Notas iniciais
Olha as reviravoltas. :D

Apesar de que na maioria das vezes fosse o motorista quem pegasse Lorenzo na escola, daquela vez Ethan Lemnsack decidiu ele mesmo ir. Era estranho voltar à velha Academia Alphonse Enoi, passar por suas calçadas cimentadas e irregulares através de unidades onde dezenas de alunos com idade mental de cinco anos decidiam o resto de suas vidas.

Já se perguntara se haveria um dia em que se arrependeria de não ter feito faculdade para reerguer os negócios da família Hentz. Agora sabia que jamais se arrependeria. Os negócios estavam em seu sangue, a genialidade e o carisma de Mary Alice e Charles ainda corriam por suas veias. A Anhert já lucrara quase novecentos milhões de dólares desde que fora fundada, mas é claro que apenas depois de um pesado investimento de quase meio bilhão de dólares que Ethan fez com sua parte da herança. O fato de não ter precisado tocar num único centavo do dinheiro de Nick o orgulhava.

Mas quem era ele para falar de orgulho? Tudo o que conseguira veio da herança de seus pais, e não teria chegado a lugar algum sem o apadrinhamento de Cornelius Goldenschild e de Gloria Lamme, sem ter conquistado a confiança e afeto da juíza Therese Williams, do Rei Senn, da diretora Hellen Page, de Angelique McQueen, de Melinda Lancaster, de Lyanna York, de Redford Bellafonte e de Melchior. É claro que Melchior tinha todo um motivo-mor por trás daquilo, mas às vezes maquiar certas verdades tornava a realidade mais principesca.

E pensar que algumas pessoas chegaram a lhe dizer que não precisaria trabalhar nunca em sua vida, e que poderia viver como a família real pelo resto dela. Tolos.

Lorenzo Barcarolli estava sentado num banco de madeira em frente à unidade da sala de música, bem ao lado de uma roseira espinhosa. Sua mochila e a bengala estavam ao seu lado, e ele tinha o rosto enfiado entre as mãos numa expressão de tédio.

Ethan não disse nada, mas ele levantou o rosto no momento em que se aproximou.

— Você veio? — indagou levantando-se. — Por quê? Está com alguma doença terminal e quer passar o máximo possível de tempo com seus amados irmãos?

— Não, apenas não quero me esquecer de como se dirige. Como foi o dia?

O sol de uma hora da tarde ardia sobre eles. Lorenzo jogou os cabelos para trás num movimento da cabeça enquanto andava pela calçada, falando.

— Horrível. Há uma professora nova que insiste em me usar de exemplo de superação. Você acredita nisso? Exemplo de superação! E ela insiste que os outros meninos me chamem de deficiente visual ao invés de cego. Ela é uma imbecil.

— Nem todo mundo sabe que você é descendente de Atheneus e tem poucos problemas para enxergar. Dê um desconto a ela.

— Hoje mesmo ela disse a um menino a seguinte frase: Você só precisa ser você mesmo para que as pessoas gostem de você. Eu sussurrei alto demais: Isso daria certo se ele fosse outra pessoa. O menino chorou. Ganhei uma advertência.

— Oh, Lorenzo. A propósito, você não disse que quer aprender violino?

A essa altura já haviam chegado à Mercedes. Lorenzo sentou-se no banco da frente e jogou a mochila lá atrás. Ethan sentou-se no banco do motorista e colocou a caixa do violino no colo dele.

— Bem, não é um Stradivarius, mas é um Luthier.

Observou seu irmão deslizar os dedos pálidos pelo cavalete e pelo afinador, do botão à voluta, e então pelo braço e as quatro cordinhas firmes como concreto, Sol, Ré, Lá e Mi. Ele parecia estar dissecando a alma daquele violino, através do verniz de primeira classe e das fibras da madeira tão bem moldada. Pegou o arco e o segurou com a mão direita, enquanto posicionava o violino do modo correto com a esquerda.

Deslizou a corda do arco primeiro pelo Sol.

— Torta de frango — ele disse, depois fez o mesmo com o Ré. — Chocolate amargo. — E o Lá. — Camarão. — Mi. — Laranja. Ou morango. São todos cítricos, quem se importa? Estou com fome, vamos para casa ou para o Palácio?

— Para casa. Vamos passar uma noite em família para variar.

— Precisamos conversar sobre Nicholas.

— O que tem Nicholas?

— Está confraternizando com o inimigo.

Ethan se perguntou onde exatamente Lorenzo aprendia aquelas palavras. Foi incrível a rapidez com a qual ele aprendera e aperfeiçoara inglês, mesmo que ainda conservasse o sotaque. Tinha uma leve suspeita de que era proposital. Ele ficava um pouco mais fofo com aquela carranca incrustada no rosto de porcelana. Na verdade, a cada dia ele se tornava mais uma cópia de Charles Lemnsack, assim como Ethan. Pouco tinha da mãe além da nacionalidade e da língua materna. E do sangue mágico.

— Não seja dramático — disse adentrando na garagem do prédio.

— Não é drama. Spring é amigo do sobrinho-neto de Lafferty Winter.

— Fale baixo. — Ethan olhou em volta para ver se alguém ouvira, mas a garagem estava deserta. Soltou a respiração. O fantasma daquele nome se arrastava com seus grilhões em todas as partes que via. — Alguém pode ouvir.

— Aliás, por que estou falando apenas de Nick? Você também está confraternizando com o inimigo. Está trabalhando com Jules du Pont, pelo amor de Deus. Não sei qual dos dois é mais idiota.

— Já chega disso. — A essa altura, já estavam dentro do elevador, subindo até o térreo e então os vinte e três andares restantes. E pensar que Lucas Fontanelle e Rowan Pyatt moraram ali há não mais que alguns meses. Sentia falta de Rowan. Lucas estava morando em Los Angeles com a mãe que agora era, tecnicamente, uma empregada sua. Nunca mais o perderia de vista, Ethan tinha certeza plena disso. Lucas não era problema algum para ele, mas seus filhos seriam tetranetos de John Francis Hentz. Assim como herdeiros de menos numa dinastia eram um problema, herdeiros demais também eram.

Atravessaram o longo corredor branco e vermelho silenciosamente. No fundo, Ethan viu-se obrigado a bater na porta, mesmo que ele e Lorenzo tivessem a chave. Pouco tempo depois, Nicholas abriu.

Ele estava tão bem quanto alguma vez estivera. O cabelo fino da exata cor do ouro brilhava radiante como uma auréola sobre sua cabeça, jogando uma franja desordenada por sua testa que nunca conhecera uma única espinha na vida. As proeminentes maçãs do rosto estavam avermelhadas e adoráveis, e seus lábios vermelhos estavam levemente inchados e vermelhos do vinho tinto que certamente tomara, mas que insistiria a Ethan do contrário. Havia uma pequena claridade refletindo seus olhos negros, como a luz no final do túnel. Tudo nele era alegria. Nem sinal da depressão, da anorexia, da angústia de saber as terríveis verdades escondidas pela família Hentz.

E Spring estava pouco atrás dele, também em pé. Se possível, ele era quase tão adorável quanto Nick. Seu cabelo era louro-amarronzado, mais longo na frente do que atrás, e seus olhos eram verdes e cativantes, e ele sempre parecia ter um sorriso para combinar com aquela voz rouca. Ethan provavelmente teria tido fantasias sexuais com ele se Nick não o tivesse apresentado pela primeira vez como seu namorado.

— Que bom que chegou — disse Nick. Aproximou-se de Ethan e o abraçou com força, fazendo-o sentir seu cheiro doce e excitante. Depois, abraçou e beijou a bochecha de Lorenzo, bagunçando seus cabelos. — Spring já estava de saída.

Na verdade, não foi através de Nick que Ethan descobrira que Spring era amigo de Edric Winter, que era parente de Lafferty. Nem que ele tinha o mesmo primeiro nome de Spring. Nem que Jules era filho dele. Fora através de Jules.

Grande ideia pedir para Jules investigá-lo para mim. Ele apenas riu, sentou-se em cima da minha escrivaninha insubordinadamente e disse que o conhecia. E começou a falar. E não parou mais. Deus, como eu queria beijar aqueles lábios franceses.

