Como Vivem Os Anjos
45 O Doce De Primavera
Ele acordou aquele dia com sonolência, vindo de um longo sonho sombrio numa rua lamacenta e escura. Ainda podia ouvir o barulho das folhas oscilando odiosamente nos galhos das árvores da floresta, e a falha da cerca, tão terrível quanto um buraco-nego, enquanto o fedor da carne humana subia por suas narinas, e aqueles dentes, afiados como dentes de vampiro, afundando-se na carne tenra de seu pescoço.
Ainda tinha as marcas, como viu ao se olhar no espelho grande. Duas cicatrizes profundas e vermelhas que Summie sempre beijava quando os dois estavam sozinhos, ou cercados de pessoas de confiança, como era aquele caso. Vendo-se nu, Spring observou atentamente o corpo que ele tanto amava, que tanto adorava beijar, morder, chupar e apalpar.
Os chupões de seu pescoço, braços e ombros ainda estavam lá, e a barriga lisa ainda apresentava fileiras de dentes. Era completamente liso, sem pelo algum, do pescoço para baixo, e sua pele dourada escondia os que nasciam minúsculos e louros. O cabelo estava amassado, com mechas amarelas e marrons entrelaçadas por trás da cabeça e mais ainda na frente desta, caindo pelos ombros nus numa longuíssima franja. Spring prendeu o cabelo com um lacinho, fazendo um coque.
Summer ainda estava dormindo, deitado na cama de casal do lado direito do quarto de número 11-E do Alojamento Vermelho. Às vezes, sentia-se grato por ter o mesmo primeiro nome de Autumn, assim invariavelmente ficavam no mesmo quarto ano após ano.
Na primeiravez em que o vira, sentado elegantemente em sua cama do lado esquerdo do quarto, com aquele sobretudo fechado até o pescoço — um sobretudo no sul da Califórnia —, o nariz empinado e o inconfundível sotaque londrino, tomou-o como um daqueles ingleses arrogantes dos quais se tanto ouve falar, mas só se vê em filmes. De fato, ele era. Até conhecer Winter.
E falando no Diabo, Spring ouviu um barulho constante na porta do quarto. Vestiu uma cueca e a destrancou para dar de cara com um Winter totalmente descabelado, com metade dos lábios manchados de batom, um cachecol azul-claro em volta do pescoço e óculos escuros mal colocados. Agasalhava-se de cima a baixo com um grosso sobretudo preto e estava tentando acertar a chave na fechadura, mas era óbvio que nunca conseguiria.
— Bom dia — disse Spring. Winter apertou os olhos quando olhou para ele, como se irradiasse alguma luz irritante.
— Para quem? — ele murmurou, entrando lentamente no quarto. — Minha cabeça parece ter o peso de todos os garotos que eu já chupei. Fale baixo.
— Eu sempre falo. De onde veio esse batom?
— Algumas pessoas têm fetiches estranhos — ele disse. O quarto era dividido em dois cômodos que não eram realmente separados, pois apenas duas saliências paralelas nas paredes opostas distinguiam-nos. Na área anterior, havia a porta que levava ao banheiro, um sofá, uma televisão, um frigobar e uma mesa com dois bancos estofados em cada lado, que foi onde Winter se sentou. — Que horas são?
— Seis da manhã. Autumn não percebeu que você saiu. Onde quer almoçar hoje?
— Em qualquer lugar onde sirvam apenas carne de animais em risco de extinção.
Winter costumava ficar com um humor cáustico de manhã. Conversar com ele era como tentar argumentar com uma aposentada ranzinza.
— Nicholas nos convidou para almoçar no Restaurante Hentz.
Ele fitou-o com aqueles olhos gelados enquanto emborcava uma garrafa d’água. Spring conseguia sentir o cheiro da vodka dali.
— É do irmão dele, não é? Bem, nós vamos, mas só se ele vier nos buscar de limusine. — Ele estava brincando, mas Spring tinha uma estranha certeza de que Nicholas faria aquilo. — E cuide de comer apenas o que ele comer também. E deixe-o ficar com as melhores partes.
— Não acredita mesmo que ele nos envenenaria, acredita?
— Não, seria ruim para os negócios da família Hentz.
— E que tal para os da família du Pont? — Spring indagou com um ar travesso. — Você foi ver Jules, não foi?
— Ele está radiante desde que o pai dele desapareceu misteriosamente. Nunca entendi porque ele e Lafferty não se davam. Deve ser estranho ter um pai que é padre, mas mesmo assim…
— Não é disso que estou falando. Ele é da sua família, é estranho você dormir com ele.
— Jules é filho do meu tio-avô, então ele é primo da minha mãe e meu primo de segundo grau. Não é tão próximo assim. Você sabia que, na minha mente doentia, Nicholas tem um caso com o irmão dele? — Winter soltou uma sonora gargalhada que devia ter implodido o cérebro dele, mas não soltou nenhum gemido de dor. — Consigo imaginar perfeitamente os dois na cama, unidos como apenas você e Summer conseguem, gemendo como apenas eu e Autumn conseguimos…
— Deus, pare com isso. Acho melhor você ir tomar um banho e dormir. E tire essa maquiagem.
— Quero que você me obrigue a fazer isso. — Winter se levantou, revelando-se quase uma cabeça mais alto que Spring. Olhou-o lá de cima geladamente, verde no azul. Aproximou seu rosto do de Spring e fez menção de beijá-lo, mas não se moveu. Ele sempre fazia aquilo. O lápis de olho que usava estava borrado e o rímel dos cílios já descascava. Ele parecia uma prostituta. — Está bem, meu doce de primavera. Vá dar prazer ao seu namorado, ele está acordando. E tentem não acordar Autumn.
Winter desapareceu dentro do banheiro e, de fato, alguns minutos depois, Summer se remexeu nos lençóis, os cabelos muito vermelhos espalhados debaixo de sua cabeça.
— Hmm… Spring. — Ele o viu em pé, de cueca, e gemeu de resignação. — Volte pra cama.
Spring voltou, arrancando o elástico do cabelo. Apoiou a cabeça em seu peito e ficou ouvindo o som retumbante de seu coração, grave como um tambor, e tão reconfortante quanto uma canção. Summie aspirou o cheiro de seu cabelo e desceu lentamente a mão por suas costas até apertar a carne macia de suas nádegas.
Nos fins de semana, em quase todos, Summer e Winter dormiam no quarto de Autumn e Spring no Alojamento Vermelho do internato da St. Nicholas, bem após a grande cerca. Não era exatamente permitido, mas havia um certo meio de eles invadirem os alojamentos sem que os seguranças vissem. Autumn os ensinara a driblar horários e rondas de vigia, a passar apenas por onde não havia câmeras e a escalar a grade de metal do alojamento que terminava bem na janela do quarto 11-E. Quando era de manhã, eles não precisavam nem escalar a grade. E os seguranças nunca os viam.
