Como Vivem Os Anjos
44 O Príncipe Solitário
Notas iniciais
O trânsito estava infernal. Num trajeto comum, o motorista pegaria a Rua Primeira e viraria a direita pouco depois que chegassem a Wintorland, mas todo o caminho estava despedaçado. O chão elevava-se a mais de um metro de altura, em estacas de cimento afiadíssimas como estalagmites. A maioria dos prédios estava parcialmente desabada, ou deveria estar.
A construtora Grandes Esperanças fora especializada em reparação de casas antigas antes que Ethan a comprasse. O terremoto o obrigou a procurar toda uma nova equipe de empreiteiros, pedreiros, pintores, arquitetos e engenheiros acostumados a construir e reconstruir, e não apenas a restaurar, mas não demitiu a equipe antiga, não. Ao invés disso, estavam todos no Palácio Real Hentz.
Quando chegaram nas imediações do prédio mais alto de Middleland, uma titânica torre cinza-azulada, Nicholas viu todo um enxame de obreiros e barulhos irritantes reparando os primeiros andares do prédio. Foi escoltado para dentro por dois seguranças vestidos de terno. Sentia-se como um premiê.
Para sua irritação, descobriu que teria que subir os primeiros oito andares pela escada. O elevador não poderia descer muito mais, pois poderia ser danificado. Dentro do prédio, paredes eram cuidadosamente derrubadas e outras eram construídas, modificando escritórios e salas de reuniões, salões gerais e outros cômodos que eram ocupados antigamente. Nick perguntou-se se aquele parque de diversões ainda existia.
O oitavo andar estava vazio. Atravessou um longo e cinzento corredor até chegar a um elevador com portas de aço, que subiu apenas até o nonagésimo segundo andar.
— Os últimos três andares são exclusivos da família Hentz — disse um dos seguranças, mexendo no complicado painel do elevador. Uma tela pequena liberou uma espécie de scanner de digitais. — Coloque seu dedão direito, por favor, Sr. Hentz.
Nick assim o fez. A tela analisou suas impressões e as aceitou. Os seguranças pularam no nonagésimo segundo andar antes de o elevador subir para o ponto mais alto do prédio.
Saiu num longo e escuro corredor decorado em negro e verde-escuro. Telas sinistras guardavam os corredores, assim como antigos bustos de pedras com olhos cegos como a morte.
A porta do corredor deu numa enorme sala amarelada com vários sofás e três portas diferentes, duas delas lado a lado e a outra perpendicular a estas, com o espalhafatoso símbolo da Anhert: um leão dourado sobre um fundo preto com lascas amarelas. Abaixo do leão, formando um meio círculo, o nome Anhert Corporation e abaixo deste, formando um círculo completo, uma frase: Negro ou dourado, um leão é um leão. Nick escolheu essa porta, e foi como se tivesse atravessado um portal para outro mundo. Deu-se num gigantesco escritório em tons escuros e claros. Era um espetáculo e tanto, com móveis italianos do século XVI em um canto e modernos do século XXI em outro. A escrivaninha de madeira pesada tinha o tamanho de uma cama e estava cheia de papeis e eletrônicos. Um gigantesco Rembrandt adornava a parede por trás, margeado por mármore em tons quentes que se chocava com o de tons escuros. Havia poltronas espalhadas por todo lugar, divãs, sofás, estantes lotadas de livros e uma comprida mesa para oito pessoas com candelabros minimalistas iluminando-as. Na parede perto da mesa, um mapa-múndi esculpido em bronze. Um pesadíssimo lustre de cristal iluminava parte do escritório, enquanto lustres menores dispunham-se estrategicamente por áreas diferentes. Havia um aquário do tamanho de um guarda-roupa no canto da parede que jorrava uma luz azul bruxuleante em toda a sala, enquanto no canto de outra havia uma pequena área de descanso com gigantescas janelas que iam do chão ao teto.
Ethan estava sentado na poltrona presidencial por trás da escrivaninha, compenetrado num tablet, mas abriu um grande sorriso quando viu o irmão ali. Nick jogou a mochila no chão de qualquer jeito quando Ethan lhe abraçou e lhe beijou com carinho.
— Não é maravilhoso? — ele perguntou, indicando o salão a sua volta. Aquelas janelas gigantescas permitiam a vista da negritude daquela noite de inverno como portais translúcidos. — Olha só os quadros.
Na parede oposta a do mapa-múndi, havia quatro quadros em tamanho real pintados em cores tão vivas que dava a impressão de que as pessoas iam pular deles a qualquer momento. O primeiro quadro era antigo e tinha uma moldura grossa e dourada, adornada até nos mínimos detalhes. John Francis Hentz posava em pé, majestoso e obstinado. Ondromeda Olrwen estava sentada elegantemente num cadeirão francês, com John Francis bem por trás, e vestia um recatado vestido perolado. Era a mulher mais linda que Nick já vira na vida, com uma cascata de cabelos prateados quase brancos descendo pelos ombros até abaixo dos seios e um rosto tão angelical que era como se tivesse sido esculpido pelo próprio Criador. Um de seus olhos era da cor do céu, mas o outro era mais esverdeado, como um mar sob o sol de verão.
— Ela tinha heterocromia — Ethan disse. — Mas ninguém parece se lembrar disso.
A Dama Prateada sorria singelamente, os finos lábios rosados parecendo estar direcionados a uma pessoa específica. John Francis não parecia ter mais de quarenta anos, portanto Ondromeda devia estar com vinte. Provavelmente haviam acabado de se casar. E ela não parecia de luto.
Naquela época, as pessoas não sorriam nem para retratos. E, no entanto, eles estavam sorrindo.
