Como Vivem Os Anjos

42 Quinta Temporada — O Nortenho Vermelho


Notas iniciais
Exatamente um mês depois, aqui está o primeiro capítulo da quinta temporada. =DD Essa temporada será mais parecida com a terceira; cada capítulo terá apenas um POV, um ponto de vista, cujos personagens principais serão referenciados no título do capítulo.

— Bem, é aqui. É meio sinistro, eu sei, mas lá dentro é bem maior. Essa escola também é um internato, e alguns alunos moram aqui.

Sinistro era, no mínimo, eufemismo. A Escola Saint Nicholas encontrava-se encravada na Rua Saint Claire, uma ruazinha estreita verdeada com árvores de ambos os lados das calçadas; carvalhos velhíssimos de tronco grosso e galhos compridos e desfolhados, como dedos humanos descarnados. Prédios finos e estreitos de janelas bifurcadas formavam um paredão de residências, fazendo a rua parecer ter sido tirada de um bairro pobre de Nova Iorque dos anos 80, mas com uma classe inerente à época. Com todas as crianças jovens correndo pelas calçadas comentando sobre os novos alunos da St. Nicholas, um grande sorriso pairava no ar gelado do inverno de Middleland.

Nicholas Hentz ajeitou o cachecol vermelho com detalhes escuros em seu pescoço, tanto para espantar o frio quanto para esconder as marcas de chupão que Ethan lhe deixara na noite anterior. Sob a perspectiva angustiante do último dia de férias mixada à de entrar numa nova escola, a terceira de sua vida, ficara tão nervoso que apenas o corpo forte do irmão movimentando-se ritmadamente em cima de si pudera lhe abrandar a ansiedade. Lembrava-se de o quarto ter estado tão gelado que todos os seus poros se abriram como uma flor dando boas-vindas.

Era dia 3 de fevereiro de 2014, e Nicholas Hentz, Ethan Lemnsack e Lorenzo Barcarolli encontravam-se na calçada oposta à Escola St. Nicholas.

— Que barulho insuportável — disse Lorenzo com um mau-humor notável. Definitivamente, não gostava de ser acordado às seis da manhã num dia onde teoricamente poderia dormir o quanto quisesse. Suas aulas na Academia Alphonse Enoi só começariam dali a uma semana. Ethan terminara o ensino médio ano passado e Nick terminara o fundamental. — Vamos entrar ou não?

Lorenzo ultimamente andava mais parecido com o Nick do ano passado do que deveria para um garoto saudável. Mas, diferente de Nick, era impossível se irritar com sua irritação. Suas bochechas ficavam rubras, ele começava a parecer um ursinho de pelúcia com o cabelo muito negro jogado na testa numa franja retilínea. Ainda andava abalado pela morte de Goldie Lovegood no terremoto de Middleland, assim como Nick ainda chorava à noite pela morte de Carmenia Goldenschild e pela ida de Victoria Goldenschild à Suíça.

Olhou novamente para a escola que lhe esperava, cinzenta e assustadora. De ferro negro e lustroso, seu único portão de entrada era muito estreito para cinco pessoas passarem lado a lado, como vários tentaram fazer e tudo o que conseguiram foram arranhões na pedra cinzenta das paredes.

Ah, e as paredes. Pareciam ter três metros de altura, e ainda tinham arame farpado em cima. Um letreiro grafado em pesadas letras douradas no topo do portão dizia claramente: Escola Saint Nicholas. Só para meninos.

E, de fato, só havia meninos por ali. Houve um tempo em que Nicholas Hentz achara ridículo o uniforme da Alphonse Enoi, mas agora daria tudo para estar usando-o de novo. De repente, a grossa gola azul-escuro da camisa e o tecido de tac-tel da calça pareciam-lhe tão confortáveis quanto um pijama com estampa de ursinho.

Puxou a gravata para tomar ar, mas Ethan voltou a apertá-la. O colarinho fazia-a parecer uma forca. Naquela manhã, precisara de ajuda para vestir o complicado uniforme, composto por um paletó azul-escuro e uma gravata vermelha que fazia-o parecer um francês de um século passado perdido no tempo.

— Malditos franceses — Nick resmungou, atravessando o grande portão de ferro gelado. O inverno viera cruel àquele ano em Middleland, diferentemente do ano passado. Nick ainda se lembrava do calor exuberante e das cores vivas do condomínio Jardim de Ouro, onde tantas coisas aconteceram. Teve uma péssima sensação.

— Fique por aqui — disse Ethan. Mesmo não crescendo absolutamente nada há meia década, parecia tão grande quanto qualquer um ali. — Eu vou na administração tentar descobrir onde é a sua sala. Espero que alguma dessas freiras ainda não esteja surda.

Nick sentia falta de alguma coisa, e então de repente percebeu o que era: o barulho. Estava caótico do lado de fora da escola, com dezenas de alunos espremidos entre uma rua minúscula, mas dentro dela absolutamente ninguém falava alto. Dentro do pátio frontal, Nick via um gramado com meia-dúzia de árvores altas e antigas e um portão através disso tudo. Do lado esquerdo, um estacionamento e uma fonte grande do lado direito. Espalhados pelo resto do espaço, mais e mais rapazes de todas as idades conversavam juntos em voz baixa, às vezes rindo afetadamente. Muitos deles tinham sotaques de diferentes nacionalidades, principalmente inglesa.

— Essa escola é a maior escola de Middleland e uma das que mais importam estrangeiros da Califórnia — disse Lorenzo. — Já ouvi uns sete sotaques ingleses, cinco italianos, três franceses e acho que um russo. Talvez um latino, não sei bem. Por que estrangeiros viriam a países estragados por terremotos?

— Lore, você é um amor.

Viu, ao longe, um grupo de quatro garotos conversando que chamou sua atenção pelo simples fato de que um dos garotos estava agarrado ao outro do modo mais explícito possível. O que agarrava tinha cabelo castanho-avermelhado e olhos da exata mesma cor, quase vermelhos. Possuía um grande sorriso e um rosto adorável, sendo provavelmente um pouco mais baixo que Ethan. Nicholas imediatamente o identificou como um daqueles garotos carismáticos que sorriem e fazem piadas o tempo todo, agitado como o verão, o tipo que ninguém consegue gostar nem desgostar: ou você ama ou você odeia.

Tipo eu, pensou.

O garoto que ele agarrava era muito menor, talvez mais baixo que Nick; seu cabelo louro-acastanhado era comprido na frente e curto atrás, com uma gigantesca franja jogada para o lado para não cobrir os olhos. Possuía o rosto mais delicado e meigo que Nick já vira na vida. Quando ele sorriu, sentiu seu coração aquecer, como a muda de uma semente crescendo lentamente dentro de si. Ele era uma gracinha, tão doce quanto um cubinho de açúcar. Sentiu uma vontade súbita de colocar uvas em sua boca enquanto penteia seu cabelo loiro.

Os outros dois eram um pouco mais normais, e pelo modo como falavam e sorriam, provavelmente eram amigos do loiro e do ruivo. Um deles era louro também, mas era mais alto e seu cabelo era louro-acinzentado, enquanto seus olhos tinham um tom gelado de azul, nem de longe tão profundos quanto os de Oliver. O cabelo do outro era castanho-claro, pendendo ao dourado-escuro, e seus olhos eram da mesma cor, mas um pouco mais claros. Ele lembrava o outono por algum motivo e era o mais alto dos quatro.

— Ei, me solta, eu não vou fugir — alguém disse por trás de Nick. — De novo.

Quando virou a cara, quase desmaiou de susto. Melon e Marco Chioren estavam por trás dele, caminhando em direção ao prédio. Marco estava usando o uniforme da St. Nicholas, embora não parecesse o príncipe que Lorenzo pareceria se usasse a mesma roupa. Sua gravata verde-escura estava quase que completamente desfeita e seu cabelo encaracolado estava despenteado. Ele lembrava o Príncipe Senn.

Ou melhor, o Rei Senn, regente da Califórnia e fodido pelo meu irmão.

