Como Vivem Os Anjos
59 Lionville
Notas iniciais
Durma bem,
Chore bem,
Vá ao poço fundo
Sempre que puder.
Traga de volta a água,
Agitada e cintilante.
Deus não planejou que a consciência
Se desenvolvesse tanto.
Pois bem,
Diga-Lhe que nosso
Balde está cheio
E que ele pode
Ir para o Inferno.
(Stan Rice)
OoO
O começo da manhã já ia avançado quando Nicholas Hentz finalmente parou a Land Rover numa vizinhança miserável de um bairro periférico de Middleland. Aquele carro devia ser a coisa mais cara que rodava por ali há muito tempo, e provavelmente valia mais que o conteúdo de pelo menos uma dúzia das casas. Lorenzo estava meio adormecido no banco da frente, mas Charlie estava zanzando para lá e para cá no banco de trás. Por várias vezes Nick teve que afastá-lo do aquário com as tartarugas Nikita, Donatella e Franchesca. Cada vez mais Nick imaginava estar dentro ou de um sonho maluco ou de uma sitcom muito ruim.
A que procurava, em especial, era uma construção de um andar com janelas quebradas e forradas com papel e teto de telhas enferrujadas. Possuía o número 2.122 quebrado na frente. As paredes descascadas anteriormente eram azuis-cobalto, mas agora eram cimento puro e sujo de anos e anos de poeira. Havia um carro velho com cara de quem já não fazia nada além de beber gasolina e Nick suspeitava ver ali um buraco de bala. Havia um balanço em cima da grama verde e horrível, mas ele parecia mais uma máquina mortífera de matar. Nenhum animal de estimação, graças a Deus.
Nick estacionou o carro na frente da casa e passou pela calçada rachada através da cerca suja, tendo consciência de que estava respirando tanto monóxido de carbono quanto estaria se colocasse a boca no cano de escapamento daquele carro estacionado na garagem. Tocou a campainha. Demorou-se quase um minuto antes que ele tocasse de novo, e dessa vez quem o atendeu foi verdadeiramente um fantasma do passado, no sentido mais literal possível da expressão.
Ou nem tanto assim. O rapaz a sua frente tinha aproximadamente doze anos e longos cabelos amarelos com explosões marrons por todo ele e olhos grandes e esverdeados como uma folha no verão que, um dia, apodrece e morre. Nick demorou dois segundos para reconhecê-lo. Se estivesse usando um capuz de coelho cor-de-rosa, teria sido mais rápido. Deu um grito fino e estridente.
— Coelhinho? — indagou sem acreditar.
— Só quero ser chamado assim de novo se for da Playboy — falou Lincoln Spring. Nick pensava que havia se livrado permanentemente de todos eles no semestre passado, mas às vezes alguns fantasmas têm de voltar para assombrar mais um pouco. — Se bem que elas não fazem tanto dinheiro hoje em dia se não forem namoradas do velho Hefner, não é?
— O que é que você faz aqui?
— No momento, falo com você. Como acha que Jules du Pont tinha esse número e endereço?
— Você faz identidades falsas?
— Não, a pessoa que faz está dormindo no momento, mas ele deixou tudo pronto. Quando digo dormindo quero dizer que acho que ele usou aquela agulha da forma errada. Usar heroína é um processo tão complicado que suicídio me parece uma melhor opção, simplesmente. Venha, e traga Lorenzo. Vou precisar tirar fotos dos dois.
Tudo bem, Nick não havia passado por tantas loucuras antes para sucumbir diante daquela. Foi até o carro e arrastou Lorenzo até a casa, dando-se graças a Deus por ele ser cego quando entrou lá dentro. O interior era um horror maior que o exterior. O lugar parecia ter sido abandonado há vários anos. Além disso, havia uma pessoa derrubada no sofá velho da sala. Um homem, aparentando trinta e poucos anos.
— Deixo-o dormindo de costas porque se ele tiver um acesso de vômito, vai se engasgar e morrer — Lincoln comentou. Havia uma parte da sala cuja parede era forrada com um pano branco, com um banquinho no meio. Holofotes estavam apontados para ele e uma câmera aparentando ser cara também. Nick se perguntou de onde aquele cara havia roubado tudo aquilo. — Sente-se naquele banco enquanto ajusto a câmera.
— Você tem um banheiro por aqui? — indagou. Lincoln apontou o corredor, onde havia três portas.
— É a última.
O elevador do Palácio Real Hentz era maior que aquele banheiro, mas não importava. Nick abriu o armário e encontrou o que queria: uma máquina de cortar cabelo. Fechou o armário e olhou-se no espelho. Seu rosto, seu lindo rosto dourado, o rosto conhecido por milhões de pessoas no mundo inteiro, agora completamente amedrontado e triste. Aquele era um rosto marcado, como o rosto dos idosos era. Sem rugas, mas com linhas invisíveis que indicavam por tudo o que já passara. Todas as tristezas estavam ali. E seus cabelos da cor do ouro brilhante eram sua marca registrada, agora tão compridos que passavam dos ombros, que podia amarrar num rabo-de-cavalo. Aquele era um cabelo que sempre quisera ter, um cabelo que amava, um cabelo que causava inveja. Um cabelo que o denunciaria a qualquer um que tentasse enganar.
Ligou a máquina.
— Antes você era realmente bonito, agora parece que entrou numa luta contra um galo — Lincoln disse. Não era verdade. O cabelo estava bem aparado. Não havia sobrado nada na cabeça de Nicholas além de uma penugem da cor do trigo, estava menor que um corte militar. Teria de arranjar lentes de contato em algum lugar, mas isso era o de menos.
Sentou-se no banquinho. A luz dos holofotes reincidiu contra seu rosto, aquecendo-o e cegando-o. Fez o possível para sorrir, mas a verdade é que sentia ódio. Ódio de si mesmo, ódio de Ethan e do cabelo que jogara no lixo, ódio de quem o sequestrara e da vida que estava sendo obrigado a deixar para trás. Ódio do barulho da máquina de cortar cabelo e do cabelo loiro e comprido de Lincoln, que resmungava:
— Seu sorriso não vai ganhar nenhum concurso de beleza, mas está bom para enganar os policiais federais que te jogariam na cadeia se descobrissem que a identidade é falsa. Que nome vai usar?
— Não pensei nisso.
