Notas iniciais
E aqui está o epílogo. :D

Notem minha sutil mudança de título do capítulo anterior. Q Nada no capítulo mudou, só o título mesmo. Parece bobagem, mas é importante se quiserem descobrir quem o estava narrando, afinal, os narradores são identificados pelos títulos.

Melchior respirou profundamente, sorrindo.

Mas que belo dia para uma revolução.

Durante a semana de provas, o campus da Academia Alphonse Enoi ficava praticamente vazio. Excluindo um ou outro funcionário fazendo afazeres desimportantes, nenhum aluno permanecia nos limites da escola após as provas, de modo que alguns minutos após o término das avaliações, todos já haviam ido embora.

Mas não ainda. Muitos alunos tinham o costume de chegar cedo e tentar, em menos de uma hora, absorver todo o conteúdo de um semestre inteiro. Coisa patética, mas que Melchior se divertia vendo. Contara pelo menos sete garotas diferentes chorando de agonia sobre folhas de caderno rabiscadas até o último espaço em branco. A pedido da direção, os professores aumentaram o nível de dificuldade das provas. Ninguém sabia disso, mas também ninguém precisava saber.

Melchior sabia. Ele sabia de tudo, ele estava em todos os lugares, ele podia fazer qualquer coisa. Nos últimos dias, andara estudando bastante os membros do fabuloso Conselho Escolar da Academia Alphonse Enoi. Sete mulheres e seis homens. Anteriormente, eram sete homens, mas Ernst Overgreen saíra para ocupar um cargo diferente. Todos ricos, todos influentes. Todos de nariz empinado.

Nelly Lockart Mondaine, Sylvia Otannis Mondaine e Carlotta Rue Mondaine eram irmãs, todas com mais de sessenta e cinco anos e, apesar disso, saudáveis como touros. Não morreriam muito em breve, Melchior temia. Vinham da família Mondaine, que tinha ramos no petróleo e todo aquele blábláblá de gente rica e esnobe. Gloria Athena Lamme era o membro mais velho do Conselho, tinha oitenta e dois anos bem vividos. Dera a volta ao mundo na juventude e, atualmente, era fundadora e matriarca de um império tabagista. Grace Merry Pree, cinquenta e seis anos, era dona de usinas de açúcar e fazendas frutíferas, Stefani Price-Pree era sua sócia majoritária. Sussurrava-se que elas haviam matado seus maridos para assumir o controle da empresa. Francis Sidney-Caument ostentava o que não tinha: a companhia farmacêutica de sua família fora comprada pouco antes de a Kruger-Vorheel ser desfeita, no ano 2000. No fim, fora dividida em várias partes até não sobrar nada da original. Treze anos depois, ela estava quase falida.

John Christian Medley afirmava ser parente distante de John Francis Hentz, coisa que Melchior sabia ser uma grande mentira. Tinha uma rede de hospitais decadentes espalhada por toda a Califórnia. Se ele tivesse mesmo uma gota de sangue Hentz, jamais deixaria seu negócio cair assim. Greyson Wright Welch e Edward Wright Welch eram irmãos que batalhavam entre si numa indústria midiática administrada por seus pais, detentora de vários jornais e de uma emissora de televisão de Middleland. Castiel Oswell Bones era primo de Isaac Storm Delaney, que ditavam um império de lojas de departamentos. Melchior sabia que eles tinham um caso. Jean-Louis Northwest Caument era marido de Francis Caument, assim como ela, a beira da falência.

De algum modo, toda aquela corja tinha algum parentesco distante ou não da original família Enoi, agora já extinta. Ernst Overgreen era o parente de sangue mais próximo do último Enoi legítimo que existiu, embora Hellen Page houvesse sido casada com ele. Mas Hellen fora tola o suficiente para se deixar ser pega. Se Melchior não a tivesse feito destruir todas as provas existentes (ou quase todas), a ex-diretora provavelmente teria sido presa.

Agora, Melchior respirava prazerosamente o ar puro do Campo Verde. Era dia três de junho, faltavam apenas vinte minutos para as oito horas da manhã e o sol brilhava forte lá no alto, mesmo sendo tão cedo.

Sentado num banco de madeira com um sobretudo cor de creme com detalhes escuros, Melchior sentiu alguém tocando seu ombro.

— Bem, já está tudo pronto, como você pediu — o garoto disse. Melchior não sabia o nome dele, sabia apenas que era membro do clube de audiovisual e que serviria para aquele propósito. Sabia também que ele instalara uma câmera no vestiário feminino e que certamente estava bastante desconfortável com isso. Estendeu-lhe três microfones sem fio. — Eles estão programados para refletir o áudio em todas as caixas de som da escola, todos ao mesmo tempo, basta ligar. Vai dar para ouvir até do lado de fora.

— Que bom ouvir isso. Não deveria estar fazendo as provas nesse momento? — Sua voz estava impregnada de sarcasmo.

— Eu tinha que escolher entre fazer segunda chamada e ser expulso — ele respondeu mal-humorado.

— É claro que sim. Pode ir agora.

O garoto se levantou emburrado até desaparecer entre dois prédios mais distantes. O áudio estava pronto, Melchior precisava apenas esperar Mistrees Heaven e Alecus Northist. O Conselho estava na diretoria, todos os seus ilustres e digníssimos membros. Coitados, nem sabiam o que lhes esperava.

Passaram-se alguns minutos até que sentiu alguém sentando-se a seu lado. Melchior pensava ser ou Miss ou Alec, e, por um segundo, não reconheceu o garoto ruivo ao seu lado. Mas então, com um gemido de espanto, identificou o rosto bonito de Nicholas Hentz, o último leão dourado… ou vermelho.

Já era estranho o suficiente Nicholas estar ali, mas daquele jeito era mais ainda. Havia um brinco em sua orelha esquerda e um transversal na direita, assim como um piercing prateado no canto inferior esquerdo de seu lábio e outro piercing preto em sua narina direita. Mas o pior era seu cabelo. Não estava comprido, liso e loiro como deveria ser, e sim curto e ruivo.

