Notas iniciais
Esse capítulo é narrado em primeira pessoa por um personagem não identificado, tentem descobrir quem é. :3

Eu lembro que uma vez, um amigo meu roubou meus sapatos durante uma festa. Eu tinha treze anos na época, passei a festa inteira descalço, meus pés ficaram gelados. Depois descobri por que ele me irritava tanto: ele gostava muito de mim.

Eu não soube o que fazer, eu não gostava dele dessa maneira, não podia fazer nada. Acabamos nos afastando com o tempo, as coisas ficaram estranhas. Hoje, eu creio que se declarar para mim é uma das coisas das quais ele mais se arrepende. Se não tivesse feito isso, eu nunca teria me mudado de cidade e nunca teria morrido.

Ele ainda está vivo, e muito feliz, por sinal, embora a minha existência ainda o perturbe um pouco.

A coisa mais notável da morte é a perda da humanidade. Lentamente, seu corpo é destruído e você se torna uma coisa etérea e sem forma. Suas lembranças antropomorfizam e você pode escolhê-las seletivamente, revivendo-as para sempre e sempre, mas quando se morre jovem e sem muito para contar, isso não tem tanta graça.

No fim, você percebe que sua existência era só mais uma entre tantas bilhões, e que a sua morte não afetou mais gente do que afetaria a morte do último integrante da tribo mais fechada do mundo. Quando morremos, percebemos o quanto somos insignificantes como pessoas, e na verdade são nossas ações que valem, e em como elas influenciaram o mundo e as pessoas a nossa volta.

Vou contar a você uma crônica, uma crônica longa e cheia do absurdo da complexidade do simples viver. Mais precisamente uma crônica que durou quinze anos e que se encerrou no dia vinte e quatro de maio de 2013, num penhasco chamado Alta Vista, que fica perto da floresta de Middleland, que é uma cidade do Reino da Califórnia. É só sair da cidade pela via principal e pegar uma estradinha de terra por uns seis quilômetros, você pode subir o Alta Vista de carro. Tem até um ponto turístico lá em cima.

Você conhece o Reino da Califórnia? É um país que se originou de uma separação ocorrida entre o estado da Califórnia e os Estados Unidos, mais ou menos no final da década de 40, após o término da Segunda Guerra Mundial. Depois de uma rebelião causada pela indignação californiana com o uso de bombas atômicas no Japão, rebelião essa que durou mais de meia década de revoltas populares, o país reconheceu a independência do estado, que formou um reino. Por isso que eles falam inglês e usam o dólar como moeda. A líder do movimento separatista, a ex-governadora da Califórnia na época, tornou-se rainha, e seu povo aplaudiu. O Reino da Califórnia foi dividido em quatro estados (Northeria, Southeria, Westeria e Easteria) onde cada governador os… governa, obviamente. Todos subordinados a um Primeiro Ministro. É parecido com o parlamentarismo inglês.

Mas do que eu estava falando? Ah, a crônica. Você gosta de coisas tristes? Porque esta é triste.

Vou narrar a biografia de Rhanys Olrwen.

Ou Owl. Owl significa Coruja em inglês, sabia? É sempre bom saber. Ele parece mesmo uma coruja.

OoO

— Ottis, tenho que te contar algo.

— O que é, Onnie?

Onnie segurou a mão de seu marido e a encostou em sua barriga, onde uma leve saliência respondia a pergunta. Sorria.

OoO

Quando Rhanys nasceu, veio cheio de expectativas e medo. Onnie Olrwen realizaria o parto em casa, como era tradição entre os Olrwen. Ainda não haviam lhe dado um nome, como também era tradição. Desde sua bisavó, Ondromeda, até ela própria. Era uma mulher antiquada, o que não era necessariamente ruim.

Olenna Olrwen realizaria o parto. Onnie jamais simpatizara com sua tia, mãe de seu marido, mas não tinha escolha. E você sabe por quê? Olenna era o membro mais velho dos Olrwen ainda vivo. Ela deveria realizar o parto, então. Em outras palavras, tradição.

OoO

— Empurre…! — gralhou asperamente. Estavam apenas as duas no quarto, quente como uma estufa. Gotículas de suor enchiam suas testas. Onnie estava aberta como uma flor, agarrada aos lençóis manchados de sangue, mordendo a fronha do travesseiro.

— E-Eu não consigo — Onnie gemeu. Tentou mais uma vez. Olenna podia ver apenas o topo da cabeça do bebê. Havia uma andorinha verde-oliva parada na janela, assistindo a tudo como um telespectador sem nome.

— Quer perder o bebê, ham? — Olenna indagou. Tinha sessenta e cinco anos na época, e ninguém achava que viveria muito mais tempo. — Faça o que digo, isso, assim, empurre!

Então, como uma melodia há muito esperada, uma canção divina, um choro desesperado. Olenna segurava um corpo ensanguentado nas mãos, observando silenciosa as lágrimas no rosto da nora. Lavou o bebê com água morna e o envolveu em mantos quentes e limpos, entregando-o nos braços da mãe. Onnie parecia-se muito com a irmã de Olenna, Osmine, que viria por falecer poucos anos mais tarde.

— Ele é tão lindo — ela disse, chorando lágrimas de dor e felicidade. — E é um menino.

— Que nome dará, ham? — Olenna perguntou, trabalhando entre as pernas de Onnie para consertar o estrago feito.

— Pensei em… dar-lhe o nome do meu avô, seu pai.

— Olannis? Ham, boa ideia, é uma boa ideia.

Olenna virou-se para a banca onde seus instrumentos estavam. Tirou um pequeno frasco de dentro da gaveta, onde um líquido incolor, inodoro e insípido estava guardado. Olhou para o relógio. Eram seis horas da noite. Aquilo mereceria uma homenagem. Despejou seis gotas do frasco num copo d’água.

— Aqui, beba, você precisa — disse-lhe, entregando o copo. Onnie bebeu cada gota, sorvendo o líquido com sofreguidão considerável. Aquela andorinha da janela se fora, como que para não ver.

— Estou sonolenta — Onnie murmurou. O bebê de repente pareceu muito pesado em seus braços.

— Dê-me ele aqui, você precisa dormir muito. Quando acordar, toda a família saberá. — Hesitante, Onnie fez o que fora pedido. Não queria se separar de seu filho, mas sentia sono, tanto sono.

Olenna pegou o bebê nos braços, acariciando possessivamente seu rosto com dedos enrugados. Onnie deixara o copo cair da cama, sujando o chão. A velha pegou-o com as mãos e o pôs no criado-mudo, sem nunca parar de olhar ou para o neto, ou para a sobrinha morta.

— Sem autópsia — disse com repugnância. — Como manda a tradição

OoO

Quando Rhanys nasceu, veio cheio de expectativas e medo. Expectativas que acabaram quando sua mãe morreu durante o parto, conforme relatou Olenna, e medo que se solidificou nos olhos de Ottis Olrwen quando viu o rosto pálido e sem vida da esposa.

Apenas uma morte pode pagar pela vida. O pai de Rhanys nunca se recuperou da morte de sua loura prima de olhos azuis. Sua tristeza transformou-se em ódio, e o ódio enraizou-se no fundo de sua alma, bem no fundo. Por mais que quisesse amar o filho, não conseguia. O rosto dela aparecia sempre que olhava para ele.

Foi Olenna quem escolheu o nome. Seis letras para Rhanys, seis gotas de veneno para Onnie. Seis letras para Olenna também, mas fora só uma coincidência. Ottis acabou concordando após sua mãe dizer que aquele fora o último desejo da falecida Onnie. O primeiro Olrwen em gerações cujo nome não começava com O. O primeiro diferente.

O primeiro erro. O primeiro erro.

OoO

Rhanys cresceu lentamente. Andou com um ano e dois meses de idade. Não falou até os seis.

Somente murmurava palavras desconexas e sem sentido. Não havia nada de errado com sua língua ou garganta, diziam os médicos. Ele era simplesmente uma incógnita. Diziam que tinha um autismo grave, e que nunca falaria nada que fizesse sentido, a não ser que um milagre acontecesse.

Mas um milagre aconteceu. Olívia Ovense aconteceu. Ela era tão bonita, jovem e vivaz. Foi por causa dela que Rhanys teve uma mãe pela primeira vez na vida. Teve alguém que pudesse amar e que o amaria de volta. Excluindo Olenna, é claro, a quem tanto se apegara, a quem tanto amava.

Você sabe o que é amar de verdade? Sabe o que é sentir uma queimação na sua pele apenas ao pensar no toque da pessoa? Descrever amor verdadeiro é… difícil. Atrevo-me a dizer que é impossível. Mas é bom. É bom de sentir e de ser sentido. Rhanys amava verdadeiramente sua mãe e sua avó, ignorante do ódio que recebia de seu pai. Ele era feliz, era uma criança feliz.

Nasceu em Middleland, em Jardim de Ouro, naquela casa branca e estreita, cercado por crianças vivazes como London e Ritchi, que não o maltratavam por ser diferente, por não saber falar. Foi Olívia quem o ensinou sua primeira palavra.

OoO

— Rhanys, venha cá.

Ele foi. Com seis anos de idade, era magro, mas não demais, como se preocupam todos os pais, e petulante como uma coruja selvagem. Andou desajeitadamente até sua madrasta, que estava sentada numa cadeira de balanço. Ela havia descoberto naquele dia que não poderia ter filhos, após cinco anos tentando, e algumas olheiras amontoavam-se abaixo de seus olhos. A criança loura como o sol não tinha capacidade de identificá-las como sintomas de depressão. Dali pra frente, a doença de Olívia só pioraria.

Olívia pegou-o no colo. Naquela época, ele ainda não temia toques. Foi depois, só depois do Terrível. Colocou um pingente de ouro branco cujo formato era de uma coruja em suas pequenas mãos, onde seis pedrinhas reluzentes estavam encrustadas. Rhanys passou a observar aquele objeto tão brilhante com fascinação. Estava escrito Owl bem abaixo dele.

— Vê isso? — ela indagou. — É uma coruja, uma pequena e linda corujinha, assim como você. Olha essa palavra… Owl. Consegue falar isso? Owl. Owl. É fácil, tente. Owl.

Rhanys olhou-a com enormes e confusos olhos. Era tão bonita, a sua mãe.

— Oooooooooo — entoou, sentindo a língua engrolar. — Oooooooooooooo — tentou de novo, sem sucesso. Viu o sorriso de Olívia desaparecer.

— Não se preocupe, talvez tentemos de novo mais tarde.

Ele não queria tentar mais tarde, não! Queria fazer aquilo àquele momento, e em nenhum outro. Por que não podia falar?

— Oooooooo — repetiu, quase desesperado. Nada saía. — Ooooooo… Ooooooo… Ooooooooooooooo… — Nada.

Foi aí que, como o sopro de Deus, o primeiro Owl de Owl nasceu.

— Owl. — Foi tão simples, curto e rápido que ele se surpreendeu com a facilidade com a qual conseguia dizê-lo. — Owl — disse de novo. Era tão bom! Mas o melhor era o sorriso que sua mãe dera, seus olhos azuis escuros arregalados de surpresa e felicidade.

— Rhanys, você falou, você falou!

E por muitos meses, Owl foi feliz.

OoO

Tentaram ensiná-lo outras palavras, mas foi em vão. Owl prendeu-se ao Owl com tanta ferocidade que começou a repudiar que lhe ensinassem mais. Temia que, se tentasse, acabaria não conseguindo mais falar seus Owls. E se voltasse a ser mudo? Não podia. Nunca. Como poderia fazê-los entender? Era difícil. Ele ainda não sabia escrever.

OoO

Um dia, Owl estava passando por uma caçamba de lixo cheio de dejetos, uma perto da entrada do Jardim, com sua avó. Viu uma manga branca pulando para fora e, puramente por curiosidade, puxou-a. Um casaco, que outrora deveria ter sido branco, imundo caiu no chão aos seus pés. Era grande, enorme. Olhou para Olenna, que o observava sem expressão. Ela pareceu entender o que queria.

Ham, está bem, pode levá-lo. Mas esta coisa vai ficar vinte e quatro horas imerso em água sanitária.

OoO

Aos sete anos, Owl passou as férias numa cidade chamada Piazzavuota, no extremo norte do Reino da Califórnia, muito longe de Middleland, Castellobranco ou Passodepedra. O hotel fora recém-adquirido por uma empresa que o obtivera da falecida Kruger-Vorheel. Tinha seis estrelas.

Na recepção do hotel, sentia-se num mundo diferente. Uma cúpula abobadada com detalhes dourados e beges erguia-se majestosa até onde os olhos podiam alcançar o fenecimento. Owl estava olhando para uma colossal árvore de Natal, hipnotizado pelas bolas brilhantes e pelas luzinhas que piscavam num padrão sequenciado. Eram seis horas da tarde quando o viu.

OoO

— São bolas bonitas — ele disse. — As luzinhas também. Se você girar apenas uma… — Ele girou apenas uma — o conjunto inteiro para de piscar. — O conjunto inteiro parou de piscar. O garoto virou a mesma luzinha para o lado contrário e elas voltaram a piscar, como os faróis dos carros num engarrafamento.

— Owl — disse Owl.

— Owl? — ele indagou. Possuía olhos muito bonitos, grandes, enormes, e expressivos, da cor de uma piscina sob o sol. Era tão parecido com ele que pareciam gêmeos, mas parecia ser alguns anos mais velho. — Esse é seu nome, Owl?

— Owl — repetiu, esperando que ele entendesse.

— Você só sabe falar isso. — Não era uma pergunta, muito menos uma crítica, como ligeiramente parecia. — Olá, Owl. Meu nome é Oliver, mas você pode me chamar de Ollie. Seu cabelo é muito bonito.

Seus cabelos eram ambos idênticos. E Oliver tinha seis letras.

OoO

Durante um mês, Owl foi muito, muito feliz com Oliver Castanelli. Talvez estivesse apaixonado por ele, talvez não. Tinha sete anos, era difícil determinar qualquer coisa sobre si mesmo, ainda mais sobre Ollie, que parecia ser uma criança deslocada do mundo. Não gostava de brincar com outras crianças, preferindo se aventurar sozinho pelo hotel e ver o que encontrava. Às vezes, Owl flagrava-o conversando sozinho com o vento, em dialetos incompreensíveis. Ele devia ser louco.

Mas gostava imensamente de Ollie, e seu amor por aquele garoto incomum fora também sua maldição.

Ollie ensinou-o a ler. Levou menos de um mês para aquele garoto de nove anos ensinar àquele de sete a ler. Nunca tentaram ensinar a Owl porque pensaram que não aprenderia, mas não havia nada que gostasse mais do que sentar sobre uma tapeçaria macia do hotel com um livro infantil e ouvir a voz rouca de Oliver falando, indicando o som que cada sílaba fazia.

OoO

— Quero que leia a primeira frase.

— Owl…

— Consegue.

— Owl… Owl.

— Não me importo com o que os garotos de Jardim de Ouro dizem, quero que leia, você sabe ler.

Owl nunca teve coragem de perguntar como ele conseguia decifrar sua Palavra amiga. Tinha medo até de pensar na pergunta, com medo de que Ollie conseguisse ler mentes. Olhou para o livro. Estava na página seis.

— Owl… — murmurou. — Owl… O-Owl, O-Owl. Ooooooooowl… Ooooooooowl. Owl.

— Isso mesmo — concordou, com um grande sorriso no rosto pálido. — A coruja saiu de seu poleiro para a noite lá fora. Eu não disse que você sabia ler?

Owl sorriu também. Ele sabia.

OoO

O Terrível aconteceu com Oliver pela primeira vez em seus nove anos. Owl estava junto também. O quarto era escuro e gelado, o quarto de número 6.006, onde as Sombras se deitavam.

