estava vendo, e sinceramente gostaria de sequer tentar.
Algumas horas antes, Ethan Lemnsack havia deixado seu quarto com um adormecido Jules e agora dirigia-se pelo salão de baile, que a essa altura, continha apenas algumas dúzias de celebridades de menor porte, parasitas que queriam se atrelar àqueles que já foram embora e que agora, embriagados, dançavam a música lenta tocada pela orquestra. Pensava na melhor maneira de mandá-los todos embora enquanto se perguntava se havia recebido bem todos os políticos e empresários importantes, lembrando-se de todos os acordos que haviam-se informalmente fechado. Uma coisa era verdade: mais acordos eram fechados naquelas festas do que em qualquer reunião do mundo.
Além do Rei Senn e do Primeiro Ministro, Ethan havia convidado alguns ministros, parlamentares e as quatro governadoras. Como a vice de Redford Bellafonte era uma mulher, todas as quatro agora eram mulheres. Nenhuma realmente fora, mas todas mandaram representantes. Havia-se obrigado a convidar Melinda Lancaster. Mandara matar o filho dela há semanas e até agora absolutamente nada acontecera. Está certo que da última vez não demorara nem um pouco menos, mas esse adiamento o estava deixando maluco. Não fazia ideia do perigo em que estava se metendo. Lancaster era uma mulher poderosa e vingativa. Se não fosse feito da forma correta, poderia significar o fim da dinastia Hentz. Que vergonha seria para seus antepassados. Todos cometeram crimes horríveis contra a humanidade e nenhum nunca fora pego por isso.
Deu meia-volta quando sentiu uma mão em seu ombro, dando de cara com um rapaz um pouco mais velho que ele, de olhos claros e cabelos pretos penteados totalmente para trás com pelo menos uma tonelada de gel. Usava óculos de armação grossa remendados com fita branca no meio e era tão desajeitado e ruim para falar que parecia o estereótipo exato de um nerd americano saído de um filme de American Pie, como aquele que Arianne Bailey matara afogado. Ethan mal acreditou que aquele ser humano pudesse existir, mas deixou para lá. Ele era representante de Melinda Lancaster.
— Sr. Lemnsack — ele disse numa voz vacilante e cheia de hesitação. Parecia ter se forçado a esperar todo aquele tempo até a madrugada. — Há alguns assuntos que eu gostaria de decidir com o senhor…
— Poderia ter feito isso antes — Ethan respondeu com veneno na voz. Não sentia vontade de ser gentil com qualquer um que trabalhasse para aquela mulher, muito embora a culpa da morte de Oliver fosse de seu filho psicopata. E pensar que todo aquele tempo Ethan pensara que era de Peter Marahana. Peter não merecia menos estar morto. — Agora é muito tarde. Peça para o gabinete da governadora marcar uma reunião comigo um dia desses. Vou ver se acho um horário livre.
— Eu realmente creio que talvez o senhor possa se interessar nisso…
— Pensou errado.
Ethan virou-se e seguiu por uma das portas laterais, uma que dava num salão ricamente decorado onde os famosos daquela festa haviam bebido e fumado à vontade enquanto firmavam seus acordos políticos e corporativos. Estava procurando o chefe de sua segurança para que enxotasse o restante dos convidados quando ouviu a voz do representante novamente, mas longinquamente distante do que antes fora resultado de um fiapo de coragem.
— Nem se for sobre a compra da White Castle, Ethan?
Ethan virou-se e deu de cara com ele. Não tinha mais os óculos e os cabelos foram propositalmente bagunçados, livrando-se daquele penteado ridículo. Sua postura agora estava ereta e arrogante, uma postura curiosamente vista apenas nos filhos jovens dos membros da alta sociedade. Seus olhos eram muitíssimo claros e desprovidos de qualquer emoção, diferentemente de seus lábios, que eram cheios de escárnio. Não havia dúvida de quem estava na sua frente era Devon Lancaster.
— Você é um ótimo ator — sussurrou-lhe. Estavam os dois sozinhos no grande salão, sem mais ninguém. Ethan foi imediatamente tomado por um primitivo instinto de perigo. Se ele sabia, Melinda sabia. Se Melinda sabia, todo o seu serviço secreto sabia também. Havia um botão maravilhoso no relógio em que usava que, se apertado, acionaria todos os alarmes daquele prédio e mandaria toda a polícia de Middleland para rastreá-lo, além da segurança do próprio prédio, mas o instinto de perigo continuava.