E quando viam, normalmente Winter resolvia o problema com dinheiro ou com as aberturas do corpo. Era o que Summer havia dito a Spring.
Passaram o resto da manhã fazendo amor em silêncio. Nesse meio tempo, Winter saiu do banheiro impecavelmente arrumado (ele tinha uma habilidade incrível de mudar do vinho para a água em questão de minutos) e se aninhou na cama de Autumn, que ainda dormia, exatamente como estivera antes de partir.
Spring duvidava seriamente de que ele havia ido ver apenas Jules du Pont, mas isso não lhe dizia respeito. Dizia respeito apenas àqueles dois e às marcas do sexo sadomasoquista que praticavam.
Às vezes, tinha uma vaga sensação de que Winter nutria algo a mais por ele, mas devia ser bobagem. Tivera essa mesma sensação em sua pré-adolescência, não devia ser nada demais. Aliás, mesmo que jamais tivesse conhecido Summer em sua vida, de uma coisa ele sabia, uma coisa dolorosa e que lhe fazia sentir culpado: Spring não namoraria Winter nem que ele fosse a última pessoa na Terra. Ele traía demais.
Queria saber como Autumn o suportava.
E, mesmo assim, quando os via juntos, conversando, um nos braços do outro, rindo e sorrindo, chamando-se de apelidos fofos que ninguém mais devia ouvir, conseguia realmente sentir que Winter o amava profunda e verdadeiramente. Não sabia por que ele fazia o que fazia, mas já ouvira dizer que o amor tem modos estranhos e diversos de aparecer.
Aliás, era Jules… Spring o conhecia de vista, embora nunca tivessem se falado de verdade. Conhecia aqueles olhos cinzentos e puxados, aquele amontoado de cabelo da cor do sol e aquelas feições femininas que fariam qualquer desavisado confundi-lo como sexo oposto, e por algum motivo gostava dele. Era difícil não se encantar por aquele belo sorriso e por aquele sotaque francês delicioso de se ouvir. Talvez Winter sentisse o mesmo pelo sotaque de Autumn. E ele era um ótimo ator.
E, afinal, o padre Lafferty Winter desaparecera há três semanas. Os quatro passaram incontáveis almoços conversando sobre isso.
— Jules me contou que ele não levou absolutamente nada de casa — Winter dissera nos primeiros dias. Praticamente não se falava de outra coisa na St. Nicholas. — Nada, nada mesmo. Documentos, dinheiro, roupas. Até o carro dele continua no estacionamento da St. Nicholas. Ele saiu da igreja no dia do jogo e simplesmente evaporou no ar.
— Como seu primo está? — Autumn indagara.
— Ora, feliz — Summer respondera alegremente. — Meio mundo sabe que ele e Lafferty nunca nem olhavam na cara um do outro quando se encontravam na St. Nicholas.
— Então por que ele veio para essa escola? — Spring indagara.
— Jules morava com a mãe dele na França e veio para cá quando Lafferty ainda morava em Castellobranco — Winter explicara. — Foi no mesmo ano em que ele entrou na St. Nicholas, depois de ter passado algum tempo em Candóvia. Nenhum dos dois sabia que cairiam na mesma escola. Mas sabem o que é mais estranho? Eles não tinha nada contra o outro naquela época. Jules passou a mudar com… uns doze anos, eu acho. Eu não entendia direito. Mas bem, eu também não entendia como ele podia ter a minha idade e chamar a minha mãe pelo nome.
— Por que ele saiu da França? — Summer indagara, e Autumn respondera:
— O bisavô materno de Jules, Rémy, é um Rockefeller. A família Rockefeller é uma das famílias mais ricas, importantes e poderosas dos Estados Unidos, e são descendentes de John Davison Rockefeller, um barão do petróleo que fundou a Standart Oil Company e fez mais de seiscentos e sessenta bilhões de dólares com petróleo nos séculos XIX e XX. Resumindo, ele descende do homem mais rico de todos os tempos, e, como eu já disse, o bisavô materno dele é um Rockefeller que se casou com uma du Pont, Sophie. Os Rockefeller têm cerca de cento e cinquenta membros. A família du Pont descende de Pierre Samuel du Pont de Nemours, um economista e escritor francês do século XVII cujos filhos imigraram para os Estados Unidos. O ramo principal é dono da segunda maior indústria química do mundo, que obviamente se chama DuPont. Vale uns trinta bilhões de dólares. Atualmente, a família du Pont tem uns dois mil membros. Bem, os bisavós de Jules tiveram seu avô, que teve Seraphine du Pont Rockefeller, que o teve com Lafferty, que é irmão do avô de Winter e tio da mãe dele. Você sabia que Seraphine é prima de primeiro grau de Cornelius Goldenschild? O avô dele é tio de Cornelius.
A essa altura, Winter dera uma gargalhadinha.
— Jules teve o azar de nascer nos dois ramos mais pobres de duas das famílias mais ricas do planeta e de estar miseravelmente próximo da mais rica. Ele saiu da França porque não aguentava a pressão de ter que manter o legado de duas famílias das quais nunca fez realmente parte. E digamos que os paparazzi franceses não perdoam quem tem o azar de nascer pobre numa família rica. A velha Irmã Mary Sandy não teria dado a ele aquela preciosíssima bolsa de estudos se ele não tivesse os sobrenomes que tem.
Spring ouvira a tudo aquilo com atenção, imaginando que as pessoas não normalmente imaginavam que padres tinham uma vida normal antes de se tornarem padres. Aliás, era difícil imaginar Lafferty participando do complicado processo que é fazer uma criança, mesmo que ele ainda conservasse a beleza da juventude.
Ao meio-dia daquele dia, os quatro estavam do lado de fora do internato da St. Nicholas, a que ia dar na Rua Saint John. Havia um portão pequeno para pessoas e um maior para carros que dava no estacionamento, sendo as únicas aberturas no mais de um quilômetro de muro que cercava a escola. Vista de fora, parecia um quartel do exército, mas era melhor do que ficar em casa.
A limusine de Nicholas chegou em pouco tempo, um modelo Chrysler 300c que parecia um Rolls-Royce por fora e um motel por dentro. Havia luzes neon azuis por todos os lados e um bar completo, mas Spring sabia que Nicholas não podia beber. Quando o chofer abriu a porta para eles, Spring viu que Nicholas parecia um pequeno empresário dentro das roupas pretas, e usava óculos escuros. Apesar disso, seu tamanho e cabelo louro eram estranhamente contrastantes com o ambiente. Na verdade, ele parecia uma criança que havia por curiosidade se enfiado nas roupas do pai. Ou do irmão.
— Bom dia — ele disse, se arrastando para o lado para dar lugar a mais duas pessoas, propositalmente ele e Summer. Autumn e Winter sentaram-se nos bancos laterais, e de soslaio fitavam-nos.
Spring ainda se lembrava de como Autumn lhe sussurrara há alguns dias com um grande sorriso naquele rosto pálido de londrino.