— Pense.
A câmera estava ligada a um computador. Lincoln sentara-se por trás dele e agora mexia na foto para mudar alguns traços imperceptíveis do rosto de Nicholas.
— Tenho uma ideia — disse Lorenzo. — Lembra-se do livro que Melchior escreveu, A Sociedade Das Pequenas Caixas, sobre o Massacre da Coruja? Bem, ele colocou todas as pessoas reais no livro, mas mudou o nome delas. No livro, há três irmãos órfãos cujo sobrenome é Strauss.
— Strauss, ótimo — disse Lincoln. — E o primeiro nome?
— Creio que o seu correspondente se chamasse John.
— Não quero me chamar John — Nick disse. — É muito comum e eu sou único. Qual era o de Ethan?
— O mais velho se chamava Dylan.
— Então serei Dylan Strauss.
— Dylan Gaunt Strauss — murmurou Lincoln. — Nascido em 26 de maio de 1998, filho de Norman Caius Strauss e Loretta Ephigenia Gaunt. Nasceu em Fresno, no Hospital Comunitário de Fresno. Está bom para você? Lorenzo, para o banco.
Lorenzo permaneceu sentado no banco com um porte principesco que apenas ele sabia ter, mesmo que estivessem em meio a uma crise.
— Qual o nome? — Lincoln perguntou.
— O irmão menor tinha ascendência romena — Lorenzo comentou. — O que não faz sentido porque o primeiro nome dele era Elliott. — Então soletrou o nome para que fosse escrito da maneira certa.
— Elliott Gaunt Strauss, nascido em 6 de junho de 2003, você já conhece a filiação e a origem. O computador está imprimindo as identidades, a carteira de motorista, a certidão de nascimento e o passaporte. Isso é para você. — Lincoln entregou a Nick uma pequena pasta contendo alguns papeis. — Documentos do carro. Uma Land Rover branca, modelo novo. Está no seu nome. Eu acho que é muito importante que você não receba multas, uma vez que não temos como trocar a placa do carro aqui. Não dê a eles motivos para irem checar.
A máquina finalmente imprimiu as identidades, os passaportes, as certidões de nascimento e a carteira de motorista de Nicholas. Estava tudo pronto. Nick mexeu em sua carteira e encontrou os documentos originais, tanto dele quanto de Lorenzo. Tirou seu isqueiro Zippo de outro bolso e seguiu para fora de casa.
— Venham, vamos fazer um ritual.
Os três prostraram-se em cima da grama cheia de ervas-daninhas. O céu estava azul-escuro, mas não tanto, e clareando. Nick acendeu o isqueiro e segurou os próprios documentos em cima da chama.
— Aqui jaz Nicholas Hentz — cantarolou. — Um garoto triste, estranho e insolente, mas extremamente talentoso e lindo. Deixará saudades. Nick foi um modelo para todos nós sobre o que não devemos fazer com nossas vidas, e tenho certeza que nunca faremos. Apesar de ter passado por vários traumas, encontrou sanidade suficiente para continuar, mas tudo tem o seu fim, e esse encantador garoto loiro finalmente encontrou o seu. Do pó viemos e ao pó voltaremos. Adeus, Nicholas Antonella Lemnsack Hentz. Descanse em paz nos Reinos Sagrados dessa grama horrorosamente mal cuidada. — Ateou fogo aos documentos e assistiu-os desintegrarem-se lentamente sobre a grama. A seguir puxou os de Lorenzo do bolso. — Aqui jaz Lorenzo Barcarolli. Um garoto estranho, horripilante e assustador, pálido como um fantasma, silencioso como um cadáver, de olhos cegos muito perceptivos. Lorenzo morreu de desgosto antes que um terrível câncer pudesse matá-lo. Não é para menos, fazia parte da família Hentz. Ficou órfão aos oito anos de idade após sua mãe ter inventado de se apaixonar tanto por um líder mafioso quanto por um multimilionário casado. Bem, acontece. Do pó viemos e ao pó voltaremos. Adeus, Lorenzo Lemnsack Barcarolli. Descanse em paz nos Reinos Sagrados dessa grama horrorosamente mal cuidada.
Seus documentos também se foram. Um vento fresco veio e levou as cinzas e logo o pó se espalhou pelas imensidões do mundo, pronto para ser esquecido. Deus, Nick poderia ter apreciado um cigarro naquele momento.
Voltaram a entrar na casa. Os novos documentos estavam todos prontos em cima da mesa do computador.
— Serão três mil dólares — disse Lincoln.
— Três mil dólares? — Nick arregalou os olhos. — O que é isso, uma impressora 3D? Não vou dar três mil dólares para dizer aos federais atrás de mim que me chamo Dylan Strauss.
— Está bem, faça melhor. Diga que é Nicholas Hentz. — Lincoln levantou as sobrancelhas, provavelmente se preparando para mais sarcasmo e cinismo, mas então as abaixou, subitamente cansado. De repente, nunca pareceu tanto com o garoto de doze anos que era. — Por favor, você tem que pagar. Siegfried conta com isso, e se acordar e eu não tiver o dinheiro, causará problemas para mim.
Nick percebeu que ele apontava para o homem desmaiado no sofá.
— Que tipo de problemas? — perguntou Lorenzo.
— Ele é um traficante — Lincoln respondeu. — Tente adivinhar.
— Como você veio parar aqui? — Nick perguntou.
— Oh, chame Melchior enquanto eu conto a história — ele exclamou —, vai dar um livro e tanto! Aproveite e chame algum produtor de Hollywood! Quero que um ator desconhecido faça o meu papel, quero autenticidade! E um orçamento de cinquenta milhões de dólares!
— Você é o garoto mais estranho que já conheci na vida.
— Depois que Spring se assumiu para meus pais, eles o expulsaram de casa e ele foi viver com Summer Deus sabe onde em Castellobranco. Depois disso, o Diabo tocou o coração dos meus pais. Ficou tudo tão pior do que quando Spring foi estuprado e contraiu HIV, o que a propósito eu espero que Summer tenha agora, já que eu furei com uma agulha todas as camisinhas deles. Mas enfim, eu achei que eles já estavam tão devastados que eu achei que não poderiam ficar mais, então eu testei e disse a eles que eu sou gay, muito embora Spring, Summer e você me tenham feito ser homofóbico.
