Como Vivem Os Anjos
31 Quarta Temporada — As Sombras Moram Ao Lado
Notas iniciais
As bruxas em geral são assim. Não estão jamais interessadas nas coisas ou nas pessoas, mas na utilidade eventual destas.
(O Sobrinho do Mago
— C. S. Lewis)
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Naquela manhã, Bathory atendeu ao primeiro cliente com um grande sorriso. Seu coque estava apertado demais, suas roupas estavam largas demais e ela se sentia uma uva passa exposta ao sol, mas sorria mesmo assim. Era uma mulher velha, de setenta e tantos anos, embora ainda se levantasse para trabalhar no andar de baixo todos os dias sem reclamar. Vivia sozinha num pequeno apartamento decadente do primeiro andar de um prédio antigo da periferia de Middleland, onde cada vez menos pessoas viviam.
No andar de baixo, uma loja de antiguidades. Ultimum Temporum, como era chamada. Ou costumava ser. Era um espaço retangular pequeno e abafado, onde uma aura marrom e amarela escura pairava. Cada espaço das paredes era coberto de prateleiras pitorescas e descascadas. Arte em ferro, como triciclos, globos, navios e automóveis em miniatura; vasos orientais com um pedacinho ou dois faltando; sinos de bronze prateado e dourado; galões e tachos de cobre; coleções de garrafas de Coca-Cola de 1899 a 1957 e notas antigas de dólares; adagas folheadas a ouro com estojo de cobre; estatuetas de Cristo e outras menores de cristal com formato de animais; porta-retratos em alabastros, moedores de café e pimenta; binóculos em madrepérola; ferros de passar, liquidificadores, batedeiras e sorveteiras elétricas; furadeiras inglesas e morsas em aço; chaleiras de ferro, pares de castiçais, lustres e abajures; bandejas, porta-joias e jogos de xadrez de madeira; sopeiras, faqueiros e fruteiras. No centro da loja, uma banheira em ágata; uma roca de fiar; bengalas de metal e bronze; oratórios do início do século XX, fogões elétricos e geladeiras; espelhos em imbuia; cadeiras de ferro e bancos e caixas de correios em ferro fundido; baús e mesas de madeira e imbuia; revisteiros, mini farmácias, cômodas, aparadores, cristaleiras, casaqueiros e banquetas; rádios, televisões e relógios de ponto e cuco antigos, assim como telefones Kellogg. Havia também grandes armários trancavam que guardavam a louça e os vidros, como açucareiros, baleiros, galheteiros e taças.
Os primeiros clientes do primeiro dia daquele mês de julho foram um simpático casal de idosos mais velhos que Bathory. Eles perguntaram se a loja de Bathory vendia discos de vinil. Ela não vendia. Eles agradeceram e foram embora. Bathory olhou-se no espelho de mesa detrás do balcão; se afrouxasse o coque, seus cabelos brancos cairiam em seu rosto, e ela odiava isso. Tentou apertar suas roupas puxando a cintura para trás, mas isso acentuava sua magreza, se bem que as rugas de seu rosto mereciam um pouco menos de atenção. Fazia tanto tempo que as Sombras não lhe visitavam.
O segundo cliente que entrou na loja foi um bonito rapaz de cabelos e olhos escuros, não muito alto e que usava óculos. Parecia ser muito jovem, não mais que dezoito anos, e estava sozinho. Pediu para ver o relógio de ponto, coisa que Bathory ofereceu prontamente. Terminou vendendo-lhe a antiguidade por seiscentos dólares, ele sequer tentara barganhar, pagando em dinheiro. Bathory simpatizou imediatamente com seu sorriso tímido e seus modos afáveis. Quase o viu andar até o outro lado da rua, onde um terreno-baldio abandonado, normalmente chamado de Pátio, estendia-se cheio de entulhos, e oferecer um trocado ou outro para a criança mendiga jogada às moscas dali, mas ele olhou as horas e mudou de ideia, deitando o relógio no banco de trás de um caríssimo e novo sedã preto e dirigindo para longe. Ele certamente não pertencia aquele lugar, provavelmente era da parte rica da cidade e estava apenas dando uma volta à procura de antiguidades.
