Notas iniciais
E para quem muito esperava, aqui está um capítulo inteiramente sob o ponto de vista do Melchior. :3
Ele ocorre simultaneamente com o anterior, então haverá algumas cenas que houveram no anterior também.

Quando Melon Chioren acordou naquele dia 3 de fevereiro, pensou que seria um bom dia ao se sentar suavemente na cama gelada, tão suave que o adormecido Robb ao seu lado mal notou. Seus primos Robb e Grey Thanathos nunca realmente chegaram a deixar Jardim de Ouro, mesmo após passarem o ano passado inteiro lá. Robb argumentara com seus pais que a Escola Minerva era muito melhor que sua antiga, o que era quase verdade. E Grey idolatrava Melchior, então também não fora difícil com ele.

Robb estava completamente nu ao seu lado, com apenas uma fina camada da seda do lençol cobrindo-o. Há um ano, ele apresentava o típico bronzeado de quem mora no litoral da Califórnia, mas agora seu peito possuía um tom fantasmagoricamente branco sob a luz azulada que enchia o quarto, cada músculo perfeitamente delineado, bem do jeito que Melchior bem gostava.

Espreguiçou-se em pé, também nu, com cada pelo do corpo arrepiado. Naquela época do ano, não era preciso ligar o ar-condicionado, como seria em outras épocas no sul da Califórnia, e mesmo assim estava frio como o diabo.

— E que belo dia para falar do diabo — murmurou sorridentemente. Sentia-se feliz. Renovado. Ligeiramente poderoso, como uma aranha com suas garras envolvendo os pescoços de cada conhecido seu, cada habitante do Jardim de Ouro e até mesmo alguns de fora dele.

Tomou um banho pelando de quente. Amava o frio, mas ironicamente só o calor conseguia acalmar o fogo dentro de si.

Ainda era cedo demais para seus pais terem acordado, por isso começou a fazer o café-da-manhã por ele mesmo, pensando no que estava fazendo naquele mesmo dia, há um ano. Naquela época, Owl estava vivo e zanzando autista pelas longas ruas do Jardim como uma corujinha inocente. Naquela época, London ainda morava ali e Ritchi ainda andava; Melchior não sabia que era primo de primeiro grau de Ethan Lemnsack e Nicholas Hentz e de quinto grau de Rhanys Olrwen. Por vezes, dava-se sentindo saudades do andar saltitante da corujinha que uma vez andara sem rumo nem preocupações pelas ruas de Jardim de Ouro, tão inocente quanto uma criança. Foram bons tempos.

E naqueles tempos, Julie e Lance Chioren, Jimmi Weswalk, Terrence Revonne, Mia Cinneto, Odette Ovense e Olenna Olrwen ainda estavam vivos, mas seus fantasmas pairavam até hoje em cima do ar de ouro do Jardim. O preço das casas decaíra drasticamente. Melchior se lamentava de Ethan ter vendido a mansão, ela agora era uma morada de celebridades narcisistas que queriam fugir um pouco dos holofotes. Também se odiava por nunca ter realmente chegado a saber quem matara Olenna Olrwen. Era tão óbvio que ela matara Owl, mas a velha não poderia ter dado trinta e seis facadas em si mesmo, poderia? Não…

Naquela época também, o inverno estava escaldando de quente. E Marco era virgem.

Os ovos fritos quase queimaram enquanto refletia sobre a vida.

Quando terminou, um a um, seus irmãos e primos começaram a descer. Organizara a grande mesa circular da cozinha de modo a caber todos sentados de uma vez, o que era um pequeno milagre. O primeiro a chegar fora Daemon, e com os olhos sonolentos e cabelos despenteados, sentou-se na mesa quase no mesmo momento em que Melchior enchia seu prato. Ele agora tinha onze anos e Melchior começava a achar que não cresceria mais.

— Bom dia — disse alegremente.

— ‘Dia — ele murmurou, virando metade do copo.

Samwell foi o próximo. Mesmo que seu doce irmão já tivesse já doze anos e tivesse há pouco tempo experimentado a provavelmente maravilhosa sensação de ser masturbado por uma garota da escola, ainda precisava que amarrassem-lhe um lenço ao pescoço para não se lambuzar com a comida derrubada. Ele ainda estava meio sonolento quando Melchior o fez. Provavelmente era o mais bonito de seus irmãos, a exceção de Marco e seus adoráveis cachos.

Robbet e Tarly vieram depois. Tirando Teo, eram os mais novos, tão grudados que pareciam gêmeos, como partes divididas da mesma alma. Melchior começou a desembaraçar os nós dos cabelos dos dois enquanto estes comiam, depois fez o mesmo com Daemon.