— Eu nunca o abandonei, Ethan — ele falou de um modo nojentamente inocente. Estava zombando de sua cara. — Desde o momento em que você saiu do coma, eu nunca o abandonei. Há alguns motivos para que os oito assassinatos que você cometeu nunca terem sido investigados ou descobertos. Nós da família Lancaster também não tínhamos interesse algum de que fossem. Você nos fez um favor. Nós sempre o vigiamos. Sempre mantivemos o olho em você, analisando cada um de seus passos. Ultimamente, você nos tem decepcionado muitíssimo.
Ethan recentemente havia dado alguns golpes nos negócios de alguns Lancaster e posteriormente os levado à falência de propósito. Era um aviso. Uma ameaça.
— Não temos medo de você. — Devon se aproximou lentamente, com os olhos de vidro petrificados como gelo molhado. Sentiu uma vontade repentina de ligar o alarme em seu relógio, mas para quê? Que motivo daria à polícia? O filho da governadora estava se aproximando dele? No entanto, se demorasse demais, poderia ser fatal. — Nós observamos e estamos sempre presentes.
Ele é um psicopata, pensou Ethan. Falara a última frase com um tom monótono e assustadoramente robótico. Ethan apertou o alarme em seu relógio. O chefe de sua segurança uma vez havia lhe dito que aquilo também acionaria o alarme sonoro, mas as luzes de segurança apenas começaram a piscar. Aquilo não estava certo.
— Nós observamos… — sussurrou Devon.
Seus seguranças invadiram aquela sala e foi aí que o coração de Ethan finalmente começou a desacelerar. Ele, no entanto, não sentiu mais nada além de uma dor excruciante e depois de um desacordado alívio, pois um dos seguranças sacou uma arma de choque e a encostou em seu pescoço.
— … e estamos sempre presentes — Devon Lancaster terminou, observando o corpo desmaiado no chão. Olhou para a equipe de segurança de Ethan Lemnsack. Todos foram sugestionados por um amigo íntimo da família Lancaster que se infiltrara nas relações pessoais de Ethan. Assim o era com seus motoristas, tanto dos carros quanto do helicóptero e do jatinho. — Ele precisará de cuidados médicos. Carreguem-no cuidadosamente.
Quatro seguranças ergueram o corpo de Ethan e seguiram com ele pelo elevador principal, enquanto Devon pegava o particular. Subiu dois andares enquanto eles subiram até a cobertura. No suntuoso escritório dele, Devon entrou em seu computador, que afinal estava hackeado desde o dia em que fora comprado. Se Ethan tivesse mais costume em arquivar eletronicamente suas intenções empresariais, os Lancaster poderiam ter evitado os terríveis acontecimentos que causaram a falência em suas empresas, mas nem tudo são flores.
Apagou todos os arquivos de câmeras de segurança daquela noite e desligou a energia do elevador particular. A essa altura, os convidados remanescentes, que não eram convidados e sim agentes dos Lancaster, estavam vasculhando todos os três andares da família Hentz em busca de qualquer dispositivo eletrônico de gravação sobressalente ou convidados verdadeiros que haviam se esquecido de ir embora e livrando-se deles. Nicholas Hentz, Lorenzo Barcarolli e Jules du Pont estavam bem adormecidos, como deveria ser. Mudou a programação da equipe de limpeza e da equipe de segurança anunciando sua dispensa por aquela noite. A equipe de limpeza também era dos Lancaster e no momento estava trancando as portas do salão de festas.
Após ter certeza de que suas impressões digitais não ficaram marcadas em nenhuma superfície daquele escritório, Devon Lancaster o deixou pelo hall. Olhou para a porte fechada, onde o símbolo da Anhert, um leão rugindo, sussurrava a patética frase: Negro ou dourado, um leão é um leão. Ethan estava errado. Ele não era um verdadeiro leão Hentz.
Com um impulso, Devon agarrou a luminária de piso e a acertou na porta várias e várias vezes até quebrar aquela madeira e tirar aquele sorriso da cara do leão, até desfigurar a frase. A porta estava em frangalhos, assim como a luminária. Limpou suas digitais e usou o elevador para subir até a cobertura. O helicóptero estava pronto. Seguiriam até o aeroporto e pegariam o jatinho até a cidade de Sacramento. Lá, sua mãe Melinda decidiria o que fazer com Ethan Lemnsack.