— Você não é homofóbico, só é um idiota.
— Eles me expulsaram de casa também. Não é triste? Desde então estou bancando Henry Chinaski, servindo de aviãozinho para Siegfried e esperando que algum dia eu possa levar alguma bala perdida. O que você acha de misantropia?
— Não faço ideia do que seja isso.
— Meu Deus, seu cérebro estava no seu cabelo? O que pretendem fazer, afinal de contas? Contei a história da minha vida, a vez é de vocês.
— Ethan foi sequestrado — falou Lorenzo. — Estamos indo atrás dele. Tenho câncer terminal no cérebro.
— Vocês, Hentz, nunca ficam entediados, não é mesmo?
— É isso aí. Nick, temos que ir agora, minhas tartarugas devem estar com fome e Charlie deve estar com sede.
Nick e Lorenzo foram até o carro. Enquanto Nick abria a mala e contava cuidadosamente três mil dólares da bolsa de dinheiro, Lorenzo levava Charlie para dentro da cerca da casa para que ele pudesse beber do chafariz do jardim. Depois disso salpicou comida para Nikita, Donatella e Franchesca. Nick pagava Lincoln.
— Sinto muito pelo que lhe aconteceu — Nick falou a ele. Estava com pena, realmente, do menino. Ele não merecia aquilo. De repente, uma ideia surgiu em sua cabeça. Parecia absurda, mas podia jurar que ultimamente ideias loucas vinham pipocando em sua mente vindas de lugar nenhum, e estranhamente todas pareciam dar certo, quase como se fossem sopradas para lá. — Vem com a gente.
As sobrancelhas dele se franziram…
— O quê?
— Vem com a gente, Lincoln Spring. O que tem a perder?
— Qual a parte do eu odeio homossexuais você não entendeu?
— Você tem doze anos. Tem o direito de ser idiota. E eu gosto dos dois sexos. Lorenzo também.
… e então se levantaram, junto a um grande sorriso de felicidade.
— Sim, eu vou! — Ele pulou no pescoço de Nicholas e o abraçou ternamente, então o empurrou de volta. — Vou precisar de documentos falsos também. Espere dez minutos.
Lincoln Spring voltou dez minutos depois com uma mala nas mãos e rebatizado como Greyson Strauss-Avery. Nick só entenderia o altruísmo da ação que fizera se visse quão sorridente Lincoln estava em sua foto da identidade.
Jules du Pont não fazia ideia de quanto trabalho Ethan Lemnsack tinha antes de ser encarregado ele mesmo de fazer tudo.
Apesar de ter conversado com John Fauntleroy, Lauren Mayfair e Liam Stonem, o desaparecimento de Ethan foi obrigatoriamente reportado à polícia, uma vez que se não o fizessem tornar-se-iam cúmplices do sequestro. Os maiores meios de comunicação fizerem coberturas completas sobre o fato, muito embora não dispusessem de praticamente nada mais que a polícia. Assumindo o papel de porta-voz da família Hentz, Jules falou que a família gostaria de não ser incomodada. Deu para esconder o fato de que Nicholas fugiu até aí, mas então o Conselho Tutelar entrou no jogo e a farsa veio abaixo. A verdade é que, legalmente falando, Nicholas literalmente sequestrara Lorenzo, e isso eles não podiam ignorar.
Ou seja, Nicholas Hentz tornou-se um criminoso procurado da noite para o dia.
Tomaram cuidado de não envolver o nome dos Lancaster nisso. Não fazia sentido exporem-se a mais perigo e à ira de Melinda Lancaster. A propósito, ela enviara suas condolências à família. Quão sentimental. O Rei Senn também oferecera seus esforços. Ele não sabia que Jules conhecia o relacionamento que ele e Ethan um dia tiveram, então quando se falaram ao telefone no dia 27 de agosto foi muito difícil manter a voz controlada. Senn também não sabiam que Jules e Ethan estavam namorando, então também foi irritante. O rei claramente não conseguia raciocinar direito. Estava emocionado demais.
Nicholas ainda estava desaparecido. A polícia começou a entrevistar todos os convidados que pisaram na festa e interrogaram Jules, uma vez que era o único que estava no prédio quando tudo acontecera e que ainda estava na cidade. É claro que não lhes contou que podia rastrear o GPS da Land Rover de Nicholas e descobrir onde ele estava, na verdade disse que ele havia desativado todo o equipamento.
Quanto a Anhert, bem, tudo aconteceu da forma que Jules previra. Tudo o que precisava fazer era assinar os papeis que os advogados e os diretores lhe traziam, obviamente após lê-los com minúcia. Não ia mais à escola e não se importava com isso, simplesmente não tinha tempo. Tentava ao máximo repetir o jeito de Ethan de governar, mas não era fácil. Ele era uma pessoa organizada, mas a administração de todos os setores da Anhert era tão horrivelmente burocrática e hierarquizada, mas ao mesmo tempo tão eficiente, que chegava a irritar. Jules sentia vontade de simplesmente queimar todos os papeis que lhe chegavam, mas não podia fazer isso. Os Hentz fundaram aquele sistema de governo e não era Jules du Pont quem iria desafiá-los.
De qualquer forma, ninguém nunca achara que comandar uma empresa que era dona tanto de minas de diamante e poços de petróleo quanto de um estúdio de cinema e TV e fábricas químicas seria fácil. Continuava sendo muito mais do que um garoto de dezesseis anos podia suportar.
O mais engraçado era que Jules tinha nas mãos o poder de transferir bilhões de dólares até para a Lua, se quisesse, e no entanto continuava a receber mensalmente apenas seu humilde salário de vinte e um mil dólares. De qualquer forma, tomara o cuidado de substituir todos os motoristas, as equipes de limpeza e segurança e de trocar todos os códigos de segurança.
Havia coisas interessantes que descobrira também. Ethan estava prestes a realizar aquisições de várias partes da DuPont, a empresa da família du Pont, a segunda maior indústria química do mundo. Provavelmente queria dá-la de presente a Jules. Era adorável, realmente. Quase o fazia esquecer que também fazia parte da família Rockefeller.