Marco apareceu com Hugh e Howl, que agora moravam definitivamente com os Chioren. Lance fora assassinado, graças a Deus, e a mãe dos dois jazia desaparecida no México, provavelmente sendo dançarina de boate. Ela tivera uma filha com um mexicano e a chamara de Julietta. Era melhor que permanecesse assim. Enquanto os dois gêmeos pareciam cansados e abatidos, Marco era o mais enérgico dali. Melchior teve especial dificuldade em ajeitar seus lindos caracóis cinzentos.

Aliás, desde que o ano virara, seu cabelo adquirira aquele tom como que por mágica. Havia outra coisa também, uma coisa a qual não queria acreditar: seus olhos estavam mais púrpuras do que eram antes.

Tenho que mantê-lo longe dos sobretudos, ou estarei perdido, pensou sombriamente observando Grey descer a escada com Robb, que segurava Teo. Melchior pegou o bebê nos braços e enfiou-lhe uma mamadeira na boca, enquanto habilmente servia o café dos dois primos. Era difícil acreditar que Robb era mais novo que ele.

Teo riu quando arrotou. Melchior sorriu-lhe com carinho e limpou-lhe as bochechas vermelhas e rechonchudas. Era difícil acreditar que ele já tivesse dois anos e estivesse naquela fase de não querer ficar deitado nos braços de ninguém de jeito algum. O cabelo castanho-acinzentado e perfeitamente liso contrastava com os olhos redondos e azuis, com leves lascas violeta-escuras.

Robb era o único que não aceitava que Melchior ajeitasse seu cabelo… pelo menos, não ali, na frente dos outros.

— Todos terminaram? — indagou sonoramente quando Daemon terminou por último, mesmo que tivesse sido o primeiro a começar. — Robb, quero que ponha o uniforme em Teo, hoje é o primeiro dia dele na escola. Ajude Grey também. Hugh, Howl, vocês podem se ajudar. Daemon, supervisione Tarly e Robbet para que eles não se matem quando discutirem sobre qual o melhor jeito de vestir a camisa de forma errada. Vista-se também. Sam, você já pode se virar sozinho, mas quero-o aqui em dez minutos. Marco, você vem comigo, eu vou levá-lo à St. Nicholas.

A cozinha ficou subitamente barulhenta. Marco ficou sentado à mesa, com a cara emburrada, enquanto observava os irmãos e primos correrem escada acima. O uniforme dele seria diferente esse ano.

Melchior sentou-se numa cadeira em frente a dele. Sorria.

— Eu trouxe seu uniforme. Tem ideia do quanto ele custou? Espero que se comporte bem lá como não se comportou na Minerva.

Havia um sorrisinho irônico em seu rosto. Há poucos meses, Marco Chioren estava a um passo de se comparar a Melchior, e seu irmão logo descobriu por quê. Na Escola Minerva, ele era um pequeno deus, um mestre dos segredos. Ameaçava e punha na palma da própria mão quem bem entendia, com seu tom de voz irônico e irritante. Melchior chegara ao ponto de temê-lo. Por alguns segundos.

Ele já havia brigado uma vez, e na Academia Alphonse Enoi também. Não fora difícil convencer alguns poucos garotos a se porem em seu caminho e atormentarem-no ao longo dos meses do segundo semestre de 2013, necessitou-se apenas de alguns terceiros e umas poucas boladas de dinheiro. No final do ano letivo, Marco já havia se metido em tantas confusões que a ordem de expulsão viera como um fogo artifício que se acende e falha. Eles já esperavam, mas ninguém se surpreendeu.

Também foi fácil descobrir que Ethan haveria de pôr Nicholas na Escola St. Nicholas. Na verdade, tivera apenas que dividir os lençóis com ele duas ou três vezes (uma delas fora na pesada escrivaninha de seu escritório do Palácio Real Hentz e outra no divã, de frente para a janela) para ter plena certeza. Com Marco lá, poderia voltar a se aproximar de Ethan e de Nicholas também. Tinha plena consciência de que o último leão dourado não ia com sua cara.

Não consigo entender por que, eu sou um amor de pessoa.

— E desde quando você tem problemas com dinheiro? — Marco indagou irritado. — É um escritor famoso agora.

— Sempre fui um escritor famoso, acontece que as pessoas não me conheciam.

Observou-o despir-se ali na própria cozinha e pôr complicado uniforme da St. Nicholas. Como bem pensara, ele era um sulista, mais especificamente da Casa Verde do Sul. Nicholas era da Casa Vermelha, um nortenho, naturalmente seu inimigo.

Espero que isso não seja um sinal. Preciso desesperadamente que Nicholas goste de mim.

Se havia uma coisa que Melchior sabia sobre Nicholas Hentz é que ele gostava de chamar atenção mais do que de foder garotas. E que outro melhor modo de chamar atenção do que ter seu lindo e louro rosto Hentz televisionado para todo o mundo? Só esperava que ele não fosse um horror atuando. Melchior era produtor executivo de Lympharia, mas ele só seria aceito se os diretores assim quisessem.