— Eu nunca entendi por que Ethan tem tanto tesão por você — ele disse. Sua voz estava incrivelmente rouca. Não, rouca não… grave. — Você é bonitinho e coisa e tal, mas… é bonitinho demais. Atraente demais. Sexy demais. Essa combinação nunca deu muito certo para mim.

— Do que é que você está falando? — Melchior indagou, sem saber como lidar com aquela criatura vermelha a seu lado.

— Quando eu acordei de manhã, eu fiquei na cama como de costume. Ethan me perguntou se eu queria ir à escola, mas para quê? Perdi um mês de aulas, até parece que mais alguns dias iriam adiantar. Depois que ele e Lore foram embora, me arrastei até a cozinha para me forçar a comer algo, mas eu estava tão sonolento que dei de cara com a porta. Havia rachaduras feitas com facas no batente, então eu percebi que foram usadas para medir alguém. Eu me medi. Estou com um metro e sessenta centímetros. Quando meus pais morreram, um ano e meio atrás, eu tinha um metro e cinquenta e três. Ethan tem um e sessenta e cinco há uns quatro anos, ele não vai crescer mais. — Nicholas riu, não aquela risada marota e adorável que normalmente tinha, mas uma coisa mais cínica e mesquinha. — Aí eu percebi que era meu aniversário. Feliz aniversário, Nicholas Hentz, eu disse a mim mesmo. Depois disso, tomei um banho e fui ao cabelereiro. Depois fui a uma daquelas lojas que fazem piercings. É sempre bom mudar, eu não mudava há quinze anos, então por que não? Meus pais morreram, eu descobri que tinha um meio-irmão, quase fui assassinado duas vezes na mesma noite, noite essa em que levei um belo de um tiro no peito. Minha namorada e meu filho foram mortos. Matei o ex-namorado do meu irmão. Ethan ainda não me viu assim, como acha que ele vai reagir?

— Acho que ele vai desmaiar.

— Talvez. Eu soube da sua revolução. Não sabia que eu costumava transar com a Miss? Bem, de qualquer forma, eu queria ajudar. Se nada der certo e eu for expulso, melhor. Estou cansado da escola. Desse ensino inútil.

— Você não vai ser expulso — Melchior disse firmemente. — Prometi a Miss e Alec que eles não seriam expulsos, e sempre mantenho promessas… quando são convenientes pra mim.

— É uma pena. — Nicholas se levantou. — Há algo que eu possa fazer? Me dê alguma coisa, qualquer coisa. Estou tentado a me jogar de um desses prédios.

— Não faça isso, Ethan me mataria. Mas há sim. Temo que muitos terceiranistas não sejam convencidos pela minha fala bonita, afinal, esse ano na escola vai definir como será a vida deles. Quando eu começar a falar e chamar todos para a diretoria, quero que você entre no prédio e comece a maior baderna possível, mesmo que veja que eles foram inflamados. Quanto mais fogo nessa fogueira, melhor.

— Eu sempre quis usar aqueles extintores de incêndio. Está bem, farei isso.

Nicholas se virou para a unidade do terceiro ano e começou a andar bem quando Melchior chamou seu nome de novo.

— O que é? — ele indagou.

— Feliz aniversário.

— Obrigado. Quem sabe esses quinze anos sejam melhores que os catorze. Espero não fazer nenhum outro filho, Ethan me daria uma surra. — Dito isso, virou-se e voltou a andar. Melchior recostou-se no banco, observando-o entrar na unidade do terceiro ano.

Ele cresceu. Não é mais uma criança. Estarei fazendo a coisa certa? Se não der certo, tudo que vou conseguir serão quatro expulsões vergonhosas.

Alec e Miss chegaram poucos minutos mais tarde, faltando apenas seis minutos para as oito horas. Ambos estavam nervosos como porcos antes do abate, mas Melchior não os culpava. Estavam perdendo as avaliações, afinal. Se tudo desse certo, no entanto, aquelas provas não teriam valor algum.

— Meus amores. Que bom ver vocês. — Notou que Alec estava sem nenhum piercing no rosto e Miss estava com o cabelo castanho.

— Se der tudo errado, talvez eles não nos reconheçam e não nos expulsem — ela explicou. — Patético, mas eu não tive paciência para tentar acertar o tom.

— Tudo vai sair bem. — Entregou-lhes os microfones. Melchior olhou seu relógio. Três minutos. Seu coração palpitava. As unidades do Ensino Médio e a do nono ano cercavam metade do Campo Verde, todas no campo de visão de Melchior. Os prédios fitavam-no ameaçadoramente, feras titânicas adormecidas sob opressão e descaso. Lambeu os lábios. Respirou fundo.

— Espero que dê — disse Alec, inconscientemente lambendo os lábios. — Estamos perdendo prova.

— Não seja covarde — Miss sussurrou.

Às oito horas da manhã em ponto do dia três de junho de 2013, no Campo Verde da Academia Alphonse Enoi, na cidade de Middleland, dois microfones foram ligados.

— Agora — Melchior sussurrou.

Uma melodia começou.

Eu não preciso de atenção, eu os tenho na minha mão.

Eu sou o inocente delator, que te rima com louvor.

A lição de hoje é sobre como se portar depois da aula, eu vou te contar.

Andrew Miller e Ally Dimmoal no laboratório de audiovisual.

Em janeiro desse ano, Beeny e Branca Rommik por baixo dos panos.

Cassandra Jim e Carly Kay-noh-lim nos belíssimos jardins de jasmim.

— Beeny e Branca Rommik não são irmãos? — indagou a eles. Miss, que tinha os olhos brilhando cheios de alegria, assentiu positivamente. A voz dela era pura e sem uma falha sequer. Melchior olhou para as unidades. Era possível ver um movimento suave, mas ainda cru. Fitou-os. — Continuem.

