Como Vivem Os Anjos
3 Até Que O Mundo Acabe
Segunda de manhã, Academia Alphonse Enoi, banheiro masculino do segundo piso. Quatro boxes, três pias brilhando de brancos. Duas janelas pequenas semiabertas. Dois meninos, aproximadamente 16 ou 17 anos, gêmeos idênticos. Um se chamava Max e o outro Joshua. Ambos eram brancos, morenos, tinham um porte atlético e conversavam alegremente, embora falassem num tom baixo. Joshua segurava um celular onde rodava um vídeo. Falou:
— Dá pra acreditar que é ela?
— Quantos anos ela tem mesmo? — Max perguntou.
— Tem 12, mas essa boceta é mais rodada que pneu de carro.
Tomaram um minuto de silêncio enquanto olhavam o vídeo que rodava no celular.
— Coitada dela, nem faz ideia de que filmaram isso.
— Ninguém mandou ela ser puta.
— Caralho, quanta gente tem nesse vídeo?
— Umas 6 pessoas. É sério, ela ia na academia em frente a casa dela sem calcinha. A família dela toda sabia. Agora tá nessa. Parece que até o Hentz comeu ela.
— Nicholas Hentz?
— Quem mais?
— Tem o Ethan também.
— Ele não usa esse sobrenome. Aliás, ele é otário demais pra comer essa menina.
— Pensei que vocês fossem amigos.
— Que nada. Acontece que ele sempre passa as respostas dos deveres de casa para os amigos. Haha, que merda que ela fez passando isso pra mim.
— Tu colocou isso na internet, não foi?
— Não fui eu, tá doido?
— Só você tem esse vídeo, quem mais poderia ser?
— O Hentz. Eu passei isso pra ele ontem. Ele que pôs.
— Porra, ele vai se dar mal pra caralho.
— Vai, os pais dela provavelmente vão rastrear isso. Acho que eles vão ser expulsos. Os pais deles podem até ser presos. — Joshua riu.
— Mas o Nicholas não tem pais — disse Max.
— Então é o Lemnsack quem vai se foder. Vamos indo.
Os dois saíram. Nem sequer se deram conta de que um dos boxes estava ocupado. Ethan Lemnsack saiu deste, lavou as mãos e ajeitou levemente o cabelo, depois respirou fundo para controlar o ódio que crescia dentro dele, pôs um sorriso no rosto e saiu.
OoO
Nicholas Hentz odiava Esther Muffin.
Talvez porque ela fosse velha e tão caquética quanto uma múmia. Talvez porque tivesse um quadril tão imensamente grande que mal passava no espaço entre as fileiras de carteiras. Quem sabe fossem seus dentes tortos e amarelados pelo tabaco, ou sua voz que mais parecia um grasno, destruída pelo mesmo. Talvez fossem suas roupas espalhafatosas que sempre tiravam a atenção de todos, ou aquele tamanco que fazia aquele som insuportável. Talvez porque seu sobrenome sempre lhe desse fome.
Ou talvez porque fosse sua professora de matemática desde que podia se lembrar.
Nick odiava poucas coisas, matérias exatas eram uma delas. Esther Muffin também. Não era apenas o fato de que não conseguia se concentrar na matéria dela, não conseguia focar naquele rosto horrível e bexiguento por atrás daqueles óculos gigantescos que dobravam o tamanho de seus olhos e absorver o que ouvia. Nick não possuía uma boa memória e Muffin parecia simplesmente ignorar isso. Sim, ela o detestava também.
A Academia Alphonse Enoi tinha uma maldita tradição de manter os mesmos professores cadavéricos tanto quando fosse possível. Muffin cuidava de quase todas as aulas de matemática do ensino fundamental.
Havia um consenso silencioso em toda a instituição de que Esther Muffin era a professora mais odiada do universo.
Ela gostava de humilhar os alunos. Gostava de obrigá-los a ir até o quadro negro e forçá-los a fazer um exercício do qual sabia que não sabiam. E sua principal vítima era, como não podia deixar de ser, Nicholas Hentz. E ele não sabia por que ela o torturava mais do que aos outros. “Será que é porque eu já transei com a neta dela?” Muffin também não tolerava o fato de que Nick simplesmente não tinha a capacidade de ser bom em matemática. Ela o fazia ir até o quadro negro pelo menos cinco vezes toda aula, diligentemente. E ele nunca conseguia a resposta certa.
Só não pedia a Ethan para sair da Academia porque isso significaria uma vitória à velha.
Um dia, Nick perguntara ao irmão o que ele achava de Esther.