— Não faça nada, Owl…

— Owl… Owl?

— Siga meu conselho. Não faça nada, minha corujinha. Estou segurando sua mão. Sinta-a. Estou contigo. Sempre e sempre. Não se assuste. Não se exalte. Não reaja. Você vai embora ao final do mês, mas eu ficarei aqui. Não se preocupe. Posso aguentar por nós dois.

O quarto continuava escuro e gelado, mas uma luz apareceu através da porta. Estava começando.

OoO

Ele não sabia o que estava acontecendo, apenas seguiu o conselho de Oliver e permaneceu quieto todo o tempo. Foram coisas estranhas o que o tio-avô dele fez, coisas perturbadoras. Ollie ensinou Owl a se trancar dentro da própria mente, a criar um mundo azul e branco e azul e branco e azul e branco e azulebranco e azulbranco e azul azul branco branco apenas dele, um mundo onde ele era o deus e nada poderia dar errado.

Owl fez assim. Em seu mundo, ele era deus. O céu tinha o formato da cúpula da recepção do hotel e era azul e brilhante sempre. O sol nunca se punha, mas as estrelas eram grandes e visíveis. A grama era verde como esmeralda e não existiam formigas, ele podia deitar-se à vontade e sentir seu cheiro inebriante. E as árvores davam frutos do tamanho de bolas de futebol; quando Owl os mordia, havia chocolate dentro.

Dor não existia. Apenas alegria.

A crucial diferença entre Owl e Oliver é que Owl conseguiu voltar daquele mundo. Oliver nunca conseguiu totalmente. Às vezes, desligava-se no meio de uma conversa, voltando-se para si mesmo, e ninguém conseguia fazê-lo acordar. Owl então percebeu que era o Terrível que estava causando aquilo e começou a se recusar a continuar com o que ele queria. Então aconteceu o pior.

OoO

— Owl… Owl. Owl, Owl… — choramingou. Ollie estava deitado a sua frente, com os olhos vagos a olhar nada. Seus lábios estavam entreabertos e um fino fio de saliva escorria por eles. Ambos estavam nus; Owl sentia dor.

Oliver estava quieto há minutos que pareciam horas. Owl o sacudiu, mas ele não se moveu. De repente, ele aspirou todo o ar que conseguiu, como se estivesse há muito tempo sem respirar. Piscou uma vez e sorriu.

— Owl, Owl, Owl! — Owl quase gritou, amedrontado. Pensava que ele havia morrido.

— Desculpa por ter demorado tanto — sussurrou. — Estava tão bom lá que não quis lutar contra a maré que me puxava de volta para cá. Mas às vezes, os ventos da tempestade sopram tão fortes que um homem tem que guardar as velas.

Owl não sabia o que aquilo significava, estava mais preocupado com o filete de sangue seco grudado na pele de sua coxa. Ollie olhou para aquilo com desinteresse.

— Vai curar. É um hematoma, todo hematoma é uma lição. É só sangue e carne. É só a gente. É só do que somos feitos. Não é o que somos. Sabe o que somos? — Apontou para a própria testa. — Nossa mente, nossa alma, é isso que somos. E isso, ninguém pode machucar. Ninguém pode tirar de nós. E se morrermos, morremos. Todo mundo deve morrer. Mas primeiro vivemos.

Ele parecia tão bem dizendo aquelas coisas com aquele sorriso de anjo. Mas então tudo aquilo desmoronou e a criança que Oliver realmente era surgiu. Ele começou a chorar e a se contorcer de dor.

— Dói tanto. — Apertou o lençol entre os dedos, fungando. — Tudo isso dói tanto, meu corpo, minha alma dói, isso não está certo. Por favor, Owl, por favor, faça com que pare… faça com que pare de doer. — Seus dentes tiritaram. — N-Não me machuque… por favor, serei um bom garoto, não vou contar a ninguém, só não me machuque… mais…

Frio, duro e miserável, é assim que o mundo é, e é assim que são os homens que o percorrem. Naquela noite, naquele quarto gelado, Rhanys Olrwen abraçou Oliver Castanelli com tanta força que pode sentir seus corações batendo simultaneamente, sua respiração ofegante e as lágrimas quentes que caíam por seus olhos e escorriam pela pele do pescoço de Owl, deixando para trás um rastro de agonia. As unhas de Ollie estavam compridas, elas arranharam as costas do menino que o agarrava.

Owl deu-lhe muito mais que um abraço. Deu-lhe misericórdia.

OoO

— Tem que se lembrar de não contar a ninguém, Owl. — Oliver disse no dia em que Owl iria embora. Ele estava estranho, ansioso e desesperado. — Tem que se lembrar, você tem que se lembrar. Sirva-o, obedeça-o, lembre-se de quem você é e nenhum mal lhe acontecerá. — Não parecia estar falando com Owl, mas sim com outra pessoa, uma pessoa invisível ou que simplesmente não estava ali. — Você sabe que eu nunca vou sair do seu lado, pois uma sombra não existe na escuridão. Você é a luz e eu sou a sombra, minha querida corujinha. Eu te amo. Muito. — Deu-lhe um beijinho na bochecha e desapareceu entre corredores.

Aquela fora a última vez que Owl vira Oliver.

OoO

Owl foi embora de Piazzavuota com a mente em frangalhos, sem saber o que fazer, nem se deveria fazer. Tentava não pensar muito nele, mas, às vezes, as memórias vinham sem serem convidadas, então era difícil segurar as lágrimas. Sonhava com Oliver Castanelli, com os olhos azuis bonitos e mudos que pediam ajuda desesperadamente enquanto seu corpo era conspurcado e machucado. Owl ainda se lembrava dos sons, das sensações. Às vezes, quando tomava banho, esfregava a pele até ficar em carne viva, escutando o Terrível gemer seu nome.

Rhanys. Rhanys. Rhanys

Mas então Owl percebeu que lembrava-se apenas das coisas ruins e rejeitava as coisas boas. Oliver ensinou-o a ler e escrever. Ensinou-o a não ter medo de se machucar. Ensinou-o que seu corpo era apenas uma casca, e por mais que tentassem, ninguém jamais poderia machucar sua alma. Oliver deu-lhe o amor explícito que jamais recebera de seu pai, lhe abraçou antes de dormir, segurou sua mão quando esta falhou ao tentar escrever uma frase. Oliver o entendia, o escutava. Às vezes, falava.

Toda noite, antes de dormir, Owl enumerava as coisas boas. Desde que essas coisas permanecessem, Oliver permaneceria. Ele não estava morto, apenas machucado. E Owl não estava morto também. Ele era seu mártir. Seu herói.

Mas uma voz monstruosa em seu interior por vezes sussurrava-lhe: na vida, não existem heróis. Os monstros vencem.

OoO

Foi quando voltou a Middleland que passou a rejeitar toques e a odiar seu nome. Por mais que tentasse se lembrar apenas das coisas boas, as pessoas faziam-lhe o favor de lembrar as ruins. Cada vez que tocavam sua pele, cada vez que pronunciavam seu nome.

Os anos se passaram, e os demônios de Owl não se foram.

Demorou um pouco para começarem a chamar-lhe simplesmente de Owl e se acostumarem com o fato de não poderem tocá-lo. London e Ritchi logo se destituíram desse costume, mas os outros se esqueciam. Owl tremia ao sentir uma mão em seu ombro, pensando que se olhasse para trás, encontraria o Terrível.

Se olhar para trás, estou perdido. Se olhar para trás, estou perdido.

Foram tempos terríveis. Os garotos da Escola Minerva começaram a tocar-lhe repentinamente de propósito para irritá-lo. Às vezes, faziam isso todos ao mesmo tempo. Toda aquela possessividade rídica trazia a lembrança mais repulsiva de volta. Owl não tinha escolha senão colocar tudo pra fora, ou explodiria.

Obliterou pela primeira vez com oito anos. Foi como se tivesse sido empurrado para dentro de uma vala que daria naquele mundo azul e branco que há muito criara, aquele mundo ciumento e possessivo, atraente e perfeito que roubara Oliver de Owl. Então chorou e berrou, agarrando-se às bordas da vala.

Oliver, Ollie, Ollie, volte, por favor, eu te amo também, agora sei disso, Ollie, me tire daqui, volte para mim, Ollie…

Beijos e palavras carinhosas podiam trazê-lo de volta, mas não cobrir o rombo que havia dentro de si.

OoO

Com doze anos, Owl ganhou sua primeira faca. Era pequena e sem serra, e não fora um presente. Achara-a jogada debaixo da mesinha de centro da sala, enquanto procurava seus sapatos que, por algum motivo, insistiam em desaparecer sempre que precisava deles. Os sapatos também estavam lá.

Estava tão apressado para sair que a guardou dentro de uma gaveta de seu quarto, prometendo a si mesmo devolvê-la à cozinha depois.

Mas a memória da coruja nunca fora das melhores. Alguns dias passaram até ele se lembrar do objeto guardado na gaveta e da promessa de devolvê-lo ao lugar de origem. Quando o pegou, notou que havia uma minúscula coruja de cristal incrustada na lâmina. Sorriu. Owl já estava acostumado com todos se referindo a ele como uma coruja, e achava aquilo adorável, tanto que decidiu esquecer-se de devolvê-la por mais alguns dias.

Seu apreço pelo objeto cresceu quando comprou uma faca um pouco maior, com serra, também com uma coruja na lâmina, bem no supermercado mais perto de Jardim de Ouro, aquele com um grande outdoor branco de fachada que prometia o cobrimento de todas as ofertas da concorrência.

Olenna acabou por descobrir sua coleção quando enfrentou os amontoados de tralhas que seu querido neto insistia em guardar. Owl sabia que aquele dia chegaria, e orgulhosamente apresentou a ela sua compilação de trinta e oito facas mortíferas como navalhas, sem conseguir conter a alegria de finalmente mostrá-la a alguém.

É claro que ela tentou tirar-lhe a coleção, mas, àquela altura, Melchior já havia chegado ao Jardim.

OoO

— Olá, você que é o Owl?

— Owl.

— London me falou de você. É verdade que você só sabe falar seu nome?

— Owl.

— Interessante. Você parece muito com alguém que eu já conheci, mas deixa pra lá. Por que está triste?

— Owl…

Owl estava sentado no meio-fio da rua, cabisbaixo, com as pernas estiradas. O cabelo louro-prateado caía por seu rosto redondo. Quando o colocou atrás da orelha para fitar aquele garoto que falava consigo, tomou um susto.

Púrpuras, os olhos dele eram púrpuras. E não parecia suar mesmo enfiado naquele sobretudo, embora Owl não pudesse falar nada. Ele também usava seu casaco.

— Meu nome é Melon, mas me chame de Melchior. — Ele pareceu pensar um pouco sobre o quão estúpida aquela sentença fora, balançou a cabeça e voltou a sorrir. — Está assim por causa das facas? Não fique. Adultos costumam ser idiotas. É claro que você tem idade o suficiente para manuseá-las. Quantos anos, doze?

Owl assentiu.

— Eu também tenho. Se as suas facas são tão valiosas assim, seus pais certamente não as jogaram fora. Devem tê-las guardado. Você só precisa convencê-lo a devolverem-nas para você.

— Owl… Owl?

Melchior sorriu.

— Owl, você sabe o que é inanição?

OoO

Durante o resto do mês, Owl recusou-se a comer. Recusou-se a sair da cama. Passava o tempo inteiro dormindo e chorando lágrimas falsas, murmurando seus Owls para o nada. Quando alguém tentava falar com ele, tremia e se retraía em posição fetal, gemendo.

De noite, quando todos dormiam, Owl esgueirava-se para a cozinha e enchia o estômago. Durante dezoito dias, emagreceu alguns quilos, mas e daí? Melchior disse que seus pais eventualmente devolver-lhe-iam as facas.

Ele estava certo. Pouco antes de fazer treze anos, Owl recebeu sua coleção de volta, aos gritinhos de felicidade. Agradeceu a Melchior pela sugestão; ele apenas sorriu-lhe amigavelmente, dizendo que estava feliz.

No seu aniversário, cada um de seus amigos (isso se resume a London, Ritchi e Melchior) presenteou-lhe com uma faca cada. Nos aniversários deles, Owl deu-lhes uma faca sua de presente, como agradecimento. Quando fez catorze anos, recebeu-as de volta, como agradecimento ao agradecimento. Foi maravilhoso.

OoO

Mas às vezes, durante a noite, Owl pegava aquela faquinha menor, a primeira, e a deslizava sobre seus braços, sentindo o aço gelado perfeitamente polido. A lâmina raspava sua pele sem cortá-la, mas retalhava os pelos loiros. Vez ou outra, uma gota de água transparente caía sobre ela. Owl sempre sentia cócegas no rosto quando isso acontecia.

Longe dali, coisas Terríveis aconteciam numa cidade chamada Castellobranco, enquanto Owl apunhalava seu travesseiro na segurança de seu quarto, imaginando que era o coração do Terrível. Ele não foi furado, é claro. A faca não tinha serra.

Mas uma voz sussurrou em seu ouvido: uma faca para si, uma faca para detê-lo. Uma faca para guardá-lo, e dos perigos protegê-lo.

OoO

Você deve estar se perguntando por qual motivo Melchior ajudaria um garoto que não conhecia a recuperar sua coleção de facas. É claro que ele jamais faria isso sem haver ganho pessoal por trás, não é mesmo?

Você sabia que Oliver conheceu Melon Chioren dois anos após ter conhecido Owl? Todos tiveram um pedaço dele dentro de si. É inexplicável como uma pessoa pode mudar tantos destinos, criar tantas pessoas, sem intenção. Se Melon não o tivesse conhecido, Melchior não existiria, não teria posto fogo propositalmente naquele armazém sabendo que Ritchi seria acusado, nem culpado Nottie para salvá-lo para que gostasse dele, porque estava com ciúmes, pois sabia que Ritchi gostava de London. Então London nunca poderia se sentir vingado pela morte de Atena Gramp, e se não se sentisse vingado, teria desenvolvido depressão.

Melchior equilibrou as coisas para seus amigos do Jardim. Por causa dele, Ritchi nunca se envolvia em problemas sérios e London não exagerava na exclusão social. O mestre dos segredos era mais poderoso do que qualquer um imaginava, mas se ele era a balança, Oliver fora o suporte.

Melchior ajudou Owl a recuperar suas facas porque, com uma mente ainda imatura, imaginava que seria mais fácil culparem um autista colecionador de facas por uma tragédia como aquele incêndio a ele, com seu cabelo cinza e olhos roxos, recém-chegado ao Jardim, tão inocente e livre de grilhões quanto possível.

Frio, cruel, calculista, é assim que Melchior é, se completamente despido do garoto adorável e amoroso que Melon é, como a antropomorfização do yin e do yang. Culpo-me um pouco por isso. Mas ele ainda é uma das minhas pessoas favoritas.

OoO

Eu adoro o ano-novo, mas Owl não gosta. Vou explicar por quê.

Foi nos primeiros minutos do novo ano de 2013.

Estava escuro como o breu, mesmo após o céu ter sido iluminado por fogos de artifício das cores que lembravam constelações, acendendo as ruas como se tivessem sido feitas pelo próprio Deus. Owl ficara no telhado de casa para observar os fogos, maravilhado com as luzinhas que explodiam rente a seus olhos, como os pecados passados dos humanos.

Enquanto caminhava pelas ruas escuras, Owl respirava os ares renovados, as promessas feitas, as esperanças inundantes, a felicidade que, mesmo momentânea, contagiava. Estava feliz, como todos se sentiam após a virada. Andava despreocupadamente. As famílias já haviam voltado às suas casas após o espetáculo no céu, estava sozinho.

