Como Vivem Os Anjos
1 Primeira Temporada — Piloto
In our darkest hour
In my deepest despair
Will you still care?
Will you be there?
In my trials and my tribulations
Through our doubts and frustrations
In my violence
In my turbulence
Through my fear and my confessions
In my anguish and my pain
Through my joy and my sorrow
In the promise of another tomorrow
I'll never let you part
For you're always in my heart.
(Will You Be There
— Michael Jackson)
OoO
— Oh, garoto! Para de correr!
— Vem me pegar!
O primeiro garoto levou uma mão à testa suada, tanto para tapar o ardor do sol, que brilhava na imponente imensidão azul sem nuvens, quanto para impedir o início de uma dor de cabeça. O fedor da fumaça dos escapamentos dos carros misturava-se aos seus barulhos e à multidão adolescente que infestara aquela rua como formigas, recentemente saídos da escola, e nada disso ajudava a veia que lentamente inchava e latejava dentro de sua cabeça. Sua casa localizava-se a pouco menos de oitocentos metros. Era o trajeto que ele fazia há dois anos, e que mais gostava de fazer.
Voltou a olhar para frente. O segundo garoto, uma caricatura de gente, loiro e muito baixo, ainda que fosse mais velho que aparentava, costurara um enorme sorriso nos lábios e uma expressão ansiosa e agitada no resto do rosto. Não havia nada para ansiar, naturalmente, mas isso não queria dizer que o cérebro dele não tinha o direito de mandar injetar adrenalina nas veias como se fosse café passando por um canudinho.
O segundo, mais novo, andava de costas, virado para o primeiro, sem ver no que ia em direção, obstinado e teimoso como apenas um adolescente sabia ser.
— Vou pegar os restos que sobrarem quando você for atropelado por um caminhão. Trate de andar direito, sim?
Apertou o passo e se aproximou dele. Obrigou-o a andar normalmente e passou o braço direito por seu pescoço. Os dois pararam na beira da calçada, esperando para atravessar.
— Não preciso ver para onde eu estou indo — o menor sussurrou como se estivesse contando um grande segredo. — Só preciso ver onde eu estive.
— Tenho quase certeza de já ter ouvido essa frase antes. Não faça isso de novo.
— Como quiser, Ethan, não vou fazer. — Envolveu a cintura do maior com o braço esquerdo com naturalidade. — Afinal, é você quem me alimenta.
— Isso mesmo. Nicholas.
Os carros pararam e eles finalmente atravessaram a rua. Algumas pessoas podiam parar discretamente, ou nem tão discretamente assim, e fitar aqueles dois irmãos agarrados, mas ninguém nunca realmente dizia nada.
Continuaram a andar até chegarem a um prédio alto, de vinte e três andares, branco e vermelho. Passaram pela portaria e subiram as escadarias, e então atravessaram o que nada mais era senão um pátio vazio cercado por roseiras dos dois lados. O hall era um recinto pequeno, confortável e moderno cujas quatro paredes eram feitas de vidro. Sua mobília consistia em dois sofás e algumas poltronas, além de vasos de plantas. O elevador estava ao fundo.
Ethan, o mais velho, apertou o botão do vigésimo terceiro andar e eles começaram a subir. Alguns segundos depois, as portas se abriram para um belo corredor da mesma cor do prédio, vazio a não ser pela porta de madeira ao fundo.
O apartamento era moderno, extremamente branco, branco até demais. Havia branco em todas as partes, no sofá em forma de L no canto da sala, nas duas poltronas apontadas para ele, nos pés de madeira da mesinha de centro, no tapete persa e na estante branca atulhada de livros antigos de Direito e Economia, uma das poucas coisas cuja cor destoava, embora a televisão implantada na parede também fosse surpreendentemente branca. Havia alguns quadros modernistas espalhados pelas paredes os quais Nick nunca se dera ao trabalho de compreender totalmente.
— Você vai fazer algo mais tarde que requeira minha gloriosa presença? — indagou Nick após jogar a mochila da escola no meio da sala de qualquer jeito. — Ou posso sair? — E começou a tirar o uniforme da escola, igualmente atirando-o para os lados.
— Com quem? — Ethan fez esforço para olhar para o rosto dele.
— Sarah. — Então ele sorriu.
Bem, não havia muitos momentos em que Ethan se atrevia a cair no charme natural de seu irmão, mas aquele era, infeliz e deliciosamente, um deles. Havia algumas coisas que não se podia negar a um garoto com um sorriso tão lindo, e sair mais tarde com uma garota era uma dessas coisas, e Nicholas era um desses garotos. E, além disso, ele estava nu.
Ethan também sabia muito bem que eles não iriam propriamente sair para lugar algum, mas tudo o que fez foi passar a mão no cabelo angelical do menor com doçura.
— Volte antes das nove horas.
— Então que assim seja. — E, dito isso, Nick desapareceu no banheiro do corredor
Ethan foi até seu quarto, guardou a mochila cuidadosamente no guarda-roupa, tirou o uniforme da escola, dobrou-o para que não amassasse e colocou-o também no guarda-roupa. Voltou à sala, recolheu as roupas e a mochila do irmão mais novo e fez a mesma coisa, só que o guarda-roupa era o do quarto dele, que não era menos bagunçado do que seus hábitos o fizeram parecer.
Dirigiu-se de volta ao banheiro do próprio quarto e tirou a última peça de roupa, jogou-a no cesto e entrou debaixo do chuveiro quente. Depois que terminou, vestiu roupas limpas e jogou-se na cama, sentindo as costas doerem e a dor de cabeça se intensificar.
Um analgésico, seu reino por um analgésico.
— Sarah — repetiu pra si mesmo mentalmente. Aquele nome não lhe dizia nada, mas também não dizia nada a Nick. Provavelmente teria que aceitar mais cedo ou mais tarde que seu adorável irmão de treze anos era mais sexualmente ativo que a maioria dos adultos que encontrava ocasionalmente na rua. E também voltar a reprimir a velha inveja de seu coração que gritava que Nick era lindo e carismático enquanto Ethan era introvertido e retraído.
Levantou-se da cama ignorando as dores físicas e emocionais e fitou-se na frente do espelho. O que via era um garoto talvez pálido demais, de dezesseis anos e com cabelos espessos e negros de tamanho mediano, e olhos tão escuros que as pupilas eram indistinguíveis da íris. Nick gostava de dizer que eles hipnotizavam quem olhava por muito tempo, mas Ethan nunca olhava ninguém nos olhos por muito tempo. Passou a prestar atenção ao redor deles. As sobrancelhas também eram medianas, o nariz não era nem fino nem largo, os lábios não eram nem compridos nem pequenos. Tudo mediano. Tudo medíocre. Podia ser feio, normal ou bonito, dependendo do dia e do humor. Além disso, sua altura era de apenas um metro e sessenta e cinco centímetros, o que por si só já era suficientemente irritante. E também se achava magro demais, embora Nick dissesse que não fosse.
Nicholas era essencialmente diferente. Seu cabelo era maior que o de Ethan, embora não chegasse a ser comprido, e era da cor do ouro puro e tão liso quanto seda, como o cabelo de um bebê recém-nascido, que por algum motivo misterioso é sempre a coisa mais cheirosa do mundo. A pele era de um dourado claro. O rosto parecia feito de porcelana, as feições eram tão delicadas, quase infantis, que qualquer um poderia confundi-lo com uma menina de longe, ou mesmo de perto. A voz estridente ajudava. Nick tinha maçãs do rosto elevadas e protuberantes, um queixo fino, sobrancelhas louro-escuras, nariz e lábios como os de Ethan e olhos e cílios compridos e extremamente negros como uma noite sem estrelas nem lua. Para variar, ele era menor que Ethan. Tinha um metro e cinquenta e três centímetros.
Toda essa combinação de meiguice e delicadeza, mais a voz fina, a baixa estatura e os olhos enormes e pidões como os de um cachorro abandonado dotavam Nicholas de um talento natural para despertar os fetiches mais esquisitos e indesejáveis de uma pessoa. Ele sabia usar a aparência de criança para seduzir, e não só no sentido sexual, mas sim para conseguir praticamente qualquer coisa que queria. Mas ora, ele não acabara de fazer isso com Ethan agora há pouco? Aquele filhote de lobo em pele de cordeiro?
Ethan se culpava — e congratulava — por isso.
Nicholas Antonella Lemnsack Hentz perdeu a virgindade no aniversário de onze anos, graças a seu invisível irmão. Uma prostituta de presente de aniversário, por que não? A transa que eu nunca tive mais cara da minha vida, Ethan repetia pra si mesmo todo dia, um mantra interminável, uma filosofia de vida. Mas, no fundo, não se arrependia. Não que Nick fosse maduro o suficiente para aquilo na época, mas tampouco era imaturo. Era difícil saber, difícil escolher. Depois de um tempo e de muitas saídas de Nicholas a tarde para voltar até no máximo às nove horas, passou a perguntar-se se realmente valera a pena gastar as economias de toda uma vida para tirar a inocência do irmão. Mas quando olhava fundo nos olhos cheios de energia de Nick, mesmo que por apenas alguns segundos, sabia que sim. Desde aquela primeira vez, Nicholas estava sempre transando com alguém. Ethan não sabia se sentia inveja ou frustração, talvez um misto dos dois, ou talvez nenhum. Na verdade, não tinha tempo de sentir nada. O quarto de Nick sempre o ocupava. Era incrível a habilidade que ele tinha de fazer bagunça suficiente para uma semana em apenas um dia.
Mas ajudava nisso o fato de Nick ter Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Era um problema, e não só na escola, mas em praticamente tudo. Ethan poderia falar-lhe uma coisa e no minuto seguinte Nick se esquecer do que foi-lhe dito. Não se importava realmente com a desorganização e desleixo do menor porque estava acostumado, sempre esteve. Também não ligava muito para as notas deploráveis e vermelhas que ele recebia em praticamente todos os boletins. Importava-se mais com a impulsividade e impaciência que Nick tinha. Ele frequentemente não conseguia concluir um pensamento complexo nem guardar informações simples por mais de uma hora. A memória curta dele era horrível. Tinha sempre que anotar tudo, mas também se esquecia muito de fazer isso.
Importava-se com isso porque quando as pessoas chamavam Nick de estúpido por tirar notas baixas, isso o afetava a ponto de deixá-lo quase doente. Não era culpa dele. É, todo mundo tem seu ponto fraco, e por maior que seja a barreira que cerque seus sentimentos, uma hora ela há de cair, mesmo que seja reconstruída depois.
Ethan amava o irmão mais que a sua própria e miserável existência. Chegava a sentir um ciúmes doentio de praticamente qualquer um que se aproximasse emocionalmente demais dele, embora não demonstrasse e Nick, tanto quanto sabia, não fizesse ideia. Tampouco sabotava as meninas por quem ele às vezes se apaixonava e largava depois. Não era tão baixo. Então, como não podia deixar de ser, fazia o que fizera a vida toda em situações que o incomodavam e envolviam outras pessoas ao mesmo tempo: nada. Deixava que a dor lhe corroesse por dentro como ácido, enquanto exalava um sorriso medonho ao ouvir Nick falar que, dentre todas as garotas com quem transou àquele mês, a de número oito foi sua preferida porque ela teve um orgasmo múltiplo. Não o condenava por falar assim. Nick conseguia falar de poucas coisas sem ficar entediado, se dispersar ou distrair com um pássaro voando perto da janela.