Nicholas Hentz e Daniella Schultz tiveram um caso de amor.

De baixo da arquibancada, durante o Verão de Sandor.

Nicholas Hentz e Marie-Jean Lynn, Nicholas Hentz e Kelly di Jasmim.

Nicholas Hentz e Donna Reed, Nicholas Hentz e Casey Coin.

Nicholas Hentz e Anne Preed, Nicholas Hentz e Phoebe Hoin.

Era isso. Com o passar dos segundos, mais e mais rostos curiosos foram aparecendo nas janelas dos quatro andares das unidades do Ensino Médio. As vozes de Alec e Miss eram ouvidas aos quatro ventos, tão altas quanto trovões. Melchior ligou seu microfone e respirou fundo, amaldiçoando-se pela tremedeira nas mãos. Há quanto tempo não enfrentava uma multidão daquelas?

— Olá, meus queridos alunos da Academia Alphonse Enoi! — A voz de Melchior podia ser ouvida em cada canto da Academia. Ele sentia o poder que tinha nas mãos. — Lembram-se dessa música? Tenho certeza que os mais veteranos sim, é a versão mais atualizada de Ensino Médio Inocente. Afinal de contas, eu vim para cá esse ano e só fui saber dela há pouco tempo, mas não importa. — Melchior apertou mais o microfone com as mãos. Sentia-se mais confiante. — Como estão as provas?! Difíceis, tenho certeza. E desde quando ficaram tão difíceis? — Silêncio total. — É uma pergunta, minha gente.

Desde que o Overgreen assumiu a direção! — Nicholas Hentz berrou do teto da unidade do terceiro ano. Parecia radiante. Se a música fosse citar todas as garotas que ele comeu, não terminaria nunca.

— Quem está cansado de Ernst Overgreen? — Melchior indagou às centenas de olhares curiosos que se amontoavam nas janelas dos prédios. Nós estamos!, alguns gritaram de volta, menos do que Melchior gostaria. — É claro que estão, afinal, quem foi que encurtou as férias do terceiro ano em duas semanas? — Overgreen, Nicholas gritou, que Deus o abençoasse. Algumas pessoas berraram de volta também, concordando. — Quem foi que suspendeu a turma Quarta do segundo ano inteira simplesmente porque parecia a coisa mais lógica a se fazer? — Overgreen! — Quem cancelou os campeonatos desportivos da Academia? — Overgreen! — Quem colocou provas em todos os sábados? — Overgreen! — Quem foi… — Melchior subiu no banco, passando a urrar no microfone. — Quem foi que instituiu aulas todas as tardes para o Ensino Médio inteiro? — Overgreen! — Quem é o maior ditador que essa escola já viu?

O nome berrado foi o mesmo. Melchior deixou aquela música agourenta e deliciosa dançar em seus ouvidos, observando a ira se inflamar à medida que os professores tentavam estabelecer ordem nas coisas, mas não adiantaria. A brasa estava acesa. Só tendia a aumentar até se tornar uma chama.

Virou-se para Miss e Alec.

— Cantem. — Eles cantaram.

Nicholas Hentz no vestiário feminino, sete garotas e um sexo divino.

Zooey, Lacey, Anna e Dana. Essas, oh, quem não ama?

Cheryl, Carry, Alexia e Dean. Oops, é, um garoto assim.

Mas professor Joony e Davis Beammy num caso de se tremer.

Doze anos ele tem, mas, meu Deus, como sabe gemer!

No mesmo vestiário estavam que o leão dourado, tão honrado.

E apesar disso, aquela orgia nem um piu deu, oh, que mania.

— Sério, Davis Beammy? — Melchior indagou, sobressaltado. — Aquele garoto fofinho de doze anos tem um caso com o professor de educação física?

— Ele gosta de sadomasoquismo — Alec respondeu, sorrindo.

— Vocês são melhores que eu. Continuem.

Clark Ehoi e Minnie Estevez, quem não adora aquele amor deles?

Minnie Estevez e Christopher Senna, numa traição de da-ar pena.

Christopher Senna e Clark Ehoi, dentro dos armários da Enoi.

Quem diriam os olhos violeta, que eles não gostam tanto assim de boceta?

— O que é que nós queremos? — Melchior gritou no microfone. Várias pessoas berraram respostas incompreensíveis. — Nós queremos Ernst Overgreen fora dessa escola! — Um urro de aprovação. — E quando nós queremos isso? — AGORA! — Agora, meus amigos. Eu não sei se vocês me conhecem, mas meu nome é Melon Chioren, também conhecido como Senhor do Mundo! — Melchior sorriu largamente. — É isso mesmo, eu sou ele. Sou eu quem vem desafiando a diretoria da Academia Alphonse Enoi durante todo esse tempo, sou eu quem vem enlouquecendo o nosso cruel diretor. E sabem por quê? Porque, assim como vocês, eu o quero fora daqui! — Mais gritos de aprovação. Melchior percebeu que Nicholas desaparecera do telhado do prédio do terceiro ano. Já era hora. — Sabem o que eu quero que vocês façam? Eu quero que vocês peguem cada folha de prova que vocês tem na mão, amassem e atirem pela janela! Isso, desse jeito! Quero que vocês mostrem às autoridades dessa escola sua insatisfação, quero que vocês mostrem que a voz do povo é a voz de Deus!

Melchior mordeu o lábio inferior. Uma chuva de papel caiu, lenta como uma gota d’água. Bolinhas amassadas e folhas inteiras cortavam o ar, pousando na grama verde do Campo Verde. Melchior abriu os braços como em uma chuva de verdade, deixando os pedacinhos de papel picado chocarem-se contra seu rosto. O tempo parecia estar passando mais devagar. Aquele era seu mundo; ali, ele era deus. E os alunos eram seus servos.