Nick sussurrou algo no ouvido de Spring que apenas riu jovialmente beijou sua bochecha com vontade. Depois, passou pela porta e se despediu dos três irmãos, desaparecendo no elevador. Foi só aí que Nick despiu o sorriso.

— Por que justo hoje? Eu finalmente iria conseguir transar com ele.

— Quieto.

Ethan sentia-se estúpido, irracional e ciumento. Seu irmão já tivera três namoradas, duas delas ao mesmo tempo, duas que morreram, uma que engravidou, uma que foi embora. Às vezes, sentia vontade de envolver o pescoço branco de Rowan e esganá-lo por ter feito o que fizera sem sua permissão. Apagar aquelas lembranças primordiais da memória de Nick mudou-o de cima a baixo. Tornou-se doce e obediente, exatamente como era aos treze anos, mas também acordara seu inativo gosto pelo sexo masculino.

Nick devia ter ficado tão traumatizado pela morte de Oliver que perdeu totalmente o gosto que sentia pelo mesmo sexo, a exceção de Ethan. Isso orgulhava o mais velho, embora fizesse questão de esconder. O fato de ser o único homem que o excitava inflava seu ego a tal ponto que a beleza colorida de Spring se tornara imediatamente sépia e pálida quando Nick disse quem ele era.

E como eles podiam nunca terem ido pra cama? Aquilo não fazia sentido.

A pior parte era que Nick agora se recusava a ir para a cama com Ethan. Dizia que aquilo seria traição. Ethan não sabia se eram os ciúmes ou a vontade que tinha de tomar o corpo de Nick para si que o irritava mais. Aliás, Melchior estava numa tour no Reino Unido para promover o sétimo livro da série Lympharia e, de sobra, a série de TV.

Jantaram quase que silenciosamente na sala de jantar, e foi enquanto tentava arrancar um pedaço de filé com os dentes que Lorenzo fez voltar à tona o assunto que todos ali evitavam há um mês.

— Como estão os boatos sobre Lafferty na St. Nicholas? — A essa altura, já mastigava de boca cheia, irritantemente despreocupado.

— Um pouco menores — Nick respondeu enfezadamente. — Em relação ao que estavam há um mês, estão menores. Eles sabem que ele nunca chegou a sair da escola, mas não sabem exatamente para onde ele foi depois de deixar a igreja. A não ser que cavem o fundo do vestiário do ginásio II, nunca descobrirão. Como você poderia não saber que era a Anhert quem estava construindo aquela porcaria?

— A Anhert tem muitos empreendimentos, e a Grandes Esperanças é responsável pela maioria deles. Eu sabia apenas que era numa escola de Middleland. Não sabia que era lá.

— Se eles descobrirem o corpo… — começou Lorenzo.

— Não descobrirão.

— … você será diretamente relacionado a ele. Diretamente. Seria um escândalo.

Um silêncio onde apenas o crepitar das velas era ouvido tomou a sala, e então Nick falou:

— Você não se importa? Você matou alguém.

— Não — Ethan disse olhando para o próprio colo, cabisbaixo. A comida tinha perdido todo o sabor e sentia os olhos de seus dois irmãos prostrados nele, pesados como cargas. — Eu fiz isso para proteger você.

Sentiu a maior vontade do mundo de beijar aqueles lábios que tanto já beijara, mas esse pensamento de repente sumiu de sua cabeça quando Nick se levantou e deu um tapa em seu rosto, com os olhos marejados de lágrimas.

—Você matou alguém! — Sua voz estava tão embargada que ele sentia dificuldade em articular as palavras. — Como pode dizer que não se importa? Você tirou a vida de alguém e provavelmente havia pessoas que gostavam dele.

Ethan se levantou.

— Ele…

— Não importa o que ele fez! — Nick bateu em seu peito com as mãos fechadas, mas foi sem força. — Não importa, meu Deus, você acha que eu queria levantar tudo isso de novo? Você acha que eu queria me lembrar, que eu queria contar a você? Que eu queria machucar tanta gente? Você pode ser preso. — Sua voz agora era apenas um fiapo, e Nick chorava com o rosto encostado no peito do irmão. — Se você for preso por minha causa, nunca vou me perdoar. Não vê que eu amo você mesmo que odeie a outra pessoa que eu amo?

Ethan se resetou. Fitava aqueles olhos escuros profundamente, duas poças de tristeza, de desespero. De alguma forma, após sua transformação ele passou a demonstrar emoções de forma muito mais intensa e clara. Nick estava sofrendo mais com o que sentia do que antes, mas não estava preparado para isso. Nunca esteve.

Sabia que Lorenzo estava ali, mas ele não podia vê-los. Ethan se aproximou de Nick e deu-lhe um selinho nos lábios, depois outro beijo mais forte. Pegou os cabelos delicados de sua nuca e os puxou enquanto forçava-o a virar a cabeça, como sabia que ele gostava. Nick hesitou e tentou se afastar, mas acabou cedendo.

— Eu não vou ser preso — sussurrou a ele. — Não vou abandonar você. Você é meu anjo. Meu leão dourado. Não seja bobo, Nick. Não tem motivo para ter medo. Eles nunca descobrirão o corpo de Lafferty. Jules du Pont o odiava e tenho certeza de que você não vai falar sobre a noite do assassinato para Spring.

Ele levantou o rosto, fitando-o triste.

— Perdemos de novo o aniversário de morte dos nossos pais. 7 de fevereiro, é tão difícil assim lembrar?

Com isso, ele deixou a sala. O jantar estava terminado.

Enquanto recolhia os pratos, Ethan viu Lorenzo se espreguiçar.

— Por que você acha que Nick e Spring nunca fizeram sexo?

— Isso não é da nossa conta.

— Ethan, você já ouviu falar de Complexo de Édipo?

— Acredite, não tem absolutamente nada a ver com isso. Vá dormir, Lorenzo.

— Mas são sete horas da noite.

— Faz diferença para você, noite ou dia?

Ele pareceu refletir sobre aquilo, então deu de ombros e saiu da sala a passos longos, os cabelos negros esvoaçando. Se Ethan pensava que Nick mudara, não se comparava nem um pouco a Lorenzo. Parecia que todo o sarcasmo, cinismo, irritação e mau-humor do louro havia passado àquela criança. Às vezes, Ethan tinha vontade de tirar aquele sorrisinho irônico do rosto de seu irmão menor aos tapas. Outras vezes, tinha vontade de beijá-lo por aquilo.

O trabalho de lavar a louça ficou obviamente com ele, mas gostou daquilo. De repente, era bom sair do posto de presidente da empresa californiana que mais cresceu no ano de 2013 para o de um adolescente lavando a louça do jantar que teve com seus dois irmãos. Aliás, ele era muito baixo. Era difícil que adultos o levassem a sério, então teve que adotar uma posição diferente da que usara na Lemnsack & Lovegood.

Mas não queria realmente pensar nisso. Terminou o trabalho e subiu as escadas. Ia entrar em seu quarto quando ouviu um grito fino vindo do quarto de Lorenzo.

Quando abriu a porta, a porta do banheiro estava aberta, e Lorenzo estava sentado no chão, com apenas uma toalha a cobrir-lhe a cintura.

— Eu só escorreguei, eu estou bem — ele disse, massageando o joelho. Seu cabelo ainda estava molhado e reluzia sob a luz amarela.

— Deixe-me ver. — Ethan se ajoelhou perto do irmão e viu que havia uma minúscula mancha vermelha em seu joelho. Era um machucado pequeno, mas poderia alargar se não fosse fechado com um band-aid, e foi isso que Ethan fez. Depois ergueu Lorenzo nos braços e o levou até a cama, sentando-se ao lado dele.

Só então parou para prestar atenção no corpo de seu irmão. À toalha cobria apenas sua perna esquerda e o meio desta, deixando todo o resto exposto. Ethan descobriu-se observando a perna pálida e comprida de Lorenzo, e então subindo até sua cintura, os quadris largos e o peito desnudo e branco, e seu rosto com aqueles olhos cinza mortos e as adoráveis bochechas rosadas.