No momento em que o helicóptero alçou voo carregando Devon Lancaster e Ethan Lemnsack, não havia nenhuma câmera funcionando no Palácio Real Hentz; toda a equipe de segurança e de limpeza já havia se dispersado e ido embora, como a programação alterada mandara; e Jules du Pont irrompia sozinho no hall e via a porta despedaçada, apenas para logo depois descer e chamar Nicholas.
Agora os dois encaravam a porta. Nicholas, com todos os membros tremendo, passou por cima dos destroços como se fossem uma ponte e irrompeu no escritório. Sentou-se na poltrona presidencial de Ethan até que lembrou que não sabia a senha do computador. Jules se aproximou e digitou para ele, então começou a procurar alguma coisa.
— Todos os arquivos de câmeras de segurança sumiram — ele exclamou mais surpreso do que amedrontado. — Não há nenhuma câmera de segurança funcionando nesse prédio. Meu Deus. As equipes de segurança e limpeza foram… dispensadas? Não foi esse o cronograma que eu montei. Se Ethan o tivesse mudado, me falaria. Por que ele dispensaria toda a segurança? Isso nunca aconteceria. E a equipe de limpeza? Mon Dieu, qu'est-ce qui se passe?
Nicholas permanecia calado, perfeitamente calado, completamente imóvel, os olhos vidrados, petrificados. Estava acontecendo. Toda a sensação ruim que andava sentindo estava agora se acumulando em seu coração num turbilhão insuportável. Era impossível ficar parado. Agarrou o telefone.
— Nicholas…?
— Você sabia que é extremamente útil que Ethan seja dono do único aeroporto de Middleland? — ele indagou alucinadamente, mas ao mesmo tempo calmo e quieto e com um autocontrole que beirava a histeria. — Vamos fazer como a polícia. Fechar todas as saídas da cidade.
— Que diabos você está falando? Ethan não foi sequestrado.
— Cale a droga da sua boca. — A pessoa do outro lado da linha atendeu. — Quem fala? Tim Hopkins? Eu sou Nicholas Hentz, irmão de Ethan. Nos conhecemos na festa hoje mais cedo. Sou o loiro mais lindo do mundo. Meu irmão quer que você feche o aeroporto. Sim, exatamente, feche-o. Cancele voos comerciais, internacionais e domésticos e prenda no chão todos os jatinhos particulares. Você é o diretor do aeroporto, pode fazer isso. Que me importa se é ilegal e que ele perderá milhões de dólares? Está me ouvindo? Não me importo que você só possa receber ordens de Ethan, ele está incapacitado no momento. — Nicholas deu uma longa pausa enquanto ouvia Tim Hopkins recusar a ordem, e então fechou os olhos e respirou profundamente, tudo isso enquanto apertava o telefone o suficiente para os nós de seus dedos ficarem brancos. — Escute aqui, seu filho da puta, ou você faz o que eu mando ou a primeira manchete que os tabloides apresentarão pela manhã é como você adorou a minha boca no seu pau!
— Você não pode paralisar todo o tráfego aéreo da cidade por uma suposição, Ethan pode até estar na cozinha. Você enlouqueceu?
Nicholas olhou para ele. Seus olhos pretos eram intimidadores. Odiava que lhe perguntassem aquilo. Já perguntaram demais quando tentara cometer suicídio.
— Ethan teve um namorado chamado Oliver que foi assassinado há muito tempo atrás — contou-lhe. Havia extraído a verdade seguinte dele após muitos copos de uísque. Queria saber o que estava acontecendo para deixar Ethan tão ansioso e ele não lhe contava, então foi essa a única saída que encontrara. — Por oito pessoas. Ethan mandou matar as oito.
O choque que vira no rosto de Jules o deixou levemente preocupado.
— Recentemente, ele descobriu que uma nona pessoa havia estado envolvida no assassinato, só que essa nona pessoa é Devon Lancaster, filho de Melinda Lancaster. Ele mandou matá-lo mesmo assim. Semanas depois, isso ainda não aconteceu. E agora Ethan sumiu. Será que você sabe somar dois mais dois?
Nicholas deixou o escritório e pegou o elevador em direção à cobertura. Jules o seguiu atordoado.
— Espere… Ethan… Ethan não faria isso.
