Notas iniciais
Sim, eu usei uma frase de CVOA como citação num capítulo de CVOA, lidem com isso. :3

Pena mesmo seja

Que você tenha cometido um erro

Pois não queremos que ninguém veja

A cruz sob concreto enterro.

(Como Vivem Os Anjos

— Susi Polela)

OoO

— Acho que ele morreu, Lorenzo.

— Se Nicholas Hentz morresse, o chão se partiria em dois e anjos desceriam chorando do céu.

Lincoln parou de tentar irritar Lorenzo. Ele era muito mal-humorado e ranzinza para ir na dele, parecia uma cópia mais sinistra de Spring. Talvez fosse o tumor no cérebro que estivesse pressionando algum lugar importante ou fosse por causa de todos os traumas que passou e do recente sequestro do irmão. Bem, nada disso importava porque a gasolina estava perigosamente baixa. Lincoln era inteligente o suficiente para saber que se o carro passasse mais vinte minutos ligado com o ar-condicionado no máximo, não teriam combustível o suficiente para chegar à Harmount e morreriam de fome e sede no deserto. Por isso decidiu que esse seria o tempo que daria a Nicholas para voltar ao carro antes que subisse no banco do motorista e partisse dali sem ele.

Lorenzo não precisava saber, é claro. Ele também não tinha como impedi-lo, mas seria melhor não haver incômodos.

Fez carinho por trás das orelhas de Charlie. Spring poderia chamá-lo de psicopata, mas Lincoln nunca sentira a vontade de mutilar ou matar um filhote, como os psicopatas normais. Esperava não haver nada de errado com isso. Quer dizer, já era ruim demais ser tão estranho, não precisava ser estranho dentro da própria estranheza.

— Ainda não acredito que John Francis Hentz fundou uma cidade — comentou com o menino, que carregava uma carranca no rosto mesmo com a suavidade em sua voz.

— Ele também fundou Middleland e um punhado de cidades pequenas no interior de Southeria e Easteria. Grande coisa.

— Por que você usa um crucifixo no pescoço?

— Eu sou cristão. Eu fui batizado.

— E daí? Eu também fui. Meus pais eram cristãos fanáticos e expulsaram os dois filhos de casa. Você acha que quando toda essa novela acabar e os Hentz recuperarem o trono, Nicholas vai me ajudar a acabar com eles?

— É bem provável que ele faça isso.

— Por que acredita em Deus se Ele te deu câncer?

— Acho que é mais provável que a entidade maligna milenar que vivia no subsolo de Middleland ano passado tenha me dado câncer do que Deus.

Lincoln não soube o que responder diante daquilo. Tinha uma forte impressão de que Lorenzo estava mentindo, mas algo dentro de si dizia que não. Uma partícula minúscula, pequena, quase ínfima, essencialmente presa a sua alma insistia em acreditar no que ele dizia. Afinal, Lincoln não sempre pensou que tinha algo mais como um sexto sentido para descobrir o que as pessoas sempre pensavam? Às vezes, tinha a impressão de conseguir ouvir os pensamentos mais secretos delas, e isso outrora lhe ajudara a construir a imagem sinistra que as pessoas tinham dele, como Coelhinho no semestre passado. Ah, fora divertido, sim, se fora…

Lorenzo se levantou do banco e inclinou-se para trás, bem para trás, quase colando seu rosto ao de Lincoln, e então sussurrou com uma paixão ardente, quase alucinada:

Eu sei que você lê pensamentos.

No entanto, Lincoln percebeu, horrorizado, que ele não mexera uma única vez seus lábios para que pudesse ecoar aquele som.

Quando quiser praticar violino, eu tenho um Stradivarius.

Havia algo vivo em seus olhos cinzentos, uma luz esbranquiçada e avassaladora, cheia de um poder insonhável que Lincoln sequer imaginara que pudesse existir. Nada daquela magnitude parecia poderexistir dentro de um garoto do tamanho de Lorenzo. O mais velho dali teve a impressão de que olhava algo único e especial quando fitou seus olhos, seus enormes e gigantescos olhos… eles pareciam querer engoli-lo vivo, devorá-lo com dentes feitos de córneas. E então, de repente, uma queimação quase insuportável, uma agonia excruciante tomou conta do corpo de Lincoln da cabeça aos pés, como se todo o seu corpo estivesse coberto por formigas, como se a circulação sanguínea houvesse parado por um instante e depois voltado a circular, como às vezes ocorre com um membro do nosso corpo ao dormirmos de mau jeito. Seus ossos estavam em chamas.

Estava gritando quando Lorenzo interrompeu o contato visual e atirou-o de volta à realidade como uma pedra num estilingue.

— Quando Ethan fixa olhar numa pessoa — ele falou, dessa vez com seus lábios —, consegue apenas fazê-la sentir frio, calor e se arrepiar. Às vezes tira-lhe todo o tesão, mas não importa. Quando eu faço, causo dor. Acho que isso tem muito a ver com minha doença, mas eu nunca fiz algo assim antes dela surgir.

— Por que você consegue fazer isso? — Lincoln perguntou assustado. Lorenzo apenas dirigiu-lhe um sorriso elegante e diplomático.

— Algumas pessoas conseguem fazer coisas que os outros não conseguem. Você lê pensamentos, Lincoln, queira ou não. Eu posso detectar mentiras na voz de qualquer um e tenho uma percepção extremamente avançada de espaço, e também sou muito bom em notar os sentimentos e necessidades das pessoas. Acho que o fato de que também sou um gênio é só um adendo.

— Mas… por quê?

— Minha mãe era extremamente inteligente, meu pai se formou em Harvard, e acho que um membro da família Barcarolli uma vez ganhou um Prêmio Nobel em química, ou foi em medicina…

— Não isso! A outra coisa…

— É seu sangue, Lincoln Spring. Seu sangue mágico e milenar. É ele que te dá isso. Aproveite bem. Meu poder está se esvaindo porque estou morrendo. E nada no mundo vai mudar isso. Oh, veja só. Nicholas precisa de nós. Vamos lá, e traga Charlie. Deus sabe que ele precisa caminhar.

Atordoado, Lincoln ajudou Lorenzo a sair do banco de passageiros do carro e enrolou a coleira de Charlie em sua mão. Os dois garotos agora seguiam cidade adentro, passando pelos mesmos monumentos que Nick passara alguns minutos atrás. Lincoln sentia-se num cemitério, afinal acreditava que aquelas construções podiam um dia ter estado tão vivas quanto as pessoas que as fundaram, ergueram e delas usufruíram apenas para irem embora quando os minérios acabaram.

— Não se irrite com aqueles mineiros que um dia trabalharam aqui — murmurou Lorenzo auspiciosamente. — Eram apenas alguns bons homens com o sonho de se tornarem ricos. Alguns não conseguiam e voltavam para casa. Outros conseguiam e se tornavam… John Francis Hentz. São os bisavós e trisavós dos homens de hoje.

— Ora, pare de tentar adivinhar o que estou pensando.

Não estou adivinhando.

Lincoln meteu o pé numa pedra que estava em seu caminho porque ficou nervoso demais com aquele sussurro demoníaco em sua mente, que por mais incrível que parecesse tinha exatamente o mesmo tom de voz de Lorenzo. Charlie corria para lá e para cá, enfiando o focinho em tudo o que encontrava pela frente. Devia ser gratificante após a manhã inteira trancado num carro.