Gostava de caminhar sozinho, mesmo sendo perigoso. Esperava que não estivesse acontecendo nada a Oliver, que ele estivesse bem. Pelos seus cálculos, ele devia estar com dezessete anos, não era mais uma criança. Podia se defender, claro que podia. E Owl também.

Até aquela noite, é claro.

OoO

— Owl, ei, Owl!

Owl virou-se. Por algum motivo, se arrepiou, mesmo que não estivesse fazendo frio e ele estivesse usando o casaco. Ritchi havia brigado com aquele Sttan Molihnar na semana anterior, ele quebrara seu dedo mindinho da mão esquerda. Podia ver isso pelo gesso.

Mas aquilo havia acontecido no ano anterior, o ano-novo destrancava o grilhão dos pecadores, não é mesmo? Certo, mas a maioria das pessoas não concordava. Oliver concordaria, onde quer que estivesse. Owl sentia ciúmes das pessoas de quem poderia estar sendo amigo, mas isso já era outra história.

— Owl — cumprimentou-o.

— Você está bem? — indagou, os olhos rubros brilhando. Owl percebeu que ele estava bêbado. Tudo bem. Ritchi também devia estar. A maioria dos pais deixavam os filhos beberem champanhe naquela época.

— Owl — respondeu.

— Vem comigo ao prédio queimado, to indo pra lá.

Owl levantou uma sobrancelha. Lembrava-se vagamente daquele inóspito lugar quando ainda era habitável. London costumava brincar com um garoto chamado Atena Gramp, que tinha olhos vermelhos e era obcecado por pentagramas. Mas Atena morrera. Agora era London quem era assim.

Admirava-se que ninguém nunca houvesse percebido que seus pais escolheram aquele nome porque era um anagrama para pentagrama. Provavelmente nem o próprio Atena.

— Owl… — murmurou, sem querer ir, mas também sem querer ser indelicado.

— Vamos lá, Owl. Ouvi dizer que haverá outra salva de fogos. Você não quer ver? Daria pra ver melhor no prédio.

— Owl… Owl. — Suspirou. — Owl.

Sttan abriu um sorriso.

— Vamos.

Andaram em silêncio por algumas centenas de metros até os pés de Owl começarem a doer. O prédio queimado ficava do outro lado do condomínio, só se dera conta disso após começar a andar. Quando finalmente chegaram, estava ofegante.

Nona tábua da esquerda para a direita, assim como todos sabiam, mas poucos experimentavam. Melchior uma vez lhe dissera que Sttan trazia os calouros da fraternidade dele ali e os torturava física e mentalmente. Era horrendo. Por algum motivo, sentiu medo, mas logo deixou aquilo para trás.

Atravessaram o térreo imundo de poeira e destroços e subiram as escadas escuras e quebradiças silenciosamente. Os degraus rangiam a cada passo que Sttan ou Owl davam, num resmungo macabro de arrepiar.

Quarto andar, o mais alto, aquele com uma janela natural que ia do chão até o teto. Uma queda de lá mataria qualquer um. Estava muito escuro.

Quando os olhos de Owl se acostumaram à escuridão, ficou cego.

Levou um segundo para perceber que alguém havia posto um saco em sua cabeça e o fechado com uma corda. Owl gritou, tentando tirá-lo, mas estava apertado. O ar fez falta; foi quando parou de gritar que suas mãos foram atadas umas nas outras. O saco foi afrouxado. Owl foi jogado num canto, batendo a cabeça na parede, uma dor cegante trouxe lágrimas a seus olhos. Poeira entrava em sua boca, fazendo-o tossir. Estava sem conseguir respirar.

Voltou a gritar quando percebeu alguém arrancando seus shorts a força.

O Terrível. Não, não isso de novo. Não!

Alguém pôs os joelhos nas suas coxas e prendeu seus pulsos contra o chão com as mãos. O saco foi arrancado. Owl aspirou todo o ar que conseguiu, o que não foi muito. Seu fôlego sempre fora curto. Sttan estava em cima dele, com um brilho estranho nos olhos que Owl vira apenas algumas vezes, num sonho tenebroso oriundo de seus sete anos, um sonho de quartos gelados e gêmeos etéreos. Um brilho faminto e selvagem.

Não.

— Sempre quis você, sabia, Owl? — Owl não reagiu até que percebeu que ele segurava seus pulsos, o tocava. Gritou, tentando se soltar. Em troca, ganhou um tapa no rosto. — Quieto, não tive o trabalho de te trazer até aqui por nada.

Não.

Deu um puxão em seu joelho direito e acertou com toda a força entre as pernas de Sttan, que caiu para o lado gritando de dor.

— Seu… filho da puta! — ele urrou, fazendo força para não chorar.

Owl se levantou do chão, apanhou seus shorts e correu para as escadas, sem pensar, sem parar. Ele já era crescido, aquilo não devia acontecer com ele novamente, não tinha como. Será que podia acontecer com Oliver? Será que o Terrível ainda podia estar acontecendo com ele? Será?

Não.

Quando chegou ao terceiro andar, chocou-se com alguém.

— Ahh, sua… corujinha maldita — disse agarrando-o.

Owl já o vira antes, era o tio de Melchior. Parecia muito com ele, mas isso terminava na aparência. Melchior era uma pessoa ótima e Lance não. Ele que dissera isso, ele sempre dizia a verdade. Debateu-se, mas Lance era mais forte que Sttan. Pegou Owl pela cintura como um boneco e o arrastou de volta para cima, jogando-o no chão. Pressionou seu rosto no chão com o tênis, chutando suas costelas.

Owl se remexeu de dor, chorando.

— Já viu o tamanho dele? Ele bate na sua cintura e você nem consegue segurá-lo — Lance disse para Sttan, irritado. Ele também estava bêbado. Owl sentiu medo verdadeiro pela primeira vez em vários anos.

Não.

— Cale a boca e tire o resto das roupas dele.

— Owl! — gritou ao sentir Lance em cima dele. Tentou se debater de novo, mas era impossível. Logo, estava só de cueca, arranhado e machucado, sendo pressionado pelo corpo maior que o olhava com desejo.

— Ouvi dizer que você coleciona facas — Lance sussurrou. Havia um brilho animal em seus olhos, como algo primitivo há muito esquecido. — Que pena que não trouxe nenhuma. Podíamos tornar isso mais interessante.

Owl não via quem falava, via apenas seus olhos, púrpuras e assustadores. Eram olhos terríveis, olhos de Terrível. Sentia frio, o inverno chegara cravando seus finos dentes afiados em cada poro de sua pele. Tombou a cabeça para trás e desmaiou.

Desmaiar é uma palavra inapropriada. Na verdade, sonhou.

Estava em seu mundo azul e branco, mas ele estava se deteriorando. O céu estava caindo, a grama havia secado, as árvores foram cortadas e em seus secos frutos só havia pó. Aquele cheio primaveril fora substituído por cinzas e lágrimas. O que fizera? Abandonara seu mundo para viver num outro muito pior. Nunca devia ter voltado. Devia ter ficado lá, como Oliver ficou.

Owl andou alguns metros pelo terreno morto, mas pareceram quilômetros. De repente, duas colinas ergueram-se do chão lado a lado, criando uma vala entre elas. Owl adentrou pela abertura, sentindo as Sombras lhe envolverem. A passagem por trás de si se fechou.

No breu total, uma luz azul acendeu no céu, iluminando algo no chão preto. Era uma pequena estátua de coruja; quando Owl a pegou, esta se dissolveu em milhares de corujinhas vivas que voaram para o céu escuro.

Voltem, voltem! O que estão fazendo? O céu está morto, assim como eu.

Owl olhou para trás e viu Oliver. Ele estava sentado no chão, fitando-o profundamente. Parecia bastante entediado. Provavelmente esperara bastante.

— Owl! — Se aproximando dele, tentou abraçá-lo, mas descobriu que era intocável. Suas mãos atravessavam seu corpo como se fosse um fantasma. — Owl? — murmurou, triste.

— Volte — ele sussurrou.

— Owl… Owl, Owl.

— Não importa se quer ficar, não pode, esse mundo está morto. O mundo real é seu mundo, Owl. Tem que voltar. Não faça como eu. Não se mate por fora e viva por dentro, como eu fiz. Isso não é certo.

Não.

— Não diga não para mim. Sou mais velho que você, você tem que me obedecer. É para seu bem.

Owl sentiu-se tentado a chorar, mas não quis. Só então percebeu que Oliver não era uma criança, ele estava grande.

— Owl — disse Owl.

— Owl — concordou Oliver. — Vá.

Seu corpo desmoronou e todo o preto em volta também. Owl foi sugado para fora de seu Mundo, pedacinho por pedacinho, até ser jogado de volta ao real com violência. Não lembrou o quanto aquilo doía.

Sentiu a pior dor de sua vida. Seu corpo estava jogado no chão como um saco de batatas. Estava nu, havia sangue em suas coxas, mas não importava. Era só carne. Sua alma estava segura e intacta. Não viu Lance, mas Sttan estava deitado ao seu lado, também nu, ofegando. Ele parecia muito feliz.

Deslizou lentamente os dedos pelas costas de Owl.

— Acha que pensamos em parar quando você desmaiou? — Riu. — Você é mais gostoso do que parece, não parece que foi sua primeira vez. — A expressão de Owl era de pedra. — Vimos o irmão do Ritchi vagando por aí mais cedo. Devia estar perdido. Lance foi tentar achá-lo. Ele tem dezessete anos, não pode continuar virgem, certo? Acha que aguenta ele, Owl?

Nem uma palavra. Sttan se escorregou de volta para cima de Owl.

— Fique quietinho — sussurrou em sua orelha, passando-lhe a língua viscosamente. — Farei de novo enquanto eles não chegam. Vê se fica acordado.

Não.

Owl desmaiou de novo, mas dessa vez foi proposital. Entretanto, não voltou ao seu Mundo. Ele não existia mais, se fora com Oliver. Sim, Oliver estava morto. Se não estava, como Owl poderia tê-lo visto crescido? Não com dezoito anos… talvez uns catorze.

Você está morto há tanto tempo assim?

Ficou numa espécie de limbo por infinitas eternidades, onde as Sombras e a Luz se envolviam pacificamente e o acolhiam como amigo, pois uma não existia sem a outra. O tempo não havia ou recusava-se a haver, assim como Owl gostaria. Ele ainda era o deus dali, afinal. Como num sonho. Talvez tudo não passasse de um sonho de uma mente doente presa num corpo maculado.

Quando acordou, a dor veio como uma velha amiga. Terry Revonne estava do outro lado do salão, ou Owl pensava que estava. A aurora já dava indícios de nascer, mas ainda estava escuro.

— Não pode contar a ninguém, Owl — Lance disse, vestindo as roupas do réveillon. Era dia primeiro de janeiro, o dia onde os grilhões dos pecadores já podiam ser atados novamente. — Tem que se lembrar de não contar a ninguém. — Owl se arrepiou. Tem que se lembrar, você tem que se lembrar. Sirva-o, obedeça-o, lembre-se de quem você é e nenhum mal lhe acontecerá.

Lance o ameaçou também, mas Owl não ouviu. Estava muito ocupado sendo uma simples, inocente e adorável coruja, que servia, obedecia, não contaria nada a ninguém e que sabia quem era.

Sim.

OoO

O tapete daquela sala era lindo. Vermelho e dourado como um leão Hentz, desenhado com grossas linhas pretas. Owl passeava os dedos pelas linhas despreocupadamente, num passatempo divertido, embora a digital de seu dedo indicador estivesse quase apagada e ardesse como o inferno àquela altura.

Um lustre dourado iluminava o cubículo. As paredes eram vermelhas com os cantos trabalhados em dourado. Havia duas poltronas pretas paralelas e um sofá bege num canto. A porta estava entreaberta.

Não havia ninguém lá, mas havia no resto da casa. Owl estava na casa de Ethan Lemnsack, na festa de seu irmão, Nicholas Hentz. Uma música eletrônica ecoava por todas as frestas da mansão. Owl estava com as roupas de sempre e seu inseparável casaco branco. O ar estava agradável e o casaco lhe esquentava gostosamente, embora não estivesse frio.

A faca que escondia nele espetava levemente sua pele. Desde o ano-novo, sempre andava com uma. No momento, era aquela de cabo branco em formato de osso, aquela faca que tinha uma gêmea bem guardada na caixa de veludo azul.

Estava tendo alguns bons momentos sozinho, era do que precisava.

London surgiu na sala com um copo cheio de algo transparente. Estava totalmente de preto, exceto por aquele pentagrama na camisa. Sentou-se na poltrona.

— O que está achando da festa? — indagou a Owl.

— Owl.

— Também acho que está terrivelmente chata. É melhor ficar sozinho. Você me entende, não é, Owl?

Owl assentiu. London bebericou a bebida, fazendo uma careta depois.

— Você sabia que Ritchi e Melchior terminaram? Aliás, você sabia que eles estavam juntos?

Assentiu de novo. Melchior comentara aquilo uma vez.

— Owl… Owl. Owl?

— Nicholas Hentz me disse, ele espalhou para a mansão inteira. Não conte a Melchior… quer dizer, você entendeu. Ele descobrirá por si só e já estará irritado o suficiente. Talvez tenhamos um homicídio ainda esse ano aqui no Jardim. Não seria divertido?

Deu de ombros, voltando a mexer nas linhas do tapete. Quando reergueu a vista, Melchior estava lá. Nem o vira entrar. Quanto tempo havia se passado mesmo?

— Você parece péssimo — London sussurrou da mesma forma que Melchior fazia. — Isso é péssimo. Owl, experimente. — Entregou-lhe o copo que segurava.

Owl pegou-o com curiosidade e o levou aos lábios. Deu um gole, surpreendendo-se ao ver como era forte…

— Owl. — … e entornou o resto de uma vez. Parecia álcool puro, mas Owl já passara por coisas mais fortes; o vidro moído descendo por sua garganta foi até agradável.

— Owl — agradeceu, voltando a fazer círculos no chão.

London e Melchior passaram a conversar sobre seus problemas pessoais que só diziam respeito a eles, por isso Owl estava curioso para saber por que diabos eles estavam gritando tanto.

— Você sabe o passado de todo mundo, mas ninguém sabe o seu. — Mentira. Melchior não sabia o passado de Owl, nem poderia saber. — Eu gostaria de saber. Como você se tornou isso que é hoje? Como Melchior nasceu? O que você era antes de se mudar para Jardim de Ouro? O que aconteceu no seu passado que você não quer que ninguém saiba, Melon Chioren?

Owl também queria saber, mas Melchior virou a cara.

— Você não quer dizer — London murmurou. — Mas tudo bem. Você tem sete irmãos e quatro primos. Perguntarei a algum deles.

— Eles nunca vão cantar pra você — Melchior rosnou. — A lealdade deles é minha. De todos os meus passarinhos.

— Acho que não é não, Melchior — retorquiu. — Se fosse, como eu saberia que brigou com Ritchi? Todo Jardim de Ouro sabe disso, e até quem não te conhece. Há alguém cantando. E se cantou isso, cantará um pouco mais.

Owl ficou calado. Nicholas, London dissera. Por que ele estava negando agora? Bem, não estava negando, apenas omitindo. Mas ele tinha razão. Nicholas falou uma vez, falaria de novo, se considerasse que ele descobriria mais coisas sobre Melchior.

— Owl — concordou Owl. Levantou-se do chão e, com cuidado para não pisar nas linhas do piso, saiu da sala, saltitando. No corredor, quase foi ao chão.

Lance Chioren estava lá, pelo visto passando pela intersecção. O corredor era em formato de T, onde a entrada era uma sutil abertura entre duas protuberâncias grandes na parede, o que explicava por que aquela salinha vermelha e dourada aparentava não ser usada há tempos. Ethan e Nicholas provavelmente nem sabiam que ela existia.