Não pudera realmente resistir à oferta de Dan e Louis Hampstead. Os dois eram irmãos e recém-contratados pela HBC, e tiveram uma conversa de seis horas com Melchior na posse do Primeiro Ministro em Sacramento, onde o convenceram de que fariam o possível para não destruir a obra de arte que era seus livros. Também prometeram um caminhão de dinheiro, foi isso que o derrubou de vez.

Devia ser por isso que Ethan comprara a HBC. Por isso e para destruir dois membros do Conselho da Alphonse Enoi. Já o fizera com Gloria Lamme, agora era só questão de tempo até, um a um, eles caírem.

Ethan vai ficar tão poderoso quanto eu, pensou enquanto armava o nó da gravata verde-escura de Marco. Ele parecia um plebeu na roupa de um príncipe. Melchior quase se apiedou.

Preparou um bule de café forte e o derramou numa xícara. Seus pais passaram da hora de acordar, como bem sabia que eles fariam. O que seria dessa casa sem o pobre Melchior? Um pensamento macabro, esse. O que seria do mundo sem Melchior?

Subiu ao quarto de Marco e arrancou sua mochila do poeirento armário, depois foi ao seu e procurou nas gavetas da escrivaninha um bloco de papeis com quase cem páginas, na verdade um roteiro. Quando tinha doze anos, Melchior escrevera um conto derivado da série Lympharia chamado Homesence e há poucas semanas, quando descobrira que a St. Nicholas tinha um teatro, o transformou em roteiro. Agora precisava apenas efetuar alguns movimentos antes de se declarar satisfeito com a escola.

Quando desceu novamente ao térreo, seus irmãos e primos estavam prontos. Entregou a mochila de metade e deu um beijo escondido nos lábios de Robb, que tentou puxá-lo para aprofundar-se, mas Melchior recusou. Sua mãe desceu as escadas poucos minutos depois. Any Chioren parecia sonolenta e certamente alvoroçada.

— Se recomponha — disse à mãe, entregando-lhe a xícara de café. — Leve os meninos para a escola. Está enjoada?

Any piscou os olhos lentamente, tentando focalizar a visão do filho. Possuía olhos e cabelos negros, assim como sua irmã e tia de Melchior, Mel, mãe de Robb e Grey… e a mãe de London, Brienne Weswalk, de quem Any não sabia que era irmã e provavelmente nunca saberia, porque Melchior não via London há meses. Any era pequena e magra, mesmo depois de oito gravidezes.

— Como sabe? — ela indagou, pegando a xícara.

— Eu sempre soube. Isso já aconteceu oito vezes, sete as quais eu estava presente.

Ela levou um tempo para entender o que ele havia dito, quase largando a xícara quando finalmente o fez.

— Os meninos vão se atrasar para a escola. Vou levar Marco à St. Nicholas, depois vou à Minerva de táxi — disse Melchior indolentemente. Na verdade, se não fosse por isso, Any não o deixaria ir sozinho por nada nesse mundo, por isso Melchior desativara os despertadores de seus pais de noite. — Acho que eu deveria comprar uma Mercedes, como Ethan fez. É difícil de acreditar, mas já tenho idade para dirigir, graças ao nosso Rei Senn.

Melchior deixou sua casa puxando o pulso de Marco a força, como sempre tinha que fazer.

Chegaram à Rua Saint Claire com lerdeza, pois o taxista tinha que buzinar de três em três segundos para estudantes uniformizados saírem do maldito caminho. Melchior sentiu-se tentado a oferecer-lhe uma bolada para que atropelasse acidentalmente quatro ou cinco, mas guardou o desejo para si mesmo. Marco ainda estava emburrado ao seu lado.

O pequeno portão cinzento da entrada da Escola St. Nicholas era ínfimo se comparado ao resto da escola. A St. Nicholas possuía um auditório grande o suficiente para acomodar seiscentas pessoas, um teatro com capacidade para mais de mil, uma igreja do tamanho de uma catedral, quatro prédios de seis andares repletos de salas de aula, oito quadras poliesportivas, um refeitório com capacidade para ser restaurante, dois enormes ginásios gêmeos e uma piscina paraolímpica. Aquele lugar majestoso e estranhamente silencioso fazia parecer porcaria o que ele tinha lá na Escola Minerva ou mesmo o que tivera na Academia Alphonse Enoi. Não era a toa que era a maior escola de Middleland. E também a mais cara.

Talvez se uma dessas freiras desistisse da santidade, poderia ganhar a vida como, sei lá, Secretária do Tesouro ou Primeira Ministra.

Havia fissuras em alguns dos prédios do lugar causados pelos tremores do terremoto de Middleland de 2013, mas estavam sendo consertadas. Aquela escola vivia fazendo reformas no que estava aparentemente perfeito, mas era menos elitista que a Academia.