Nicholas estava perto da Land Rover roubada que até há pouco tempo transportara Ethan. Perto dele, havia outro garoto. Lincoln mal podia acreditar no que via.

Ele dissera que seu nome era Pan. Pan, com três letras, um nome simples. Na verdade, quando Nick perguntou-lhe, ele demorou um certo tempo para responder. Teve que pensar, hesitou, quase não disse, mas então o nome pulou para fora de seus lábios grossos mais como um som involuntário do que como um nome. Ele até pareceu surpreso de tê-lo dito. Pareceu surpreso de ter dito qualquer coisa.

Seus olhos eram castanhos, enormes, molhados e cheios de uma emoção e ingenuidade infantis que Nick nunca antes tivera o prazer de apreciar em qualquer um. Pareciam olhos impossíveis de existirem. Sua pele era da cor do cobre, amorenada e queimada de sol, e também estava suja, suja de terra, anos e anos de terra. Os ombros e o rosto estavam cheios de sardas alaranjadas e as sobrancelhas eram escuras e grossas. O cabelo era enorme, enrolado, comprido e amarrotado como das gêmeas que Nick um dia amara, mas negro, escuro, queimado de sol, da cor do chocolate, na verdade, espalhando-se para todos os lados de sua cabeça como um furacão capilar. Nick sentiu uma vontade quase incontrolável de hidratá-los com creme.

Pan vestia nada além de uma camisa de botões extremamente velha com três botões faltando e um short levianamente curto, que deixava suas pernas a mostra. Ele parecia ser tão ingênuo que Nick não vacilou em analisar suas pernas. Eram decentemente lindas. Era alto, muito mais alto que Ethan, um pouco mais alto que Edric Autumn, que dentre as estações era o mais alto, e também muito magro, embora tivesse músculos consideravelmente definidos, mais por necessidade que qualquer outra coisa.

Quando Lincoln e Lorenzo chegaram, pararam estarrecidos. Nick de algum modo sabia que eles estavam para vir. Lorenzo poderia pressentir seu chamado e Lincoln não perderia aquilo por nada nesse mundo.

— Pessoal — falou em voz alta para eles. — Esse é Pan. Só isso, nada mais que isso. Pan. Acho que estava assustado com o carro. Certo?

Pan olhou-o curiosamente, então assentiu.

— Não é comum ver carros aqui quando está calor.

Nick mordeu seu lábio inferior. Ele não parecia ter noção alguma do período de tempo chamado ano, nem de suas estações. Deixou tudo isso para lá e estendeu a mão a seu irmão menor.

— Esse é meu irmão Lorenzo Barcarolli, pode chamá-lo de Lore. Não somos parecidos porque temos mães diferentes, mas o mesmo pai. Ele é cego, não pode ver. Também é da Itália. Sabe o que é Itália? Já ouviu falar?

— Sim… um país.

— Sabe em que continente fica?

Pan demorou um pouco mais para dizer que ficava na Europa.

— Esse é Lincoln Spring, pode chamá-lo de Lincoln. Ele não é meu irmão, mas alguma coisa me diz que ele e Lorenzo são longinquamente aparentados. Ele é muito, muito estranho.

— Me chama de estranho, mas é você quem está falando com o projeto californiano de Mogli, o menino lobo?

Nick o ignorou, como sempre fazia quando ele dizia alguma bobagem ofensiva. Ou seja, o tempo inteiro. Virou-se de volta para Pan, deu-lhe um de seus famosos sorrisos calorosos e perguntou auspiciosamente se ele não sentia calor com aquela camisa. Pan balançou a cabeça.

— Sim, mas quando comecei a usar os botões abertos, parei de sentir.

— Entendo. Você está acostumado. Pan, de onde você veio?

— Sim, onde está sua espaçonave?

— Cale a boca, Lincoln. De onde você veio?

Pan apontou vagamente para o lugar de onde veio, um labirinto de casas de madeira e pedra. Nick suspirou. Seria mais difícil do que parecia.

— Então vamos até lá. Me mostre onde você dorme.

Pan viera daquela casa, mas obviamente não morava lá. Nick, Lorenzo, Lincoln e Charlie o seguiram todo o caminho até a parte mais antiga da cidade, a parte proibida ao público por ser perigosa e não mapeada e porque as estruturas estavam mais instáveis e desmoronadas. Ali, os mais de cem anos de abandono realmente fizeram efeito. A madeira apodrecera, os letreiros desbotaram e a pedra caíra.

Chegaram a uma grande colina onde Nick podia ver quilômetros e quilômetros de terreno cinzento e devastado com algumas montanhas para enfeitar. O céu estava azul e lindo e a linha tênue do horizonte era azul-clara, quase anil, quase como se todo o resto do mundo fora daquela desolação fosse assim também. Nick respirou profundamente e deixou aquele ar puro e quente invadir seus pulmões cheios de fumaça da cidade e de cigarros. Sentiu-se vivo, quase feliz, embora não isso. Felicidade era uma coisa que há muito deixara de sentir e a qual jamais permitir-se-ia levar novamente.

Mais à frente, no plano inferior ao daquela colina, havia o que parecia ser uma antiquíssima estação de trem, com uma ponte de madeira ajudando a locomotiva a atravessar uma pequena depressão na terra. Os trilhos existiam por algumas dezenas de metros e então simplesmente sumiam na curva da cidade. Agora que pensava bem, Nick pensava ter visto alguns deles na entrada de Lionville. Provavelmente a locomotiva era usada para transportar turistas ao redor da cidade na época de visitas. O estacionamento ficava mais à frente, já num plano superior.

A casa onde Pan morava era provavelmente a estrutura mais bem conservada de toda aquela região — exceto pela pele de Nick —, embora ficasse perto do penhasco. Era um único quarto de madeira e pedra sem janelas. Quando entrou, Nick entendeu por que Pan estava do lado de fora. A sensação térmica deveria ser de, no mínimo, cinquenta graus.

Percebeu que quando os turistas vinham, ele conseguia ver seus carros do estacionamento lá ao longe e a estação de trem onde todos embarcavam. Apesar de tudo ficar bastante longe, ele morava praticamente em um farol. Era impossível não ser notado. Como explicar não ter sido descoberto durante todo esse tempo?

De qualquer forma, a casa era um local relativamente limpo. O piso não era de terra batida, e sim de madeira velha e cheia de farpas. Havia um colchão mais fino que a safira que Nick usava na orelha e muito, muito velho, quase apodrecido, num canto do quarto, com um lençol relativamente pior embolado por cima. No outro, pilhas de material escrito, como jornais, revistas, livros, alguns muitos antigos, outros nem tanto, alguns rasgados, outros não. Nick se perguntou se Pan sabia ler. No momento, ele estava do lado de fora, adorado com Charlie. Por que Nick tinha a impressão tão grande de que ele nunca vira um cachorro antes na vida? Também havia uma grande jarra de cobre, vazia no momento. Presumiu que ele usava aquilo para armazenar água, embora só Deus soubesse de onde ela viesse. Não podia ser da chuva. Aquela área podia passar meses sem ver uma gota de água.