Em cima da cômoda, havia um retrato de quatro pessoas. Duas delas eram os dois irmãos e as outras duas eram seus pais. O homem era parecido com Ethan, com olhos e cabelos negros, enquanto a mulher era a cara de Nick, loura com olhos negros. Aquela foto não tinha muito tempo, o que era engraçado porque a última vez que Ethan vira seus pais fora no Dia de Ação de Graças do ano passado. E isso já tinha mais de dois meses.
Contando que seus pais não tinham, ou não tiravam, férias e desprezavam feriados, ambos viajavam quase seis meses por ano, tudo de uma vez ou em intervalos regulares, e quase sempre juntos. Os outros seis meses normalmente eram compensados com longas manhãs, tardes e noites passadas na cidade, no escritório da ONG que ambos dividiam. E não era tão ruim quanto parecia. Houve um ano, há uns três anos, em que eles só apareceram em casa por cerca de dois meses.
Isso não era o que realmente doía. Era que às vezes eles não lembravam que o nome do meio de Ethan era Barcarolli, que sua cor preferida era preto ou que Nick nascera às cinco horas e trinta e quatro minutos da manhã do dia 3 de junho de 1998, no Hospital Saint Roese, e que nunca aprendera a amarrar os sapatos. Essas coisas o irritavam. Para falar a verdade, Ethan nunca sentiu realmente a falta deles. Era mais fácil suportar a dor dessa maneira indiferente e egoísta do que encará-la como negligência e deixá-la que o corroesse — Ethan não tinha condições de se corroer mais do que já o fazia —, embora seus fabulosos pais fossem seus únicos parentes vivos. Seu pai era filho único e tivera um tio e uma tia que não tiveram filhos e morreram nos anos 80 e 90, respectivamente, e pais que morreram nos anos 90, os dois. Os irmãos nunca conheceram nenhum deles. Sua mãe não tinha irmãos ou tios, nunca teve. E seus pais morreram em 1990 e 2000.
Presos numa longa linhagem de mortos, estavam essencialmente sozinhos.
E eram ricos, podres de ricos. Alguns diziam que absurdamente ricos. Seus ancestrais foram, de certo, absurdamente ricos, mas Ethan não sabia bem se ainda eram. Viviam num confortável apartamento de classe média e iam a uma escola particular, nada de muito interessante. Seus pais também eram consideravelmente famosos como um casal de filantropos que viajava o mundo todo fundando hospitais na África, doando um milhão aqui ou dois milhões acolá para um punhado de orfanatos na América Latina, ajudando vítimas de furacões e terremotos na Indonésia e lutando contra o aquecimento global na Antártida.
Mesmo assim, era Ethan quem geria aquela casa. Não sabia quanto dinheiro os pais tinham, mas sabia que tinha as senhas dos cartões de crédito e que eles, teoricamente, não tinham limite. Sabia que podia comprar absolutamente qualquer coisa que quisesse e seus pais nunca falariam nada. Não tinham empregados por pura opção. No momento em que Nick se tornou capaz de ficar em casa sozinho sem tocar fogo em nada, Ethan garantira que seus pais nunca mais chamassem outra babá. Gostava de cuidar de Nick e de saber que, sem ele, o menor provável e literalmente morreria de fome. Era um pensamento meio doentio, mas era verdade, não podia negar. Cuidar de Nick era uma das coisas que o faziam levantar da cama de manhã. Isso e tirar boas notas na escola.
E a escola… havia os problemas da escola.
Por puro capricho dos deuses, que acharam que a brincadeira ainda não estava completa ou suficientemente divertida, estes decidiram presentear Nicholas não apenas com TDAH, pais ausentes e aparência de criança, mas também com pavio curto, alta intolerância a ofensas e uma considerável falta de altura e desrespeito por regras. O resultado não poderia ser mais esplêndido: não se passava uma semana em que Nick não cometesse alguma infração, fosse matar aula para transar nos fundos da escola, se meter numa briga com alguém com o dobro de seu tamanho ou discutir incansavelmente com um professor até que ele se irritasse e o expulsasse de sala. Mas, como não podia deixar de ser, o menino era obscenamente popular. Ethan não sabia como ele ainda não havia sido expulso aos enxotes. Podia ser a influência de seus pais. Podia ser o caso fictício de Nick com alguma coordenadora casada.
E agora, uma vez mais como já sempre fora, Nicholas estava saindo para passar a tarde inteira na cama com uma garota cujo sobrenome ele devia desconhecer enquanto Ethan Lemnsack deitava-se na cama, divagando sobre a própria vida e esperando o analgésico que acabara de tomar fazer efeito, ansioso para começar a limpar o quarto de Nick, os outros cômodos, fazer o jantar e o dever de casa. E, se desse tempo, poderia descansar o pensamento à noite lendo Dante Alighieri em italiano.
Não iria fazer almoço àquele dia. Não dava tempo. Pediu no delivery o que sabia que Nick gostava e então pediu a mesma coisa, só que repondo os legumes anteriormente tirados. Algumas crianças realmente nunca cresciam. E o quarto dele estava mais bagunçado que nunca. E os móveis da sala não estavam estranhamente fora de lugar?
Pelo menos teria com o que se preocupar durante a tarde inteira. Ethan afundou o rosto no travesseiro e fechou os olhos, esperando a dor de cabeça passar para, finalmente, poder trabalhar naquilo que a vida caprichosamente lhe reservara.
Era fim de tarde. Numa enorme mansão do centro da cidade cuja arquitetura datava do século XIV, embora aquela casa devesse ter sido construída há menos de duas décadas. No quarto mais alto do leste da casa, um cômodo bege e róseo, de extremo bom gosto, a desnecessária cama king-size resmungava sob os dois corpos adolescentes ensopados de suor em cujas veias as moléculas de endorfina e adrenalina se expandiam como pequenos universos.
Nick estava por cima, naturalmente nu, tentando ignorar o fato de que seus pés batiam nos tornozelos dela e só com muito esforço conseguia beijar seu pescoço. O fato de seu pênis estar preso dentro da vagina dela dificultava consideravelmente as coisas. Sarah Pensy era herdeira de um magnata do petróleo e seu lindo corpo sarado de quarenta milhões de dólares em ouro negro brilhava de suor e excitação. Nick não parou de pressionar o quadril contra o dela mesmo quando sentiu seu espasmo que indicava a iminência do orgasmo. Os seios e as coxas continuaram a ser apertados, os mamilos ainda eram lambidos e chupões ainda eram dados. Ambos tinham cabelos loiros, mas isso não vinha muito ao caso.
Nick empreendeu mais esforço em engrossar a voz quando gritou na hora da ejaculação do que quando trabalhou com a língua para dar prazer à Sarah. Sentiu-a encher-se de sêmen, mas não exatamente, porque, se deus quisesse, tudo ficou retido na camisinha. Falando nisso, Nick deu um nó na abertura assim que saiu de dentro de Sarah. Falando nela, seus mamilos ainda estavam duros quando ele finalmente voltou do banheiro, o que o fez sentir uma pontada de orgulho. Afinal, que tipo de herdeira milionária de dezessete iria para a cama com um garoto de treze anos?
Refletia sobre isso enquanto vestia as roupas com uma pressa descuidada. Por duas vezes tropeçou nos próprios pés e quase caiu enquanto vestia a calça, e quando enfiou a cabeça pela abertura da camisa, seus cabelos louros enrolaram-se todos. Olhou no relógio. Começava a pensar quem foi que lhe presenteara com ele e quando, quando notou que eram oito horas e vinte e sete minutos. Daria tempo de chegar em casa antes de estourar o limite de tempo e Ethan decidir cortar suas refeições pela metade. Ele nunca fizera isso, mas desde que podia lembrar Nick nunca tinha desobedecido uma regra sua, então não dava para saber.
Bom, tinha desobedecido uma vez… balançou a cabeça. Não era hora de pensar naquelas coisas. Não quando Sarah Pensy queria arrastá-lo de volta para a cama.
— Você realmente já quer ir? — ela indagou ronronando. Sentada na beira da cama e mesmo assim olhando Nick nos olhos, parecia uma amazona.
— Preciso ir.
— Tem certeza? — Os seios dela deviam ser feitos de silicone. Não era possível que fossem tão perfeitamente redondos. O pênis de Nick deu sinais de vida novamente, mas ele virou a cara antes que mudasse de ideia.
— Sinto muito, mas eu tenho que voltar para casa. Tenho um garoto à minha espera.
Ela provavelmente não estava acostumada a ser rejeitada desse jeito, ainda mais por outro suposto homem. Mas o homem era Ethan, e Nick trocaria todas as garotas por ele.
Em casa, Ethan lutava corajosamente contra uma maldita e minúscula mancha verde-escura que de alguma maldita forma se impregnara contra a madeira branca da estante da sala. Já tentara todos os produtos químicos que tinha em casa. Se Nick chegasse atrasado, poderia abrir o estômago dele e usar o ácido clorídrico.
O telefone tocou. Ethan odiava atender ao telefone residencial porque, normalmente, nunca era para ele. Na verdade, raramente seu próprio celular tocava, e quando tocava quase sempre era sua mãe para avisar que acabaram de sair do aeroporto.
— Sim? — disse distraidamente equilibrando o telefone entre o rosto e o ombro. Era o advogado de seus pais. — Oh, sim, é Ethan. Está bem. Amanhã de manhã? Está bem. Sim, aviso a ele também. Obrigado. De nada.
O barulho de chaves apareceu por trás da porta de entrada. Todo o cenário da sala parecia estar aceitável. O vaso de flores em cima da mesa de jantar displicentemente desarrumado para quebrar a expectativa, as almofadas do sofá afofadas, mas não demais, os quadros modernistas trocados de lugar para causar uma confusão proposital às visitas. Estava torcendo o pano nas próprias mãos quando Nick surgiu da porta, bateu-a e jogou-se de qualquer jeito no sofá, mas não sem antes arrancar os sapatos e atirá-los pelo chão.
— Quando nossos pais vão voltar? — ele indagou.
Ultimamente trovoava bastante, e Nick tinha um medo secreto de trovões. Não o suficiente para fazê-lo querer dormir no quarto de Ethan, mas o suficiente para fazê-lo chorar. Ele também não sabia que Ethan conhecia esse medo, o que era uma tolice. Mas não pretendia falar nada. Devia ser muito difícil para um garoto de treze anos admitir que tinha medo do barulho de um relâmpago atravessando o ar.
Aproximou-se do irmão e deu um beijo em sua testa, sentando-se precariamente na beirada do sofá. Seu cabelo louro estava grudado à testa, como se ele tivesse subido aqueles vinte e três andares pela escada. Então Ethan percebeu que ele provavelmente fizera isso.
— Meu Deus, seu estúpido. — Imediatamente pôs-se a sentir a testa dele. — Sabe que não pode correr exaustivamente. Você quer voltar a ter falta de ar? Ou taquicardia? Quer saber, sente-se. Eu vou medir sua pressão e pegar um calmante.
Nick não disse nada porque provavelmente sabia que nada nesse mundo faria Ethan mudar de ideia sobre a consulta médica caseira. Ele respondeu às questões do menor enquanto amarrava o medidor de pressão no pulso de Nick.
— Eles voltam amanhã de manhã. Quando voltarmos da escola, provavelmente já estarão aqui. Vão tomar o avião em Berlim à meia-noite.
— E onde…?
A máquina começou a apertar.
