Como Vivem Os Anjos

2 Quanto Mais Alto, Maior A Queda


Notas iniciais
Eu li esse capítulo umas 20 vezes antes de postar, então espero que esteja bom. :3

Ethan Lemnsack acordou na manhã seguinte com o cheiro dos cabelos dele em seu nariz. Os fios roçavam o peito nu adoravelmente, e embora seu rosto estivesse invisível, sabia que ele parecia um anjo.

Não vestiam nada por baixo dos lençóis brancos. Sentia-se livre. Agora que pensava, aqueles lençóis eram dos bons, muito bons. Seda egípcia. Extremamente macios e nunca manchavam, do tipo que vemos forrar camas de suítes presidenciais de hotéis cinco estrelas em diferentes cores. Apesar de nunca se deixar levar pelo lado extravagante que sentia estar intrínseco a ele, Ethan sempre pudera comprar do melhor quando queria. Assim como a televisão e os sofás da sala, as obras de arte que a decoravam, a elegante mesa da sala de jantar, os travesseiros de penas de pavão e aqueles lençóis brancos.

Mas seu maior bem não era algo que pudesse ser comprado com nenhum cartão de crédito platina, não, senhor. Seu maior bem se remexia agora grudado a seu corpo, adormecido e angelical. Seu maior bem tinha os cabelos dourados e a pele macia como aqueles lençóis egípcios. Quase não parecia que haviam cometido um pecado terrível na noite passada. Três vezes. Que Deus os perdoasse.

Sentiu um grande ímpeto de virá-lo e fitar seu rosto mais uma vez, apenas pelo prazer da coisa, como volta e meia costumava fazer sem que ele percebesse, mas poderia acordá-lo. O dilema não foi muito adiante. O telefone tocou e Ethan se apressou a pegá-lo antes que acordasse o anjo.

— Ethan Lemnsack. — disse sonolentamente. — Quem fala?

Bom dia, Sr. Lemnsack — disse uma voz idosa. — Perdão por acordá-lo a essa hora. É John Fauntleroy.

Ethan percebeu quem era antes que ele dissesse o nome porque John Fauntleroy era a única pessoa do mundo que o chamava de Sr. Lemnsack. Para ser sincero, gostava disso.

— Bom dia, John. Em que posso ser útil?

Eu gostaria de marcar uma reunião, pois preciso falar com o senhor sobre a questão da herança e do testamento. Entre tantos problemas que teve após a morte de seus pais, não houve tempo para que eu lhe contasse sobre isso.

O fato de que o próprio Fauntleroy lhe ligava para marcar a reunião, e não sua secretária, era bastante agradável. Ethan já vira os pais tendo reuniões com ele em seus escritórios no centro da cidade, mas nunca se dirigira ao homem antes de se tornar órfão e se casar e divorciar de Amy.

— Está bem. Que tal em meia hora?

Ele aceitou e desligou o telefone. Era meio-dia, como mostrava o relógio. Desde quando Ethan dormia até o meio-dia? Bem, ninguém podia culpá-lo se havia ficado até as quatro horas da manhã gemendo com o irmão após o jantar de comemoração.

Não valia a pena pedir que Nick lavasse a louça. Ethan se desvencilhou do corpo nu que achava delicioso, cobriu-o com os lençóis e escreveu um bilhete dizendo que fora ver o advogado. Depois mais outro dizendo que voltava tão cedo quanto possível. Então um terceiro avisando que havia restos do almoço na geladeira. Um quarto proibindo-o de sair de casa também, só para garantir. E um quinto dizendo que o amava.

Nunca era demais dizer a Nicholas Hentz que o amava.

Minutos depois, estava num táxi rumando ao bairro Higociety, onde ficava o escritório de advocacia Fauntleroy, Mayfair & Stonem. Ethan observava a bela cidade passar em alta velocidade do lado de fora do carro enquanto pegava a avenida principal e enfrentava o engarrafamento habitual. Aquela era outra coisa que sempre pudera fazer sem se preocupar com o dinheiro. Pegar táxis. Ele nem sabia se sabia pegar ônibus.

Passou por um lindo prédio comercial cinzento de sete ou oito andares, ele não se lembrava. Tinha infinitas janelas azuis de vidro que refletiam o trânsito caótico. O estacionamento era bastante largo, com gramados verdes cheios de arbustos para compensar. Estava completamente vazio. Os portões, fechados. Se se aproximasse do prédio, veria o nome dos donos. Lemnsack Hentz World Donations.

E pensar que no Dia de Ação de Graças eu entrei nesse prédio com Nicholas para ver meus pais, pensou aborrecido. Eles tinham acabado de voltar da Austrália e ao invés de passarem em casa, primeiro passaram no escritório. Ethan ficara tão irritado que fora vê-los mesmo assim, coisa que sabia que os incomodaria. Mas foi só por alguns minutos. Depois os quatro deixaram o prédio e foram fazer compras para o jantar da noite. Oh, aquela era outra coisa que indicava quanto dinheiro tinham. Nem mesmo mencionaram a Black Friday.

Mas afinal, quanto dinheiro tinham? Impossível estimar, no momento. Mas tiveram tempo de conseguir bastante, isso era certo. A linhagem da família de onde a mãe de Ethan e Nicholas vinha podia ser traçada até a década de 60 do século XIX, em Nova Orleans, a cidade vampiresca dos Estado Unidos. É claro que eles eram franceses.

Charles Henry Lemnsack conhecera Mary Alice Hentz em janeiro de 1993, pouco tempo após entrar no curso de Direito da Universidade de Harvard. Mary Alice cursava a John F. Kennedy School of Government, assim como o pai e o avô cursaram, exatamente na mesma época. Tinham dezenove anos de idade, os dois. Eram pessoas geniais. Formaram-se Summa Cum Laude. Mary Alice poderia facilmente ter governado um país inteiro, mas ela tinha outros planos. Tinha o posto de herdeira da família Hentz. E Charles poderia ter se tornado um senador, mas este também tinha outros planos.

Ethan nasceu dois anos depois, enquanto os dois ainda estavam na universidade. Esses anos sempre foram obscuros, uma vez que não havia nenhuma recordação gravada. Fotos e vídeos de bebê simplesmente não existiam. Talvez os pais não quisessem que suas imagens universitárias de vinte e um anos de idade com um bebê para criar e um curso para terminar fossem lembradas para a eternidade. Seriam pessoas públicas e sempre souberam disso. Irritante. Compreensível, mas irritante.

Eles se casaram no ano em que se formaram, 1997. Um ano depois, Nicholas veio ao mundo de cabeça loura e bochechas rosadas. A essa altura, já haviam se mudado para a cidade de Middleland e firmado suas carreiras. Seu pai fundara uma firma de advocacia com John Fauntleroy, que acontecia de ter sido um de seus professores em Harvard. A Lemnsack & Fauntleroy logo se tornou próspera e em menos de meia década já era uma das firmas mais conhecidas e prestigiadas do país, famosa por acolher jovens inexperientes querendo começar a carreira e devolver para o mundo advogados competentes e agressivos. Pelo menos dois senadores conhecidos já haviam passado por aquela firma e um outro político que quase foi primeiro-ministro.

Já Mary Alice era herdeira de um poderoso conglomerado chamado Kruger-Vorheel Company. Fundada por seu bisavô, ou trisavô de Ethan, o lendário John Francis Hentz, a Kruger-Vorheel estava envolvida num gama de negócios, desde mineração de diamantes na África e companhias farmacêuticas a frotas de navios cargueiros e indústrias petroleiras. Em 1997, quando Mary Alice aceitou um cargo no alto conselho da empresa da família, o atual presidente, diretor-geral e CEO era seu pai, Samuel Hentz. Conhecido por ter dissolvido o conselho de diretores durante sua presidência, tomou controle total e absoluto da empresa, numa das ações mais criticadas e megalomaníacas do mundo dos negócios.

Mas isso realmente não vinha ao caso porque desde que assumira a presidência da Kruger-Vorheel em 1979 e articulara o golpe para tomar seu poder supremo, Samuel fez a empresa atingir a hegemonia mundial na maioria dos negócios nos quais estava envolvida. Arrebanhava centenas de bilhões de dólares por ano, sempre injetando-os em seus gordurosos cofres, reinvestindo na própria companhia, devorando pequenas, médias e grandes empresas e enriquecendo a família Hentz.

É, o avô de Ethan foi um homem e tanto. Seu nome do meio era Nicholas. Morreu em junho do ano 2000, de ataque cardíaco.

Isso fez o mundo dos negócios prender a respiração, uma vez que todos esperavam para ver o que a filha de vinte e sete anos de Samuel Hentz faria ao assumir o controle absoluto de um dos maiores e mais influentes impérios do planeta. Foi um momento de pura intriga e conspiração nos bastidores das grandes corporações e nos governos capitalistas secretamente gerido por estas mesmas corporações.

Poucos dias depois, Mary Alice declarou numa coletiva de imprensa que desmantelaria a bilionária empresa e jogaria todas as suas ações na Bolsa de Valores. O mundo dos negócios soltou a respiração para descobrir que havia pego uma pneumonia.