O outro móvel do quarto era uma mesa de madeira, mas essa não era tão antiga. Estava conservada. Fora trazida para lá há pouco tempo, poucos anos. Havia uma grossa maleta de couro em cima dela coberta de poeira. Nick colocou a cabeça para fora da porta para ver se Pan não daria indícios de entrar. Ele estava fascinado com o modo como Charlie levantava a pata para urinar contra uma pedra.

Com todo o cuidado para não fazer barulho, Nick abriu a maleta.

— Bem, descobri algumas coisas interessantes — falou alguns minutos mais tarde em segredo para Lincoln e Lorenzo, já fora de casa, onde por incrível que pareça achou o clima mais ameno. — Achei a certidão de nascimento dele. O nome dele não é apenas Pan, é Pamius Cargill. De acordo com a data de nascimento, ele tem dezenove anos, o que torna aceitável o fato de ele ser mais alto que eu.

— Como ele veio parar aqui? — Lore indagou.

— Tudo o que posso falar são suposições, mas eu creio que foi por causa do pai dele. — Estendeu uma fotografia em preto e branco para Lincoln. Ela retratava um homem adulto parecido com Pan e uma criança que não poderia ser ninguém mais além do próprio lado a lado. Pan parecia ter oito ou nove anos na foto. — Acho que eles dirigiram para cá e o pai dele o abandonou, ou então morreu. Ele era uma criança, então ficou sozinho. Como ainda está aqui, obviamente não foi encontrado por nenhum dos funcionários de Lionville, ou seja, eu tenho quase certeza de que isso aconteceu no verão. De algum modo, ele sobreviveu. Quando chegou o outono, deve ter se assustado demais com o contingente de pessoas atravessando a cidade e se isolado nessa área proibida. Ele nunca foi descoberto. Por isso que ele fala de modo tão infantil. Quero dizer… ele é uma criança.

— Então ele é uma daquelas aberrações que são abandonadas quando crianças e se sobrevivem crescem imitando os animais que as envolvem? — Lincoln tinha um modo realmente peculiar de expor suas dúvidas. — É verdade, o que eu disse. Vocês, Hentz, nunca ficam entediados.

— Eu acho que mandar você calar a boca não adianta mais, de qualquer jeito — Nick resmungou. — E não há animais por aqui. Ele pode ter crescido imitando a areia.

— Há gatos selvagens — Lorenzo falou. — Eles estão por toda a cidade. Alguns são gatos domésticos que fugiram de Harmount. É lá que a maioria dos funcionários dessa cidade moram. São bem comuns por aqui.

— Meu Deus, que adorável — Lincoln exclamou com os olhos verdes brilhando de glória e malícia. — Nós temos nosso próprio gato humano. Vamos dar uma bola de lã para ele e ver o que acontece? O que será que ele come?

— Lincoln, já que você é um pirralho niilista e cínico e parece não se importar nem um pouco com os seres vivos que residem a sua volta, mais ou menos como eu era aos treze anos, vou te dizer a mesma coisa que Ethan costumava dizer para mim nessa idade: eu sou responsável por você não morrer de fome. Me obedeça.

— Não deu muito certo, pelo visto. Ele está bem sequestrado agor…

Lincoln parou de falar quando ouviu um grunhido. Todos ali já sabiam de quem era antes mesmo de virarem a cara para ver. Charlie havia latido pouco antes. Pan estava no chão, de gatinhas, com os olhos agressivos fixos no cachorro. Ele havia chiado. Como um gato.

Lincoln caiu na gargalhada. Tentou falar alguma coisa, mas estava muito ocupado se dobrando de rir no chão para conseguir de primeira.

— O menino come gatos — ele engasgou esforçando-se para falar apesar do fato de estar rindo descontroladamente. — Ele come gatos para sobreviver. Ele deve beber da mesma água que os gatos selvagens e então os come. Ele come gatos e você ainda diz que ele não é um alienígena!

Lorenzo também começou a rir. Hesitantemente, mas riu. Não queria e estava se esforçando para ficar calado, mas riu. Nick sentiu vontade de estrangular os dois garotos com as próprias mãos, mesmo que ultimamente fosse tão difícil para Lore demonstrar felicidade. Charlie ganiu e correu de volta aos meninos.

Nick se aproximou de Pan, que afinal voltara a ficar de pé. Devia ter notado a dificuldade que ele tinha em manter o equilíbrio sobre dois pés.

— Um gato que come gatos tecnicamente seria um gato canibal. Desculpe-me, não sei por que eu disse isso. Pan, o que você come ou bebe? Me mostra o local onde arranja água.

Ele meditou um pouco sobre a questão, seus lindos olhos castanhos quase se revirando. Sim, ele decididamente precisava hidratar aquele cabelo. De repente, deu-lhe as costas e começou a andar em direção ao penhasco. Nick o seguiu, seguido por Lincoln, Lorenzo e Charlie. Pan caminhou pela beirada do penhasco alguns metros até levá-los ao início de uma precária escadaria de madeira. Parecia ser uma trilha alternativa para a depressão lá em baixo, como um caminho mais rápido para se chegar à estação de trem do que simplesmente rodear a cidade inteira.

— Há um poço lá em baixo — Pan murmurou. — Pego a água com a jarra da minha casa.

Nick se inclinou na escada para ver. De fato, bastante colado ao paredão do penhasco, havia uma espécie primitiva de poço d’água.

— Há coisas mortas aqui perto — Lorenzo sussurrou a Nick.

— Eu imagino.

Havia uma fenda natural escavada no paredão com cerca de um metro de altura. Nick não podia imaginar a funcionalidade dela, mas uma coisa era certa: havia cadáveres felinos ali dentro. Deu graças a Deus de não tê-los visto ou vomitaria o pouco que havia em seu estômago. O mais irônico é que também tinha uma placa antiga de Fim do caminho. Não vá além atirada desajeitadamente na abertura da fenda. Devia ser funda e escura o suficiente para os turistas não virem seu conteúdo do estacionamento.

— Bem — falou Lincoln antes que Nick o mandasse calar a boca —, eu estava certo. Ele come gatos. Uma vez eu li que animais nunca comem perto de suas fontes de água para evitar contaminação. Ele não faz apenas isso, ele os armazena perto de sua fonte de água. Até os animais irracionais são mais inteligentes que o nosso alienígena.

Nick se perguntou se empurrasse Lincoln por aquela escada, ele morreria a tempo de chegar lá em baixo ou ainda agonizaria bastante antes de morrer. Esperava que fosse a segunda opção porque a tentação estava se tornando grande demais.

— Meu Deus. — Lorenzo se contorceu para frente, agarrando o próprio estômago com força. — Esse lugar cheira a morte.

— Agora você sabe como será o seu quarto de hospital daqui a alguns meses — comentou Lincoln espirituosamente. Ninguém lhe deu atenção.

Pan tinha olhos completamente inocentes e meio confusos.

— Eu só pego gatos quando não tem mais nada.

— O que mais tem?

— Às vezes vêm pessoas e acampam aqui, e quando elas não estão vendo eu… eu pego as coisas delas.

Frequentemente grupos de pessoas iam acampar em cidades-fantasma fora da época turística. Os alimentos roubados delas impediam Pan de se alimentar de gatos. Ou então até os estabelecimentos que eram abertos na temporada de visitas podiam servir, desde que ele achasse seguro se aproximar sem que ninguém visse.

Nick sentiu a mão de Lorenzo puxando a sua.

— Vamos sair daqui ou eu vou começar a vomitar meus órgãos internos.