— Ele está apaixonado por você.
E Spring só franzira as sobrancelhas até que Autumn apertara sua bochecha e usara um tom que normalmente se usa para falar com crianças.
— É melhor não contar ao seu namorado. Já percebeu que ele e Nicholas se odeiam?
De fato, não contara a Summer, mas tinha a certeza de que Autumn contara a Winter. Eles não tinham segredos um com o outro. Se lhe perguntasse com quantos garotos dormira na noite passada, Winter de bom grado lhe responderia, talvez, uns doze. Ou quinze. Mas Autumn nunca perguntava. Ele não queria saber.
— Aonde vocês querem ir? — Nicholas perguntou suavemente. Estivera com um olhar meio distante até aquele momento. Ele andava daquele jeito há algumas semanas. Já estavam quase no final de janeiro. E seu joelho às vezes roçava no dele. Spring se retraiu em seu canto, praticamente colando o próprio corpo no de Summer. — O Restaurante Hentz fica no topo do Palácio Real Hentz, mas isso é a uns trezentos metros do chão, então pensei que algum de vocês poderia ter medo de altura.
Que engraçado o modo… como ele praticamente nos força a dizer se temos medo de altura, Spring refletiu. Porque, quem tivesse, pareceria apenas um idiota.
— Ninguém aqui tem medo de altura — disse Winter, servindo a si mesmo de uma dose daquelas vodkas caras que custam quase oitenta dólares a garrafa, mesmo que ninguém tivesse lhe oferecido. Quando entornou o corpo lentamente, soltou um gemido de satisfação. Quase ninguém conseguia beber vodka tão lentamente daquele jeito, e Winter precisaria de muitas outras doses para chegar a ficar embriagado. — Isso é delicioso. Ser rico deve ser ótimo, não é? Quer dizer, ser muito rico. Você tem uma limusine particular.
— É verdade — Nicholas disse com um desinteresse curioso. — Ethan tem uma limusine só dele também, uma Audi Q7 do tamanho de um caminhão. E Lorenzo usa a Mercedes. Acho que meu irmão está morrendo de medo de quando eu completar dezesseis anos e ter idade para dirigir. Tudo por causa do Rei Senn. A propósito, vocês sabiam que quando ele era o Príncipe Senn, Ethan o comeu?
Summer soltou um grunhido finíssimo de surpresa, até Autumn e Winter ficaram surpresos também. Nicholas deu um risinho.
— Desculpem-me, comer é uma palavra tão feia, mas vocês entenderam. Picuinhas da família Hentz. Por que outro motivo acham que os quatro governadores do país contrataram a Grandes Esperanças para reconstruir a Califórnia? Escrevam o que eu digo: Senn morrerá sem filhos e a Princesa Toni, a irmã dele, vai assumir a Coroa. Acho que vou casar Lorenzo com ela. Ser tio do futuro rei deve ser legal. Sua Alteza Real, Lorenzo Barcarolli, consorte da rainha.
Spring teve o ímpeto de dizer que mesmo que Lorenzo fosse um dia consorte da rainha, ele jamais seria chamado oficialmente de Sua Alteza Real, mas mudou de ideia porque o cinismo de Nicholas estava quase escorrendo de sua boca.
Puderam ver o Palácio Real Hentz de longe, uma titânica torre que parecia tocar o céu, com o topo coberto por nuvens. Era um prédio monumentalmente grande, com um jardim maior ainda em sua fachada, onde uma profusão de cores explodia nos arbustos e árvores centenárias vigiavam os jovens.
Quando os cinco saíram do carro, Spring passou a notar como Nicholas andava lentamente e obrigava os outros quatro a andarem no mesmo ritmo, como que forçando-os a apreciar o local. Quase todo mundo o cumprimentava por Sr. Hentz, provavelmente para puxar o saco do dono daquilo tudo. Ele parecia gostar.
Quando entraram no elevador, que era espelhado nos três lados e do tamanho de um quarto, Nicholas teve que pedir a Winter que apertasse o botão da cobertura, pois era alto demais para ele. A seguir, encostou seu dedão na tela da parede, e só então o elevador começou a subir.
O telhado do Palácio era do tamanho de uma pista de decolagem. Lá ao longe, estava sendo construído um heliporto, e do lado de cá havia um restaurante com um ar vintage onde não havia absolutamente ninguém. Na verdade, nunca havia ninguém.
— Ele só é aberto quando Ethan pede para ser — Nicholas falou. — Ele tem que agendar para eles poderem preparar o ambiente para o número certo de pessoas. Nós podemos pedir qualquer coisa aqui. Literalmente qualquer coisa. Vocês já provaram carne de leão?
Spring olhou para ele e então percebeu que estava brincando.
— Não — respondeu sorrindo.
— Você quer provar? — Havia uma pequena menção de sorriso em seu rosto bonito. Spring se arrepiou de cima a baixo, ficando vermelho ao notar a qual leão ele se referia quando viu o broche prateado de leão incrustado em sua camisa.
— O quê? — Summer indagou, que estava vendo a vista da cidade e não ouvira direito. Ou ouvira. Spring não conseguiu perceber se ele estava irritado ou não, mas Nicholas apenas riu.
— É sério, eles servem qualquer coisa. Vamos entrar.
Autumn lhe lançou um olhar o qual Spring quis tirá-lo de seu rosto aos tapas.
Quando entrou naquele recinto fechado e teve sua cadeira puxada para trás para que se sentasse por um dos garçons, Spring percebeu que ser rico devia ser realmente muito legal. Aquele prédio deveria ter custado o que, uns trezentos milhões de dólares? E aquele broche de leão de prata e diamante? E o brinco de ouro e safira que adornava a orelha esquerda de Nicholas? E as malditas limusines?
Spring parou de pensar naquilo. Era inveja. Era um pecado, por isso decidiu substituí-la pela gula quando viu uma daquelas maravilhosas lagostas brilhando escarlates numa bandeja de porcelana, cobertas de cebolas e azeite de oliva. Não percebeu o quanto estava com fome.
— Você bebe vinho? — Nicholas indagou com suavidade, apoiando a cabeça na própria mão. O garçom com o uniforme branco esperava ao seu lado com a garrafa nas mãos. Spring balançou a cabeça.
— Não posso beber bebidas alcoólicas, tenho tendência a alcoolismo. — Aquilo era uma verdade vergonhosa que normalmente nunca admitia a ninguém, mas que se sentia estranhamente confortável em admitir para Nicholas. Ele fez um sinal quase imperceptível ao garçom e ele se foi, voltando pouco tempo depois e enchendo a taça dele e a de Nicholas com água.
— Eu também não posso beber — ele disse, dando um gole distraidamente, como se não soubesse bem o que estava bebendo. — Meu irmão não deixa. Se eu começasse agora, provavelmente só pararia quando pulasse do terraço e me estatelasse no chão. Aliás, depois de beber um vinho de trezentos anos de idade e cento e oitenta mil dólares, todos os outros perdem o sabor. Oh, me desculpem. — Sorriu. — Estou sendo indelicado. Comecem.