— Cantem.

Lisa Hannigan e Florence Meem, quando estavam no jardim.

Dancer Colerman e Audy Hannos, no telhado dos terceiros anos.

Os segundos acobertaram Page Day e Mike Kiton, que se apertaram.

Gabrielle James, não é santa por inteiro. Tocou-se sozinha lá no primeiro.

Merrick Carm no nono ano, a substituta acabou servindo.

Sua namorada grávida que o diga, oh, que lindo!

— Se depender de mim, Ernst Overgreen deixará essa escola hoje — voltou a dizer no microfone. Papel branco riscado e pautado cobria o chão como um lençol. — Ele está na diretoria, assim como os outros do Conselho Escolar. Estão todos lá! Sabem o que vocês precisam fazer? Vocês precisam ir ao prédio da diretoria e dizer aos poderosos que controlam nossa amada escola que não queremos mais Overgreen aqui. Quem nós queremos? — Um berro monumental respondeu: Hellen Page! — E quando nós queremos? — AGORA! — Vão! Deixem as salas! Deixem os prédios! Vão à diretoria! Protestem! Usem de seus direitos! Mas não quebrem nada, nem vandalizem a escola. Vão, AGORA!

Nesse momento, o alarme de incêndio da unidade do terceiro ano tocou. Melchior não soube dizer como Nicholas fizera aquilo, mas funcionou. Os alunos que estavam indecisos em sair ou não foram forçados a deixar as salas quando a água destruiu suas provas. Não havia mais o que fazer.

— Quando eu entrar no prédio da diretoria, vocês voltam a cantar e não param até que eu saia — disse a Miss e Alec. Eles assentiram.

— Melchior, Melchior! — Alguém o chamou. Era Ethan. Estava ensopado e ofegante, provavelmente fora arrastado pela multidão do terceiro ano porta afora. Melchior tinha plena certeza que ele era um dos que só saíram por causa do alarme de incêndio.

— Olá, que bom ver você. — Sorriu. — A propósito, já te devolvi o dinheiro que me emprestou, transferi o dinheiro para a sua conta bancária ontem.

— Não me importo com o dinheiro… quer dizer, me importo sim, mas o que diabos você está fazendo?

— Ethan, o que você acha de cabelos ruivos?

Ele franziu as sobrancelhas, confuso.

— O quê?

— Venha, vamos à diretoria. Temos uma diplomacia a tratar.

Atravessaram a multidão que se formava em frente ao prédio branco e baixo; as pessoas deixavam Melchior passar de bom grado, admirando-o como se fosse um deus. Seu sorriso cínico e confiante ajudava bastante.

Fechados dentro do prédio, aparentemente sozinhos, ouvindo os gritos da multidão lá fora, Melchior deu um selinho em Ethan.

— Estou fazendo o que todos vocês deveriam ter feito há muito tempo, mas não fazem porque são grandes imbecis.

— Você é tão doce — Ethan sussurrou, beijando-o firmemente de novo. Melchior abraçou-o pelo pescoço, sentindo-o envolver sua cintura com os braços. — Sua boca também.

— É claro. Agora vamos, leão negro, nós temos alguns outros titãs a derrubar. A sala do Conselho fica no último andar.

A música Ensino Médio Inocente podia ser ouvida até dos alto-falantes da diretoria. Melchior contou o nome de Nicholas, pelo menos, mais quarenta e nove vezes, além de o de Robb também. Ele realmente estava explorando mais a própria sexualidade, pelo menos era isso o que aqueles dois meninos e três meninas faziam parecer.

As portas da sala do Conselho eram feitas de mogno polido e bem trabalhado, marrom com detalhes pretos. Quando Melchior as abriu, sentiu-se numa Corte Suprema. As pessoas que o olhavam possuíam um patrimônio que, somado, ainda assim era menor que o de Ethan. Incrível.

— Mas vejamos só! — entoou. — Quantas pessoas poderosas temos aqui. Espero que não se importem de eu estar destruindo sua escola, foi algo necessário.

Nelly, Sylvia e Carlotta Mondaine eram três velhas de nariz empinado e busto largo, sentadas lado a lado em cadeiras de madeira de quatrocentos dólares, onde cada uma parecia uma versão mais velha e mais asquerosa da anterior. Gloria Lamme, magra e seca como a brasa de um palito, fumava um charuto largo, mesmo que fosse claro que era proibido fumar naquele prédio. Parecia já ter nascido velha. Grace e Stefani Pree pareciam árvores de Natal e também se assemelhavam vagamente com aranhas. John Medley era o homem mais gordo que Melchior já vira na vida, com um enorme bigode branco acima da boca. Seus três queixos assemelhavam-no com um animal marinho e seu cabelo da cor da neve parecia ter sido preto na juventude. Ele podia ser parente da rainha, mas não de John Francis Hentz. Greyson e Edward Welch eram dois príncipes bonitos e mimados; Melchior teve a ligeira sensação de que eles iam começar a chorar e a pedir babadores a qualquer momento. Castiel Bones era um anjo louro de olhos claros, jovem e musculoso. Isaac Delaney era um tanto sinistro, pálido, com o cabelo da cor do petróleo, um ar taciturno o envolvia. Jean-Louis e Francis Caument tinham olheiras do tamanho de pedras de carvão.

— Não sei se me conhecem, mas meu nome é…

— Melon Chioren — Gloria respondeu, baforando uma nuvem de fumaça. Por um momento, Melchior se assustou com a voz da velha. Parecia uma assombração falando, de tão grave e rasgada. — Você é o merdinha que começou com tudo aquilo lá fora. É mais bonito que pensei.

Melchior simpatizou imediatamente com ela, mesmo sua voz estando envenenada de cinismo.

— Gloria Lamme, a única mulher do século XXI cuja obra durará mil anos. E que estará lá para ver. A senhora fede a câncer de pulmão.