Outra coisa interessante é que há muito tempo ele planejava fundar um banco. Recordando a conversa que há meses tivera com Edric Winter, isso seria uma punhalada nas costas de Cornelius Goldenschild. Ele mandara uma série de vinhos antigos e caros da safra dos Goldenschild como presente de aniversário de um ano da Anhert. Poucas empresas atraíam o rei e o Primeiro Ministro em seus aniversários de um ano, mas Ethan conseguira. Ele era um deus, absolutamente magnífico.
E estava desaparecido.
Às vezes Jules se pegava vendo os retratos enormes dos antepassados dele e perguntando-se como a família Hentz podia ser tão pequena em mais de cem anos de existência. Talvez o Livro Hentz tivesse algo sobre isso, mas Jules não ousaria lê-lo. Descobrira o livro no fundo falso do cofre escondido pelo Rembrandt, segurara-o nas mãos e largara-o como se fosse uma bomba. Sentia-se conspurcando algo que não era de sua conta. Jamais voltara a tocar naquele livro, mas ele tinha um poder magnético incomensurável, quase como se o chamasse. Jules procurava convencer-se de que passava horas olhando para o quadro de Rembrandt apenas por causa de sua beleza, e não por causa do tesouro que ele escondia.
Mas o trabalho o deixava ocupado. Como bem pretendia, tinha uma reunião em poucos minutos para decidir o destino da compra de uma refinaria de petróleo por quarenta e dois milhões de dólares. Quarenta e dois milhões de dólares, como se não fossem nada. Assustador.
Jules du Pont levantou-se da poltrona presidencial de Ethan e caminhou em direção à sala de reunião de peito erguido e cabelo preso. Não queria que eles o confundissem com uma menina, afinal.
— Muito bem, essa é a história — disse Nicholas Hentz. Estavam na estrada, correndo a quase cem por hora na direção leste, como ordenava o GPS. Pelo computador de bordo, Nick havia lido e relido em voz alta para Lorenzo as notícias envolvendo sua família. No futuro, contaria aquilo a seus filhos com risadas. Lorenzo estava no banco da frente e Lincoln estava no de trás, com Charlie no colo e Donatella, Nikita e Franchesca no aquário ao lado. — Eu sou Dylan Gaunt Strauss e Lorenzo, você é Elliott Gaunt Strauss. Somos ingleses, viemos da pequena cidade de Furness. Nos mudamos de lá em 2009 após a explosão da Companhia Tudor. Nossos pais, Norman Caius Strauss e Loretta Ephigenia Gaunt eram simples proletários e morreram no terrível acidente. Ficamos órfãos, então.
— Acho que não vai dar certo — disse Lorenzo. — Não vamos conseguir convencer ninguém de que somos pobres.
— É porque não somos mais — continuou Nick. — Depois que ficamos órfãos, fomos morar com nossa tia endinheirada, que por acaso é mãe de Lincoln. Tia Katherine Strauss, irmã mais nova do nosso pai Norman, que se tornou Strauss-Avery após se casar com um industrial, pai de Lincoln, Leopold Avery, e então enviuvou de forma bastante suspeita mais ou menos na mesma época que nossos pais morreram. Fomos viver com eles. Estão pegando tudo?
Os dois disseram que sim. Charlie latiu.
— Katherine e Leopold tiveram um único filho chamado Greyson Strauss-Avery, que é nosso primo. É uma pena que na casa vitoriana em que eles moravam não houvesse nenhum guarda-roupa mágico, isso poderia dar uma série de livros de fantasia.
— Espere um pouco, não deveríamos ter sotaque britânico? — Lincoln perguntou.
— Eu sou um ator. Sei imitar sotaque britânico. E Lorenzo é superdotado. Sabe imitar qualquer idioma no mundo. Estamos tranquilos em relação a isso. Lore, se falar uma palavra sequer em sotaque italiano na frente de estranhos, além de cego vou torná-lo mudo.
— Está bem, milorde.
Apesar da zombaria, realmente conseguia imitar o sotaque com perfeição, melhor que Nick. Talvez fosse melhor deixar ele falar com as pessoas.
— Certo, muito bem, vocês sabem imitar o sotaque britânico — disse Lincoln. — Eu não sei.
— É porque você é californiano, meu querido. Tanto Katherine quanto Leopold são ingleses, mas você nasceu e foi criado aqui. Quando nossos pais morreram, fomos morar com vocês aqui, nesse maldito país tropical que não conhece a neve.
— Está bem — ele resmungou. — Quero morar em Castellobranco.
— Que seja.
— Que estamos fazendo na estrada, então?
Nick levou um certo tempo para pensar nessa resposta.
— Tia Katherine está visitando a irmã do falecido Leopold, Betty, para seu aniversário. Lincoln, tia Betty é sua tia paterna.
— Onde ela vive?
— Bem, no momento ela vive no Arizona porque estamos indo em direção a ele. Dependendo de para onde estivermos indo, essa resposta vai mudar. Se formos para o norte, ela viverá em Northeria. Se já estivermos em Northeria, só nos restas cruzar a fronteira com os EUA e ir para o Oregon. Se já estivermos no Oregon, ela viverá em Washington. E assim por diante. Tia Katherine foi sozinha porque tínhamos que estudar, e agora que todas as provas acabaram, estamos indo também. Estudamos todos em casa, a propósito. Crianças ricas fazem isso, por algum motivo.
— Tipo você? — perguntou Lorenzo.
— Isso mesmo.
— Como vai explicar minha cegueira?
— Você estava na Companhia Tudor. Foi acertado na nuca por alguma coisa e ficou cego. Foi muito traumático para todos nós.
— Certo, só há mais uma coisa — disse Lincoln. — Vocês não nasceram em Furness. Nasceram em Fresno. Na Califórnia. É o que diz a identidade de vocês.
— Bem, sim, mas depois de Lorenzo nascer fomos para Furness, então nos consideramos ingleses. Por isso temos sotaque britânico. Aprendemos a falar lá. Está tudo bem claro para todo mundo? Espero que saibam contar uma boa história. Não vai ser muito difícil após passarmos meses mentindo sobre o assassinato de Lafferty.
Lincoln arregalou os olhos, mas Nick não deixou transparecer sua frustração pela gafe. Ele não podia fazer nada com isso, de qualquer jeito.
— Eu sabia que vocês sabiam disso! Sempre souberam que fora Arianne quem o assassinara?
Bem, pelo menos não contei que foi Ethan.