Eles começaram. Enquanto Spring fazia o possível para não se sujar com a casca da lagosta, Summer espatifava-as nas mãos sem piedade, e Winter e Autumn seguiam o exemplo de Spring, mas frequentemente punham pedaços da própria lagosta na boca do outro carinhosamente.
— Como está indo a peça? — Spring indagou tentando dar fim àquele silêncio. Barulho de mastigação o deixava louco.
— Bem — Nicholas falou quase sussurrando. — Queria saber por que meu irmão anda não comprou essa cidade, todo mundo parece querer trabalhar na Anhert. Jules du Pont, por exemplo.
— Ele está trabalhando aqui? — Autumn indagou surpreso. Era difícil surpreendê-lo.
— Sim. Ele é uma espécie de faz-tudo do meu irmão. Ethan sempre gosta de manter os garotos bonitos perto dele, especialmente os que parecem doces meninas loiras. O primo de Melchior também está aqui, não posso imaginar por quê.
— Ele está bem? — Winter indagou. — Jules?
— Por que não estaria?
Os quatro se entreolharam.
— Jules é meu primo de segundo grau — ele respondeu, mas estava claro que Nicholas ainda esperava a ligação. — Ele é filho de Lafferty.
A expressão de Nicholas não mudou absolutamente nada por alguns segundos, então ele levantou uma sobrancelha, mas permaneceu calado.
— Ele e Lafferty nunca se deram bem — Summer explicou. — Ele e a mãe de Jules nunca foram casados. Ele morava na França e então veio para cá, e está na St. Nicholas desde então. Se Jules não fosse um Rockefeller e um du Pont, ele realmente nunca teria ganhado uma bolsa de estudos, não por não ser inteligente, mas porque pega mal ter um padre e o filho dele na mesma escola.
— Famílias antigas — Nicholas falou com um certo asco, enfiando o garfo numa batata amanteigada coberta de coentro do prato. — Sei como são. Já namorei uma Goldenschild. Duas, na verdade. Gêmeas. Ao mesmo tempo. Filhas adotivas do homem mais rico do mundo, descendentes de um papa, de condes, barões, grão-duques e de um príncipe escandinavo cujo nome não lembro, primas distantíssimas da família real da Inglaterra, ladies pertencentes a essa nobreza. Então uma delas morreu e a outra foi embora para a Suíça. — Ele suspirou. — Acho que vou aceitar um golinho de vinho, mesmo que eu ultimamente o tenha achado nojento.
— Vinho não é nojento — disse Summer. — Quer saber o que é nojento?
Ele espetou o garfo num enorme pedaço de carne de lagosta e mostrou-o a todos naquela mesa. Depois meteu-o na boca, mastigou por alguns segundos, puxou Spring para si e beijou-o repentinamente. Spring sentiu o gosto salgado da comida misturando-se com a saliva de Summer enquanto suas línguas lutavam lá dentro, desesperadas uma pela outra. Quando se separaram, ele já tinha engolido metade do bocado.
Vermelho de vergonha, tentou esconder a ereção, mas Summer colocara uma mão sobre sua coxa, e isso só dificultava as coisas.
— Isso é nojento — Summer disse indolentemente, sorrindo para si mesmo. Era impossível saber se ele fizera aquilo para provocar Nick ou apenas porque seria algo que Summer normalmente faria. — A propósito, você foi realmente escolhido para o papel de Incuus?
A expressão de Nicholas estava indecifrável, um misto de desconfiança, cinismo, indiferença e raiva. Talvez tudo aquilo, ou talvez nada. Seus olhos pretos eram amedrontadores.
— Fui. Meu irmão vai me pagar duzentos e cinquenta mil dólares por mês, mas tudo o que eu gastar será descontado daí. Tipo esse almoço. Como está a lagosta?
— Ótima. Você sequer já chegou a ler Lympharia?
— Estou lendo o primeiro livro, Sereno Azul, mas sabe, ele é bem grande. E eu tenho déficit de atenção.
— Deverá ter dificuldade em decorar o script então. Eu ouvi dizer que na década de 80, um cara com um problema sério de transtorno obsessivo-compulsivo deu um tiro na própria cabeça ao tentar suicídio. Ao invés de matá-lo, a bala destruiu a parte do cérebro dele que era responsável pelo transtorno. Uns cinco anos depois, ele se tornou um estudante exemplar na faculdade. Por que não tenta o mesmo? Queria saber por que dentre tantas pessoas mais talentosas e mais parecidas fisicamente com Incuus e que leram os livros puderam ficar de fora.
Spring notou que estava prendendo a respiração. Autumn e Winter estavam com os olhos vidrados naqueles dois.
— Vamos enumerar os motivos, então. — Nicholas se empinou como uma víbora: — Meu irmão é dono da HBC, é patrão dos dois diretores de Lympharia, é amigo de Melchior, que é produtor executivo da série e um psicopata obcecado por poder. Você precisa de mais motivos? Nos Estúdios HBC, esse burburinho é constante. Um monte de atores adolescentes irritados comigo porque acham que só fui escolhido porque sou irmão do dono da emissora. É claro que eles só falam pelas costas. Eu estou agora na sede da Anhert Corporation, na cobertura, no topo, comendo lagostas que foram feitas especialmente para mim, com empregados que puxam meu saco o tempo todo e não estou com paciência para tolerar insolências vindas de alguém como você. Eu sou da família Hentz, quem você pensa que é?
O restaurante tornou-se um cemitério quando Nicholas passou a fuzilar Summer, que ainda estava sem palavras, com os olhos. O silêncio sepulcral só foi quebrado por ele mesmo, quando começou a rir.
— Eu assisti ao Poderoso Chefão ontem — disse limpando a lágrima do rosto e bebendo o que restava da água. — Gostaram da minha atuação? — Ele imitou a si mesmo com uma voz propositalmente idiota: — Eu sou da família Hentz, quem você pensa que é? — E riu de novo. — Que idiotice. Fui escolhido para o papel porque Melchior quis, e eu não sei bem por que ele quis. Com certeza não foi para agradar Ethan, já que isso ele já pode fazer com aquele lindo corpinho que tem. Posso não atuar como Jules, mas acho que dou pro gasto.
— Se importa se eu pedir mais vinho? — Winter indagou meio tonto com o que acabara de acontecer. Spring olhou para os olhos vermelhos de Summer e notou que ele estivera a um passo de molhar as próprias calças. Não resistiu: começou a rir.
— Quem foi escolhido para o Príncipe Seraphin? — indagou a Nicholas, que voltou a sorrir aquele sorriso jovial e bonito que lhe cabia o direito. Agora entendia como ele pudera ter desvirginado metade da população feminina da Academia Alphonse Enoi.