Ethan se afastou dele quando percebeu estar com provavelmente a maior ereção de sua vida, mas não foi suficiente. Lorenzo o havia tocado. Ele sabia daquilo.

— Boa noite — disse rapidamente, mas ele puxou sua mão e o forçou a ficar, mesmo sem ter força para aquilo.

— Fique comigo — pediu manhosamente, tão falso quanto se dava o direito de ser. — Não gosto de ficar sozinho, fique comigo.

Ethan antes pularia da janela que ficaria com ele, mas quando percebeu estava deitado na cama, com a cabeça de Lorenzo em seu peito. Ele não se vestira e jogara à toalha para o lado depois de apagar a luz, agora sua pele macia de criança roçava praticamente contra todo seu corpo. Ethan conseguia ver o contorno de seu próprio pênis delineando-se contra a cueca, que por algum motivo ele acabou tirando. Agora estava nu também.

— Ethan — ele sussurrou. Havia algo de terrivelmente sensual naquela voz rouca e europeia que acariciava seus ouvidos como uma luva. — Ethan — repetiu, e então se arrastou sobre o irmão e ligou o abajur, jorrando luz no quarto.

Lorenzo estava sobre ele, com a luz dourada bem em seu rosto, os olhos cegos ardendo de excitação, e nesse momento Ethan teve uma estranha certeza.

Se me deitei com um leão, por que não com outro? Ele não é um leão, mas se parece tanto com um…

— Oh, Ethan. — Lorenzo agarrou seu sexo com uma força imensa, fazendo o maior quase pular da cama. Ele não lhe deu tempo de falar, pensar ou respirar, simplesmente meteu a glande do membro na boca. Ethan foi obrigado a abafar um gemido monstruoso. A boca de Lorenzo era tão quente e aveludada, a de seu irmãozinho de dez anos.

Meu Deus, o que estou fazendo? Uma onda de prazer o atingiu. E por que não fiz isso antes?

Lorenzo se separou dele e sentou-se em seu colo. Ethan sentou-se também, agarrou o corpo nu da criança e o apertou contra si, sentindo a carne macia das nádegas entre seus dedos.

— Você é tão delicioso — o menor sussurrou em seu ouvido. — Você inteiro. Quero lamber o resto do seu corpo.

Em outro momento, Ethan estava sobre Lorenzo, beijando sua boca pequena, chupando a língua faminta dele, mordiscando o pescoço branco e imaculado. Não pensava em nada, não podia pensar. Se pensasse, pararia, e não queria parar.

Deixou-o fazer o que queria fazer. De quatro sobre ele, Lorenzo começou a engatinhar de sua boca para o pescoço, onde deu chupões em cima das marcas dos de Nick, depois passou para os mamilos e os braços, onde chupou, mordeu e lambeu a carne musculosa com uma curiosidade excitante. Ethan visualizava seu quadril empinado e sentiu uma terrível vontade de colocá-lo de penetrá-lo naquele momento, mas não se atreveu.

Lore deslizou novamente a língua pelo pau do irmão e colocou os testículos na boca, primeiro um, depois o outro e então os dois ao mesmo tempo, sempre masturbando-o com vontade.

Levantou suas pernas e mordeu as coxas com vontade, beijou-as e chupou-as gemendo o nome de Ethan o tempo todo, enlouquecendo-o lentamente com aquela língua pequena e esguia. Lorenzo continuou descendo e fincou os dentes na canela do irmão, e então desceu ao seu tornozelo e ao calcanhar, onde encostou a língua e a deslizou pela sola até o dedão.

Ethan passou a se masturbar enquanto tocava no pênis do irmão com o pé direito. Lorenzo gemeu, voltando a lamber e chupar seus dedos um por um, mordiscando-os com vontade. Trocou os pés e pressionou-o contra seu rosto, deliciando-se com o gosto e o cheiro de Ethan.

— Vire-se — ele disse.

Ethan ficou de bruços, e logo então Lorenzo jogou-se em cima dele. Abriu suas nádegas com as duas mãos e pressionou o rosto contra seu ânus, beijando-o e lambendo-o por trás. Ethan se contorcia de prazer com aquela umidade entre suas pernas, as unhas curtas de Lorenzo deslizando pela pele branca, famintas e excitadas.

Quando ele se cansou, deitou-se em cima de Ethan e empurrou o quadril contra sua abertura, tentando penetrá-lo. Era óbvio que não conseguiria, mas a situação era tão excitante que Ethan sentia prazer assim mesmo com o calor que tinha entre as pernas, Lorenzo com os braços por baixo de suas axilas, empurrando seu quadril contra o irmão violentamente. Dava tapas na bunda de Ethan, que passou a massagear as de Lorenzo com dificuldade, pois ele estava deitado sobre as suas costas.

Finalmente, decidiu mudar de posição.

— É minha vez, irmãozinho — disse-lhe. Puxou-o para si e fê-lo senta-se em seu rosto, passando a meter a língua em sua abertura, deliciando-se com a total falta de pelos e com o sabor da virgindade de seu irmão que tremia e gemia sobre ele. Ethan apertava suas coxas macias com vontade, sem piedade alguma com a pele delicada de Lorenzo.

Colocou-o de lado, com uma das pernas levantada, e encostou sua glande em sua abertura apertada e molhada. O calor era tão grande que Ethan quase chorou de prazer.

— Não vou conseguir colocar tudo.

— Coloque o que der — ele implorou. — Quero sentir seu gozo quente em mim. Me foda. Goze em mim, sua puttana.

Ethan chegou a conseguir colocar metade da glande, mas Lorenzo não aguentou a dor, por isso apenas encostou a ponta do membro no ânus pulsante do menor enquanto masturbava a si e a ele ao mesmo tempo. Era delicioso senti-lo bem em seu sexo, como se fosse uma extensão de Ethan, e os dois fossem um só.

Os movimentos ritmados levaram Ethan ao maior orgasmo que já tivera na vida. Enfiou o rosto no pescoço de Lorenzo, sentindo seu cheiro gostoso, enquanto pressionava o pau cheio de gozo contra suas nádegas.

Sem perder tempo, enfiou o sexo de Lorenzo na boca e passou a chupar sua pequena extensão até que jorrasse um gozo transparente e sem gosto. Ethan começou a beijar suas coxas, sua barriga arfante e o peito liso até chegar à boquinha que tanto tinha vontade de beijar.

Lore o abraçou com as pernas, descendo a mão até sua nádega e apertando-a.

— Quando eu for maior… — ele arfou — vou foder você com tanta força que você não conseguirá andar pela manhã.

— Quando você for maior, você vai foder lindas garotas ou lindos garotos. Não eu. Nós não vamos mais fazer isso. E, Deus, não conte a ninguém.

— Não sou idiota, não vou contar. Eu fiz tudo isso com Goldie, mas é melhor com você. Você faz melhor. Chupa melhor, lambe melhor, beija melhor, fode melhor. Você já sentiu atração pelo Nick?

Lembre-se que esse menino saberá se mentir. A luz dourada ainda estava acesa. Lorenzo parecia tão demoníaco quanto Melchior parecera naquele dia em que revelara sua genealogia. Um lobo sob pele de cordeiro.

— Já — respondeu.

— Mesmo? — ele indagou travessamente. — Então se ele se pusesse de quatro na sua frente e dissesse me coma, você comeria aquela bunda deliciosa? Em qualquer lugar?

Não. Em qualquer lugar, não. Ethan sorriu.

— Não, não o faria.

Lorenzo bufou.

— Ainda me pergunto como você pode enganá-lo sobre o nascimento dele. Volte para o seu quarto, mas me faça o favor de antes trocar os lençóis dessa cama.

Ethan trocou, e deixou o quarto antes mesmo que Lorenzo voltasse. Agora que a excitação havia acabado e seu fôlego voltara, ele via o que havia feito. Seu irmãozinho de dez anos, ele quase tirara a virgindade dele. Nick enlouqueceria se descobrisse.