— Ethan teria feito isso com seu pai se Arianne não tivesse feito antes. Eu não sei se consegui passar para você a importância que Oliver teve nas vidas de todo mundo, mas a verdade é que ele provavelmente é a pessoa mais importante do universo. Ah, esqueci de dizer uma coisa. Ele não foi apenas assassinado. Ele foi estuprado pelos nove antes disso.
As portas do elevador se abriram numa cabine minúscula.
— Na frente de Ethan.
A porta da cabine se abriu. Estava gelado do lado de fora, mas Nicholas não se importou. O helicóptero havia sumido. Sim, como havia pensado. Só poderia estar indo em direção ao aeroporto. No entanto, fosse quem fosse o mandante de toda aquela operação, uma vez que Melinda Lancaster não havia aparecido ali e, aparentemente, muito menos o filho, não escaparia tão rapidamente.
Os dois voltaram ao elevador.
— Nicholas, eu… eu não sabia disso.
— Há muitas coisas sobre a família Hentz que você não sabe e provavelmente nem eu. Essa é a sina de quem se relaciona com famílias antigas. Sempre há segredos demais, dinheiro demais e pessoas importantes demais envolvidas em toda essa merda. Alguma hora, a panela de pressão tem que explodir. Espero que tenha pensado bem antes de aceitar namorar meu irmão. A história está aí para comprovar que isso não é fácil.
O elevador agora descia em direção ao estacionamento subterrâneo.
— Aonde está indo? — Jules indagou.
— Ao aeroporto — falou. — Vou pegar meu irmão de volta antes que eles descubram que o jatinho não vai decolar.
Pela primeira vez na vida, ter um carro que podia alcançar quatrocentos e trinta quilômetros por hora estava sendo extremamente útil.
No entanto, não adiantou de nada.
Quando Nicholas Hentz chegou ao aeroporto, descobriu que o dono do único jatinho particular estacionado no hangar havia dado meia volta numa enorme Land Rover quando descobriu que as operações estavam paralisadas. Sequer argumentou contra ou perguntou o porquê. Simplesmente foi embora.
Quando descobriu isso, voltou para o Palácio. Jules estava no escritório de Ethan, andando para lá e para cá nervosamente.
— E então? — indagou a Nicholas.
— Eles foram embora de carro. O jatinho continua lá.
— Eu descobri uma coisa enquanto você estava fora. — Jules se sentou na poltrona de Ethan e começou a mexer no computador. — Eles apagaram todos os arquivos de câmeras de segurança e desligaram a energia do elevador, mas não desativaram o GPS dos veículos. Há GPS no helicóptero e em todos os carros. Por que não fizeram isso?
Nick não falou nada. Estava olhando para a janela, pensando.
— Onde está o helicóptero? — perguntou por fim.
— No heliporto de um hotel cinco estrelas perto do aeroporto. Liguei para lá e usei o nome Hentz. Disseram que uma conta havia sido fechada mais cedo, antes do início da festa. Não adianta rastrear quem era. Usaram um nome e dados falsos.
— Eles levaram uma Land Rover — falou Nick. Seu intelecto o estava surpreendendo. Não sabia que era uma sensação tão boa ser inteligente. — Uma do estacionamento. Acho que parte dos homens que participaram dessa operação foram com o carro até o hotel enquanto transportavam Ethan de helicóptero, depois todos seguiram de carro.
— Mas por que não desligaram o GPS?
Nick suspirou profundamente.
— Porque eles querem que eu os siga. Isso é um jogo de gato e rato.
— Isso é loucura. Vamos alertar a polícia.
Riu longamente, quase gargalhou.
— Se fizermos isso, a história de que Ethan mandou matar os assassinos de Oliver virá à tona. Os Lancaster estão comandando isso e com certeza estão a par de tudo. Se foi Devon quem matou Oliver… Não quero nem pensar no que deve estar querendo fazer com Ethan após descobrir que ele mandou matá-lo. É isso. Temos que lutar contra os Lancaster.
— Nicholas, isso não é a Guerra das Rosas e nós não somos os York para lutar contra os Lancaster! — Jules gritou quase histérico. Parecia prestes a perder a cabeça. Se continuasse fraco daquele jeito, acabaria morto ou indo embora como todos os outros que um dia se relacionaram com os Hentz. — Somos os Hentz.
Nick levantou a cabeça e fitou seus olhos cinzentos profundamente, quase com arrogância.