— Um garoto de quinze anos chamado Harry Beauchamp, moreno e de olhos azuis. Ele é natural de Middleland e venceu mais de sete mil outros garotos. Além de mim, foi o único ator escalado dessa forma. Todos os outros já eram contratados da HBC. Vai ganhar quase o mesmo salário que eu, acho que essa é a melhor parte. Vocês querem café?
Os pratos foram retirados das mesas, assim como os copos e os talheres. Logo, cinco xícaras de café foram servidas. O líquido estava preto e fumegante.
— Oh, Deus — Winter disse quase gemendo, os lábios pintados de escuro do café. — Esse é o melhor café que já tomei. É esse o gosto da riqueza?
Nicholas deu de ombros.
— O café se chama Kopi Luwak. É muito raro, os grãos só podem ser colhidos numa ilha qualquer da Indonésia e são fermentados de modo bastante diferente e crucial. É isso que dá sabor.
— De que modo? — Autumn indagou, provando o café.
— Dentro do sistema digestivo de um pequeno mamífero chamado civeta. — Os quatro olharam para ele, que apenas sorriu. — Então eles colhem as fezes do animal, limpam os grãos e voilà. Um quilo disso custa uns sete mil dólares. À sua saúde. — Ele tomou o resto da xícara.
Spring só repetiu o gesto por educação, mas de repente o café perdera todo o sabor. Summer nem tocou no dele, por isso Winter ficou para ele.
— Mas bem — Winter falou com o rosto corado e levemente embriagado por todo aquele vinho. — O que você estava dizendo com Melchior ser um psicopata?
— Eu já convivi com ele. Sei do que estou falando.
— Acho que ele finge muito bem então — Summer sussurrou, mas todo mundo ali conseguiu ouvir.
— Finge — Nicholas falou alegremente. — Diferentemente do que a polícia declarou, foi ele quem descobriu que Rhanys Olrwen era a Coruja, e sozinho. E ainda derrubou um diretor aterrorizando a Academia Alphonse Enoi com um pseudônimo. Sabia que Rhanys é meu primo de quinto grau?
— Você disse isso no dia em que discursou quando o Príncipe Senn veio a Middleland — disse Autumn.
— Ah, é verdade. No dia em que meu irmão foi baleado. Até hoje não sei por que tentaram assassinar Senn, mas acho que Ethan sabe. Ele sabe de quase tudo. É o patriarca da família Hentz, e sabe de todos os segredos que a família é obrigada a guardar. Ele também já comeu Melchior. — Nicholas passou a fitar o floreio da xícara distraidamente. — Aliás, não sei se há alguém que nunca comeu Melchior. Exceto eu. Ele não faz meu tipo.
— Qual seu tipo? — Spring indagou antes que pudesse se controlar. A pergunta estava pipocando em sua língua há horas. Retraiu-se quando notou que os quatro estavam olhando para ele. Já ia desculpar-se quando olhou fixamente para Nicholas.
Ele estava mordendo o lábio de baixo com leveza e ao mesmo tempo agressividade, as sobrancelhas levemente franzidas, os olhos muitíssimo escuros apertados, como se estivesse tentando descobrir se o que ele falara era zombaria ou não. De repente, ele levantou uma sobrancelha e sorriu.
Spring sentiu vontade de enterrar a cabeça na xícara.
— E como estão as filmagens? — Winter perguntou divertindo-se com tudo aquilo. Ele gostava de provocar Summer, isso era uma coisa que Spring já havia percebido, só não ainda por quê.
— Interessantes. Eu tive que fazer uma cena de sexo com Harry Beauchamp — ele disse jovialmente. — E digamos que quase nada foi fingido. Quer dizer, eu realmente o beijei, eu realmente o despi, eu realmente me despi e então o joguei na cama, se bem que aquilo lá não era uma cama, porque a história se passa numa aldeia. Mas eu também realmente me deitei sobre ele e depois o puxei para o meu colo enquanto ainda o beijava. Ele teve uma ereção. — Nicholas riu sonoramente. — Tentou insistir pra todo mundo que não ficou excitado, mas eu toquei no pau dele. Acreditem, ele ficou excitado. Me pergunto como vou ter coragem de sair na rua após meu corpo nu aparecer em todas as televisões do mundo. — Ele deu uma pausa. — Como estão indo as investigações sobre Lafferty?
Summer levantou os olhos ao ouvir aquilo, mas foi Winter quem respondeu.
— Seguem seguindo. O cara saiu da igreja naquele dia do jogo e simplesmente se dissolveu no ar. Não entendo como, nem por quê. Ele nem pôs o pé em casa, e não saiu da escola. Algumas pessoas dizem que ele foi visto indo para o Oeste, outras dizem que ele pegou a Estrada do Pátio para o internato. Pelo que dizem, ele pode estar na China agora.
— Dizem que se você cavar treze mil quilômetros através da Terra, você atinge a China — Nicholas sussurrou alto demais. Olhou para os quatro e apenas sorriu.
— Por que é mesmo que você deixou de ir ao jogo? — Summer indagou levemente ácido. — Nós perdemos, sabe. Tínhamos um jogador a menos.
— Não estava passando bem. — Ele deu de ombros. — Às vezes, tenho ataques de ansiedade quando me defronto com situações complicadas. Eu estava quase morrendo ali. Me sentia sufocado. Tive que ir embora ou começaria a chorar. E então desmaiaria. Sinto muito.
— Para onde exatamente você foi depois disso? — Autumn indagou suavemente.
— Fui ao ginásio I dizer ao meu irmão que eu queria ir pra casa, depois fui pegar minha mochila no vestiário e saí pela porta dos fundos, e Ethan, o namorado dele, Lorenzo, Melchior e uma garota chamada Amy saíram pela porta principal do ginásio. A gente se encontrou do lado de fora, mas aí Lorenzo passou mal e demoramos um pouco pra ir embora, mas acho que fomos antes de o jogo começar.
Spring teve uma estranhissimamente nítida sensação de que Nicholas escolhia as palavras a dedo.
— Há um cinema lá no penúltimo andar — ele falou rapidamente, levantando-se. — Estão afim de ir? Nunca o usei, então acredito que ainda tenha cheiro de novo.
Deslizou de volta não para o elevador normal, mas para o particular da família Hentz, parecendo satisfeito consigo mesmo. Spring notou que Summer estava de cara amarrada, Autumn observava a tudo com curiosidade e Winter sorria de olhos fechados com a cabeça apoiada em seu ombro. Às vezes, Autumn tinha que puxá-lo para trás ou para frente para que ele não caísse.
Spring não conseguiu deixar de conter o suspiro quando entrou no penúltimo andar do Palácio Real Hentz. Os corredores gigantescos com janelas que iam do chão ao teto mostrando toda a cidade, deixando que os raios de sol iluminassem as obras penduradas nas paredes, eram maravilhosos. Havia lustres antigos e candelabros por todos os cantos, pequenas mesinhas com bustos de pedra de olhos cegos e intimidantes.