Ajeitando-se no assento do táxi, Ethan sorriu internamente. Haviam chegado a Higociety, como percebeu ao ver os subúrbios serem substituídos por arranha-céus de cinquenta andares. A cidade tinha muitos daqueles elefantes brancos. A maioria nem sequer era usada. Algum dia, o mercado imobiliário explodiria.

Lembrava-se de uma vez ter perguntado à mãe por que ela desmantelou uma empresa fundada em 1887, quando o jovem John Francis tinha apenas vinte anos de idade.

— A Kruger-Vorheel Company foi um vício, Ethan — ela respondeu com firmeza. Sempre conversavam sobre aquele tipo de coisa, negócios, ações, economia e geopolítica, enquanto Nicholas conversava com o pai sobre esportes e coisas do gênero que simplesmente não despertavam o interesse de Ethan. — Quando você tem, quer mais. Eu vi seu avô ser consumido vivo por essa empresa. Ele dedicou quase cinquenta anos de vida para fazê-la crescer até se tornar um monstro que o devorou em retorno. Ele queria dominar o mundo e a Kruger-Vorheel era seu meio de conquistá-lo. Estava tão morto no enterro dele quanto quando fez aquela loucura de dissolver o conselho.

— Mas você não precisava ter seguido os passos dele — Ethan retorquiu. A mãe simplesmente sorriu, como quem sabe mais.

— Eu não precisava. Não necessariamente conseguiria. A Kruger-Vorheel e a família Hentz sempre estiveram ligadas pelo cordão umbilical. Quando a empresa não te consome, a família faz isso. Está no nosso sangue. Está no meu. E está no seu. Tenho certeza disso.

Mas e quanto à fabulosa fortuna que ela ganhou vendendo a empresa? A que, por algumas semanas, a tornou a mulher mais rica do mundo? Mary Alice passou o resto da vida doando-a à caridade.

Em 2001, junto com Charles, Mary Alice fundou uma organização não governamental para administrar seus negócios altruístas chamada Lemnsack Hentz World Donations. Provavelmente poucos sabiam, mas ausentou-se do trabalho apenas duas vezes: quando teve seu primeiro filho, Ethan Lemnsack, e quando teve o segundo, Nicholas Hentz.

Essa era uma coisa que atiçava tanto a curiosidade quanto a irritação de Ethan. A mãe vendeu a empresa da família para não acabar sucumbindo ao vício por trabalho do pai, mas ao criar a ONG acabou sucumbindo ao vício por trabalho do pai. Era ironicamente triste. Samuel, um bilionário sem amor que contaminou sua filha mesmo após a morte. Como será que ela se sentia sobre isso? Nunca lhe indagara. Estivera ocupado demais cuidando de seu filho mais novo.

Eu deveria ter colocado os dois contra a parede e exigido uma retratação, pensou dentro do táxi. Péssima ideia. A mãe era uma mulher poderosa demais para se deixar intimidar por um adolescente.

Em 2003, Charles cedeu a sociedade da Lemnsack & Fauntleroy e juntou-se à esposa para trabalhar integralmente na Lemnsack Hentz World Donations, que apesar disso nunca chegou a levar seu nome. Alguns diziam que foi ousadia, prepotência e arrogância de Mary Alice. Nunca estiveram tão certos. Foi mesmo.

Nunca pensei desse modo dos meus pais antes. Por que agora?

Talvez porque os dois estivessem mortos. É mais fácil ver alguém por uma segunda ótica quando essa pessoa não está mais viva para fazer sua opinião mudar com palavras cheias de charme e carisma. Como Ethan já pensara, a mãe poderia ter comandado um país. Poderia ter se tornado Ministra do Tesouro ou algo assim, se quisesse. A família Hentz tinha mérito o suficiente para tal se Samuel não tivesse forçado a filha a entrar na Kruger-Vorheel antes.

E afinal, será que seus ossos se reviraram no túmulo quando ela a vendeu? Talvez não. O corpo mal tivera tempo de esfriar.

Tudo o que Ethan sabia era que dois dias após o acidente de avião o primeiro-ministro em pessoa lhe ligara para dar seus pêsames. Mas não foi surpresa nenhuma. Ele fez isso com as famílias de todos os quinhentos passageiros daquele avião, incluindo os Winthrop. Até apareceu na TV com um telefone na mão. Políticos.

Mary Alice Hentz e Charles Lemnsack tornaram-se rapidamente um dos casais mais comentados e fotografados do mundo. A história de uma linda herdeira corporativista exploratória e de um advogado defensor de grandes corporações de boa aparência que se tornaram grandes filantropos era deliciosa demais para que a mídia não os tornasse algo menor que celebridades.

Eis algo realmente bom que sua negligência deu aos filhos: o anonimato completo e absoluto. A mídia jamais conheceu os dois filhos do casal Lemnsack Hentz. Seus nomes e fotografias nunca foram divulgados. O lugar onde moravam e estudavam era desconhecido. Sabia-se que o casal residia numa cidade de um milhão e meio de habitantes chamada Middleland, visto que a sede da Lemnsack Hentz World Donations ficava lá. Mas era só isso. Ethan e Nicholas eram incógnitas ao mundo.

E, se Deus quiser, vai continuar assim.

Que calor. Ethan sentiu vontade de pedir ao taxista que levantasse os vidros e ligasse o ar, mas era tímido demais. Nick não era. Ele o pediria para levantar os vidros com a facilidade de falar que Ethan nunca teve.

O que estava pensando mesmo? Ah, sim. Eles continuariam sendo incógnitas. Mas os pais nunca deixaram a mídia babando por essas informações. Os dois estavam ocupados demais viajando o mundo inteiro e fundando hospitais em países empobrecidos, distribuindo alimentos em aldeias da África arrasadas por pestes, financiando estudos para erradicação de doenças ou criando filiais em capitais como Nova York, Londres, Roma, Paris, Viena, Amsterdã e Berlim.

E foi por esse motivo que morreram. Após o Dia de Ação de Graças de 2011 viajaram à Bucareste, capital da Romênia, para abrirem outra filial da ONG, permanecendo no país por dois meses inteiros antes de decidirem voltar à Middleland. Ao tomarem o avião de volta, fizeram uma escala em Munique, Alemanha, onde embarcaram no voo 148 da empresa Air-Brent Company à meia-noite, juntos com outros quinhentos passageiros. Deveriam fazer mais uma escala em Nova York antes de finalmente virem direto para casa. Mas isso nunca aconteceu.

Sabia-se que o avião perdeu contato com a torre de controle cerca de quatro horas após decolar, isso no meio do Oceano Atlântico. O que era implícito, embora as autoridades competentes não tivessem se atrevido a contar às famílias, era que ninguém fazia a mínima ideia do que acontecera ao avião. Nas primeiras horas, esperava-se que miraculosamente houvesse tomado um desvio e tivesse pousado em segurança em algum país obscuro, mas agora era óbvio que isso não acontecera. O avião afundara nas águas geladas do Atlântico e ficaria lá para toda a eternidade. Ninguém sabia por que ele parara de voar.

Era só isso. Nenhuma imagem do avião, nenhuma recuperação de destroços. Os corpos jamais seriam capturados e reenviados às famílias para que fossem enterrados porque eles já estavam sepultados numa imensidão azul e glacial. Seus pertences simplesmente evaporaram. Nada nunca seria devolvido. Mas isso não importava. Não importava mais.

John Geldrich Fauntleroy era um homem baixo e gordo, com o rosto envelhecido como uma uva passa e sem um fio de cabelo no topo da cabeça, apesar de ter uma coroa de fartos cabelos brancos circundando-a. Como se não bastasse, possuía uma longa barba branca e usava óculos dourados de meia-lua que viviam caindo por seu nariz aquilino e pontudo. Ethan pensou que ele, no mínimo, se parecia com Papai Noel.

Seu escritório era mediano e cavernoso, com janelas fechadas escurecidas e estantes ocupadas por grossos livros de Direito e Economia, alguns dos quais foram escritos por homens Hentz, antepassados de Ethan. A cor marrom predominava quase que unanimemente. Um escritório decididamente inglês, com ares elisabetanos. John Fauntleroy escondia-se por trás de uma pesada escrivaninha de madeira cheia de pesadas pastas e dossiês, fazendo Ethan imaginar se o homem sabia que computadores já haviam sido inventados. Ele parecia ter, no mínimo, setenta anos. Era quase isso. Tinha sessenta e nove.

O lugar era tão abafado e quente que Ethan quase lacrimejou ao sentar-se na confortável poltrona de couro escuro em frente à escrivaninha. Era como entrar numa caverna que não era aberta há alguns bons milênios, e com razão.

— Que bom que está aqui, Sr. Lemnsack.

— Fico feliz de estar, John.

Também era agradável notar que ele sabia que Ethan preferia ser chamado de Lemnsack a Hentz. É que soava bem melhor.

— Primeiramente, eu gostaria de mais uma vez expressar meus sinceros pêsames pela morte de seus pais. Eu conheci seu pai desde que ele era universitário. Sua mãe, desde que ela nasceu.

— Eu conheço a história. Em parte.