Sem saber como, deu-se no quarto do louro, que deitava-se encolhido na cama. Sentou-se ao lado dele e tirou os cabelos louros da frente de sua testa como se ele fosse uma criança. Era engraçado porque o brinco da orelha esquerda o tornava mais velho. Beijou sua bochecha para que ele abrisse os olhos, pois sabia que estava acordado.

— Não consegue dormir? — indagou suavemente. Ele parecia triste.

— Você odeia Spring.

— Não, não odeio Spring.

— Sente ciúmes dele.

— Sinto. Como não sentiria? Você é meu último leão dourado, mas outra pessoa está acariciando o ouro dos seus cabelos. Outra pessoa está se deitando com você e beijando seu lindo rosto, ouvindo sua voz rouca e mordiscando seus lábios. Outra pessoa. Não eu, como deveria ser.

— Outro garoto. Você não sentiu ciúmes de Mia ou Carmen ou Vickie. Eu não entendo. Está sendo egoísta.

— Sou egoísta, te quero só pra mim. E eu gostava de ser o único homem na sua vida. Como se sentiria se eu começasse a namorar uma garota?

— Eu diria a ela que é melhor ela comprar um strap-on.

Ethan riu e tentou beijar Nick, mas ele se desviou com leveza. Por fim, beijou-o na bochecha.

— Quanto a Lafferty… — começou Nick.

— Não quero mais ouvir falar de Lafferty. Eu já te disse, ele jamais será encontrado, e há dezenas de pessoas envolvidas na administração da Grandes Esperanças para que eles cheguem em mim. O presidente da Anhert será a última pessoa a ser investigada.

— Mas o irmão dele pode ser uma das primeiras.

Ethan balançou a cabeça negativamente.

— Não, não vai. Você será apenas um adolescente normal. Que é um ator. E tem a maior mesada da história da humanidade.

— Algumas pessoas da HBC pediram-me que tentasse esconder o fato de que estou namorando um garoto. Foi mais ou menos depois de eu ter gravado uma cena de sexo com um. — Nick deu uma risada. — Na verdade, desde que foi divulgado que eu serei Incuus, não posso andar na rua sem que alguém me peça um autógrafo. É a mesma coisa na escola. As pessoas me perguntam de onde eu tiro a inspiração para copiar a personalidade dele. Eu só respondo que só estou sendo eu mesmo.

Ethan se perguntou se Nick sabia que o contrato dele só durava seis meses. O personagem Incuus morreria no final da primeira temporada.

— Acho que gostaria de saber que eu comprei um helicóptero.

— Melhor assim. Posso ir pra escola nele?

— Não.

— Tudo bem, acho que a limusine é suficiente.

Hiperativo, tagarela, arrogante e feliz. Esse é o Nicholas Hentz que eu conheço. Esse é meu leão dourado.

— Não acha estranho como nossa vida muda assim, em questão de meses? — ele indagou. — Num momento não estamos órfãos e no outro estamos, depois ganhamos um irmão, quase somos mortos, moramos ao lado de um serial killer, descobrimos que bruxas existem e que Lorenzo, Oliver, Gabriel e Rowan são parentes distantes e agora você matou uma pessoa.

— Como Oliver dizia, as Sombras moram ao lado. Nunca sabemos quando elas podem agir e mudar nossa realidade. Tome cuidado com Spring, Nick. Jules du Pont já me disse que ele e Summer eram tão intimamente ligado que era impensável um mundo onde os dois não estivessem juntos. Não estou dizendo que Spring está te espionando, mas ele pode acabar abrindo o bico para Summer.

— Jules é filho de Lafferty — disse de novo teimosamente. — Você devia tomar mais cuidado com ele.

— Ele odiava Lafferty — repetiu pela enésima vez. — E sabe como são esses franceses.

— Sei. — Nick bocejou, aninhando-se na cama. Parecia ter oito anos. — Vá ler seus livros de economia, Sr. Presidente, preciso dormir. Ei, se quer investir em novos setores, por que não começa com hospitais? Públicos, eu quero dizer. Eu fiquei algumas horas num hospital público e peguei uma infecção.

— Está bem. — Beijou-o longamente na bochecha e depois no pescoço, deliciando-se com seu cheiro característico que conhecia tão bem. Depois saiu de seu quarto e desceu as escadas até a sala, onde acendeu uma vela e pôs-se a meditar sobre a porcaria que aquele dia havia sido.

Acho que não dá pra presidir uma companhia e ter um bom relacionamento com sua família ao mesmo tempo, pensou triste. Na verdade, não fora apenas de tarde. De manhã, demitira um empregado por insubordinação, e fora uma das piores coisas que já fizera. Tivera de destruir a integridade de um engenheiro com mais de trinta anos de experiência na Grandes Esperanças pedindo aos seguranças que o levassem à força para fora do Palácio Real Hentz, pois ele se recusara a sair.

Enquanto acendia um cigarro e punha-se a tragar profundamente, lembrava-se das páginas amareladas escritas por John Francis, John Daniel e Samuel Hentz no Livro Hentz. Apesar de Nick tê-lo queimado na casa em Sacramento, Ethan ainda se lembrava das letras miúdas e elegantes relatando cada aspecto do funcionamento da finada Kruger-Vorheel.

A Kruger-Vorheel é um monstro que se alimenta de si mesmo, foram as palavras que John Daniel usara para descrevê-la. E ele tinha razão. Violando as leis da termodinâmica, a Kruger-Vorheel era como uma máquina de movimento perpétuo, completamente independente e autossuficiente. Possuíra bancos, financeiras, empresas publicitárias e petroleiras, seguradoras, mineradoras, frotas de navios cargueiros, indústrias farmacêuticas, tabagistas, alimentícias e de automóveis… Houvera um hotel-cassino em Las Vegas chamado Hentz. Houvera uma dúzia deles, na verdade, assim como uma marca de roupa com o mesmo nome. Você poderia viver a vida inteira usando o nome Hentz e não perceber isso.

A questão é que a Kruger-Vorheel jamais precisara dos serviços de outra empresa. E quando precisava, ela comprava. Era um império incontrolável, e para os homens Hentz não existiam fronteiras.

Ethan ficara sinceramente surpreso ao ver quantos reis, rainhas, ditadores, presidentes e premiês já haviam recebido seus antepassados. Até o Papa. Havia uma foto de John Daniel Hentz apertando a mão do recém-eleito Papa João Paulo II com Samuel e Mary Alice, ainda nova, ao seu lado. Fora um ano antes de ele morrer.

Quanto a Anhert, Ethan decidira que seria uma empresa familiar. Apenas 2% das ações estavam disponíveis ao público; 66% pertencia a ele e 16% a Nick e Lorenzo, cada. Eles não sabiam disso, mas uma única ação da Anhert já valia quase dez mil dólares.

No mais, a imprensa começara a chamá-lo de O Novo John Francis Hentz.

Depois de comprar a Lemnsack & Lovegood e outro punhado de agências de publicidade, a mineradora Lemnsack & Hentz, a Hentz Broadcasting Corporation e herdar a Lammex Company, Ethan passara a se sentir num estábulo examinando os cavalos pelos dentes. Começara a comprar todas as empresas que um dia pertenceram a Kruger-Vorheel, mesmo as que haviam diminuído drasticamente de tamanho por causa de má-administração. Seu objetivo ainda era engolir aquela rede de hotéis-cassino de Las Vegas, mas ainda era um sonho distante. Ela valia quase cinco bilhões de dólares.

E John Fauntleroy estava perdendo o resto de seus cabelos com isso. Ele comprovou-o a Ethan no dia seguinte, um sábado chuvoso onde o céu era um rio cinzento salpicado com a prata das nuvens. Dentre várias expressões tediosas como investimentos consideráveis, títulos a longo prazo e extensões de terras valiosíssimas que pertenceram à família Hentz, mas agora não valem um grão de poeira, Fauntleroy dizia:

— Sr. Lemnsack… sei que está excitado em finalmente ter idade para gastar o legado da família Hentz, mas pelo amor de Deus…

— John, você é meu advogado há dois anos. Já pode me chamar de Ethan.