— Ela é durona, mas, sei lá, eu gostava dela. Ela sempre me pedia para ir à frente da sala e escrever no quadro.
— E, como um bom CDF, você adorava isso.
— Certamente.
— Eu acho que vou me matar, Ethan.
— Relaxe. Ano que vem você é o seu último ano no ensino fundamental, depois você se livra dela.
— Ok, agora eu tenho a certeza de que vou me matar.
E agora Esther Muffin estava lá, na frente da sala, balbuciando algo incompreensível como sempre que Nick não entendia. Perguntava-se se foi mesmo o cigarro que deixou sua pele tão amarelada daquele jeito ou se foi a falta de vitamina A.
Quando estava imaginando em como Muffin havia conseguido achar um vestido que coubesse nela, sua atenção foi recobrada por um pigarreio que já conhecia.
— Senhor Hentz. — Por que ela insistia em chamá-lo de “senhor”? Ela devia ter umas cem vezes a idade dele. — Quer vir ao quadro, por favor? — Apesar de aparecer um pedido, era uma ordem.
Nick olhou para o quadro negro cheio de rabiscos que julgou piores que letra de médico. Não entendia nada. Estava ciente dos olhares dos trinta alunos daquela sala repousando diretamente nele. Não adiantava, não havia nada que ele pudesse fazer.
— Eu não sei como fazer, senhora — disse quase num sussurro.
— Como disse? — Ela ia começar. Ele aumentou o tom, de modo de que toda a sala pudesse ouvir.
— Eu não sei como fazer, senhora. Eu, não, sei.
— Talvez se não vagueasse tanto e prestasse atenção na aula, você soubesse.
Nick mal estava conseguindo prestar atenção no que ela dizia, quanto mais no que ensinava. Sentiu a raiva crescendo dentro dele.
— Eu não consigo prestar atenção. Eu tenho déficit de atenção.
— Mas consegue prestar bastante atenção na parede, certo?
Soltou o ar que prendia. Mas que velha maldita.
— Venha ao quadro.
Nicholas se levantou da carteira imaginando se uma caneta conseguiria atravessar a pele de Esther Muffin e já ia se dirigir ao quadro negro quando a porta da sala se abriu.
— Olá, senhora Muffin. Desculpe-me por interromper sua aula, mas preciso falar com meu irmão. — Os olhos de Ethan pousaram em Nick, estavam afáveis. — Pegue suas coisas.
— Ah, mas é claro, Ethan. Com prazer — Muffin respondeu. Não que ela pudesse impedir Nick de sair da sala se ele estava sob a ordem de Ethan. Nick imaginou quem estava sendo mais puxa-saco, mas deixou essa ideia para trás.
Enfiou todos os pertences na mochila e saiu da sala com um ar vitorioso, enquanto sentia a aura escura de Esther Muffin devorando-lhe por dentro.
— A propósito — disse Ethan olhando para o quadro —, a resposta é 64. — E saiu, com Nick.
OoO
— Graças a Deus que você me tirou de lá, eu estava para me jogar pela janela.
— Tenho certeza que sim.
Estavam caminhando pelo trajeto escola-casa. As laranjeiras estavam dando frutos e um odor doce e agradável tomava o ambiente e flores pequenas e rosadas enfeitavam a calçada. Algumas crianças pequenas brincavam no quintal de uma casa amarelada de um andar, supervisionadas por uma babá. Havia poucos carros na rua. Estava tudo tão calmo que parecia ser de madrugada. O céu estava alaranjado.
Uma vez, Nick ouvira que quando um anjo morria, o céu ficava dessa cor.
— Por que vamos para casa?
Ethan ficou calado. Nick pensou que ele provavelmente estava pensativo.
Chegaram ao prédio, tomaram o elevador e entraram no apartamento. Ele estava levemente redecorado. O sofá branco em L havia sido substituído por um marrom da mesma forma, junto com um carpete da mesma cor, porém numa tonalidade mais clara. As poltronas e a mesinha de centro haviam-se ido. Ethan comprara novas e estas logo chegariam. A estante branca continuava lá, mas logo se iria também. O único detalhe novo na sala era um lustre antigo de cristal de cor escura, pendurado logo acima do espaço antes ocupado pela mesinha de centro.
Nick arrancou os tênis dos pés de qualquer jeito e se jogou no sofá. Não sabia por que, mas sentia-se feliz.
Ethan sentou-se ao seu lado.
— Sabe o que é isso? — Tirou algo do bolso. Algo fino e retangular.
— Um cartão de crédito?
— Sim. É seu. — Deu o cartão a Nick, que o aceitou completamente embasbacado.