O pai, o avô e o bisavô de John Fauntleroy trabalharam para a família Hentz durante mais de um século. Inclusive foi ele quem, nos anos 90, os apresentou em Harvard, quando ainda era professor. Se o casal Lemnsack Hentz existia, era por causa de John Fauntleroy.

— Você, como chefe da família agora, deve entender as implicações legais a que estava se submetendo quando adquiriu a emancipação.

— Entendo.

Só não entendia por que a necessidade de usar termos tão formais.

Fauntleroy limpou os óculos com um paninho doendo de branco, revelando seus olhos límpidos e muitíssimo azuis.

— Você tem que entender que seus pais eram relativamente jovens quando o acidente aconteceu, de modo que suas contas e bens estavam, de certa forma, bastante desorganizados. Eles nunca esperaram que o controle da Lemnsack Hentz World Donations estivesse para ser herdado por um rapaz tão jovem quanto você. Certamente tinham a esperança de que já tivesse terminado a faculdade quando se envolvesse com a ONG.

Ethan assentiu.

— Você está dizendo que os diretores e executivos da Lemnsack Hentz World Donations estão disputando e conspirando entre si a presidência porque meus pais nunca apontaram um sucessor.

— Exatamente isso. Eles nunca apontaram um sucessor porque sempre consideraram que você o seria. Mas não o você de dezesseis anos, embora agora seja maior de idade. Isso era impensável. Mas falamos sobre isso depois. O testamento que fizeram em conjunto deixava claro que tanto Charles quanto Mary Alice gostariam que todo o patrimônio em dinheiro que possuíam ao todo fosse investido na Lemnsack Hentz World Donations e que a presidência fosse dada ao primogênito da família. Se este fosse menor de idade, no momento da morte, que a diretoria tomasse conta da ONG até que você pudesse fazê-lo. Se quisesse. Não esperavam que isso tivesse de acontecer sem que você e seu irmão tivessem uma renda financeira estável, por isso mencionam todo o patrimônio da família.

O testamento inteiro de seus pais, como Ethan percebeu após John lê-lo palavra por palavra, seguia invariavelmente naquele tom desesperado, cheio de adjetivos e expressões como dinheiro absoluto, todo patrimônio, total controle. Talvez tivessem medo que os diretores fossem roubar a ONG da família. É, Mary Alice Hentz acabara com a Kruger-Vorheel, mas a maldição continuava bem vívida até mesmo naquele documento.

Pelo menos uma coisa estava bem clara. Eles não ordenavam que nada daquilo fosse feito. O que acontecia era que eles gostariam que fosse daquela forma, com todos os seus adjetivos, mas o que verdadeiramente ordenavam era que todos os bens que possuíam deveriam ser igualmente divididos entre sua prole. E que eles sucumbissem à insistência obstinada do testamento. Agora que pensava, seria possível que sua mãe planejasse iniciar sua doutrinação assim que fizesse os dezoito anos?

— Quanto dinheiro eles deixaram? — perguntou a John Fauntleroy.

E John Fauntleroy contou.

Foi muito difícil não parecer surpreso, mas não era todo dia que você levantava, ia a um escritório e descobria ser dono de uma fortuna com tantos zeros. John lhe mostrou o número exato. Parecia nunca acabar.

— Esse é o valor estimado da fortuna de seus pais em conjunto. Você tem metade, Nicholas tem a outra metade. Seus pais pediram que cada uma das metades ficasse congelada até que seu dono fizesse catorze anos de idade. Após isso, o tutor legal teria o direito de movimentá-la, mas para isso precisaria da permissão verbal e escrita do dono. Após a maioridade, o dono poderia movimentá-la da forma que quisesse. Como você é maior de idade, apesar de não ter dezoito anos, pode movimentá-la como quiser, mas o dinheiro de Nicholas ficará congelado até que ele faça catorze anos. Daí então você poderá movimentá-la com a permissão dele.

Muita redundância e repetição, como todos os advogados pareciam adorar. Tudo bem, Ethan entendera tudo. Mas em que mundo ele precisaria movimentar o dinheiro de Nicholas? Quer dizer, não era óbvio que ele, sendo quem era e vivendo como vivia, jamais precisaria encostar um dedo naquilo? Meu Deus, quem gastaria tanto em uma vida? Ele precisaria de outras dez vidas para gastar tudo.

— Isso não está tudo em dinheiro, está?

— Oh, não. Grande parte está nas propriedades que seus pais detinham ao redor do mundo, mansões antiquíssimas pertencentes a sua família por gerações nas grandes capitais, grandes montantes de ouro e joias adquiridos pelas mulheres Hentz ao longo do século XX, cerca de quatro castelos europeus que também pertencem a sua família. E mais algumas coisas. Agora, tudo pertence a você.

E o que eu faria com castelos europeus?, pensou entristecido. O próprio Nicholas, adorável em sua exuberância, seria incapaz de se pavonear se subitamente descobrisse que Ethan era dono de tudo isso. Não fazia ideia do que fazer. Castelos necessitavam de cuidados. E se não cuidasse deles, desmoronariam e toda a sua história iria com eles… Deus, o que estava pensando? O que fora fazer? Achava mesmo que poderia ser capaz de administrar a família Hentz com dezesseis anos?

E o que seus pais queriam? Aquelas celebridades mortas? Que investisse tudo na Lemnsack Hentz World Donations. Que entregasse tudo de bandeja a executivos ambiciosos. Tudo o que ele tinha de recordação dos pais negligentes, em lugar das fotos e vídeos de infância que não existiam, por que quem iria querer suas doações administradas por universitários que tiveram um filho aos vinte e um anos? Um número absurdamente comprido para a ONG que os afastou dos filhos por mais da metade de suas vidas. Que piada! Será que falavam sério?

Ethan sequer conhecia direito o funcionamento da Lemnsack Hentz World Donations. Não conhecia exatamente o que eles faziam ao redor do mundo, apesar de entender ser importante. E, para falar a verdade, para ser extremamente sincero, não queria conhecer.

— Eu não quero que pense que sou uma má pessoa, John — disse ao recostar-se na poltrona apertando os olhos para evitar que lacrimejassem. Estava realmente muito quente naquele escritório. — Você sabe por que minha mãe acabou com a Kruger-Vorheel, não sabe? Ela não queria que a empresa a dominasse. Só que o tiro saiu pela culatra. A organização a dominou. E ela passou mais de dez anos sem admitir isso para si mesma. É irritante, de certa forma. Eu nem mesmo posso falar com ela sobre isso. Não sei por que não fiz antes. Mas agora não adianta mais. Agora eu me vejo na frente do mesmo dilema em que ela se viu lá pelos anos 2000. Continuar ou acabar e começar de novo? Meus pais nem conheceram os filhos, como posso pensar em continuar?

John Fauntleroy sorriu levemente.

— Sabe, sua mãe me disse a mesma coisa quando decidiu desmantelar a Kruger-Vorheel.

Ethan assentiu. Como a mãe uma vez dissera, o vício pelos negócios estava em seu sangue, assim como estivera no dela. Mary Alice matou um vício, mas criou outro, e agora Ethan via a possibilidade de ser engolido por ele também. E se descobrisse que administrar uma ONG podia ser muito divertido e prazeroso, apesar de não saber como fazer isso? Não seja leviano, Ethan. Pense em Nicholas. E se se esquecesse de Nick? E se… meu Deus, e se ele aprendesse a fazer as coisas sozinho?

Tome uma decisão. E não se esqueça de que ela estará implantada na sua alma pelo resto de sua vida. Cada passo seu daí em diante refletirá no que for decidido aqui. Tome uma decisão, Riquinho Rico.

— Os executivos da Lemnsack Hentz World Donations podem ficar com ela — disse com firmeza. — Mas o nome Hentz deve ser totalmente desvinculado da ONG. Eles terão que arrumar outro nome imediatamente. Também slogans, lemas, símbolos e qualquer coisa que tenha a ver com minha família ou meus pais. As imagens deles nunca mais poderão ser usadas por essa organização, jamais poderão ser atrelados a ela novamente. O dinheiro que tiverem pode ficar com eles. Eu estou formalmente, em nome da família Hentz, renunciando ao controle sobre essa ONG. Mas eles nunca mais poderão citar os feitos de meus pais em qualquer situação, sejam eles bons ou ruins. Quanto a esses tantos imóveis e bens, eu não quero nada disso. Não quero casas ou castelos ao redor do mundo. Livre-se de todos eles. Venda-os. O dinheiro deve ser adicionado a essa fortuna, que eu vou administrar como você me orientou. Lamento pelos meus pais, mas não posso seguir a ordem deles. Onde estão todas essas joias?

— Espalhadas em cofres de bancos particulares pelo mundo. Há um na Suíça, um na França, em Liechtenstein, outro em Mônaco e…

— Entendo. Eu quero ficar com elas. Parecem-me antigas e valiosas demais para que eu simplesmente as venda.

— Está bem. Vou formular um contrato. Quando você assinar, vai estar cedendo o controle da ONG aos atuais executivos sob seus termos.

Ethan levantou-se da poltrona apertando os olhos mais uma vez. Via um futuro triste e embaçado em que precisaria usar óculos o tempo inteiro. Não levaria muito tempo. Talvez um ou dois anos, no máximo. Nick sempre dizia que ficava mais charmoso com eles. Grande mentira.