Ele estava claramente desconfortável com isso. O escritório estava frio e abafado, e mesmo assim o advogado suava estufado naquela camisa de manga comprida branca com a gravata azul e vermelha apertando o pescoço como uma forca. Dentro do Palácio Real Hentz, nenhum empregado era obrigado a usar gravata, e quase nenhum usava.

— Está bem… Ethan. Como eu dizia…

— Sei que está com medo dos meus pesados investimentos, mas todos eles deram resultado até agora. Apesar de que não encosto um dedo na Lammex desde que a herdei, ela tem dado lucros exorbitantes. E a HBC também.

— Lucros e processos. A Lammex é campeã da Califórnia em processos movidos contra ela. Várias organizações antitabagistas estão começando a fazer boicote a tudo relacionado à Anhert por causa disso.

— Infelizmente, não dá pra fazer cigarros matarem menos. E todos sabemos que não é por isso que elas estão me boicotando. Essas organizações são intimamente ligadas a partidos políticos de direita que… como é que eles falam? Odeiam ver o retrato da boa família suburbana da Califórnia ser desmembrado por abominações como eu.

— Eles não usam essa palavra.

— Mas usariam se quisessem. — Ethan sorriu e se recostou na confortável poltrona. Tinha de se lembrar de encomendar algumas daquelas para seu escritório. — Vamos lá, John. Você foi advogado do meu avô Samuel, você sabe que ele teve um caso com a secretária dele e que, dessa união, nasceu o pai de Melon Chioren.

Fauntleroy crispou os lábios.

— Samuel nunca soube se Leoh e Lance Chioren eram mesmo filhos dele.

— Mas são. E Melchior é infelizmente meu primo. Quantos filhos ilegítimos ele teve?

Fauntleroy se remexeu desconfortavelmente na cadeira.

— Conheço o nome e localização de dezesseis amantes dele, doze dessas tiveram um montante de vinte e sete filhos e vinte desses filhos tiveram quarenta e seis netos. Todos são seus parentes distantes, todos tem sangue Hentz. Todos ilegítimos.

— Eu agradeceria se mais tarde você me desse uma compilação com informações deles, quero proteger o patrimônio da minha família. Mas vamos deixar isso de lado e falar um pouco mais sobre a bissexualidade de Samuel Hentz e de como isso era o segredo mais mal guardado do mundo. Ele morreu quando eu tinha quatro anos de idade, então eu realmente não o conheci, mas você sim. Me diga: como ele contornava isso?

— Primeiramente, ele não era assumido. Depois, ele era casado.

— É, mas ele só se casou porque queria ter um herdeiro, tanto que minha mãe só nasceu quando ele tinha quarenta e três anos. Qual é o grande segredo?

— Não é segredo algum. Samuel contornava isso adotando uma postura completamente partidária a todos os partidos. Ele financiou vários projetos conservadores e progressistas ao mesmo tempo. Era um influenciador do caos, criava situações-problema que resolvia depois, adquiria informações sobre pessoas-chave e montava operações para agradá-las. Colocava amigos contra amigos e tornava inimigos, amigos. Se ele não fosse apenas um adolescente durante a Segunda Guerra Mundial, certamente teria vendido armas tanto para os Aliados quanto para o Eixo.

Bem, pelo menos agora eu sei de onde veio toda a dissimulação de Melchior. É como se a parte mais negra de Samuel tivesse se desprendido dele e ido para aquela criatura de olhos púrpuras.

— Serei a mesma coisa, então. Um influenciador do caos.

— Isso é perigoso. Já atentaram contra a vida de seu avô. Não pense que não farão a mesma coisa com você só porque estamos em tempos mais modernos. Samuel estava a frente de seu tempo e teve o pai e o avô para ensiná-lo, mas você não tem ninguém, Ethan.

— Não, mas tenho o sangue deles. Não fiz faculdade, mas fiz a Anhert lucrar novecentos milhões de dólares em sete meses.

— Se não fosse pelo terremoto, isso nunca teria acontecido.

Nem por Gillian Pyatt. Sabia o que Fauntleroy estava querendo dizer. Lucrara em cima da desgraça alheia e tirara centenas de milhões de dólares do governo californiano para reconstruir o país. Ethan suspirou.

— Está bem. Me diga o que quer que eu faça.

— Ah, não eu. Sou um advogado familiar. Você precisa de um advogado corporativo.

— Meu pai era um advogado corporativo, ele também era sócio desse escritório. Mas ele morreu. Então onde encontro isso?

Pela primeira vez desde que o conhecera, Ethan viu John Fauntleroy sorrir com aqueles lábios finos e quebradiços.

— Você está na Fauntleroy, Mayfair & Stonem. Está na hora de conhecer a Mayfair.

Foi levado por uma secretária até o andar de cima, onde parou num recinto exatamente acima do escritório de John Fauntleroy. Ficou abismado ao ver o quanto as pessoas ali eram silenciosas e taciturnas, praticamente evitando olhá-lo enquanto passava. Quando atravessou a porta, sentiu-se entrando numa caixa de sapatos.

Apesar do abafo e escuridão do escritório de Fauntleroy, esse guardava um aconchego e simpatia presentes em cada quina de mesa, livro antigo, papel espalhado pela velha escrivaninha de madeira e poltrona de couro marrom tão acolchoado que parecia engoli-lo quando você se sentava. Mas o escritório a sua frente era totalmente cinza, como um necrotério, onde praticamente não havia ângulos e tudo era quadrado e de metal. Apesar disso, havia três gigantescas janelas abertas deixando passar a luz do dia e o frescor do inverno. Ele estava quase acabando para dar lugar à primavera, mas seu frio ainda estava lá.

Por trás da escrivaninha, um monstro de metal aparafusado ao chão sem carpete, uma mulher loura e austera da casa dos cinquenta e tantos anos imediatamente lembrou Ethan de Hellen Page. Apesar disso, era bonita e pouco apresentava de rugas, com um corpo esguio e ainda atraente trajado com perfeição num vestido justo azul-acinzentado. Seus espessos cabelos dourados caíam sobre os ombros em caracóis simetricamente perfeitos.

— Ethan — ela disse sem sequer tirar os olhos do documento que assinava. — Lauren Mayfair. Pode sentar.

Ethan sentiu-se sentando numa cadeira elétrica quando aquele metal gelado tocou suas costas. Quando ela levantou os olhos e revelou sua eterna cor de âmbar, ele fez a ligação.

— A senhora é mãe de Taylor Winthrop, Jr. — O nome lhe causou um cerco asco, mas o marido daquela mulher morrera no mesmo acidente que seus pais.

— Agora é Taylor Mayfair — ela disse. — Mas não falemos sobre isso. Você veio aqui porque tem dúvidas sobre como aplicar seu capital em investimentos.

Incrível em quanta informação se pode passar com um telefonema curto.

— Isso mesmo.

— Apesar de eu não ter sido advogada corporativa da sua família, John me mostrou o dossiê do legado da família Hentz. Para ser sincera, a fortuna que sua família um dia já teve foi a coisa mais magnificamente aplicada que eu já tive o prazer de ver. Como você deve saber, a Kruger-Vorheel era um monstro que se alimentava de si mesmo, e assim era os bilhões que seu avô, bisavô e trisavô acumularam.

— Compreendo.

— Eles foram o que se pode chamar de investidores agressivos, mas ao mesmo tempo foram cautelosos. Entrelaçaram uma política de preservar e proteger com uma de expandir e desenvolver. Numa fortuna dessa magnitude com políticas tão fortes como essas, pode-se pensar claramente num pequeno país petroleiro, e não estou exagerando. O capital Hentz era protegido de tal forma da inflação e de qualquer outro tipo de abuso que deter sua expansão seria completamente impossível, e isso é demonstrado em sua sobrevivência em meio a duas grandes guerras mundiais, uma crise financeira e uma série de outros conflitos que assolaram o mundo no século XX.

De repente, Ethan notou que ela estava levemente excitada em finalmente poder falar sobre aquilo com um membro verdadeiro e legítimo da família Hentz. Notou também que ela esperara ansiosamente sua visita.