— Sim, sempre soubemos. Esperávamos que ninguém descobrisse, mas aconteceu o que aconteceu. Pensamos que fosse Amy, a propósito. Não sabíamos que Arianne existia. E só descobrimos depois de ela tê-lo jogado no buraco e o coberto de cimento. Certo, Lorenzo?
— Certo, Nick.
Nick ligou o rádio, mas a música que tocava era Como Vivem Os Anjos, então o desligou.
— Esqueci de dizer — murmurou Lincoln. — É possível que Siegfried esteja me procurando, no momento.
Bem, as coisas não param de melhorar, não é mesmo?, pensou Nick amargamente. Estamos perseguindo sequestradores multibilionários e poderosíssimos, fugindo da polícia do país inteiro e sendo procurados por um traficante perigoso, tudo isso acontecendo com um garoto com a cabeça raspada, um italiano cego com um tumor na cabeça e um autista cínico.
Ele estava no limiar da consciência, separado da realidade por uma fina película de sonho e delírio, anestesiado contra as dores e luzes do mundo exterior, imerso numa vastidão obscura de sua mente. Nada existia além de relances de luz, de sacolejos aleatórios e de uma excruciante dor no pescoço. Ouvia vozes, mas não entendia o que diziam. Pensava estar morto, mas se estivesse Oliver estaria lá para levá-lo com ele e os dois partirem juntos. Sim, agora se lembrava. Foi o que ele dissera que faria.
Às vezes pegava partes cortadas de diálogos entre homens, um deles conhecido, e embora só ouvisse sua voz não conseguia deixar de se lembrar dos olhos da cor do gelo, vazios e sem expressão, como se um terceiro olhasse através deles, como se não fossem nada além de um espelho.
— Lionville… Harmount… Transportadora… Chrysler…
E muitas e muitas vezes o odioso nome Lancaster.
Houve um momento em que pensou ter acordado quando enfiaram um canudo em sua boca e o fizeram beber, mas então voltou a dormir um sono agitado e turbulento. Sonhou com uma grande cratera no chão, o projeto de um lago artificial em Castellobranco que uma empresa de turismo pertencente a um ramo da família Goldenschild estava tentando criar, mas não conseguia o aval da prefeitura havia vários meses.
Estava com Oliver no momento. Ele costumava subir na cerca que separava a área de construções da calçada e se inclinar para o grande buraco, cujo raio chegava a um quilômetro e meio, apesar de não ser tão fundo. Ethan implorava que não fizesse aquilo. Tinha medo de que a cerca cedesse ao peso dele e Ollie acabasse no fundo daquele buraco, morto.
No entanto, ele estendia os braços, levantava a cabeça, fechava os olhos e inspirava fundo, como se estivesse no Titanic. Talvez aquela cratera imensa no chão fosse a coisa mais parecida com um oceano que eles tinham ali no sudeste da Califórnia, a mais de cem quilômetros da praia mais próxima.
— Saia daí, por favor — dizia Ethan a ele, agarrando sua cintura. Embora gostasse da desculpa para tocá-lo, não era suficiente.
— Suba aqui comigo — respondia Ollie ao abrir os olhos, duas grandes estrelas incrustradas em seu rosto de porcelana. — Não há nada a nossa frente, e quando não há nada, podemos imaginar que há tudo. Qualquer coisa. Tudo é a gente.
Houve um dia em que Ethan subiu com ele. Se empoleirou na cerca por trás dele, segurando seu corpo contra o próprio para que nenhum dos dois caíssem, e após depositar um beijo em seu pescoço olhou para a frente. Uma escuridão avassaladora parecia chamá-lo para a frente. A cratera, quase invisível à noite na falta de luz, parecia um buraco-negro. Pedia-lhe que se juntasse a eles, como seus antepassados tinham se juntado também.
O que era uma experiência maravilhosa para Oliver porque mexia com seu lado espiritual e sobrenatural, foi um pesadelo para Ethan. Sentiu-se sufocado, sem fôlego, forçado. Saiu daquela cerca e se afastou da calçada e da cratera, arfando.
Despois descobriu-se que o local da cratera havia sido uma vez um cemitério e que a família Goldenschild removera os corpos, muito embora os antigos inquilinos não pareceram ter deixado o lugar. Foi um dos maiores escândalos da história da família. Ethan só se deu tempo para pensar essas coisas quando teve tempo, e só teve tempo quando estava num estado de semiconsciência com a boca tapada na mala de um carro, do próprio carro.
A luz do sol bateu em seu rosto, quente a princípio, mas esturricante depois. A muito custo, abriu os olhos. Zonzo, enjoado, a visão turva, viu uma estrada e terra, quilômetros e quilômetros de terra, com montanhas e serras no horizonte. Ah, a beleza da Califórnia, pensou com desgosto.
Viu outra coisa, uma bem maior, gigantesca, brilhando sob o sol fortíssimo como um grande espelho. Um letreiro estava escrito em sua lateral. Quando as letras se tornaram legíveis, Ethan viu, ao longe, o que parecia ser um amontoado de lixo, mas na verdade eram casas. Então, de repente, todas as palavras que ouviu durante seu sono amaldiçoado fizeram sentido.
Algo o preocupava. Por que os Lancaster não estavam se dirigindo a Sacramento? Ao invés disso, estavam dando voltas em Southeria como se fosse um jogo doentio. Bem, era um jogo doentio, mas também era irritante. A Land Rover era uma compulsiva bebedora de gasolina e Nick já havia gasto centenas de dólares apenas com isso, parando em interiores desolados para abastecer. E rodavam já a sete horas. Se houvessem andado em linha reta, poderiam já ter chegado em Northeria e voltado. Mas, mesmo assim, eles continuavam se dirigindo essencialmente ao leste, sempre pegando as estradas menores.
Nick se perguntava o que finalmente faria quando a hora do confronto chegasse. Talvez pudesse jogar montes de diamantes neles, mas então eles jogariam montes de dinheiro. Não fazia ideia do que fazer. E Lorenzo estava com fome.
— Sim, eu já ouvi — resmungou. — É a terceira vez que você fala.
— Mesmo assim, você ainda não resolveu. Sou um garotinho cego morrendo de câncer, Nick. Me alimente. E a água está acabando.