O que fizera ano passado com Hellen Page, porém, parecia ser impossível de se fazer naquele ano naquela escola. Se Melchior achara Page dura, a Irmã Superiora Mary Sandy era dez vezes pior. A velha tinha setenta e poucos anos, mas era enérgica, dura como pedra, inflexível como ferro e insensível como uma autêntica psicopata, talvez até desumana e quase robótica. Sempre andava pelo piso de pedra quente do Pátio ou do pátio frontal, indo da diretoria à administração, ou mais ao norte, às Casas dos alunos, sempre com passos apressados nos sapatos pretos, com a saia escura esvoaçando por trás de si e uma pesada cruz de ouro pendendo do pescoço enrugado.

Se essa escola fosse um país, seria uma teocracia. E Mary Sandy seria a deusa suprema. Não havia realmente como ameaçar a mulher. Se Melchior descobrisse alguma irregularidade na St. Nicholas como descobrira na Alphonse Enoi e a ameaçasse, ela antes mandaria matá-lo do que se submeteria a ele. Tinha um sinistra certeza disso.

Nicholas Hentz estava no meio do pátio frontal, parecendo levemente desconcertado e usando cachecol vermelho. Melchior apertou o sobretudo.

Teve o maior susto que já tivera na vida quando ele virou a cara, mas escondeu-o bem. Onde estava a ironia, o mau-humor, o cinismo e o sarcasmo de Nicholas Hentz? O garoto que olhava tinha traços delicados, olhos bondosos, uma boca tímida, maçãs do rosto avermelhadas e uma longa e estúpida franja na testa, parecendo ter dez anos. Uma criança. Nicholas não era uma criança. Melchior teve a impressão de estar olhando para outra pessoa.

— Que está fazendo aqui? — Nicholas indagou com sincera curiosidade, sem o habitual mau-humor. Melchior sorriu e lhe concedeu um tom de voz apropriado.

— Meu irmão Marco me fez o favor de ser expulso da Escola Minerva após ter brigado com cinco garotos diferentes num único mês. — Marco escapou-lhe nesse exato momento, atravessando a tenda de pedra ente a diretoria e a administração. Melchior o soltara de propósito; não queria que ele ouvisse a conversa.

Nicholas olhava para os prédios da frente, altos e frios.

Medo, identificou imediatamente.

— Está tudo bem? — indagou.

— Sim — ele disse rápido. Rápido demais. — Não vai perguntar por que estou aqui?

Deu de ombros. Estava ficando desconfortável ali. Aquele não era Nicholas, era um desconhecido e Melchior não sabia como lidar com ele.

— Acho melhor não. Preciso falar com seu irmão, onde ele está?

— Procurando o número da minha sala na administração.

— Obrigado. Sabia que metade dessa escola também é um internato? Fica além daquela cerca ali. Pedi aos meus pais para colocaram Marco aqui permanentemente, mas eles declinaram. Meu irmãozinho tem andado insuportável ultimamente. Eu ultimamente andei pensando naquela vez em que você tentou se matar e pegou uma infecção num hospital público. E Nicholas, você já pensou em fazer teatro?

Afastou-se depois disso, desejando que ele não estivesse de todo estúpido.

O prédio da administração estava um pequeno inferno, cheio de pais e alunos que queriam saber suas Casas, sem saber que o maldito cachecol explicava tudo. Ethan estava esperando pacientemente numa fila, mas surpreendeu-se ao ver Melchior ali. Puxou-o para um canto.

— O que foi que você fez com Nicholas Hentz? — indagou severamente. Fitava seus olhos negros como um mar de petróleo, tão escuros que você poderia se afogar neles. Sentiu uma leve vertigem, compreendendo que de algum modo estava sendo hipnotizado.

— O que precisei fazer — ele sussurrou de volta. — Nicholas é uma criança feliz novamente, como nunca deveria ter deixado de ser. Você sabia que ele não teve culpa alguma na morte de Oliver? Os skinheads sabiam onde eu e ele estávamos sem que ele precisasse dizer.

Uma aura de apreensão o cobriu nesse momento, mas não se atreveu a demonstrar. Não se podia ter medo para lidar com um Hentz, mesmo que aparentasse ser Lemnsack.

Mas… afinal. Eu também sou um Hentz.

— Ele me disse…

— Sei o que ele te disse, mas ele não sabe.

Seu olhar devia ser de total horror agora, pois Ethan sorriu.

— O que você fez com ele?

— Já disse. O que precisei fazer. Ele está feliz, não está? Deixe-o ser, Melchior. Não volte a tocar nesse assunto de novo, nem procure se aprofundar nele. Estou te avisando. O que você veio falar comigo? Tenho certeza que não foi sobre isso.