E não era um pedido, era uma ordem.

Ele saíram, todos em passos rápidos. Lincoln puxava a coleira de Charlie e Pan seguia atrás de Nick, que segurava Lorenzo pelos ombros para impedir que caísse de tontura. Não havia mais o que fazer. Tinham que ir à Harmount de um modo ou de outro para abastecer, comerem alguma coisa e tomarem um banho decente. Talvez com uma superfície plana e macia para dormir, de preferência que não se mexesse.

Finalmente voltaram ao carro nos limites da cidade. A Land Rover roubada foi deixada lá para que os agentes que Jules du Pont mandasse a levassem de volta ao Palácio. Não, isso seria uma grande estupidez, a polícia quereria saber como ele sabia onde ela estava. Ele provavelmente a guardaria em alguma depósito.

— Você tem ideia — murmurou Lorenzo — de que se não achar Ethan antes que a polícia o faça, os Lancaster revelarão o escândalo de Oliver Castanelli e irão destronar a família Hentz para sempre?

— Sim, eu sei. Obrigado por lembrar.

Não era isso o que mais o aterrorizava e entristecia. De algum modo, Nick sabia que se Oliver se tornasse de todos ele simplesmente não seria de mais ninguém e eventualmente desapareceria. Podia ser uma coisa boa livrarem-se daquele peso em suas vidas, mas não parecia certo, não sentia ser certo. Alguma coisa grande ainda estava para acontecer.

Lincoln e Lorenzo subiram no carro e apertaram os cintos. Charlie foi novamente preso no banco de trás. Nick olhou para o banco do motorista e então virou-se. Pan lhe fitava com olhos escuros e curiosos. Nick gostaria de ter algo de comer para dar a ele. Gostaria de ter algo para que ele se protegesse do frio de dez graus que assolava aquela região no inverno. Se ele conseguira sobreviver meia década naquela desolação… parou de pensar quando sentiu uma enorme pressão bem no topo de sua nuca.

— Nick quer deixá-lo — Lorenzo murmurou paciente, mas desaprovador, como se fosse um professor ranzinza. Nick estava prestes a mandar-lhe sair de sua mente quando Lincoln o interrompeu.

— O que diabos você está pensando? — ele indagou-lhe de dentro do carro com a voz cheia de fúria. — Se ele conseguiu sobreviver meia década nessa desolação? Você sabe muito bem que está louco para adicionar mais uma espécime ao seu orfanato ambulante.

— Você quer fazer o favor de parar de ler meus pensamentos? E desde quando sabe fazer isso?

— Desde que eu perdi o controle da minha vida.

Voltou a olhar para Pan, que continuava com o olhar fixo em Nick. Seu corpo era crescido — embora devesse pesar o que Nick pesava quando sua anorexia chegou ao ápice —, mas os olhos continuavam com uma essência infantil de criança.

— Você iria conosco? — sussurrou a ele. — Quer dizer, talvez fazer uma refeição decente na vida. Se for conosco é melhor esconder a sua dieta macabra por algum tempo, muito embora nós comamos vacas e ninguém ache isso estranho.

— Eu… eu não acho que…

Nick sentiu o cangote de sua camisa sendo violentamente puxado para trás. Lincoln estava atravessado na janela do carro e agora encostava sua boca em seu ouvido.

— Não adianta fazer perguntas mais ou menos complexas para ele, Nick Hentz. Ele não cresceu com pessoas normais e não vai saber explicar por que não quer ir. Mas, se você quiser, eu posso entrar no deserto que é a mente dele e implantar algumas sementes ali. Essa é a parte mais divertida da coisa, sabe. Plantar sementes num deserto e vê-las crescer.

— Oh, cale a boca e faça isso de uma vez.

— Imediatamente, Sr. Hentz. Abracadabra.

Para os outros, tudo aconteceu em alguns segundos, mas para Lincoln levou alguns minutos. Numa hora estava com o olhar verde fixo no castanho de Pan e na outra uma cor anil surgiu no horizonte e tomou a abóboda celeste, e montanhas emergiram no chão como cadáveres desenterrados, mas logo estas montanhas desintegraram-se e viraram pó, e esse pó virou a areia amarelada que compunha o deserto da mente dele.

Os restos das montanhas transformaram-se em dunas sob o céu anil, e de muito longe uma ventania chegou tempestuosa. A areia representava tudo o que Pan aprendera antes de ser abandonado e a ventania era o momento do abandono, a solidão, o medo, o frio e o calor, a tristeza, a fúria e, finalmente, a ignorância.

Da areia surgiram oásis verdejantes com margens de terra fértil e lodosa e coqueiros a rodear-lhes, com grama molhada de orvalho por baixo de tudo. Os oásis representavam os recursos que ele adquiria com o tempo, a comida que roubada, os livros que tentava ler, mas não conseguia. Todos esparsos, mas ainda assim perto o suficiente para manter a vida.

E ali, invisível em toda aquela irônica desolação, Lincoln Spring plantou uma semente imaginária e metafórica, uma semente que cresceria para se tornar uma sequoia magnífica e exuberante.

Mas é claro que tudo isso ocorreu em dois segundos. Quando voltou a abrir os olhos, Lincoln estava olhando para o teto do carro, deitado no banco, meio zonzo e fora de si. Charlie lambeu seu nariz e ele recobrou as memórias. Imaginou se era daquela forma que bêbados viam as coisas.

— Está bem — murmurou zonzamente ao se levantar. — Abracadabra me deixou com vontade de vomitar. Pan, o que você acha de ir conosco à Harmount comer hambúrgueres de vaca ao invés de gatinhos no espeto?

A indicação de que a maravilhosa mágica de Lincoln havia funcionado veio quando a expressão de Pan se tornou pensativa, ou minimamente inteligente. Era incrível. Lincoln olhou para Lorenzo no banco da frente e viu que ele já o fitava com um sorriso pequeno nos lábios rosados.

— Muito legal, não é? — o menor indagou. — Manipular a mente das pessoas. — Então se aproximou e sussurrou venenosamente, mas sem usar os lábios, e sim a mente.

Se tentar fazer isso com Nicholas ou comigo, eu juro que o mato.

Quando chegou à Harmount, uma cidade que possuía mais mato que gente, Nicholas não procurou uma pousada, como Jules aconselhara, ao invés disso se rebaixou ainda mais e procurou um motel. A maioria deles não deixava menores de idade entrarem, mas aquele que encontrara parecia ter servido como abrigo para ratos antes dos meninos chegarem, de modo que o dono pouco se importava se eles tinham dezesseis, doze ou onze anos, desde que pagassem os cinco dólares a hora.

Aliás, ficava perto de um posto de gasolina e a não mais de um quilômetro de uma Walmart, onde poderiam comprar comida e roupas.

A entrada dos quartos era acessada através do estacionamento. Nick tinha reservado os três últimos quartos: os dois últimos para serem usados e o terceiro para separá-los dos barulhos que normalmente são ouvidos num motel. Os dois quartos tinham cama de casal, mobília de madeira e televisões decrépitas onde só se passavam filmes pornográficos. As cortinas eram roídas de traças, mas os lençóis eram brancos e limpos.