— Gentileza sua. Agora faça-nos o favor de acalmar todos aqueles bastardos lá fora.

— Faço. Assim que tirarem Ernst Overgreen da direção.

A sala do Conselho tinha praticamente um andar, onde, no superior, estavam as cadeiras dos membros, dispostas não lado a lado, mas em formato de U, retaliadas pelo balcão único. Melchior estava no piso inferior, onde apenas uma cadeira encontrava-se sozinha e solitária, de frente às catorze pessoas que controlavam a Academia. Apesar disso, a distância entre os dois pisos não passava de um metro e meio.

— O que tinha na cabeça para começar uma rebelião como essa, rapaz? — indagou John Medley, que, afinal, parecia ser o presidente do Conselho, sentando-se bem na cadeira do meio. Melchior deu de ombros inocentemente.

— Eu não gostava de fazer provas todos os sábados e, apesar de não gostar de esportes, achei extremamente injusto Overgreen ter tirado os campeonatos.

Era difícil se concentrar quando as vozes de Alec e Miss ecoavam pelas caixas de som.

— Eu acho que você está muito encrencado.

— E eu acho o senhor parecido com uma morsa. — Risos. — Eu não me intimido com vocês, para falar a verdade. Sei que são todos ricos e poderosos e poderiam me fazer sumir hoje mesmo para nunca mais aparecer, mas, no fim, vocês só são o que têm, dinheiro. Olhem nosso querido casal Caument. Estão quase falidos, tanto que os senhores discutem, longe da presença de Jean-Louis e Francis, a permanência deles no Conselho.

O casal olhou para os outros membros com uma surpresa que logo virou hostilidade. De repente, estavam todos discutindo, cheios de raiva acumulada. Melchior sorriu cruelmente. Ethan estava parado pouco atrás de si, estático. Seus olhos pareciam não saber o que expressar quando viram os púrpuras fitando-os.

— Você está brincando com fogo — ele disse. Melchior deu de ombros.

— Já brinquei com leões e corujas, fogo é o de menos. — Virou-se de volta para o Conselho. — Escutem bem! Há uma multidão raivosa lá fora, nada vai fazê-los parar de protestar. Eu os incitei, então apenas eu posso desestimulá-los. Mas eu sou uma pessoa bastante impaciente. Vocês têm até o meio-dia para apresentar uma destituição formal de Ernst Overgreen e a nova coroação de Hellen Page.

— Hellen Page é uma ladra — disse Grace Pree.

— E você matou seu marido para ficar com as usinas dele, todos cometemos erros. Se não fizerem o que eu pedi até às doze horas de hoje, vou autorizar os alunos a vandalizarem a escola. No fim, não terão mais nada, a não ser destroços e lágrimas. Espero a resposta de vocês.

Ao contrário do que Ethan certamente pensava, Melchior não desceu o prédio. Pelo contrário, subiu o telhado pelas escadas de incêndio. Lá fora, o sol rugia no céu com força total, um gigante dourado pairando sobre suas cabeças. O vento estava quente e seco, como que predizendo o verão que viria. Sentou-se no parapeito do prédio, observando a rua Symphonia. A multidão estava no lado oposto do prédio, seus gritos ainda podiam ser ouvidos.

— Você é a pessoa mais impressionante que eu já conheci — Ethan disse, deixando o vento bagunçar seus cabelos escuros. — É o mocinho e o vilão ao mesmo tempo, dependendo do ponto de vista.

— Todo vilão tem a mocidade dentro de si, assim como todo mocinho tem a vilania. Sempre depende do ponto de vista. Você sabia que foi descoberto na autópsia do corpo de Olenna e Owl que Olenna morreu depois de Owl? Ela não tem como ter se esfaqueado e desenhado um pentagrama nas próprias costas.

— Me pergunto quem fez isso.

— Talvez nunca saibamos… e provavelmente é melhor não sabermos, tanto que a polícia certamente não divulgará essa informação. É melhor varrer essa roupa suja para debaixo do tapete dourado de Jardim de Ouro e seguirmos com as nossas vidas. Olenna matou Owl para ele não ser pego, mas quem quer que a tenha matado, não nos fez mais que um favor. E então, Eth? Você ainda acha que o Jardim é um amontoado de pequenas caixas, todas iguais?

— Não — ele respondeu sonhadoramente. — Só porque o exterior é igual, não quer dizer que o interior também seja. Todo mundo tem roupa suja, mesmo que esteja debaixo do tapete. Todo mundo tem seus próprios problemas pessoais, suas brigas, desavenças, traições, amores e perdões.

— Nem tudo que reluz é ouro, não é?

— É.

Melchior olhou para o lado direito da rua, onde, a pouco mais de oitocentos metros, um novo prédio erguia-se. Número 266, reinando como o mais alto do bairro Dion.

— Ele foi inaugurado hoje — Ethan sussurrou, olhando para o mesmo prédio. — Não tem mais vinte e três andares, agora tem vinte e quatro. Adicionaram um andar para a cobertura. Agora é um duplex.

— O seu duplex, eu imagino. — Ethan sorriu.

— Fui a primeira pessoa a comprar um apartamento lá. Também comprei um carro, eu te disse? Ele deve chegar no dia dez desse mês, no meu aniversário. E contratei um motorista e uma empregada. Percebi por que a escola tem sido tão cansativa, cuidar dos afazeres de casa me deixava exausto. A irmã de Enzo Granelli e tia de Luca, Estella Granelli, me vendeu a casa por oito milhões de dólares, um preço ridiculamente baixo para um imóvel que é praticamente um castelo. Mas depois da fundação daquele condomínio fechado de castelos em Los Angeles, as pessoas têm tido um interesse cada vez maior por casas nesse estilo. Bem, ontem eu vendi a casa em Jardim de Ouro por trinta e dois milhões de dólares, não é incrível? Claro que ela valia mais, mas, com o Massacre da Coruja, desvalorizou bastante, sem falar que seu ex-dono era um chefe da máfia, mas enfim. Ainda não contei nada disso ao Nick nem a Lorenzo, mas contarei hoje. Nos mudaremos de volta hoje ou amanhã, eu acho.