— Uma pessoa poderia viver num luxo principesco com uma fração dos juros aferidos pelo reinvestimentos dos juros aferidos pelo reinvestimento dos juros aferidos pelo reinvestimento… e por aí vai durante várias e várias camadas, sem que o capital principal tivesse jamais que ser tocado.

— Compreendo, mas também espero que compreenda que eu não planejo de forma alguma viver assim. Não esperarei vinte, trinta anos ou duas gerações para que a Anhert Corporation um dia atinja o tamanho que a Kruger-Vorheel atingiu. Estou determinado a investir todo o meu capital pessoal se isso me trouxer o retorno do dobro ou do triplo. A Anhert ainda não é a Kruger-Vorheel.

— Ainda — Lauren repetiu, e então sorriu. — O que exatamente quer saber?

— Quero saber tudo. Durante o século XX, a imprensa criou um termo para o modo como a família Hentz administrava a empresa, esse modo de alimentá-la dela mesma. O hentizmo. Quero entender suas engrenagens, sua anatomia, célula por célula, e então adaptá-lo ao mundo atual. Quero compreender esse estilo de produção, e creio que não há ninguém melhor que você para me ensinar isso.

— Entendo, é perfeitamente razoável, mas não é tão simples assim…

Ela está me subestimando. É apaixonadamente obcecada pela história e pela glória de minha família e tem medo que eu a desgrace.

— Nada vive do passado. Conheceu meu avô, Sra. Mayfair?

Lauren Mayfair o olhou com um resquício ínfimo de suspeita nos olhos castanhos.

— Eu era apenas uma estagiária aqui nos tempos em que ele visitava John e Liam Stonem, e na maioria das vezes estava acompanhado de sua mãe, que ainda era uma moça aprendendo a um dia governar.

— Amou meu avô, Sra. Mayfair?

Viu-a com um prazer sádico morder os lábios. Agora conseguia compreender a relação entre Lauren Mayfair e a Mayfair que Samuel Hentz citou no Livro Hentz como uma de suas amantes.

— Afinal de contas, eu sempre achei que eu e o filho da senhora, Taylor, temos nariz e os lábios muito parecidos. — Ethan suspirou. — Samuel lhe deu uma gravidez de risco, e mesmo assim a senhora teve o filho ilegítimo dele. Me pergunto como minha mãe reagiria se descobrisse que é meia-irmã de um garoto da idade do filho dela.

E como ela reagiria se descobrisse que eu fui para a cama com esse meio-irmão. Bem, já transei com meu irmão, meu primo e meu tio. Que mais falta?

— Acho que Taylor não sabe disso, e espero que não saiba. Não quero dar a ele um centavo da fortuna Hentz. A senhora sabe que ele torraria tudo em questão de anos. Mas vamos deixar isso para lá — falou suavemente. Desejava que seus olhos fossem violeta. — A senhora me falava sobre o hentizmo. Me diga, como funcionavam as atividades filantrópicas da família Hentz?

Lauren levou um longo tempo fitando sua expressão travessa para voltar a falar.

— A Fundação Hentz tinha envolvimento com arte e educação, tendo contribuído para a construção de diversas escolas públicas não apenas na Califórnia, mas em todo território estadunidense. Também contribuiu para fundos em bolsas em diversas faculdades e fundou museus e escolas públicas de arte, que hoje são administrados por outras organizações. Também doava separadamente várias somas de dinheiro para diversas instituições de caridade em todo o planeta.

— Então devo pensar que eles contribuíam com o que todo mundo podia usufruir? Com escolas e faculdades públicas?

— Exatamente.

— E hospitais?

— Hospitais?

— Sim. Hospitais públicos, laboratórios e clínicas sem fins lucrativos, e em áreas de pesquisa científica e tecnológica, áreas que não tinham nada a ver com a Kruger-Vorheel e que não davam um retorno financeiro, mas puramente intelectual, algo que pudesse causar um impacto considerável na vida humana. Alguma coisa?

— Não, nada.

— Absolutamente nada?

— Nada. Hospitais públicos estão entre os empreendimentos menos rentáveis que existem. O governo dá muito pouco, e a saúde na Califórnia é quase que completamente privada.

— Eu sei disso. Entrei num hospital público ano passado e, quando saí, podia jurar que havia contraído meia dúzia de doenças diferentes. Pois bem, pelo que a senhora me contou, eu diria que seria algo extremamente difícil rastrear o início e o fim do legado Hentz, embora fosse possível. Se me pergunta onde eu gostaria de investir, eu diria que seria nisso. Em hospitais públicos.

— Ethan…

— John Francis, John Daniel e Samuel nunca conseguiram apoio do governo para isso porque nunca tentaram, ou nunca quiseram. Mas não é o que eu pretendo. Teria o apoio dos quatro governadores do país e certamente do Rei Senn, e isso forçaria o Primeiro Ministro a investir nesse setor. John Daniel Hentz poderia ter feito isso, ele era amigo íntimo da Rainha Henrietta Walker.

—Você está falando em transformar a saúde da Califórnia de privada para pública, em mudar algo que está profundamente implantado na cabeça da população. Você só tem dezoito anos. Não há certeza de que o Primeiro Ministro vá ouvi-lo, e se não o fizer você perderá tudo o que investiu.

— Talvez, mas eles eram investidores agressivos, não eram? Eu também serei. Não consigo ficar de braços cruzados quando hospitais privados literalmente jogam pacientes nas ruas porque eles não têm plano de saúde. Eu sei que isso seria um enorme rombo para o governo, mas nesses tempos de crise e destruição, todos temos que fazer sacrifícios.

— Em outras palavras, você conta só com o afeto e a amizade dos poderosos para conseguir o que quer.

— Precisamente. Pensando bem, acho que preciso agendar outra visita a Sacramento e marcar algumas reuniões.

— Oh, Ethan. — Lauren teve que massagear a testa para evitar a dor de cabeça. — Se quer isso, tem que entrar na política. Não literalmente, mas precisa de apoio e de dar apoio. Os parlamentares e senadores certos podem ser tão influentes quanto os governadores, o Primeiro Ministro ou mesmo o Rei Senn. Precisa de políticos democratas que concordem com você, e de republicanos que balanceiem as coisas. Precisa financiar as campanhas deles. Precisa duua imprensa.

— Eu compro a imprensa.

— A fortuna que você herdou é algo que evoluiu ao longo de cento e vinte anos. Sua mãe doou quase trinta bilhões de dólares de uma vez, a maior doação única da história, mas ela sabia o que está fazendo. Era uma mulher experiente. A fortuna Hentz não era algo que pudesse ser perdido se o Oriente Médio decidisse inundar o mundo de petróleo ou se o ouro deixasse de ser valioso e seu mercado quebrasse. Estou falando de um emaranhado de investimentos e aplicações que são praticamente inigualáveis em qualquer anal financeiro do mundo, de manobras financeiras tão bem planejadas que se que se mostraram lucráveis mesmo após todos os conflitos do século XX. Mas… estou falando da fortuna dos seus antepassados. A sua não tem nada disso, é apenas um punhado de dinheiro jogado numa conta bancária.

— Então vamos fazer! — exclamou. — Vamos repetir cada manobra e reinvestir no já investido para trazer esse um bilhão e meio de dólares de volta ao topo. Quero estabelecer uma dinastia tão poderosa quanto a família Goldenschild, uma dinastia de banqueiros e petroleiros californianos, tão rica e poderosa quanto os Rockefeller e os Rothschild. Já temos até uma família real a nossa disposição, então não duvido nada que alguns de meus descendentes sejam príncipes ou condes. Quero reconstruir esse império e dominar todo o planeta, Lauren.

— Ethan, a não ser que você queira se tornar uma pessoa como eu, que passa a vida no escritório indo a reuniões de diretoria, conversando com corretores e agentes imobiliários, advogados, contadores com máquinas de somar de dez dígitos e fazendo declarações de impostos de milhares de páginas, desista. Faça uma faculdade, viaje com seus irmãos, compre mansões e castelos na Europa e alguma ilha em Dubai e passe o resto na vida em almofadas de cetim sem se preocupar com a administração do seu dinheiro, porque é para isso que você nos paga.