Recompondo-se, ajeitando o sobretudo nos ombros e ignorando os sussurros das pessoas do prédio, voltou a sorrir.

— Você é dono da HBC, deve saber que eles estão recrutando um elenco para a primeira temporada de Lympharia.

— Sei. Também sei que você ganhou vinte e cinco milhões de dólares por ela.

— Isso mesmo. Não sei se você já teve tempo de ler minha série, mas o personagem principal do primeiro livro se chama Incuus, ele é um ulthosi nefariano de cabelos brancos e olhos pretos de mais ou menos dois mil e seiscentos anos de idade, mas tem a aparência de um rapaz de quinze, e é líder da tribo de Novgorod, que vive numa pequena ilha da Península de Nerzord, pertencente a um país devastado pela guerra chamado Ulthos, que fica num planeta chamado Lympharia, e frequentemente entra em conflitos com as tribos de Oblast e Veliky, desta mesma península, mas ilhas diferentes. Está me acompanhando?

— Eu nunca lerei seus livros.

— Ulthos tem mais de novecentas ilhas, onde em cada uma vive uma tribo diferente, às vezes duas, e, acredite, eu decorei o nome de todas. Eu quero que Nicholas faça o papel de Incuus, que é um garoto amargo, insuportavelmente frio, emocionalmente estéril e permanentemente insensível. Acho que é perfeito pra ele. Ou era. — A última palavra tinha um certo tom acusativo.

— É para isso que você usa esse seu QI de 162? E quem é Incuus mesmo?

— Quero que converse com ele e ofereça-lhe o papel. Farei o possível para que ele seja aceito. Pense bem, Lympharia tem um orçamento de dez milhões de dólares por episódio. É uma superprodução. Vai estrear no mundo todo. Nicholas é a pessoa mais narcisista que eu conheço além de mim. Acho que será bom para ele.

— Vou pensar nisso.

— Eu esperava que ele pensasse nisso. Não restrinja a felicidade de Nicholas. A HBC tentou restringir a minha quando eles quiseram um maior de idade para o papel de Incuus e eu tive que fazer estardalhaço. No mais, meu irmão Marco está estudando aqui.

Viu-o ter um calafrio. Sorrindo, sussurrou:

— Ele está mais perigoso agora do que estava ano passado. E você sabia que Ottis Olrwen se enforcou dentro de casa no ano-novo? Agora, apenas eu, você, Nicholas, Lorenzo e Olívia Ovense temos o sangue de Ondromeda Olrwen; a família original e o sobrenome Olrwen estão extintos. Triste, não é? Até mais.

Deixou a administração com um grande alívio no peito. Aquela fase estava terminada. E o ar estava gelado. Apertou ainda mais o sobretudo e seguiu suavemente ao Pátio até adentrar no gigantesco prédio que era o teatro, atento aos olhares hostis das freiras mais velhas que passavam esvoaçantes por si. Sentiu-se bem.

O espaço para a plateia tinha vários níveis de assentos de couro vermelho que subiam vertiginosamente numa antro de carmesim e dourado. Havia ainda um primeiro andar e várias daquelas cabines douradas que serviam de camarote. O palco, imenso, coberto por cortinas vermelho-sangue com um impecável piso de madeira erguia-se majestoso como uma pintura medieval.

Melchior atravessou as cortinas, dando-se nos bastidores do teatro. Era um espaço alto e melancólico, sem um raio de luz natural. Os camarins eram pequenos demais e apertados também, nem perto do esplendor que eram os da HBC.

Encontrou quem procurava fumando um cigarro altamente suspeito. Melchior sabia que a Escola St. Nicholas contratara um jovem diretor de TV que fora demitido pela HBC por aceitar tipos de suborno que nem mesmo uma produtora como aquela aceitaria. Depois disso, ficou sendo de conhecimento público que Eli Royce não era realmente interessado nos encantos íntimos femininos, mas sim nos dos doces e jovens rapazes. Na verdade, quanto mais jovens, melhor. O único motivo pela qual a St. Nicholas o contratara era porque o homem era simplesmente um gênio.

Ele cuspiu o cigarro no chão quando o viu se aproximando, e Melchior tinha uma estranha certeza de que quase enfartara também. Não podia culpá-lo.

— Que está fazendo aqui? — ele indagou exasperado, chutando a maconha para longe. Era muito alto, magro e ligeiramente afetado, além de possuir um cabelo escuro tão fino que Melchior quase podia ver seu couro cabeludo. — Alunos não podem entrar.

— Então estamos com sorte, eu não sou um aluno — respondeu travessamente. — Bom dia, Sr. Royce. Meu nome é Melchior, já deve ter ouvido falar de mim. Meus olhos são difíceis de se esquecer. Soube que pretende dirigir as peças da St. Nicholas desse ano, não é verdade? Claro que é. — Deu uma risadinha, abrindo a própria mochila e tirando o roteiro que escrevera. — Também tenho certeza de que já ouviu falar de Homesence.