Da última vez que Nick o vira, podia jurar que seus olhos eram mais azuis. Agora estavam quase púrpuras.

Já Melchior estava de sobretudo, como sempre, cinza e com detalhes brancos. Arrancava olhares ansiosos e murmurinhos por onde passava. Nick quase se esquecera de que ele agora era um escritor famoso e todos o conheciam, exatamente como era com Ethan, só mudava o ofício. Aliás, ele parecia um anjo com o cabelo cinzento jogado para trás e os olhos violetas ardentes como fogueiras, andando silenciosa e tão graciosamente que era difícil acreditar que fosse real. As freiras mais velhas lançavam-lhe olhares seguramente hostis. Talvez nem todo mundo tivesse encarado a Revolução M como a bênção que foi.

Segurava firmemente o braço de Marco, que era quase da altura de Nick.

— Que está fazendo aqui? — indagou a ele. Melchior lhe deu aquele sorriso suave que tanto usava, usando um tom de voz quase condescendente.

— Meu irmão Marco me fez o favor de ser expulso da Escola Minerva após ter brigado com cinco garotos diferentes em apenas seis meses. — De repente, o garoto escapuliu do agarro do irmão maior e desatou a correr através da cobertura de pedra que separava o pátio frontal do interno, que era ainda maior. Nick sentiu um calafrio terrível, lembrando-se dos seus nove anos na Escola St. Emanuelle. O cheiro do limão aguado anda estava fixado em sua mente.

Melchior pareceu notar seu desconforto.

— Está tudo bem?

— Sim — apressou-se em dizer, odiando-se logo depois. Sabia como Melchior era. Se continuasse a demonstrar aquele desconforto, ele iria querer saber por quê, começaria a fazer perguntas, descobriria a verdade e então teria Nick na mão dele, pois Ethan não poderia jamais saber. — Não vai perguntar por que estou aqui? — arriscou.

Ele deu de ombros.

— Acho melhor não. Preciso falar com seu irmão, onde ele está?

— Procurando o número da minha sala na administração.

— Obrigado. Sabia que metade dessa escola também é um internato? Fica além daquela cerca ali. Pedi aos meus pais para colocaram Marco aqui permanentemente, mas eles declinaram. Meu irmãozinho tem andado insuportável ultimamente. Eu ultimamente andei pensando naquela vez em que você tentou se matar e pegou uma infecção num hospital público. E Nicholas, você já pensou em fazer teatro?

Com isso, ele se afastou enigmaticamente.

Nick observou o grupo dos quatro garotos de diferentes cores seguirem o olhar através do anjo de olhos púrpuras, principalmente o loiro que não era aquele que havia aquecido seu coração. Este ainda estava agarrado ao ruivo. Nick sentiu uma gota de ciúme irracional.

Que absurdo, eu nem gosto de garotos. Só do Ethan. Mas Ethan não é exatamente um garoto, ele é meu irmão.

Seu irmão voltou pouco tempo depois. Também atraía olhares e parecia já ter falado com Melchior.

— Certo, achei sua sala. É a de número XI, no segundo prédio do Norte. A área útil dessa escola é dividida em quatro partes, Norte, Sul, Leste e Oeste. O Norte e o Sul é onde tem as salas de aula, o Leste e o Oeste são áreas abertas. A parte onde ficam alojados os alunos que moram aqui fica mais para o oeste ainda, é delimitada por aquela cerca, então nem pense em se esgueirar para lá.

Havia, de fato, uma longuíssima cerca de arame farpado com arame também em cima coberta de raízes verdes através do gramado. Nick podia ver vários prédios além da cerca.

— Essa escola é enorme para um portão tão pequeno — comentou Lorenzo. — O que acontece se há um incêndio? Morrem todos?

Às vezes ele o apavorava tanto.

— Há quatro formas de sair dessa escola, na verdade — Ethan disse. — O portão principal, o pelo qual nós entramos; o portão que os carros usam para entrarem no estacionamento, que você chega através da Rua XVI; e além deles tem mais dois portões pequenos… um deles fica nesse pátio, mas não sei onde fica o outro. — Ele deu uma pausa, olhando através da extensão gigantesca daquela escola. — Bem, acho que nós já vamos. — Ethan puxou Nick para si e o abraçou com força, enterrando o rosto em seu pescoço, bem por cima do cachecol. Nick o abraçou de volta. Ethan deu-lhe um beijo na bochecha, mordiscando-a logo depois. Nick se arrepiou.

— Se houver um incêndio — disse Lore —, pule a cerca. Não importa se tem arame farpado em cima, melhor morrer de tétano do que queimado.

— Vou morrer te amaldiçoando até sua décima geração — disse Nick, abraçando o irmão menor. O uniforme ridículo dificultava as coisas, mas Lore apertou com força. Antes da partida de Rowan Pyatt, este o ensinara a bloquear os estímulos externos que recebia. Isso significava que ele só descobria o que alguém sentia quando queria, tornando-o ainda mais assustador. Perguntava-se se Rowan realmente teria dormido com Ethan antes de ir. Era quase certo que sim.

Quando eles foram embora, Nicholas Hentz empertigou-se e seguiu em frente, atravessando a grande área realmente conhecida tanto informal quanto oficialmente como pátio frontal. Passou pela tenda de pedra, onde do lado direito havia o prédio da administração e do esquerdo, a diretoria.

A área seguinte era ainda maior que o pátio frontal, sendo chamada apenas de Pátio. Lá, a cerca continuava sem fim, mas havia um portão pequeno entre os espinhos de ferro e as trepadeiras verdes de onde nascia uma pequena estrada. Pouco depois do portão, um refeitório grande do lado esquerdo, com várias mesas cobertas por uma tenda, não de pedra, como a que acabara de passar. Uma capela parecida com uma pequena fortaleza prostrava-se do lado direito.

Nick quase esquecera que aquela era uma escola católica. A capela possuía uma pesada cruz de bronze em seu topo e portas quase tão grandes quanto as da entrada da escola, sendo feita de tijolos vermelho-claros retangulares. De fato, a fachada da St. Nicholas fazia-a parecer infinitamente menor por fora do que era por dentro. Logo a direita da capela, havia também um enorme teatro e um auditório, onde enxames de alunos se amontoavam em volta. Aquela escola era de fato maior que a Academia Alphonse Enoi.

Deixou o Pátio ao entrar por uma calçada entre dois gigantescos prédios antiquíssimos, parecendo ter sido tirados da França no século XIX. Eram quase tão grandes quanto o palácio real em Sacramento, com quatro torres que faziam-nos parecerem fortalezas de fidalgos. Nick logo notou que os dois prédios formavam o Sul.

Suspirou longamente. Ainda estava no início do caminho e já suava.

Aquela área parecia ser outra cidade. A Estrada Principal atravessava postes de luz e bancos de sentar, e cercas-vivas floridas com roseiras, bromélias, lótus, margaridas, dentes-de-leão, bocas-de-leão, crisântemos e cravinas coloriam o lugar. E, dos dois lados, os gigantescos monumentos engolindo-o como a boca de um dragão.

Quando saiu do Sul, Nick pensou ter entrado no meio de um deserto. O Oeste, o lado esquerdo, abrigava dois gigantescos ginásios fechados e o Leste, o lado direito, abrigava cerca de oito quadras abertas e um pequeno prédio que imaginou ser o vestiário. A Estrada Principal seguia na borda dos dois até o Norte.

Estava mais gelado lá, e com consideravelmente mais alunos. Foi aí que Nick percebeu que todos tinham gravatas vermelhas ou azuis e cachecóis das mesmas cores. O amarelo e o verde sumira. Talvez fosse um modo de identificar cada localidade. Ethan fora perguntar em qual área Nick estava localizado sem motivo algum, e isso meio que lhe causou um estranho divertimento.

O segundo prédio do Norte era idêntico ao primeiro, que por sua vez era idêntico aos dois do Sul. Nick entrou nele como se estivesse prestes a beijar os pés do rei.