— Está dizendo que vai deixar Jardim de Ouro? — Melchior indagou inocentemente. Sentia-se triste com isso, gostava muito de Ethan, mas ele era uma tentação grande demais. Melchior não queria mais trair Ritchi, queria ater-se a ele, só a ele. Fizera coisas das quais não se arrependia para ficar com ele, não desperdiçaria tudo. De novo.

— Vou — Ethan respondeu, acariciando seu rosto. — Também comprei um piano de cauda para Lorenzo. Ele voltou a sorrir. A depressão dele acabou. Isso me faz tão feliz… embora quem esteja agora assim é Nicholas. Acho que vou levá-lo a um psicólogo, ele talvez goste disso. Ele não sai da cama há um mês.

— Ele saiu. — Não foi Melchior quem disse isso, nem Ethan. Ao olhar para trás, viu curtos cabelos ruivos em pé atrás deles. Melchior olhou para Ethan. Sem esboçar nenhuma reação, ele franziu as sobrancelhas. Achou graça naquilo, ele não reconhecia o próprio irmão.

Teve que segurar o riso ao vê-lo arregalando os olhos.

— Nicholas… Hentz? — gaguejou.

— Ethan Lemnsack — Nicholas respondeu, sorrindo. Parecia ter quinze anos pela primeira vez na vida, os piercings e o brinco envelheciam sua imagem infantil. Ethan parecia à beira de um ataque histérico.

— V-Você… S-Sua voz fina de criança, seu cabelo, seu lindo cabelo dourado, seu cabelo Hentz, o que você fez com ele?!

— Cortei tudo — respondeu afetadamente. — E passei química vermelha por cima, para terminar de foder meus folículos capilares. Também pus um brinco, um transversal e dois piercings. Doeu como o diabo, mas eu não gritei. Está orgulhoso de mim, maninho? Sempre quis ser ruivo.

— P-P-Por quê…? — ele indagou, horrorizado.

— Preferia que eu tivesse pintado de loiro platinado? Talvez eu devesse colocar umas lentes azuis também. Sei que você adora um loirinho de olho azul. Sonhei com Oliver esses dias, ele me disse pra fazer isso. Bem engraçado ele me dar um conselho desses, sendo que eu o matei.

Melchior franziu as sobrancelhas.

— Você o quê?

— Você sabe sobre Oliver? — Nicholas indagou, levantando as sobrancelhas. — Eu que disse a localização de Ethan e Ollie para aqueles skinheads que o mataram. Tinha apenas onze anos, porém. Não foi bem minha culpa.

Melchior sentiu-se subitamente tonto e enjoado. Ficou de joelhos, apertando o estômago, de cabeça baixa. Quando levantou a cabeça, seus olhos estavam cheios de lágrimas.

— Foi você, a culpa é sua. Eu passei meses pensando que a culpa fosse minha, mas foi sua!

Nicholas não parecia estar se importando, apenas levemente confuso.

— Não foi não — Ethan sussurrou, olhando para Melchior. Havia a maior ira que Melchior já vira na vida em seus olhos, uma ira profundamente enraizada. — A culpa não foi sua, a culpa não foi dele, a culpa foi daqueles que mataram Oliver, estes que, agora, descansam eternamente no fundo do mar. — Aproximou de Melchior e sussurrou em sua orelha: — Não quero mais ouvir você culpando meu irmão pelo que aconteceu, e também não quero que se vingue dele de nenhuma maneira, Melon Chioren. Você tem o poder que poucos têm, mas da mesma forma que eu matei oito pessoas, posso perfeitamente matar você se tocar num único fio de cabelo Hentz, Lemnsack ou Barcarolli.

Ethan passou a fitá-lo com aqueles olhos totalmente desprovidos de cor. Não eram castanhos muito escuros, como a maioria das pessoas de olhos pretos, mas sim de um negro vivo e pulsante. Melchior sentiu-se mergulhando numa xícara de café puro. Era muito quente, mas então alguém a encheu de água e tudo ficou gelado. Os berros da multidão enfurecida sumiram, assim como o vento que bagunçava seu cabelo.

— Meu rei… — Melchior sussurrou — eu sou seu escravo.

Teve a vaga impressão de vê-lo sorrindo.

Menos de uma hora mais tarde, estava novamente na sala do Conselho com Ethan e Nicholas.

— Como eu disse, sou uma pessoa bastante impaciente — disse a eles.

— Não é sequer meio-dia — rosnou Nelly Mondaine.

— Por que é que essa mulher me lembra tanto assim de um abutre? — Nicholas indagou. Melchior riu. Ethan se aproximou.

— A questão é a seguinte, meus digníssimos senhores — entoou. — Faço dezoito anos daqui a uma semana e pretendo recriar a Kruger-Vorheel sob outro nome, acho que ter uma cadeia de escolas pode ser um bom começo, vocês não acham? O que acham então de eu começar com um exemplar bastante valioso, que tal a última Academia Alphonse Enoi do país? — Um suspiro coletivo tomou a sala. — Creio que o poder vai subir a minha cabeça, vou dar a louca e fazer como Samuel Hentz: dissolver o Conselho. Não preciso desses velhos abutres pairando sob minha cabeça, vigiando cada centavo que entra e sai. Pessoalmente, nunca tive tempo para pessoas honestas demais.

Menos de meia hora depois, Hellen Page estava num palanque improvisado em frente à diretoria. Gloria Lamme, o membro mais velho do Conselho, pôs a facha de diretora sobre ela e apertou sua mão primeiro, como mandava a tradição, logo seguida pelo segundo mais velho e assim suscetivelmente. O último a fazê-lo foi Ernst Overgreen, que parecia ter envelhecido dez anos. Melchior descobrira-o escondido num armário da diretoria, tremendo de medo. Não importava. Ele não ficaria muito tempo mais no Conselho.