O quadro ao lado mostrava John Daniel Hentz na exata posição de seu pai e Letricia Ovanosi na mesma posição de Ondromeda. John Daniel não sorria e tinha austeros olhos pretos, sem emoção ou calor algum. Seu cabelo era fino e quase esbranquiçado, já ralo mesmo em sua juventude, e o de Letricia era dourado como o de Nick, longo e encaracolado, e seus olhos eram azuis-escuros. Ela não parecia exatamente feliz, mas sim… conformada. Letricia era irmã de Olda Ovanosi, que era esposa de Olannis Olrwen, que era meio-irmão de John Daniel e bisavô de Ethan, Nick e Lorenzo por parte de pai.
Samuel Hentz, semelhante ao avô, sorria triunfantemente, o cabelo da exata cor do ouro, espesso e magnífico. Era mais parecido com John Francis do que com John Daniel em quase todos os aspectos. Os olhos, pretos e ambiciosos. Parecia ser muito mais jovem do que era mesmo quando já estava com quase setenta anos, certamente fora um homem bonito. Sentada, Joselia Jasperin não sorria. Era loura, como não podia deixar de ser, mas o cabelo era espesso e tinha leves toques marrons. Os olhos eram escuros e seu rosto era longo e austero. Tinham claramente se casado há pouco tempo, mas ela não parecia feliz.
No quarto e último quadro, Mary Alice Hentz e Charles Lemnsack, na mesma posição de sempre. Seu pai, de cabelos e olhos escuros, em pé e de terno. Mary Alice, esbelta e linda, com olhos grandes como pérolas negras, vestida de cima a baixo de branco, sorria enigmaticamente. Seus cabelos eram ouro puro, lisos, compridos e maravilhosamente brilhantes.
— Você percebeu que todas usam as joias Hentz? — Ethan perguntou. Era verdade. Desde Ondromeda até Mary Alice, havia uma fina gargantilha de diamantes em seus pescoços e um anel com uma pedra transparente do tamanho de um ovo de codorna em seus dedos médios. Além disso, usavam os brincos de diamantes em ambas as orelhas. — Era uma tradição da família. As mulheres deveriam se casar usando as joias, inclusive a pedra maior. Você nunca percebeu que o anel de noivado da mãe era esse?
— Ela não o usou na noite antes de partir para a Alemanha.
— Eu sei. O havia trancado no cofre há muito mais tempo. Desde sempre o casamento deles andava abalado. Agora veja o anel na mão dos homens Hentz.
Nicholas observou-os. Havia um anel de ferro negro no dedo maior de cada um de seus antepassados, inclusive no de Charles. Havia uma pedrinha retangular incrustada, branca e brilhante.
— É parte do Diamante Hentz — disse Ethan. — Esse anel passava para os patriarcas da família geração após geração. Não sei o que houve com ele. Não estava trancado no cofre da Suíça. Talvez tenha-se perdido após a morte de Samuel. Ele pode ter sido enterrado com ele. Não sei bem. Veja aqui.
Ethan tirou o Rembrandt da parede da escrivaninha, revelando um cofre de aço. Usou uma combinação rápida e o abriu, expondo seu interior acolchoado, cheio de gavetinhas trancadas à chave. Ele abriu uma delas com uma chave dourada. Um brilho multicolorido jorrou de dentro.
— São as joias Hentz — ele disse, erguendo o colar e o anel feitos do Diamante Hentz. Os brincos estavam com Amy, é claro. Havia outras pedras também: colares de pérolas negras e esmeraldas retangulares, anéis com enormes rubis vermelho-sangue e ouro branco opaco, brincos de ametistas e uma pesada e magnífica safira azul-cobalto incrustada num medalhão. Eram aquelas as joias encontradas na mala de sua mãe retirada do avião caído. Havia ouro também, e muito, além de outros diamantes. O conteúdo daquele cofre facilmente ultrapassaria os trinta e cinco milhões de dólares.
Os colares de ouro e diamantes com os dizeres NE e EN estavam guardados lá também. Eles haviam perdido um pouco do sentido desde que Lorenzo entrara em suas vidas.
Ethan abriu uma das gavetinhas mais altas e tirou um broche de prata em formato de leão.
— Antes de você fazer o favor de queimar o Livro Hentz, eu li um relato de John Francis de 1909 em que ele comentava que encomendara um broche de leão para comemorar o nascimento de John Daniel. Pensei que o broche havia se perdido, mas estava nas coisas da mãe. Ela havia tirado todas essas joias do mesmo cofre suíço em que guardava o Diamante Hentz. Acho que ia guardar aqui na Califórnia.
Agora que Nick o via bem, o broche era formado por um grosso círculo de prata maciça com a figura de um leão na exata posição do leão da Anhert, de pé e mostrando as garras. Havia diamantes minúsculos e brilhantes cobrindo todo o corpo do leão. Não era dourado, mas mesmo assim…
— É seu — disse Ethan com um sorriso, prendendo-o na camisa de botão do uniforme. — Passou pela mão de John Daniel e de Samuel, então agora é seu. Algo me diz que esses pequenos diamantes também são parte do Diamante Hentz. Antes que eu me esqueça, Melchior mandou-me a coleção inteira de Lympharia, não posso imaginar por quê. Daquele lado — Apontou para sua direita, onde uma porta de madeira avermelhada estava incrustada na parede — tem uma sala de reuniões e conferências, além de algumas outras ainda vazias. Vem, me segue. — Trancou o cofre novamente.
Saíram do escritório pela porta oposta, entrando numa espaçosa sala de jantar vitoriana que quebrava totalmente o clima de modernismo do escritório. Havia quadros de John O’Brien, Charles Burton Barber e James Tissot, como Ethan bem disse. A mesa tinha espaço para dezoito pessoas e havia um pequeno corredor com uma porta no final, e perpendicular a esse, no final da sala, outra porta pela qual seguiram.
Após a sala de jantar, um pequeno e aparentemente vazio cômodo, ou seria se não fosse pela mesa redonda com seis cadeiras em volta quase encostada na quina de uma parede arredondada coberta de dez pares de janelas maxim-ar, abertas no momento. O ar gelado da noite refrescava o recinto e arrepiava Nick. Ethan envolveu-o com o braço. Podia-se ver todas as luzes de Middleland na enorme abertura envidraçada da parede. Os tons suaves de azul davam a Nick uma estranha sonolência.