Estavam perigosamente próximos da fronteira com o estado americano de Nevada. Nick sabia que eles não cruzariam a fronteira com Ethan Lemnsack na mala do carro, ou em qualquer outra parte. A última coisa que os Lancaster queriam era o FBI envolvido nisso, então por que estavam se dirigindo àquela área desolada? De acordo com o GPS, o lugar mais populoso daquela parte do país era uma cidade de vinte e cinco mil habitantes chamada Harmount.
Do lado de fora, a paisagem consistia em deserto, calor, arbustos e desolação. Era deprimente e já estavam perto do meio-dia. Alguma hora, precisariam parar para alimentar os humanos e os animais. Se nada acontecesse, Nick seria obrigado a ir para Harmount, que era algo que queria evitar, uma vez que tinha medo de ser reconhecido.
— Eu já disse como esse carro é desconfortável para quem quer deitar e dormir? — indagou Lincoln sonolentamente no banco de trás. — Você deveria ter pego algo melhor, como um trailer. Ninguém desconfiaria de você usando um trailer. Quer dizer, você é tão rico e parece tão rico que ninguém jamais acharia que entraria dentro de um trailer.
— Você está desconfortável porque está ao lado de três tartarugas e um cachorro — Nick falou. — É por isso.
— Mesmo assim…
— Shh, cale a boca!
Seus olhos estavam grudados no painel do computador de bordo. Ao que tudo indicava, a Land Rover roubada havia parado num lugar chamado Lionville, a não muitas dezenas de quilômetros de distância. Nick sentiu seu coração acelerar como nunca. Podia ser lá, Lionville, que Devon decidiria acertar as contas. Podia ter recebido uma ordem para matar Ethan. Não! Não chegaram tão longe para isso!
Acelerou o carro para mais de cem por hora.
— Lincoln — murmurou concentradamente —, pegue o tablet e pesquise sobre Lionville. — Apesar do ar-condicionado, estava começando a suar.
— Está bem — ele se inclinou para frente e puxou o tablet. — Lionville. Existem quinze cidades nos Estados Unidos com esse nome e uma na Califórnia. Qual você deseja?
Nick o teria estrangulado gostosamente depois dessa, mas a pergunta tecnicamente fazia sentido, e o pânico misturado à ansiedade o acalmou o suficiente para responder.
— Califórnia.
— Certo. Lionville, Southeria, Califórnia. Cidade fundada em 1890 por, ora veja só, John Francis Hentz. Foi a primeira cidade que ele fundou no que antes era território americano. Criada por causa da corrida do ouro, continha minas de ouro, prata e outros minérios. A Kruger-Vorheel Company instalou ali uma filial sua e as casas começaram a crescer como fungos. Em seu auge, a cidade teve dez mil habitantes, mas sua fortuna acabou por volta do começo do século XX e ela foi abandonada e esquecida doze anos depois…
— Oh, deixe-me adivinhar — comentou Nick histericamente animado. — É uma cidade-fantasma.
— Precisamente. Foi transformada em Patrimônio Histórico Nacional em 1958 porque a maior parte de sua estrutura está preservada. É local turístico hoje em dia, mas só de setembro a março, quando o clima está mais ameno. Como estamos no verão…
— Está obscenamente vazia — Nick completou. — Sem absolutamente ninguém, nenhuma testemunha.
— Você está passando bem? Não que eu me importe, mas você está dirigindo em altíssima velocidade o mesmo carro onde eu estou, então…
— Você sabia que John Francis Hentz foi chamado de leão dourado pela primeira vez na África do Sul? Por isso a cidade se chama Lionville. Ele a batizou em homenagem a si mesmo. Parece Ethan e Hentzland. Todos narcisistas. Tinha apenas vinte e um anos, mas é isso aí. O maldito filho da puta começou com vinte anos, ao invés de com dezessete, e assim nunca foi sequestrado e nem nunca atentaram contra a vida dele.
— Bem, você nunca sabe se atentaram ou não. Pelo menos é uma grande coisa para contar aos seus filhos. Fui sequestrado aos dezenove anos. Quantos garotos de dezenove anos que vocês conhecem são importantes o suficiente para serem sequestrados? Ah, aliás, eles já ligaram pedindo resgate? É o certo a se fazer.
— Não sei, não escuto mais a rádio porque sempre que a ligo está passando aquela maldita música.
— E eu continuo com fome — resmungou Lorenzo.
Estava vestido profissionalmente o suficiente para aquela reunião. Jules adentrou a suntuosa sala de reuniões de Ethan com um porte galante que aprendera a ter para lidar com aqueles ricos importantes que sempre iam ao prédio falar com seu chefe — e agora namorado.
Para falar a verdade, como não tinha nenhuma roupa formal o suficiente, estava simplesmente usando um dos Armani de Ethan. Era tão agradável que os dois tivessem as mesmas medidas, embora estivesse um pouco apertado nos quadris. Os sapatos Louis Vuitton eram perfeitos, apesar disso.
Nas primeiras reuniões que tivera com os diretores dos diversos departamentos da Anhert Corporation, basicamente tudo o que fizeram foi dar andamento e finalizar as operações em que a empresa estava envolvida antes de Ethan ser sequestrado. Todos concordaram que seriam absolutamente prudente que nenhuma aquisição nova fosse feita enquanto não resolvessem sobre Ethan. Jules ficara satisfeito. Mas todas as operações foram finalizadas e agora eles tinham que resolver o que fazer.
A sala era ampla, arejada, moderna, cinzenta e azul, onde quase tudo era de vidro ou de metal. Grandes janelas deixavam a luz do sol entrar, e confortáveis poltronas e sofás de couro legítimo aguardavam nos cantos. Havia uma enorme mesa de vidro de dezoito lugares, oito de cada lado e dois nas extremidades, onde dezessete estavam ocupados. Havia uma jarra de água para cada cadeira, onde recostava-se um diretor dos vários departamentos da Anhert.
Jules caminhou através da sala e postou-se por trás da poltrona presidencial de Ethan, a única cadeira diferente de todas as outras. Deus, como ele amava hierarquia.
— Senhores — começou a falar animadamente, quase como se fosse Nicholas. — Vejo que convocaram uma reunião de emergência. Mas para que todo esse nervosismo? Até parece que os negócios vão mal.
— Queremos saber sobre Eth… quero dizer, o Sr. Lemnsack — comentou o chefe do departamento de mineração de petróleo. — Horas já se passaram e ainda não houve nenhuma ligação pedindo um… resgate ou algo parecido.