— Terminamos?

— Sim, creio que sim.

John Fauntleroy observou aquele admirável jovem chamado Ethan Lemnsack deixar seu escritório. Guardou os papeis que estavam em cima da escrivaninha numa gaveta, os relatórios de finanças e o testamento de Charles e Mary Alice. Então pensou em como Ethan Lemnsack se parecia com a mãe quando falava e gesticulava, sem medo de ser ouvido ou mal compreendido, e em como seu modo de pensar se parecia com o do pai, rápido, dinâmico e pragmático.

Pensou também em como o destino era irônico, pois ao ver como aqueles dois jovens irmãos haviam sofrido para não sofrerem ainda mais, percebeu que a morte de Charles e Mary Alice veio como uma bênção. Porque a verdade é que se tivessem chegado inteiros à cidade de Middleland, seriam eles quem estariam naquele escritório agora, iniciando o processo de divórcio.

Apesar de trabalhar com a família Hentz desde que se formara em Harvard, começando primeiramente como estagiário de Samuel Hentz, John Fauntleroy nunca recebeu confidências dos problemas conjugais do casal. Mesmo assim, sabia tudo e um pouco mais. Vira Mary Alice nascer, crescer e morrer. Transformara-a na administradora excelente e na mulher enigmática de honestidade questionável que havia sido carbonizada milhares de metros acima do mar. E por sua influência Charles Lemnsack formara-se como o primeiro da classe de Direito de Harvard de 1997, um gênio jurídico a seu tempo.

Eles não podiam esconder-lhe nada. John percebia nas pequenas coisas. Como o fato de que os dois simplesmente não vinham mais às reuniões ao mesmo tempo, e quando vinham mantinham uma certa distância um do outro. Não davam mais as mãos. Nem falavam consigo mesmos a não ser que um terceiro provocasse isso. Suas salas na sede mundial da Lemnsack Hentz World Donations eram em andares diferentes. Dentro da ONG, Charles referia-se à esposa como a presidente e Mary Alice referia-se ao marido como o diretor do departamento jurídico.

John percebeu isso provavelmente antes mesmo que eles. Foi mais ou menos aí que os boatos midiáticos de que Charles tinha um filho ilegítimo fruto de um relacionamento extraconjugal surgiram. Nenhuma identidade de uma suposta amante foi revelada, mas era suficiente para Mary Alice se enfurecer a ponto de investigar. Ela nunca foi do tipo que levava desaforo para casa. Era orgulhosa demais, assim como seus antepassados, agora todos mortos.

John não sabia se Mary Alice chegou a descobrir algo, mas uma vez que no dia antes de morrer havia lhe ligado e falado sobre o divórcio que planejava, era bastante possível. E quem sabe se aquela viagem à Europa fosse só um pretexto para que desse um pulinho na Itália e visse com seus próprios olhos o que tabloides sensacionalistas especulavam?

Mistérios que nunca seriam solucionados. Mistérios agora enterrados no fundo do mar para sempre.

John Fauntleroy fez o sinal da cruz e voltou a trabalhar nos importantes documentos da família Hentz, como fazia todos os dias há mais ou menos cinquenta anos.

A primeira coisa que Ethan pensou ao chegar em casa foi em como deveria mudar logo aquela decoração horrivelmente branca. Estava começando a lhe dar dor de cabeça. Havia outra coisa que o incomodava também. O quarto de seus pais. No final do corredor, duas portas brancas lacradas há semanas. A última vez que entrara lá foi antes do acidente, para trocar as roupas de cama. Agora o quarto estava selado como o túmulo que os pais nunca teriam.

Onde vou achar coragem para entrar lá? Vou ter que me livrar das roupas deles, dos itens pessoais… Não devia haver muitos itens pessoais. Os pais viajavam demais, provavelmente estava tudo guardado em suas mansões ao redor do mundo… e assim que John Fauntleroy as vendesse, os pertences voltariam aos irmãos! Que perspectiva horrível. Receber por correio as coisas dos pais como se fossem partes de seus corpos.

Por outro lado, ouvir o testamento marcava a verdade absoluta que a televisão andava gritando há semanas, enquanto acompanhava o progresso que não existia da investigação da queda do avião. A verdade era que Mary Alice Hentz e Charles Lemnsack, o lendário casal de filantropos, havia-se ido e dessa vez não voltaria mais. Até então, de alguma forma Ethan pensava que eles de repente iriam entrar por aquela porta e desculpem-nos pelo atraso, tivemos um pequeno contratempo.

Deveria mandar colocar duas lápides simbólicas no Cemitério Santa Rosa. A família Hentz possuía um jazigo particular com os corpos do trisavô, bisavô e avô de Ethan e Nicholas enfurnados naqueles medonhos gavetões de pedra. Já havia ido lá num mês de junho para homenagear o aniversário de morte do avô Samuel. Não lembrava o ano.

Nicholas surgiu da cozinha com um pote de biscoitos nas mãos. Sua boca estava tão cheia que ele não conseguiria falar ainda por um bom minuto. Era tão agradável ver como suas bochechas simplesmente não se enrugavam quando ele mastigava. Apenas se contraíam e descontraíam. Ah, e ele não usava nada além de uma cueca box preta que acentuava a cor dourada de sua pele e sua magreza extrema. Se ele não fosse atlético, Ethan bem que poderia se sentir preocupado.

— Como você conseguiu se apoderar desse pote? — indagou-lhe. — Pensei que tivesse escondido melhor.

— Como foi lá? — ele balbuciou quase ininteligível, cuspindo migalhas de biscoito sem querer e propositalmente o ignorando. Ethan aproximou-se e tirou o pote das mãos dele. Agora era hora de almoçar, meu bem.

— Eles nos deixaram uma quantia suficiente para vivermos bem — respondeu voltando à cozinha para guardar os biscoitos. Desde quando uma quantia suficiente para vivermos bem era eufemismo para uma fortuna tão inimaginável? — Quanto à Lemnsack Hentz World Donations, eu a entreguei aos seus executivos. A família Hentz não é mais dona dela.

Entregou-lhe um copo imenso de água que ele sorveu com dificuldade para empurrar os biscoitos para baixo.

— Foi melhor assim — comentou limpando os lábios com as costas da mão. — Eu não gostaria de ter que viajar o mundo inteiro como eles faziam. Quer dizer, gostaria, talvez, para alguns lugares, mas…

— Eu entendo. Eu fiz o que deveria ser feito. Eu ouvi o testamento e a relação de posses que herdamos e que agora eu infelizmente terei que administrar. Há dinheiro, imóveis, bens e joias.

— Olha só para você, usando termos difíceis que eu só entendo com dificuldade.

Ethan sorriu de leve, sentou-se no sofá e puxou Nick delicadamente para se sentar em seu colo, onde ele se encaixava tão bem. Não havia nem mesmo nada de provocativo naquela posição. Eles só gostavam de ficar abraçados sentindo o calor um do outro e ouvindo suas respirações.

— Quanto dinheiro eles nos deixaram? — Nick indagou. — A televisão mostra o tempo um monte de economistas e banqueiros velhos estimando o dinheiro que eles tinham. Você sabia que eles já saíram numa capa da Forbes? E que já conheceram a rainha da Inglaterra e o papa? Até tiraram fotos com eles. É estonteante.

Ethan estava mais admirado por ver que Nick sabia o que era a Forbes e o que significava estonteante.

— Quanto a televisão estimava que eles tivessem?

— Muita gente falou vários números diferentes. De quinhentos milhões a dois bilhões de dólares. Mas isso é absurdo. Eles estão todos errados, não estão? Quer dizer, eu sei que nossos pais eram ricos e que nossa família é antiga, mas nós não moramos em nenhum castelo e nunca fomos mandados a um daqueles internatos onde você usa terno para ir às aulas e luta com cavaleiros nas aulas extracurriculares.

Era tão gostoso ver o pequeno Nicholas afundado em seus pensamentos irônicos e divertidos mais uma vez. Era tão gostoso vê-lo feliz após todo o sufoco pelo qual Ethan passara. Como Amy lhe dissera há alguns dias, Ethan cuidou de tudo perfeitamente.

— Eles não estão tão errados. — Beijou a pele alva de seu pescoço. Nick fitou-o com aqueles adoráveis e curiosos olhos negros.

— Quanto eles exatamente tinham?

— Eu vou contar, vou contar agora, mas preciso que prometa algo para mim. Você não vai sair por aí falando esse número em voz alta, está bem? Nossos pais eram famosos e temos que honrar a imagem deles. Tornarmo-nos arrogantes por causa da nossa fortuna é uma coisa que simplesmente não pode acontecer. Portanto prometa para mim que você nunca vai contar a ninguém quanto dinheiro nós temos.

— Eu prometo.

Ethan deu-lhe um beijo nos lábios, depois outro e por fim mais um. Beijar Nicholas nunca era demais, nem nunca cansava. Então falou o número quebrado e extremamente comprido que John Fauntleroy lhe falara pouco tempo antes. Lembrava-se dele com perfeição. Nick não se lembraria nem em que casa decimal estava.

—Bem, eles quase acertaram — ele resmungou impressionado. — Mas, apesar disso, todos erraram. Por que isso?