Seguiram pela esquerda, entrando na moderna cozinha, cujo corredor também dava no hall, assim como a sala de jantar. Entraram no corredor, passando por uma porta a direita que dava em outro corredor, e este então num espaçoso quarto. A cama colossal de madeira dura e indestrutível estava imaculadamente arrumada. Janelas de vidro-fixo jorravam a luz da noite no lugar. Havia luzes de neon também, aparentemente desligadas.
O guarda-roupa cobria toda a parede oposta à cama, cedendo espaço a uma gigantesca televisão de tela fina. Um lado do guarda-roupa estava coberto de ternos, o outro estava vazio.
Depois do quarto, um cômodo totalmente vazio, exceto por um elevador.
— Ele é privativo — disse Ethan. — Vai até o térreo do prédio, mas funciona apenas com as nossas impressões digitais. — Ethan apertou o botão de número noventa e três, pondo o polegar no leitor. — No nonagésimo quarto andar, há dois quartos. Um para você e um para Lorenzo. Comprei roupas novas para os dois. Há uma piscina e um salão de jogos também, além de uma academia, um cinema e uma sauna.
A biblioteca do nonagésimo terceiro andar era pintada em tons escuros de verde e tinha um tremendo acervo de mais de cinco mil exemplares antigos e novos. Havia uma magnífica lareira do século XVIII, com um Holbein pendurado por cima. Uma pena que fosse puramente estética. Aquele prédio não tinha chaminé.
Havia o maior salão de baile que Nick já vira na vida também, parecendo ter sido importado da Inglaterra do século XVII, bem como uma cozinha e uma sala de jantar tão grandes quanto as do último andar. Uma reprodução quase perfeita da Mona Lisa observava os convidados do salão com olhos enigmáticos.
Entraram numa sala onde Nick pensou estar vendo um grande aquário, mas logo descobriu que não. Era a piscina do nonagésimo quarto andar. Lorenzo pulou para o fundo quase no mesmo momento em que Ethan fechou a porta do quarto, fazendo Nick dar um pulo pra trás, mas ele apenas virou a cabeça para o grosso vidro, submerso, e deu um tchau, sorrindo de pura alegria.
Ficaram a observá-lo por um tempo, as ondinhas azuis tremeluzindo inconstantemente pela extensão do quarto branco, depois saíram novamente.
— O que houve com o parque lá de cima?
— Mandei desmontá-lo. O terraço é só nosso, agora. Sabia que eu fiz um seguro de vida de cinquenta milhões de dólares? Eles não me deixaram fazer um mais caro porque eu já tive casos de depressão, colapso nervoso, tenho tendência a estresse, sou fumante e porque nenhum homem da família Hentz durou mais de setenta anos. Aliás, John Francis morreu de câncer de pulmão, John Daniel de enfisema pulmonar e Samuel de infarto. Todos fumaram a vida toda. Mas enfim, espero que isso não ponha ideias na sua cabeça.
— Não seja idiota.
Ethan lhe deu um beijinho na ponta do nariz.
— Vamos subir novamente ao último andar, tem uma coisa que esqueci de te mostrar.
Foram novamente ao quarto de Ethan. O banheiro era colossal, com um box, uma banheira e uma hidromassagem do tamanho de um pequeno carro.
— Eu comprei isso para você — ele disse, entregando-lhe um pequeno pacote embrulhado. Nick o abriu com cuidado, vendo o inconfundível brilho do ouro refulgir no relógio. — Quer entrar na hidromassagem comigo? — Ele sorriu. — É um Rolex. À prova d’água.
Despiram-se no banheiro, entrando na deliciosa água quente da gigantesca banheira. A água borbulhava com violência, beijando seus corpos nus. Nick sentia toda a tensão do dia se desanuviando, todos os pensamentos infelizes, as mágoas e decepções indo embora. Era como se nunca tivesse conhecido Summer, Spring, Autumn ou Winter, e sua vida ainda fosse fácil como a de qualquer garoto de quinze anos devia ser. Estavam só ele e o irmão ali, como dois amantes.
— Porque, negro ou dourado, um leão é um leão — sussurrou antes que conseguisse se controlar. Ethan olhou-o com surpresa, então puxou o delicado corpo dourado para si e o beijou com luxúria.
— E você é meu leão dourado, e aqui estamos no nosso palácio — ele disse fitando-o nos olhos. Um palácio onde cresce um rei, pensou Nick taciturnamente.
Beijaram-se novamente, sem nenhum pudor, sem nenhuma limitação. Ali, podiam gemer a vontade, gritar as obscenidades que queriam a vontade, sem ninguém para ouvir ou julgar, sem precisarem se esconder de ninguém. Ethan tinha razão, ali era seu palácio real. E se ele é o rei, eu sou o príncipe. O príncipe solitário.
Ethan mordiscou o pescoço de Nick com delicadeza até levá-lo à loucura. Pressionava seu falo contra suas nádegas por baixo da água agitada sem parar, beijando-o quase que com violência, dando chupões em seu pescoço molhado. Masturbava-o com suavidade, gemendo no ouvido do louro.
Nick se apoiou na borda da banheira, empinando o quadril, implorando para que Ethan o fizesse de uma vez. Lentamente, o maior mordeu suas coxas com vontade, subindo lentamente às nádegas, sorvendo cada pedaço de carne. Afundou o rosto na bunda do irmão, naquela abertura quente e apertada, enfiando a língua o mais fundo que conseguia.
Nick tremia na boca de Ethan, sentindo a aquele órgão molhado e atrevido invadir-lhe. Ethan apertava a carne de suas coxas e gemia, masturbando-o de leve, deslizando a língua por seu ânus com vontade, beijando-o e mordiscando-o por toda parte.
— Nicholas — ele arquejou, separando-o do irmão. — Venha, sente aqui.