A despeito do teor vitoriano do externo do prédio, a parte de dentro era completamente pertencente ao século XXI. O primeiro andar do primeiro prédio era destinado ao quarto ano, pois a escola não aceitava anos abaixo desse. O segundo andar era do quinto ano, o terceiro andar era do sexto, o quarto do sétimo, o quinto do oitavo e o sexto do nono ano.

No segundo prédio, os dois primeiros andares eram do primeiro ano do ensino médio. O terceiro e o quarto eram do segundo ano e o quinto e o sexto eram do terceiro ano.

No segundo prédio, cada andar tinha sete salas; em ambos, o térreo pertencia à parte administrativa.

Nicholas Hentz se encontrava na sala XI do segundo andar do segundo prédio do Norte. Ali, todos tinham cachecóis vermelhos, enquanto no primeiro prédio eram todos azuis. É isso que eu virei, um nortenho vermelho?, pensou com uma amargura indesejável. Na Academia, todos o conheciam e o veneravam. Ali, na St. Nicholas, quem diabos saberia quem ele era até que ouvisse seu nome?

Observou através da escura janela de sua sala de aula, desejando abri-la e berrar para o mundo que ele era Nicholas Hentz, o último leão dourado, do sangue dos magnatas mais poderosos do mundo e do futuro magnata mais poderoso do mundo. Perguntava-se se Ethan realmente faria faculdade. Ele estava remodelando o Edifício Dasvalkur, ou melhor, o Palácio Real Hentz, com a construtora que ele próprio possuía, e andava tão ocupado que ter aulas durante mais quatro anos parecia impossível e impensável.

Quem diabos tinha tempo de aprender sobre o mercado de ações quando se estava decorando um prédio de noventa e cinco andares, administrando uma mineradora sul-africana, uma construtora, uma indústria tabagista, um centro de convenções e quatro agências de publicidade californianas? Ethan Lemnsack lentamente via sua fortuna crescer exponencialmente para as centenas de milhões de dólares, tudo isso do capital herdado de sua mãe, que Deus a tivesse.

Nicholas sentiu um tremelique. Talvez fosse por causa do ar gelado, talvez pelo retrato de Jesus Cristo bem acima do quadro, talvez pelo crucifixo horrendo dos fundos da sala. Agradecia que ele estivesse nos fundos. A última coisa que queria era ter que encarar um corpo sangrando num sofrimento silencioso enquanto tentava aprender logaritmos.

Apertou mais o cachecol contra o pescoço.

Quando virou-se, viu o grupo de garotos que vira no pátio frontal há menos de meia hora.

O ruivo estava sentado em cima de uma das carteiras e agora fazia os outros três rirem. Nick via o braço daquele mais alto, o que o lembrava do outono, em volta do pescoço do loiro de olhos azuis na maior naturalidade possível. Perguntava-se se eles teriam um caso. O loiro menor que antes era agarrado pelo ruivo agora apenas o fitava fixamente com um olhar de admiração. Uma parte de seu coração morreu um pouquinho.

Eles são namorados, pensou com tristeza. Meu Deus. Por que estou me importando? Que inferno. Já matei duas namoradas e enterrei um filho, até parece que alguém iria querer ter algo comigo… Então por que dói tanto?

Mesmo assim, desejou que ele fosse mesmo de sua sala. Seu cabelo louro-acinzentado estava jogado por cima do cachecol adoravelmente como uma cascata. Os olhos verdes como esmeraldas, pouco acima do sorriso lindo, brilhavam como se tivessem acabado de ser polidos. Queria saber seu nome, mas uma vergonha absurda impedia-o de ir perguntar. Tanto por isso quanto por ele estar cercado de amigos.

Quando o sinal tocou, os quatro se alinharam nas carteiras. Nick suspirou feliz e ao mesmo tempo não. Ele era de sua sala, mas o ruivo também era.

Mesmo que na Escola St. Emanuelle fosse igual, ficou surpreso ao constatar que a professora era uma freira, de hábito e tudo. Porém, não cobria o cabelo nem aparentava ser muito velha ou muito jovem e seu nome era Mary Joseph. Nick fez uma anotação mental para lembrar que todas as freiras ali tinham nomes começados com Mary. Ela fez uma oração antes de começar a aula. Nick fingiu que acompanhou mentalmente.

Chegou um momento em que a Irmã Mary Joseph fez uma típica e constrangedora dinâmica de alunos. A turma inteira deveria fazer quintetos.

Nicholas nunca tivera realmente problemas com aquilo, mas naquele momento estava terrivelmente envergonhado de sequer levantar o rosto. Queria saber por quê. Não se sentira daquele jeito quando deixara a St. Emanuelle e fora à Academia.

Estou agindo como um idiota. Estou agindo como Ethan agia aos dezesseis anos. E ele se odiava naquela época. Deus, não quero ser assim. Não quero os papeis se invertendo.

Só faltava que aquela sala tivesse trinta e um alunos e fosse justamente ele quem sobrasse, então a Irmã deveria ela mesma escolher onde ele deveria ficar, e o que aconteceria? Não, Irmã, não queremos ele aqui. O pensamento o arrepiava violentamente… que diabos estava acontecendo?

Enquanto se lamentava internamente, Nicholas sentiu um toque no ombro. O assombro fê-lo virar a cabeça rapidamente para dar de cara com o sorriso fácil do ruivo.

— Quer se juntar a nós? — Ele fez um gesto indicando os outros três, que não pareciam prestar atenção a eles. Nick assentiu humildemente, arrastando a carteira para junto deles. — Eu sou o Summer, a propósito — ele disse quando se juntaram ao grupo. Apontou para o loiro de olhos verdes, que sorriu meigamente para Nick, fazendo-o quase tropeçar com desleixo. O sorriso dele era ainda mais lindo de perto. — Esse é o Spring.

Aquilo fez Nick piscar, perguntando-se se havia ouvido direito.

— Esse é o Winter — disse Summer, apontando para o loiro de olhos azuis que apenas fez um gesto sutil, dando-lhe um sorriso curto e enigmático, como se soubesse de algo. Parte de seu cabelo escondia um dos olhos azuis. Depois, Summer apontou para o mais alto, o de cabelos castanho-claros e olhos dourados que lhe lembrava o outono. — E esse é o…

— Fall? — Nick arriscou perguntar com um sorriso pequeno.

O garoto brandiu a cabeça negativamente, sorrindo também.

— Autumn — disse com um sotaque britânico.

Como não podia deixar de ser.

Quanto mais o tempo passava, mais Nick se perguntava se estava vivendo a realidade. Contara-lhes que seu nome era Nicholas Hentz e, como esperara, eles se sobressaltaram. E por acaso é o Nicholas Hentz filho de Mary Alice Hentz e irmão de Ethan Lemnsack? Sim, senhor, sou eu. E como é ser um bilionário? Não sei, eu não sou, e sim meu irmão, eu não tenho nada, apenas um duplex, um arranha-céus, uma Mercedes e uma limusine a minha disposição e um cartão de crédito com limite de quinze mil dólares, só isso, mais nada.

— É verdade que você tentou se matar? — Summer perguntou com exaltação. Spring, Winter e Autumn se remexeram desconfortavelmente nas cadeiras.

— Summie, isso é indelicado — Spring sussurrou.

Nick deu de ombros, mas foi só um pretexto para poder tocar na mão de Spring.

— Tudo bem. Eu não me importo. — Puxou as mangas do paletó e mostrou seus pulsos. No pulso esquerdo, estava tatuado o nome Lorenzo, e no direito, Ethan. Apesar disso, ainda era possível ver as cicatrizes. — Não me lembro bem como foi aquilo, mas os cortei com uma faca. Deve ter doído muito. Quando meus pulsos sararam, tatuei neles o nome do meu irmão menor, Lorenzo, e do maior, Ethan, para que, se eu tentasse fazer isso de novo, eu me lembrasse dos motivos para não fazê-lo.

Os quatro ficaram calados por um momento, observando-o com olhos verdes, vermelhos, azuis e amarelos. Como as estações.