— Shh, não fale. Não se mexa. Mantenha o pulso levantado. Eles estão em Frankfurt. — Nick continuava genuinamente confuso enquanto a máquina calculava sua pressão. — Isso fica na Alemanha. Eles foram à Romênia abrir uma filial da ONG e aproveitaram para dar um passeio pela Europa. Sim, Nicholas, a Europa é consideravelmente pequena. Você pode ir a quase todos os lugares de trem. E não, não dá para vir da Alemanha para cá de trem porque tem um monte de água cobrindo a terra. Chama-se oceano.
— Seu imbecil. Treze por nove. Está feliz agora?
— Sim, tome o calmante.
Ele tomou. Ethan passou a observar fascinado seu irmão ruborizar-se de irritação. Fazia aquilo de propósito, era muito gratificante porque Nick ficava adorável com as bochechas vermelhas e a carranca no rosto.
— Você viu que eu limpei a casa? — indagou ansiosamente.
— O quê?
— Você viu que eu limpei a casa?
— Ah, vi.
Ele provavelmente não vira, mas sua tentativa de agradar a Ethan foi emocionante.
— Estou feliz que eles tenham ido passear pela Europa — Nick murmurou. Deu um beijo longo na bochecha de Ethan e levantou-se do sofá. — Você soube que a mídia anda especulando que nosso pai tem um filho fora do casamento?
— Sim, eu soube. Não acredito nisso, mas se for realmente verdade, não se preocupe com nada. Conquanto eu queira, ninguém vai aparecer nas nossas vidas de repente.
Era uma promessa vaga e boba, mas Nick sorriu mesmo assim.
— Obrigado por ter limpado a casa e o meu quarto. Eu vou tentar ser menos bagunceiro. Vou tomar um banho e dormir.
— De nada, e obrigado. Boa noite.
Nick se afastou da sala pelo corredor. A cada dois passos que dava, arrancava uma peça de roupa e a jogava no chão, já esquecido da promessa de dois segundos atrás. Era muito difícil não olhar para ele quando estava totalmente nu.
— Algumas coisas nunca mudam — resmungou para si mesmo. Levantou-se e começou a recolher as roupas do irmão.
O dia seguinte amanheceu com nuvens ralas como algodão-doce esmagado no chão. O laranja gritava no horizonte, misturando-se com o púrpura crepuscular num manto celestial de azul-claro. Ethan acordou às cinco e meia da manhã. As aulas começavam às sete horas, mas eles tinham o costume de chegar cedo na escola porque Nick precisava de algum tempo para beijar todas as garotas que queria. Além disso, Ethan precisava de meia hora para acordá-lo e fazê-lo tomar banho.
Naquele presente momento, seus pais deviam estar cortando os céus do Atlântico, se já não tivessem atingido a costa leste do continente norte-americano. Chegariam em poucas horas. Ethan não tinha o costume de entrar no quarto dos pais, mas quebrou essa regra para trocar os lençóis e as cortinas porque tinha certeza que tinham começado a mofar.
Enquanto Nicholas cantava no chuveiro o mais alto e estridente possível, Ethan fazia mingau de aveia. Nick gostava de ovos e bacon, mas era uma comida pesada demais para ele comer de manhã. Havia sim um certo prazer em ver a gordura descendo pelo canto de seus lábios, mas todo ele era destruído quando Ethan pensava em como ele vomitaria horas mais tarde se isso acontecesse.
Nick chegou ainda com o cabelo molhado. Era uma coisa estranha porque Nick odiava que as pessoas vissem seus cabelos molhados, uma vez que ficavam castanhos, e não mais louros. Por que ele não secara o cabelo com o secador? Era uma anormalidade, e anormalidades normalmente sempre precedem outras. Vestiu-se enquanto comia, como sempre. Ele não tinha pique para ficar parado às seis da manhã de uma terça-feira, pelo menos isso estava certo. Ethan esperava que continuasse assim.
Eles iam andando. O trajeto casa-escola tinha cerca de oitocentos metros e era completamente reto, salvo uma curva ligeira que eles tinham que fazer para cobrir os primeiros vinte metros do caminho, mas conseguiam ver a escola de casa mesmo assim. Como estava muito cedo, praticamente não havia carros na rua, o que os permitia caminharem por ela. Esse era um dos motivos pelo qual Ethan gostava daquele trajeto. O poder de fazer algo que os outros, em diferentes horas do dia, não podiam. Contara isso à mãe uma vez e ela dissera que era herança genética de seus antepassados megalomaníacos. Nem mesmo hesitara em usar aquele adjetivo. Simplesmente falara, como se algo daquele tipo pudesse ser passado por genética.
O lado esquerdo da calçada que só usavam na volta para casa era composto por cerca de quatro residências, duas farmácias, uma floricultura, um banco, um prédio cuja especialidade vivia mudando, mas que agora servia como restaurante e outro prédio que Ethan jamais conseguira identificar para que servia, embora houvesse sempre carros estacionados em frente. O lado direito era a rua, e depois da calçada da direita havia uma praça. A escola ficava ainda no lado esquerdo, mas muito mais à frente.
Faziam aquele caminho todo dia desde que Ethan tinha catorze anos e Nick, onze, ou seja, há dois anos, quando se mudaram para aquela cidade. A falta de vontade de mudar era interessante. Ethan encarava aquela caminhada como um rito de passagem da fase comportada de Nick à fase em que o fazia ser frequentemente mandado à coordenação ou direção. E também era uma boa desculpa para justificar sua falta de exercício.
Nick não calava a boca durante nenhuma parte do trajeto, normalmente ficava reclamando cada metro dos oitocentos. Da umidade do ar excessiva ou da falta dela, dos buracos nas ruas, da luz do sol muito forte ou muito fraca, da falta ou presença de chuvas, das nuvens. Das nuvens.
— Às vezes eu penso que elas zombam de mim. Olha aquela ali, sim, aquela mesmo. Ela parece um garoto. Certo? É claro que parece, cale a boca. A nuvem perto dele parece uma folha de papel, e a nuvem perto dela parece um grande zero. Um garoto, uma folha e um zero! E se for um presságio?
Ethan não precisava ler as nuvens para pressentir aquilo. Nick sempre falava gesticulando furiosamente, como se aquilo fosse essencial para manter uma conversa que fizesse sentido. Ele também andava mais rápido que Ethan, quase sempre aos pulinhos, como se houvesse uma amarelinha na rua. Sempre que se notava afastado demais dele, parava onde estava e esperava até ele o alcançar, batendo o pé inconscientemente e criticando-o por andar devagar demais. Isso acontecia pelo menos oito ou nove vezes durante o trajeto.
A Academia Alphonse Enoi era um complexo de prédios e unidades de ensino espalhados por um grande campo, mas a entrada era consideravelmente pequena. Fazia-a parecer menor do que realmente era. Reconhecidamente, era uma das melhores instituições particulares do país, e possuía toda a grade de ensino, desde o infantil até o médio. Também era um local onde os filhos mimados dos grandes ricos da cidade perguntavam primeiro os sobrenomes uns dos outros antes do primeiro nome. E quando não era tão conhecido assim, não, muito obrigado, não quero ser seu amigo. Talvez não fosse tão pouco sutil, mas era.
Felizmente ou não, Ethan nunca parara por tempo suficiente para refletir sobre isso, Lemnsack Hentz era um sobrenome conhecido demais para ser ignorado, principalmente o último. É interessante lembrar que dificilmente as pessoas acreditavam que Nick e Ethan eram irmãos. Com certeza pela aparência. Nick era loiro, Ethan era moreno. Também Nick era bom em esportes, extrovertido e carismático e Ethan era bom na escola, reservado e tímido. E também secretamente era do tipo que gostava de alimentar boatos.
Era por isso que eles se apresentavam como Ethan Lemnsack e Nicholas Hentz.
Eu não os culpo. Eu mesmo não acreditaria que ele é meu irmão.
Costumava pensar isso quando ficava sozinho nas salas de aula no intervalo e tinha tempo de pensar. No entanto, naquele dia, pensou em coisas diferentes. Pensou em como todo mundo parecia estar olhando para ele. Sabia que as pessoas tímidas tinham a mania de achar que todos estavam olhando para elas, mas não era o caso. As pessoas realmente estavam olhando para ele com estranheza. E também pena. Pena. Começou a pensar nas coisas que Nick poderia ter feito, mas ele apareceu no intervalo muitíssimo bem e sem nenhuma chamada à coordenação — a profecia das nuvens tornara-se realidade, a propósito —, então devia ser coisa de sua cabeça.
Não era. Antes de a quarta aula chegar, um rapaz da mesma sala de Ethan estava chorando. Havia uma pequena rodinha de pessoas em volta dele. Ethan não costumava se meter naqueles assuntos, mas o garoto sentava-se bem atrás de sua carteira e seu instinto materno não suportava ver pessoas loiras chorando tão perto de si sem oferecer nenhum suporte porque elas lembravam-no Nick. Foi por isso que perguntou de supetão:
— O que há de errado?
Ethan percebeu que realmente havia algo extremamente errado quando todos daquela rodinha olharam para ele da mesma forma que olhavam para o garoto.
— Você não sabe? — perguntou ele com um lenço tapando no nariz. Os olhos estavam muito vermelhos, mas eram castanhos. — Seus pais ficaram na Alemanha?
Ficou confuso. O que uma coisa tinha a ver com a outra?
— Não, eles tomaram o avião.
— Em Berlim?
— Sim… — Não suportou mais aqueles olhares. Muito menos o de total devastação que o garoto lhe deu quando respondeu à pergunta. — O que está acontecendo?
Foi aí que sua coordenadora chegou à sala e disse que Ethan estava sendo chamado à diretoria.
Mais tarde, Ethan não saberia dizer por que simplesmente abandonou o garoto choroso e sua horda de lamentadores ali sem mais nem menos, passou pela coordenadora e seguiu em direção à diretoria, sem nunca olhar para nenhum rosto que aparecia. Talvez sua mente tivesse desvendado aquele mistério e o bloqueado porque era difícil demais para ser lidado. Ele podia simplesmente ter bloqueado a informação, a trancado num baú e esperado. Assim o mundo continuaria sendo cor-de-rosa e lindo.
Mas Ethan seguiu para a diretoria e não bateu na porta como sempre fazia. Nicholas também estava lá, e ele parecia genuinamente confuso. É claro, como poderia esperar coisa diferente? Nick não tinha capacidade de notar qualquer coisa que não o rodeasse. Ele não teria notado os olhares dos outros, os sussurros, os cochichos.
Sem saber por que, debilmente perguntou:
— O que ele fez?
E por algum motivo teve a impressão de que a diretora imediatamente percebeu que ele sabia, mas que estava negando, negando e rezando para que não fosse verdade, embora não acreditasse em Deus.
A Diretora da Academia Alphonse Enoi era uma mulher alta, de meia-idade e ainda dona de uma beleza clássica. Tinha olhos castanhos e calculistas, geralmente bastante frios e despidos de emoção, e um cabelo curto da mesma cor, já se metamorfoseando num grisalho há muito esperado. Sua expressão era sempre competente e dura, e ela chefiava aquela escola com mãos de ferro. Ethan gostava dela. Seu nome era Hellen Page.
Que coisa estranha, pensou quase delirando. Ela não está competente e dura hoje. Está amolecida. Entristecida. Pesarosa. Que absurdo. Onde está Hellen Page, afinal?
— Eu não fiz nada — Nick protestou. — Nem sei por que estou aqui.