Com as costas coladas no peito de Ethan, Nick desceu lentamente por seu membro duro. Seu quadril era puxado para baixo com delicadeza. Tinha a consciência de que Ethan estava se controlando para não simplesmente se afundar nele de uma só vez e começar a estocá-lo com violência.
Quando estava envolvendo o pênis de Ethan por completo, Nick começou a lentamente mexer o quadril, sem subir. Ethan afundou os dentes em seu ombro e no pescoço, beijando sua bochecha e seus lábios.
Após alguns minutos apenas rebolando, Nick começou a lhe cavalgar de verdade, sempre com a cabeça virada para fitá-lo nos olhos. Ethan olhava-o como se quisesse engoli-lo.
— Oh — Nick gemeu, voltando a rebolar. — Me coloca de quatro. — Ethan saiu e dentro do irmão, pondo-o na dita posição. — Mete com força.
Enfiando-se nele de uma só vez, Ethan puxou-lhe pelos quadris e passou a bombardeá-lo com um certo desespero. Quando não pelos quadris, puxava-o pelos ombros. Nick perdeu a conta de quantas palmadas levou e de quantas vezes suas costas foram arranhadas até as nádegas; só sabia que, ao final de tudo, elas ardiam gostosamente.
Após tomarem um banho propriamente dito, deitaram-se na cama de Ethan, nus e cansados.
— Eu me sinto tão feliz — o maior sussurrou. — Tenho tudo o que sempre quis. Você. A Anhert, onde nós estamos. Eu amo tanto você, meu maninho.
Nicholas beijou-o com paixão, puxando o cabelo de sua nuca. Ethan chupou sua língua com luxúria, uma nova ereção crescia lentamente.
— Você sabe que esse lugar também é seu — Ethan lhe disse, indicando todo o quarto. — Não só os últimos três andares. O prédio todo. O palácio todo. Você é meu Hentz.
— Eu sou — Nicholas disse, deslizando as mãos para suas nádegas. Ethan gemeu num tom baixo. Acho que essa é uma péssima hora para dizer que estou sofrendo por amor. Eu nunca sofri isso na vida… dói mesmo tanto assim?
— Você sabia que a HBC está patrocinando a adaptação para a TV dos livros de Melchior? — o mais velho perguntou.
— Não era a WiW?
— Eu mudei. WiW significava Wright-Welch & I; HBC significa Hentz Broadcasting Corporation. Mas enfim, acontece que hoje na St. Nicholas, Melchior me relembrou que a HBC está fazendo testes para o elenco da primeira temporada.
Nicholas, você já pensou em fazer teatro?
— E…? — indagou cuidadosamente.
— Ele disse que queria que você fizesse o teste para um dos personagens principais. Vai ter que competir com outras dez mil pessoas, é claro, mas ele disse que quer que você seja escolhido.
— Por que diabos iria querer Melchior que eu fosse escolhido? Pense bem. Você sabe que ele não faz nada sem um bom motivo.
— Não exagere.
— Ele te enfeitiçou com aqueles olhos violeta dele, não foi? Não baixe a guarda, a cada segredo que ele te sussurra, retém sete.
— Melchior é produtor executivo da série. E eu sei o que você está pensando, que ele quer arrumar um jeito de ter um de nós na mão dele, já que ele, atualmente, não tem, então está usando você. Mas Nicholas, mesmo que ele fosse diretor da série… eu sou o dono da emissora. — Ethan lhe deu um sorriso meigo. — E pago o salário dele. É uma chance.
Nick não estava bem certo. Melchior certamente saberia que não poderia controlar Nick com aquilo. Havia algo por trás. E algo grande.
Ou talvez eu esteja ficando paranoico.
— Qual seria meu cachê? — perguntou com um sono súbito.
— Ainda estamos trabalhando nisso, mas acho que chegaria facilmente a um quarto de milhão de dólares.
— A maior mesada da história da humanidade. Está bem. Vou pensar nisso. Você sabia que estou fazendo teatro na St. Nicholas? Acho que sou o personagem principal da peça que eles vão encenar. Adivinhe quem é o escritor da maldita peça.
Ethan deu uma risadinha, beijando-o de novo.
— Estou orgulhoso de você.
— Você pretende fazer faculdade? — Vendo seu olhar de resignação, Nick deu de ombros. — Nossos pais se formaram em Harvard. O pai fez Direito e a mãe fez Economia. E nem americanos eles são, pode imaginar como deve ter sido difícil… e você tem o mesmo potencial.
— Eu não tenho tempo.
— Você tem dezoito anos, tem tempo.
— Mas a questão é que eu não quero nunca mais voltar a ver uma sala de aula.
— Acha que os grandes bilionários da Wall Street e os barões do petróleo do Oriente Médio vão se curvar a um adolescente que só tem o ensino médio?
— Assim o farão quando eu tomar as empresas deles. A Grandes Esperanças já é uma das dez maiores construtoras da Califórnia, graças àquele terremoto, sendo que antes era tão mal administrada que não serviria nem para reformar esse quarto. Ela lucrou quase quatrocentos milhões de dólares ano passado. E, sabe, Nick… a Califórnia ainda está bastante quebrada. — Ethan deu uma risadinha. — Tudo graças a Redford Bellafonte.
— O pai de Amy?
— E governador de Southeria. Ele poderia ser escolhido outra construtora, mas contratou a minha e assim fizeram Angelique McQueen, Melinda Lancaster e Lyanna York.
— Quem?
— As governadoras dos outros condados.
— Você continua a ser um adolescente. O que diriam nossos pais…? — perguntou num tom de voz propositalmente dramático.
— Samuel Hentz ainda era vivo quando a mãe estava na faculdade, era ele quem controlava a Kruger-Vorheel, ela não precisava se preocupar. E o pai ainda tinha resquícios da fortuna que Olannis Olrwen dera a Doreah Lemnsack para que ela se mantivesse calada sobre a paternidade de seus filhos. E eles não tinham filhos… nem irmãos. Eu não tenho tempo, Nick.