— Você… deve amá-los muito — Autumn sussurrou com aquele elegantíssimo sotaque britânico. Nick pensou que ele devia ter vindo de Londres.

— Mais que qualquer coisa — respondeu com simplicidade, ajeitando as mangas do paletó. Podia perfeitamente omitir o fato de que Ethan quase o matou por ter feito uma tatuagem. — Mas onde estávamos? Por que não me falam de vocês?

Quanto mais eles falavam, mais Nick se assombrava. E não importava que Summer e Autumn fossem nomes de mulher e que Spring e Winter sequer fossem nomes, eles se pareciam com seus nomes. Summer era agitado e hiperativo, com os olhos e os cabelos vermelhos, e fazia crescer em Nick uma vontade desesperadora de falar e de se mexer. Spring era delicado como a primavera, e se Nick achara que ele namorado de Summer, agora tinha a mais absoluta certeza, embora ninguém houvesse falado nada. Summer frequentemente colocava o braço protetoramente em volta de seus ombros e às vezes beijava sua bochecha com carinho, mas nunca sem antes olhar se a Irmã Mary Joseph estava ou não por perto.

Descobrira que Spring e Autumn moravam no internato da St. Nicholas. Os pais e o irmão menor de Spring moravam em Middleland, porém, enquanto Autumn era anglo-californiano, tendo o pai inglês, especificamente de uma cidade chamada Furness, e a mãe californiana, especificamente de Los Angeles. Decidira morar com ela há meia década.

Quanto mais Nick falava com Spring, mais percebia-se encantado por sua voz fina e levemente rouca, pelo modo como ele gesticulava com delicadeza enquanto falava e de como tirava o cabelo de frente da testa apenas com o movimento da cabeça. E de como ele ria de tudo e de como tudo parecia fácil para ele. Era como se até o modo que ele piscava o atraísse em alguma coisa, com aqueles grossos cílios entrelaçando-se por um décimo de segundo. Antes do fim daquela aula, Nick estava com absoluta certeza de que queria pelo menos experimentar o sabor de seus lábios uma vez… só uma única vez. E depois nunca mais.

Winter mal falou, e Nick percebeu que ele era assim, quieto e taciturno como o inverno. Seus olhos eram austeros e observadores, exalando uma frieza gelada para absolutamente tudo, embora todo o resto de seu rosto sorrisse. A autêntica pele bronzeada californiana e o cabelo louro-acinzentado, liso e repicado, transformava-o imediatamente no garoto mais bonito não só daquele grupo, mas também daquela sala. Nick pensou que se a St. Nicholas aceitasse meninas, estaria pelo menos metade da população feminina da escola apaixonada por ele. Seu jeito quieto era estranhamente atraente.

Autumn era uma espécie de intermediário entre Summer e Winter, bem como era o outono com o verão e o inverno. Às vezes, estava tão falante quanto seu ruivo amigo, e assim seus olhos brilhavam uma claridade dourada enquanto aquele pesadíssimo sotaque inglês escapava por seus lábios, envolvendo cada palavra com um casulo de formalidade. Outras vezes, ficava como Winter, apenas observando e escutando. Nick sentiu um medo imediato daqueles dois, mesmo sabendo que era irracional. Não conseguiu descobrir se eles tinham um caso ou algo assim, mas pensou que sim quando viu Autumn segurar a mão de Winter por dois segundos ou menos enquanto olhava fixamente em seus lindos olhos, como se estivesse passando uma mensagem por telepatia. Bem, e por que não poderia ser ele um descendente perdido de Atheneus?

Os diversos chupões no pescoço de ambos também ajudaram. Talvez aqueles cachecóis servissem para mais do que apenas como partes do uniforme.

— Os alunos da St. Nicholas tem uma certa rixa informal — disse Summer em certo momento. — Os nortenhos e os sulistas. No Norte, os alunos do primeiro prédio tem o cachecol azul e o do segundo, vermelho. No Sul, os do primeiro prédio tem ele verde e os do segundo são amarelos. Nós nos dividimos assim em campeonatos desportivos e coisas assim, os vermelhos sempre ajudam os azuis e os verdes ajudam os amarelos, e vice-e-versa. E, bem, cada Irmã dá pontos aos alunos por bom comportamento e etc., pontos esses que vão se acumulando até o final do ano em nome de sua Casa, onde uma única sai ganhadora. O ensino fundamental quase nunca ganha.

— Oh, então deixe-me ver — pediu Nicholas. — Estudamos numa espécie de castelo, os alunos moram aqui, usamos cachecóis com as cores das nossas Casas e no final do ano uma delas ganha um prêmio? Hm, qual a próxima aula, afinal, Defesa Contra as Artes das Trevas?

Os quatro riram, mas Nick sentiu que foi apenas o riso de Spring que fê-lo corar.

— Alegre-se — ele disse, com a expressão mais bonita que Nick já vira na vida. Pensou estar vendo a face de um anjo. — Você está na Casa Vermelha do Norte, a maior ganhadora dos cento e trinta anos de existência da Escola St. Nicholas. E seu nome é Nicholas. Pode ser um sinal.

Um sinal de que eu te amo, Nick pensou, perguntando-se se estava começando a perder o juízo.

— Desabotoe o último botão do paletó — disse Winter. Nick olhou para a própria vestimenta, que era realmente fechada por três botões. Agora que via melhor, percebia-se que todos os alunos daquela sala tinham apenas os dois primeiros abotoados.

— Por quê? — indagou.

— É uma tradição criada pelo Rei Eduardo VII — Autumn respondeu. — Desde então, virou universal. E, aqui, é quase uma regra.

Nick desabotoou o último botão, perguntando se conseguiria imitar o sotaque de Autumn se quisesse.

— Sabe, a poucos metros daqui tem a Escola St. Marie — sussurrou Winter roucamente. Sua voz era gélida e cavernosa, sem quase nenhum calor. — E ela é só para garotas. Antigamente, os alunos daqui costumavam pular os portões da St. Nicholas, atravessar o terreno baldio e pular de novo os portões da St. Marie. Esse caminho dava bem no Alojamento A, onde eles subiam pelas trepadeiras até os quartos das meninas. Isso parou quando começaram a pôr grades nas janelas.

— Mas não quer dizer que eles não podiam arrumar outro caminho — disse Summer alegremente. — Garotos sempre vão ser garotos. Houve o caso de uns dois meninos que foram pelos esgotos, esperando dar no porão de algum alojamento. Deram-se no porão da diretoria. Eles foram expulsos da St. Marie e, posteriormente, da St. Nicholas.

— Se alguém descobrisse um modo de burlar toda a segurança das duas escolas, viraria um rei — Autumn disse. Aquilo acendeu uma luz na cabeça de Nicholas. Melchior ficara eternamente conhecido na Academia Alphonse Enoi após a Revolução M, tendo entrado lá como um completo ninguém, tão desconhecido quanto o atual Nick.

— Antes era muito mais fácil — Spring disse. — Não havia câmeras ou grades com espinhos, havia menos seguranças e menos dedos-duros. Os portões era muito mais baixos e o terreno baldio não tinha tanto lixo. Hoje em dia, pisar ali é pedir para sair com tétano. É impossível.

— Nada é impossível — Nick sussurrou, fazendo todos virarem o olhar para ele. Sorria. — Pelo menos é o que eu acho.

— Vocês viram que Melon Chioren estava aqui mais cedo? — perguntou Summer com brilho nos olhos. Nick o olhou com um misto de pena e divertimento. — Ele é a pessoa mais incrível que eu já vi na vida. Queria conversar com ele. — Olhou para Nick. — Não acha?

Nick deu-lhe um olhar condescendente.

— Sei coisas sobre Melchior que arrepiariam até esse seu cabelinho vermelho.

Quando tocou o sinal para o intervalo, viu os quatro garotos afastarem-se suavemente através da Estrada Principal, provavelmente em direção ao refeitório no Pátio. Não tinha fome, por isso ficou por ali, suspirando o perfume das flores.