Lance o olhou como se nunca o tivesse visto antes, mas isso foi antes de notar que não havia ninguém por perto.

— Que bom encontrar você. — Lance sorriu, aproximando-se. Owl murmurou um Owl amedrontado. Memórias cruéis e pesadas voltaram de repente, guardadas numa caixinha no fundo do Mundo que um dia fora seu, mas que agora não mais. A tranca fora quebrada, agora seus demônios berravam em seus ouvidos.

Lance prensou Owl contra a parede, passando a língua na base de seu pescoço. Foi aí que gritou, se encolhendo no chão. A súbita agitação na salinha fez Lance soltá-lo. Melchior e London apareceram lá.

— O que está fazendo com Owl? — London indagou.

— O que está fazendo aqui? — Melchior gritou. Owl lembrava-se que ele não gostava de Lance.

— Ora, rapazes, eu é que pergunto isso. — Ele riu estupidamente. Owl tentou escapar do aperto pela esquerda, mas Lance cobriu a passagem. Voltou para onde estava, triste.

— Owl… — gemeu.

— Deixe-o ir, qual o seu problema? — Melchior parecia uma panela de pressão prestes a explodir. — Não vê que ele… — Owl não escutou o que ele disse. Lance passou a mão por seu cabelo, ele fizera exatamente aquilo no ano-novo…

Não! Ele não sabia! Ele não sabia de nada, não podia! Se ele não soubesse, nada aconteceria com ele, nada o machucaria. Se ele soubesse… Owl flagrou-se nos braços de Melchior. Ele lhe sussurrava com aquela voz suave.

— Shhh… Rhanys. — Sentia o rosto molhado. Devia ter chorado e gritado também. — Rhanys, pequena coruja. Acalme-se. Acalme-se. Sabe quem está aqui, com você? Melon. Seu amigo, Melon Chioren. Melchior. — Owl percebeu que ainda estava se lamentando. Obliterar era como se Owl se visse de outro ponto de vista, sem poder controlar seu corpo, como uma alma perdida no plano terreno. — Rhanys, eu to aqui com você, te abraçando, te protegendo. Ninguém mais vai te tocar, está bem? Eu prometo. Ele nunca mais vai te tocar. Rhanys. — Melchior limpou as lágrimas que escorriam por suas bochechas. Owl lentamente sentia-se voltando ao controle. — Rhanys. — Beijou-lhe as bochechas, a testa e, por último, a ponta de seu nariz. — Está tudo bem agora. Levante-se.

Melchior levantou-se, oferecendo a mão a Owl. Owl segurou-a, levantou-se, olhou para a mão que segurava a de Melchior, arregalou os olhos e afastou-se rápido.

— Owl — agradeceu. Limpou o casaco e saiu saltitando, feliz. — Owl, Owl, Owl, Owl, Owl, Owl

Tudo estava bem.

OoO

00h36min, vinte e três de fevereiro de 2013.

Alguns minutos mais tarde, Owl estava do lado de fora da mansão. Decidira voltar para casa, alguém poderia querer machucá-lo de novo. Estava escuro.

Nicholas chamava aquele rio de Garganta de Ouro, mas não fazia sentido. Não havia nada que fosse dourado, nem a água, nem o fundo do riacho, nem a cerca que barrava o acesso. Do outro lado do rio, uma outra cerca, e alguns metros adiante, uma cerca maior que pertencia ao condomínio e delimitava a floresta de Middleland. Havia um ponto falho por onde era possível passar, Owl sabia.

Desencostou-se da cerca do rio e viu Lance atrás de si, fechando os dedos em sua garganta. Owl tentou gritar, mas não conseguiu, estava sufocando. Lance tinha a boca suja de sangue, parecia estar lhe faltando um dente ou dois.

— Achou que tinha escapado de mim, seu merdinha? — Owl arranhou as mãos dele com as unhas, mas sempre as mantinha curtas. De repente, não tocava mais o chão, Lance o estava levantando. Sentia sua pele arroxeando, seu cérebro exigindo oxigênio.

Quando percebeu que o sentara em cima da cerca, sem afrouxar o aperto no pescoço, Owl não viu alternativa. Inclinou-se para trás, puxando-o consigo.

OoO

A água estava gelada como a pele de um morto. Lance esqueceu-se de parar de respirar e experimentou a desagradável sensação de sugar a água com o nariz. O riacho era tão raso que mal cobria os joelhos de Owl, mas encharcou-os mesmo assim; a terra mole do fundo o engoliu como um charco. Seu casaco escapulira, estava jogado bem ao seu lado.

Quando recobrou o controle da situação, Owl percebeu que derrubar os dois no rio só inflamou ainda mais a raiva de Lance. Ele pulou em cima dele, prendendo seus pulsos na terra, com os joelhos nas suas coxas. O rio era raso, mas Owl tinha que levantar a cabeça para poder respirar.

— Alguma hora, você vai se cansar — Lance sibilou, os olhos brilhando de ódio. — Seu pescoço vai se cansar e você vai submergir, sabe o que vai acontecer quando o ar acabar? Você vai respirar a água. Sabe como é a dor de morrer por afogamento?

Owl não sabia como era a dor, mas conhecia a de quem já fora estuprado duas vezes e também conhecia a raiva de quem não queria ser mais. Sorriu.

— Owl… — O sorriso malicioso de Lance morreu, o aperto nas mãos diminuiu. Owl lentamente tirou sua mão esquerda de baixo da de Lance e a colocou por trás de seu pescoço. Puxou-o para si devagar… e o beijou. O maior correspondeu, soltando seu outro pulso e coxas. Owl envolveu sua cintura com as pernas enquanto a mão direita procurava sua faca escondida no casaco.

Quando a encontrou (demorou muito, Lance já estava dentro dele a essa altura), separou-se novamente.

— Owl… — sussurrou. — Owl, Owl.

E fincou a lâmina nas costas de Lance.

Lance provavelmente pensou em gritar, mas a surpresa foi tanta que perdeu a voz. Caiu para o lado quando Owl deu a segunda facada, dando a terceira, a quarta, a quinta e a sexta também… Ele sempre gostara do número seis. Podia parar ali. Mas Lance ainda estava vivo.

Os punhos de Owl ergueram-se e desceram mais trinta vezes.

Um minuto mais tarde, quando a água do riacho tornou-se vermelha e quente, Owl começou a chorar. Chorou baixinho, sem lamúrias, como fazia para que ninguém percebesse. Uma alma triste e solitária num rio vermelho como uma veia humana no seio da terra.

Owl precisava… precisava despistar quem quer que visse o corpo ali, porque sabia que veriam, sabia que o culpariam. Ele tinha uma coleção de facas, pelo amor de Deus. Foi aleatório. A primeira coisa em que pensou foi no pentagrama de London. Serviria. Desenhou uma estrela de cinco pontas na pele mutilada antes de ficar satisfeito.

Levantou-se, pegou o casaco e a faca e arrastou-se para fora do riacho num local discreto, onde pegadas sanguinolentas não seriam vistas. Owl atravessou a parte falha da cerca e entrou na floresta.

OoO

Menos de um minuto depois, London passou por ali. Ele ainda estava furioso demais com Lance Chioren para notar qualquer coisa a sua volta, de modo que o Garganta de Ouro passou por ele com não mais importância que uma folha de grama qualquer da Campina. Depois vieram Melchior, Marco, Nick e Lorenzo e a história que todos conhecemos se desenrolou.

OoO

Quanto a Owl, este ficou na floresta por algumas boas horas, friorento e amedrontado, atormentado pelas Sombras que a sua volta moravam. Limpou o sangue de suas roupas com as largas folhas de pinheiros que encontrou, assim como a lâmina da faca, mas esta continuou suja. Mas ninguém a veria. Ele nunca deixava ninguém ver suas facas.

Sentou-se num tronco caído e abraçou seus joelhos, voltando a chorar baixinho. Seus demônios berravam por todo lado.

Antes de o dia raiar, Owl contornou a cerca e saiu por outra falha mais perto de sua casa. Acabou saindo por trás da casa dos Lorentz, aquela família rica que tinha ramos na criminalidade e um gosto considerável pela cor verde escura. Atravessou a Avenida Coruja Dourada e procurou as chaves de casa no casaco, percebendo que elas desapareceram.

Sem ter outra escolha, Owl apertou o interfone.

— Ham, quem é?

— Owl.

A porta se abriu. Owl atravessou o pátio e entrou em casa, dando de cara com Olenna Olrwen.

— Onde você estev… — ela estava irritada e passara a noite acordada, Owl conhecia sua avó bem demais para não ter certeza de que fizera isso. Olenna interrompeu-se quando viu o estado de seu neto. Com as pernas sujas de lama até os joelhos e o casaco manchado de vermelho, ainda segurava uma faca.

Olenna não fez perguntas até descobrir, poucas horas mais tarde, que Lance Chioren havia morrido. Ela não conversou com Owl, não perguntou-lhe nada, apenas gentilmente pediu o casaco para que pudesse lavá-lo. Àquela altura, Owl já havia tirado o sangue restante da faca.

Você pode pensar que Olenna Olrwen jamais descobrira sobre o estupro, e está certo, em partes. O que ela sabia é que Lance Chioren curiosamente aterrorizava seu neto. Sabia que ele havia estado na festa. Sabia que o pescoço de Owl estava roxo, que a faca estava manchada de sangue, que Lance havia sido esfaqueado. Se Owl fosse acusado como assassino, ninguém jamais acreditaria em defesa pessoal. Provavelmente achariam que, por ele ser autista, enlouquecera. Uma baboseira.

Por essas e outras razões que quando aquele enxerido do Melon Chioren sutilmente perguntou a Olenna como Owl chegou da festa, ela mentiu dizendo que ele estava impecável, como não podia deixar de ser. Mas isso foi depois do ataque a Lorenzo.

OoO

Quando Owl encontrou Melchior naquele sábado, apenas algumas horas depois de matar seu tio, surpreendeu-se ao ver como ele estava feliz. Owl gostava de Melchior, queria agradá-lo. E ninguém o pegara. Se não por causa de Lance, por que por causa de alguém mais?

Essa logística não faz sentido, mas consideremos que Owl é autista. A mente dele não funciona da mesma forma que a das pessoas normais.

Apesar da abalada alegria de Melchior, havia algo que o entristecia. Ritchi.

Eles haviam terminado, mas esse não era o caso. Era o fato de que todo mundo sabia disso. Todo mundo sabia disso porque Nicholas Hentz havia contado. Então ele devia pagar.

OoO

23h36min, vinte e três de janeiro.

Owl não sabia exatamente o que ia fazer, só sabia que ia.

Andando pelas ruas escuras do Jardim, divertia-o pensar que todos tinham medo de sair à noite pela possibilidade de o assassino de Lance estar dentro do condomínio. Owl não precisava ter esse medo. Era ele. Ele era a coruja que vagava à noite e assombrava as ruas do Jardim de Ouro.

Sabia que o muro da mansão e era eletrificado, então Owl nada mais podia fazer se não sair pela falha da cerca da frente de sua casa e entrar novamente pela falha de dentro da mansão. Levou muito tempo para fazer isso; quando chegou, já estava exausto e novamente sujo de terra. E ainda teve que atravessar o riacho.

Mas foi quando se aproximou da mansão que Owl olhou para a Campina. Uma forma infimamente pequena estava lá, de pijamas e sentado em baixo de um grande carvalho. Era Lorenzo. Owl sorriu. Ele era cego, mesmo se escapasse com vida, não poderia contar a ninguém que fora ele, certo? Certo.

Owl tirou os sapatos e passou a caminhar de meias no asfalto gelado da noite. Cada passo seu praticamente não existia, de tão silenciosos. As Sombras tomavam-lhe de todos os lados, mas Owl se recusou a deixar-se atormentar. Era mais forte que elas. Era um Olrwen, uma coruja.

Deu a volta pelas árvores, escondendo-se sorrateiramente por trás de uma. Foi aí que Lorenzo se levantou, provavelmente querendo voltar para casa. Owl não podia perder a oportunidade. Se o machucasse, machucaria Nicholas; dava tudo na mesma.

Owl deu um passo, então dois, mais um terceiro e quando estava a um metro de Lorenzo Barcarolli, deslizou a ponta da lâmina da faca com o cabo de osso branco desde a base até o meio das costas do corpo do menino. Foi nesse momento em que um altíssimo alarme soou, no mesmo momento em que ele gritou. Owl deixou escapulir um Owl assustado. Lorenzo se encolheu no chão, foi isso a última coisa que a coruja viu antes de correr da Campina de volta para o riacho e do riacho para cerca e da cerca para a floresta e da floresta para o outro lado da cerca e do outro lado da cerca para casa e de casa para a cama.

Seu coração palpitava. Falhara. Owl falhara.

OoO

Olenna Olrwen decidiu mandar Rhanys para um acampamento de férias quando soube do ataque a Lorenzo. Aquilo já era demais, mas ela ainda não tinha tanta certeza assim de que era ele. Precisava de uma prova. Com ele longe, se os ataques continuassem, isso provaria sua inocência. Rhanys era tão silencioso, não parecia que jamais teria coragem de matar ninguém, então é claro que nem por um segundo Olenna acreditou realmente que ele fosse inocente.

A verdade é que, antes de mandar Rhanys embora, ela vira Sttan Molihnar roubando a caixa de veludo azul. Sabia que a faca de cabo de osso branco estava lá. Fora uma estúpida por não ter se livrado daquela coisa mais cedo, quando deveria. Logo a polícia farejaria os Olrwen e fariam testes nas facas de seu neto. Quanto mais cedo aquela coisa estivesse longe de si, melhor.

Ela gostava de Ritchi Revonne por algum motivo que nunca descobrira, de modo que realmente apreciou sua boa vontade em devolver os pertences da caixa, mesmo que com algumas facas faltando. Originalmente, havia duas facas de cabo de osso branco. Ele trouxera apenas uma. Ora, como diabos ela saberia qual havia sido a arma do crime? Se fosse a que Molihnar jogara naquele caminhão de lixo, melhor para ela, mas não poderia arriscar.

OoO

— Enquanto arrumo uma desculpa para a bagunça, se livre das facas para mim, sim, querido? Faça-me esse último favor. — E aproveitara para estraçalhar a porcelana de Odette contra a parede. Ela tivera a audácia de crer que havia sequer a mínima possibilidade de Rhanys ter feito aquilo. Audácia, audácia!

OoO

No dia cinco de março, pouco antes de chegar a hora de Owl ir embora, ele chegara em casa ensanguentado de novo. Na mesma manhã, Sttan Molihnar apareceu morto.

OoO

05h36min, cinco de março.

Owl gostava das caminhadas matinais. Eram frescas e nunca tinha ninguém nas ruas, poderia apreciar a beleza das casas e o cheiro da grama recém-cortada molhada sem medo. Ele era a Coruja que assombrava o Jardim.

Quando chegou à rua do prédio queimado da antiga família Gramp, apertou o passo. Não queria que o Terrível acontecesse de novo. Sttan ainda estava vivo.

Foi ele que viu saindo da cerca naquele dia. Parecia ter perdido alguns dentes.

— Não aprendeu nada com o ano-novo? — Sttan indagou cinicamente. Owl se retraiu, afastando-se. — Não me obrigue a correr atrás de você. Ande. Venha cá.

— Owl… — murmurou. Owl estava com outra faca. Sua avó disse que uma faca desaparecera da caixa de veludo azul, então ela jogara-a inteira fora. Era a coisa certa a se fazer. — Owl, Owl — falou como quem diz por favor.

Sttan levantou o queixo e deu um passo para a frente.

Venha.