Ethan mantinha o olhar fixo na mulher enquanto sentava. Não falou nada. E ela também não precisou falar para que o que ele vinha pensando se confirmasse. Mas não falaria nada. Ele queria ouvir. Ele queria ouvir da boca dela.
Hellen Page suspirou longamente e lançou-lhes um olhar de ferro por cima dos óculos retangulares. Ethan tinha óculos parecidos que usava para ler. Tinha hipermetropia leve, herdada de seu pai. Sua mãe dava-lhe ambição e seu pai dava-lhe cegueira. Não era à toa que ele teve uma amante.
Teve uma amante? Por que estou falando no passado?
Porque ele não tinha mais, é claro. Ele e sua mãe fizeram as pazes. Era isso que Hellen Page queria dizer-lhes. Que seus pais se casariam novamente e o planeta inteiro estava convidado. Ela queria saber o que eles mais gostariam de receber de presente de casamento.
— Ethan, Nicholas. — Agradeceu-lhe mentalmente que ela tenha chamado-lhe de Nicholas. Ninguém podia chamar Nick de Nick a não ser Ethan. — Eu recebi há pouco tempo uma ligação do advogado de seus pais.
Era proibido usar telefone celular dentro da escola, e Ethan era provavelmente a única pessoa que seguia essa regra. Também obrigava Nick a seguir, por que não?
— Oh, Deus — Nick resmungou. — Eles não vieram no avião, não foi? Vão passar outro mês na Europa. Quem sabe cheguem a tempo do nosso aniversário. É isso, não é?
O olhar de Page foi bastante claro. Deus sabe o quando você irá gostar que fosse.
— Ligue a TV — Ethan balbuciou. — Deve estar em todos os noticiários, não é? — Seus olhos estavam arregalados e vidrados sem nenhum motivo. A diretora fez o que foi pedido antes que Nick pudesse notá-los.
Ele virou-se para ver a TV aparafusada à parede transmitindo um noticiário qualquer, mas Ethan ficou parado. Não precisava ver. Só precisava ouvir. A repórter dizia:
— Um avião da Air-Brent Company caiu há poucas horas no Oceano Atlântico, cerca de quatro horas após decolar do aeroporto de Munique, na Alemanha. Estima-se que a falha nas turbinas tenha acontecido perto dos Açores. O voo, de número 148, estava previsto para aterrissar hoje às nove horas da manhã no Aeroporto de Middleland. O avião, um Boeing 747, comportava quinhentos e doze passageiros mais tripulação. Até agora, não há indícios de sobreviventes. Alguns dos nomes ilustres presentes no voo são: Lawrence Grey, Florence Schiffler, Taylor Winthrop, Charles Lemnsack e Mary Alice Hentz. Equipes de buscas…
— Você não acha estranho — disse Ethan. Sentiu seu rosto molhado, e a água tinha um gosto quente e salgado. As palavras da jornalista tinham perdido o sentido — que eles nunca tenham mudado sobrenomes?
Nicholas gritou.
E como gritou.
Na verdade, seu grito foi tão alto que foi a confirmação do que toda a escola já sabia: que eles não sabiam de nada e que sobrara à Diretora Hellen Page informar-lhes do que acontecera. O garoto chorando na sala de Ethan por acaso vinha a ser Taylor Winthrop, Jr.
As duas lágrimas que Ethan vertera na sala de Page foram suas duas únicas. Quando saiu do prédio da diretoria, que ironicamente era o mais longe possível da saída, todo o mundo se apagou a sua volta. Ele só via a calçada e o grande gramado do lado, e só sentia o pulso de Nick preso a sua mão, porque se não o puxasse ele não sairia do lugar. Sim, Ethan o puxou, o arrastou para fora da Academia, com todos os seus malditos alunos olhando das janelas, como se eles fossem atrações num show de horrores. Ethan odiava a atenção.
Parou por um momento e olhou para Nick, consciente de que centenas de pares de olhos o fitavam. Nick olhou para ele, de baixo pra cima. Seus olhos negros estavam reluzentes de lágrimas, e toda a pele em volta estava inchada e enrugada. Ele parecia um bebê chorando.
— A não ser que você queira que eu te carregue nos braços como um bebê, pare de chorar como um. — E então disse algo que sua mãe uma vez lhe dissera durante sua infância: — Você é um Hentz. Aja como tal.
Então virou-se e voltou a puxá-lo. Não ouviu nenhum outro barulho de Nick até chegarem em casa. Não sabia se estava se sentindo pior por eles dois ou por saber que o caminho casa-escola fora estragado para sempre simplesmente porque os dois estavam se sentindo muito mal quando o fizeram pela última vez.
Agir como um Hentz. Mas que diabos vinha a significar aquilo?
Ethan não sabia se agira como um Hentz nas horas que se passaram porque elas vieram como o lampejo de um raio, que normalmente precede o trovão dos quais Nick tinha tanto medo. Talvez por isso ele tenha ficado trancado no quarto durante todo o tempo em que Ethan conversava com o advogado de seus pais, John Fauntleroy. Ou melhor, enquanto ouvia mecanicamente o que o homem tinha a dizer, apenas assentindo quando precisava. Havia um homem do governo ali também. Não sabia se essa era a maneira certa de chamá-lo, mas não conseguia pensar em nada melhor. Ele falou algo sobre o fato dos irmãos não terem parentes além dos pais, sobre o testamento deles não falar nada sobre guardiões em caso de morte, sobre a minoridade de Ethan e coisas assim. Falou também sobre serem mandados para outra família.
A única coisa que podia fazer era assentir e concordar. Estava em estado de choque.
Quando eles finalmente foram embora, Ethan se levantou. Caminhou pelo corredor até o quarto de Nick. Ele estava esparramado no chão, tão espreguiçado que a cerâmica parecia ser confortável como um colchão. Com metade do rosto encostado naquela frieza dura, estava imóvel, em posição fetal, como um bebê no útero. Ethan deitou-se ao seu lado, ficando cara a cara com o irmão pela primeira vez desde que gritara com ele na escola.
— Nick…
— Não, fique quieto — ele sussurrou sem mover os olhos escuros. Não parecia estar realmente vendo Ethan ali. — Não diga. Se você disser, vai se tornar real. E eu não quero que se torne real. Então não diga. Fique caladinho. Em breve eles vão entrar pela porta.
— Eu não preciso dizer nada. A repórter já disse e você ouviu. Não pode mudar isso.
— Mas eu não acredito na mídia. A mídia diz que os conservadores são bons para o país.
Ethan se aproximou do garoto loiro e adorável e abraçou-o, empurrando seu rosto contra o peito, como sempre fazia para abafar seu choro. Gostava de sentir as lágrimas dele contra o peito, mas não sentiu nenhuma. Então notou que ele provavelmente já gastara todas as que tinha. Não sobrara nada. Assim como não sobrara nada de seus pais.
— Eles se foram — sussurrou. Nick enlaçou a cintura de Ethan com a perna. O cheiro do cabelo dele era tão delicioso. — E estamos sozinhos.
— Não…
— Sim, aconteceu. Mas estivemos sozinhos a vida toda. As coisas não vão mudar tanto assim. Quer dizer, emocionalmente não vão. Mas, Nicholas… nós dois somos menores de idade. E não temos parentes.
— Acha mesmo que eu quero discutir nossa guarda agora? — ele indagou. Separou-se de Ethan e sentou-se no chão, e seus olhos estavam cheios de raiva. Ethan conseguiu o que queria, afinal: irritá-lo para torná-lo forte o suficiente para ouvir o que tinha a dizer.
— Nós precisaremos de guardiões legais até eu atingir a maioridade.
Nicholas se levantou com o peito estufado e a face irada.
— NÃO! — E isso foi um berro.
Então o cérebro dele pareceu lembrar que decidira lhe dar TDAH desde que nascera e uma considerável e irônica alergia aos medicamentos que a controlavam. Nick passou a andar para cá e para lá, parecendo um furacão, inquieto e agitado. Todo o peso da situação em que se encontravam parecia estar caindo sobre sua cabeça. A ficha finalmente estavam caindo. Eles eram órfãos. Ethan sabia que era inútil tentar acalmá-lo. Ele próprio estava nervoso. Mas Nick estava histérico. Também gritava muito.
— Por que é que nós precisamos de guardiões legais? Vivemos independentes durante toda a nossa vida e ninguém nunca veio nos incomodar. Vivemos sozinhos há anos e ninguém se preocupou conosco, absolutamente ninguém! E de repente nossos pais morrem e somos as coisas mais importantes do mundo? Por que eles simplesmente não nos deixam em paz? — E deu um grito de frustração. — Eu não quero ser adotado. Não quero ser…
A palavra entalou em sua garganta. Mas aparentava ter sido separado.
— Nick, venha cá.
— Eu não quero, quero continuar aqui, vivendo aqui nesse apartamento, comendo garotas e me fodendo da escola como eu sempre fiz, e passando de ano no último momento e…
— Nick…
— Por que as coisas tinham que mudar? Elas eram ótimas e agora isso aconteceu. — A partir daí, a voz dele ficou tão embargada que Ethan mal entendeu o que falou. — Eu não quero, eu não quero… não me importa o que a lei diz. Vou reclamar com a rainha.
— Nick…
— Oh, meu Deus!
— Nicholas.
— O que foi?! — Nick pareceu surpreso consigo mesmo, como se não se achasse capaz de gritar com o irmão mais velho e de repente, veja só! Ele estava ali, com lágrimas descendo pelas bochechas, gritando aos quatro ventos. Talvez ele só estivesse cansado de chorar, mas Ethan também estava. Chorara um oceano de lágrimas, só que por dentro.
— Você não acredita em Deus. Quer fazer o favor de calar a boca e vir aqui?
Nick deve ter visto a tristeza em seus olhos, e provavelmente sabia que os seus próprios estavam iguais, molhados e negros. Ethan, sentado na beirada da cama, segurou a cintura do irmão com as duas mãos e o puxou para sentar-se em seu colo. Nick enterrou o rosto em seu pescoço e aspirou o cheiro de sua pele. Ele apertou o corpo menor contra si.
— Vai ficar tudo bem conosco.
O calor da respiração e da pele macia de Nick o estava deixando louco, e absolutamente não era no bom sentido. Mas também não era no mau. Estava especialmente difícil porque ele pressionava as nádegas bem contra o meio de suas pernas. Mas não parecia se importar.
— Promete que não vai nunca deixar ninguém me separar de você? — Sua voz estava quase morta de tão baixa. Ethan inspirou o cheiro de seu cabelo e pescoço e depositou um beijo naquele pele alva, desejando poder fazer algo mais.
Meu Deus, em que estou pensando?
— Eu prometo, Nick. Eu prometo.
As fortes emoções os deixaram exaustos. Dormiram os dois na cama de Nick, abraçados sobre os lençóis. Ethan continuou acordado muito tempo depois dele ter dormido porque estava sendo difícil controlar aquilo que estava sentindo, aquele sentimento tórrido e apaixonantemente proibido. Embora… embora não houvesse mais ninguém para proibi-lo. Mas ele realmente não conseguiria dormir colado àquele corpo.
Separou-se de Nick lentamente e afastou-se dele. Demorou meia hora para Ethan entrar no banheiro e dar seu próprio jeito de chegar ao orgasmo. É claro que não conseguiu parar de pensar em Nick, mas não se importou com isso. Não era a primeira vez.