— V-Vai me dar um cartão de crédito?
— Ele tem um limite mensal de 1000 dólares. Pode gastar da forma que quiser. Porém, é só isso. É tudo o que você vai receber por mês. Se estourar o limite, vai ter que se virar até o fim dele.
— Você acha que eu gasto 1000 dólares por mês?! — indagou quase gritando. Estava excitado, Ethan viu suas pupilas se dilatando. — Isso é incrível! Obrigado. — E o abraçou.
Ethan controlou sua vontade de apertar o pescoço do menor.
— Só porque você tem 1000 dólares por mês, não quer dizer que precisa gastar 1000 dólares por mês. Certo?
— Sim, sim, claro. — Ele mal estava ouvindo. Encarava o cartão como se todas as respostas da vida estivessem lá. Virou a cabeça loura bruscamente para Ethan, como se tivesse acabado de perceber que ele estava lá. — Qual a senha dele?
— Os dois primeiros dígitos são o dia do seu aniversário. O terceiro e o quarto são o mês do meu. O quinto e o sexto é o ano em que nossos pais morreram. Descobriu?
— Claro que não.
Ethan contou.
— Ah, sim. Vou me lembrar.
Ele não ia, provavelmente ia errar a senha duas dúzias de vezes antes de decorar definitivamente.
— Use sempre o crédito.
— Está bem. — Esperou alguns segundos e perguntou: — Não foi por isso que viemos para casa, certo?
— Não, não foi.
Mas àquela altura ele não estava mais ouvindo.
Ethan Lemnsack recostou-se no sofá confortável e achou incrível o fato de que Nick o escolhera. Provavelmente mandaria pintar as paredes também. Quem sabe ele pudesse ajudá-lo a escolher a cor. Tinha um talento natural para decoração. Mais um para muitos.
Após alguns segundos de silêncio, Ethan falou.
— Conhece uma menina chamada Daniella Schultz?
— Quem…? — ele sussurrou, ainda olhando para o cartão. A mente dele estava a mil quilômetros dali.
— Você pegou um vídeo em que ela aparecia transando com uns 6 caras e pôs na internet. Também provavelmente comeu ela.
Nick levou alguns segundos para processar o que Ethan disse. Sua mente era assim: em um momento, ele podia estar lento que não conseguisse somar 2 mais 2, no seguinte ele podia estar processando informações tão rápido quanto um computador.
E, naquele momento, seu raciocínio foi rápido, Nicholas Hentz percebeu uma coisa. Estava numa grande, grande encrenca.
Do tanto que conhecia Ethan, sabia que era inútil mentir.
— É, eu fiz isso.
Nick esperava muitas coisas, coisas que Ethan poderia fazer. Poderia gritar com ele, ou quem sabe achar graça da situação. Uma pontinha esperança crescia dentro do menor de que aquela seria a reação dele. Talvez ele achasse graça de tudo e pedisse para ele não fazer de novo.
Sim, Nicholas Hentz esperava muitas coisas de Ethan Lemnsack.
Mas não aquilo.
Não esperava que fosse aquilo. Nick nem o viu chegando. Apenas se deu conta do que aconteceu quando sentiu seu pescoço estalando pela força do tapa que Ethan dera em seu rosto.
Era a primeira vez que ele lhe batera.
Ethan continuou falando.
— MAS VOCÊ FICOU LOUCO?! — Ele se levantou do sofá, jogando o corpo para frente num impulso tão grande que fez o menor se encolher. Nick sentiu as lágrimas virem às córneas. Ethan baixou o tom. — Você faz ideia de como foi difícil para mim me emancipar? Faz ideia do quanto eu tive que procurar saber sobre isso para ter êxito? Você acha que foi fácil convencer o pai da Amy a deixá-la de casar comigo?! Não, não foi, Nicholas! Mas eu consegui, e por que, POR SUA CAUSA! Eu fiz de tudo para proteger VOCÊ, porque eu queria manter você seguro, eu passei noites em claro lendo livros de direito POR SUA CAUSA! E eu consegui. E para quê? Para aturar aquela nojenta da Sue Molis todos os meses até que você atinja a maioridade, e por quê? POR. VOCÊ.
Ethan estava tão alterado que levou as mãos até os cabelos negros e os apertou com força. Alguns fios romperam-se.