Sentou-se num banco de madeira a apenas três metros da cerca e deixou o ar gelado e os novos sons do ambiente a sua volta encherem sua mente. Alguns garotos conversavam sobre modos de pular a cerca para o internato, já que os únicos três portões estavam trancados o tempo todo e eram acessíveis apenas aos alunos que moravam ali. Eles tinham scanners de digitais, e aquilo realmente o surpreendeu. Quando entrou na St. Nicholas, teve a sensação de ter regredido alguns bons séculos no passado com aquelas quatro fortalezas de pedra erguendo-se majestosas com todos os seus seis andares e suas centenas de alunos vestidos como cavalheiros antigos. A ideia de modernismo ali parecia incabível.

No patamar mais alto da Casa Vermelha, gárgulas monstruosamente pesadas vigiavam os alunos como anjos de pedra. Nick imaginou que aquilo não era muito cristão.

Viu, a sua longe esquerda, a Casa Azul, onde os alunos mais novos estudavam. Quando olhou para a sua direita, quase se jogou para trás de susto.

Havia um garoto sentado no banco com ele, e por algum motivo Nick teve a impressão de que ele estivera sentado ali durante todo aquele tempo. Era mais jovem que ele, mas mais velho que Lorenzo. Talvez tivesse uns doze anos. Estava com cachecol azul, mas Nick teve uma leve impressão de que seu paletó estava grande demais para ele. Tinha brilhantes olhos verdes.

Nick não teria se assustado tanto se ele não estivesse usando duas enormes orelhas cor-de-rosa de coelho presas por uma espécie de capacete de pano que cobria toda a sua cabeça. Parecia ser parte de uma fantasia.

— Olá — disse o garoto, sorrindo. — Te assustei?

Nicholas estava jogado no chão.

— Não — disse, se levantando. — Como eles te deixam usar isso?

— Sempre usei isso, desde o início dos tempos, quando as Sombras inundavam o mundo — ele sussurrou sinistramente, fazendo cada pelo do corpo de Nick se arrepiar. Depois sorriu e riu infantilmente. — Só estou te assustando. Eu não te assustei antes, então estou te assustando agora. Qual seu nome?

— Nicholas — disse ligeiramente desconcertado. — E o seu?

— Vejo que conheceu as estações — ele disse casualmente, ignorando a pergunta. — Spring, Summer, Autumn e Winter. São quatro maravilhas, aqueles dali, não são? Tão adoráveis, apenas quatro garotos amigos, como toda boa escola norte-americana tem. Esses não são os nomes deles, a propósito.

— Como não? Eles que me disseram que são.

— Eles nunca te disseram isso, disseram apenas que se chamam daquele jeito. E isso é verdade, eles se chamam daquele jeito. — Por algum motivo, cada palavra do garoto fazia Nick se sentir mais e mais estúpido. — Tudo começou quando Edric Summer conheceu Edric Spring nas imediações do condomínio Vittart. Foi um encontro muito adorável, eu tenho que te dizer. Bem, pulando alguns acontecimentos, Spring veio morar na St. Nicholas, onde conheceu Edric Autumn, seu colega de quarto, que era um estrangeiro da Inglaterra, e ficou amigo dele. Edric Winter já era amigo de Spring muito antes, e assim eles formam o quarteto fantástico. Simples assim.

O garoto coelho riu.

— Eles se chamam pelo sobrenome porque os quatro tem o mesmo primeiro nome — disse. — Você saberia mais se perguntasse. Devia perguntar. Simples assim.

Nick pensou se aquilo seria um conselho ou uma ordem. Decidiu-se pela segunda opção porque lhe era a mais conveniente.

— Summer e Spring são namorados?

O garoto coelho mordeu o lábio inferior.

— A resposta certa seria sim, mas aquilo é mais uma relação de submissão do que de namoro. Quer dizer, não sei se você me entende completamente, mas estou pedindo que pense num quarto escuro com uma pessoa amarrada bem no meio dele e uma em pé, com um chicote na mão. O que quero dizer é que Spring seria a pessoa amarrada e Summer seria o do chicote. Spring é completamente submisso ao Summer. Deixa eu repetir para deixar bem claro: Edric Spring é completamente submisso a Edric Summer. É o escravo dele, praticamente, entregue de corpo e alma a seu doce e ruivo namorado. Se Summer pedisse a Spring que subisse ao telhado e derrubasse uma das gárgulas em cima da Irmã Mary Sandy, ele perguntaria qual gárgula ele preferia. Simples assim.

Nick imaginou que se ele dissesse simples assim de novo, o estrangularia.

— Summer às vezes não se dá conta de que ele relaxou na relação dos dois — continuou o garoto coelho. — Ele muitas vezes maltrata Spring ou o trata com descaso, porque está tão acostumado a Spring estar a seus pés, pronto para lhe dar tudo o que pede ou fazê-lo feliz, que pensa que ele religiosamente estará assim de novo na manhã seguinte, mesmo que tenha se esquecido de seu aniversário no dia anterior. É um negócio que chega a dar pena, mas nem tudo são penas negras. Que eu saiba, Summer nunca traiu o Spring. E o contrário seria impensável.

Nick sentiu uma certa fúria crescendo dentro de si. Só de pensar que uma pessoa que tivesse Spring apenas para si estivesse tratando-o mal deixava-o louco. Sentiu um ódio irracional de Summer naquele momento, além da inevitável inveja.

— E Autumn e Winter? — indagou ao garoto coelho.

— Bem, aí já não é tão mais simples assim. Eles são namorados sim, talvez de uma forma até mais saudável que Spring e Summer, se é que você curte sadomasoquismo. Eles curtem. Muito. Você nunca os viu sem camisa, parece que passaram uma semana num campo de concentração nazista. Eles gostam muito um do outro, tem os mesmos gostos e um nunca trata o outro mal, sempre agem como se fossem os últimos seres humanos da Terra. Acho que nunca os vi brigar, nem discutir. Mas nem tudo são flores. Acontece que Winter… digamos que Winter… — Ele hesitou bastante a partir daí, ao passo que Nick começou a ficar impaciente — é a vadia mais rodada da St. Nicholas. Simples assim.

Sentiu o início de uma dor de cabeça.

— Você deve ter pensado que ele é tão bonito que deve fazer o maior sucesso do mundo com as garotas da St. Marie. Bem, ele faz, e não aproveita por motivos óbvios, mas faz também com os jovens e sedentos rapazes da St. Nicholas. E todo mundo sabe disso. Todo mundo sabe que se alguém estiver afim de um boquete rápido, não importa a aparência ou idade, é só pedir a Winter que ele faz. E de graça, embora às vezes ele cobre. Pra todo mundo. Literalmente todo mundo. Até os heterossexuais, afinal, um pau não distingue uma boca masculina de uma feminina. Ele goza do mesmo jeito. Acho que não se passa duas horas sem que Winter traia Autumn, seja aqui na escola, seja no internato. Não me pergunte como ele consegue entrar lá.

— Autumn não sabe disso?

— Eu não disse que todo mundo sabe? Inclusive as freiras, que estão sempre atrás do pobre Winter, desesperadas para pegá-lo no flagra e terem um motivo para expulsá-lo? É claro que Autumn sabe, assim como sabem Spring e Summer. Só que ele ignora isso porque, bem… ele ama o Winter perdidamente, embora ele seja literalmente um prostituto. E acho que o Winter o ama também, de qualquer jeito. Ele ainda é um ser humano. Quem disse que adoráveis garotos de cabelos loiros e olhos azuis não podem se apaixonar por garotos de cabelos e olhos escuros?

Aquela frase arrepiou Nick de cima a baixo.