— Não. Eu sou um Hentz. Você não é nada. Não tem direito de escolha aqui. Se quiser se envolver e me ajudar a salvar meu irmão, terá que fazer do jeito que eu disser. Se não quiser, vá para casa e fique lá até que tudo se resolva. O que você escolhe, Jules du Pont?
Não era tão difícil assim se submeter a um Hentz, diante de seus olhos pretos e intimidadores. Jules estava acostumado.
— Eu vou fazer o que você quiser — disse por fim.
— Ótimo. Quem venceu a Guerra das Rosas? York ou Lancaster?
— Nenhum, os Tudor venceram. Henrique VII. Ele era parente distante dos Lancaster.
— Bem, vamos torcer para a história ser diferente dessa vez. — Olhou para o Rembrandt pendurado na parede por trás da escrivaninha. Cuidadosamente, Nick o removeu, revelando o cofre com todas as joias da família, inclusive o Diamante Hentz. — Eu vou precisar de dinheiro. Sei que teoricamente tenho quinhentos milhões de dólares, mas quando for descoberto que Ethan foi sequestrado e que eu sequestrei Lorenzo, o governo vai congelar todos os nossos bens.
— Que você sequestrou Lorenzo?
— Não posso deixá-lo aqui — disse. — Ele está para morrer.
— Exatamente, por isso que ele deve descansar e ter acompanhamento médico constante. Use a cabeça.
— Use você a sua. Ethan é o responsável dele, não eu. Se Ethan some, o Conselho Tutelar leva Lorenzo embora. Não há nenhuma alma na Terra que concorde que eu serviria para cuidar dele. Os parentes mais próximos dele são de terceiro grau e vivem na Sicília. Prefiro que ele morra comigo do que com estranhos num lugar igualmente estranho. — Olhou para o cofre. — Você sabe a senha desse cofre. Não vou entrar no mérito de Ethan tê-la confiado a você e não a mim, então, por favor, abra-o.
Lenta e constrangidamente, Jules se aproximou e digitou uma série de catorze dígitos.
— Eu não me lembraria dela, de qualquer forma — Nick comentou, abrindo a pesada porta. O cofre tinha mais ou menos o tamanho de um gabinete de cozinha, exceto que era embutido na parede. Havia uma parte aberta e outra cheia de gavetinhas acolchoadas, que era onde as joias estavam guardadas. A parte aberta estava cheia de dinheiro vivo.
— Ligue para John Fauntleroy — disse Nick.
— São quase quatro horas da manhã.
— Ligue para John Fauntleroy — tornou a repetir começando a colocar os blocos de dinheiro em cima da escrivaninha. Ia contando mentalmente, mas acabou se perdendo, como sempre. Quase se esqueceu de que era péssimo em matemática. Jules lhe passou o telefone. — Conte quanto dinheiro tem aqui, por favor. — Depois falou com Fauntleroy: — John, desculpe acordá-lo, mas é uma emergência. Ethan já lhe contou sobre Oliver?
Houve uma pausa do outro lado da linha até que o advogado falou com uma voz lenta e hesitante:
— Sim, ele já comentou sobre isso.
— Eu sei de tudo o que aconteceu, não precisa esconder. Veja bem, aconteceu o seguinte… — Em poucas palavras, explicou tudo o que havia acontecido naquelas horas absurdas da madrugada. Surpreendeu-o ver que Fauntleroy também concordava que não deviam chamar a polícia.
— No entanto, eu o aconselho veementemente a não segui-los. Não apenas pode ser, como é extremamente perigoso. Algumas coisas que os Lancaster já fizeram fariam Hitler parecer Gandhi.
— Eu sei, mas não é sobre isso que quero falar. Não preciso que me diga se devo ou não ir porque eu já decidi que vou. Eu quero que você passe um milhão de dólares para conta bancária de Jules du Pont. Eu posso precisar de dinheiro no caminho.
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— É uma péssima ideia. Acredite, a polícia rastreará absolutamente todas as pessoas próximas de Ethan. Se fizer isso, ele acabará parecendo um suspeito do sequestro. Quem é a última pessoa da qual eles suspeitariam, baseado em relações pessoais?
Nicholas Hentz suspirou profundamente antes de responder.
— Melchior. É Melchior.
— Então use Melchior. Eu vou informar Lauren Mayfair e Liam Stonem do que está acontecendo.
— Está bem. Ligo para você em breve.