— E como é que você me agradece? COMO É QUE VOCÊ ME AGRADECE POR TER CUIDADO DE VOCÊ POR TODA A SUA VIDA? Me faz uma merda dessas! Pelo amor de Deus, você faz ideia da merda que você fez? AQUELA MENINA É MENOR DE IDADE, PORRA! Faz ideia do que você poderia ter feito? Os pais dela podem ser presos, Nicholas, EU POSSO PERDER A SUA GUARDA! É isso que você quer?! Depois de tudo que eu passei para você ter a melhor vida possível?! VOCÊ AGE COMO SE NÃO TIVESSE UM NEURÔNIO SEQUER NA CABEÇA?!
Ethan urrou de frustração. Encostou a cabeça na parede branca, muito branca. Dessa vez, falou tão baixo que quase sussurrou.
— Eu nunca me importei com o fato de você ser promíscuo. Desde que usasse camisinha, pra mim estava ótimo. Eu errei, não é? Errei com você desde o início. Eu não estava pronto para criar uma criança, mas eu o fiz. E deu nisso.
Então, pela primeira vez desde que dera o tapa, Ethan Lemnsack olhou para Nicholas Hentz pela primeira vez. Foi um olhar rápido, não assimilou a imagem porque sabia que, se o fizesse, veria uma criança completamente aterrorizada. Apenas tomou o cartão de crédito que estava em cima da mesinha de centro e disse, dirigindo-se a seu quarto.
— É melhor que você reze para eu não tirar apenas esse cartão de você.
E bateu a porta.
OoO
Já era tarde da noite quando Nicholas entrou no quarto de Ethan, onde este estava deitado na cama, olhando para o teto, olhando para nada.
Nick subiu na cama e se aninhou ao irmão. Colocou a cabeça em seu peito. Um momento de silêncio passou até que ele falou.
— Como você descobriu o nome dela? — indagou com sua voz estridente, mas no momento estava rouca.
Ethan achou a pergunta estranha, mas respondeu.
— Perguntei ao Max Bowshow. Ele é um covarde. Quase desmaia quando eu me aproximo dele. Ele não tem coragem de xingar a pessoa nem pelas costas…
— Fizeram isso com você?
— Xingar pelas costas? Sim. Fazem o tempo todo. Eu não me iludo.
— Isso é tão idiota… — Nick murmurou. — É muito fácil falar mal da pessoa quando ela não está lá pra se defender.
— Principalmente porque metade da escola me odeia.
— Não diga isso.
— Mas é verdade.
No início do ano, um menino da mesma sala de Ethan chamado Tommy Overgreen brigara fisicamente com Nick. Ele era uma das pessoas mais populares da Alphonse Enoi e pelo menos 6 funcionários do alto escalão da instituição eram Overgreens. A discussão foi por um motivo que ninguém se lembrava muito bem em que Nick saiu com um olho roxo e Tommy com um braço quebrado. Os dois foram suspensos. Quando a suspensão acabou e Ethan o confrontou por brigar com uma pessoa com quase duas vezes menos seu tamanho, na frente de quase todo o ensino médio da escola, Tommy simplesmente riu dele.
E então ele morreu. Na frente de todo mundo.
Teve um AVC. Obviamente, não era culpa de Ethan, já haviam tido casos na família Overgreen. Mas que adolescente vai achar isso?
As acusações mais estúpidas surgiram. Boatos também. Alguns diziam que Tommy Overgreen não teve um AVC, que foi envenenado. Outros diziam que tudo fora uma farsa, desde a discussão entre ele e Nick, para abalar o garoto e fazê-lo ter um acidente vascular cerebral, pois havia uma antiga rixa entre a família Lemnsack Hentz e a Overgreen. Bobagem. Boatos de adolescentes. Porém, uma versão da história razoavelmente verossímil quase fez Ethan ser expulso da escola. O fato de que havia Overgreens na direção também ajudou.
Isso só não aconteceu porque a última palavra era de Hellen Page, que recusou terminantemente a expulsão de Ethan. O caso foi abafado, mas Ethan ganhara para sempre o medo de todos os alunos da Academia Alphonse Enoi.
Era por isso que ninguém implicava com Nick na frente dele, ou o xingava na cara.
— Eles têm medo de você, é diferente.
— E muito reconfortante.
Um silêncio se instalou entre eles. Ethan começou, a contragosto, a gostar no toque de Nick. Mas não queria puxá-lo para si e fazer amor com ele como desejava ansiosamente. E não era por orgulho.
Era por vergonha.
Ele havia batido numa criança que o amava demais para ligar pra isso.
“Deus, o que eu fiz?”
— Nick…
— Não precisa pedir desculpas.
O menor se sentou na cama. Ethan repetiu a ação. Nick falou:
— Eu estava errado. Desculpa. Eu já tirei o vídeo da internet e não teve quase nenhum acesso. É só que… Ethan, eu não entendo isso.