— Ah, se quer saber, eles podem. Muita gente não acredita que eles se amem e acham apenas que o sexo é tão incrivelmente bom que segura a relação dos dois. Isso é bem verdade, houve uma vez em que eles quase se mataram, mas não é apenas isso. É como se o mundo quisesse que eles ficassem juntos, e nada pudesse separá-los. — Isso é mentira. Há sempre algo que pode separar qualquer relação. Mesmo que esse algo tenha de se chamar Peter Marahana. — E ninguém tira sarro do Autumn por ele ter os chifres tão grandes que a cabeça chega a pesar, pois Autumn sabe quase tudo sobre quase todo mundo. Ele tem muita facilidade em descobrir informações e em guardá-las e em usá-las contra quem lhe interessa. Ouvi dizer que um garoto se suicidou depois que Autumn deixou vazar a informação de que ele era bissexual. Adivinha com quem ele conseguiu essa informação.

Nick sorriu. Autumn podia ser o mestre dos segredos que quisesse, mas absolutamente ninguém poderia se comparar a Melchior. O império dele era forte demais, alimentava-se de si próprio como uma quimera, sem nunca morrer, sem nunca secar. Sem se deixar intimidar por alguém como Edric Autumn.

Foi aí que o sinal tocou.

— Tenho que voltar para a minha Casa — disse o garoto coelho repentinamente, levantando-se. — Não a minha casa literal, a minha Casa. A Casa Azul. — Apontou para o prédio a esquerda, afastando-se dali com uma graciosidade tão grande que era como se andasse através do ar.

— Ei — gritou Nick levantando-se também. Quando o garoto parou e pôs-se a fitá-lo, hesitou por um momento. — Quem… quem é você?

— Você não vê? — ele sussurrou com inocência, nunca tendo antes parecido tanto o garoto que era. Atirou as orelhas para trás num movimento da cabeça. — Um Coelhinho.

Quando os alunos voltaram para sala, Nick não voltou a conversar com o grupo, ou como Coelhinho os chamara, as estações. Preferiu encher a cabeça de pensamentos. Era a segunda vez que conhecia um grupo de pessoas aparentemente normal, mas que escondia segredos e sussurros numa fachada de aparências.

E quem sou eu para falar da roupa suja dos outros? Tenho um caso com meu irmão, já levei um tiro, matei duas namoradas e um filho, e quase a mim mesmo…

Quanto mais pensava na era mais negra de sua vida, mais via como ela era irracional. Tentava se lembrar do motivo pelo qual quisera morrer, mas a resposta simplesmente não vinha a sua cabeça. Ethan disse-lhe que ele tivera uma crise de depressão e que pessoas assim não precisavam de motivos para fazerem loucuras. Então por que sentia que algo estava errado?

Olhou de relance para Spring, que sentava-se alinhado e perfeitamente comportado dentro do paletó azul. O cachecol vermelho estava enrolado em seu pescoço com graciosidade, e vez ou outra ele levava o lápis ao caderno para fazer anotações. O cabelo macio atirava-se para frente da testa quando fazia isso, obrigando-o a jogá-lo para trás com nada mais que o movimento da cabeça.

Winter estava parado como uma estátua de pedra, com um nada tão absoluto na expressão que tinha que piscar os olhos muito azuis para lembrá-lo que era um ser humano. Oliver não fora exatamente daquele jeito, graças aos Deus. Ele era quieto, mas possuía vivacidade nos olhos.

Autumn e Summer estavam quase iguais, sem prestarem muita atenção à aula. Nick percebeu que esquecera de perguntar a Coelhinho se Autumn era um gênio como Melchior era. Começou a imaginar os dois brigando num ringue de luta. Riu. Melchior vencera, ele vencia sempre.

Após mais quatro aulas incrivelmente esparsas as quais Nick mal se lembrava de quais eram, pegou a mochila e dirigiu-se à saída quando percebeu que mais ninguém estava levando a mochila.

— Ei, onde você vai almoçar? — Summer indagou jovialmente. Nesse momento, Nick teve de se controlar para não começar a chorar ou a arrancar os próprios cabelos. — Spring e Autumn não podem sair daqui, eles vão almoçar no restaurante do internato, mas eu e o Winter podemos. E você.

Nick forçou-se a sorrir.

— Me diz, quais os dias em que nós temos aula a tarde?

— Ora, o ensino médio tem aula a tarde todos os dias.

E Ethan Lemnsack não me contou.

— Mas não são… exatamente aulas — disse Winter se aproximando. — São atividades extracurriculares, e você é obrigado a fazer pelo menos três todos os dias.

— Quais as que tem? — indagou Nick. Winter fitou Summer por um décimo de segundo.

— São dezenas. Dança, teatro, robótica, culinária, línguas estrangeiras, música, jardinagem, natação e, naturalmente, esportes. Não sei se você viu que há uma piscina aqui, quase ninguém vê. Fica além do gramado do pátio frontal, a dividimos com os alunos que moram aqui. Nós dois fazemos, assim como Spring.

Summer não poderia perder a oportunidade de ver sua florzinha seminua. Assim como eu.

— Vou fazer natação também — disse afetadamente.

— Sabe, quanto melhor você se sai em cada atividade, mais pontos para a sua Casa você ganha — disse Summer, saindo com os dois da sala. O cabelo vermelho era jogado para trás como uma fogueira. — Além de natação, nós dois fazemos futebol. Winter aprende francês como complemento e eu depois faço basquete. E você? Precisa de outras duas.

Nick pensou por um momento.

— Futebol. E… não sei. — Nicholas, você já pensou em fazer teatro? — Talvez teatro. — Eles olharam-no com surpresa. Nick deu de ombros sorridente. O que conhecia de Melchior poderia ser apenas um décimo do que ele realmente era, mas se havia uma coisa da qual tinha plena certeza era a de que ele não dizia absolutamente nada sem um bom motivo.

Foram almoçar num restaurante ao lado de um cinema chamado Cahood na esquina da Rua XVI com a Rua Alphonse Enoi, nomeada em homenagem ao mesmo fundador da Academia. Passaram em frente a Escola St. Marie, onde dezenas de garotas de cabelo loiro e rabos de cavalo e saias azuis e brancas olharam-nos com gracejos através do portão branco até que uma velha freira veio para mandar-lhes embora. O Hospital St. Roese, aquele em que Ethan ficara quando teve o colapso nervoso, era logo atravessando a rua.

Nick não estava acostumado a almoçar e voltar à escola. Os olhos logo começaram a pesar, levando-o a força para as terras dos sonhos, onde tudo podia ser realidade, e as coisas eram sempre felizes, nunca tristes.

Acordou quando descobriu que não tinha roupa de banho.

— Eu te empresto um calção meu — disse Winter com um sorriso atencioso, os olhos gélidos como pedras de gelo.

— Acho que você é muito grande para mim — gracejou, fazendo-os rirem com a ambiguidade.

O vestiário era um lugar quente, abafado e estranhamente aconchegante onde nuvens de vapor tomavam o teto o tempo todo e as paredes e o chão eram completamente revestidos de lajotas brancas e pequenas. Spring apareceu por ali com absolutamente mais nada além de uma toalha na cintura. Nick agradeceu a si mesmo que ainda não tivesse tirado a calça, pois estava tendo a maior ereção em meses. Seu corpo era tão delicado e perfeito.

Estava tão hipnotizado pela imagem da doce primavera que não percebeu o que acontecia a sua volta. Os meninos que saíam dos chuveiros completamente nus não vestiam nada, ao invés disso puxavam algum outro menino e beijavam-no ardentemente, normalmente despindo-o logo depois.

Um garoto muito mais velho e muito maior que Nick puxou Winter para si e, sem nenhuma palavra, deu um selinho em seus lábios, forçando-o a se ajoelhar. Winter desceu o zíper de sua calça e meteu o membro na boca. Outros garotos aproximavam-se deles, alguns já despidos, esperando a sua vez.

Viu um rapaz louro deitar-se no banco de sentar de perto dos armários completamente nu. Um outro rapaz moreno veio e deitou-se em cima dele, penetrando-o pouco tempo depois.

Os garotos que antes se beijavam agora faziam sexo explicitamente, gemendo sem vergonha alguma, a vista de todos. Na verdade, todos ali faziam tudo a vista de todos. Um garoto maior que o que Winter estava chupando estava sendo penetrado por um menor que Nick. Outros três se arrastaram a um dos chuveiros, e embora Nick não pudesse ver o que faziam, seus gemidos denunciavam-nos. Um quarto juntou-se a eles em pouco tempo.