Quando desligou o telefone, Nick deu um grito de frustração. Saiu do escritório em direção a seu quarto, indo pelas escadas porque não estava com paciência de esperar. Encontrou uma bolsa vazia grande o suficiente para guardar o dinheiro e então voltou.
— Há pouco menos de oitocentos mil dólares aqui — Jules falou. As pilhas de dinheiro acumulavam-se em cima da escrivaninha obscenamente.
— Certo, me ajude a guardar tudo isso.
Enquanto faziam isso, Jules o seguindo como uma marionete, Nick se obrigou a pegar o telefone e a discar o odioso número de Melchior. Sua voz sedosa e macia como um travesseiro atendeu o telefone sonolentamente.
— Quem fala?
— Eu preciso de você.
— Desculpe-me, não costumo me interessar por loiros. Nem por pessoas que ameaçam toda a minha família.
Era engraçado como a voz dele continuava perfeitamente equilibrada mesmo assim.
— Ethan foi sequestrado.
— O quê? — Isso o acordou. Um tiro direto é sempre mais efetivo.
— Está interessado agora? Eu vou atrás dele. Preciso que você ocasionalmente me mande dinheiro porque é público que vocês dois se odeiam e que você é milionário, então não há como fazer relação entre isso e as transações que você me fará.
— Por que diabos eu faria isso?
— Porque você precisa de Ethan, seu grande imbecil. Ele é dono da editora que publica seu livro e da produtora que faz a série baseada nele. Aliás, sou ator de Lympharia. Se eu denegrir a série publicamente, a audiência vai despencar. Dê-me o número da sua conta bancária. — Demorou um pouco para Melchior voltar a falar alguma coisa, mas a essa altura Nick já tinha papel e caneta em mãos. — Ótimo. Dê-me um número seguro para que eu possa ligar para você. — Ele deu. — Muito obrigado. Pela manhã o dinheiro estará lá. Boa noite.
Depois disso, ligou para John Fauntleroy novamente e deu-lhe o número da conta bancária de Melchior. Um milhão de dólares pela manhã, como havia prometido. E que Deus abençoasse o fato de que advogados eram obrigados a manterem segredo de todas as falcatruas de seus clientes.
— Bem, acho que é isso — falou Nick. A bolsa de dinheiro estava pronta. Precisavam apenas acordar Lorenzo e irem ao estacionamento.
— Não vai fazer as malas? — Jules indagou.
— Não tenho tempo. Posso comprar roupas depois.
— Você está esquecendo uma coisa.
— O quê?
— Seu rosto é um dos rostos mais conhecidos do país e do mundo. Como vai fazer para as pessoas não o reconhecerem? Oh, não tente adivinhar, deixe que eu digo. Livre-se do seu cabelo.
Os olhos de Nick se arregalaram.
— Se puder usar lentes de contato coloridas, eu o aconselharia a isso. Mantenha-se longe de cidades grandes. Passe sempre pelos interiores. Não saia em público a não ser que seja necessário. Não se hospede em hotéis caros, dê preferência a pousadas. Sempre ligue de telefones públicos. Mude seu modo de andar e falar. E quanto a Lorenzo… bem, vai ser meio difícil. Não há muitos italianos de onze anos cegos na Califórnia. Isso é um presente.
Ele lhe entregou um pedaço de papel com um endereço escrito. Ficava num bairro periférico, quase nos limites da cidade.
— Você vai precisar de documentos falsos. Eu fiz uma ligação enquanto você estava fora. Vá a esse endereço e ele lhe entregará documentos do carro, identidade, carteira de motorista, certidão de nascimento e passaporte com nomes falsos, para Lorenzo também.
Nick olhou para aquilo e então para o rosto de Jules. Era o rosto de alguém triste, zangado, com medo e profundamente frustrado. Ele era realmente bonito, os cabelos e os olhos, e a pele sem nenhuma mancha ou espinha. Exatamente como Nicholas, o que antes era pura inocência agora enfrentava as nuances da vida. O que tinha de esperar para ver era se ele resistiria como Nick ou se sucumbiria.
— Boa sorte.
— É verdade que você já foi apaixonado por mim? — Os olhos de Jules se arregalaram levemente, mas então se fecharam porque Nick o beijou calma e carinhosamente. Foi apenas um selinho e durou três segundos, mas foi o suficiente para acelerar os corações dos dois garotos. — Dê graças a Deus que eu nunca tenha descoberto. Ethan trata você bem melhor do que eu trataria.
— Não se denigra assim. Você foi um anjo com Spring.