— Não entende o quê?
— Não entendo por que as pessoas fazem tanto estardalhaço por causa disso. Quer dizer, parece que todo mundo acha que quando alguém faz 18 anos, ela adquire uma mentalidade completamente diferente da que tinha quando era menor de idade, suficiente para aparecer cm pornografia. Sei lá… isso é tão estranho. Tão hipócrita.
— Eu entendo o seu ponto. Acho que todo mundo já se perguntou isso alguma vez. Mas… é assim que as coisas são. Mesmo que não entendamos. — Ethan inibiu a vontade de choro com um grande suspiro. — Ah, me desculpe por ter batido em você, Nick.
— Tudo bem.
A princípio, no momento em que Ethan deixara a sala, Nick estava aterrorizado. Depois, ficou deprimido. Então veio a negação. E à medida que o tempo passava e ele refletia sobre o que havia feito, veio a raiva. Então, por fim, a aceitação. Era incrível como se parecera com os cinco estágios de luto.
Nick nunca havia visto Ethan daquela forma antes, não sentindo aquela raiva, expressando aquele ódio. Nem mesmo quando discutiu com Tommy Overgreen. Era como se fosse outra pessoa que havia se apoderado do corpo do maior e feito aquilo. Como se outra pessoa tivesse gritado e dado-lhe um tapa. Mas não era, e Nick sabia disso.
Ele errara e aceitara isso. O tapa nem doera tanto assim, afinal.
Ethan. Ele não ficara realmente furioso com o fato de que ele havia feito aquilo, mas sim que ele havia feito aquilo e certamente estava pouco se importando. Como fazer aquela criança entender o que ele havia feito? Não havia como e era isso o que frustrava Ethan. A sensação de que talvez o menor fosse um pouco, quem sabe apenas um pouco mais responsável se nunca tivesse interferido em seu crescimento. Que talvez se metesse menos em encrencas.
Mas sabia que esse pensamento só era influenciado pela sua baixa autoestima. Ethan havia feito um bom trabalho no menor. Nick apenas era um adolescente. Estúpido por natureza.
— Posso ficar com o cartão de crédito?
Ethan riu e acariciou suavemente o rosto do menor.
— Não. A propósito, você está de castigo. Sem sair de casa pelo resto do mês.
— O QUÊ?!
Ethan se levantou da cama com um desagradável sorriso de satisfação no rosto. Ele abriu o guarda-roupa, abriu um pequeno compartimento embutido no fundo desde com uma chave que tirara do bolso e colocou o cartão de crédito lá. Depois fechou o compartimento e guardou a chave.
— Você acha mesmo que eu não sei onde você esconde essa chave?
— Eu sei que você sabe. Mas você não vai pegar, não é, Nicholas?
Nick não respondeu nada. Enfiou a cabeça nos travesseiros e resmungou algo incompreensível.
— Vai logo fazer o jantar.
— Como quiser, maninho.
OoO
Longe dali, no parque da cidade, sentados num banco de madeira, dois homens conversavam. Um deles segurava um envelope de papel pardo.
— Espero que tenha um bom motivo pra me ter feito vir aqui a essa hora — disse um deles.
— Eu tenho. — O outro colocou o envelope em suas mãos, que o abriu e examinou seu conteúdo. Sua expressão tomou um ar de perplexidade à medida que o tempo passava.
— Puta que o pariu, tem certeza que são eles?
— Absoluta, eles estudam na Academia Alphonse Enoi, aquele lugar parece uma fortaleza, você não faz ideia da dificuldade que tive em descobrir que tem um Ethan e um Nicholas Lemnsack Hentz lá. Mas tenho alguns contatos. Eles até registraram os sobrenomes com alguns erros pra despistar. Pode ver aí, as cópias dos registros deles na instituição. Também tem a certidão de nascimento.
— Sabe quando é que vale uma foto com boa resolução dos únicos herdeiros de Mary e Charles Lemnsack Hentz?
— Uns 500.000 dólares, pelo menos. Eu tirei algumas, mas ficaram um lixo.
— E se não forem eles? Quer dizer, devem haver outros Lemnsack Hentz no mundo.
— Pois é. Vou conseguir mais algumas provas antes de tentar tirar uma foto melhor.
— Eu vou te ajudar nisso. Então vendemos as fotos para o tabloide que pagar mais e dividimos o dinheiro, certo? Tenho contatos em alguns lugares.
— Fechado.
Os dois paparazzi apertaram as mãos e partiram, cada qual na direção oposta.
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