As toalhas eram todas jogadas no chão, exibindo os corpos nus e molhados dos meninos da Escola St. Nicholas. Nick nunca experimentou uma excitação como aquela. Pensou que o único homem que lhe atraía era Ethan Lemnsack, mas a visão de todos aqueles jovens ali se satisfazendo sem constrangimento, músculos roçando contra outros músculos e barbas contra barbas, e aquele cheiro de sexo no ar que complementava a orgia era a coisa mais excitante que já provou.

De repente, sentiu uma vontade tremenda de ter todos aqueles rapazes em cima de si. Despiu-se completamente, seu corpo lustroso e louro refulgindo na luz.

Winter aproximou-se dele, limpando o canto da boca com as costas da mão.

— Acho que agora você conhece os famosos vestiários da Escola St. Nicholas — ele declarou com vivacidade. Havia um brilho em seus olhos que não havia antes e que quase desanuviava aquele ambiente erótico a sua volta. — O segredo mais mal guardado da cidade. Qualquer um pode vir aqui e ter alguns minutos de prazer. A maior e única regra é que o que acontece aqui, fica aqui, inclusive traições. Você quer um boquete?

Ele perguntou com tanta naturalidade que Nick só pode assentir de leve. Winter se ajoelhou e meteu seu pau na boca, chupando com tanta força que parecia que ia arrancá-lo. Era a felação mais deliciosa que Nicholas Hentz já experimentara.

Empurrava o quadril contra a boca de Winter quando ele se separava para depois voltar. Apertou seu cabelo loiro, forçando-o a olhá-lo com aqueles olhos gelados.

Isso, olhe para mim enquanto me chupa. Meu Deus, isso é maravilhoso. E onde está Spring…? Deus, onde estão Spring e Summer?

Viu a resposta pouco ao longe. Summer estava despido, como seria o normal, sentado num banco, com o cabelo muito vermelho jogado para trás e uma expressão tremendamente prazerosa no rosto. Estava mais bonito do que o normal. Spring estava sentado em seu colo, rebolando e gemendo mais alto que qualquer um ali. Summer o masturbava de leve, forçando-o a mexer o quadril com mais rapidez.

Num outro momento, ele se levantou, pondo o menor de quadro em cima do banco, e passo a estocá-lo com violência. A expressão de dor de Spring foi de cortar o coração, e seus gemidos de prazer foram piores ainda. Era quase um pecado ver aquele corpo tão delicado e perfeito sendo tratado com tanta brutalidade. Ele parecia estar sendo violentado, mas gritou o nome do namorado quando gozou.

E, quando Nick percebeu, havia gozado também. Winter levantou-se em frente a ele, limpando a boca. O corpo dele era lindo, então por que não sentia o mínimo desejo?

Ele olhou para trás, onde Summer e Spring namoravam com carinho.

— Não faça isso com você — sussurrou fitando Nick com veemência. — Muitos já cometeram o mesmo erro, e todos saíram com o coração partido. Ninguém nunca vai separar Spring de Summer, acredite no que eu digo. Eles são partes separadas da mesma alma.

Assim como Ethan e Oliver, pensou com tristeza. E nada pode separá-los, apenas uma morte cruel.

— Eu sinto muito por isso — continuou Winter, aproximando-se dele. — Eu também já fui apaixonado por Spring, mas isso passou. Sabe qual a pior coisa de um coração partido, Nick? O fato de você não conseguir se lembrar de como se sentia antes. Se quiser, pode fazer em mim o que Summer fez nele.

Ele fez Nick se sentar no banco, então se virou e empinou as nádegas perfeitas e bronzeadas. Sentiu água na boca quando o viu deslizar uma camisinha por seu membro e logo depois sentar nele com toda a naturalidade e facilidade possível. Winter começou a rebolar e a cavalgar da mesma forma que Spring. Nick gemeu de tesão, dando tapas em suas coxas.

Então notou as marcas de arranhão e cortes profundos de suas costas. Winter virou o rosto louro e bonito, sorrindo-lhe.

— Eu faço meu próprio tipo de sexo com Autumn. Apenas aproveite e meta com força. — Ele se colocou de quatro no banco, parecendo um gatinho faminto. Nick penetrou-o de uma vez, mal se conseguindo controlar. Puxava seu quadril para si como se fizesse parte de seu corpo.

Tomaram banho juntos, no mesmo chuveiro. A sensação da língua de um garoto na sua era estranhamente excitante.

— Por que você faz isso com Autumn? — indagou antes que conseguisse se controlar. Summer e Spring tomavam banho no chuveiro do lado, agarrados como se fossem só um. Nick deslizava as mãos pelas nádegas macias de Winter enquanto este lhe dava chupões no pescoço.

— Autumn e eu temos uma relação aberta. Ele também pode sair com quem quiser, acontece que ele decide não fazê-lo.

— Sabe por quê? — sussurrou. — Porque, assim, você se sente culpado.

Winter franziu as sobrancelhas.

— Acredite. Conheço o método de pensar de pessoas como Autumn. Ele quer que você se sinta culpado porque sua culpa te transforma no namorado mais atencioso possível, e isso é a única coisa que sustenta o relacionamento de vocês. E você tem suas próprias regras. Nunca praticou sadomasoquismo com mais ninguém, não é?

Ele o fitava com curiosidade.

— Você é interessante. — Ele lhe mordeu o pescoço com força, desligando o chuveiro depois. — Não esperava que se apaixonasse por Spring. Mas vamos. Ainda temos uma aula de natação.

Naquele momento, Nick decidiu que gostava de Winter.

A aula de natação ocorreu sem problemas. Decidiu ficar longe de Spring e Summer, e pelo visto Winter decidira fazer a mesma coisa. Na verdade, tornara-se uma coisinha adorável e amigável para com Nick, tratando-o como se conhecessem desde sempre. Nick gostava daquilo, mesmo que não compreendesse bem o motivo. Talvez fosse pena, talvez Winter se assemelhasse com ele. Não importava.

Mas era difícil fazê-lo se Spring ria a cada maldita palavra dita por Summer.

Quando a natação acabou, voltaram ao vestiário, onde Nick ficou com Winter novamente, dessa vez com mais vontade. Seguiram então ao Leste, onde ficavam as quadras esportivas. As quadras destinadas ao futebol iam da I à III. O calor estava enorme, mas o vestiário do Leste o motivou. Aliás, tinha que fazer no mínimo três atividades. E graças a Deus Spring não estava lá.

Separou-se das estações às três e meia da tarde. Despediu-se de Winter com um selinho carinhoso e de Summer com um aceno, sem deixar de notar que ele ficara completamente comportado no vestiário do Leste. Talvez ele não fosse o monstro que pensava ser. Não, ele não era, era o ciúme quem o fazia pensar isso.

— Em quais momentos se usam os ginásios do Oeste? — indagou a Winter antes de seguir até o Pátio.

— Só em competições. Quando se trata das atividades ou de treinos, usamos as quadras. Falando nisso, haverá uma competição amanhã entre a Casa Vermelha e a Casa Verde, lá no ginásio I. Quer participar?

— Eu adoraria.

— Então vou colocar seu nome. — Winter sorriu.

Já no teatro, seu fôlego abaixou um pouco. Era uma estrutura gigantesca e moderna, parte pedra e parte vidro, com espaço para mais de mil pessoas. As fileiras das arquibancadas da plateia eram organizadas num meio-círculo monumental, onde tudo era vermelhou ou dourado. Havia um primeiro andar e pequenas varandinhas que serviam de camarote. Pouco em frente ao palco, uma depressão servia para a orquestra, se fosse o caso. O palco em si era imenso, completamente de madeira e com cortinas vermelho-sangue abertas.