O terceiro cliente era uma família constituída de pai, mãe e um menino e uma menina de seis e nove anos, respectivamente. Bathory identificara as idades deles imediatamente. O menino insistia que os pais comprassem o triciclo de ferro, enquanto a mãe se interessava bastante no conjunto de taças de cristal do século XIX e o pai não parava de olhar para a antiga TV dos anos 70. A menina parecia entediada. Acabaram gastando quase dois mil dólares ali mesmo, pagando com cartão de crédito. Quando saíram, após porem as coisas no carro, a mãe disse ao filho para dar uma moeda à criança mendiga do Pátio e obrigou a filha a fazer a mesma coisa. Eles o fizeram, a criança pegou-lhes as moedas agradecidamente. Quando foram embora, ela as atirou no Pátio, sumindo nos escombros.
Nenhum outro cliente foi à loja pelo resto do dia até a noite, quando um homem corpulento de olhos escuros e rosto agressivo chegou segurando a mão de um doce e apático garotinho.
— Boa noite, senhor, posso ajudá-lo? — indagou com uma suave voz.
— Eu vim aqui para ver mais que antiguidades essa noite — ele disse. Bathory assentiu, mostrando-lhe a porta dos fundos com um aceno de mão.
— Por aqui, por favor. — Destrancou a porta e apontou uma outra porta na antessala. Ao abri-la, revelou uma escada de pedra que descia como um porão para um breu gelado, onde nada podia ser distinguido e nenhuma luz ultrapassava. — Desça vinte e cinco degraus, e nenhum a mais.
O homem assentiu, puxando o garotinho consigo, penetrando na escuridão.
Bathory voltou à frente da loja e virou a placa para Fechado. Poucos minutos depois, outro homem, um pouco mais agradável dessa vez, bateu na porta. Também carregava uma criança, uma menina.
— Estamos fechados, volte amanhã — falou através do vidro.
— Eu vim aqui para ver mais que antiguidades essa noite — ele sussurrou. Bathory abriu a porta e mostrou-lhe a antessala.
O processo se repetiu mais dezoito vezes. Em cada vez, um adulto, homem ou mulher, vinha carregando uma criança, menino ou menina. Suas idades não passavam de doze anos, eram altas, baixas, pálidas ou coradas e quase todas carregavam uma apatia severa no olhar, como um desinteresse geral do mundo. Outras estavam curiosas e uma delas parecia até excitada. Algumas tinham olhos claros, mas ao final daquela noite teriam olhos escuros. Os adultos que as traziam tinham rostos vazios que não diziam nada a Bathory.
Quando o relógio bateu meia-noite, Bathory fechou as cortinas da frente da loja e apagou as luzes, voltando-se à antessala. Acedeu uma vela e a pôs num castiçal, descendo os vinte e cinco degraus de pedra cuidadosamente. Ser velha era uma maldição que carregaria por toda a vida; nascera daquele jeito, mas não morreria nele. Ah, não, não morreria nele.
Finalmente chegou a sala de baixo, popularmente chamada de Porão. Era maior que a loja inteira, completamente de pedra, rústica como uma caverna. O ar era gelado e úmido e a iluminação contava apenas com velas vermelhas cujas chamas balançavam silenciosamente. No meio da parede oposta à porta, uma lareira de tijolos vermelhos; mas sua abertura não se dava para cima, como as lareiras normais, não terminava numa chaminé. Não havia abertura para cima. No fundo da lareira, um buraco negro estendia-se eternamente para baixo, para as profundezas escuras da terra, onde as Sombras se deitavam.
Tudo era coberto por tapetes vermelhos e dourados, cor de vinho ou levemente verdes. Os adultos vestiam túnicas pretas com capuzes da mesma cor, e seguravam firmemente suas crianças pelos ombros. Um grande espaço aberto abria-se no meio da sala, de onde todos se afastavam. Bathory pôs o castiçal num apoio destinado a ele, pegando uma jarra do chão. No meio da sala, começou a murmurar palavras incompreensíveis numa língua estranha desconhecida por qualquer humano, derrubando o sal da jarra no chão, fazendo um círculo ralo e perfeito. Depois pegou outra jarra e cobriu a linha de sal novamente. Então pegou uma jarra um pouco maior e fez um círculo de sal menor dentro do círculo original.