— Eu compreendo — disse manhosamente, ronronando sonolento. Sabia que ele não mudaria de ideia. — Espero então que a genialidade dos Hentz esteja mais forte em você do que em mim. Nosso pai era um gênio da advocacia e a mãe, dos negócios. A propósito, eu tenho uma competição de futebol amanhã de tarde, no ginásio I do Oeste… não sei, sinto que esse ano poderá ser bom… quem sabe…
Ethan aninhou-o nos braços com carinho, protegendo o corpo louro e delicado de um inimigo invisível. Nick acabou adormecendo no calor de seu peito.
No dia seguinte, espalhou-se como verdadeira a informação de que haveria uma competição entre os nortenhos vermelhos e os sulistas verdes. Desde cedo os azuis e os amarelos começaram a encher as arquibancadas, um de casa lado, gritando ofensas pejorativas para os outros.
Nick descobriu que os jogadores normalmente iam à capela St. Nicholas antes dos jogos, e que seria obrigado a ir também. Não por imposição da escola, mas sim porque diziam que quem não ia era azarado. Aliás, Winter e Summer o obrigaram.
— Não precisa sequer ouvir o que o padre fala, mas se não vir, ninguém vai passar a bola para você — disse Winter, arrastando-o para dentro da construção de tijolos vermelhos. Dentro, era alta como uma catedral, toda construída em dourado com vitrais católicos incrustados nas paredes com imagens de Nossa Senhora. O presbitério era magnificamente construído nos mesmos tons escuros e exalava uma frieza sinistra. Um crucifixo gigantesco observava a tudo e a todos.
Nicholas sentiu um terrível arrepio. Nunca havia gostado de crucifixos.
Winter estava do seu lado, e Summer do lado dele. Daquele ângulo, pareciam até inocentes. O nervosismo acabou passando naquele ambiente sereno. Não importava que tremesse à imagem de uma igreja, aquela lhe passava uma sensação de segurança.
Talvez todo o meu medo de vir para cá fosse infundado. Minha mãe cuidou de tudo. Talvez ela até tenha mandado matá-lo, como Ethan fez com as Pessoas.
Quando olhou para o altar, bem onde o padre deveria se prostrar, seu sorriso foi lentamente diminuindo.
Dentro da batina preta, o padre era tremendamente grande, vigoroso e bonito para, bem, um padre. Tinha um ralo cabelo louro e carismáticos olhos azuis, e seu rosto apresentava as nódoas da velhice, embora ele aparentasse ter sido bonito na juventude. Na verdade, não teria mais de cinquenta e poucos anos.
— O nome dele é Lafferty — disse Winter sem nem olhar para Nick. Nick sabia que o nome dele era Lafferty. E também sabia seu sobrenome. Quase conseguia sentir o cheiro aguado de limão.
— Lafferty Winter — complementou. Winter olhou para ele com os lábios crispados e as sobrancelhas franzidas.
— É, ele é meu tio. Tio-avô, na verdade. É estranho dizer que eu sou parente de um padre. Você nunca pensa que eles têm família.
— Morava em Castellobranco — Nick sussurrou. Seus dentes tremiam tanto que mal conseguia fechar a boca. A voz grave do padre ressoava por toda a capela, mas era como se estivesse num plano de existência diferente do de Nick. — E pregava na Escola St. Emanuelle. Mas voltou há seis anos. Ninguém sabe por quê. Ele teve um filho antes de virar padre.
— O filho dele também é dessa escola e… como sabe disso? Nicholas… você está bem? — Ele o fitava com aqueles olhos azuis muito gelados.
— Shh — disse Summer, concentrado em Lafferty.
— Preciso sair daqui — Nick disse. Arranhava a madeira do banco com força, machucando suas unhas.
— Se for, não vai poder jogar — Winter disse com um ar de preocupação na voz.
— Não me importo. — Nicholas Hentz se levantou do banco e deixou a capela a passos rápidos. Tinha consciência do olhar dos outros sobre si, mas a voz do padre Lafferty não parou ou hesitou um segundo sequer. De alguma forma, sentia-o olhando para suas costas quando atravessou as portas da capela. Também de alguma forma, sabia que ele o reconhecera.
Não soube como, mas foi se dar vomitando incontrolavelmente no vestiário do ginásio I. Com a cabeça enfiada na privada, Nick sentia as lágrimas quentes escorrendo pelas bochechas humilhantemente. O velho fantasma insistia em voltar-lhe.
Você não quer que ninguém descubra, quer? Seria horrível para você se descobrissem. Quem acreditaria?, uma voz do passado lhe sussurrou.
— Só que você não contava que eu fosse membro da família Hentz, seu filho da puta — falou entre dentes, tentando parar de tremer. Desejava que Mary Alice Hentz o tivesse matado, mas quem morrera fora ela.
Saiu do vestiário diretamente para o ginásio, onde uma barulheira insuportável enchia-lhe os ouvidos. Teve de subir até a última fileira, a mais alta, para conseguir chegar em Ethan Lemnsack. Surpreendeu-se ao ver que Lorenzo, Gabriel, Amy e Melchior estavam ali. Este último vestia sobretudo e não suava, como sempre.
— Que faz aqui? — indagou a Amy. Ela fitou-o com surpresa e deu de ombros.
— Estou fazendo Jornalismo. Deveríamos escrever toda uma notícia de primeira página para a próxima semana. Pensei em escrever sobre o jogo.
— Você não deveria estar na capela? — Ethan indagou. Lorenzo se empertigou em seu lugar, subitamente alerta.
— Você está horrível — ele disse. — Horrível mesmo. Que foi que aconteceu?
Nicholas sentiu-se chorando de novo, mas foi nos braços de Ethan dessa vez. Sentia-se como um bebê no colo quando ele lhe pegava daquele jeito.
Seria horrível para você se descobrissem. Quem acreditaria?
— Quando eu tinha nove anos — começou, engolindo o nó na garganta —, o padre Lafferty, da St. Emanuelle, me pediu uma coisa.