Finalmente voltou à cama. Olhou seu rosto angelical pelo que julgou ser quase uma hora e então Ethan teve uma certeza, certeza de que independentemente do que acontecesse, jamais iria separar-se do menor. Ele era uma criança, um bebê. Não sabia cuidar de si sozinho. Não importava para onde fossem ou o que fizessem com ele. Não permitiria a ninguém que tirassem seu irmão de si. Mesmo que suas vidas se tornassem uma novela com um guardião interesseiro querendo matá-los para pegar seu dinheiro.
Eu te amo mais do que a mim mesmo, pensou pouco antes de adormecer. Eu sempre cuidei de você, e sempre vou cuidar. Você é como meu filho.
Acordaram já no pôr do sol e ficaram sem fazer absolutamente nada pelo resto da noite. Às vezes assistiam à TV. Jantaram as porcarias açucaradas e gordurosas que Nick comprava para incrementar sua dieta, mas que Ethan nunca o deixava usar como refeição. Ele não estudou àquela noite nem leu nada até que foram novamente para a cama.
Quando acordou naturalmente às cinco e meia da manhã, Ethan Lemnsack sabia exatamente o que ia fazer. Herança genética de seus antepassados megalomaníacos ou não, ele sabia exatamente o que fazer.
Como de praxe, fez o café da manhã e o deixou pronto em cima da mesa da cozinha, com um pano de prato por cima para afastar as moscas. Não acordou Nick, não era preciso, mas deixou cinco bilhetes na geladeira: um avisando-o que saíra por algumas horas para fazer algo importante, outro lembrando-o de tomar o café, outro dizendo que não precisava ir à escola, outro explicando que era porque as aulas haviam sido canceladas e outro dizendo que o amava.
A Academia Alphonse Enoi decretara que as aulas estavam suspensas até o fim da semana em honra à memória dos quinhentos e doze mortos no acidente de avião da Air-Brent Company e dos três alunos filhos de três das vítimas. Por isso Ethan não se dirigira para lá. Dirigira-se para um bairro abastado chamado Higociety, mais especificamente para uma antiga casa de arquitetura alemã no topo de um morro com um jardim imenso na frente, tão grande que a família doava parte dele para ser usado como praça pública.
Havia um balanço nessa parte, um balanço infantil, cinzento e pequeno. Um adulto que quisesse se sentar ali ficaria entalado nos banquinhos de ferro, mas Ethan era consideravelmente pequeno para a idade. Também era a moça sentada num dos dois bancos. Com cabelos da cor do mel que batiam no meio de suas costas, lisos embora ondulados nas pontas, e olhos muito azuis e inteligentes, uma pele de porcelana e lábios grossos e rosados, Amy Bellafonte era linda. Tinha por volta dos dezoito anos. Ela certamente sabia. Não ocorria um acidente daquela magnitude sem que metade do planeta soubesse. Amy era filha do governador do condado, estudava também na Academia Alphonse Enoi e era a única pessoa do mundo em quem Ethan confiaria para ajudá-lo com aquilo.
Ele aproximou-se e sentou-se no banco ao lado do dela. O céu estava azul-gelo, nublado e pavoroso. Fazia um frio do inferno, mas ela estava apenas de casaco e shorts, deixando as pernas longas completamente nuas. Se sentisse o mínimo de atração por garotas, Ethan podia se sentir atraído por ela. Deu um impulso fraco com os pés e subiu por alguns centímetros e então voltou, ajudado pelo próprio peso. Quando parou de volta no lugar, pôs as mãos cruzadas no colo, como fazia quando precisava dizer algo que não queria dizer. Amy devia saber, pois ela pegou suas mãos nas dela e as apertou.
— Ethan, eu sinto muito pelo que aconteceu. Procurei você ontem, mas me disseram que você e Nicholas já haviam ido para casa.
— Você também foi notificada pelo grito dele?
— Todos foram. A coordenadora do terceiro ano estava na sala avisando que ocorrera um acidente de avião que matara três pais de três alunos, mas que não sabia se eles já haviam sido informados. Então o grito veio. Alguém disse: acho que já foram.
— Que bom que as pessoas ainda têm senso de humor.
— Você está mesmo bem? Você ainda tem que cuidar de Nicholas, isso me parece pressão demais.
— Pressão em Ethan Lemnsack nunca é demais. É com isso que estou acostumado.
— Todos precisam de um alívio. Há alguma coisa que eu possa fazer por você?
— Sim. Case-se comigo.
Amy levantou as sobrancelhas e comprimiu os lábios macios, aquecendo as mãos entre os joelhos nus. Logo, logo começaria a chuviscar e eles não poderiam mais estar ali. Era como se o céu estivesse chorando pelas quinhentas almas perdidas naquele grandioso mar, pronto para lavar a terra.
— O quê? — indagou cuidadosamente.
— É isso mesmo que você ouviu. Escute-me, eu e Nick não temos parentes. Nossos pais são filhos únicos e todos os nossos tios-avôs morreram sem descendentes. Nossos quatro avós já faleceram e deixaram uma considerável fortuna para eu administrar quando atingir a maioridade, e eu absolutamente não tenho experiência nenhuma nisso. Some dois mais dois.
— Guardiães legais interesseiros. Sofrimento emocional para vocês dois.
— Sim. E embora eu ache tentadora a expectativa de esfregar na cara dessas pessoas milhões ou bilhões de dólares, eu não sei quantos, eu não quero ter que fazer Nick passar por isso. Será desgastante demais para ele, mesmo que apenas por dois anos. Ele não suporta mudanças. Odeia mudanças, na verdade. Ficou deitado no chão do quarto por umas duas horas ontem quando voltamos da escola. Ele só para quando dorme. Estou preocupado.
— Novamente, você está baseando o seu futuro nas necessidades do seu irmão.
— Você está surpresa? — indagou espantado.
Amy deu uma risadinha meiga.
— Não, entendo perfeitamente. Quanto ao seu pedido…
— Ah, sim. O meu pedido. — Aquele banco era absurdamente desconfortável. — Tem um turbilhão de emoções pipocando para sair de mim, se você se pergunta isso. Só que eu simplesmente não posso deixá-las sair. Nick não tem mais ninguém além de mim e por isso eu tenho que ser forte. Não tenho tempo de ser fraco. Nunca tive. — Deu um suspiro. — Nós não queremos guardiães. Não queremos que ninguém entre na nossa vida.
— Entendo. — Ethan pensou que ela compreendera aonde ele queria chegar. Graças a Deus. — Você quer tomar a guarda dele. Mas não pode porque é menor de idade, e o único modo de fazer isso mesmo assim é se emancipar.
— E o único modo de eu me emancipar é se eu me casar com uma pessoa maior de idade. Isso automaticamente me daria a emancipação, e o resto é o resto. É isso que eu quero fazer. — Ethan olhou fundo nos olhos azuis dela, a voz ficando embargada. Segurou suas mãos macias. — Amy, eu preciso de você. Preciso que você faça isso por mim.
Terminou seu relato aí. Não tinha mais nada a dizer. Tudo o que podia fazer agora era esperar e rezar para que ela aceitasse, ignorando o futuro problema que seria dizer ao pai dela que a filha de dezoito anos iria se casar com um herdeiro de dezesseis. Sua resposta poderia tanto destruir sua vida quanto facilitá-la.
— Está bem, Ethan. Eu aceito.
Após ler os cinco bilhetes de Ethan, Nicholas Hentz descobriu-se nervoso. Sentia aquele horrível redemoinho no estômago, aquelas borboletas malignas que quase o fizeram vomitar o café da manhã. Na verdade não estava com fome, comera apenas para agradar ao irmão. Não sabia por que Ethan saíra, mas quando pensou na horrível possibilidade de que ele podia tê-lo abandonado, pensou que fosse chorar. Então descartou a hipótese, era muito absurda. Mas ainda sentia medo. Medo de que alguém viesse e simplesmente o separasse de Ethan à força, como nos filmes. Eles dificilmente adotavam irmãos tão crescidos. Não dava para aguentar o peso da realidade que caíra em sua cabeça. Nick nunca percebeu como a vida era boa antes da morte dos seus pais, nem em quanto trabalho Ethan tinha para cuidar dele, para se precaver por causa de sua pressão alta e para garantir que ele não repetisse de ano. Ano após ano. Oh, todas as suas noites mal dormidas quando Nick tinha enxaqueca…
Também era bom não ter que ir à escola. Não que estivesse sendo tão mesquinho a ponto de gostar da morte dos pais para não ter que ir à escola, não. Ele não era assim. Podia ser egoísta e impulsivo às vezes, mas não era um monstro insensível. Acontece que estava evitando o sentimento de tristeza, insegurança, ansiedade e talvez de culpa. Por que não aproveitou mais o tempo que passara com os pais? Apesar de ausentes, Nick os amava. Amava como eles tentavam cobrir todo o espaço de tempo que tinham com os filhos, mesmo que tivessem problemas no casamento. Gostava de quando eles tentavam não brigar muito alto no quarto para que os filhos não ouvissem. Amava quando o sol refletia nos cabelos dourados da mãe, de como ela às vezes misturava-os aos de Nick e dizia que eram idênticos, que ele tinha puxado isso dela, mas os olhos do pai. Embora os olhos de ambos fossem negros, eram um negro diferente, cada um. Os olhos dos Hentz eram completamente reconhecíveis no rosto de Ethan, coroado pelos cabelos negros e espessos dos Lemnsack. Sim, eles sempre se comparavam enquanto jogavam Jogo da Vida na mesinha de centro da sala e Nick tentava roubar algumas notas de vinte mil dólares do banco. E agora tudo isso fora embora. Lenta e dolorosamente, a realidade aparecia como uma velha amiga. Também não conseguia mais chorar. O tapete persa de seu quarto bebera todas as suas lágrimas, quentes e salgadas.
Já passara mais tempo longe de Ethan que aquilo, mas no caso sentia-se especialmente solitário mesmo com aquelas poucas horas. Não conseguia se distrair. Não conseguia parar quieto no canto, porque se fizesse isso começava a pensar na morte, mas se começasse a andar e gastar energia, seu coração disparava. Sentia medo que ele explodisse. Sem Ethan ali para cuidar dele como sempre fazia, sentia-se como um filhote abandonado. Ele era a única pessoa que Nick amava mais que os pais. Agora era a única pessoa que amava. E não pelo fato de ter perdido a virgindade por causa dele, era muito mais do que isso. Nos seus momentos mais depressivos, pensava que Ethan era um idiota por não saber que possuía tanto potencial de carisma quanto Nick, estragando tudo com aquela timidez irritante e adorável. Não era do tipo que faria qualquer um ir para a cama com ele, mas do tipo que faria qualquer um gostar dele após uma conversa. Ethan sabia usar as palavras, mas elas sempre ficavam presas em sua garganta porque tinha medo de falar. Ele era gentil. Colocava as necessidades de todo mundo acima das dele próprias, quaisquer que fossem, não apenas Nick. Ignorando os ciúmes que sentia, conseguia arrumar espaço para admirá-lo pela gentileza altruísta, pela meiguice e amabilidade. Ele era uma pessoa admirável, apenas possuía uma autoestima baixa demais para perceber isso. Era um idiota admirável.