Quando terminou seu discurso, Hellen foi recebida por uma salva de palmas monstruosamente grande. A essa altura, havia toda uma cadeia de repórteres e jornalistas ali filmando tudo. O movimento revolucionário foi tão grande que chamou a atenção de uma emissora de TV de Middleland, que televisionara os alunos protestando em frente à diretoria. Agora metade da cidade sabia daquilo, e, depois daquela noite, provavelmente metade do país saberia também.

É claro que alguém acabou avisando aos repórteres que fora Melchior quem começara a rebelião que agora era chamada de Revolução M. Melchior encontrou-se preso dentro de uma multidão com meia dúzia de microfones em sua boca, sorrindo para câmeras que o fotografavam todo tempo.

Meu rostinho bonito em todas as televisões do país. As crianças vão me ignorar, os adolescentes vão me idolatrar, os pais vão me chamar de filhinho-de-papai mimado. Como não podia deixar de ser.

Respondeu a todas as perguntas com um ar extremamente carismático e convincente. Sorria o tempo todo, vestindo a máscara de bom moço que conhecia bem e que tão bem lhe servia.

Num dado momento, alguém lhe perguntou:

— Não acha que sendo a Alphonse Enoi uma escola particular, seus donos têm o direito de escolher quem deve dirigi-la?

Melchior arqueou as sobrancelhas, dando um sorrisinho inocente.

— Mas ora essa, eu não os obriguei a mudarem o diretor. Eles mudaram por opção própria. E assim como eles têm esse direito, os alunos têm direito de protestar. Porque se o povo não tivesse esse direito, que é absolutamente inalienável, nossa rainha não seria mais que uma ex-governadora e a Califórnia ainda faria parte dos Estados Unidos, não é mesmo?

Era mesmo. Melchior foi ovacionado calorosamente. Até os repórteres, que teoricamente deveriam ser imparciais, o fizeram. Ele era um mártir.

No fim daquela manhã, encontrava-se sozinho na sala de Hellen Page com ninguém mais que a nova diretora.

— O que eu devo pensar de você? — ela indagou, olhando pela janela a bagunça que os alunos fizeram no campus. Nada estava quebrado, felizmente.

— Que eu sou um amorzinho.

Hellen riu baixinho, ainda que inconscientemente.

— Acho que o mínimo que posso fazer é agradecê-lo. Sua irmã foi morta no Massacre da Coruja e, mesmo assim, você achou confiança suficiente para montar uma rebelião.

— Quando algo ruim me acontece, ao invés de ficar sentado me lamentando, prefiro me levantar e empurrar quem me empurrou primeiro. É assim que Melchior é. Mas há algo mais que a senhora pode fazer.

— Diga.

— Quero que esqueça que Alecus Northist e Mistrees Heaven cantaram Ensino Médio Inocente outra vez. Os alunos não a deixarão fazer isso, mas gostaria imensamente que eles não fossem punidos. A música estabilizou o ânimo da multidão pelo tempo que foi necessário.

— Está bem, nada acontecerá a eles. Mais alguma coisa?

— Sim, institua os campeonatos desportivos de novo, tire as provas dos sábados e as aulas à tarde do primeiro e segundo anos.

— Pensarei nisso.

— Obrigado. A senhora ganhou uma popularidade notória, tanto que os alunos estão dispostos a se esquecerem do pequeno deslize que você cometeu. O Overgreen não será mais problema, ele certamente será expulso do Conselho.

— Tomarei cuidado para mantê-la. — Ela deu uma pausa, esfregando as têmporas. — Eu estudei nessa escola com Fayonir, você sabia? Quando nos casamos, meu sonho sempre foi dirigir essa escola com ele. Quando ele morreu, me vi sozinha lutando contra tubarões que me odiavam por não ter parentesco com os Enoi. Apesar disso, todos aqueles que têm não passam de grandes filhos da puta incompetentes.

Melchior riu.

— Talvez por isso todas as outras Academias faliram. Espero que não aconteça o mesmo com essa. Gosto daqui, por algum motivo. Porém, aqui não é meu lugar. Depois desse semestre, voltarei para a Escola Minerva. Estou melhor lá, cuidando dos meus irmãos e mudando as notas secretamente. Eu nunca fiz isso aqui, a propósito.

— Eu duvido muito — Page disse, sorrindo.

— Acho que vou indo agora, senhora diretora. — Melchior se levantou e caminhou até a porta, mas antes de sair, ela o chamou de novo. — Sim?

— Obrigada.

— De nada. Boa sorte na sua nova dinastia.

Enquanto caminhava para o portão de saída do Campus, Melchior observava o mundo a sua volta. Ao longe, Ethan estava com Lorenzo no colo e Nicholas ao seu lado. Falava com eles, provavelmente sobre a mudança. Eram uma família bonita, certamente incomum, mas que passara por tudo e ainda passaria por muito mais. Robb e Marco foram encontrá-lo logo depois. Melchior deu um beijo na bochecha de cada um e os puxou para fora do mundo da Academia Alphonse Enoi para sempre, sempre cantarolando uma música curta, de um só verso, entoada em marcha militar:

Pequenas caixas, ele disse! Vamos todos compartilhar! Porque se o Nicholas virar um playboy, o Ethan vai chorar! Pequenas caixas, ele disse…

OoO

— … dezoito anos, eu acho.

— O quê?

— Ele tem dezoito anos, eu acho.

— Ah… você disse a primeira parte dessa frase há umas duas horas.

— Oh, desculpa, eu apaguei?

— Sim, de novo.

— Me desculpe. Sabe que eu não faço isso de propósito. Tanto que nem percebi que disse a primeira frase há tanto tempo. É como se eu estivesse num mundo diferente… onde eu sou deus. Ah, vai, não fica com essa cara. Você vai me desculpar?