Ethan a examinou mais atentamente. Decidiu que Lauren Mayfair era uma mulher boa. Assustada e apreensiva, mas boa.

— Ah, não mesmo. — Sorriu. — Jamais vou viver sem trabalhar. Peguei demais o gosto da coisa. Vou contratar um batalhão de advogados, sim, mas seguirei de perto cada passo de cada um. Quero que comecemos imediatamente, Lauren. Quero fazer jus ao apelido de O Novo John Francis Hentz. Quero essa fortuna girando e dando lucros assim como a fortuna Hentz o fez. Reabra a Fundação Hentz, mas a renomeie Lemnsack Hentz World Donations II. A primeira coisa que quero são os hospitais. Pense em quantas pessoas eu posso salvar com pesquisa médica. Centro Médico Hentz. Que acha disso?

— Acho que você precisará descobrir a cura do câncer para que as pessoas o levem a sério. — Ela suspirou jogando os longos cachos dourados para trás dos ombros. — Se é o que você quer, vamos fazê-lo, mas eu imploro que me deixe começar a aplicar seu dinheiro no petróleo e em outras formas de energia sustentáveis, depois em tecnologia.

— Está bem, desde que você leve a sério minha proposta de comprar os hospitais decadentes de John Christian Medley. — Na verdade, Ethan só aceitou porque estava atrasado para uma reunião. Levantou-se confiantemente e estendeu a mão a Lauren Mayfair, que a apertou delicadamente. — Eu cuidarei de influenciar quem eu preciso. Sabe, Sra. Mayfair, quando acreditamos apaixonadamente em algo que não existe, nós o criamos. O inexistente nada mais é que aquilo que ainda não desejamos o suficiente.

Saiu da Fauntleroy, Mayfair & Stonem com a cabeça erguida, entrou na limusine e pediu ao motorista que o levasse ao Palácio.

Todos o cumprimentaram com Bom dia, Sr. Lemnsack quando passou. Mais de dois terços do prédio ainda estavam desocupados porque, afinal, a Anhert não era tão grande assim, mas praticamente toda a parte administrativa da HBC estava sediada nos últimos andares do prédio, junto com a Lemnsack & Lovegood e a Grandes Esperanças.

Pegou o elevador comum e encostou o polegar no sensor para ir ao nonagésimo quinto andar. Atravessou o corredor, o hall e entrou no escritório para dar de cara com Melon Chioren deitado em seu divã, fumando um charuto. Ele estava completamente nu. Apenas de sobretudo.

— Ethan — ele sussurrou suavemente, soltando a fumaça. — Seus charutos cubanos são os melhores.

Ethan estava tentando controlar a vontade de esganá-lo.

— Como entrou aqui?

Melchior chutou com o pé um molde de gesso de debaixo do divã. Tinha o formato de um polegar, e as impressões digitais eram certamente as de Ethan.

— Você nunca deve literalmente dormir comigo, não sabe o que eu posso fazer. — Ele bocejou ronronando propositalmente. Parecia um filhote de gato. O cabelo cinza estava despenteado e os olhos estavam cor-de-rosa e sonolentos. — Acabei de voltar de um tour na Grã-Bretanha; fiz sexo com meia dúzia de nobres, apertei a mão do rei britânico e fui convidado por uma seita de gênios a fazer parte deles. No mais, estou com o horário biológico todo errado. E acho que curei o câncer.

— O quê? — Ethan tencionou perguntar, mas Melchior o puxou e forçou-o a deitar-se em cima dele. Sentir aquela pele tão macia e quente contra a sua imediatamente despertou sua ereção. O cheiro da nicotina só o deixava mais sexy.

Melchior o beijou agressivamente, puxando seu cabelo com força enquanto Ethan pressionava o membro entre suas pernas nuas e completamente lisas. Tudo nele era desenhado com tanta simetria, parecia um anjo.

— Penetre-me — ele implorou, jogando longe o sobretudo. Virou-se no divã e apertou o couro entre os dedos quando Ethan o fez e começou a investir. — Isso, com força. Me rasgue por dentro.

Quando terminaram, quase todo o corpo de Melchior parecia doer e arder, e as marcas de unhas eram visíveis nos dois. Agora era Ethan quem fumava o charuto.

— Não acredito que minha reunião era com você — ele disse soprando a fumaça. — O que você disse sobre o câncer?

— Esses dias eu estava me remoendo de saudades de minha avó Cistie e me lembrando que ela morreu de câncer de pâncreas, então comecei a pesquisar sobre ele. Sabia que o método de diagnóstico para ele leva horas? Achei primitivo demais, então desenvolvi um novo método. É muito mais barato e sensível que o convencional e pode ser feito por qualquer imbecil que tenha mãos. Funciona com uma tira de papel com reagentes e uma gota de sangue.

Ethan não podia acreditar, e pelo visto Melchior percebeu.

— Levei dois meses para descobrir quais reagentes usar, mas depois de cinco mil tentativas e de quase perder o juízo, eu consegui. Ele pode detectar câncer de pâncreas, de pulmão e de ovários.

— Melchior, você sabia que quem está no segundo ano do ensino médio normalmente não quer perder o próximo episódio de Game of Thrones? Quem está no segundo ano do ensino médio não escreve séries épicas de sete livros, não é produtor executivo de séries de TV, não descobre assassinos e não revoluciona o combate ao câncer de pâncreas.

Melchior deu de ombros suavemente. Havia tanta arrogância e presunção em seu lindo rosto que Ethan teve vontade de tirá-las dali aos socos.

— Não sou um adolescente comum. Tenho um QI maior que o de Einstein.

— Ele deve estar se revirando no túmulo.

— Ele foi cremado, mas seu cérebro foi preservado. Sabe, Ethan, quando eu morrer eu quero que meu corpo seja atirado no sol. Voltar às origens, sabe?

— Espero que não esteja esperando que eu cuide disso.

— Não, você vai morrer antes de mim. — A seriedade com a qual ele disse isso foi tanta que por um segundo Ethan se assustou, mas então Melchior riu suavemente e o beijou, roçando o corpo nu no dele. — Soube que está querendo fundar um Centro Médico.

Mas é claro. A ligação das coisas é tão óbvia.

— O projeto do sensor está em cima da sua escrivaninha. — Ethan deu uma olhada. Era mais grosso que os livros da série Lympharia. — É apenas um projeto de ciências, mas tem qualidade de uma tese de doutorado. Como não estou afim de ser rejeitado por duzentos laboratórios diferentes até que um aceite ver essa coisa, quero que o use como o pontapé inicial do Centro Médico Hentz. Não diga aos seus cientistas que foi feito por um garoto de dezesseis anos ou eles não darão a devida atenção. Depois você diz e eu registro a patente.

— Isso vai ter de passar pelo escrutínio da comunidade médica para chegar aos pacientes. Vai levar anos.

— Eu sei, mas eu sou jovem.

Melchior se levantou e atravessou o escritório completamente nu. Ethan contemplou a perfeição de seu corpo tão bem desenhado, cada curva do jeito que deve ser. Largo nos quadris, fino na cintura, o peito reto e as pernas e braços levemente musculosos e sem um único pelo. Era difícil acreditar que Melchior era de verdade. O modo como ele falava e olhava parecia ser o exato que a situação precisava.

— Preciso dormir, e eu adoro a sua cama — sussurrou-lhe provocativamente, já na porta do corredor. — Venha comigo.

Ethan não conseguiu resistir. Jogou Melchior na cama e o penetrou mais uma vez, e dessa vez foi tão violento que quase o fez chorar de dor. Gostaria de ter visto lágrimas de dor caírem daqueles olhos violeta uma vez na vida, pelo menos uma vez. Depois abraçou-o por trás e adormeceu com ele, acordando apenas no início da noite. Tomaram um banho na hidromassagem e fizeram sexo mais uma vez até que ele disse que teria que ir embora. Ethan mandou-o ir pelo elevador privativo, mas despediu-se com um beijo carinhoso.

Se ele não fosse o monstro que sabia que ele era, Melchior poderia ter sido o amor de sua vida.