— É. E veja só como ele me agradeceu. Vamos descer. Tenho que falar com Lorenzo.
Lorenzo estava zonzo demais de sono para entender qualquer coisa que Nick dissesse, por isso apenas se limitou a trocar sua roupa e a pentear seu cabelo em velocidade relâmpago.
— Vamos, temos que ir para o carro. Depois eu digo por que, mas você vai rir bastante, tenho certeza.
Quando o menino finalmente sentiu coragem de abrir os olhos infinitamente mais cinzentos e brilhantes que os de Jules, sussurrou:
— Estou cego.
— Eu sei, desde que você nasceu.
— Não. As Sombras cobrem tudo. Não vejo nada.
— Não me admira.
— Estou falando sério. Algo sério está acontecendo. Para onde vamos? E onde está Ethan? E não vai fazer as malas?
— Não temos tempo.
— Mas são as minhas roupas!
— Você está cada dia mais parecido comigo. Levante-se e vamos!
— Espere, pegue as minhas tartarugas.
— As suas… o quê?
Lorenzo apontou para um canto do quarto onde prostrava-se uma estante cheia de livros, todos em braile, a mochila dele da escola e um computador que não servia para nada, porque Lorenzo era cego. Seu Shih-Tzu Charlie estava dormindo ao pé da estante.
— Não vejo nada.
— No canto.
Quando Nick percebeu, havia um aquário ali, não muito grande, pouco maior que uma caixa de sapatos. Havia plantas artificiais e uma ilha de algo que imitava areia, também artificial. Em cima da ilha, descansavam duas tartarugas minúsculas. A outra estava dentro da água.
— Você tem tartarugas? — indagou a ele espantado. — Você tem tartarugas e eu nunca percebi isso? Como eu nunca percebi isso?
— Você não percebe nada que não orbite o seu nariz. A que tem o casco afunilado se chama Nikita, a que tem o casco com manchas alaranjadas e protuberantes se chama Donatella e a maiorzinha se chama Franchesca. Não tenho certeza se são todas fêmeas, mas não importa.
— Por que é que você não podia ser um garoto normal? Só uma vez na vida, só uma vez na vida.
— Cale a boca, eu estou cego. E não se esqueça do meu violino.
Estavam agora no hall do elevador. Lorenzo puxava Charlie pela coleira que Nick colocara e Nick carregava o aquário nos braços. Perguntou-se o que tartarugas comiam. Jules estava esperando com a bolsa de dinheiro e as chaves do carro.
— Essas não são as chaves do meu carro — Nick notou.
— Qual a parte do não chame atenção você não entendeu? — ele indagou. — Como espera passar despercebido dentro de uma Bugatti Veyron? Essas são as chaves da Land Rover. O carro tem um computador de bordo capaz de rastrear o GPS da Land Rover que eles levaram, além de poder trafegar em qualquer terreno. E economize dinheiro. Lembre-se de que se o dinheiro de Melchior acabar, não há ninguém que poderá transferir mais para ele além de você ou Ethan, e os dois estarão incapacitados.
— E como eu sou completamente imprestável e não sei fazer nada além de exibir meu rosto bonito na TV, não serei capaz de arranjar dinheiro de qualquer outro modo. Certo, entendi.
— Eu não — falou Lorenzo. — Que diabos está acontecendo aqui?
— Eu conto no carro.
— Não, quero saber agora.
— Eu já disse que eu conto no carro.
— Acho que não chegarei ao carro. Meu tumor gigante no cérebro está prestes a me matar a qualquer momento se você não me contar.
— Por Deus, eu espero que esteja.
As portas do elevador se abriram revelando o estacionamento subterrâneo mal iluminado. Havia três limusines, uma Mercedes, uma Land Rover, embora anteriormente houvesse duas, um Rolls-Royce, a Bugatti Veyron, um Porsche, uma Lamborghini e uma Ferrari.
— Não fazia ideia de que ele tinha tantos carros.
— Nem eu, deve ser porque sou cego.
— Lorenzo, eu juro por Deus…
— Calem a boca — disse Jules, que ajudava Nick a carregar a bolsa de dinheiro. Abriram a mala da Land Rover e a jogaram lá dentro. Jules ajudou Lorenzo, que segurava o violino, a sentar-se no banco de passageiros e a pôr o cinto de segurança enquanto Nick prendia o aquário no banco de trás do carro com os cintos de segurança e amarrava a coleira de Charlie para que ele não pulasse para a frente. A seguir ajustou-se no banco do motorista e deu a ignição.