Sem ter outra escolha, ele foi.

No quarto andar, sem tirar as roupas, Sttan começou a massagear seu membro por cima da cueca.

— Vem cá, Owl. Se você for bonzinho, prometo não te machucar hoje.

Owl tentou resistir, tentou ficar parado enquanto Sttan o lambia e passava a mão em todo o seu corpo, mas simplesmente não dava. Ele dizia seu nome, seu nome verdadeiro, e apesar de estar relativamente quente, Owl começou a tremer de frio. Sttan tirou a camisa, ficando em cima dele.

Talvez não precisasse matá-lo. A verdade é que, no momento, não queria.

A mente de Owl explodiu por dentro e ele gritou, arranhando as costas de Sttan. Desde a morte de Lance, Owl as deixava crescer o máximo possível, mas não adiantou. Pareceu agradá-lo até.

— Você quer que seja difícil, não quer? — Sttan deu um tapa em seu rosto. O casaco de Owl estava jogado a seu lado. Era como a última vez. Exatamente como da última vez.

Owl balançou a cabeça e então forçou-se a sorrir. Puxou Sttan lentamente para si e o beijou com vontade fingida. Ele nunca sentira desejo sexual por ninguém, o sexo não lhe atraía como fazia com os outros adolescentes. Sttan gemeu de tesão como um porco no meio do coito e afrouxou o aperto na mão direita de Owl, de modo que este pode esticá-la até seu casaco, tirar a nova faca de lá de dentro e fincar nas costas de Sttan uma vez.

Ele também não gritou, era incrível o quanto era parecido com Lance. Owl repetiu o processo mais cinco vezes até empurrá-lo para o lado.

— F-Foi você — Sttan balbuciou, com olhos arregalados. Tossiu sangue. — F-Foi você… que o matou.

Owl sorriu, pegando um bastão de madeira com as mãos nuas.

— Owl — respondeu, e o acertou nas costelas. Queria ouvi-lo gritar, queria ouvi-lo implorar por sua vida da mesma forma que, por duas vezes, Owl implorara a sua a ele, àquela criatura miserável e nojenta. Sttan gritou sim, implorou sim, e no final, estava até chorando.

Owl jogou o pedaço de madeira para o canto, tirando a faca de seu bolso novamente. Ainda não tinha terminado.

— N-Não… por favor — Sttan sussurrou. Ele tinha costas largas e musculosas. Em algum momento da sua vida, alguém já devia tê-lo achado bonito.

Sttan não atendera suas súplicas quando pedira, e Owl decidiu seguir sua vida pelo princípio da reciprocidade.

Trinta facadas e o trabalho estava feito. Com dificuldade, empurrou o corpo morto pela janela, observando-o espatifar-se no chão como um saco de batatas.

Owl vestiu novamente seu casaco e desceu ao térreo, desenhando um pentagrama em suas costas. Saiu do prédio pronto para ir para casa. Ele viajaria àquela tarde, e estava feliz.

OoO

Com ele longe, se os ataques continuassem, isso provaria sua inocência. Mas é claro que Olenna esquecera que Melchior também estava investigando em paralelo. Os ataques pararam com a ausência de Owl, é claro que ele chegaria à mesma conclusão que ela. Olenna não podia deixar. Já eram duas mortes e uma tentativa. Precisava deixar uma pista falsa.

OoO

05h06min, seis de março.

Foi por isso que, quando Olenna viu Ritchi Revonne caminhando a esmo pelas ruas do Jardim, pegou uma faca da caixa de veludo vermelha, a caixa na qual sabia que estava a arma que matara Sttan Molihnar, e o seguiu a passos silenciosos, mesmo que ele aparentasse estar tão bêbado que sequer distinguisse a rua da calçada.

Era muito cedo, todas as criaturas miseráveis daquele condomínio miserável estavam dormindo seus sonos miseráveis em suas casas medíocres. Olenna viu Ritchi entrando no prédio queimado, viu-o subir as escadas, viu-o estender-se de braços abertos na janela como Jesus Cristo na cruz.

Deu alguns passos para frente e o empurrou.

OoO

Quando saiu do prédio queimado, tentando a todo custo ignorar o corpo provavelmente morto estendido no mesmo lugar onde há apenas algumas horas estivera Sttan Molihnar, Olenna deparou-se com Terrence Revonne. Ele parecia não saber onde estava. Devia ter visto Ritchi sair de casa e o seguira, perdendo-o de vista.

— Você quer saber onde Ritchi está, meu querido? — indagara a ele. Terrence não disse nada, não fez nada. Olenna pensou então na sorte que tinha de o autismo de Rhanys não ser tão grave assim.

Deu-lhe pena enfiar a faca nas costas algumas vezes até que caísse no chão, mas não havia nada que não fizesse por sua família. Suspirou cansada. Olenna estava velha demais para matar pessoas daquela forma. Por que Rhanys não dera algumas facadas a menos?

Terminado o trabalho, quase se esqueceu do pentagrama. Desenhou-o com a ponta da faca, admirando-se ao ver o quão bem ela rasgava a pele. Realmente, eram bonitos artefatos.

Limpou o suor da testa e espreguiçou-se. Há quanto tempo não tinha uma emoção daquelas? Pelo menos, agora ninguém se atreveria a culpar Rhanys. E quem desconfiaria de uma pobre velha?

OoO

Owl estava na beira de um precipício, olhando para baixo. Um vale imenso de mil quilômetros de extensão se estendia até o fenecimento, perdendo-se de vista entre nuvens fofas de algodão. O céu estava azul como o olho de um bebê, e tudo era alto, tão alto…

Owl podia voar, mas preferia vigiar seu Mundo dali mesmo, como um deus, como uma Coruja.

— Owl — alguém disse.

Então tudo sumiu. Owl não estava em seu Mundo, estava no meio-fio de uma rua qualquer de Jardim de Ouro, bem em sua beirada, quando London chegou e falou com ele. O céu escureceu, estava nublado, e era cedo. O precipício não existia. O susto acabou levando-o ao chão.

— Owl — respondeu alegremente, limpando a poeira do casaco. Ele estava um pouco desbotado, não sabia por quê.

— Não sabia que já tinha voltado — London disse. — Não é seguro andar sozinho pelas ruas.

London estava andando sozinho naquela rua.

— Owl? Owl… Owl. — Ele não precisava se preocupar, ninguém machucaria Owl. Lance, Sttan e Terry se foram, ninguém mais o machucaria. Ele era a Coruja, a assombração de penas brancas do Jardim.

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— Sim, eu sei que estou sozinho, mas é diferente… você é diferente.

— Owl?

— Não importa como, mas você é, e sabe que é, não me obrigue a falar. — Owl achou aquilo engraçado. Sentou-se no meio-fio com London, sorrindo adoravelmente. Sentia-se feliz. — Como foi lá?

— Owl, Owl, Owl… Owl. — Fora terrível. Sentira-se no Jardim de meia década atrás, quando ainda era da Escola Minerva, quando os garotos perturbavam-lhe tocando-o repentinamente, quando obliterava quase toda semana.

— Legal. Sabe que alguém anda matando as pessoas daqui?

— Owl… Owl, Owl. Ooooooooowl. — Fico nervoso. Sabia que a polícia ainda estava investigando e que não pararia até encontrar um culpado. Owl não queria ir para a prisão. Não queria ser tirado do Jardim. Não devia. Ele não fizera nada de errado. Só fizera o que tinha que fazer. — Ooooooooowl. Ooooooooowl. Ooooooooowl.

Aliás, ele não matara Terry.

— Machucaram Ritchi. Ele nunca mais vai andar.

— Owl…? — Owl ficou triste. Ritchi deveria ter morrido. O irmão dele o estuprara. Se ele não andaria mais, Owl não poderia terminar o serviço. Tinha certeza que, de agora em diante, alguém sempre ficaria de olho nele. E Ritchi era muito grande. — Owl. Ooooooooowl…

— É, é triste. Aquele Sttan Molihnar também morreu, aquele que roubou suas facas.

— Owl… Owl, Owl. — As facas se foram, Sttan também.

— Não se importa com as facas?

— Owl. — Balançou a cabeça negativamente.

— Acho que as pessoas deviam ser como você, sem ligar para coisas supérfluas.

— Owl — disse Owl.

— Owl — concordou London. — O irmão de Ritchi também morreu. E você já sabe sobre o tio de Melchior. O mundo está tão cruel e perigoso hoje.

Não, estava justo. Owl olhou para o céu. Iria chover.

— É melhor você ir para casa. Há poucas pessoas nas ruas. Não quero que se machuque.

— Owl — ele se levantou, assim como London. Ninguém vai me machucar, teve vontade de dizer.

— Eu te daria um abraço, se eu pudesse. Mas, como não posso, bem… cuide-se.

— Owl — agradeceu, repentinamente triste e infeliz. London sempre deixava as pessoas daquele jeito. Mas ele não precisava se cuidar.

— Não foi você, foi, Owl?

Owl havia momentaneamente voltado aos seus sonhos que não eram seu Mundo, mas eram bem parecidos. A pergunta de London pareceu zanzar em sua cabeça como um passarinho fora da gaiola.

— Não foi você que matou aquelas pessoas, foi?

Aquela pergunta fez algo se mexer dentro de Owl. Por um segundo, pensou em contar-lhe a verdade, em dizer o que realmente fizera e por que fizera, talvez fosse bom desabafar com alguém. Ultimamente, vinha tendo pesadelos com os rostos de quem matara. E de quem não matara também.

Mas Owl não faria aquilo. Se ele fosse pego, ele seria preso. O que London estava tentando fazer, mandá-lo para a cadeia?

— Owl — disse, repentinamente irritado. Deu de ombros e seguiu pela rua, dirigindo-se à Avenida Andante. A faca que trazia no casaco pinicava-o, uma dor aguda e gostosa de sentir, pois indicava que estava seguro.

OoO

08h36min, catorze de março.

Owl tinha sorte de que o quintal da casa de London fosse acessível pelo outro lado. A única coisa que o separava do quintal da casa anteposta à de London era uma cerca não muito alta, um espaço de menos de um metro cheio de mato e erva-daninha e então a cerca da outra casa.

Owl se esgueirou pelo espaço estreito entre as duas casas com dificuldade. Ele era pequeno, mas o espaço também. A única passagem existente para ele era se seguisse a trilha que ele fazia ao ir para a rua, mas havia uma árvore enorme tapando a entrada. Owl teve que escalar a árvore e cair do outro lado para acessá-lo. Aliás, estava de shorts, logo suas pernas começaram a coçar de alergia.

A cerca era muito alta para Owl ver o que tinha do outro lado, mas ele sabia que, assim como a do prédio queimado da família Gramp, havia uma tábua falha. No entanto, uma delas também tinha um buraco circular com o qual Owl conseguiu ver o quintal dos Weswalk sem ser notado.

A porta dos fundos da casa estava fechada e Jimmi e Ron Weswalk brincavam de alguma brincadeira estranha que parecia ser um pega-pega, mas se um deles subisse num lugar mais elevado que o chão, o outro não poderia pegá-lo. Eles riam o tempo todo.

Owl ficou triste. Esperava que, àquela altura, London já tivesse voltado para casa. Ele normalmente ficava sentado no banco de pedra lendo quietamente, sozinho. Mas quem estava lá eram seus irmãos, e London não gostava deles. Não, gostava sim, Melchior garantira isso, ele apenas não demonstrava. Alguma coisa a ver com Atena Gramp, ou algo assim.

Se ele gostava deles, então talvez ficasse triste com a morte de um deles, não é mesmo? Owl esperava que sim. Não conseguiria matar London sem que ele visse, ele era muito grande. Mas… os gêmeos não eram. E se Owl conseguisse que só um deles ficasse sozinho no quintal por alguns minutos…

Owl tirou o casaco, estendeu no chão e sentou-se confortavelmente, alisando as pernas para aplacar a coceira. A faca que usava era a maior que tinha. A lâmina tinha trinta centímetros e dois milímetros.

— Cansei dessa brincadeira — disse Ron, que estava se equilibrando cuidadosamente em cima de uma pedra na parte gramada do quintal.

— Eu também. Vamos brincar de cabra-cega?

— Você é a cabra.

— Eu já fui da última vez.

— Não, eu fui da última vez, na hora em que você deveria ser, London apareceu e nos mandou voltar para casa porque estava ficando tarde.

— Ah, é. Espera então, vou pegar um pano.

Owl observou Ron entrando dentro de casa correndo, seu a mínima necessidade de correr.

Sétima tábua a partir da tábua com uma mancha marrom parecida com uma cruz, da direita para a esquerda. Owl se lembrava. Empurrou-a lentamente para a frente, vendo como estava solta. Um pouco mais e ela se soltou. Owl pousou-a no chão silenciosamente.

Jimmi estava agachado em cima da grama, observando uma fila de formigas sobre a pedra, de modo que não viu quando Owl se aproximou a tempo de vê-lo varrer as formigas dali com a mão, reclamando quando uma lhe picou.

A lâmina da faca brilhou sob a luz do sol que saía de trás das nuvens cinzentas, como que para assistir ao espetáculo.

Tudo começou e terminou com tanto silêncio que Owl se perguntou se realmente acontecera, mas quando, escondido por trás da recém-colocada tábua, ouviu o grito de horror de Ron, soube que acontecera.

Jimmi até que tentara gritar, mas Owl pressionou seu rosto contra a grama. Fitou a faca ensanguentada em suas mãos. A ponta dela estava suja de terra. Era tão comprida que ultrapassara o corpo de Jimmi, chocando-se contra a terra do jardim. Tudo bem. Terra era mais fácil de limpar que sangue.

OoO

Teve que ir consolar London com Melchior mais tarde. Ele devia ter pensado que havia ficado irritado com o comentário sobre ele ser a Coruja, então Owl precisaria disfarçar. Foi fácil fingir pena, embora estivesse gostando de ver as lágrimas saindo de seus olhos vermelhos. Curiosamente, elas eram transparentes.

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Uma coisa que incomodava Owl: Melchior e Ritchi haviam voltado. O que era aquilo, como Melchior pode fazer aquilo? Owl já estava meio conformado em imaginar Ritchi aleijado e infeliz pelo resto da vida, mas de repente um anjo de olhos roxos apareceu nela para iluminá-la. Não estava certo.

Mas Owl não queria machucar Melchior. Gostava dele, gostava imensamente dele. Era difícil não gostar, mas mesmo assim. Talvez pudesse fazer como London, machucar alguém que Melchior gostasse. Não podia ser Ritchi, ou perderia o propósito da coisa. E Ritchi ainda era muito grande, mesmo não podendo andar.

Talvez pudesse ser alguém da família de Melchior, mas Lance já morrera e ele não se abalara. Mas Melchior odiava Lance. De quem ele gostava?

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Enquanto andava pelas ruas do Jardim, Owl viu uma cena.

Na praça I, a maior de todas, a que tinha o parquinho, Melchior estava como sempre, cabelos cinzentos e olhos púrpuras, de sobretudo, sentado num dos bancos da praça, compenetrado em escrever num notebook. Ele era escritor, aquilo era incrível porque ele só tinha quinze anos. Tão inteligente.

Na praça, Owl reconheceu todos os seus irmãos. Robbet, Tarly, Marco, Daemon, Julie e Samwell. Teo estava nos braços de Robb, que sentava-se num banco mais perto do parque, observando um par de gêmeos que Owl sabia serem Hugh e Howl e seu próprio irmão, Grey. Melchior tinha a maior família que Owl já vira.

Sorriu. Os irmãos dele, é claro. Ele os amava mais que a própria vida. Então por que não tirar a de algum deles? Se machucasse um dos irmãos de Melchior, o machucaria, mas não fisicamente. E se Melchior ficasse triste, Ritchi ficaria também. E Ritchi era irmão de Terry, que o estuprou.