Atirou o roteiro no colo do homem, que se contorceu estranhamente, como se aquilo fosse abrir a boca e devorá-lo a qualquer momento.

— Encenar isso é… impossível — ele disse após arrumar coragem suficiente para folhear o script. — Há várias cenas de beijo. E, se não percebeu, essa é uma escola só para garotos. E católica.

— Que importa? — sussurrou, fazendo-o se arrepiar. Melchior se aproximou com uma lentidão miserável, lambendo os lábios de forma sugestiva. — Aposto que consegue convencer a Irmã Mary Sandy. Ela estava louca para pôr as garras em você antes que a diretora da St. Marie o fizesse. — Quando se ajoelhou em frente a Eli Royce, ele se encolheu. — Todos nós temos os nossos pontos fracos, e eu sei o seu. Gosta de garotinhos, não gosta? Eu sei que sim, eu sou um. É só gemer baixo.

Enfiou a mão dentro de sua calça, segurando o membro já semiereto por entre os dedos finos. Royce se resetou quando Melchior começou a estimulá-lo, e deixou um leve gemido escapar-lhe pelos lábios. Era tão fácil quanto com uma criança. Literalmente. As noites que dormiu com Marco o ensinaram isso.

D forma autônoma, Melchior levou a glande à boca e depois o resto. Estava sentindo um prazer animalesco, mas não pela felação em si, e sim pelo poder que estava exercendo sobre Eli Royce. Ele se retorcia e contorcia em sua boca, puxando seu cabelo com fraqueza e gemendo incompreensivelmente, e assim Melchior continuou, parando pouco antes que Royce ejaculasse. Sem pressa alguma, consciente do olhar dele em si, lambeu o gozo dos dedos, levantando-se depois.

Royce estava jogado na cadeira, suado e extasiado, tão fraco quanto um velho senil. Parado em frente a ele, Melchior se senti um gigante.

— Encene essa peça — falou em tom duro —, e quero que Nicholas Hentz faça o Gwarren. Não importa o quão mal ele atue ou quão bem os outros atuem, aceite-o. Elogie-o também. — Então se aproximou e sussurrou com uma doçura venenosa: — Não iria querer que as pessoas soubessem que você molestou um jovem garoto de doze anos.

Melchior tinha dezesseis anos, mas facilmente se passaria por doze.

— Tenha um bom dia, Sr. Royce — sussurrou, deixando-o ali.

O Pátio ainda estava gelado quando o atravessou novamente. Um grupo de garotos veio lhe pedir um autógrafo, Melchior sorriu e assinou seu pseudônimo três vezes com uma letra caprichosamente impossível de ler. Atravessou a tenda de pedra e depois o pátio frontal, deixando a Escola St. Nicholas pelo sinistro portão cinzento.

Nicholas Hentz deve ser a única pessoa dessa escola que chega de Mercedes e vai embora de limusine, pensou, chamando um táxi. Eu deveria comprar uma, mas Marco roubaria as chaves e a partiria ao meio na primeira árvore.

Quando o carro amarelo parou na calçada a sua frente, disse ao motorista:

— Estúdios HBC.

Não tinha intenção alguma de perder tempo na escola, e sabia que sua mãe não teria como descobrir. Os irmãos o encobririam, Marco não estava por perto para atrapalhar e Robb faria os primos ficarem de boca fechada também. Na verdade, Robb faria tudo que Melchior pedisse enquanto sua boca estivesse disponível para ele sempre que quisesse. E a verdade é que estava.

Perguntava-se como seria dali a oito meses ou menos. Talvez seus pais houvessem achado que, após a morte de Lance e Julie, seus outros sete filhos e quatro sobrinhos eram demasiados silenciosos para a casa Chioren & Thanathos.

Bem, fazer o quê? Alguém tem que controlar a natalidade do país.

Perguntava-se também se Ethan já havia alguma vez visitado os Estúdios HBC. Era um complexo gigantesco, com mais de dez mil metros quadrados e centenas de prédios diferentes que iam desde a estúdios de programação a de filmagem. Havia milhares de cenários diferentes em cada um, desde selvas amazônicas a planícies glaciais; telas verdes, ventiladores gigantes e máquinas de água. Os estúdios ainda produziam sua própria energia com aerogeradores. Eram como uma cidade dentro de outra cidade.

Todas essas pessoas, pensou Melchior enquanto pressionava o polegar contra o scanner ainda na porta de entrada. Atores, atrizes, diretores, roteiristas, produtores, executivos. Mais de mil. Todas empregadas de Ethan Lemnsack, que lentamente constrói os alicerces do que poderá ser um conglomerado mundial da mídia.