Tinha uma nítida e absoluta certeza de que Melchior acabara de descobrir o que ele queria dizer. Lorenzo era muito novo para tal, mas se fosse mais velho teria descoberto também. E Ethan estava indecifrável.
— O que ele lhe pediu? — indagou com uma voz que não era mais que um sussurro.
— O quê, Ethan? — perguntou desesperadamente. — Qual é a única coisa que quando um adulto pede a uma criança e ela não pode dar, ela nunca pode dar, ele tem que forçar?
De repente, o burburinho do ginásio pareceu ficar mais baixo, embora só aqueles quatro tivessem lhe ouvido. Lorenzo estava com olhos duros e confusos, além de uma forte perplexidade. Gabriel olhava-o da mesma forma, e uma súbita angústia se apoderara de sua expressão. Amy estava com os olhos ligeiramente arregalados, os lábios entreabertos, uma terrível confusão em seus orbes azuis. Melchior estava essencialmente neutro, apenas as sobrancelhas cinzentas franzidas, como se ainda estivesse absorvendo aquilo.
Ethan estava com as sobrancelhas franzidas também, e os olhos eram profundos e negros, absurdamente negros.
— Ele te violentou — Lorenzo sussurrou sinistramente.
— Contei à mãe e ela fez Lafferty ser mudado de escola. Ele veio para essa.
Ethan respirou profundamente, absorvendo cada palavra com austeridade. As reações lembravam-lhe das reações de Carmenia e Victoria Goldenschild quando lhes contara. Achou bom omitir o fato de que Mary Alice jamais denunciara Lafferty por puro egoísmo.
Mas estava claro que Ethan sabia.
— É isso que vale o nome Hentz? — ele sussurrou assombrosamente. — Uma arrogância tão grande que ela preferiu esconder isso a dizer ao público?
Sua voz era tão suave que Nick pensou que ele fosse explodir a qualquer momento.
— Não faça nada, por favor — implorou-lhe. — Eu te suplico que não faça nada. Ele não vai sequer olhar na minha cara de novo, ele já sabe quem eu sou.
Ethan olhou-o como se tivesse ouvido a maior heresia da Terra.
— Ele fez aquilo com você e você espera que eu não faça nada? — indagou entre dentes. Melchior se aproximou sorrateiramente, pondo a mão no ombro de seu irmão. Nick notou que Gabriel desviou o olhar dele.
— O que você fez ano passado nunca foi noticiado, mas não quer dizer que dessa vez não será também — ele sussurrou com aquela voz doce e suave. — Você é conhecido agora. É um empresário. É um Hentz. Se acontecer alguma coisa com Lafferty e a mídia mexericar, acabarão descobrindo. Acabarão somando dois mais dois. Faça-me o favor de usar a sua cabeça.
Ethan estava arfando de leve como um touro fazia antes de atacar.
— Vamos embora — ele sussurrou. Nick se levantou trêmulo, as pernas bambas. Sentia que tinha ficado um ano sentado.
— Eu preciso pegar minhas coisas no vestiário — disse. — Minha mochila está lá, junto com as minhas roupas. Espere-me do lado de fora do ginásio… eu já vou.
Não sabia por que, mas sentia que precisava ficar um pouco sozinho.
Havia mais cachecóis azuis e vermelhos do que verdes e amarelos quando Nicholas Hentz voltou a atravessar o ginásio. Voltou ao vestiário em passos lentos e hesitantes, uma tristeza sem nome apoderando-se de si, tornando-o letárgico.
Abriu o armário do vestiário ainda vazio e tirou sua mochila, fechando-o e virando-se então.
O padre Lafferty encontrava-se parado diante de si. Nick tomou um susto tão grande que esqueceu de gritar, largou a mochila e jogou as costas contra o armário. Mesmo mais de meia década depois, ele estava tão igual quanto antes. O corpo grande como o de um jogador de futebol, os carismáticos e gelados olhos azuis dos Winter. Exalava aquele perfume repulsivo de limão que se impregnara em seu nariz durante semanas.
Quem acreditaria?
— Nicholas — ele disse com uma voz grave e sonora. Sorria jovialmente.
Nick tremia dos pés à cabeça. Por que sentia tanto medo? Por que se sentia um garotinho na presença dele novamente?
— Você — disse quase descontrolado, cheio de raiva. — O que está fazendo aqui? Como se atreve a aparecer na minha frente de novo? Sua abominação repulsiva. Você sequer sabe quem eu sou?
— Sei que é um garotinho louro e que aprendeu algumas palavras novas.
O padre Lafferty aproximou-se de Nicholas. Ainda usava a batina em preto único, com trinta e três botões de cima a baixo, representando a idade de Cristo ao morrer.
— Eu não sou mais um garotinho — gritou tentando mostrar que não tinha mais medo, mas a ranhura de sua voz o traiu.
— Então por que se treme todo? — Ele levou uma das mãos ao seu queixo, deslizando-a nojentamente através da pele macia. — Está do mesmo jeito que estava há seis anos. Você não cresce nunca. Por isso preferia você, dentre todos os outros garotos.
A raiva de Nick estava sendo lentamente consumida pelo temor. Os olhos gelados de Lafferty sugavam sua vitalidade como uma vez já fizeram. De repente, ele era apenas um garotinho de nove anos novamente, completamente indefeso.
— P-Por favor… não — sussurrou quando ele o puxou para deitar-se no banco de madeira. Não resistiu, não tentou lutar, como seria normal. E que chances tinha ele contra Lafferty? Tinha apenas nove anos e estava sozinho…
— Você não chorou daquela vez — ele disse, dando um selinho em sua testa que o arrepiou de cima a baixo, um arrepio que ele odiou. Lafferty desceu a mão pelo corpo com um desejo hediondo, parando entre as pernas de Nick. Apertou-o lá. — Você sempre quis isso, não tente mentir. Você era tão pequeno que eu conseguia enfiá-lo inteiro na boca, se lembra daquilo?