Pouco tempo depois, quando já estava sentado confortavelmente atrás de sua escrivaninha e pronto para resolver os problemas daquele dia, há que recebe um chamado de sua secretária dizendo que Robb Thanathos tinha alguns papeis para ele assinar. Ethan mal podia imaginar o motivo que levara o primo de Melchior a querer trabalhar ali, mas como gostava de se arriscar colocara-o praticamente ao lado de si.

Podia permitir a subida do elevador através do computador, e foi isso que fez. Momentos depois, Robb surgiu na porta carregando um dossiê de contratos e licitações. Ele ficava bem até demais numa roupa formal, o cabelo castanho e os olhos muito azuis destacavam-se, assim como cada músculo daquele corpo perfeito por baixo do tecido claro da camisa.

— Sr. Lemnsack — ele disse adoravelmente, aproximando-se. Ethan imaginou-o como seria a sensação se ouvir aquele nome sendo sussurrado em seu ouvido, na cama, enquanto os dedos da mão dele envolviam seu pau. — São da Sra. Lauren Mayfair.

— Venha aqui — disse a ele, e então quase riu. Robb era um pouco mais alto que Ethan, mas ainda assim era seu subordinado.

— Acho que gostaria de saber que Mellaria Thoms anda falando de você pelas costas de novo — Robb disse enquanto Ethan rabiscava sua assinatura mecanicamente nas linhas vazias dos documentos.

— Obrigado por avisar, mas a Srta. Thoms ainda é a melhor arquiteta que a Grandes Esperanças possui. Não posso me dar ao luxo de dispensá-la.

Mellaria Thoms estava envolvida na construção do vestiário da Escola St. Nicholas. Se Lafferty fosse descoberto e tudo explodisse, ter aquela mulher contra si seria dar um tiro no próprio pé.

Houve um momento em que um papel voou da mesa. Robb se aproximou para pegá-lo, mas não ajoelhou. Ao invés disso, deixou Ethan com a melhor visão possível da parte traseira de sua calça.

Quando Ethan terminou, Robb recolheu o montante de contratos e tencionou sair do escritório, mas algo o parou. Ele olhou para o chefe com olhar de incerteza.

— Sr. Lemnsack… ah… eu creio que esse não seja o melhor momento, mas… — Ele parecia fazer esforço demais até para pensar. — Será que, algum dia, o senhor não gostaria de… sair comigo?

Ethan ficou parado, estático, observando aquele rapaz tão bonito e estúpido chamá-lo para sair. Deus, ele era o presidente daquela empresa, e Robb não era mais que um estagiário! Então por que se sentia tão compelido a aceitar?

A frieza do anel de ouro branco e rubi de sua mão o trouxe de volta à realidade.

— Obrigado pela oferta, Robb, mas eu tenho namorado.

Ele deu um sorriso triste.

— Eu entendo. Se algum dia mudar de ideia, acho que tem meu número de telefone no seu banco de dados. — Com isso, ele se foi, fechando a porta atrás de si num baque surdo.

Ethan suspirou. Ele realmente tinha uma bunda linda, mas não dava. Conseguia sentir o calor dos dedos finos de Melchior puxando-o para aquele teia de onde jamais conseguiria se libertar. Também conseguia sentir o calor da língua dele em volta de seu sexo, sugando-o para dentro daquela boca aveludada até que ejaculasse.

Tirou o telefone do gancho e ligou para um dos últimos andares úteis. Sentado na escrivaninha, ouviu a voz de Jules du Pont atender do outro lado com um sotaque francês.

— Jules, ouça-me bem. Quero que você compile uma lista com os cinco maiores jornais e as cinco maiores emissoras de TV de Los Angeles, San Francisco, San Diego, San José e Sacramento. Você tem quinze minutos.

Menos de quinze minutos depois, o computador apitou. Havia cinquenta nomes na lista, dentre os quais Ethan foi excluindo os absurdamente caros e circulando os mais decadentes e promissores que não eram assim tão caros. No fim, tinha quinze nomes, três de cada cidade. Los Angeles e San Francisco tinham dois jornais e uma emissora de TV disponíveis, o restante tinha duas emissoras e um jornal.

Ligou novamente para Jules.

— Provavelmente vou ter que viajar para essas cinco cidades o mais breve possível, portanto cuide disso para mim, sim? Primeira classe. Nessa ordem.

Se preciso da imprensa do meu lado, que eu seja ela. E acho que preciso de um jatinho. E de uma companhia aérea. Irônico seria se eu comprasse a Aero-Brent.

Passaram-se mais algumas horas de telefonemas e teleconferências. Uma das minas de ouro da Lemnsack & Hentz havia desmoronado e matado três mineradores, e agora a Anhert teria que lidar com os processos milionários que suas esposas estavam movendo, e uma empresa de aço americana estava sendo investigada por sonegação fiscal. Não era sua culpa, e sim do antigo gerente. Ethan precisaria se livrar daquela bomba antes que o governo americano subisse a comprida escada que levava até ele. Era como se as empresas fossem um estado e a Anhert, o governo federal.

Já perto da meia-noite, quando Ethan estava caindo de sono e decidindo que aquele dia já bastava, recebeu um último telefonema de sua secretária. Quando ouviu quem era, decidiu recebê-lo.

Gabriel Melnick entrou na sala taciturnamente. Estava usando um moletom branco e calças escuras, e Ethan lhe deu um beijo quando ele entrou.

— Você nunca veio ao prédio, não é? — perguntou alegremente. Gabriel estava com um olhar apático, mas andava daquela forma desde que o irmão morrera. Aliás, Ethan nem sabia que ele tinha um irmão, mas ele morrera no prédio que Gillian lhe havia dito para não comprar. Se não fosse por ela, ele podia ter ido junto.

— É, nunca vim — Gabriel disse quase sussurrando. Ethan puxou-o pela cintura e enfiou a língua na boca dele, agarrando sua bunda por cima da calça e depois por baixo da cueca. Já estava a ponto de descer o zíper quando Gabriel separou-se dele. Olhou fundo nos olhos de Ethan, coisa que poucos faziam, e suspirou quando o verde derramou-se no preto. — Eu vou embora.

— Embora? — indagou confuso.

— É, embora. Para a Inglaterra. Eu consegui aprovação de uma escola de lá para cursar o ensino médio. Eu vou pagar com o dinheiro que a Prefeitura deu à minha família como indenização pela morte de Brandon. Não suporto mais aquela casa desde que ele se foi — disse baixinho, e então acrescentou com desgosto: — E que dinheiro esse, hein?

Ethan ficou observando-o sem dizer nada. Não tinha nada a dizer.

— Por que não contou antes?

— Não sei, acho que não quis te dar deixa para me fazer mudar de ideia. Na verdade, estou indo ao aeroporto agora. — Aquilo o deixou estático. Viu com descrença Gabriel tirar o anel de ouro branco e rubis do dedo anelar. — Você me deu isso, mas não posso continuar com ele. É seu, estou devolvendo.

A joia parecia fria demais quando Ethan a tocou.

— Está terminando comigo? — perguntou sem conseguir acreditar.

— Não sei, acho que sim. — Gabriel fitou-o longamente com tristeza no olhar. — Eu ainda o amo muito, mas não há condições de ser diferente. Eu acho que… nunca houve. Eu nunca consegui ser suficiente para você. Sinto muito por isso.

Gabriel Melnick deixou Ethan sozinho ali com uma única frase no pensamento:

Mas… ninguém jamais conseguirá.

Ele atravessou a porta do escritório e sumiu de sua vista. De algum modo, Ethan Lemnsack sabia que nunca mais o veria.

Lentamente, tirou o próprio anel de rubis do dedo e colocou-o ao lado do de Gabriel na quina da mesa, como se fossem bombas prestes a explodir. Abriu o cofre de detrás do Rembrandt e os pôs numa das gavetinhas, depois checou um número no computador e então usou o celular, quase se esquecendo de como estava tarde.

— Robb? Você disse que se eu mudasse de ideia eu deveria te ligar, não é? Então… você gostaria de sair comigo qualquer dia?

Notas finais
Yoo, Ethan e Lorenzo e fim de Ethan e Gabriel. :333