Apesar de esconder essa informação nos cantinhos mais escuros de sua mente, Nick conhecia pelo menos dois meninos e três meninas que em algum momento de suas vidas já demonstraram uma afeição maior que a desejada por Ethan. Às vezes algumas pessoas davam em cima dele e ele não percebia. Ele nunca entrava no flerte. Nick não acreditava que pudesse ser tão ingênuo. Acreditava na verdade que a mente dele pudesse estar evitando psicologicamente a aproximação de pessoas estranhas nas vidas tão fechadas dos dois. Se ele soubesse que fazia isso, o que faria? Deixaria como estar ou iria a um psicólogo para se tratar do problema? E se o problema fosse resolvido? Só essa possibilidade magoava Nick. Quase tanto quanto o fato de Ethan nunca ter se sentido confortável para conversar com Nick sobre o fato de que ele gostava de garotos. Aliás, de algum modo toda a Academia Alphonse Enoi sabia disso, mas ele não sabia que todos sabiam!
E agora poderia ser separado dele. Daquele pobre, depressivo e sem alto-estima adolescente de dezesseis anos que amava mais que qualquer coisa no mundo. O que Nick tinha além de Ethan? A aparência? Para o inferno com a aparência. Não era tão fútil para se achar independente. Nick sabia que era indefeso como uma criança. E se odiava por isso. Se a separação realmente acontecesse, mesmo que eles fossem vizinhos, sua mente implodiria. E a única coisa que o impediria de cometer suicídio seria porque levaria Ethan consigo. Mas ele não se mataria. Ele se deixaria morrer lentamente, porque com certeza poria a culpa do suicídio nele mesmo. A ideia já passara por sua cabeça várias vezes. E a conclusão sempre era a mesma. Nunca mudava. Nada nunca mudava. Até agora.
O fato de Ethan não ser exatamente feliz o desagradava, irritava e o deixava profundamente infeliz também. Nick não fazia ideia do que poderia fazer para mudá-lo. Mas por que nunca sequer tentara? Por que nunca deixara as garotas de lado e parara um momento para conversar seriamente com ele sobre isso? Para que ser tão horrivelmente insensível? Fingir que tudo estava bem não tornava as coisas bem. Era tudo uma maldita farsa. Suas vidas pareciam maravilhosas, mas não eram. Eram frívolas, superficiais e vazias. Conviver com uma pessoa que apenas se levanta, sobrevive e volta para a cama e nunca nem um momento perguntar se ela está bem! Será que todas as vezes que Ethan recusava-se a deixar que Nick visse seus olhos eram porque ele estivera chorando? E por que ele choraria? Talvez fosse sensível e não suportasse os burburinhos dos alunos estúpidos do segundo ano comentando sobre o quanto ele era estranho, esquisito, calado, diferente do irmão. Ah, sim, o louro e bonito irmão que sempre se metia em encrenca. Encrencas que Ethan ia lá resolver porque seus pais não tinham tempo ou não estavam em casa. Não é que Nick não se esforçasse para se manter longe dos problemas, mas eles pareciam simplesmente persegui-lo. Como os coordenadores medíocres e professores idiotas queriam que ele ouvisse um comentário ofensivo sobre Ethan nos corredores e continuasse andando sem nada fazer? Se não podia ser útil a ele em casa, por que não poderia ser na escola? Está bem, talvez atirar-se contra alguém que tem o dobro do seu tamanho não fosse a melhor ideia do mundo, mas era a única coisa que Nick poderia fazer. E ele precisava fazer. Se era para se sentir melhor ou para vingar o irmão, não sabia. Mas sabia que precisava.
Agora, estava num dilema. A maior estratégia de Ethan foi sempre receber os bilhetes das coordenadoras falando sobre as besteiras de Nick e prometer que iria entregá-los a seus pais. Quando chegavam em casa, Ethan falsificava a assinatura dos dois e entregava o bilhete de volta, livrando tanto ele quanto Nick. Mas já que seus pais morreram, como ele poderia continuar a fazer isso? Sobraria tudo para Ethan, e dessa vez só para ele. Todas as brigas e notas baixas. Às vezes Ethan ficava num estado emocional muito parecido com a tristeza, mas que não era bem isso… parecia uma espécie de limbo entre o cansaço e a frustração. Então virava aqueles lindos olhos negros que jamais refletiram nenhuma luz e perguntava: Por quê? Nick nunca soubera o que responder. Por você? Não, isso nunca daria certo. Por que ele não entendia? Por que insistia em sentir raiva de Nick naqueles momentos? Tudo o que podia dar-lhe seria um arrependido: Desculpa, Ethan, não vai acontecer de novo. Mas eles sabiam que aconteceria. Por que continuar naquela farsa ridícula?
E por que alguém teria coragem de dizer algo tão horrível a Ethan?
Possuía uma lembrança que volta e meia vinha assombrar seus momentos de insônia na cama. Era ambientada numa sala de aula amarela e florida, com abecedários e pinturas dos jovens artistas de seis anos nas paredes, pois quando Nick tinha essa idade sua antiga professora pedira a cada uma das quinze crianças que desenhasse ou escrevesse alguma coisa para si mesma, e quando elas tivessem doze anos a professora as devolveria. Aos doze anos, Nick já estudava numa escola diferente, mas recebeu seu bilhetinho pelo correio. Após lutar bravamente para decodificar a complicada letra de um garotinho de seis anos com TDAH que ainda está aprendendo a escrever — Ethan aprendera a ler e escrever com quatro anos de idade —, relembrou por que nunca devia sentir raiva dele.
Como vivem os anjos?
Os anjos não estão no céu, estão aqui, com a gente. Eles acordam você de manhã com um beijo no rosto e te obrigam a tomar banho porque sabem que vai ser melhor para você. Eles ajudam você com o dever de casa e assistem TV com você. Quando você se machuca, eles beijam o machucado e limpam suas lágrimas e dizem que vai parar de doer logo. Eles te abraçam quando você sente frio. Eles deixam o último biscoito pra você e quando repartem um chocolate, sempre te deixam ficar com o maior pedaço. Eles são gentis e simpáticos. Eles te contam histórias para dormir e dormem com você quando está chovendo forte. Eles estão sempre perto de você para o que der e vier. E te amam mais do que tudo. Eles vivem por você e para você.
O único anjo que eu conheço é meu irmão, mas devem existir muitos.
É claro que consertou com caneta todos os erros de ortografia que inocentemente cometera. Nick podia ser ruim em muitas coisas, mas Ethan sempre o obrigou a ter uma boa gramática, e nisso ele era ótimo. Pelo menos nisso era. Erros à parte, ainda guardava o envelope já amarelado com esse bilhete, embora nunca o tenha mostrado a ninguém. Era seu segredinho particular, os gritos que não dava, que reprimia. Sempre que sentia vontade de gritar ou chorar com ele por algum motivo, lia-o. Tipo quando ele não lhe deixava jogar futebol o dia inteiro sem comer nada. Era bom lembrar que Ethan só fazia isso para seu bem. Ele era um anjo em sua vida. Um anjo que no momento havia desaparecido no ar. Nick estava voltando a considerar a possibilidade de ele ter fugido quando a maçaneta da porta remexeu. Sentado no sofá abraçado aos próprios joelhos, assistiu-o entrar na sala com uma euforia estranha.
— Por que está feliz? — perguntou. — Você nunca está feliz. Por acaso foi à escola implorar para ter aulas mesmo assim?
Ethan ignorou as duas perguntas. Sentou-se no sofá ao lado de Nick e deu-lhe um beijo na bochecha. Como de praxe, fê-lo usar o medidor de pressão pelo menos duas vezes para verificar se não havia nenhuma possibilidade de Nick ter um aneurisma ou um infarto.
— Eu já sei o que vou fazer para não sermos separados. Vou burlar todas as leis e códigos desse país, vai ser um inferno e vai trazer a mídia para cima de nós, eu acho, mas sei exatamente o que vou fazer. Só preciso fazer com cuidado. Qualquer passo em falso…
— Cale a boca e me diga logo que você vai fazer.
Houve uma leve, levíssima, extremamente leve hesitação em seus olhos lindos. Ethan nunca olhava Nick fixamente por muito tempo, isso o irritava profundamente. Já começava a achar que estaria especialmente irritado durante todo aquele dia quando ouviu-o perguntar se tinha entendido. Nick compreendeu que não ouvira absolutamente nada do que ele dissera.
— Está bem, vou repetir.
Lenta e pausadamente, ele repetiu. Falou várias vezes a mesma coisa, foi prolixo, redundante e usou linguagem leiga, pois sabia que só assim Nick entenderia. Na verdade o menor não se sentir compelido a fazer grandes esforços naquele dia.
— Se casar com Amy? — Nick perguntou suavemente. Talvez fosse seu leve sorriso ou as sobrancelhas arqueadas que fizeram Ethan franzir as dele, confuso com aquela mudança de estado. — Se casar com a Amy? Com a Amy, Amy? Amy Bellafonte? Loira, olhos azuis?
— Oh, você ainda não gosta dela? — Ele parecia desconcertado e sinceramente frustrado, como se estivesse falando com uma criança teimosa. — Você sabe que eu gosto dela e que ela gosta de mim. E que é perfeita pra isso.
O que ele queria dizer é que ela era a única amiga que ele tinha e que se tivesse outra pediria a ela, mesmo sabendo que a resposta seria não. Nick se irritou com ele mais uma vez. Ethan tinha essa facilidade absurda de fazer as pessoas sentirem pena dele e não perceber.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Ela não é tão loira quanto eu.
— Aonde quer chegar?
— Eu a odeio.
— Só porque você quis transar com ela e ela recusou, não quer dizer que…
— Não é que ela tenha recusado, droga. — Na verdade era sim, mas não podia se rebaixar tanto. Sabia que estava sendo infantil, mas não conseguia evitar. Devia ser uma patologia. — Ela fez questão de me humilhar. Você acha mesmo que toda a população feminina da escola precisava saber que ela me rejeitou?
— Bem, isso não te afetou em nada. Você continua igual com as garotas. Eu sei que rejeição deve ser difícil para você, mas nem todo mundo quer transar com você, Nicholas.
Nick pulou do sofá, agora tremendo de raiva. Não conseguia raciocinar o suficiente para saber se ele dissera aquilo para ofendê-lo de propósito ou foi porque achava sinceramente que era verdade. De qualquer forma, as duas opções eram insuportáveis.
— Pois então aproveite o casamento!
É claro que fez questão de bater a porta do quarto.
Ele girou a maçaneta e encontrou-a trancada. Uma batida na porta com o nó de seu dedo indicador, então. E uma voz do outro lado:
— Saia daqui.
— Abra a porta ou vou pôr fogo na casa com você dentro.
Ethan tinha certeza que Nick não abriu a porta segundos depois por causa do blefe, mas sim porque ele significava que Ethan iria ele mesmo embora. E Nick não aguentaria mais ficar sozinho naquela casa.
— Por que você foi embora? — ele gritou já com a porta aberta. Com o passar dos segundos, sua voz foi ficando cada vez mais engrolada e chorosa: — Eu fiquei aqui sozinho a manhã inteira, sozinho! Droga, eu não posso ficar sozinho. E se tivesse uma crise de ansiedade e minha pressão subisse? Eu nem sei o número da ambulância e você sabe que odeio falar no telefone. Eu morreria porque não gosto de falar no telefone, e a culpa seria sua!
Nick bateu com os punhos fechados no peito de Ethan, mas ele quase não sentiu. Agarrou-o e abraçou-o, enfiando sua cabeça no peito. As lágrimas que desciam por seu rosto eram quentes.
— Eu tive a impressão de que eles entrariam por aquela porta a qualquer momento. Não eles vivos, mas os corpos, os cadáveres, os espíritos. Eu fiquei com medo de ser perseguido por fantasmas e você foi ter com Amy Bellafonte? Seu imbecil.