Passaram por um grande salão vazio de pedra cor-de-rosa com quatro vezes o tamanho de uma quadra de tênis que tinha uma sacada que cobria toda a sua extensão, e cortinas brancas esvoaçando com os ventos do inverno. Dentro de outro cômodo também gigantesco, havia, por incrível que pareça, uma piscina, e um garotinho minúsculo estava lá dentro. Spring se perguntava por que tudo estava coberto por uma nuvem de vapor quando percebeu que a piscina era aquecida.
— Lorenzo — Nick cumprimentou-o se agachando na borda da piscina que tremeluzia com ondinhas azuis. — Já te disse para não entrar nessa piscina sozinho. Pode se machucar.
— Não posso, não — ele disse com um adorável sotaque italiano, depois estendeu o pulso onde havia um relógio negro com um mostrador digital. — Ethan me deu isso. Há um botão que, se eu apertar, significa que estou com problemas. É claro que até ele chegar já poderei estar afogado, mas… — De repente, ele virou a cabeça para os outros quatro, e Spring notou-se prendendo a respiração.
— A propósito, estes são Spring, Summer, Winter e…
— Fall? — ele indagou com curiosidade. Tinha gigantescos olhos cinzentos cheios de vida, e por incrível que parecesse estava olhando fixamente para Autumn.
— Autumn — Autumn o corrigiu. Lorenzo ficou um tempo calado, depois sorriu.
— É claro.
Depois de saírem dali, passaram pela sauna, pela academia e pelo monumental salão de jogos, além de uma dezena de cômodos vazios. O cinema era um desses cômodos, mas mais comprido, com um telão gigantesco no final e dezenas de poltronas de couro vermelho a sua frente.
Acabaram passando o resto da tarde ali dentro, onde logo ficou incensado com o cheiro de pipoca amanteigada. Spring não sabia como, mas Nicholas conseguira três filmes que sequer haviam saído no cinema, e quando um deles acabou, ele trouxe para dentro do cômodo um carrinho vermelho e dourado completamente cheio de doces. Houve uma ocasião em que Winter, que já estava feliz e inconsequente como sempre ficava quando bebia demais, enfiou delicadamente um chocolate na boca de Spring e sorriu, chamando-o de meu doce de primavera. Ele sempre fazia aquilo e Summer nunca ligava, mas depois daquela vez ele passou o fim da tarde inteira emburrado.
Quando foram embora, o sol já havia se posto e a noite reinava. O céu era uma morada de estrelas brilhantes que iam se apagando à medida que adentravam novamente na cidade. Higociety e Wintorland foram os bairros mais afetados pelo terremoto, e enquanto a maioria das casas eram reconstruídas ou restauradas, havia uma escuridão quase plena.
O chofer abriu a porta da limusine quando já estavam na porta da St. Nicholas. Não o portão habitual, mas o portão lateral que dava acesso ao internato. Nos finais de semana, alunos não internistas podiam ficar se acompanhados de um internista, mas não podiam dormir lá dentro. No entanto, Summer e Winter sempre ignoravam o toque de recolher, e por algum motivo ninguém ia checar o quarto 11-E.
— Obrigado pelo dia — Winter disse engroladamente, já tonto demais para se manter em pé e em equilíbrio sozinho, por isso passava o braço pelo pescoço de Autumn. Apesar disso, ele se inclinou para dentro da limusine e beijou a bochecha de Nicholas, que apenas sorriu gentilmente. — Sabe que eu sempre tive o sonho de alguém me convidar para jantar, e quando estivéssemos indo ao restaurante a pessoa me levasse ao aeroporto, me colocasse em seu jatinho particular e fôssemos à Veneza, ou Paris? Deve ser interessante. Você devia fazer isso algum dia. Não comigo. Eu tenho namorado. Você devia ter também. — Winter deu uma risadinha bêbada, o cabelo louro-acinzentado caindo pelo rosto muito bonito. — Sabia que Jules é apaixonado por você?
— Tenho uma leve ideia — Nick sussurrou, depois olhou para os outros três, desejou-lhes boa noite e o chofer fechou a porta da limusine, que logo desapareceu no fim da Rua St. John.
Quando finalmente chegaram ao quarto, Summer arrancou os sapatos violentamente, atirando-os no canto do quarto.
— Mas que imbecil ele é! — gritou para ninguém em especial. Autumn fazia Winter tomar um comprimido e beber uma garrafa de água para aliviar sua tontura, e ele apenas agradeceu com um selinho carinhoso, depois foi ao banheiro tirar a maquiagem. — Ele ficou o dia inteiro flertando com você. Esses ricos malditos.
Spring agradeceu mentalmente que Summer houvesse tido a elegância de esperar chegarem ao quarto para extravasar.
— E esfregando a riqueza dele na nossa cara — continuou.
— Não acho que ele estava tentando nos mostrar o quanto ele é rico — Autumn disse calmamente, bebendo o resto da água que Winter não bebera.
— Winter é quase tão rico quanto ele, e ele nunca fez absolutamente nada que ele fez — Summer respondeu. — Sério, de limusine? Oh, e é claro que precisávamos ir ao arranha-céus do irmão dele, e comer lagostas de cem dólares no restaurante que leva seu nome. E que espécie de pessoa tem um cinema em casa?
— Você não está compreendendo — suspirou Autumn, tirando as lentes de contato que usava para sair, depois pôs óculos retangulares e discretos.
— Não está mesmo — disse Winter saindo do banheiro e secando o cabelo molhado com uma toalha com suavidade. — Summer, não me leve a mal, mas eu não acho que ele estava esfregando a riqueza dele na nossa cara. Você pensa que eu não faço isso porque vocês são meus amigos desde sempre, mas se eu levasse um desconhecido até aquela mansão em Wintorland, bem, ele poderia ter a mesma impressão.
Ele parecia querer dizer alguma coisa, mas acabou desistindo. Autumn falou por ele:
— A impressão que eu tive foi que… Nicholas Hentz não sabe ter amigos.
Summer franziu as sobrancelhas.
— Ele me parece uma pessoa muito solitária — Autumn completou.
— Ele, solitário? O rei da Academia Alphonse Enoi, solitário? O garoto que deve ter um pau que vibra para tantas garotas quererem-no, solitário?
— Ele podia ser o rei lá, mas aqui ele é apenas um plebeu. Não importa que seja a pessoa mais rica dessa escola, o nome dele não tem valor aqui, no Reino de Deus. — Havia um certo desgosto em sua voz. — Summer, ouça o que eu digo. Nicholas Hentz não sabe ter amigos porque ele nunca teve nenhum. Pode ter tido colegas, mas isso a gente tem a vida toda. Ele é como o irmão dele, completamente independente das pessoas. E, sejamos francos… ele perdeu o que, três namoradas num ano? Acho que ele aprendeu a ser assim porque precisou aprender pra não se magoar de novo. É um mecanismo de defesa psicológica.