Owl se admirava ao ver quão bem conseguia pensar naquela palavra agora, sem precisar usar eufemismos como Terrível.

Voltou o olhar os Chioren. Seria difícil escolher um deles.

Teria que ser um dos irmãos, claro. Owl não se arriscaria a fazer aquilo com Marco, aquele garoto o assustava. Poderia escapar e delatá-lo. Daemon era tão medroso que nunca ficava longe de ninguém e Samwell era mais alto que Owl. Robbet e Tarly pareciam gêmeos de tão ligados, embora brigassem o tempo todo. Um deles poderia escapar, Owl não podia matar os dois ao mesmo tempo. E não tinha coragem de matar um bebê.

Mas Julie Chioren era a única mulher da família de Melchior. Precisaria apenas esperar um dia que ela estivesse sozinha. Isso. Era isso que deveria fazer. Owl iria matar a irmã de Melchior. Assim Ritchi sofreria.

Se ele tivesse morrido na queda, nada daquilo precisaria acontecer. Owl ainda se perguntava quem o empurrara, e se fora a mesma pessoa que matara Terry. Não sabia, mas o agradecia em pensamento.

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Owl passou a seguir Melchior aonde quer que ele fosse, sob pretexto de descobrir a melhor oportunidade para enfiar sua faca mais comprida nas costas de sua querida irmã, mas era difícil. Melchior vigiava os irmãos como um falcão, sem nunca deixar passar nada, o que era incrível, porque eles eram numerosos. Era difícil passar por cima dele. Demorou quase um mês para Owl achar uma oportunidade, mas a achou, e foi puramente por acaso. Sem estar seguindo-o, cruzou com Melchior numa esquina cheia de árvores bonitas, mas malcuidadas, e ouviu Julie falando a ele que na terça-feira da semana seguinte, ela não teria a primeira aula na escola (era a sexta-feira do dia doze).

Tudo o que Owl precisou fazer foi esperar. Esperou um mês, o que eram mais quatro dias?

OoO

08h36min, dezesseis de abril.

Owl caminhava tranquilamente pela Avenida Chimera. A rua estava vazia, ainda era muito cedo, ou muito tarde. As crianças haviam ido para a escola e os adultos, trabalhar. Alguns jardins eram regados por regadores automáticos, e a maior parte das casas era igual, com pessoas iguais morando dentro, fazendo as mesmas coisas de sempre. Pequenas caixas, todas iguais. Exceto por uma ou outra cujo jardim tinha flamingos.

O tempo estava frio e ventava como o inferno. A coruja se aconchegou mais em seu casaco, sentindo o aço gelado da lâmina da faca guardado em seus bolsos internos. Sentiu-se seguro. Ele era a Coruja do Jardim de Ouro, não precisaria ter medo de ninguém, e ninguém mais o machucaria.

Ficou aguardando por trás de uma bonita palmeira que havia no jardim dos Chioren. Eram quase oito e quarenta da manhã, a aula de Julie devia começar às oito e cinquenta, bem como Owl se lembrava de como eram as coisas na Escola Minerva. O lugar lhe dava pesadelos, de qualquer forma.

Owl sempre gostara daquela palmeira. Era baixinha como ele.

De repente, a porta se abriu. Julie caminhou até a calçada, pretendendo cruzar a rua. Owl sabia que era aquele o caminho para sair do condomínio, então não perdeu tempo. Rapidamente, olhou para a casa dos Chioren, que permanecia silenciosa. Melchior não parecia estar em lugar nenhum, então estava tudo bem.

Seus passos sempre foram silenciosos, Owl se orgulhava disso. Podia chegar perto de qualquer um sem que ele percebesse. Era engraçado ao ver como as pessoas se assustavam ao ver que ele estava lá.

Owl tirou a faca para fora do casaco, atravessando a rua por trás de Julie. Ela era só um pouco mais baixa que ele. Só um pouco.

A luz do sol brilhou na lâmina, mas logo se apagou com a vermelhidão do sangue. Julie tentou gritar, mas Owl tapou-lhe a boca, empurrando-a contra o asfalto quente. Esfaqueou-a mais uma vez, depois mais uma e então outra. Ela parou de se mexer. Owl olhou em volta para ver se alguém estava olhando. Ninguém. Continuou com as outras facadas.

Quando terminou, puxando a faca pela última vez, percebeu que ela estava com a ponta torta. Assim como em Jimmi, a faca atravessara o corpo de Julie, mas sem terra macia e fofa para se chocar, deu de cara com o asfalto duro. Devia até tê-lo rachado.

Após desenhar o pentagrama, Owl limpou a lâmina nas roupas de Julie (afinal, não poderia chegar ensanguentado em casa), guardou-a no bolso, deu meia-volta e saiu dali tranquila, mas rapidamente.

Como bem sabemos, Melchior encontrou sua irmã cerca de vinte minutos depois. Ou o que restou dela.

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Inicialmente, Owl fizera aquilo para punir Melchior por ter voltado com Ritchi. Pensara estar fazendo a coisa certa, que se sentiria bem depois, e realmente se sentiu. Mas foi só até ver, pela primeira vez, Melon Chioren chorando.

Como London dizia, Melon e Melchior eram duas pessoas diferentes. Ele também acreditava que Melon tinha dupla-personalidade e era psicopata também, mas isso era outra história. A questão é que Owl apenas afetara Melon. Melchior continuava impassível e duro, mais irritado que nunca.

Owl sabia em seu íntimo que não tinha apenas o medo de ser preso: era o medo da humilhação também. Humilhação, isso ele compreendia. O constante medo de andar pelas ruas com a possibilidade de alguém o tocar para vê-lo pulando de susto. O medo de sentar sozinho numa praça com a possibilidade de alguém ingênuo de boas intenções tentar levá-lo para casa pensando que estava perdido. Ele era autista, apenas isso era sabido. Ninguém compreendia o medo irracional que rondava sua cabeça, como as Sombras que dormiam ao lado.

Com o passar dos dias, Owl foi tomado por um Pavor. Ele permanecia ao seu lado enquanto caminhava de manhã para clarear a mente, como um monstro oriundo de seus pesadelos, a ruína de seu Mundo. Tudo a sua volta parecia cinzento. Nenhum sabor ou cheiro parecia agradá-lo, uma tristeza fosca apoderara-se do mundo real, as coisas importantes não pareciam ser mais. Owl sabia que Melon estava sofrendo, mas não podia ajudá-lo. Também não conseguia deixar de odiá-lo enquanto também o amava.

Ainda sonhava com o primeiro Terrível. Sonhava com o Terrível andando para lá e para cá num corredor largo e escuro, perguntando-se o que deveria fazer para punir aquela corujinha petulante. Owl lembrava-se de tudo. Lembrava-se da primeira vez, quando o Terrível ainda não era bem um Terrível, e sim uma impressão menor e menos desagradável do estupro. Lembrava-se do toque do tio-avô de Oliver em seu peito desnudo enquanto Owl fechava os olhos com tanta força que temia não conseguir abri-los mais; formas escuras dançavam na negritude de seu interior, a gênese de seu Mundo azul e branco. Lembrava-se do poder incomensurável do Terrível, da brutalidade mesquinha, da crueldade sádica. Pensava que aquilo havia acabado, ficado em seu passado para sempre, mas agora Owl sentia o mesmo desamparo que sentira naquela época, quando quartos escuros e gelados lhe assombravam com veemência, com nenhuma outra luz a não ser a azul e branca da lua.

E isso por quê? Porque fizera o que pensava que devia fazer. Talvez não precisasse ter feito aquilo, o mundo era velho demais e Owl era jovem demais para compreendê-lo. As outras pessoas pareciam ter suas próprias concepções do universo que as cercava, mas elas não foram estupradas, não enfrentaram o Terrível com sete anos. Elas não tinham como saber, não poderiam opinar. Então por que as lágrimas de Melon pareciam tanto com as de Oliver? Por que aquele resmungo que ele fazia para tentar esconder o choro lembrava tanto Ollie? Como aquela criatura de cabelos platinados e olhos azuis podia conduzir sua vida mesmo morta?

Owl se perguntava onde Oliver estaria enterrado.

As lágrimas de Melon eram os sonhos atormentadores de Owl. Como tantos pesadelos horrendos, tantas horas de insônia enquanto na calada da noite uma lâmina inquebrável circundava seu pescoço podiam ser resumidos a uma lágrima gorda? O Pavor sumiu para dar lugar ao Arrependimento, tão cruel e miserável quanto seu antecessor.

Owl teria de bom grado enfiado o lamuriento do Melon num espeto e o colocado para assar numa fogueira, mas não podia porque o amava. Com o tempo, a ficha caiu. Owl amava Melchior tanto quanto amara Oliver, talvez por isso sentisse tanto ódio de Ritchi, não por ele ser irmão de Terry, mas por ele ter Melchior para si, quando tantas outras pessoas estavam sozinhas. Não sentia mais ódio, mas isso não significava que não sonhasse em ressuscitar Lance, Sttan e Terry, enrolar as mãos em volta de suas gargantas brancas e apertá-las até que seus rostos ficassem pretos.

Como numa fileira de dominós, outras fichas caíram também. Pela primeira vez, Owl sentia o ódio de seu pai por ele, se assustando ao ver como estava profundamente enraizado. Porque matara sua mãe no parto ou porque era autista, Owl não sabia, nem se importava. Já fora chamado de sociopata, como quem não sente empatia, mas quando descobriu o horror de Ottis pela vida, Owl não conseguiu sentir nada além de um profundo desprezo. Desejava poder falar sem que sua língua se engrolasse, poder enfiar uma faca nas costas de seu pai e girá-la enquanto sussurrava em seu ouvido que não precisava se preocupar, seu filho também não o amava, eles estavam quites. Desejava poder se empoleirar na janela de seu quarto e berrar para todo o Jardim de Ouro que eles podiam parar de procurar em baixo de pedras, a Coruja estava ali, estivera o tempo todo. Então Owl sorriria e daria um passo para frente, observando quão rápido o chão se aproximava, e quando tudo acabasse poderia perguntar a Oliver por que o atormentara por tanto tempo, pediria a Julie, Atena e Terry para pararem de atormentar Melon, London e Ritchi. Deixem-nos seguir suas vidas! Vocês seguem suas mortes, diria a eles, então finalmente descansaria, queimando eternamente nas labaredas do inferno.

Havia fantasmas no Jardim. E Owl era um deles.

OoO

Owl começou a tentar recriar seu Mundo. Passou a se enclausurar dentro de si próprio, sem sequer notar quando o tocavam, saindo apenas se satisfeito com seu trabalho. Seu Mundo era secreto, por isso permaneceria segredo. Não era uma coisa morta e descascada, como o Primeiro Mundo, mas sim algo vivo e pulsante, orgulhoso e ciumento. Oliver teria se orgulhado. No entanto, Owl também sentia medo de entrar lá e não conseguir mais sair.

Agora entendia. Oliver contara sobre seu Mundo a alguém. A quem, ele não sabia, mas sim, o fizera. Esse fora seu erro. As pessoas não entenderiam jamais, o chamariam de louco, esquizofrênico, o entupiriam de remédios para que vivesse sob a norma dos medíocres. Owl não deixaria aquilo acontecer com ele. Owl era deus em seu Mundo, mas apenas um garoto estranho e autista no real. Ele não confundiria as coisas. Acertaria onde Oliver falhara.

Num certo dia, exatamente quando saiu de seu Mundo para voltar ao real, alguém se chocou com ele. Foi um impacto leve, mas que tremeu Owl de cima a baixo como um choque elétrico. Ele ficava sensível quando voltava.

— Desculpa, Owl — Nicholas Hentz disse, levantando-se do chão. Owl murmurou um Owl e levantou-se, bateu a poeira do casaco e jogou os cabelos para o lado num movimento de cabeça. De repente, notou estar sem nenhuma faca. Uma sensação de perigo o envolveu, mas forçou-se a permanecer calmo.

— Owl, você soube? — Nicholas indagou. Formas coloridas dançavam por trás de Nicholas. Owl inclinou a cabeça para o lado, tentando vê-las. Lembrava-se vagamente delas em seu Mundo. Não! Aquilo estava errado. Ele não podia confundir as coisas. — Minha namorada está grávida. Eu vou ser pai. Não é incrível? — Owl sorriu. As formas desapareceram, e o rosto dourado e bonito de Nicholas ficou mais nítido. O leão dourado era mais novo que ele e ia ser pai? Bem, aquilo não dizia muita coisa. Owl também era mais velho que Ritchi, e Ritchi tinha quase trinta centímetros de altura a mais que ele.

— Owl, Owl, Owl, Ooooooooowl, Ooooooooowl, Owl?

— Ela é a Mia Cinneto. Sabe quem é?

— Owl. — Mia era ex-namorada de Sttan, no caso. Já a vira algumas vezes. Cabelo preto, feições não muito graciosas, mas estranhamente bonita.

— Que bom que sabe. E eu não andaria sozinho pelas ruas se fosse você. Há muito perigo por aí, ultimamente.

— Owl? Owl… Owl. — Havia, e Owl era o maior deles. Ele era a Coruja, todos tinham medo dele. Esse fato tanto o deliciava quanto o assombrava. Depois de tanto tempo sendo atormentado pelas pessoas, era ele quem as estava atormentando agora. Estava se tornando como elas. Era isso que o assombrava.

— Eu sei que estou sozinho, mas eu não seria assassinado. Eu deixaria o assassino louco. — Owl riu. Nicholas era quase tão carismático quando Melchior, mas Melchior apostava mais em ações e expressões, exercendo diálogos mudos que hipnotizavam qualquer um com aqueles olhos perfeitos. Nicholas era mais agitado e impetuoso. — Eu tenho que ir. Tome cuidado, está bem?

— Owl — disse Owl.

— Owl — concordou Nick. — Até mais.

Owl o observou dando meia-volta e seguindo o caminho de casa. Ele não queria matá-lo. Por algum motivo, gostava tanto dele quanto gostava de Melchior. Mas também soubera que Lorenzo Barcarolli estava lentamente deixando a depressão em que Owl o jogara. Era ele quem precisava matar, Lorenzo sabia muita coisa, embora fosse cego e apenas uma criança. Por outro lado, Ethan Lemnsack o protegia como uma muralha de pedra, ele era muito mais velho que Owl que, em seu âmago, nutria certo medo dele. Nicholas também não poderia ser, embora fosse ele o responsável por fazer todo mundo do Jardim saber sobre Melchior e Ritchi. Ethan amava Nicholas tanto quanto amava Lorenzo, e sempre que Owl fantasiava em pintar de vermelho aquele cabelo louro, a imagem de Ethan surgia por trás dele, com aqueles olhos pretos que escondiam uma crueldade destinada apenas àqueles que tiveram que amadurecer cedo, em sua forma mais crua e sublime. Ethan antes poria ele mesmo fogo em todo Jardim de Ouro do que deixaria o assassino de seu irmão escapar com vida.

Minha namorada está grávida. Eu vou ser pai. Não é incrível?

Para si mesmo, Owl sorriu. Ethan enlouqueceria com a morte de Nicholas, então que tal com a morte da namorada e do filho dele?

OoO

14h36min, vinte e nove de abril.

Após cinco assassinatos, um deles com o qual Owl não tivera nenhuma relação, as pessoas já não mais saíam nas ruas sozinhas. Então o que diabos ela estava fazendo ali?

Owl encontrou Mia Cinneto puramente por acaso. Precisava de um lugar quieto para pensar, e sabia que a praça IV raramente era visitada. Naqueles tempos então, devia esta realmente vazia. Não havia casas por perto com pessoas para angustiá-lo e o tempo frio que por tanto tempo o agarrara com suas garras invisíveis estava se dissipando. Pudera, estavam eles no meio da primavera. O que estava fazendo aquele clima ali em abril?