— Vai ficar tudo bem, Nicholas.
— Não, não vai. Nunca nada mais vai ficar bem. Somos órfãos. Órfãos.
— Por que órfãos? E por que nada nunca mais ficaria bem? Se eu digo que vai ficar, é porque vai. Ou você não acredita em mim? Acha que estou mentindo?
— Não, droga.
— Então não há com o que se preocupar. Você sabe que eu sempre cumpro o que prometo. E eu prometo que só me casarei com ela para poder me emancipar, e quando isso acontecer nós nos divorciaremos. E então eu cuidarei da sua guarda. E você será meu. Tudo voltará ao normal. A única diferença é que você nunca mais ouvirá promessas falsas.
— Não fale assim dos nossos pais.
Agora Ethan ficou irritado.
— Eu não falei enquanto eles estavam vivos, por isso tenho que falar agora. Esperei demais e a chance se perdeu. Quando você era criança, eu tinha que acalentá-lo todas as vezes que você chorava quando eles chegavam tarde em casa, mesmo dizendo que chegariam cedo. E eu também era uma criança. Mesmo que tivéssemos babás, era a mim que você sempre procurava quando precisava de algo. Nossos pais me tiraram a infância e me transformaram num adolescente tímido e reprimido. E eu nunca vou perdoá-los por isso.
— Você está com raiva deles por terem tido um segundo filho e por terem morrido e agora terem destruído sua adolescência também?
— Não, não é isso que eu quis dizer. Vê o que acontece quando eu paro de me reprimir?
— Você não pode culpá-los por ser do jeito que é. Eles não te criaram.
— É, é exatamente isso. Eles não me criaram.
Nicholas limpou o rosto com as mãos e fungou. O cabelo louro muito comprido grudava-se às bochechas cheias de lágrimas. Inconscientemente fazia um bico de teimosia. Parecia ter oito anos. Afastou-se de Ethan e sentou-se na beirada da cama.
— Por que deixariam você ter a minha guarda tendo apenas dezesseis anos?
— Bem, eu teria que convencer o juiz. Eu precisaria deixar claro que sou um adolescente responsável e capaz de tomar conta de você. Precisaria de um atestado de sanidade e ele provavelmente olharia meu histórico escolar. E depois que fizer isso, por que diria não? Eu sou brilhante. Um gênio, acadêmico. Sou perfeito.
— Cale a boca. — Nick riu, um riso baixo, infantil e lindo. — Dezesseis anos e já tem um divórcio. É mais do que a maioria dos garotos pode dizer que tem. Quem precisa de namoradas e mesada quando se tem uma esposa e os milhões da herança?
— Sim. — Ethan passou a mão pelo cabelo cor de ouro do menor, deliciado com a textura absurdamente macia que só se encontra em recém-nascidos. — Provavelmente alguém do Conselho Tutelar virá nos visitar de mês em mês para saber como estamos, se eu estou alimentando você direito ou se você ainda não tentou se matar, como todo adolescente.
— E você será meu responsável legal. Qualquer coisa que eu fizer, você responderá como um adulto. Pode fazer coisas que só adultos fariam?
— Mais ou menos. Eu continuo sendo tratado como menor em pontos como ainda não poder dirigir, beber ou fumar, não que eu faça ou queira fazer qualquer uma dessas coisas. Aliás, tenho que fazer declaração de imposto de renda.
Nick riu e Ethan riu também. Beijou sua bochecha e depois a outra, e nessa demorou-se um pouco mais. Quando se separou, foi apenas alguns centímetros. Ethan fitou os olhos escuros de Nick por muito mais tempo do que era acostumado antes de olhar para seus lábios por apenas alguns décimos de segundo. Estavam tão próximos, tão pouco espaçados, e àquela altura um encostar de lábios pareceria algo banal e comum…
Mas por fim a racionalidade falou mais alto e Ethan se afastou de Nick. Afastou-se dele e de seus doces encantos infantis e naturais.
— Vai tudo ser como era antes — repetiu firmemente. — Vamos poder continuar vivendo nesse apartamento e indo à mesma escola, fazendo as mesmas coisas de sempre como sempre. Nada nem ninguém vai nos separar.
— Você promete isso?
— Prometo. Nick, eu preciso de você. Preciso que você faça isso por mim.
Relutantemente, ele assentiu.
— Está bem, Ethan. Eu aceito.
Anos mais tarde, Ethan Lemnsack facilmente declararia as semanas seguintes como as mais rápidas, longas, felizes e tristes de sua vida. No dia seguinte ao da conversa com Amy e Nick, alguém do serviço social veio para ter com eles. Era uma mulher gordinha e de baixa estatura, de olhos azuis bonitos e agradáveis e um corte de cabelo curto fora de moda. Tinha maçãs do rosto caídas e um sorriso pesaroso que parecia encravado no rosto, uma vez que não o despiu de forma alguma durante todo o tempo que falou com Ethan e Nick sobre o fato de não terem guardiães legais e serem menores de idade. Seu nome era Sue Molis.
Mesmo irritado com aquele sorriso, Ethan contou a ela o que pretendia fazer para evitar tudo aquilo que ela fora ali para dizer. E isso se revelou um grande e estúpido erro. Ethan nunca deveria ter dito aquilo a ela antes de falar com o advogado de seus pais primeiro. Foi absolutamente imprudente, e percebeu isso quando a Sra. Molis disse-lhe que ele era jovem demais para as nuances da vida adulta e que o juiz provavelmente não lhe daria a guarda de Nicholas. Mas já era tarde demais.
No entanto, ele era um Hentz e não desistia nunca. Decidiu seguir em frente com seus planos mesmo com os obstáculos. Com a ajuda de John Fauntleroy Ethan formulou um contrato pré-nupcial, uma vez que fora a única exigência que o pai de Amy fizera para concordar com o casamento de fachada, que afinal foi realizado em menos de uma semana, às três horas da tarde, no tribunal.
A juíza era uma mulher negra de cinquenta e poucos anos chamada Therese Williams. Algo nela lembrava Ethan Hellen Page, talvez fosse sua beleza jovial que apagava as marcas da velhice ou a expressão dura e competente no rosto. Ela deu-lhe autorização para a união civil com Amy Bellafonte, e consequentemente sua emancipação. Foi adorável o momento no qual Ethan e Amy encostaram os lábios e assinaram seus nomes na certidão de casamento.
Depois disso, Ethan requereu legalmente a guarda de Nicholas.
A parte fácil havia acabado quando isso aconteceu. Foi uma batalha judicial. Sue Molis finalmente despiu o sorriso pesaroso e mostrou a personalidade ultraconservadora e incapaz de digerir aquela ideia. Apesar de estar bem preparada quando apresentou seu caso no tribunal, Ethan teve a impressão de que ela era a única pessoa ali que não se dava conta do quanto a Juíza Williams estava enojada com o que ela falava. Mesmo assim, convencer uma figura tão intimidante quanto uma mulher que já fora convidada a disputar uma cadeira no Parlamento e recusara fora um desafio. Mas Ethan o encarou. Com um ar sério e maduro, relatou em mais de uma hora o que sua vida havia sido desde que se entendia por gente. Ser responsável pelo irmão de forma alguma mudaria muito suas vidas, mas ser separado dele, sim. Dificilmente arranjariam tutores que quisessem irmãos de treze e dezesseis anos, e mesmo que achassem isso causaria um grande estresse emocional para ambas as partes. Ethan era responsável o suficiente para tal, apesar da idade. Idade não definia mentalidade. Na verdade, ele foi inteligente o suficiente para pesquisar e descobrir que a Juíza Therese Williams terminara a faculdade com dezoito anos de idade.
Quando Ethan terminou o discurso mais longo e inflamado de sua vida, sentiu um peso enorme sendo retirado de seu peito. Era impossível saber o que a juíza estava pensando sobre aquilo. Tudo dependeria da aprovação dela. Por fim, ela virou-se para Ethan e falou:
— Qual o tipo sanguíneo de seu irmão?
— O positivo, Vossa Excelência.
— Quais seus problemas médicos?
— Ele tem Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e pressão alta. Como nenhum dos transtornos é muito grave, ele não toma remédios. Apenas mantenho-o sob vigilância e levo-o para fazer exames uma vez ao mês.
— Onde e quando ele nasceu?
— Hospital St. Roese, aqui em Middleland, às cinco horas e trinta e quatro minutos da manhã do dia 3 de junho de 1998. O parto dele foi realizado pela Dra. Vivienne King.
— Qual a matéria preferida dele na escola?
— Biologia. E só a parte de anatomia. Ele também gosta de história, mas é muito ruim em decorar as coisas.
— Qual sua cor favorita?
— Vermelho e dourado. É um consenso. Listras, de preferência.
— Qual sua comida favorita?
— Lagosta ao alho e óleo com cebola, pimentão, tomate e batatas. Sem sal. E ele gosta que se coloque o azeite depois que o prato estiver pronto porque gosta do modo como a lagosta brilha depois disso.
— Alguma outra informação genérica?
— Seu animal preferido é o leão e ele se recusa a reconhecer qualquer outra espécie de felino como um felino de verdade, exceto o gato; ele prefere a noite ao dia, mas tem uma queda por crepúsculos e auroras; tem medo de trovões e odeia ficar sozinho no escuro; gosta de todos os esportes, exceto natação; seu cabelo é louro desde que ele nasceu, pois não escureceu quando cresceu, e esse é o maior orgulho dele; no café da manhã se ele comer qualquer coisa pesada demais acaba vomitando algumas horas depois, embora ele vá beber até a gordura líquida que o bacon deixa na panela se eu deixar, por isso eu nunca deixo; gosta de todos os tipos de música, exceto clássica porque não tem letra e rap porque tem letra demais.
— Está bem. — A juíza olhou então para Sue Molis. — Sra. Molis, qual o nome completo deles dois?
A pergunta a pegou de surpresa, mas o que foi realmente surpreendente era ver que Sue Molis não sabia a resposta de cor. Ela teve que olhar nos documentos que mantinha consigo.
— Entendo. — A juíza suspirou profundamente. Ela parecia tudo, exceto entendida. — A meu ver, o relato da senhora parece se basear em nada mais do que especulações preconceituosas. Ao que parece, ambos têm um bom histórico escolar… — Ela passou os olhos num documento que estava na bancada. Ethan prendeu a respiração. — Ou pelo menos um deles tem. E nenhuma ficha policial, além de terem como se sustentar financeira e, pelo que eu vi, emocionalmente. Na falta de parentes próximos e íntimos maiores de idade, essa é a saída que o Sr. Lemnsack encontrou para saírem do transtorno em que se encontrava com o irmão. — Ela deu uma pausa e baixou o tom de voz. — Seu relato nada mais é do que um monte de suposições desrespeitosas que montou contra dois membros de uma ilustre família. Deixe-me dizer-lhe mais uma coisa. — Therese Williams debruçou-se sobre a bancada e falou com uma suavidade venenosa: — Vou fazer o seguinte: vou dar vitória a Ethan Lemnsack Hentz e vou fazer a senhora ir visitá-los todo mês para ver como estão, já que parece se preocupar tanto assim com eles. Está certo?
A juíza Williams estava com um sorriso levemente sarcástico, confiante e arrogante como uma ninfa. Sue Molis não podia dizer mais nada.
— Está sim, Vossa Excelência.