— Por isso que eu disse que ele não estava esfregando a riqueza dele na nossa cara — disse Winter. — Só estava tentando nos agradar. Acho que ele não sabia com o que isso iria parecer. Para você. Ele não é um desses playboys que não têm nada na cabeça, o irmão dele soube controlar isso. Ele é gentil e humilde.
— Isso não dá a ele o direito de ficar dando em cima de Spring o tempo todo.
Às vezes Summer era tão teimoso.
— Ele deu uma ou duas vezes — Winter disse já meio irritado. — Pronto. Acabou. Supere isso. A gente não escolhe por quem se apaixona. A gente ama a pessoa independentemente de tudo. Tudo. — Spring se arrepiou. Havia ódio em sua voz. — E sabe o que é melhor para ela. Ele nunca iria mais longe com Spring porque sabe que ele te ama.
Ele se levantou e puxou Autumn para o outro cômodo. Era possível puxar uma cortina atarracada ao teto para isolar a parte do quarto de Autumn, e foi isso que Winter fez, caindo na cama com ele.
Spring se levantou e se aproximou suavemente de Summer, que ainda parecia querer cuspir fogo. Os olhos castanho-avermelhados estavam furiosos, mas o cabelo vermelho caía pela testa adoravelmente. Suas linhas de expressão estavam tensas quando o beijou, mas desapareceram quando se separou dele.
Summer puxou-o pela mão para a cama.
Deitou Spring no colchão com suavidade, deitando-se em cima dele depois. O menor já conseguia sentir sua ereção por cima da calça pedindo por aquilo enquanto beijava o maior com desespero, sua língua dançando freneticamente com a dele em meio a saliva. Summer apertou o cabelo da nuca de Spring, forçando-o a mudar a posição da cabeça.
Ao mesmo tempo, desabotoava a própria calça. Quando a tirou, jogou-se na cama só de cueca, e Spring ficou por cima dele. Ignorava os gemidos de Winter e Autumn da outra cama como sempre, porque naquele momento nada mais existia além daquela mata de cabelos vermelhos como o verão. Cada vez que ele deslizava as mãos por seu peito até chegar as nádegas e fincava as unhas lá, Spring jogava a cabeça para trás em delírio, pressionando o quadril contra sua excitação.
Saiu de cima de Summer e enfiou a mão em sua cueca, agarrando o pau duro e pulsante. Apertou-o entre os dedos enquanto envolvia a glande com a língua, sentindo como era quente. Summer se contorcia de prazer a cada mínimo movimento, seu corpo forte e bronzeado se estendia sob Spring, totalmente entregue a sua língua esguia.
Meteu-o na boca, arrancando seu maior gemido. De repente, todo o quartos se desvaneceu e tudo o que restava no mundo eram os dois ali, na cama, Spring felando-o sem piedade, deslizando os lábios finos pela extensão comprida de seu sexo.
Às vezes, quando alguém tinha ousadia suficiente de lhe perguntar como se sentia em ser o cachorrinho de Summer, Spring ria por dentro. Eles não conseguiam entender, não é…? Ninguém conseguia entender como ele se sentia em fazer Summer gemer de prazer, ao torná-lo tão vulnerável naquele momento único, em pôr um sorriso em seus lábios quando explodia em sua boca, num gozo morno e delicioso, que Spring engolia com prazer. Ninguém entendia como ele se sentia feliz ao meter aquela pica em sua boca e depois montá-la, e em se mexer ritmicamente sobre Summer, sentindo-o gozar pela segunda e derradeira vez dentro dele… coisa que Summer nunca poderia fazer por ele.
Como poderiam entender?
Quando sentiu a viscosidade em sua garganta, Spring afundou a boca mais uma vez no membro de Summer antes de tirá-lo de lá. Ele se contorceu, quase gritando seu nome. Então se levantou e beijou Spring com desespero, que dividiu sua semente através da boca exatamente como ele tinha feito mais cedo com a lagosta.
— De quatro — ordenou Summer, mordendo seu pescoço com força e reavivando a cor dos chupões. Deslizou as mãos de sua cintura para as nádegas e apertou a carne macia com volúpia e luxúria. Spring se sentia tão pequeno em suas mãos, quando ele o pegava e o manipulava como queria. Pequeno, entregue.
Ficou na posição que ele desejava, apoiando-se na cama com os joelhos e os braços. Empinou o quadril quando Summer mordeu com força uma de suas nádegas e depois fez o mesmo na outra, então deslizou sua língua até bem no meio delas.
Spring mordeu o lábio inferior, apertando o lençol entre os dedos das mãos. Summer penetrou-o fundo com a língua, apertando suas coxas com descaso, tanto que até doía, e então segurou sua cintura com as mãos e a puxou pra si, afundando mais o rosto naquele lugar quente e apertado, lambendo, beijando e chupando.
Quando finalmente se separou dele, Summer tirou uma camisinha do criado-mudo ao lado da cômoda e deslizou sobre o pênis, puxando Spring para que se sentasse em cima das próprias pernas. Encaixou-se dentro dele com rapidez e perfeição, fazendo-o sentar-se em seu colo.
— Rebole — ele disse, mordendo com força seu ombro direito, depois deu um chupão no pescoço, mordeu de leve sua bochecha e beijou-o nos lábios com paixão, chupando sua língua. — Rebola com força na minha pica.
Spring começou a mexer o quadril fazendo movimentos circulares. Sentia o sexo de Summer dentro de si, estocando-o até sua próstata, e Spring subia e descia nele, rebolava até se cansar, sempre com sua boca colada a de Summer. Tinha que virar a cintura pra isso, o quando ele o pôs de quatro novamente e começou a fodê-lo assim, estava com metade do corpo dolorido. A outra metade delirava de prazer.
Com o rosto encostado no colchão e o quadril erguido por seus joelhos, Summer montava nele com violência, dando tapas em suas nádegas até que ficassem vermelhas. A cama remexia e batia na parede, e os dois não se importavam mais com alguém de fora do quarto ouvir seus gemidos.
Summer puxou a cintura do namorado uma vez mais antes de ejacular de vez, um jato que quase vazou na camisinha. Spring percebeu aquilo, e fê-lo sair de dentro de si rapidamente.
— Você tem que tomar mais cuidado — disse-lhe. Summer não se importou.
— Venha, deixe-me te fazer gozar.
Summer começou a masturbá-lo com rapidez, e logo sua mão encheu-se do líquido branco de Spring. Foi ao banheiro e limpou-a na pia cuidadosamente, como sempre fazia.
Depois disso, Summer abriu o frigobar do quarto e tirou uma pequena caixa metálica com um símbolo de mais vermelho, depois tirou uma garrafa d’água. Sentou-se na cama com a caixa e a abriu, revelando dezenas de cartelas de comprimidos.
Tirou três comprimidos de três cartelas diferentes e os pôs na língua de Spring. Ele os engoliu com a ajuda da água. Depois, repetiu o gesto com outros três comprimidos e então mais cinco vezes.
A garrafa já estava vazia quando terminaram.