Então foi aí que percebeu que tudo estava para começar. Ethan uma vez dissera que não sabia como seriam os próximos seis meses de suas vidas nem que surpresas o destino guardava para eles, e Nick acabara de descobrir. Iria procurar por seu irmão. Seu irmão estúpido.
— Não confie em Melchior — alertou a Jules. — Nunca, jamais, em hipótese alguma confie nele. Ele tem um cabelo maravilhoso e olhos lindos, mas é um psicótico vingativo que pode estar tramando qualquer coisa nesse momento. Não caia na lábia dele. Apenas mantenha a certeza de que ele está fazendo o que foi designado para fazer e que não vai abrir o bico para ninguém. Não mantenha qualquer outro tipo de contato. Deus sabe como eu gostaria de ter tido mais tempo para alertá-lo sobre Melchior, mas estamos numa emergência. E… meu Deus, esqueci uma coisa. E a Anhert?
Do lado de fora do carro, Jules se remexeu desconfortavelmente.
— Ethan colocou meu nome na vice-presidência da Anhert. — Os olhos de Nick se arregalaram. — Não o leve a mal, ele só precisava de um nome, apenas isso. Um nome. Os diretores menores vão gerir a Anhert, além dos advogados dele. Tudo o que eu vou fazer será assinar os papeis. Se você tivesse demonstrado qualquer interesse na administração da empresa, ele teria posto o seu.
— Você tem interesse na administração da empresa? — perguntou calmamente. Jules se irritou, o que era exatamente o que Nick queria. Não aguentava mais aquela expressão deprimida.
— Eu sei que eu não sou um Hentz e seu irmão também sabe. Pare de se preocupar. Eu não planejo dar um golpe na sua família e tomar a Anhert de vocês.
— É, eu sei. Tenho mais medo de que Melchior faça isso do que você. De qualquer jeito, cuide bem dessa corporação. Ela é o bebê do meu irmão. — Deu um longo suspiro. Mais um entre muitos. — Meu mundo como o conheço está se fragmentando, e essa noite eu deveria apenas ir a uma festa e voltar para casa. Adeus, Jules du Pont.
— Adeus, Nicholas Hentz. Espero vê-lo de novo.
Nick subiu a janela do carro e deu marcha ré. Logo estava rodando pelas ruas vazias em direção a um horizonte que longinquamente nascia róseo e dourado como seus cabelos, como ouro derramado na beirada do mundo. Em algum lugar, aqui fora, seu irmão estava provavelmente desacordado dentro de um carro.
Seguiu por tempo suficiente para achar-se sobre uma colina. O endereço dos documentos falsos estava próximo, mas por algum motivo Nick sentiu necessidade de parar o carro, sair dele e encarar a cidade. Estava frio e ainda clareando. Middleland, negra e cintilante, adormecida, quieta, parada, poluída, cheia de maldições intermináveis e pessoas horríveis e maravilhosas. A cidade que o libertara dos horrores de Castellobranco e que agora deixava para se deixar dar início a mais uma nova aventura. Quem sabe quando voltaria. Quem sabe se voltaria. Se veria Jules du Pont de novo ou o Palácio Real Hentz. Nick não percebeu o quanto amava aquela cidade até aquele momento. É verdade que ela não tinha nada mais a lhe oferecer, mas não podia negar o que já lhe dera.
Quando a gente vai embora, sente uma ânsia de olhar para trás, para ver aquele poluído perfil californiano esmaecendo por trás de si — o Palácio Real Hentz, o Hentz Stadium, o Lago Henri, a Academia e a St. Nicholas, Jardim de Ouro e o apartamento na Rua Symphonia… talvez não fosse uma boa ideia olhar para trás, veja o que aconteceu à mulher de Ló. Contudo, Nicholas Hentz nunca foi um menino que prezasse pela sensatez em situações de crise e perigo em que muito racionamento era preciso. Preferia seguir seu coração, mesmo que ele lhe ordenasse que metesse uma faca de cozinha nas linhas dos pulsos, bêbado de uísque na cobertura de um prédio de vinte e três andares, cambaleante como num balé mortal.
Adeus, Middleland, pensou enquanto dava meia-volta e entrava no carro, dava a partida e então finalmente abandonava na calada da noite a cidade que um dia o acolhera.
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