— Isso não está tudo em dinheiro. Está em imóveis também, sabe. Casas espalhadas pelo globo. E alguns bens materiais dos quais não precisamos e nunca vamos precisar. Por isso ninguém consegue estimar ao certo, primeiro porque não conhecem todos os bens dos nossos pais, depois porque, bem, eles não olharam na nossa conta bancária.

Nick havia perdido a atenção no meio da frase, como normalmente fazia, mas ao invés de chamá-la de volta Ethan ficou olhando para seu rostinho pensativo enquanto continuava falando.

— Viraríamos celebridades com facilidade, não é? — ele indagou.

— É, acho que sim. Provavelmente pediriam que escrevêssemos um livro sobre nossa vida de órfãos ricos que lutaram para serem felizes. Isso tinha tudo para se tornar uma história sobre como lutamos contra tutores sedentos por nosso dinheiro até que eu completasse a maioridade. Seríamos os órfãos Baudelaire da vida real.

— Mas não somos porque você sempre gostou de ser pragmático.

Mas afinal, Nicholas Hentz tinha almoçado um dicionário ou coisa assim, por acaso?

— Tem certeza de que não quer se revelar a mídia junto comigo? — ele continuou falando animadamente. — Eu vejo com meus poderes de clarividência nossa imagem em revistas para garotas adolescentes. Eu as vejo suspirando por nós e pedindo nosso autógrafo no meio da rua. Quer dizer, por mim. Mas eu vejo garotos fazendo a mesma coisa por você.

Ethan não disse nada. Nick tinha as costas recostadas em seu peito, de modo que um não via o rosto do outro. Mesmo assim, ele lhe deu um tapa na nuca quando teve a oportunidade.

— Por que você nunca me contou que gostava de garotos? — indagou irritado. — Você não confia em mim, é isso? Eu sempre soube disso, desde os onze anos, sempre esperando pacientemente que você me contasse, droga. Nossos pais também sabiam. Por que você nunca me contou?

— Mas… eu te contei.

— Contou coisa nenhuma. Você me levou para a cama, foi isso que você fez. Você não confiou em mim, a pessoa em quem você mais devia confiar. A gente não pode guardar tudo dentro de si, sabe. Faz mal.

— Desculpe-me por não ter contado a você. É que pensei que você não gostaria de saber disso. Lembra que ano passado você parou de falar com um amigo seu por que descobriu que ele era gay?

— É, bem, talvez eu não tenha facilitado. Eu era muito estúpido. Ah, e não parei de falar com ele por causa disso. Eu parei de falar com ele porque tentei transar com ele para ver se eu gostava disso e acabou que eu não gostava. Então as coisas ficaram muito estranhas entre nós e eventualmente nos afastamos. É a vida.

Ethan estava perplexo demais para dizer qualquer coisa.

— Você já transou com um garoto?

— Eu não sei se o que nós fizemos pode ser considerado sexo. Acho que não. E, como eu disse, não gostei nem um pouco.

— Então por que gostou de fazer comigo?

— Ah, você não é um garoto. É meu irmão.

Os dois riram gostosamente, como há muito não faziam. Como era bom, como era bom. Tudo estava indo conforme a vida prometia. Como… como sempre fora antes do acidente. Estavam felizes de novo.

— E é meu irmão extremamente rico — ele continuou.

— Sou seu irmão extremamente rico, mas isso tampouco vai mudar nosso estilo de vida, Nicholas. Nós sempre fomos assim e continuaremos a ser assim. Qualquer outra coisa não combina conosco.

— Eu sei, seu idiota. Não é como se eu quisesse me mudar para um castelo na Inglaterra. A propósito, temos algum castelo na Inglaterra?

— Talvez, mas em breve não teremos mais porque eu vou vender tudo. E, se quer saber, o dinheiro que atualmente temos não significa nada. O dinheiro que nossa mãe adquiriu após vender a Kruger-Vorheel Company era monumental. Bateu alguns recordes, sabe.

Aqueles olhos negros se arregalaram abruptamente, o que indicava que Nick acabava de se lembrar de algo que há pouco tempo tentara a todo custo não se esquecer antes de, afinal, esquecer.

— Eu nunca soube direito sobre a Kruger-Vorheel. — Ele se ajeitou no colo de Ethan para que ficassem virados um para o outro. — E eu sei que você já leu tudo o que existe sobre ela. Me conta a história?

Ethan contaria, mas aquele movimento que ele fez com os quadris para ajeitar a posição o fez criar uma enorme ereção.

— Mas eu queria transar com você.

Isso o fez se levantar de seu colo e sentar-se de pernas cruzadas no sofá, ainda com os olhos arregalados de curiosidade. Ethan suspirou.

— Então que seja. É uma longa história, por isso preste atenção. A Kruger-Vorheel Company foi fundada pelo nosso trisavô materno, John Francis Hentz. John Francis nasceu originalmente na França no ano de 1867, mas foi entregue a pais adotivos bastante ricos que moravam em Nova Orleans, na Louisiana, EUA, quando bebê. Seus pais biológicos são desconhecidos. Quando fez vinte anos de idade, em 1887, John Francis se mudou para a África do Sul junto com milhares de outras pessoas com um único intuito: procurar e achar diamantes. Para resumo da ópera, ele achou um diamante. Mas não um diamante comum. O diamante que John Francis achou é até hoje a maior pedra bruta já encontrada em toda a história. Tinha mais de setecentos gramas e quinhentos quilates, e sua cor era de um azul extremamente claro, quase transparente. Foi dividido com o tempo, creio eu. Nossa família não é mais dona dele. Mas esse diamante enriqueceu John Francis o suficiente para que ele fundasse a Kruger-Vorheel nesse mesmo ano, 1887. Está prestando atenção?

Nick estava com um olhar meio vago, mas logo se empertigou.

— Estou. Os diamantes de sangue roubados da África do Sul encimam a fortuna da nossa família. Continue.

Talvez ele estivesse apenas ficando mais inteligente naturalmente.

— John Francis começou a Kruger-Vorheel com uma mineradora de diamantes. Como eu disse, era muito jovem, até demais, mas sempre foi um gênio nos negócios. Conseguiu expandir a mineradora de forma que em poucos meses ela se tornou a maior da África do Sul. Então ele criou uma frota de navios cargueiros para carregar seus diamantes ao redor do globo. A essa altura, sua fortuna adquirida sobrepunha aquela que ele conseguiu ao vender o diamante. John Francis voltou aos Estados Unidos e fixou residência na Califórnia. Comprou negócios pequenos em estados do interior e os fez crescer. Fundou uma indústria farmacêutica e começou uma gigante do petróleo que por pouco não foi maior que a de John Rockefeller. Bem, não se pode ter tudo. John Francis teve alguns fracassos e muitas vitórias. Foi um grande empresário. Morreu em 1937. Ao final da vida, acumulou cerca de sessenta milhões de dólares. Hoje em dia, com impostos aplicados e valores corrigidos, valeria por volta dos dez bilhões. A Kruger-Vorheel nasceu do nada e logo ascendeu como uma fênix.

“É importante lembrar que John Francis, por muito tempo, foi o último espécime vivo da família Hentz. Seus pais adotivos não tinham outros filhos. John Francis tampouco tinha tios ou primos. Casou-se em 1907 com uma mulher chamada Ondromeda e teve apenas um filho em 1909, um menino que veio a se chamar John Daniel Hentz. Nosso bisavô.

“John Daniel tinha vinte e oito anos quando John Francis morreu. Logicamente, o controle da companhia passou imediatamente para ele. Em minha opinião, foi o melhor presidente que a Kruger-Vorheel teve, pois a meta de vida de John Daniel era expandir a empresa para a maior quantidade de países possível. Ele queria que todos conhecessem o nome Hentz e tremessem ao ouvi-lo. Ele conseguiu. Tornou-a um gigantesco conglomerado mundial. Durante toda sua vida, John Daniel figurou na lista dos dez homens mais ricos do mundo e a empresa sempre esteve entre as mais poderosas. Investiu no ramo imobiliário, eletrônico, construção cívica e naval, militar, farmacêutico… tudo o que tinha para fazer negócios, ele fez. A Kruger-Vorheel tinha ramos em praticamente tudo. Ela construía desde porcas, parafusos e eletrodomésticos a pontes, arranha-céus e plataformas de petróleo. Dizem por aí que a varíola foi erradicada por nossa causa. Não se achava um lar nos EUA que não tivesse um produto da empresa, fosse um anel de diamantes a um galão de desinfetante. Você vestia, comia, bebia, respirava e assistia Kruger-Vorheel. Olhe pra mim e volte a prestar atenção, Nick.”

Apesar de seu olhar vagamente perdido ser adorável de se ver, era importante demais que Nick conhecesse a história da própria família para que Ethan se permitisse aquele prazer.

— Continue.

— John Daniel casou-se com uma italiana de família antiga e rica chamada Letricia Ovanosi. Nossa bisavó. Em 1930, ele teve seu primeiro e único filho, a quem chamou de Samuel. Nessa época, apesar de John Francis ter a Califórnia como sede da Kruger-Vorheel, John Daniel dirigia a filial em Nova York, de modo que foi lá que Samuel nasceu e cresceu. Assim como o pai, foi para Harvard e se formou como um dos melhores. Assumiu a empresa em 1979, com a morte de John Daniel. Samuel já tinha quarenta e nove anos, o que provavelmente o fez ser o Hentz mais conhecido e influente da família.