Nick havia tirado a bolsa de dinheiro de dentro da Land Rover e a empurrara para dentro do último quarto, guardando-a debaixo da cama. Sabia que era um esconderijo patético e que logo teriam que ir embora, mas a Califórnia estava procurando um garoto encantador de dezesseis anos e longos cabelos loiros chamado Nicholas Hentz e um jovem rapaz italiano cego chamado Lorenzo Barcarolli, e não um rapaz inglês melancólico de cabeça raspada chamado Dylan Strauss e seu irmão mais novo igualmente inglês Elliott Strauss. Elliott continuava sendo cego, infelizmente.

— Você percebe — murmurou Lincoln em dado momento — que não podemos atravessar a fronteira com os EUA sem que Pan tenha documentos falsos, não percebe?

— Eu tenho certeza de que em algum lugar dessa cidade alguém faça documentos falsos e temos dinheiro para isso.

— Está bem, mas fofocas correm em cidades pequenas como moscas. Assim que conseguir os documentos, temos que ir embora imediatamente antes que a polícia seja alertada de que Nicholas Hentz está em Harmount e sejamos impedidos de entrar nos EUA. E que Deus não queira que sejamos pegos naquele país usando documentos falsos. Isso vai se tornar um problema internacional.

— Eu sei bem no que estou me metendo, Lincoln.

— E sabia no que estava metendo os outros três que viajam com você?

Novamente, Nick sentiu vontade de matá-lo, mas estava se tornando tão corriqueiro que não se importou. Não podia parar para pensar na situação em que estavam ou acabaria enlouquecendo. Nick não era Ethan. Nick não conseguiria levar aquela situação por muito mais tempo. Não conseguiria cuidar de todas aquelas pessoas porque mal sabia cuidar de si mesmo. Ethan sabia. Foi Ethan quem sempre cuidou dele, mesmo quando cresceu. Mas agora ele se fora. E se algo acontecesse com ele… Deus.

Por isso que ao invés de lhe responder dignamente saiu do quarto para o estacionamento lá fora e acendeu um cigarro. Além de sua Land Rover, havia algumas caminhonetes e caminhões grandes, mas o que mais chamou sua atenção foi um trailer estacionado lá no início. Pensou que devia arrumar um, mas não parecia ser muito inteligente trocar uma Land Rover por aquilo. Nick seguiu o calçamento em direção ao trailer e encostou o rosto contra uma de suas janelas altas. O interior parecia novo, retocado e confortável. O carro havia sido comprado há pouco tempo, a julgar pela qualidade das rodas e dos bancos. Havia um galão de gasolina lá dentro também. Presumiu que o carro pertencesse ao dono do motel.

Voltou ao quarto e comunicou aos garotos que compraria comida na Walmart do fim do quarteirão. Lorenzo exigiu ir com ele porque não confiava em seu gosto para roupas, mas Nick negou, então ele só pode bufar frustrado. Era tão gostosa a sensação de poder mandar e desmandar sempre que quisesse que quase compreendeu Ethan.

— Vou levar Pan — falou a Lincoln e ao irmão. — Quero que ele veja como a humanidade se comporta mais de perto, sem precisar se esconder.

— Mantenha-o longe da área de rações para gatos — disse Lincoln.

— Como quiser. Lorenzo, você manda enquanto eu estiver fora.

— Ele? Mas por que ele?

— Eu confio mais nele. Não saiam do quarto de forma alguma, não queremos que ninguém veja vocês. Lorenzo não está disfarçado e é uma celebridade tanto quanto eu, vão reconhecê-lo facilmente. Comam o que houver no frigobar até que a comida chegue, mas não toquem naquela champanhe.

— Pela qualidade desse lugar, o dono deve ter enchido a garrafa com o pênis dele e colocado aí para fingir que é champanhe.

— Por isso é uma boa ideia me obedecer. Lorenzo, entendeu?

— Entendi.

— Ótimo. Ah, não liguem a TV também. Lincoln, tente não matar meu irmão e Lorenzo, tente não matar Lincoln. Volto em uma hora, no máximo.

Pan estava fascinado com o espelho do banheiro. Nick havia pessoalmente dado um banho nele quando chegaram ao motel e a quantidade de terra que se desprendeu de sua pele era maior que a quantidade que estava presa nas rodas da Land Rover. A banheira estava imunda, mas Pan estava limpo e era isso que importava. Sem nenhuma camada de sujeira, sua pele da cor do cobre era muito mais macia e brilhante e seu cabelo não parecia um ninho de ratos. Era quase mais bonito do que o de Nick um dia fora, é por isso que cogitou a possibilidade de raspá-lo inteiro, mas seria cruel demais. Um dia seu cabelo voltaria a crescer.

Saíram dirigindo a Land Rover e logo estavam no enorme supermercado. Era realmente incrível o fato de ser possível comprar tanto roupas quanto comida e armas numa Walmart — Deus abençoe a América —, e embora a tentação falasse alto Nick deixou o corredor de armamentos longe de seus pensamentos. Tinha de se lembrar de se livrar da arma de Lincoln antes de atravessarem a fronteira, inclusive. Não seria uma boa ideia atravessar um país com uma arma pertencente a um traficante consigo. Seria uma coisa que Ethan faria, por isso Nick faria também, sem questionar.

A primeira ala que visitou foi a de roupas. Achou uma touca e um cachecol grandes o suficiente para cobrirem parte do rosto. Se lhe perguntassem por que estava usando aquilo no verão, diria que estava resfriado, simples. Andava chorando tanto que seu nariz ficaria vermelho com facilidade. Felizmente, Lincoln e Lorenzo tinham mais ou menos o mesmo tamanho para poderem dividir roupas, embora Nick tivesse a certeza de que nenhum dos dois gostaria disso. Pan era o maior de todos eles, mas era tão inocente quanto uma criança. Quando uma voz feminina falou no autofalante, ele olhou para cima abismado.

— É Deus falando com você — falou a ele. — Ignore-o. Tenho certeza que outra pessoa se disporá a limpar a poça d’água na sexta ala.

Encheu um carrinho inteiro de compras e então obrigou Pan a carregá-lo enquanto pegava outro e começava a recolher comida. A humanidade era tão maravilhosa que chegara ao ponto de ser capaz de pôr praticamente qualquer coisa dentro de uma lata. Deixou seu lado adolescente de lado e pegou as coisas que Ethan normalmente lhe obrigava a comer para que crescesse — parecia estar funcionando para Nick, mas era óbvio que Ethan não seguia as próprias regras, já que não crescia um centímetro desde que tinha catorze anos.

— Isso tudo é maravilhoso, não é? — indagou a Pan. — Chama-se capitalismo. Estamos prestes a entrar na capital mundial dele, e espero que não sejamos presos ou mortos no caminho. Aliás, se alguém perguntar seu nome, não responda nada. É melhor que não descubram que você tem o nome de um deus mitológico.

Quando finalmente chegaram ao caixa, Nick estava com a cabeça baixa, olhando para o chão, e forçando seu precário sotaque inglês.

— Está com frio? — perguntou-lhe a caixa sorridentemente. Nick estava quase pingando suor dentro daquela touca e daquele cachecol; foi muito difícil esconder isso quando inclinou-se para que ela passasse o código de barras das vestimentas no leitor.

— Só um resfriado. Vai passar logo.

— Tenho a impressão de que já o vi em algum lugar — ela falou casualmente.