Owl não estava com sua faca maior, aquela cuja ponta entortara ao matar Julie. Estava com uma menor qualquer, que nem com cuidado fora escolhida. Owl não esperava ninguém na praça IV, de qualquer forma. Andava triste. Às vezes, Jardim de Ouro não lhe parecia mais pintado daquele rico tom dourado e verde reluzente. Parecia transformado num tom insípido de sépia, a claridade repentina do céu há tanto tempo cinzento não conseguiu embotar em seu espírito já cinza. Até as casas pareciam menos glamorosas. Sendo o Jardim um dos poucos condomínios de Middleland cujas casas não eram idênticas, como era comum nos subúrbios, tudo parecia estar sofrendo uma mutação fantasmagoricamente horrenda e absurda aos olhos azuis de Owl. Com tanta vontade de serem diferentes, as casas tornavam-se todas iguais.

Foi quando se aproximou da praça que viu Mia lá. Parecia estar esperando alguém. Inconscientemente, Owl tocou no cabo da faca, apenas para largá-lo depois. Não estava em condições de matar ninguém, ou estava? Não era o que queria, se vingar de todos aqueles que o fizeram sofrer? Não era a coisa certa? E se não tivera coragem de matar o irmão bebê de Melchior, que diferença faria matar um bebê que ainda estava no ventre da mãe? Só porque não podia vê-lo não queria dizer que não estava ali.

Uma brisa morna chocou-se contra o rosto de Owl. Faça antes que alguém apareça. Não faça, ela está grávida, dizia o vento, numa eterna confusão entre o quente e o frio.

Mia virou a cabeça para trás bem a tempo de Owl fechar o zíper do casaco até em cima. Ela sorriu.

— Owl. Que bom ver você.

— Owl — disse Owl, sorrindo. Tirou os cabelos da frente da testa e sentou-se no banco junto com ela. O cabo da faca não se salientava por baixo do casaco. Owl só precisaria puxá-lo e acabaria com tudo. Mia era mais alta que ele, mas não poderia fazer muito mais que fugir.

— O que faz aqui? Não é seguro andar sozinho.

Ela era a quarta pessoa que andava sozinha pelas ruas que dizia a ele que não era seguro andar sozinho pelas ruas. Por que as pessoas eram tão hipócritas? O que, todos achavam que ele não poderia se defender?

— Owl… — murmurou, olhando para o chão. Mediu-a de cima a baixo. Sua barriga ainda estava lisa. Mia parecia ansiosa. — Owl, Owl?

— Você sabe da gravidez? — Owl assentiu. — E sabe que Nicholas é o pai, não sabe? — Assentiu novamente. — Ele está tão feliz.

Mia parecia infeliz.

— Owl… Owl. Owl?

— Eu não estou grávida, Owl. — Aquilo realmente o pegou de surpresa. — Ontem, minha mãe me fez fazer outro teste de gravidez. Deu negativo. Então eu fiz outro. Deu negativo novamente. Então eu fui numa farmácia e comprei uns dez testes de marcas diferentes. Levou a madrugada inteira, mas eu fiz todos. Todos deram negativos. — Mia deu uma risada sem alegria. — Há menos de um por cento de chance de dar um falso-positivo, e eu fui estúpida o suficiente para cair nele. Deveria ter feito um segundo teste antes de contar ao Nick… Eu tenho medo da reação dele. Já tínhamos escolhido um nome para o bebê. Como então vou esperá-lo aqui e, quando ele chegar, dizer: Parabéns, você não vai ser pai?

Mia deslizou as unhas sobre as coxas com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Owl sabia que algo estava acontecendo, algo que não podia contar a ninguém: depois da recriação de seu Mundo, ele estava recebendo vagas impressões emocionais das pessoas, como se fosse um receptor de ondas invisíveis. No momento, Mia estava com raiva de Nicholas por tê-la deixado tão feliz com o bebê que nunca existiu, estava com raiva de si mesma por ter sido tão ingênua, estava triste e arrasada também.

Owl sentiu vontade de chorar, mas se controlou. Se desmoronasse ali, ela desmoronaria com ele.

Lentamente, deslizou sua mão para a dela, entrelaçando seus dedos. Mia o olhou com surpresa. O toque dela queimava, mas Owl não conseguia resistir a apertar ainda mais. Mia sorriu, fungando e soltando sua mão. Deu-lhe um beijo na testa que doeu mais que qualquer coisa para Owl, mas que também foi o melhor momento de sua vida em muitos anos.

Owl tirou a faca do casaco e deslizou-a pelo pescoço de Mia, tapando sua boca para que ela não gritasse. Uma expressão de horror a tomou, logo antes de uma de dor; o líquido vermelho encharcou suas roupas e sujou seu cabelo. Owl pensou que estava chovendo, pois seu rosto estava molhado, mas então percebeu que estava chorando.

Mia estava com a mão sanguinolenta fechada em sua garganta, tentando estancar o sangue, mas era inútil. Ela não conseguia falar, mas seus olhos perguntavam: por quê?

— Owl — Owl respondeu, largando a faca. Quando Mia revirou os olhos e tombou para trás, ele chorou. Chorou fazendo barulho, num som primitivo e infantil. Owl chorou as lágrimas que não chorara na infância, porque pensava não ter nada para se preocupar. Owl chorou pelas pessoas que matou, pelas pessoas que machucou. Chorou como quem pede desculpas. — Owl… Owl, Owl. Owl! Owl… — Segurou o rosto de Mia entre as mãos. A pele dos mortos não era como a dos vivos. Ela ainda estava quente, mas sua alma se fora, seus grilhões foram arrebentados. O corpo era apenas uma casca vazia agora, sem nada, sem essência.

Owl segurou-a nos braços, sacudindo-a para que acordasse. Para que o desculpasse, para que o perdoasse.

Volte, volte! Por favor, tenha seu filho com Nicholas, viva sua vida, seja feliz, cometa seus pecados e morra naturalmente, me perdoe, me perdoe…

Passou tanto tempo ali que não percebeu o céu mudando. Quando Owl finalmente levantou a vista, viu um garoto moreno olhando-o com horror. Ele tinha uma tipoia no braço. Deu alguns passos para trás e então continuou correndo até desaparecer de vista. Owl não se importou, ele devia ser um covarde. Não contaria a ninguém. Ninguém nunca descobriria que era ele. Ninguém acreditaria que aquela corujinha inocente pudesse ser tão complexamente perturbada por dentro, que pudesse matar cruelmente sem hesitar.

Owl pousou o corpo de Mia no chão. Havia tanto sangue, tanto sangue inútil. Esfaqueou-a nas costas e desenhou um pentagrama, como era certo a Coruja fazer. Com dois dedos, escreveu no cimento: A coruja pia.

Por favor, me ajudem. Me parem. Me façam parar. Por favor. A coruja pia. Ela pia. Ela pia Owl. Entendam a mensagem, vocês tem que entender.

Owl foi embora pingando sangue. Ninguém o viu. Ninguém nunca o via.

OoO

Alguém bateu na porta, um toque baixo e suave.

— Owl — disse Owl. Estava encolhido em sua cama, de pernas cruzadas, com a caixa de veludo verde aberta na cama, aquela que tinha as facas mais longas. Owl estava polindo a faca da ponta torta, a que usara para matar Jimmi e que entortou quando tentara matar Julie.

Melchior estava ali. Owl olhou-o com surpresa, sem deixar de pensar que estava tirando o sangue da irmã dele da lâmina.

— Owl — cumprimentou-o, sorrindo.

— Oi, Owl. Posso me sentar?

— Owl — assentiu. Melchior sentou-se na cama com as pernas cruzadas. Parecia cansado, abatido. Owl ficou triste.

— Owl, você sabe que eu sou uma pessoa bastante direta. Quero te perguntar uma coisa, mas preciso que largue a faca.

— Owl? — Owl questionou. Será que ele sabia de algo? Será que desvendara o enigma do sangue de Mia? Talvez sim, ele era tão inteligente.

— Você vai entender. — Lentamente, guardou o artefato na caixa de veludo, alinhando-a com as listras do lençol que forrava a cama. — Owl, o que você estava fazendo na cena da morte de Mia?

Sim, ele desvendara! Owl não sabia o que pensar, não sabia se ficava feliz ou triste, se era uma coisa boa que todo aquele poderio que havia sido lhe dado estivesse sendo tirado ali, naquele presente momento.

— Owl… Owl? — murmurou, baixando a cabeça. Mas Owl também matara Julie. E Melchior também acharia que matara Terry e empurrara Ritchi, mesmo não tendo-o feito. O que estava fazendo? Melchior o odiaria para sempre se descobrisse. Mas ele já havia descoberto, não? Então por que não estava com raiva? — Owl… Owl, Owl, Owl… Ooooooooowl.

Estava tão confuso. Começou a chorar.

— Owl… O que aconteceu? Você a encontrou lá?

Assentiu, fungando. Não era necessariamente mentira.

— Owl… Owl, Owl.

— Você a encontrou lá, morta, e ficou abalado? — Assentiu novamente. Aquilo era uma mentira. Melchior tocou suas costas, mas Owl se afastou, envergonhado. — Não chore, por favor. Ninguém vai te culpar por isso, você não podia fazer nada. Ela já estava morta quando você a encontrou? — Owl assentiu de novo. Outra mentira. Droga! — Ah, minha pequena coruja.

Mas ele não desvendara o enigma? Será que era tão difícil assim? Tão difícil que nem Melchior conseguia saber?

Owl acabou tendo que mentir mais. Confirmara que não havia ninguém por perto quando encontrara Mia, e que quando viu o garoto ali, correndo para longe, correu também. Mentira, grande mentira. Quando o viu, esfaqueou Mia, mesmo ela já estando morta, e escreveu a mensagem. Por que ninguém o entendia?

OoO

Para piorar um pouco mais as coisas, Olenna não falava mais com ele. Owl tinha certeza que ela sabia que ele era a Coruja. Ela o vira voltando para casa sujo e ensanguentado da festa de Nicholas, depois que matara Lance. Como não ligar os fatos? Então por que não o denunciava? Aquilo não fazia sentido.

Também não aguentava mais as discussões dela com sua outra avó, Odette. Owl ouvia os sussurros dados naquela casa, Odette achava que ele era a Coruja, mas Olenna dizia que não. E todo mundo sabia como Olenna Olrwen era cabeça-dura.

OoO

14h36min, vinte e três de maio.

Era estranho voltar ali, mas todo mundo dizia que os criminosos sempre voltavam à cena do crime, então Owl não estava fazendo nada de errado. O mundo estava precisando disso, de pessoas que não estivessem fazendo nada de errado. Como as pessoas eram idiotas! Ele havia praticamente escrito a resposta que todos queriam com o sangue de Mia, como ninguém pensou ser ele? Não havia nenhuma outra coruja no Jardim.

Owl sabia que sua avó fazia caminhadas matinais. Normalmente ela ia com Olenna, mas os atritos entre as duas haviam aumentado, de modo que, no momento, ela estava sozinha. Também estava indo de tarde por motivos óbvios.

Owl saiu pela janela de seu quarto e pulou o muro de sua casa para o lado de fora, para que sua avó não o visse saindo. Ela saberia de suas intenções de o fizesse. Owl seguiu Odette Ovense até a praça IV, onde assassinara Mia. Ela parecia está-lo testando, mesmo sem saber que ele a estava seguindo.

Um passo silencioso, outro que não existia, um terceiro passo e mais um quarto que ninguém poderia testemunhar ter ouvido. Owl já estava mais experiente. A primeira coisa que fez foi fechar a boca de Odette, a segunda foi enfiar a faca em suas costas. Ela logo caiu de joelhos, assim Owl pode terminar o serviço tranquilamente.

Não havia ninguém por perto e, sinceramente, Owl não ligava mais.

OoO

Ritchi e London foram vê-lo mais tarde, quando a morte de sua avó postiça foi descoberta. Owl não esboçou nenhuma reação, não sentia nada. Não estava triste nem feliz, nem sentia raiva das pessoas. Era como se todos os sentimentos que há pouco estivera sentindo em demasiado tivessem se condensado numa nuvem escura e negra e a nuvem tivesse sido sugada para o fundo de sua alma. Ela estava sombria, Owl sentia isso.

O que será que Oliver pensaria dele? Owl se perguntava isso de noite. O que Oliver pensaria se ele estivesse vivo e Owl matasse o Terrível na frente dele, vendo o sangue vermelho e pungente espirrar em seus cabelos louro-prateados, seus olhos azuis tão bonitos e brilhantes quanto espelhos observando toda aquela cena macabra? Ollie era um mistério. Owl o conhecera por tão pouco tempo, sentia que sabia tanto sobre ele, mas ao mesmo tempo sentia saber tão pouco.

Foi com pavor que, no dia seguinte, foi até a casa de Ethan e Nicholas Lemnsack Hentz a pedido de Melchior. Lorenzo se afastou dele, como sabia que ele faria. Nicholas parecia uma impressão do que um dia já fora, morto por dentro, sobrevivendo por fora. Owl sorriu por dentro, e por fora ficou triste. Qual dos dois lados era o real, ele não sabia. Não sabia mais nada.

— Bem, vai nos dizer por que estamos aqui ou tá difícil? — London indagou, irritado. Chuviscava lá fora.

— Senhores. Vou. — Melchior sorriu. Ele era tão bonito, tão incrivelmente lindo. Ritchi não sabia a sorte que tinha. Virou-se de costas. — Eu descobri quem é a Coruja.

Owl sorriu, levantou-se silenciosamente, saiu da sala pela janela e correu para o rio Garganta de Ouro. Atravessou-o e saiu pela falha da cerca. Ele iria para casa, para finalmente ter o seu descanso.

OoO

Na mansão, ao ver Owl sumido, Melchior suspirou profundamente. Sacou o celular e discou o número da polícia. Ritchi, London, Ethan, Lorenzo e até Nicholas escutaram-no estarrecidos falar com a pessoa do outro lado.

— O nome dele é Rhanys Olrwen, é um garoto autista que mora no condomínio Jardim de Ouro, na Avenida Coruja Dourada, numa casa branca e estreita de número 3636. — Falou mais algumas coisas e então desligou.

— Como assim… o Owl? — London murmurou. Melchior sentiu-se cansado.

— No ano-novo desse ano, Sttan e Lance estupraram Owl no prédio queimado da família Gramp. O primo de Sttan, Cole Molihnar, me disse isso ontem, depois de ter tentado me matar do coração. Eles também forçaram Terry a fazer isso. — Ritchi arregalou os olhos, mas ficou calado. — Por isso os matou.

— Mas Owl não estava na cidade quando Terry foi morto e Ritchi foi empurrado — Ethan argumentou.

— Owl não matou Terry nem empurrou Ritchi, embora teria feito isso, se pudesse. Pouco depois dos primeiros assassinatos, eu perguntei a Olenna Olrwen como Owl voltara para casa depois da festa. Ela disse que ele estava impecável. Mas acontece que Lance foi encontrado dentro do rio Garganta de Ouro, e há uma cerca limitando-o dos dois lados. Owl tem o tamanho de um duende, de modo que seria impossível ele ter erguido o corpo e o jogado no rio. Não, Lance foi morto no rio. Desse modo, Owl só poderia ter chegado em casa molhado e ensopado, não é mesmo? — Melchior sorriu, esperando que entendessem. — Olenna sabia que fora ele. Ela sabia o tempo todo, mas duvido que ele tenha contado a ela. Ela o mandou para longe para ter certeza que realmente havia sido ele, mas então se deu conta de que eu também estava investigando em paralelo, de modo que empurrou Ritchi e matou Terry para me despistar.