“Diziam que ele era um lunático megalomaníaco, e deve ter realmente sido, mas inegavelmente também era um gênio. No início dos anos 80, Samuel dissolveu o conselho de diretores e altos executivos que existia na Kruger-Vorheel e passou a controlar a mãos de ferro absolutamente tudo que a empresa fazia. Trabalhava sete dias por semana, vinte horas por dia. Nunca tirou férias. Em vinte e um anos de presidência, houve momentos em que Samuel fez a empresa figurar como a mais poderosa e valiosa do planeta. Esse posto não durou muito e logo foi ocupado por outras gigantes mais enxutas, mas bastava o nome Kruger-Vorheel ou Hentz para fazer o melhor CEO do mundo tremer. Nosso avô fez a empresa da família atingir a supremacia mundial na maioria dos negócios em que esteve envolvida. Era difícil negociar com Samuel e sair prejudicado.

“Creio que foi mais ou menos aí que ele começou a adquirir enormes propriedades no mundo inteiro. Grandes castelos de séculos de idade foram comprados em nome da família Hentz, extensões de terra gigantescas e vazias tornaram-se nossas, grandes coleções de vinhos e joias foram para seus cofres particulares. Samuel era obcecado por pinturas e esculturas antigas e, sempre que tinha a oportunidade, sequestrava uma de um museu e a enfiava em sua propriedade em Nova York, o mesmo edifício em que crescera, por alguns milhões de dólares. Era louco por carros, tinha frotas e mais frotas de Ferrari e Rolls-Royce, e por jatinhos particulares com interiores cromados a ouro. Tinha dois iates de trezentos pés. Estima-se que se todas as propriedades que Samuel adquiriu ao longo da vida fossem unidas, ter-se-ia uma área do tamanho de Portugal ou da Islândia.”

— Agora entendo por que as pessoas diziam que ele era megalomaníaco. Aposto que ele nunca morou em nenhum desses lugares ou dirigiu nenhum desses carros.

— Nunca mesmo. Samuel também era conhecido por ter um apetite sexual enorme. Mas, apesar dos problemas em controlar seus vícios, nunca teve problemas financeiros. Também foi um tremendo visionário e uma das pessoas mais progressistas do mundo. Onde quer que ele via progresso, ele ia lá e investia. A Kruger-Vorheel revolucionou o mundo de diversas formas. As maiores indústrias de petróleo do mundo eram da Kruger-Vorheel. As maiores indústrias farmacêuticas eram da Kruger-Vorheel. Eletrodomésticos e aparelhos eletrônicos, indústrias tabagistas e alimentícias, frotas de navios e aviões cargueiros, cervejarias, automóveis, empresas telefônicas, redes de TV, estúdios de cinema, a empresa tinha tudo isso e um pouco mais. Se a televisão se popularizou, foi por nossa causa. Se carros tornaram-se obsessão, foi porque deixamos Henry Ford fazê-los. Fomos legais com os Rockefeller e os Rothschild.

“A maior tacada de Samuel proveio da internet, na década de 90. Um investimento arriscado, mas a Kruger-Vorheel já financiava empresas de computadores desde a década passada, de modo que ele não hesitou em se jogar de cabeça. Samuel não viveu o suficiente para ver como a internet tornou-se indispensável na maior parte do planeta e em todos os aspectos da sociedade humana, mas se tivesse provavelmente teria tido outro ataque cardíaco de felicidade. Se você pode acessar a internet do seu celular hoje, é porque pessoas como Samuel Hentz tornaram isso possível.

“Voltemos à Kruger-Vorheel. Ela tinha bancos, financiadoras, museus, seguradoras, cassinos, transportadoras, grifes, redes de hotéis, uma cadeia de lojas de varejo e de restaurantes. É bom lembrar que frequentemente o nome da empresa em questão não tinha nada a ver com a Kruger-Vorheel, mas a companhia era sempre acionista majoritária. Era uma regra de Samuel. Ele liderava tudo, mandava no mundo. Se hoje em dia ela ainda existisse, após doze anos de liderança de nossa mãe, dificilmente seria menos influente que gigantes como Mc Donald’s, Coca-Cola, Microsoft, Apple, Google ou Walmart… Foi uma das poucas empresas não afetadas pela crise de 1929.

“Samuel casou-se aos vinte e poucos anos com uma socialite descendente da antiga nobreza francesa chamada Joselia Jasperin. O casamento foi arranjado quando ela tinha apenas catorze anos, embora só tenha acontecido após Samuel terminar a faculdade. Nossa avó, Miss Josie. Costumava sair periodicamente em revistas para donas-de-casa aconselhando sobre como as donas-de-casa americanas deveriam se portar. Sabe, serem submissas ao marido e serem sempre perfeitas esposas e mães. Aquela idiotice dos anos 50. Quão irônico é isso, considerando que o marido dela era exatamente o oposto do que ela acreditava que os homens deveriam ser? Eu já disse que ela nem mesmo era americana? Nasceu e cresceu na França. De fato, ela se recusava a falar no rádio ou na televisão para que as pessoas não ouvissem seu sotaque e a desacreditassem. Oh, e existem boatos monstruosos de que Samuel Hentz foi nada menos que bissexual. Bem, Miss Josie morreu em 1990 e Samuel dez anos depois, portanto nada disso pode ser provado.

“Eles tiveram apenas uma filha que nasceu na Califórnia em julho de 1973. Mary Alice Hentz. Uma pequena princesa dourada. Desde a infância, nossa mãe frequentou as melhores escolas particulares e internatos na Suíça para que aprendesse a como ser uma perfeita dama na sociedade e uma executiva feroz e impiedosa no escritório. Samuel nunca se importou com o fato de não ter tido um filho homem e, pelo visto, nunca mais procurou a esposa para que tentassem fazer outro. Pelo contrário, ele criou Mary Alice para que ela fosse tão obstinada quanto ele. Como você bem sabe, nossa mãe foi para Harvard, assim como o pai e o avô, e lá conheceu nosso pai. Você sabe dessa história. Eu te conto o tempo todo.”

— Sei. Ela assumiu quando Samuel morreu e então vendeu a empresa. Bem, pelo menos se tornou tão obstinada quanto o pai queria que fosse. Afinal, não é todo mundo que vende uma empresa bilionária.

Não era estranho, pensou Ethan, que eles tratassem os parentes próximos com tanta impessoalidade? Quando os pais viviam e Ethan falava com a mãe sobre o avô, o bisavô e o trisavô, nunca sentia a necessidade de usar tais termos. Talvez porque fossem muito longos. Às vezes era difícil lembrar que aqueles eram de fato seus progenitores.

De fato, agora que os pais morreram era mais fácil pensar neles como Mary Alice e Charles, e não como mãe e pai. Sina das famílias antigas, endinheiradas e com membros famosos. Os nomes se tornam mais importantes que os títulos afetivos.

Bem, não era culpa de Ethan que todos os Hentz houvessem procriado tão velhos e morrido tão jovens. Nunca tiveram tempo de se conhecer. Ethan e Nick tinham quatro e dois anos quando o avô morreu e nenhum tinha nenhuma lembrança com ele. Para falar a verdade, também não existiam fotos de família com mais de duas gerações inclusas.

— Provavelmente o último pensamento de Samuel foi gostaria de ter passado mais tempo no escritório — disse Ethan com uma pitada de raiva, tão pequena que Nick não notaria. Tudo bem, eram águas passadas. Os mortos exigiam respeito, ou voltariam para assombrá-lo em sonhos. — Você tem razão, nossa mãe era extremamente obstinada. Poderia ter se tornado primeira-ministra, se quisesse.

— Como ela vendeu a Kruger-Vorheel?

— Simplesmente cedeu todas as ações da empresa. Como uma empresa de capital fechado, apenas 10% de suas ações eram abertas a outras empresas e ao público, o resto era da família. No presente momento do ano 2000, eram dela, já que os outros espécimes Hentz, você e eu, eram novos demais para entender como a Bolsa de Valores funcionava. Você pode ver na internet a entrevista coletiva que ela deu na frente da sede mundial da Kruger-Vorheel, que era aqui em Middleland, lá em Higociety. A propósito, se se pergunta, a sede não existe mais. O prédio foi vendido e demolido e hoje em dia há um punhado de edifícios de escritório no lugar. Que desperdício, não é? O prédio foi fundado nos anos 10 por John Francis em pessoa. Depois ficou desativado por algumas décadas até que Samuel a reabriu em 1950 após a proclamação da…

— E depois sou eu que tenho déficit de atenção? Volte ao assunto.