Ethan era a milésima ducentésima quinquagésima pessoa mais rica do mundo, de acordo com a Forbes, mas fora apadrinhado pela primeira pessoa mais rica do mundo, Cornelius Goldenschild. Nascera sem dinheiro próprio, fama, ou poder… e já conseguira as três coisas. O que vinha depois?

O mundo.

Quando autorizaram sua entrada, deslizou viscosamente por entre largos corredores onde pessoas apressadas andavam para lá e para cá, mal prestando atenção nele. Melchior não estava acostumado àquilo da primeira vez que fora ali, mas estivera tão extasiado com aquele lugar que mal notara.

Os dois diretores de Lympharia eram Dan e Louis Hampstead, mas apenas Louis estava dentro do set número 32, onde equipes de produção haviam montado quase metade do cenário onde parte da história iria acontecer: os salões de pedra de um castelo medieval. As cenas com florestas seriam gravadas na floresta de Middleland. Haviam conseguido autorização da Prefeitura para aquilo.

— Acho que encontrei nosso Incuus — disse a ele. Assim como seu irmão, Louis era loiro e tinha simpáticos olhos cinza incrustados num rosto macilento. Ele era gêmeo de Dan, mas usava barba para que pudesse ser diferenciado, e esta agora apresentava-se em hirsutos pelos loiros e curtos. — Nicholas Hentz.

— Nicholas Hentz? — repetiu Louis franzindo as sobrancelhas.

— O irmão do patrão — confirmou alegremente. — Isso vai ser ótimo, ele pode pedir a Ethan que aumente o orçamento dos episódios. Só precisa ser aceito.

— Se ele for talentoso o suficiente, ele pode ser aceito. A propósito, foi decidido que você escreverá o penúltimo episódio da temporada.

— Logo aquele em que Incuus morre? Ah, tudo bem. Poderá ser interessante, afinal, é essa a cena que os fãs mais esperam. Quero-os chorando de emoção, Louis. Quero-os mandando cartas de ódio à HBC. Quero ser ameaçado na rua e agredido fisicamente por causa disso. Quero que fique ótimo. Não, perfeito. A propósito, faça-me o favor de mandar a coleção inteira de Lympharia ao Palácio Real Hentz, em Higociety. — Higociety era o nome do bairro onde ficavam os maiores prédios de Middleland, inclusive o arranha-céus, e fazia quase fronteira com Wintorland.

Passou o resto da manhã ouvindo mais de cinco mil adolescentes que se achavam bonitinhos recitarem os mesmos versos duas ou três vezes, para serem despachados logo depois. Os que eram muito bons não tinham o aspecto físico necessário, e os que tinham eram terríveis.

— Meu Deus, você não está recitando Batatinha quando nasce, está em meio a uma guerra, gritando para seu companheiro de batalha se abaixar, ou ele morrerá! — Melchior gritou uma certa vez, perdendo a paciência com um garoto tão apático que mal vira seus lábios se mexerem.

Ele saiu dali chorando, e isso levantou seu ânimo pelas horas seguintes, mas havia outros piores, com cortes piores ainda.

— Você é um cavaleiro ou um garoto? Ah, é um cavaleiro? Então fora, esse papel é de um garoto.

— Deus, não quero nem imaginar como você seria cavalgando um cavalo. Terrivelmente bom, provavelmente. Uma pena que esse personagem cavalga mal.

— Segure essa lança direito. Não, não direito assim. Você é um príncipe mimado que nunca tocou numa lança na vida, segure isso errado.

— Você é muito baixo, se fica na ponta dos pés deve ter vertigem.

— Quatro bilhões de anos de evolução para termos catorze ossos faciais e você não sabe usar nenhum deles.

— Consigo perceber que seu cabelo é pintado daqui. Loirinho, fora.

— Lentes azuis? Acha mesmo que conseguiria encobrir a cor verdadeira dos seus olhos com lentes azuis?

Quando encontrava uma atuação boa o suficiente, perguntava-lhe por que ele achava que deveria ganhar o papel. Era uma coisa totalmente infundada e inútil, mas que deixava-o nervoso o suficiente para divertir Melchior um pouco mais.

No final da manhã, tinha pouco mais de cem garotos de cabelos escuros e olhos claros, não muito magros, nem muito musculosos, entre catorze e dezessete anos, escolhidos para um único papel. Agora os contataria um por um e os chamaria à HBC, os inspecionaria meticulosamente de cima a baixo até que passasse pente fino na massa e sobrasse apenas um ganhador. Ocorreu-lhe de repente que Robb cairia perfeitamente bem no papel. Não era a toa.

Eu criei o Príncipe Seraphin me baseando nele. Tolo, estúpido e bonito.