Tem assistido à televisão ultimamente?, as palavras vieram à boca e quase as disse, mas no último segundo conseguiu se controlar. O penúltimo episódio da primeira temporada de Lympharia estreara no dia anterior, 26 de agosto. O próximo e último seria dali a seis dias, e então finalmente seu lindo rosto louro sumiria das telinhas por algum tempo.

— Tenho um rosto comum, nada demais — falou, então se afastou até que saísse do estabelecimento e acendeu um cigarro. Precisava desesperadamente fumar. Quando terminou o cigarro, pegou dois pares de óculos escuros e colocou no caixa. Foi a última coisa que ela passou no leitor.

Nick pagou em dinheiro vivo e levou as compras para o carro com a ajuda de Pan. Quando saíram do supermercado, andou algumas poucas dezenas de metros antes de parar novamente numa rua escura. Havia um beco mal iluminado formado pelo encontro de dois prédios precários por perto.

— Fique dentro desse carro — falou a Pan seriamente, olhando fixo em seus olhos. — Não saia desse carro até que eu volte, entendeu bem?

— Entendi. — Ele assentiu.

— Eu volto logo. Espero.

Saiu a passos firmes, embora estivesse tremendo, em direção àquele beco. Havia algumas pessoas encostadas na parede, todos homens, todos mais velhos. A fumaça de seus baseados subia vacilante de encontro ao céu estrelado.

— Quanto custa cinco gramas? — perguntou a ninguém em especial olhando para o chão, quase esquecendo seu sotaque inglês.

Alguém respondeu. Nick estendeu uma nota maior que o preço original e recebeu o que queria num saquinho. Não houve nenhum troco, mas não era com isso que estava preocupado.

— Preciso de mais uma coisa. Quero documentos falsos. Identidade, certidão de nascimento, e passaporte. Sabem onde encontrar? Pago qualquer preço. Também seria bom trocar a placa de um carro.

Sentiu-os rodeando-o, analisando-o suspeitosamente. Para apaziguar os ânimos, levantou o rosto de leve, só de leve, rezando para não ser reconhecido. Não havia chegado até aquela cidade minúscula se comparada a Middleland com dois órfãos e um psicótico apenas para ser reconhecido por traficantes de maconha. Imaginou como seria ser preso por sequestrar seu irmão com câncer terminal para ir atrás de seu irmão sequestrado. Algum dia deveria escrever um livro sobre sua vida, seria o que faria se não fosse tão péssimo escritor.

Bem, de qualquer forma, eles não pareceram reconhecê-lo. Deram-lhe um endereço e um preço e então se afastaram.

Nick voltou à Land Rover quase correndo e deu a partida. Pan ainda estava lá, vivo, felizmente. Dirigiu em direção ao motel, mas antes disso atirou o saquinho com a maconha no meio da estrada pela janela. Quando chegaram, ambos arrastaram as sacolas para dentro do quarto onde Lincoln e Lorenzo estavam.

Por algum motivo, Nick imaginou uma cena onde entraria no quarto e encontraria ele e o irmão se beijando ou algo do tipo, mas ao invés disso encontrou os dois brigando por algo trivial. Primeiramente pensou que tipo de imbecil era por deixar os dois sozinhos num quarto fechado com uma pistola por perto, depois disse-lhes que havia comprado roupas novas e comida.

Lore ficou mais feliz pelas roupas do que pela comida. Nick obrigou Lincoln a levá-lo ao quarto ao lado para que ele pudesse tomar banho e então finalmente vestiu Pan com roupas decentes. Quando Lincoln e Lore voltaram, todos comeram algo juntos, embora praticamente ninguém tenha dito nada. A televisão só tinha canais pornográficos, infelizmente.

Finalmente entardeceu e era hora de dormir.

— Prometa para mim que você não vai torturá-lo — falou a Lincoln sobre Pan. O quarto só tinha uma cama de casal e os dois teriam que dormir juntos. — Prometa, prometa pra mim.

— Eu não vou torturá-lo — o garoto respondeu docilmente, os olhos verde-folha brilhando. — Prometo, está bem? Você tem me ajudado muito até agora e eu agradeço. Boa noite, Nicholas. — Então lhe deu um abraço.

Nick ficou parado no mesmo lugar, pensativo. O cheiro do cabelo de Lincoln era idêntico ao de Spring.

— O que você quer de mim? — indagou fatigadamente.

— Quando tudo isso acabar e voltarmos para Middleland, você sabe, eu ainda não vou ter onde morar. Meus pais me expulsaram de casa.

— Você quer um lugar para morar?

— Não, quero que meus pais percam o deles.

— Como quiser. Boa noite.

Depois de se despedir de Pan, deixou o quarto e andou em direção ao outro, bem ao lado. Lorenzo estava sobre a cama, sonolento como um gatinho. Só um dos abajures estava aceso e ele iluminava seu rosto de uma forma que Nick descreveria como calma. Perguntou-se se Lorenzo tinha real consciência de como seus olhos eram bonitos e assustadores.

— Lorenzo — sussurrou antes de trancar a porta por trás de si. Havia desejo em sua voz. — Tire a roupa.

Horas mais tarde, quando o sol já derramava seu ouro no horizonte e mais uma manhã nascia, Nicholas Hentz fumava um cigarro do lado de fora dos quartos, fitando o estacionamento quase vazio. Apenas seu carro e o trailer ocupavam vagas, solitários e separados por pelo menos cinquenta metros de concreto. Nick andava de olho naquele carro desde que saíra para fumar, pelo menos uma hora para fumar. Quanto mais o sol o iluminava, mais atraente ele parecia ficar.

Relembrando as palavras de Lincoln, que raramente falava algo que valesse a pena ser ouvido, deveria arrumar um trailer. Quatro garotos, um cachorro e três tartarugas de forma alguma poderiam encontrar conforto sentados horas e horas num carro, mesmo que tão confortável quanto uma Land Rover, ainda mais numa viagem cujo destino estava literalmente se locomovendo e não parecia chegar nunca.

Charlie corria para lá e para cá no estacionamento, perseguindo borboletas e indo contra ou pró a direção do vento, feliz por finalmente ter um espaço para correr. Felizmente, o lugar era todo murado, muito embora ele não se atrevesse a se afastar muito de seu dono.

Quando seu terceiro cigarro acabou, Nick levantou-se do meio-fio onde estava sentado e chamou Charlie de volta. Arrastou-o novamente até o quarto de Pan e Lincoln, que ainda estava pacificamente adormecidos, graças a Deus, e fechou a porta atrás de si, forçando-se a ignorar o som das unhas dele arranhando a madeira.

Aproveitava para usar o gorro e o cachecol antes que o frio da manhã se dissipasse e desse lugar ao famoso calor da Califórnia enquanto caminhava em direção à recepção do motel. O lugar era um quadrado pequeno e decrépito cujas paredes estavam descascadas e a mobília gasta. Além do sofá e das duas poltronas, havia um grande balcão com um sino em cima e, por trás dele, a tabela de preços e chaves dos quartos. Havia uma porta também, provavelmente levando aos aposentos do dono.

Nick tocou a sineta uma, duas, três vezes antes de se forçar a esperar. Sem paciência para ficar parado, começou a andar de um lado para o outro. Passado um minuto, como bem notou em seu Rolex, tocou a sineta nova e compulsivamente até que alguém aparecesse.