— Perdão. Nessa entrevista coletiva, ela anunciou à imprensa que abriria as ações da corporação ao público. Só que ela não avisou que abriria todas as ações. Ela não disse que venderia a empresa inteira. Fez isso numa sexta-feira e as ações foram para a Bolsa na segunda-feira seguinte. Foi um pandemônio mundial em todas as Bolsas de Valores de todos os países. Você também consegue encontrar vídeos de pessoas desesperadas para comprar algumas ações, empurrando umas às outras em filas intermináveis por todo o mundo. Todo mundo queria um pedaço da companhia. Em poucos meses, tudo o que a Kruger-Vorheel Company tinha foi distribuído como migalhas aos pombos. Todos os negócios foram quebrados, estraçalhados, e vendidos para milhares de empresas diferentes, algumas pequenas, outras grandes, e para o povo em si.

— E isso aconteceu no ano 2000.

— Sim, em junho de 2000 e nos meses seguintes até o fim do ano. Em 2001, Deus estava morto. O gigante dos gigantes, a lendária empresa Hentz, o pote de ouro no final de arco-íris que por cento e treze anos aterrorizou empresários finalmente havia sumido. Antes de sua dissolução, a Kruger-Vorheel possuía um valor de mercado de trezentos bilhões de dólares. O faturamento era igualmente monumental. Os lucros estavam entre vinte e cinco e trinta bilhões. A renda líquida era um pouco mais que isso. Empregavam mais de cinco milhões de pessoas em todo o mundo. Nem todas ficaram desempregadas, para ser claro.

“Agora, por favor, não dê um dos seus gritinhos efeminados quando eu disser o que eu vou dizer. Mary Alice faturou por volta de quarenta bilhões de dólares puros após a venda da empresa. A fortuna pessoal da família Hentz já era estimada em vinte e seis bilhões de dólares. Foi essa a fortuna que começou com o diamante de John Francis e se estendeu ao longo de todo o século XX até chegar às mãos de nossa mãe. Sim, faça as contas, dá sessenta e quatro bilhões de dólares americanos. Ela chegou a ter essa quantia no início de 2001, fazendo dela a mulher mais rica de toda a história. Isso realmente aconteceu. Acho que eu tenho uma Forbes da época que a mostra na capa. Na verdade, tenho várias Forbes antigas que falam sobre nossos outros antepassados.”

— Será que você pode me dizer porque nossa mãe decidiu jogar quase toda a nossa herança fora? Porque esse número é escandalosamente maior que o que você disse que herdamos. E eu pensando que nossa herança era grande. Deus, não é nada! O que vamos fazer só com isso?

— Em 2001, nossa mãe fez uma das maiores doações únicas da história. Ela doou trinta e quatro bilhões de dólares de uma vez a diversas organizações de caridade ao redor do globo. Então criou a Lemnsack Hentz World Donations e passou os próximos onze anos da vida doando o resto com nosso pai. Foi assim simples. Ao longo dessa década de 2000, vendeu a maior parte dos bens supérfluos de Samuel e doou o dinheiro também. Quer dizer, quem é que precisa ter quarenta Lamborghini estacionadas nos confins de uma mansão em Nova York? O pouco que resta hoje eu pedi a John Fauntleroy que vendesse também. E o dinheiro que virá é o dinheiro que nós temos. Que é suficiente para uma vida inteira.

— Eu estava brincando, mas estou impressionado que nossa família já teve tudo isso e perdeu tudo por pura opção. Como nosso pai encarou a esposa jogar um poderio mundial no lixo? Ela poderia ter sido dona do mundo. Nós poderíamos ter o que quiséssemos.

— E você não tem tudo o que quer?

— Bem, eu… realmente não gostaria de ser mandado a um internato na Suíça. Também não sei falar suíço.

— Nicholas, não existe uma língua suíça… esqueça. Nossa mãe vendeu a empresa porque ela não queria ser dona do mundo, não queria se viciar no poder, porque se você não percebeu o vício em poder é bastante corrente em nosso sangue. Samuel foi consumido vivo pela Kruger-Vorheel até o dia que morreu. Literalmente. Ele teve um ataque cardíaco no meio de uma reunião com arquitetos japoneses.

Nick estava calado, olhando fixamente para Ethan, claramente tentando manter a mente e os pensamentos em ordem. Ethan imaginava a mente dele como uma caixa cheia de gatos. Quando Nick tentava pensar, era como se alguém jogasse um petisco dentro da caixa e a fechasse.

— Eu sabia que havíamos sido ricos — ele disse. — Meus amigos costumavam dizer que seus pais e avós trabalhavam para a Kruger-Vorheel até o dia em que a empresa acabou, e eu ouço isso distraidamente e de repente penso ei, olha só, é a nossa empresa. Mas era só. Não sabia que havia tanto poder e dinheiro em jogo. E eu realmente não posso contar a ninguém sobre a nossa fortuna?

— Ninguém. Não quer que sejamos vistos como arrogantes, quer?

— Acho que eu não me importaria. E Lamborghini é um lindo carro.

— Não importa. Eu só posso dirigir com dezoito anos, emancipado ou não. — Ethan sabia que Nick sabia disso, mas era divertido desconcertá-lo. — Eu sei que a história de nossa família é complicada, mas é bem mais do que isso. Eu a resumi da forma mais sucinta que consegui. Há livros, documentários e teses de doutorado sobre a Kruger-Vorheel, sobre John Francis, John Daniel e sobre Samuel. Até sobre nossa mãe. Você pode ver que eu já li a maioria deles, estão naquela estante bem ali. Centenas de estudiosos, economistas e cientistas políticos dedicam a vida a estudar o funcionamento interno da empresa e em como um conseguiu erguer um país de negócios do nada, em como outro conseguiu torná-lo um conglomerado mundial e se tornar dono de metade do mundo, e em como outro conseguiu sustentá-lo sozinho, sem absolutamente ninguém. Estudam as mudanças geopolíticas que a Kruger-Vorheel e a família Hentz implicaram ao longo das décadas e em como isso afetou a sociedade em geral e o desenvolvimento do capitalismo…

— Está bem, chega, eu não estou entendendo mais nada.

— Você é mais inteligente que isso.

— Sou, mas tenho preguiça de ouvir. Se nosso trisavô nasceu em 1867, por que quase cento e cinquenta anos depois somos suas únicas crias?

— Não sei. Coincidência, acho. Só uma coisa do acaso. É claro que se esperaria que hoje houvesse centenas de descendentes, mas isso não aconteceu. E foi melhor assim. Não precisamos dividir a herança. É claro que se houvesse descendentes nós não teríamos ficados órfãos… ah, você entende. Talvez os patriarcas da família simplesmente não quisessem rupturas e rixas internas entre os Hentz por causa de heranças, cargos importantes e coisa do tipo. A política interna da Kruger-Vorheel dizia que a presidência da companhia deveria ser passada sempre para o primeiro filho homem do descendente direto de John Francis. Depois do nascimento de nossa mãe, Samuel mudou isso. A presidência deveria ser passada para a primeira criança que o presidente em questão tivesse, fosse homem ou mulher.

— Parece justo. E, como não podia deixar de ser, ela foi a primeira da família a ter mais de uma criança. Ela tinha que ser do contra, não tinha? A propósito, se nossos pais eram famosos, por que nunca fomos assediados por paparazzi?

— Paparazzi não sabem onde existimos.

— O quê?

— Pense bem. Middleland é uma cidade relativamente grande, onde é difícil achar alguém específico. Nosso apartamento não é extravagante, ele na verdade é bastante normal. Nossa escola, por outro lado, está cheia de filhos de outras celebridades que tampouco querem aparecer. Apesar de eles não dizerem, a Academia Alphonse Enoi trabalha bastante para proteger as identidades e nomes dos alunos por esse motivo. Oh, e se você parar para perceber, sempre que nossos pais chegavam em casa eles estavam carregados de roupas para cobrir a aparência. Muitas vezes vinham tarde da noite. Desde que nossa mãe vendeu o jatinho de Samuel, eles pegavam aviões comerciais como qualquer um. Suas propriedades na Europa são desconhecidas ao público, que não sabe quem são seus verdadeiros donos porque mesmo lá eles mantinham a privacidade. Em 2002, quando tínhamos quatro e sete anos de idade, eles venderam uma foto de nós dois juntos para uma revista por quase dez milhões de dólares. Doaram o dinheiro também.

— Então é por isso que eles nunca nos deixavam ir com eles em viagens de negócios e nunca apareciam em público conosco sem usarem óculos escuros? Por isso que sempre que ficávamos de férias eles nos levavam para casarões em cidades do interior?

— Sim. Porque eles queriam nos proteger.

— Eu gostaria de ser protegido na Champs-Élysées.

Nick vagou o olhar novamente, digerindo aquela informação. Depois de toda uma vida com uma opinião, não era fácil aceitar que a verdade era exatamente o contrário. Ethan sabia disso. Havia percebido tudo aquilo horas atrás, no escritório de John Fauntleroy. Mesmo assim, os pais não haviam sido menos que negligentes. Um erro não invalidava um acerto, mas um acerto tampouco justificava um erro.

— Na Academia, os sobrenomes dos alunos são guardados a sete chaves, assim como a filiação e dados pessoais. O que está gravado em todos os troféus esportivos que você já ganhou na vida?

— Nicholas — respondeu Nick. — Só Nicholas. Sem Hentz ou Lemnsack. Nunca entendi por quê. Mas agora que você falou, percebo que há um cerco acordo implícito entre alunos de que um não vá delatar o outro, porque se delatasse aconteceria uma reação em cadeia. Algo assim.