— Ah, sim, isso é preocupante — Jules concordou condescendentemente. Já havia assistido a muitas reuniões de Ethan. Ele sempre tratava todos ali como se fossem essencialmente inferiores a ele, mas nunca dava as costas a uma opinião. — De fato, isso é de consternação apenas da polícia, meus senhores. Agora por que não perguntam o que realmente querem saber?
— Queremos saber sobre a empresa.
— Certo, muito bem. A Anhert Corporation foi considerada, como todos aqui devem saber, uma das empresas de maior crescimento na menor quantidade de tempo de todos os tempos. Não é porque não se tem mais Ethan que isso não vai continuar. Agiremos com cautela, manteremos os atuais contatos e não desprezaremos novos. E… rezaremos para ele voltar.
O celular de Jules tocou dentro do bolso.
— Peço que me perdoem. — Quando viu o número, acrescentou: — Preciso atender. Deem-me um minuto.
Saiu da sala e andou alguns passos no corredor antes de sussurrar rispidamente:
— O que foi que eu falei sobre ligar apenas de telefones públicos?
Cidade-fantasma de Lionville
1890 — Maior campo de mineração de prata da Califórnia — 1902
Era isso que dizia a faixa pendurada entre duas grandes estacas de madeira na entrada da cidade de Lionville. Não se ouvia um único barulho em toda a cidade. Tudo era de madeira e pedra e muito antigo, como se Nick houvesse entrado num túnel do tempo e estivesse prestes a ver John Francis Hentz, louro e bonito, de pé no meio daquela cidade, dando ordens e fazendo milhões.
Lionville ficava no meio do que parecia ser uma grande cratera cercada de montanhas. Em uma delas haviam escrito LIONVILLE com alguma coisa que Nick não conseguia identificar o que era, como se fosse o letreiro de Hollywood. De acordo com o GPS, a Land Rover estava mais no fundo da cidade.
RESTAURANTE DE LIONVILLE, CEMITÉRIO DE LIONVILLE, IGREJA DE LIONVILLE eram os nomes gritados pelas placas acimadas nas construções antigas. Um cemitério de uma cidade-fantasma parecia ser um convite ainda maior para quem gostava de aventura, mas aquele ali baseava-se apenas num terreno estéril já sem lápides, limitado por uma grade de ferro. De qualquer jeito, era assustador demais até para ele. Talvez pudesse filmar um filme de terror ali. O restaurante tinha janelas novas e por dentro quase todos os móveis eram novos, mas a estrutura em si era centenária. Havia uma escola minúscula, branca e azul ali perto, trancada por fora, mas conservada por dentro. Havia um enorme quadro-negro na frente da sala única e carteiras de madeira e ferro de dois lugares e até um aquecedor de ferro puro no meio da sala.
Cidade-fantasma de Lionville
POPULAÇÃO
Em 1890 — 40
Em 1892 — 1.200
Em 1895 — 10.800
Em 1900 — 900
Em 1902 — 15
Em 2014 — 0
— Que coisa deprimente — falou Nick vendo a placa. Sentia-se como um viajante no tempo de verdade vendo a cidade natal se deteriorar num futuro apocalíptico. Havia um certo tom de nostalgia em tudo aquilo, como uma sensação de que o abandono da cidade não deveria acontecer. Lionville. A vila dos leões. E onde estavam os leões, afinal?
— Ei, Marty McFly — disse Lincoln se aproximando. Tinha sua mala na mão. Lorenzo ainda estava no carro, que estava estacionado ligado poucos metros antes da entrada da cidade. — Veja, tenho algo que pode ser-lhe útil.
Ele pousou a mala no chão e a abriu. Entre amontoados de roupas, havia uma pistola.
— Meu Deus do céu — Nick exclamou. — O tempo todo estávamos viajando com uma pistola? Você perdeu o juízo? Depois de todo o trabalho que tivemos para arranjar identidades falsas? Depois de eu cortar o meu cabelo? Faz ideia do que seria de nós se a polícia nos pegasse com isso?
— Eu disse que Siegfried estava me procurando, e eu não iria contar com você para me proteger dele. Não é nada sem seus milhões Hentz, Nicholas. Você está prestes a enfrentar assassinos sequestradores multibilionários. Precisa disso. Suas namoradas malucas não o ensinaram a atirar? Pensei que todos os ricos soubessem fazer isso.
Nicholas Hentz não pode acreditar que passou os próximos cinco minutos recebendo instruções de tiro de um garoto psicótico de doze anos.
— Boa sorte — ele disse. — Ah, mais uma coisa. Eu sei dirigir, embora tenha dificuldade em alcançar os pedais. Só queria dizer que se eu ouvir barulho de tiros, vou dar meia-volta com o carro e sair daqui com ou sem você, então pense muito antes de atirar. Você pode querer salvar Ethan, mas eu quero apenas me salvar. E vou salvar Lorenzo também, então é uma coisa altruísta…
— Se eu te der as malditas chaves, você cala a boca?
— Sim. E não se esqueça do sotaque britânico, Dylan Strauss.
Lionville estava realmente morta. Morta no chão e morta no cenário. A paisagem estéril que circundava a cidade era composta por terra e um calor excruciante. O céu, de um azul vivíssimo, não apresentava nuvens.
Nicholas caminhava a passos curtos e silenciosos em direção ao coração da cidade com a pistola na mão, consciente do quão ridículo parecia, do quão absurda toda a situação era. O que estava fazendo? Não era capaz de atirar em alguém, de matá-lo com as próprias mãos. Não era Ethan. Deveria ter forçado Lincoln a ir com ele. Ele seria capaz de atirar sem sentir remorso. E Lorenzo também atirara em Enzo Granelli com apenas nove anos.
As duas crianças de que cuido são mais capazes disso que eu, pensou meio histérico, alucinado com o perigo que sentia estar correndo. Estava deslocado ali, tinha certeza disso. Alguma coisa dentro de si estava morrendo e levando-o com ela. Não conseguia. Não podia dar nem mais um passo. Não era um Hentz. Era um fraco.
No entanto, de repente lá estava a Land Rover roubada, um modelo de cor negra. Todas as quatro portas estavam abertas, assim como a mala. Nicholas não ouvia absolutamente nada. Não havia ninguém por perto.