Saiu dos Estúdios HBC já no final da tarde, indo parar em casa com uma terrível dor de cabeça que só piorou quando teve de ouvir o sermão de sua mãe. Desde Julie, ela tinha ficado insuportavelmente preocupada com a localização de sua numerosa família, e ainda queria expelir mais um Chioren por entre suas pernas esguias. Melchior não entendia seus pais.

Foi terminar a noite ao lado de Robb, na cama dele. O quarto estava vazio, e apenas seus gemidos baixos podiam ser ouvidos. Quando terminaram, virou-se e suspirou de cansaço.

— Eu tive que ir aos Estúdios para fazer a audição de alguns atores. — Cinco mil, para ser exato. — A maioria foi um lixo, mas encontrei alguns bons. Você alguma vez já leu meus livros?

— Li o primeiro, mas parei na metade. Ele é muito grande — Robb falou. Ouvir aquilo normalmente era algo que tirava Melchior do sério, mas se controlou.

— Me pergunto se algum daqueles bonitinhos sabem que o Príncipe Seraphin faz sexo com Incuus. No livro, isso não é nada, já que Incuus não é humano, nem tem sexo. Mas na série, com Nicholas Hentz no papel…

— Nicholas Hentz?

— É. Nosso último leão dourado. Ganhará um salário de duzentos e cinquenta mil dólares para mostrar seu dourado corpo nu na TV mundial, e já que o irmão dele é o dono da emissora… — Deu uma alegre gargalhadinha. — A maior mesada da história da humanidade.

— Por que o quer para o papel?

— Não é óbvio? — Não deveria falar aquilo a ninguém, mas Robb era tão estúpido quanto uma porta e inocente como um coelho. — Não existe ninguém mais narcisista que Nicholas Hentz. Ele pode aceitar o papel com hesitação, mas quando estiver debaixo da luz dos holofotes, quando estiver andando por tapetes vermelhos, quando milhares de câmeras estiverem fotografando seu lindo rosto para todo o mundo, ele vai se viciar nisso. Os aplausos, as filmagens, a dificuldade de decorar as falas, a ação em si, o sexo e as intrigas que rodeiam o mundo de Lympharia, ele se tornará parte disso. Por isso mandei meus livros a ele. Eu criei uma história que te transporta para outro mundo, e quando Nicholas for literalmente transportado para o outro mundo, não vai deixar de querer. A fama e o dinheiro serão demais para ele.

Melchior riu de novo, beijando os lábios de seu primo enquanto seus dedos procuravam seu membro por baixo do lençol.

— E quando Incuus morrer e o contrato de Nicholas acabar… ele vai querer mais. Quererá sair dessa cidadezinha medíocre para ir para Hollywood e abandonar a escola. Ethan não vai deixar, eles vão brigar, e vão se separar, como várias vezes já fizeram. Nicholas deixará a HBC. E com a fama ele já alcançou, ele será contratado pelas emissoras rivais, ficará contra Ethan em praticamente todos os seus negócios, já que ele é um maldito cabeça dura e fará a mesma coisa que ele fez. Com dezesseis anos, que ele completa no meio do ano, terá autonomia suficiente para viver com seu dinheiro Hentz. Será o fim de Ethan e Nicholas. E finalmente poderei controlar Ethan Lemnsack com meu rostinho lindo.

Os olhos de Robb estavam arregalados de horror.

— Você destruiria a relação deles só por poder? Vai mesmo fazer isso?

— Eu sou o mestre dos segredos, o imperador dos sussurros, o senhor do mundo, o semeador da discórdia. Eu destruiria toda a humanidade por poder — disse seriamente. Depois, começou a rir baixinho, e logo estava gargalhando histericamente. — Ah, Robb, eu não vou fazer isso. Isto é, não depois de hoje. Nick Hentz está mudado. Adorável como um filhote de leão. Se Ethan proibi-lo de ir para Hollywood, ele aceitará resignado. Não sei o que aconteceu com ele, mas pôs todo meu plano abaixo, bem como aquele prédio da Rua Primeira, Edifício Grandes Expectativas. Não sei por que ele foi o único prédio de Middleland que caiu, mas o irmão do namorado do Ethan estava nele. A relação entre ele e Gabriel Melnick está pior do que nunca. As constantes traições de Ethan não abalam isso, porém. São só sexo. Ethan precisa de algo mais. Algo novo, bonito, adorável, obediente, que fique bem numa roupa formal para aquecer aquele velho coração de leão.

Robb estava com o rosto paralisado. Melchior mordeu seu lábio inferior, sussurrando-lhe tão baixo que ele mal pode ouvir:

— Ele precisa de alguém como… você. Robb, sabia que a Anhert Corporation está contratando estagiários?

Notas finais
Melchior é um produtor executivo cruel. :3 Aliás, ele está mais cruel e calculista agora do que antes. A gente aprende com os erros.
Also, deixem reviews. :33