— Obrigado — disse-lhe.
— De nada — respondeu Summer, indo guardar a caixa.
Spring ficou ali a observá-lo, intrigado.
Como se sente sendo o cachorrinho de Summer?
Perguntava-se se Winter e Autumn sabiam daquilo, e depois se chamou de idiota. Eles não iriam ver uma caixa de medicamentos dento do frigobar e simplesmente ignorá-la, os nomes dos remédios eram óbvios demais para serem de qualquer outra coisa. Abacavir, Atazanavir, Darunavir… Autumn saberia, e sem sobra de dúvidas contaria a Winter. Mas eles nunca lhe falaram nada.
Naquela noite, teve o sonho de novo.
No sonho, estava num beco muito escuro e úmido, com uma roupa grande demais para ele, uma gravata apertada demais, um peso grande demais nas costas, e uma solidão maior ainda. Ainda morava no condomínio Vittart com os pais e o irmão Lincoln, e por algum motivo aquele furo na cerca ainda não fora consertado.
As luzes tremeluziam freneticamente sobre ele enquanto caminhava pelas calçadas desertas. Não devia pegar aquele caminho, sabia disso. Estava muito tarde, a falha na cerca era próxima dali e todo o terreno a sua volta era uma grande construção. Não havia ninguém, mas era o trajeto mais curto para sua casa, e estava cansado, tão cansado…
Ele nunca, nunca soube exatamente o que aconteceu depois que viu o mato através da falha da cerca de mexendo. Aquela área era muito próxima da floresta de Middleland, mas também era muito próxima daquele barranco abaixo daquela ponte onde adolescentes ricos podiam comprar drogas à vontade desde que não as tirassem dali.
O que vinha a seguir era uma profusão de dor e de um cheiro insuportável de maconha. Tudo o que se lembrava era de ter acordado no hospital na manhã seguinte, no Saint Roese, aquele bem perto da St. Nicholas. A primeira pessoa que vira fora seu irmão Lincoln, a quem diziam que se parecia com ele em todos os aspectos, a exceção de que Lincoln era mais novo e, além disso, era um sociopata.
E depois, o viu pela primeira vez. Tinha alguns cortes no rosto e um grande hematoma na bochecha, mas sorriu quando se aproximou dele.
Foi você quem me salvou?
Sim, mas não consegui impedir aquele viciado de… você sabe.
Tão triste. Tão culpado. Mas não era culpa dele. Foi o que Spring lhe dissera.
Qual seu nome?
Edric. Mas pode me chamar de Summer.
Também sou Edric. Me chame de Spring.
Por vezes, quando propositalmente se esquecia de tomar os medicamentos dia após dia, Summer vinha lhe lembrar por mensagens de texto, ou ia ele mesmo a sua casa. Foram para a Escola St. Nicholas no ano seguinte porque Spring desenvolvera um caso leve de agorafobia, e também porque não suportava mais olhar no rosto de seu irmão mais novo e pensar nas cem trilhões de células saudáveis que habitavam seu corpo. Ele fazia questão de lhe lembrar disso.
Spring acordou no início da manhã suando frio. Summer estava a seu lado, e acordou com ele.
— Está bem?
— Tive o sonho de novo.
Summer tomou-o nos braços e passou a acariciar seu cabelo.
Como se sente sendo o cachorrinho do Summer? A voz de Lincoln ecoava por seus ouvidos. Era uma agonia terrível. Como o ser humano podia ser tão cruel?
— Tenho uma ideia — disse Summer. — Sonhei com ela.
— Que ideia?
— Estava pensando em ontem, em nós, no restaurante. Pensando numa frase específica que Nicholas Hentz disse. Dizem que se você cavar treze mil quilômetros através da Terra, você atinge a China. Que acha que significa?
— Que a Terra tem aproximadamente seis mil e quinhentos quilômetros de raio?
— Não brinque. Estávamos falando sobre o desaparecimento de Lafferty. Você sinceramente não acha tudo isso muito estranho? Nicholas saiu da igreja apressadamente no mesmo dia em que ele desapareceu, e Autumn disse que ele estudou na Escola St. Emanuelle na mesma época em que Lafferty pregava lá.
— Summie, você está juntando pontos que não existem. Está tentando encaixar num quebra-cabeça uma peça que não serve amassando as pontas dela.
— Spring, Lafferty não deixou essa escola! — ele insistiu. — Você não vê? Será que ninguém aqui vê? Lembra do que ele disse sobre Ethan? É o patriarca da família Hentz, e sabe de todos os segredos que a família é obrigada a guardar. Que acha disso?
— Você acha o que, que eles fizeram Lafferty sumir?
— Outro dia, quando estávamos indo ao ginásio I, eu passei pelo vestiário do ginásio II e sabe o que eu vi? Um leão dourado.
— E daí?
— É o símbolo da Anhert. Foi a Grandes Esperanças quem construiu aquele vestiário, você não entende? Lembra quando os pedreiros chegaram no dia seguinte ao do desaparecimento de Lafferty e viram que uma das máquinas tinha pifado e derramado cimento lá em baixo? E mais uma coisa: Anders Lewcoot me disse que o taco de baseball dele havia sumido do vestiário do ginásio I naquela noite.
Spring se sentou na cama, fitando seriamente os olhos excitados de Summer.
— Você acha… o quê? Por que eles fariam isso? Por que Nicholas estaria envolvido? E Ethan?
— Não sei, essa é a falha da minha suposição. Mas até que aquele homem apareça, eu vou morrer acreditando que o padre Lafferty Winter está debaixo do vestiário do ginásio II, sob toneladas de cimento. Ninguém sabe por que Lafferty deixou a St. Emanuelle, não é? Será que Autumn descobre? Ele descobre tudo.
— Summer, seja racional. A família Hentz não matou Lafferty. Ele provavelmente teve uma recaída e fugiu da cidade com uma vadia, só isso.
— Não, Spring, não é só isso. E precisamos descobrir mais. Precisamos nos aproximar mais de Nicholas.
— Mesmo que Nicholas tivesse algo a esconder, nunca diria nada. Ele não é estúpido. E eu tenho medo dos irmãos dele. Tive a impressão de que Lorenzo estava lendo a minha alma quando olhou pra mim.
Summer sorriu de modo que fez o coração de Spring gelar.
— Mesmo com os irmãos dele, ele diria. Não diria a mim, a Autumn ou Winter… mas diria a você, meu doce de primavera. Ele é apaixonado por você, pelos seus cabelos loiros e seus olhos verdes. Assim como eu sou. — Puxou-o para sua cintura e o beijou. — Spring, como será que as pessoas reagiriam se tivéssemos uma briga terrível? Não, melhor… como acha que as pessoas vão reagir quando você começar a namorar Nicholas Hentz?
Spring não soube do que gostou menos: da expressão de felicidade de Summer ou da sua de horror.
Notas finais
Obrigado por ler, e deixem reviews. :3
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