Nicholas se lembrava. Por mais terrível que fosse, a sensação não saía de sua cabeça. Arfou quando Lafferty começou a estimulá-lo lá, e mais ainda quando percebeu que estava funcionando. Cobriu o rosto envergonhadamente, mas ele o forçou a olhá-lo. O cheiro de limão era insuportável.
Voltou a tremer quando o homem deitou-se sobre ele, sussurrando-lhe as mais sujas obscenidades que já ouvira, as mesmas que ouvira há tantos anos. Não conseguia empurrá-lo, só conseguia chorar e implorar.
— Você nunca desejou que um homem deitasse com você na sua cama e fizesse isso que estou fazendo com você agora? — ele indagou finalmente sorrindo com dentes brancos como porcelana. — Eu tirei sua virgindade àquele dia. Lembra daquilo?
Nicholas gritou quando Lafferty puxou sua calça para baixo, pensando ser o fim. Se ele continuasse, morreria. Não sabia como, mas sabia que morreria. A mãe não estava lá para protegê-lo nem para cantar Um gatinho para o pão trazer…, estava morta e gelada no fundo do mar, e Lafferty estava ali, duro e quente, violando-o.
Fechou os olhos e preparou-se para desmaiar… talvez fosse daquele jeito que Owl se sentira ao ser violentado por Sttan Molihnar a Lance Chioren… quase sentiu pena dele, mas então se lembrou de Mia.
E o padre Lafferty soltou um gemido repulsivo.
É o fim. Vou morrer. Vou morrer, eu sei que vou.
Mas não morreu. No momento em que ouviu o som de algo duro batendo contra outro algo muito duro e quebrando-o, Lafferty parou. Nick pensou ter parado de sentir seu coração bater, mas era só imaginação… tinha que ser.
O corpo terrivelmente grande foi arrancado de cima de si e jogado de lado. Ethan Lemnsack estava ali, em pé, com o rosto vermelho e furioso, segurando um bastão de baseball como um anjo de cabelo negro.
Ele puxou-o de cima daquele banco e o abraçou. Nick desatou a chorar como uma menininha a partir daí, sem se importar se alguém ouviria. Sem se importar com nada, puxou o cabelo da nuca de Ethan, como que para ter certeza de que ele estava mesmo ali.
De algum modo, Lorenzo Barcarolli, Amy Bellafonte, Gabriel Melnick e Melon Chioren surgiram de algum lugar. Melchior foi o primeiro a falar.
— Meu Deus. — Sua voz estava nauseada e severa enquanto aquela cena ardia em seus olhos violeta. — Que merda. Mas que merda. Ethan, você acha mesmo que precisava usar esse taco? — A suavidade repentina parecia deslocada ali.
Nick não soubera do que ele estava falando até que viu o sangue no taco de Ethan, vermelho e terrível. O barulho de algo se quebrando arrepiantemente voltou à sua cabeça. Quando olhou, o padre Lafferty estava jogado no chão, imóvel, de bruços, com a cabeça fraturada e sangrando. A verdade veio à tona em poucos segundos, fina e gelada como o cheiro da morte.
Lorenzo se aproximou do corpo e tocou-o de leve antes de ser afastado por Amy.
— Ele está morto — o menino sussurrou com seu adorável sotaque italiano.
— Não importa — disse Ethan rapidamente antes que aquele silêncio desgraçado se instalasse de novo. — Foi em defesa de um terceiro.
Melchior balançava a cabeça negativamente, andando de um lado para o outro com impaciência, como se estivesse tratando com um bando de crianças estúpidas.
— Nicholas nunca o denunciou — disse com um certo desespero na voz. Nick por algum motivo imaginou um enorme muro de pedra desmoronando —, e a única pessoa que sabia além dele está morta. Vocês não tem como provar que ele fez o que fez, não tem sequer como provar que ele o atacou hoje. Ninguém dessa sala viu acontecer, exceto você, Ethan. E você é…
— … um assassino — seu irmão completou furiosamente. — Sou um assassino.
Sempre foi, Nick pensou desesperadamente.
— Não me importo com isso — ele continuou. — Eu estava protegendo meu irmão.
— Então o quê? — indagou Gabriel. — Vai para a cadeia?
— Se eu tive que ir para a cadeia por isso, eu vou.
O silêncio sepulcral tomou conta daquele vestiário ainda vazio. Algumas lajotas azuis estavam sujas, as portas dos armários rangiam quando abertas, a luz cintilava o tempo todo e gotas d’água caíam dos chuveiros para o piso molhado. Nick pensou que aquele vestiário precisava de um reparo. E o corpo morto do padre Lafferty jogado ali tornou-se subitamente insuportável de ver.
— Não — disse uma voz, rasgando o silêncio como um chicote. Quando todos se viraram para Amy, ela sussurrou severamente: — Não vai, não.
Nicholas pensou estar olhando para outra pessoa, outra garota loura e bonita. Parecia loucura, mas não era só a voz que estava diferente. Amy parecia ser literalmente outra pessoa. Sua expressão estava diferente, como se pertencesse a alguém mais nova, embora o tom da voz estivesse duro como pedra e áspero como uma lixa.
— O vestiário do ginásio II está em construção — ela disse. — Vi quando vinha para cá porque peguei a Estrada do Norte. Levem o corpo até lá. Os jogadores logo sairão da capela e virão para cá, eu limparei o sangue.
— Amy… — começou Ethan. Mas ele nunca pode terminar aquela frase.
— Faça o que eu digo — ela rosnou.
De algum modo, fizeram. Os três mais velhos fitaram-se por um instante antes de pôr as mãos em obra, preto no verde e no púrpura. Nick tomou o súbito conhecimento de que Melchior queria ir embora; se o fizesse, teria todos dali em suas mãos, controlando-os como marionetes.
Mas Ethan antes preferiria pôr fogo no Palácio Real Hentz a deixar Melchior se esgueirar para longe como a víbora que ele era.