O dono era um homem baixo e quase que completamente careca com um corpo de barril e olhos pequenos, azuis e lacrimejantes, além de maçãs do rosto inchadas e avermelhadas e um queixo arredondado e quase inexistente, o que dava ao homem uma compleição porcina. Nick não sabia sua idade, mas apesar de sua aparência não demonstrava ser muito velho.

— Sim, sim, o que é? — ele indagou irritadamente. Obviamente acabava de ser acordado. Uma pessoa normal poderia se sentir culpada, mas era Nicholas Hentz quem estava a cabo da situação.

— Olá, bom dia — disse educadamente, como Ethan o ensinara a fazer com todos. Nunca se sabia quem podia ser útil no futuro. — Gostaria de saber se o trailer estacionado lá fora é do senhor.

O velho espiou por trás dos ombros de Nick, seu olhar atravessando a porta aberta que dava no estacionamento. O trailer estava estacionado bem em frente à recepção.

— Sim — ele respondeu suspeitosamente. Nick deu um sorriso caloroso e alegre, um sorriso tão cheio de gentileza que poderia alegrar o dia de qualquer um, não importando o quão miserável estivesse. É claro que também era absolutamente falso, mas isso não vinha ao caso.

— Eu queria saber se você gostaria de vendê-lo.

— Vendê-lo?

— Sim. — Só então Nick percebeu que não sabia exatamente o quanto um trailer valia. Talvez fosse menos de oitocentos mil dólares, mas de qualquer forma não poderia de forma alguma gastar tudo o que tinha. Conseguir o dinheiro que transferira para Melchior seria desnecessariamente trabalhoso e perigoso, era apenas um plano B. Aliás, sua ignorância o tornava suscetível a cair num golpe e pagar mais do que o trailer realmente valia. — Podemos trocar agora mesmo. Eu pago em dinheiro vivo.

Os documentos de carro falsos que tinha diziam respeito à Land Rover, mas Nick poderia consegui-los no mesmo lugar onde conseguiria os documentos de Pan. Esperava.

— Não. Não, claro que não.

— Ora, vamos lá. — Sorriu novamente de modo convincente. Ethan uma vez dissera que Nick era tão carismático que poderia vender creme bronzeador a pacientes com câncer de pele, então por que não poderia comprar um trailer de um velho entristecido com poucas alegrias na vida? — Eu tenho uma Land Rover novinha em folha. Troquemos os carros, então. Se quiser dinheiro, dou-lhe vinte mil dólares também. É um ótimo negócio.

O velho estreitou os olhos, sua atenção saindo totalmente do foco no que Nick dizia. Antes que pudesse virar o rosto e se afastar dali, antes mesmo que pudesse pensar em fazer isso, Nick sentiu toda a sua frustração vindo à tona quando ele levantou as sobrancelhas. Percebera que havia sido descoberto antes mesmo que ele falasse.

— Ei, eu conheço você. É aquele garoto da TV. Seu irmão foi sequestrado e a polícia do país está toda atrás de você.

— Ah, é? — indagou cinicamente. — Não me diga.

— Você não é extremamente rico? Por que não compra um trailer?

— Porque a polícia do país está toda atrás de mim.

Esperava que o homem fosse suficientemente inteligente para conhecer a quantidade abissal de documentos que a compra de um veículo requeria. Bem, de qualquer forma, ele não parecia realmente interessado na compra ou na troca. Talvez fosse melhor continuar com a Land Rover… oh, não, não poderia. Ele o havia reconhecido. A notícia de que Nick estava viajando com uma Land Rover logo se espalharia. Mas que diabos.

— Bem, se não quer fazer negócio, eu vou indo.

Deu meia-volta e não andou dois passos antes de ouvir a voz do velho.

— Ei, espere, não vá ainda, talvez possamos conversar.

Nick acabou pulando por cima do balcão e entrando no cômodo anterior a ele, que se revelava ser uma espécie de sala de descanso transformada em quarto. O velho abriu duas cervejas — embora não fosse nem seis da manhã — e deu uma a Nick, que afinal não se lembrava da última vez que havia bebido cerveja, muito menos se gostava. Deu um gole antes de decidir que gostava. Se não engordasse, poderia pensar em substituir seu champanhe por aquilo, embora Deus e o mundo soubessem que Nicholas Hentz precisava ganhar alguns quilos.

O velho entrou numa série de conversas fiadas que Nick conhecia, mas estava demasiado sonolento e demasiado decepcionado consigo mesmo para prestar atenção, por isso se focou na bebida. Foi mais ou menos na metade da segunda garrafa que ele colocou uma mão em seu joelho. Nick conhecia bem demais aquela jogada — por já tê-la usado incontáveis vezes — para se deixar levar. Não foi sequer surpresa.

— Não é porque gosto de garotas e garotos que gosto de homens com idade suficiente para serem meus avós.

— Faça isso comigo uma vez e eu troco o trailer pelo outro carro.

— Não.

O velho falou aquela frase com um certo desespero alucinado na voz, tanto que Nick perguntou-se se ele havia colocado algum tipo de alucinógeno na própria cerveja. Havia um fino fio de saliva escorrendo por um dos cantos de seus lábios. Sua respiração também estava ofegante, mas Nick achava que era porque ele era velho e estava morrendo.

De certo modo, havia um orgulho implícito na expressão de Nick. Era bom saber que era capaz de atrair absolutamente qualquer pessoa de qualquer idade que tivesse uma mínima atração por homens jovens.

A despeito de sua negativa, ele não tirou a mão de seu joelho. Na verdade, a subiu para sua coxa.

— Eu já disse para tirar a mão…

O velho tanto não tirou quando apertou. A próxima coisa que Nick notou acontecer foi ser violenta e repentinamente atirado para cima da cama de dossel por trás da poltrona onde estava sentado. Tudo aconteceu rápido demais para que pudesse impedir.

— Vamos fazer isso só uma vez.

Seus olhos claros e aguados estavam meio arregalados e alucinados, os lábios estavam entreabertos como dois vermes semimortos deixando passar um hálito rançoso de cerveja. Nick só se lembrou de gritar quando sentiu os pulsos presos. Tentou se debater, mas era impossível. Ele era muito mais forte e pesado do que parecia.

E, de repente, ele não era mais Nicholas Hentz, o adorável leão dourado de dezesseis anos e cabelos raspados, ele era Nick, um garotinho de nove anos completamente indefeso e apavorado, e o velho não era mais o velho, e sim Lafferty. Seus olhos pareceram tornar-se turvos, eliminando a visão da coisa horrenda que estava lhe acontecendo de novo. A língua dele, era a de Lafferty, passava por seu pescoço e peito possessivamente e no início Nick gostava, amava aquilo, mas depois tornou-se abusivo e doloroso. Sua garganta estava quase fechada, a voz não saía, presa dentro de seu peito, mas era porque Lafferty, e não o velho, havia envolvido a mão enorme em seu pescoço para que parasse de gritar. Agora não se debatia mais, mas agarrava-se aos lençóis como um gato de unhas afiadas, de olhos arregalados e pescoço vermelho. Deitado naquela cama, aquele garoto patético e aterrorizado, mas também indefeso, lentamente sentiu sua humanidade ser drenada de si à medida que o prazer de Lafferty, e não do velho, crescia.