Aproximou-se do carro. A mala e os bancos traseiros estavam vazios, no entanto as chaves ainda estavam na ignição. O GPS estava ligado. No banco do motorista, havia um pedaço de papel com uma série de números aleatórios escritos à caneta. Nick sabia o que era. Era um número de série.
Voltou correndo ao próprio carro onde Lorenzo e Lincoln o esperavam.
— E então? — indagou Lorenzo exasperado. — Encontrou-o?
— Não — respondeu. — Eles abandonaram o carro aqui.
Pediu a Lincoln para escrever o número de série no computador de bordo, já que estava nervoso demais para acertar os botões. Quando ele apertou enter, o GPS localizou outro ponto, muito mais distante.
— Eles trocaram de veículo — percebeu. — Deixaram o número do novo GPS para que eu possa continuar seguindo-os.
— Onde eles estão? — Lore perguntou olhando cegamente para a tela do GPS.
Nick suspirou longamente.
— Em Nevada. Atravessaram a fronteira com os EUA. Preciso fazer um telefonema.
— Não é seguro — disse Lincoln. — Há mais gente em busca de nós do que em busca do Vale Encantado e hoje em dia qualquer um com um telefone pode ser rastreado.
— Eu sei. Vou ligar do outro carro.
Refez o caminho de volta à outra Land Rover e discou um número que obrigara-se a aprender no telefone do próprio carro. A voz irritada de Jules du Pont atendeu-o.
— O que foi que eu falei sobre ligar apenas de telefones públicos?
— Como já percebeu, eu achei a Land Rover, mas Ethan não está nela. Eles trocaram de veículo e a abandonaram numa cidade-fantasma chamada Lionville. Atravessaram a fronteira agora. Jules, eu não sou muito inteligente e tenho apenas duas crianças de companhia, então o que você acha que eu devo fazer agora?
— Se eles atravessaram… duas crianças? Oh, esqueça, eu acho que não quero saber. Se eles atravessaram a fronteira com Ethan, o estavam escondendo bem. Eles precisariam de um veículo grande com grande carga, como um caminhão. Agora que me lembro bem, os Lancaster são donos de uma transportadora de materiais de construção chamada Transportadora Chrysler. Um caminhão dessa companhia facilmente passaria pela fronteira sem muita revista, sem falar que ele poderia carregar grandes containers e ninguém perguntaria por quê.
— Esses caminhões também têm GPS, não têm? Eles fizeram o favor de me deixar o número de série do deles. Vou ter que atravessar a fronteira, então?
— Ao que parece, sim. Sabe, Nick, você sempre pode voltar.
— Não vou voltar. E não me chame de Nick. Mande alguém discreto vir buscar a Land Rover enquanto o GPS ainda está ligado. Lionville. Deseje-me sorte. Se eu for pego com documentos falsos atravessando a fronteira dos Estados Unidos, não quero nem pensar no que vai ser do pobre Nicholas Hentz. Por que não me falou que Lincoln havia virado um aviãozinho?
— O que Lincoln tem a ver com isso? Oh, por favor, não me diga que ele é a segunda criança. Bem, não importa. Você costumava me odiar porque eu te lembrava a St. Nicholas e Lincoln é idêntico a Spring. Pensei que odiaria muito mais.
— Eu odiaria mais você esconder o fato de que ele estava nas mãos de um traficante.
— Você nunca teve motivo algum para gostar dele. E ele não estava sozinho, seu tolo. Eu o mandava dinheiro todos os meses e cuidava para que não lhe fizessem mal.
— Por quê? Por que cuidava dele?
— Porque ele não tem mais ninguém.
Nick passou um longo tempo em silêncio, então suspirou longamente.
— Mande virem buscar o carro. Vou continuar procurando Ethan. Adeus.
Desligou o telefone e olhou para o horizonte. Às vezes, quando gostamos muito de uma pessoa, mas por algum motivo não nos aproximamos dela porque algo nos impossibilita, essa paixão chega a um ponto em que começa a se desvanecer, mas não queremos que isso aconteça porque gostamos de estar apaixonados. Nick agora sentia sua raiva suprimida por Jules começar a dar lugar a alguma outra coisa, mas não queria pensar nisso. Teimosamente, insistia em não simpatizar com ele, mesmo que ainda não tivesse desmantelado e vendido a Anhert.
Um barulho por trás de si chamou-lhe a atenção. Quando Nick olhou para trás, viu alguém.
Ele bebeu todo o conteúdo daquela taça de champanhe de uma vez. Estava sozinho, apreciando o dia claro e luminoso que se apossara de Middleland. O céu estava anilado e sem nuvens e havia um calor agradável pairando sobre a cidade. Um bom dia para ir ao parque ou à praia, o que era uma pena porque Middleland não tinha praia.
Estava na varanda de casa, no primeiro andar, recostado sobre uma poltrona confortável com os pés por cima da grade, observando a bela paisagem de Jardim de Ouro e bebendo aquela deliciosa champanhe dourada, usando apenas um sobretudo por cima do corpo nu. Estava sozinho com Daemon em casa e os dois haviam acabado de fazer amor juntos. Andavam fazendo aquilo há bastante tempo. Melchior não via razão para pararem.
Mais cedo, quando recebera a ligação de Nicholas e lhe passara os dados da conta bancária, um misto de emoções se apoderou de seu corpo. A primeira foi apreensão, em seguida foi surpresa, então Melchior foi tomado por uma curiosa sensação de calma e tranquilidade. Estivera dormindo nu com Daemon àquele momento e o acordara após a tranquilidade ter repentinamente se metamorfoseado em excitação pura. Transara com ele até extinguir todas as suas forças e então ficara olhando para o teto do quarto, absorto em pensamentos feitos de puro êxtase.
Ethan fora sequestrado.
Ethan seria morto.
A Anhert Corporation estava completamente desprotegida porque Deus e o mundo sabiam que Ethan Lemnsack era a única coisa que a protegia das garras afiadas de Melchior. Nicholas também sabia disso, mas era burro demais para se importar.
O caminho estava quase livre, só havia alguns empecilhos na frente. Felizmente Melchior era conhecido por se livrar de seus empecilhos, mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro, custasse o que custasse. Era nesse empecilho em que trabalhava agora. Esse empecilho louro de olhos cinza.
Jules du Pont.
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