Saíram pela porta dos fundos do vestiário carregando o corpo, dando numa noite gelada como as Sombras. Ethan segurava o padre Lafferty pelas pernas e Melchior e Gabriel seguravam-no pelos braços. Nick e Lorenzo seguiam-nos de longe. Amy fizera todo o possível para limpar sua cabeça afim que o sangue não pingasse pelo caminho.
Atravessaram um pequeno florestado por trás dos ginásios até chegar no ginásio II. Não havia ninguém a vista. Estava tudo escuro e sereno.
O vestiário propriamente dito não existia. Eles haviam escavado o terreno retangularmente por trás do ginásio e começavam a enchê-lo de cimento. Uma máquina de misturar concreto estava parada na borda do terreno, com a bocarra apontada para o céu sem nuvens nem estrelas.
Amy chegou pouco tempo depois, parecendo resfolegada. Carregava o taco de baseball.
— Limpei o sangue o quanto pude — ela disse, mostrando um pano de chão sujo de vermelho. — Se eles testarem, poderão ver que realmente houve sangue ali. Mas eles não vão testar, não é mesmo, rapazes? — Lançou um olhar penetrante para cada um dali. — Atirem o corpo no terreno.
Fizeram o que ela disse, mas não sem hesitar. Afinal, Ethan parecera se lembrar de seu nojo por cadáveres e começou a sentir náuseas. Melchior não estava muito melhor, parecia ainda estar estupefato de que tudo aquilo estava acontecendo com ele. E Lorenzo e Gabriel estavam pálidos como fantasmas.
Se Melchior não fosse tão desesperado pelas boas graças de Ethan, pensou Nick, estaria agora mesmo nos denunciando, ou coisa pior. Ethan fez o que devia fazer, forçou-o a ser cúmplice apenas porque ele seria perigoso demais com essa informação. Agora Melchior não tem outra saída a não ser guardar o segredo.
Quando o corpo se estatelou lá em baixo, Amy puxou uma das alavancas da máquina de misturar concreto. Ela rangeu e resmungou, as engrenagens funcionando com lentidão. Inclinou a abertura para o vão escuro e despejou o líquido grosso e cinzento no montante que há poucos minutos fora o padre Lafferty Winter. Amy jogou o pano vermelho que usara para limpar o sangue também, misturando-o com o concreto. Entregou o taco a Melchior.
— Esconda-o no seu sobretudo, depois entregue a Ethan, que deve queimá-lo até sobrarem apenas as cinzas. Quando eles vierem de manhã, acharão que a máquina sofreu um curto e despejou ela mesma o cimento, então terminarão de encher o terreno e o corpo sumirá para sempre. — Virou-se para Nick. — Você saiu da igreja porque não estava se sentindo bem, e assim decidiu ir para casa. Encontrou conosco na quadra e voltou ao vestiário para pegar sua mochila, saindo pela porta dos fundos. Todos nós saímos pouco tempo antes e fomos ao estacionamento.
— Essa escola tem câmeras de segurança no pátio frontal — disse Nick alarmado. — Os horários não vão bater…
— Antes de irmos ao estacionamento, Lorenzo passou mal, por isso nos atrasamos — Amy respondeu com simplicidade. — Quando ele melhorou, você já tinha dado a volta pelo vestiário e nos encontrado na saída do ginásio. Foi isso que aconteceu. Entenderam todos?
— E você absolutamente não deve sair da St. Nicholas — disse Melchior, recuperando a compostura e a irritação. O taco desaparecia em seu sobretudo fechado. — Vai ficar óbvio demais se assim o fizer. Deve ficar aqui. Não deve demonstrar prazer pela morte de Lafferty. Deve ser uma aluno normal. Ninguém suspeitará assim. Vão dar pela perda do taco, mas você nunca o viu na vida. De relance, quem sabe. Não importa se Lafferty sumiu misteriosamente e o taco também; desde que não encontrem o corpo nem a arma do crime, estará tudo bem, mas não pensem que será imediatamente. Lafferty era uma pessoa importante nessa escola. E ele tem um filho que estuda aqui. A família quererá saber do paradeiro. A polícia vai investigar. Farão perguntas durante meses. Amy, Lorenzo, Gabriel não voltem aqui, nem comentem que estiveram aqui. Ethan, volte se for absolutamente necessário. Eu só voltarei para buscar meu irmão e mais nada. Marco também não saberá. Só nós. Ouviram? — Havia uma rispidez em sua voz direcionada a Ethan, que apenas deu de ombros.
Nicholas olhou para cada um dos presentes ali com mais atenção. Ethan Lemnsack, o primeiro e último leão negro, duro como puro aço. Lorenzo Barcarolli, o garoto italiano cego que era mais que aparentava. O rosto, uma incógnita. Ele era apenas uma criança. Amy Bellafonte, determinada, inflexível, insubmissa e inquebrável, parecendo outra pessoa. Melon Chioren, um quebra-cabeça em formato de gente. Nicholas teria dado a vida para saber no que ele estava pensando e o que planejava. E Gabriel Melnick, cuja expressão era uma confusão. Amava Ethan tanto assim para ser cúmplice de um assassinato por ele? Ele não o teria forçado a ficar como fez com Melchior. E também havia ele próprio, Nicholas Hentz, o último leão dourado, o mais novo dessa dinastia que aos poucos ascendia como uma brasa e agora estava na beira de um abismo, podendo cair a qualquer momento.
Sou um assassino. Fitou profundamente aquelas pessoas tão diferentes com aquele segredo em comum que agora se escondia por baixo de dezenas de quilos de pedra solidificada. Todos somos.
— Acabou — Amy sussurrou, dando um basta naquilo.
Não, não acabou, pensou sombriamente. Está só começando.
Notas finais
Percebam que ela é diretamente oposta a terceira. Ao invés de serem várias pessoas procurando um assassino, é um assassino se escondendo de várias pessoas. :D
Btw, hoje (dia 18) é meu aniversário de 17 anos oooo/
E PLZ, REVIEWS
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