— Então que assim seja. — Ela olhou para Ethan. — Casei você há menos de uma semana e no dia seguinte você se divorciou. Tem algo a dizer sobre isso?
Ethan deu de ombros sorrindo.
— Algumas diferenças são irreconciliáveis, Vossa Excelência.
— Sim, sou obrigada a concordar. Este tribunal decide em favor de Ethan Lemnsack Hentz.
Ela bateu o martelo.
E foi uma senhora de uma batida, como um badalar de sinos indicando um casamento, um funeral ou a meia-noite. Ocasiões que mudavam o dia e perspectivas de vida, oferecendo um novo começo com milhares de possibilidades diferentes. Os irmãos estavam órfãos, estavam sozinhos e ao mesmo tempo não estavam, tinham supostamente todo o dinheiro do mundo e podiam fazer o que quisessem, pois um se sustentava no outro.
Estavam jantando em casa para comemorar. Talvez fosse estranho dois irmãos jantando sozinhos à luz de velas porque uma juíza legalmente os reconhecera órfãos responsáveis, mas não importava porque estavam felizes e a pressão de Nick estava normal. Lagosta ao alho e óleo com cebola, pimentão, tomate e batatas. Sem sal, é claro. Nick deu um gritinho de fascinação quando Ethan derramou o azeite na comida, fazendo-a brilhar rubra.
— Sabe qual a melhor coisa em relação a tudo? — Ethan perguntou partindo a melhor parte da lagosta e pondo-a no prato de Nick. Era como Natal. Os dois haviam se arrumado para ficar na sala de estar.
— O quê? — ele perguntou adoravelmente, parecendo uma criança faminta.
— Agora eu posso sair da sala de aula a hora que eu quiser.
— Acho que quero me emancipar também. Que tal redecorarmos esse apartamento? Não aguento mais ver tudo branco. Parece uma nave espacial.
— Mas é uma nave espacial. — Ethan pôs o prato em frente ao irmão e deu-lhe um beijo na testa, só que logo depois que fez isso pensou em como era pouco, como eram poucos os meios que tinha de demonstrar o amor que sentia por aquele louro, como sentia-se triste em não poder refrear aquela agonia crescente em seu peito, aquela queimação, misto de ansiedade e medo do desconhecido. Do que ele tinha medo? Nick era tudo o que tinha e Ethan era tudo o que ele tinha. Olhando em seus olhos, a centímetros de seus lábios, Ethan sussurrou: — E nós estamos indo ao espaço. À lua e às estrelas.
— Ethan — Nick sussurrou de volta. Ethan conseguiu sentir a quentura de seu hálito, como era morno e gostoso e como o desejava ardentemente. — Eu… eu quero.
— O que você quer?
— Você. — Nicholas se levantou. Pôs as mãos na cintura do irmão e a apertou, então colou os corpos excitados, subitamente alarmado. — Eu quero você.
O primeiro beijo de Ethan e Nicholas foi agradavelmente longo como a espera numa fila com música ao vivo, deliciosamente molhado como um banho quente numa manhã gelada, dolorosamente desesperado como um último telefonema antes do reencontro entre dois amantes que não se veem há anos e ardente como a chama da vela de cima da mesa que por pouco não se apagara quando suas camisas foram arrancadas e atiradas longe.
O vento se encarregou de enterrá-los na escuridão. Ethan estava por cima de Nick, os dois completamente nus, que o abraçava pela cintura com as pernas num aperto de aço. Os lábios estavam colados e inseparáveis, com línguas se entrelaçando, dentes se tocando e então fechando-se nos lábios inferiores e superiores. Ethan enterrou o rosto no pescoço do irmão e aspirou todo o cheiro de sua pele e cabelo antes de marcar chupões naquela área já tanto maculada. Gemiam palavras incompreensíveis, o nome do outro, pedidos impossíveis de serem atendidos, bebendo tudo o que ouviam e sentiam como um néctar raro e precioso.
Nick apertou as nádegas do irmão com as duas mãos e então lhe deu uma palmada. Virou os corpos, deixando-o por baixo e depois beijou-o violentamente, quase cortando seus lábios com os dentes. Deu mordidas em seu queixo e passou pelo pescoço, onde repetiu os movimentos que o irmão acabara de fazer nele. Ethan agarrou suas nádegas com as duas mãos e deu-lhe palmadas também. Nick mantinha-se sentado em cima de seu falo com as pernas abertas, deixando que ele resvalasse por toda a sua área íntima. Não conseguia parar de dizer que o amava e que queria foder com ele a noite inteira até que não conseguissem mais andar, nunca mais.
Os beijos voltaram, as carícias, as mordidas. Os corpos, unidos como um só, reviravam-se o tempo inteiro no sofá, seguindo as ordens de seus donos que queriam de uma vez estar por cima ou por baixo. Houve um momento em que Ethan estava sentado com Nicholas em seu colo, abraçado a ele com os braços e as pernas, e os dois beijavam-se tão calma e apaixonadamente que por um segundo esqueceram que eram irmãos de sangue. Então quando a luz da lua entrou pela cortinas da varanda da sala e iluminou o rosto de Nick com sua luz prateada, aquele rosto andrógino e perfeito, aquele rosto absolutamente maravilhoso, infantil e irritante, Ethan sentiu um amor tão grande dentro de si que pensou que fosse explodir. Queria fazer aquilo todos os dias pelo resto de sua vida, queria estar com ele para sempre. Não importava em qual situação, só queria Nick, só Nick…
— Você conseguiu olhar para mim por mais de dez segundos — Nick sussurrou. Ethan deu-lhe um selinho. — Faça amor comigo, irmão.
— Eu farei.
Nick deitou-se de bruços no sofá e empinou o quadril para ele. Sentiu sua ereção dura e molhada de pré-gozo tocar seu ânus e então pressioná-lo, mas antes disso Ethan fechou os dentes em seu pescoço, tão forte que causou-lhe dor. Deu mais algumas mordidinhas antes de morder seu ombro nu, novamente forte o suficiente para deixar as marcas lá. Ele o estava marcando como seu e apenas seu, de nenhum outro garoto no mundo. Deu beijos nos machucados e enterrou o rosto em sua nuca, então desceu pelas costas macias, lambendo aquela pele salgada e dourada, dando chupões aqui e ali. Ethan deixou uma trilha de saliva desde o pescoço até suas nádegas. Fechou os dentes naquela carne macia e deliciosa e gemeu seu nome como se fosse uma joia.
Ethan deslizou sua língua pelo ânus de Nick, que enterrou o rosto no sofá e mordeu o tecido de uma das almofadas. Resvalou-a por toda aquela área, sentindo seu calor, e enfiou-a na abertura que piscava para ele até onde conseguiu. Apertou-lhe as coxas com força e puxou-as para si, afundando mais o rosto naquela área tão escondida, aspirando o cheiro de sexo do irmão.
Desceu com a boca para suas coxas e afundou os dentes ali também, chupando a carne com gosto, e então para as pernas, onde os pelos minúsculos e claros eram praticamente invisíveis, até os pés. Ethan deslizou a língua de seu calcanhar até o dedão, depois mordeu cada dedo mínimo antes de enterrar o nariz entre eles.
Nick virou-se e puxou Ethan para deitar-se em cima de si. Levantou as pernas e as pôs nos ombros dele, que empurrou-as para frente até os joelhos do irmão tocarem no peito do próprio. Ethan beijou Nicholas com carinho e se acomodou para conseguir tocar a glande do membro na abertura dele, sem nunca separar suas bocas. Quando conseguiu a posição desejada, empurrou levemente para dentro dele. Não tinham camisinha ou qualquer tipo de lubrificante artificial. De repente, ele não soube como achara aquilo uma boa ideia. Mas estava tão maravilhosamente quente dentro dele que simplesmente não se importou…
Nick agarrou sua cintura e puxou-a para ele, fazendo Ethan enterrar-se de uma vez. Aquilo revelou-se uma péssima ideia porque ele gritou de dor, embora tenha-o impedido de sair. Ethan estava quase delirando. Era a melhor sensação que já experimentara na vida. Melhor do que todas as vezes que chegara ao orgasmo através de Nick povoando seus pensamentos.
— Se mexa — Nick sussurrou sofregamente. — Ande logo, e meta com força.
Ethan retrocedeu o quadril e empurrou-o. Nick estremeceu de dor, mas não fez barulho algum, de modo que o mais velho continuou a estocá-lo devagar até que houve um momento em que não conseguiu mais segurar-se e começou a fazer com violência, sem se importar se ele gemia de dor ou de prazer. Aquilo parecia uma violação. E, Deus, era horrível. Ethan estava perdendo a virgindade com o irmão menor e estava dividido. Era com aquilo que sexo se parecia? Com a total mesquinhez e supremacia do egoísmo? Será que Nick se importava com o prazer das garotas com quem fazia sexo todo dia? Provavelmente sim, ou não faria sexo oral. A ideia de fazer sexo oral numa garota causou tanta repulsa a Ethan que ele pensou que fosse vomitar.
— Tem muita coisa na sua cabeça — Nick sussurrou. Parecia um anjo com os cabelos louros jogados na frente da testa suada. — Tudo bem, eu sei como é. Ficava assim nas primeiras vezes em que fiz sexo. E já tirei virgindades o suficiente para vivenciá-lo pelo resto da vida. Pare de se importar com o que vem de fora. Só o que existe é o nós dois, o aqui, o agora. Nada mais. Deixe-me sentar em seu colo.
Ethan sentou-se no sofá puxando Nick com ele, de modo que sequer precisaram se separar. Completamente imóvel, agora deixava o menor fazer todo o trabalho. Era uma visão hipnótica, ver o que seus quarenta e nove quilos conseguiam a muito custo formar. Aquele era um corpo maravilhoso, magro e delgado e curiosamente musculoso, mesmo que apenas um pouco. Nick não se desassemelhava muito a uma criança que começara a musculação cedo demais e não conseguiu se desenvolver direito.
Ah, mas nada disso importava porque, bom Deus, ele sabia como rebolar aquele traseiro.
— Eu vou gozar — sussurrou em seu ouvido após dar-lhe outro beijo francês de quinze gostosos segundos. Nick assentiu e guiou sua mão até seu membro surpreendentemente grande para sua idade e não condizente com sua altura. Tudo nele era pequeno ou grande demais. Por isso que era único, único por excelência.
Ele começou a cavalgar violentamente, vibrando em cima do irmão, molhado de suor, estocando-se sem piedade. Jogou a cabeça para trás e deixou Ethan degustar o suor de seu pescoço quando sentiu o jorro quente e delicioso invadir seu interior sem permissão. Ao mesmo tempo, Nick atingia seu próprio orgasmo, duradouro e esplêndido, vindo em ondas de puro prazer contínuo, como sempre. Não, não como sempre. Era diferente. Melhor.
Os dois caíram lado a lado, agarrados como um só.
— Estamos sujos de suor, esperma, saliva e sangue — Nick disse. O sangue era de seu ombro que Ethan mordera forte demais. — Parece que acabamos de realizar um ritual satânico. Antigamente era muito difícil fazer um desses, você tinha que desenhar umas estrelas e invocar alguns demônios de chifres, e eu nunca fui muito bom em desenhar estrelas. Hoje em dia só precisamos transar com o irmão.
— Cale a boca. — Ethan deu-lhe outro beijo, só mais um, como que para encerrar aquilo. — Eu o amo. Me ama?
— Te amo. Agora, Ethan, por favor, vamos comer aquela lagosta.
Fale com o autor