London engasgou com a própria saliva. Ritchi continuava estático.

— Terry era autista, certamente não ofereceu muita resistência, e Ritchi, você estava bêbado e drogado, então ela não teria muito esforço em te empurrar. Creio que Sttan havia tentado estuprar Owl de novo no dia em que ele foi morto. Havia marcas de unhas das costas dele e suas costelas estavam quebradas por um pedaço de madeira. Owl deve tê-lo esfaqueado uma ou duas vezes, o espancado, e então o empurrado e feito o resto do trabalho da Coruja. Ou vice-e-versa, não importa. Eu vi várias ligações para Sttan no celular de Lance e o DNA encontrado no pênis de Sttan foi o mesmo encontrado no de Lance, de modo que percebi que eles tinham alguma relação. Descobri qual. Pelo visto, eles gostavam de abusar sexualmente de garotos indefesos.

— Mas e… Julie, Jimmi, Mia e Odette? — o ruivo indagou.

— Bem, eu acho que, depois dos primeiros assassinatos, Owl começou a simplesmente querer matar. Ele arrumou os motivos mais ínfimos para isso. Ele matou Jimmi porque London perguntou a ele se ele era a Coruja. Ele matou Julie porque queria me machucar, porque, assim, machucaria Ritchi, e Ritchi era irmão de Terry. Matou Mia porque Mia era namorada de Nicholas, e foi ele quem espalhou o boato sobre mim e Ritchi na festa. Na época, acho que ele gostava um pouco mais de mim. Talvez tenha guardado a necessidade de vingança. — Nicholas levantou levemente a cabeça. Melchior o fitou. — Sim, eu sei que foi você. Mas acho que ele se arrependeu de ter matado Mia, talvez o tenha feito antes mesmo de matá-la, mas, nesse ponto, não podia mais se conter. Ele cortou a garganta dela para que morresse por perda de sangue, depois a esfaqueou e desenhou o pentagrama. Então escreveu A coruja pia com o sangue dela porque ele queria ser pego, queria ser parado. Não sei explicar de outro modo, talvez a mente de Owl seja muito mais complexa do que imaginemos. Um garoto chamado Rick viu Owl na cena do crime, ele estava chorando com Mia nos braços, e não havia sangue no chão. Se ela já estava morta, bem, é impossível que fosse ela a ter escrito a mensagem. De qualquer forma, quando eu questionei Owl sobre isso, ele começou a chorar. Mas uma coisa me chamou a atenção, foi o fato de que a faca que ele estava polindo estava com a ponta entortada. No meu último ato como Senhor do Mundo M, quando eu esfaqueei o primeiro corpo, a faca que eu usei entortou ao chocar-se contra o chão. Ontem, quando eu vi o pedaço da rua em que Julie havia morrido, vi que parte do cimento da rua estava rachado e me lembrei que, na autópsia do corpo dela, foi visto que os ferimentos atravessaram todo o corpo. Meu primo Robb também disse que a madrasta de Owl, Olívia, disse a ele que Owl tem estado insuportavelmente agitado em casa. Tudo isso veio a minha mente de uma só vez, ontem, na rua.

— Por isso você começou a gritar feito louco? — London indagou. Melchior assentiu, surpreso ao ver que seus olhos estavam castanhos. — E quanto a Odette? — Deu de ombros.

— Quando eu saí da casa de Owl, ela e Olenna começaram a discutir. Como eu disse, Owl foi procurando os motivos mais ínfimos para matar as pessoas. Ele pode tê-la matado por causa disso, ou por causa de qualquer outra coisa, não importa. A velha está morta.

— E Owl também — Ethan sussurrou. Melchior engoliu em seco, todo mundo naquela sala parecia querer cuspir veneno.

O clima acalmou um pouco quando Lorenzo fez algo que não fazia desde o início do ano: riu. Começou com um pequeno grasno, tão diferente de uma risada quanto poderia ser, mas então tornou-se mais parecido com aquilo que deveria. Era engraçado ver aquela criança rindo a toa ali, quando todos os outros pareciam dispostos a matar.

— Eu disse que era ele, não disse? — Lorenzo indagou, com aquele sotaque italiano rasgado gostoso de ouvir. — Eu disse a vocês, mas ninguém quis me ouvir. Se tivessem me ouvido, ninguém estaria morto. Ou quase ninguém. Para onde ele foi?

— Para casa — sussurrou Melchior. — Está nos esperando.

OoO

— Owl, Owl, Owl, Owl — ele repetiu. Olenna não precisou ouvir muitas outras palavras para entender o que o rosto aterrorizado de seu neto queria dizer. Ergueu-se do sofá com uma coluna exageradamente ereta.

— Onde estão as chaves do carro? — gritou para a casa, mesmo vendo as chaves penduradas na parede do hall. Ottis Olrwen desceu as escadas a tempo de ver a mãe pegando as chaves enquanto puxava Owl consigo.

— Mãe, você não pode dirigir. — O olhar de Olenna foi assustador.

— Feche essa boca que eu ainda não estou inválida, ham. E ajeite essa gravata, está parecendo um mendigo. — Ela abriu a porta. — Mande nos buscarem no topo do Alta Vista, ham.

— Do… pico Alta Vista? — ele indagou, estarrecido. Olenna já estava no banco do motorista, com Owl ao seu lado. — O que vai fazer lá? E mandar quem?

— Você vai saber daqui a umas horas — respondeu. — Ou minutos, esses policiais estão tão desesperados que devem estar vindo para cá nesse momento.

O carro branco deslizou para fora da casa dos Olrwen e então do condomínio. Olenna seguiu rapidamente pela cidade de Middleland, dirigindo-se sempre a nordeste, ultrapassando sinais e guardas de trânsito. Talvez, no final daquilo tudo, Ottis tivesse alguns milhares de dólares em multas a pagar.

Logo chegaram a uma estradinha de terra sulcada com não muito mais que mato dos lados. Ao longe, plantações de tomates, morangos, melões, pêssegos, melancias e kiwis podiam ser vistas ao longe, pertencentes a fazendas de cultivo. Owl observou tudo aquilo com olhos enormes, como quando saíra da cidade para ver Piazzavuota, há tantas eras.

A subida pelo Alta Vista era íngreme e vertiginosa. O carro balançava o tempo todo e Owl sempre tinha a impressão de que fosse falhar a qualquer momento, deslizar para trás e despencar como um pedaço de pedra. Quinhentos metros acima, estava no céu.

Olenna saiu com ele do carro e seguirem a pé até o topo. Milagrosamente, ela não se cansou. Havia poucos turistas por ali, poucos carros também. Encostaram-se à cerca, observando a paisagem da distante Middleland lá em baixo.

— Você não fez porque quis, não foi, Rhanys? — sussurrou numa voz pura e pesada. Owl sentia o vento bater no rosto com violência, não pensava em mais nada, somente ali, naquele momento espetacular. — Minha coruja. Minha pequena coruja.

Owl estava no céu, literalmente. Fechou os olhos e quando abriu, seu Mundo estava lá. Havia rios muito abaixo dele, rios lindos de água pura e cristalina que se cruzavam e formavam desenhos lindos no chão. Com um estalar de dedos, Owl mudou seus cursos e eles tomaram outra forma. O céu era azul e branco e havia corujas voando por todo lado, deixando suas penas que tinham cheiro de grama depois da chuva. O pico era seu castelo, Owl decidiu que seria assim, e a cidade lá em baixo era seu reino. Formas de todas as cores dançavam no ar, montanhas colossais erguiam-se do nada, gigantes gelados e duros. O sol era quente e tranquilizador, o frio existia apenas para quem queria. Grama por todo lugar, cachoeiras com água que realmente era azul, um azul tão puro quanto seus olhos.

Owl encheu os pulmões com o ar de ouro que criara com os pensamentos e fechou os olhos pela última vez, antes de se entregar à vida vermelha e quente que escorria de sua garganta rumo ao além. Seus grilhões finalmente foram arrebentados.

Rhanys Olrwen morreu como suas vítimas. Em êxtase.

OoO

06h36min, vinte e quatro de maio.

Não havia mais ninguém no pico. Pela primeira vez em anos, Olenna chorava. Seu neto estava em seus braços, ainda com os olhos fechados e a garganta cortada manchada de vermelho, assim como a faca jogada a seu lado. Owl não dera um único grito de dor enquanto ela o cortava, simplesmente desfaleceu em seus braços.

Tivera que fazê-lo. Olenna Olrwen jamais deixaria a polícia tocar em neto, Rhanys era seu e sempre fora, matara sua mãe para tê-lo e não deixaria que o tirassem de si. Enquanto chorava, entoava com uma voz velha e cansada:

Uma coruja para o pão trazer.

Duas corujas para dar de comer.

Três corujas para a água procurar.

Quatro corujas para a sede saciar.

Cinco corujas para os sonhos trazer.

Seis corujas para viver e viver.

Sete corujas para da alegria ressurgir.

Oito corujas para teu amor sentir.

Nove corujas para você amar.

Dez corujas que amar-te-á.

Inconscientemente, sacudia-o para que acordasse. Ele não acordaria, mas também aquele rosto branco nunca mais ficaria triste, os olhos azuis tão puros e inocentes jamais veriam malícia novamente, seu corpo nunca mais seria tocado e conspurcado, aquele sorriso que dera no momento de sua morte nunca mais se desfaria.

Olenna Olrwen apertou mais seu neto morto contra si. Rhanys nunca parecera tão vivo em toda a sua vida.

OoO

Esse foi o fim de Owl, esse é o fim da nossa crônica e de todas as outras de todos os outros de Jardim de Ouro. Quer saber o que aconteceu com eles?

A polícia encontrou o corpo de Rhanys no pico Alta Vista bem ao lado de sua avó, Olenna Olrwen. Olenna estava morta, com trinta e seis facadas e um pentagrama nas costas. Depois do depoimento de Melchior e da averiguação de mais alguns fatos, concluiu-se que Owl matara Olenna e então se suicidara, mesmo que na autópsia do corpo dos dois tenha sido constado que Owl morreu antes de Olenna. Isso não foi divulgado, porém. A polícia de Middleland não queria mais aquele caso macabro em suas mãos. Até a atenção da rainha fora chamada para o caso que ficou mundialmente conhecido como O Massacre da Coruja.

No dia trinta de junho de 2013, London se mudou de Jardim de Ouro com Ron e seu pai, indo morar numa casa quase nos limites da cidade. Tentou manter contato com Melchior e Ritchi, mas, com o passar do tempo, suas relações foram escasseando. London acabaria por romper relações com eles inconscientemente com o passar dos anos. Nunca se recuperou totalmente da morte de Atena Gramp, mas fez mais amigos e passou a sorrir mais. Ele se mudou para os Estados Unidos ao terminar o Ensino Médio para fazer faculdade de História. A promessa de voltar a Middleland algum dia acabou não podendo ser cumprida; London nunca mais viu seus dois amigos, mas viveu uma vida relativamente feliz.

Farris e Ike Revonne se divorciaram pouco tempo depois da morte de Terry e Ritchi ficou com a mãe e a tia no Jardim de Ouro. Recuperou parte do movimento nas pernas e depois de alguns anos fez parte de uma experiência com células-tronco que devolveu quase cem por cento de seu movimento na coluna. Essa experiência foi feita pelo grupo médico de uma empresa chamada Anhert, relativamente pequena na época, mas muitíssimo bem administrada por aquele a quem a mídia chamava de O Novo John Francis Hentz. Fez faculdade de Medicina no Reino da Califórnia e se casou com Melchior quando cresceu. Você sabia que o casamento gay e o aborto são liberados na Califórnia, mas a maconha não? Estranho, não acha?

Os pais de Melchior foram os únicos que não se divorciaram, o breve caso de Farris e Leoh veio e foi em segredo. Melchior voltou à Escola Minerva, onde terminou o Ensino Médio. Você sabia que ele foi convidado a pular de ano cerca de quatro vezes, mas recusou todas, porque tinha medo de não conseguir manipular pessoas mais velhas que ele? Bem, de qualquer forma, entrou na faculdade de Psicologia com dezoito anos, formando-se com louvor alguns anos depois. Estabeleceu um escritório que logo se tornou famoso por seu dono, um adorável e inteligente rapaz de voz rouca e olhos púrpuras. Por influência de Ritchi, Melchior adentrou na política e tornou-se vereador da cidade de Middleland, elegendo-se duas vezes como membro do Parlamento Californiano e então governador do estado. Vinte e quatro anos depois da linha do tempo desta crônica, Melon Chioren tornou-se, com trinta e nove anos, o Primeiro Ministro mais jovem da história do Reino da Califórnia, tendo figurado por vários anos como uma das pessoas mais poderosas do mundo. Seus irmãos e primos cresceram para se orgulhar do irmão mais velho, todos herdando as fortunas que Melchior lhes deixou aos dezoito anos. Também nunca mais fez sexo com Marco. Oh, ele conseguiu terminar a série Lympharia, a propósito.

Olívia Olrwen divorciou-se de Ottis Olrwen pouco tempo depois da morte de Owl e Olenna. Tendo perdido, ao mesmo tempo, a mãe, a sogra, a esposa e o filho, Ottis cometeu suicídio no dia trinta e um de dezembro de 2013. Olívia se casou com um homem mais afável e fez novos tratamentos de fertilidade desenvolvidos pela Anhert, tendo conseguido engravidar de um menino louro de olhos azuis a quem nomeou de Rhanys.

E quanto a Nicholas, Ethan e Lorenzo? A história deles não acabou ainda, então não cabe a mim contar seu futuro. Mas no começo de junho, eles se mudaram de volta para o recém-construído prédio a apenas oitocentos metros da Academia Alphonse Enoi, deixando Jardim de Ouro e todos os seus fantasmas para sempre. Nick nunca conseguiria se recuperar totalmente da morte de Mia, assim como Ethan jamais conseguira se recuperar da de Oliver. E quanto a Lorenzo? Bem, no momento, é melhor permitir que Lorenzo cresça em paz.

OoO

É incrível como uma vida pode influenciar tantas outras em volta desta, como um cordão que a gente puxa dos dois lados e vai desfiando pelo seu percurso, mudando sua direção e seu destino. Oliver Castanelli criou Owl, criou Melchior, criou Ethan, criou Nicholas. Ele ainda sofreu depois de ter saído de Piazzavuota. Foi para Passodepedra, onde aconteceu o que sabemos que aconteceu, e faleceu em Castellobranco. Porém, entre Passodepedra e Castellobranco, morou em algumas outras cidades aleatórias, uma delas em especial onde nada demais aconteceu, apenas um garoto que roubou seus sapatos durante uma festa.

Notas finais
E esse é o fim do mistério da temporada. :DEu sei que esse capítulo está estupidamente grande, mas, bem, é toda uma VIDA narrada aqui. E ele estava maior. Quando eu o terminei, tinha 20.500 palavras, mas o limite de um capítulo no Nyah! é de 20.000 palavras, então tive que dar uma diminuída.Oliver apareceu nesse capítulo principalmente para mostrar que ele não era apenas um garoto com vários problemas mentais e psicológicos. Ele tinha um quê a mais, era diferente. Ele não era esquizofrênico como as pessoas pensavam, ele realmente podia ver fantasmas.A história do Reino da Califórnia surgiu pela necessidade de localizar o ambiente da fic. Eu sempre os imaginei nos EUA, mas eu não via os personagens como americanos. Escolhi a Califórnia porque me parece o único estado americano com possibilidade de se tornar independente, embora isso seja difícil nos dias de hoje. De qualquer forma, é só ficção. :DO epílogo da temporada sai dia 31, espero-os lá. E antes que eu me esqueça: feliz Natal a todos. :D