— Talvez…

— Você vai, você me ama, e eu te amo. Nós somos um só, partes divididas da mesma alma.

— Amo sim, imensamente. Conte-me uma história. Adoro ouvir sua voz rouca contar uma história.

— Você quer uma história?

— Sim. Então eu te perdoarei.

— Tudo bem… eu tenho uma história. Era uma vez um garotinho azul e branco que vivia com seus pais num chalé bastante aconchegante, mas que ficava num país muito gelado e escuro, onde as Sombras se deitavam. Seus pais estavam sempre trabalhando e não gostavam muito dele, por isso o menino sempre ficava em casa com suas babás. Mas uma de suas babás era muito velha e sempre adormecia repentinamente. Numa dessas ocasiões, o menino saiu para o quintal de neve de trás do chalé. Vários pinheiros centenários o rodeavam, mas era possível adentrar na floresta mesmo assim. O menino gostava de caçar sonhos, era assim que ele se chamava, o caçador de sonhos. Os sonhos que ele via eram pessoas, pessoas que não existiam, que as pessoas diziam que não existiam, mas ele as via. Ele as sentia. As pessoas falavam com ele, contavam suas histórias, seus sonhos. Eram bem vestidas ou estavam dentro de trapos, eram homens e mulheres, adultos e crianças. Todas muito pálidas e com uma aura azul brilhante em volta delas. O caçador de sonhos sorvia cada história de vida com sofreguidão. No fim, era como se ele tivesse vivido todas aquelas vidas, embora elas não existissem. Num certo dia, ele estava ouvindo uma história quando o sonho escapou de sua visão e entrou na floresta. O caçador acabou seguindo-o mata adentro, mas andou tanto que se perdeu. As Sombras o tomavam de todo lado, o inverno chegara frio e cruel. O tempo passou e o caçador não fora encontrado. Seus pais chamaram uma equipe de busca que usou até helicópteros para procurá-lo, mas o caçador não era encontrado. Ele não sabia como sobrevivia, simplesmente se enfiou no fundo de uma árvore oca e se encolheu, aquecido pelos sonhos. Então, ele foi encontrado. Não por quem o procurava, mas sim por quem o encontrara por acaso. Era uma mulher, muito alta e branca. Ela o levou para sua casa e cuidou dele até que se aquecesse. Toda noite, a mulher cantava para ele com a voz mais bonita que a humanidade jamais conseguiria imaginar. A voz da mulher era azul, assim como seus olhos. Depois de o caçador estar quente e forte, ela o deixou na beira de uma estrada e foi embora, dizendo que ficasse ali. Dois minutos depois, um carro passou por ali e o levou para casa. Seus pais o receberam de volta aos prantos, perguntando como sobrevivera por mais de um mês na neve. Ele dissera que uma mulher o acolheu numa cabana bonita e marrom no meio da floresta, mas quando ele levou a equipe de busca até lá, a cabana se revelou em ruínas. Ela sequer tinha teto, as janelas estavam todas quebradas e vários animais se abrigavam lá dentro. Diziam que aquela cabana estava abandonada há mais de cinquenta anos. Era estranho, porque o caçador tinha certeza que era aquela a cabana da mulher.

— Quem era a mulher?

— Uma pessoa, uma bruxa, uma fada, uma elfa, um anjo, Deus, o Diabo? Ou talvez todos eles misturados, como a antropomorfização dos sonhos do menino. Talvez ela existisse ou talvez tivesse sido tudo loucura da mente dele. Mas então, como explicar sua sobrevivência? Ninguém sabia. O menino passou a ser tão assediado que seus pais tiveram que se mudar de país, se instalando num hotel de luxo de uma cidade pitoresca de nome italiano, onde o caçador de sonhos reencontrou as Sombras que se revelaram morarem a seu lado.

— Elas ainda o seguem?

— Ainda, mas o caçador cresceu e agora a humanidade tenta afastá-las dele, embora não da forma que ele gostaria. A propósito, já são três horas, Ethan. Meus remédios estão dentro da gaveta, faça o favor de pegá-los para mim, sim?

— Aqui estão, Ollie… Eu te amo.

— Por que você me ama?

— Eu te amo porque você é meu, eu te amo porque você precisa de amor. Eu te amo porque quando estou com você, me sinto completo, feliz. Te amo porque quando eu olho para os seus olhos azuis, me sinto em outro mundo só nosso.

— Eu também te amo.

— Por que você me ama?

— Eu te amo porque eu sou seu, eu te amo porque você também precisa de amor. Eu te amo porque eu me sinto um mártir quando olho para os seus olhos pretos. Eu te amo porque nunca poderão nos acusar de amor. Eu te amo porque você poderia amar qualquer outra pessoa, mas mesmo assim você me ama. A mim.

— A você.

Notas finais
Todo o capítulo antes do "OoO" é narrado sob ponto de vista do Melchior, já depois do separador é apenas um diálogo. Acho que ficou óbvio quem é que o dialoga, né? A propósito, a última parte dele foi inspirada no filme "Do Começo Ao Fim."

Bem, aqui termina a terceira temporada da fic, eu ainda não acredito que consegui terminá-la. Foi a coisa mais complexa que eu já escrevi na vida, mas, bem, aí está.

Agora, uma boa notícia: haverá uma quarta temporada. :D

E uma má: ela só sairá em fevereiro. Isso mesmo, a fic entrará num curto período de hiatus durante o mês de janeiro, mas nem por isso eu deixarei de escrever, apenas não vou postar. Em fevereiro, eu postarei o primeiro capítulo da quarta temporada, a qual eu espero que vocês gostem tanto quanto dessa.

E feliz ano novo, afinal, eu postei esse epílogo exatamente à 00:00 do dia primeiro de janeiro de 2013. :D