Nick sabia que a St. Nicholas receberia a Orquestra Sinfônica Californiana dali a alguns meses para uma competição, e as vagas estavam abertas. Qualquer pessoa poderia se inscrever para tocar em frente ao júri da orquestra, e quem sabe ser chamado para se juntar a ela. Perguntou-se se Lorenzo sabia daquilo. Ele tinha talento. Ele tinha futuro.

Acabou descobrindo que a escola haveria de encenar uma peça chamada Homesence, escrita por ninguém mais ninguém menos que o mais jovem escritor de fantasia do mundo. A coisa mais interessante é que os papeis femininos seriam feitos por garotos. Nick pensou por um longo tempo se gostaria de fazer uma peça escrita por Melchior. Perguntou-se por que ele gostava tanto de temas medievais. Perguntou-se se ele não tinha mais o que fazer.

Mesmo longe de mim, ele me controla, pensou subindo ao palco. Havia alguns poucos alunos na plateia, além do diretor da peça, um homem terrivelmente magro e levemente afetado que fizera uma crítica tão severa ao último menino que tentara o mesmo papel que Nick estava tentando que fê-lo sair chorando; o personagem principal da peça, chamado Gwarren.

A verdade é que aquela peça era a adaptação de um conto que Melchior escrevera com doze anos, e enquanto ali certamente havia alunos que conheciam sua obra até de cabeça para baixo, Nick não sabia sequer do que a peça se tratava.

O diálogo era entre o herói e sua adorável amada, chamada aparentemente de Thelise. Nick se perguntou onde Melchior arrumava aqueles nomes. Um menino quase andrógino fazia a voz de Thelise, já que não havia mulheres naquela escola a não ser as velhas freiras. Ouviu alguns garotos dizerem que, no conto original, Gwarren beijava Thelise. Várias vezes. Aquilo seria interessante.

O garoto estava sentado numa escada com um balde a seus pés. O roteiro dizia que Gwarren deveria se aproximar, e assim Nick o fez. Ele se levantou.

— Gwarren, você não deveria estar praticando? — Ele tinha sotaque francês, mas falava inglês bem. Deu uma risadinha, bem como Thelise devia fazer.

— Eles falaram que estou pronto… — Nick murmurou de forma tímida. Não sabia bem se Gwarren deveria ser daquele jeito, mas acontece que estava realmente tímido. Alguns meninos da plateia riram. — Partirei amanhã cedo.

— Mas tão cedo…? — ele indagou tristemente. — Achei que o treinamento duraria um pouco mais…

— Não pareça tão triste, você confia nas minhas habilidades, não? — Nick sorriu confiantemente. Decidira que tentaria tirar aquele seu semblante triste.

— Claro que confio! — exclamou feliz. — Mas também adoro escapulir do trabalho para observá-lo treinar. Você é realmente talentoso, conseguiu abater os maiores cavaleiros da vila.

Nick riu levemente constrangido. Aquele garoto andrógino atuava tão bem que era como se ele fosse Thelise e Nick fosse realmente Gwarren.

— Sim, derrotei todos… Mas não foi para isso que vim. Preciso… Preciso te contar uma coisa.

— E… — ele começou nervoso. — E o que seria isso?

— Bom… Eu sei que confia em minhas habilidades… Também estou confiante. Mas ainda assim, não quero partir sem te contar isso.

— E…? — ele sussurrou, como que para incentivá-lo. Não a Gwarren, mas a Nick.

Gwarren deveria beijar Thelise nos lábios na próxima cena, mas Nick não sabia bem se deveria fazer aquilo. O garoto pareceu notar sua dúvida. Aproximou-se devagar e aproximou o rosto do dele, sem, no entanto, beijá-lo. Foi Nick quem o fez, bem de leve.

— Eu te amo, Thelise, e quero casar com você. Se eu voltar vivo — Nick se ajoelhou e tirou do bolso o que deveria ser uma pulseira de diamantes, mas no âmbito da peça era apenas uma pulseira barata de plástico —, gostaria de ser minha esposa?

O olhar do garoto foi tão genuinamente atônito que Nick pensou estupidamente se ele pensara que o pedido fora real.

— Gwarren… Oh, meu Deus… — O abraçou com força. Nick se arrepiou. — Sim! Sim, Gwarren. Por que tinha que me falar justo às vésperas de sua ida…?

— Acho que teria me faltado coragem se tentasse antes… — Beijou-o de novo, dessa vez com mais tranquilidade. — Agora preciso ir… Reze por mim, Thelise. Voltarei o mais rápido possível.

Ele beijou-o uma vez mais.

— Até breve, Gwarren… Rezarei todos os dias.

Nick se levantou e se afastou até que o diretor, Eli Royce, gritasse para que voltasse. Assim ele o fez, obedientemente. Atuei terrivelmente mal. E esse garoto andrógino atuou tão bem. E eu estava tão expressivo quanto uma abóbora. Pobre Thelise.

— Fantástico! — ele exclamou, dando palminhas afetadas. — Atuou perfeitamente como o verdadeiro Gwarren. Inocente, bem-intencionado, ingênuo e prestativo, e meio estúpido também.

— Mas eu só agi como eu sou — Nick reclamou.

— Pois você é Gwarren, então.

Quando desceu daquele palco, Nicholas Hentz tinha uma estranha certeza que estaria atuando naquela peça dali a alguns meses. Alguns alunos olhavam-no com curiosidade, admiração e hostilidade, tudo misturado a depender da pessoa. Antes de poder deixar o teatro, o garoto andrógino que fez Thelise veio ter com ele.

— Olá — ele disse com um grande e meigo sorriso. Possuía um longo cabelo louro-claro que passava dos ombros e sonhadores olhos cinzentos, quase azulados e meio puxados. — Meu nome é Jules. Jules du Pont Rockefeller. Acho que você já percebeu que eu sou francês.

— Percebi — disse sorrindo também. Havia algo de estranhamente adorável nele. — Você atua muito bem.

— Obrigado. E eu adorei a sua atuação. Ela foi ótima, mesmo que você provavelmente não saiba. Já fez teatro antes? Isso é, já atuou de alguma forma?

Nick balançou a cabeça.

— Então você tem um talento natural. — Jules deu um sorriso singelo, passando a mão por seu cabelo. Era mais alto que Nick, provavelmente mais alto que Ethan. Ele perguntou-lhe se Nick era novato, ele disse que sim. — Tu n'as vu rien ici. Au revoir, bel mec.

Nick estava quase se esquecendo de por que não gostava dos franceses quando ele o deixou com aquela frase enigmática. Mesmo assim, Jules o cativara.

No final daquela tarde, estava parado em frente aos portões da St. Nicholas quando uma limusine preta parou em frente. Ethan dissera que iria buscá-lo pessoalmente, mas pelo visto preferira ostentar suas posses para os pobres mortais a sua volta. Nick sentia o olhar deles em si enquanto entrava no enorme carro negro.

Após certo tempo, usou aquele adorável telefone para falar com o motorista que estava a pouco mais de dois metros de distância.

— Acho que já passamos da minha casa — disse.

— Passamos, Sr. Hentz. O Sr. Lemnsack pediu-me que o levasse ao Palácio Real Hentz.

Oh, pelo amor de Deus, quem dera fosse mesmo um palácio, pensou cansadamente. Naquele momento, tudo o que mais queria era tomar um banho, deitar na cama e só acordar no ano seguinte, quem sabe. Não estava com cabeça para as extravagâncias de seu irmão. Mas quem algum dia conseguira dizer não a Ethan Lemnsack?

Notas finais
Como podem ver, eles mudaram bastante.Lorenzo agora é uma espécie de Nicholas-pós terceira temporada e Nick é mais doce, tímido e recatado, além de estar se interessando por garotos. Btw, a família Hentz agora está finalmente voltando a demonstrar toda a glória que um dia teve. :3E se não ficou muito claro, Summer = verão em inglês; Winter = inverno; Spring = primavera; Autumn/Fall = outono, mas Autumn é no inglês europeu, enquanto Fall é no americano. Por isso o Autumn da fic é britânico. :DEspero que tenham gostado do capítulo, mas deixem reviews. :33