A luz do sol que já nascia reluziu contra o vidro escuro e grosso da garrafa de cerveja descansando no criado-mudo do lado da cama. Nick pensava que não conseguiria mover os braços, não porque o velho estava em cima dele devorando seu pescoço, mas porque estava simplesmente paralisado, como quando a gente fica quando vê um automóvel vindo em direção a nós. Ao invés de pularmos para o lado, não fazemos absolutamente nada.

Seus dentes tremiam horrivelmente e ele pensava que a qualquer momento iria vomitar. Estava deitado na cama no formato da cruz e sabia que a qualquer momento o velho tiraria sua calça e faria o que ele queria fazer, e também sabia que uma vez que ele começasse, Nick não conseguiria pará-lo, e também que se gritasse, se machucaria muito. Ethan nunca deixaria aquilo acontecer com ele. O que Ethan faria? O que Ethan uma vez fez?

O que Ethan…

Sua mão se moveu num impulso tão forte que era como se uma corrente elétrica houvesse passado por todo o seu corpo. Nick agarrou a garrafa de cerveja pelo gargalo e estraçalhou a parte inferior na beirada da cama. Quando o velho levantou a cabeça para ver o que estava acontecendo, Nick cravou a arma mortífera em sua cara vermelha.

Ele gritou, claro que gritou, não era para ser diferente, mas Nick o silenciou rapidamente quando pegou aquele caco de vidro do chão e enfiou-o em sua garganta arrasada. Derrubou o corpo de barril do velho no colchão e montou em cima dele histericamente, segurando a garrafa quebrada.

— Você quer fazer, não quer? — indagou num sussurro que classificaria como meio maníaco. — Você quer trepar comigo? Quer trepar com a supercelebridade adolescente Nicholas Hentz? Está bem, vamos trepar. O que acha de eu enfiar isso em você?

Ergueu os braços e desceu a garrafa no peito do velho. Não entrou muito e foi mais difícil de tirar do que o contrário, por isso deixou lá. Enquanto isso, pressionou as nádegas contra o baixo-ventre dele.

— Você gosta disso? Você gosta, hein? Você gosta de me comer, seu filho da puta? — Arrastou-se para cima dele, sujo de sangue e outras coisas que não queria pensar, e então olhou em seus olhos azul-claros quase cegos de dor e completamente aterrorizados. — Eu tenho um caso de amor com meu irmão Ethan desde que eu tinha treze anos e ontem de noite trepei com meu irmão Lorenzo de onze anos. Eles gostam de mim tanto quanto você gosta. Ethan também matou Lafferty Winter com as próprias mãos, do mesmo modo que estou fazendo com você.

Levantou-se daquela cama, finalmente parando para ver o estrago que fizera. O velho sangrava copiosamente e suas mãos e roupas estavam encharcadas do mesmo líquido vermelho, que agora escorria repulsivamente. Ethan não havia feito tanta sujeira com Lafferty. Novamente, estragara tudo.

No entanto, quando notou num canto de uma estante, as chaves do trailer estavam lá.

Nick saiu correndo do quarto e da recepção em direção aos últimos quartos. Não pensava emocionalmente, só racionalmente, calculistamente, como um robô. Acordou Lorenzo e puxou-o para fora da cama, depois foi ao quarto ao lado e acordou Lincoln.

— Lincoln, me escuta bem — falou apressado. O menino abriu os olhos sonolentamente, mediu Nick de cima a baixo e então os arregalou. — Não há tempo para perguntas, está me ouvindo? Levante-se e vá para o banco do motorista da Land Rover. Quero que leve Pan e Lorenzo a esse endereço. — Entregou-lhe um pedaço de papel com o endereço dos documentos falsos. — E me espere lá até eu chegar. Ande, levante-se!

Graças a Deus, ele não faz nenhuma pergunta nem usou sarcasmo. Nick carregou as malas de roupas e de comida para a Land Rover, deixando a mala de dinheiro por último. Aproveitou e separou uma calça e uma camisa para si, uma vez que precisaria depois do que pretendia fazer.

— O que diabos há com você? — indagou Lorenzo já no banco do passageiro do carro. Nick não disse nada, apenas beijou-lhe a bochecha e colocou seu cinto de segurança. Depois olhou para Lincoln.

— Vá ao endereço que te dei e me espere lá. Rápido.

Ele assentiu e deu a partida no carro. Logo, logo a Land Rover deixava o motel rapidamente. Nick ficou olhando até que ela sumisse no fim da rua e então voltou ao estacionamento. Com as chaves do velho, abriu o trailer e retirou um por um os seis galões de gasolina cuidadosamente guardados. Carregou-os através da recepção para dentro do quarto apressada e automaticamente, arfando desesperadamente.

O velho era uma ruína, Nick não sabia se ele ainda estava vivo ou não, mas não se importava. Desatou a tampa do primeiro galão e despejou-o no chão, no colchão, no corpo sangrento que destruíra com as próprias mãos. Quando só um resto sobrava, amontoou os outros cinco galões em cima do colchão e se dirigiu ao banheiro com as roupas que pegara previamente. Despira-se de tudo e lavara-se com força suficiente para deixar a pele em carne viva, destituindo-se de qualquer resquício de sangue que pudesse haver em seu corpo louro tão desejado pelo país inteiro. Lembrou-se de como, quando tinha uns treze ou catorze anos, gostava de tomar banho de porta aberta porque sabia que, ocasionalmente, Ethan viria e se juntaria a ele e os dois fariam amor apaixonadamente sob a água corrente morna. Mas naquele momento nenhum Ethan viria. Ethan estava preso nos braços dos Lancaster, os quais Nick estava destinado a destruir assim como destruiria o velho.

Vestiu as roupas e saiu do banheiro com cuidado para não pisar na poça de gasolina. Amontoou suas roupas cuidadosamente em cima dos galões, pegou aquele primeiro que quase esvaziara e montou uma trilha do líquido de cheiro forte do quarto até a recepção. O galão acabou quando chegou lá fora, sob a luz do dia. Nick atirou-o dentro da recepção e admirou o estacionamento vazio, a exceção do trailer. Lincoln desejara um trailer, Lincoln conseguiria um.

Entrou no grande veículo e deu a partida. Após dar marcha ré e posicioná-lo para fora do estacionamento do motel, Nick deixou-o ainda ligado e caminhou de volta à porta da recepção. Acendeu seu último cigarro com seu isqueiro Zippo de ouro puro, tragou profundamente e soltou a fumaça com prazer.

Voltou para o trailer, mas não sem antes atirar o cigarro para trás. Demorou-se cinco, seis segundos, mas eventualmente, já dirigindo pela rua, Nicholas Hentz ouviu ao longe o barulho do que parecia ser uma violentíssima combustão dentro de um recinto fechado, algo como uma sala de motel.

Notas finais
A imagem de Pan foi baseada num modelo chamado Naleye Dolmans. Espero que tenham gostado dele. Para fazer ele responder perguntas, eu antes as perguntava ao meu irmão de oito anos. Se ele soubesse responder, Pan deveria saber também. :3 A frase do título, basicamente, diz respeito a morte, e é por causa da cena final que ela o nomeia. Como podem ver, esse foi um capítulo bastante forte para Nicholas por motivos óbvios. Ter tudo aquilo acontecendo com ele de novo fez alguma coisa se romper dentro dele, e foi suficientemente grave para que cometesse seu primeiro assassinato. Não muito diferente de Ethan. :D Beijoss e comentem porque o primeiro comentário desse capítulo será o de número 400. :33