— É, exatamente isso. Então, você quer virar uma subcelebridade que tem que viver numa mansão gigantesca cercada de seguranças e andar de limusine ou continuar a ser um adolescente normal?

Ele deu um sorrisinho maroto cheio de dentes brancos.

— Se eu fosse uma subcelebridade, eu teria que me comportar. Mas eu não me adapto bem a mudanças. A morte de nossos pais já foi um trauma grande demais. Gosto da nossa vida. Então, não, obrigado. Vamos ser adolescentes bilionários normais. Mas provavelmente os tabloides vão dar o braço e a perna por alguma informação sobre onde moramos.

— É, eles vão. Mas isso não vai acontecer. Quer dizer, eu espero que não. Só para garantir, é melhor ficarmos de boca fechada para sempre.

— Tenho uma ideia melhor. Nós dois sabemos que ninguém se atreveria a nos dedurar se eu por acaso saísse dizendo que você ficaria muito irritado se isso acontecesse…

— Não, pare com isso.

As pessoas da Academia Alphonse Enoi não apenas não falavam com Ethan por opção. Elas de fato tinham medo dele por causa de algo estranho que acontecera no Dia das Bruxas do ano passado entre Ethan e um garoto chamado Tommy Overgreen.

— Desculpe — disse Nick sinceramente arrependido. Ele esquecia que Ethan não gostava de falar sobre aquilo.

Mudou de assunto. Começou a falar sobre as orientações do testamento sobre a herança, de que Nick poderia ter controle moderado sobre ela a partir dos catorze anos. Puxa, o que seus pais pensavam que eles iriam fazer com tudo aquilo aos catorze anos de idade?

— E pensar que se a Kruger-Vorheel ainda existisse, você poderia ser presidente dela. Ou não?

— Sim. Na verdade, seria exatamente isso que aconteceria, uma vez que sou emancipado. Eu poderia controlar o maior conglomerado familiar do planeta. Quão divertido isso seria? Você deveria agradecer que nossos pais tenham mudado o testamento. Antigamente, o testamento padrão dos Hentz dizia que o dinheiro deveria ser entregue inteiramente ao primogênito, ignorando o fato de que poderia haver outros filhos.

Nick suspirou.

— E você agora é o Hentz mais velho vivo. Você ocupa o mesmo lugar que aqueles dinossauros capitalistas devoradores de pequenas empresas que nos geraram ocuparam desde o século retrasado. Por isso que não quis o controle da Lemnsack Hentz World Donations? Não queria se viciar nela e esquecer que tem uma vida e o irmão mais novo mais lindo do mundo para cuidar e foder de vez em quando?

— É, por aí. — Fora muito agradável conversar sobre aquilo com Nicholas. Ele precisava conhecer a história da família. Não se lembraria de quase nada no dia seguinte, mas não importava. — A propósito… nós não conversamos sobre o que nós fizemos ontem à noite. Três vezes. Até as quatro da manhã

— E o que há para conversar?

— Nós somos irmãos — Ethan argumentou.

— É, e o fato de eu gostar de colocar o seu pau na minha boca não vai mudar o fato de que somos irmãos. Não, por favor, não comece com uma discussão filosófica interminável sobre se o que fizemos é certo ou errado. São nossas vidas. Nós decidimos o que é certo ou errado. Nunca na minha vida eu me neguei fazer algo que me desse prazer e que não ferisse ninguém. E quanto a você? Quer continuar sentindo prazer ou começar a se reprimir?

Eu quero continuar sentindo prazer ou continuar me reprimindo?

— Argh — resmungou a contragosto. — Que seja. Mas nós ainda vamos conversar sobre isso.

— Mas não agora. Então, você ainda está com aquela ereção?

— Na verdade, não. Que tal eu falar sobre a família Lemnsack?

Naquela noite, Nick foi para a cama pensativo, depois é claro de ter feito amor apaixonadamente com Ethan, contrariando sua promessa de algum dia falarem sobre aquilo. Nada demais. Nick era muito bom em fazer Ethan esquecer promessas que não lhe fossem interessantes.

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Não sabia se gostara mais de conhecer a história da família Hentz, embora os detalhes agora estivessem meio obscurecidos em sua mente, ou em ver a paixão com a qual Ethan lhe contara. Poucas vezes o via sair de seu casulo de acanhamento para dizer o que realmente pensava. A maior parte ele guardava para si mesmo. Não era de todo mal. Podia se tornar escritor algum dia.

A história da família Lemnsack não fora tão instigante quanto à da família Hentz, mas nem tudo são flores. Ele começou falando sobre sua bisavó, Doreah Lemnsack, que foi uma famosa atriz de cinema durante o século XX. Doreah inclusive chegou a ganhar um Oscar de Melhor Atriz por seu papel num filme em preto e branco ao qual Nick nunca iria assistir e a ser considerada uma das atrizes hollywoodianas mais bonitas e talentosas de todos os tempos. Uma das grandes damas do cinema em preto e branco. Morreu em 1980, com setenta e cinco anos. Ethan quase lhe bateu quando disse que ela provavelmente havia morrido para entregar sua beleza ao Nick que nasceria dezoito anos depois.

A localização da estatueta do Oscar de Doreah era desconhecida. Mas conhecendo sua família, poderia até estar enfiada numa das gavetas do guarda-roupa do quarto de seus pais, ali no fim do corredor.

Durante sua vida, Doreah fora cercada por muita polêmica por ter tido três filhos sem nunca ter se casado. Ethan disse não saber quem fora o pai ou os pais das crianças, e na verdade ninguém nunca soube. Ela morreu sem deixar explicações. Charles poderia ter sabido, mas agora ele estava morto e seus segredos se foram com ele.

Os três filhos chamavam-se Judith, Astrid e Orchild, este último que vinha a ser o avô dos meninos. Judith e Astrid fundaram juntos uma cadeia de restaurantes que chegou a se tornar consideravelmente poderosa, mas foi posteriormente vendida para, olha vejam só, a Kruger-Vorheel. Judith se casou, mas nunca teve filhos, e morreu em 1991. Astrid realmente nunca se casou. Ocorriam tumores inclusive de que ele poderia ter sido homossexual. Morreu em 1982 de causas desconhecidas. No entanto, se tais rumores houvessem sido verdadeiros, não havia motivo nenhum para que a causa da morte não fosse contaminação por HIV.

O avô Orchild, em vida, havia concorrido e exercido três mandatos consecutivos como senador pelo condado de Southeria, através do Partido Trabalhista, até morrer em 1994, um ano antes de Ethan nascer. Casara-se com uma romancista premiada chamada Doris Martell e tivera apenas um filho, Charles, que mandara para Harvard para um dia, quem sabe, se tornar igual a ele. Doris morreu um ano antes do marido. Nick chegava a pensar que se Orchild não tivesse morrido tão cedo, Charles provavelmente não teria se juntado à esposa na ONG, e sim ter seguido carreira política. E agora eles estariam morando na capital do país.

Só que não posso deixar o vício do e se me consumir, Nick pensou em seguida, um raro pensamento lógico e simples. Ethan está quase sucumbindo a ele, imaginando que, talvez, se os Hentz tivessem tido mais filhos, não estaríamos sós e blábláblá.

Mas podiam se dar ao direito de reclamarem do fato de conhecerem gerações tão longínquas de duas famílias e mesmo assim não terem remanescentes vivos além dos dois. Quais as possibilidades daquilo? Bem, mesmo num universo real eles precisariam lidar com uma inverossimilhança ou duas. Afinal, como lhe fora lembrado, a falta de parentes eliminou a possibilidade de rupturas e rixas internas. E Nick certamente não queria protagonizar a saga real dos órfãos Baudelaire.

De fato, tudo o que tinha que agradecer aos pais era que eles não tivessem morrido antes. E se o acidente tivesse acontecido em 2009, quando Ethan tinha catorze anos? Oh, não ele não iria aguentar. Porque acontecera um acidente em 2009, um acidente horrível que afetara a vida da família Hentz de forma inigualável e que os perseguiria enquanto vivessem, que consumia Nicholas todas as noites, mas que ele simplesmente não poderia conversar com Ethan sobre.

Porque a verdade era que Ethan não sabia disso e, se ele soubesse, Deus nos livre, se ele soubesse, bem, então Nick poderia dar adeus ao irmão mais velho bondoso e prestativo que conhecia, amava e idolatrava. Alguns segredos deviam permanecer guardados a qualquer custo. Aquele, principalmente. Pois era um segredo vermelho de sangue.

Ethan disse-lhe que teriam de limpar o quarto dos pais dos pertences pessoais no dia seguinte, quando chegassem da escola. E, ao longo dos próximos dias, mais pertences pessoais viriam de suas várias casas no mundo. Doloroso, extremamente doloroso, como às vezes apenas a lâmina de uma faca sabia ser, mas necessário.

Antes de dormir, Nicholas Hentz fechou os olhos e deixou que a carga emocional que o dominava saísse em forma de lágrimas, que eram salgadas como a pele de Ethan, aliviantes como seus beijos e abraços e quentes como seu sangue.