Os encapuzados puseram vinte e duas cadeiras no espaço entre os dois círculos e lá sentaram suas crianças, enclausurando a si próprios no círculo menor. Até que terminasse, não poderiam sair dali, assim como as crianças não poderiam sair das cadeiras, ou arruinariam tudo.
Bathory caminhou até a lareira e sentou-se no chão de pedra, de costas para o buraco sem fundo, de frente para os círculos. Voltou a pronunciar suas palavras secretas numa voz velha e rasgada parecida com uma lixa. Um leve zumbido parecido como de moscas apossou-se do aposento, assim como um nervosismo habitual. Havia marcas na pedra do chão, leves protuberâncias voltadas para dentro como canos metade abertos, e todas levavam à lareira, onde o chão era levemente inclinado. O que quer que se derramasse ali, escoaria diretamente para o buraco.
— Jhahantar — Bathory sussurrou. O zumbido parou, assim como o tremelique das velas. A sala ficou repentinamente muito quente, e as crianças começaram a se remexer desconfortavelmente. Quando um murmúrio rouco e primitivo subiu do buraco da lareira, os adultos despiram as crianças sem deixar seu círculo de sal. As cadeiras rebaixaram, transformando-se numa espécie de maca, também sem deixar o espaço entre os dois círculos. As crianças ficaram deitadas lá, nuas e em transe.
De repente, duas criaturas baixas e sonolentas entraram no Porão. Eram as duas crianças daquela mesma tarde, de olhos fechados e em camisolas. A menina, nove anos bem vividos e o menino, seis anos inocentes e puros. Caminharam inconscientemente para as duas cadeiras ainda vazias e lá ficaram até que Bathory murmurou mais algumas palavras e outro murmúrio saiu da lareira.
O primeiro encapuzado, um homem, se jogou em cima da menina da maca, que devia ter uns oito anos, sem nunca tirar os pés do círculo menor. Sem se demorar, penetrou-a violentamente e passou a estocá-la da mesma maneira, derramando seu sêmen em seu corpo e lambendo-o de cima do mesmo. Ajoelhou-se dentro do círculo e passou a língua em sua genitália, enfiando-a lá. A menina gemia e se contorcia de dor, um gritinho fino saiu de sua garganta quando o homem desceu longas unhas por seu peito e apertou os mamilos entre os dedos, torcendo-os até que ficassem vermelhos.
Ao mesmo tempo, no resto do círculo, homens em cima de garotos, penetrando-os nas mais diferentes posições, em cima de outras garotas, mulheres violando meninos e meninas com os dedos. Alguns espancavam-nos com as mãos, socavam seus peitos pequenos e arfantes e então seus membros, enfiavam unhas em seus mamilos e genitálias, usavam os dentes e a língua. Uma mulher na metade do círculo enfiou um garfo na vagina de uma menina e o girou lá dentro, puxando-o para fora com uma torrente de sangue. O líquido vermelho pingou no chão e escorreu para dentro da lareira.
As crianças da tarde, que permaneciam vestidas, continuavam intocadas.
Meia hora mais tarde, quando todos os adultos já estavam novamente dentro do círculo menor e as crianças sentadas nas macas que voltaram a ser cadeiras, Bathory se levantou, erguendo um punhal de prata. Caminhou até as duas cadeiras sobressalentes, onde os dois irmãos hipnotizados e confusos estavam. O brilho das velas refletiu na lâmina quando Bathory a deslizou pelo pescoço do menino, dando uma volta completa. O corpo decapitado caiu no chão e, pouco depois, sua irmã também. O sangue escoava grosso e viscoso pelas aberturas do chão até o buraco da lareira, onde um urro primordial e antigo ensurdecia os habitantes do Porão.
Bathory caminhou até ali e se ajoelhou em frente à lareira, encostando a testa no chão.
— Sou tua — ela sussurrou, então pegou o sangue que ainda escoava com as mãos e o sorveu com sofreguidão, lambendo-o de seus dedos velhos. De repente, sua pele foi repuxada, sua estatura aumentou, as rugas que há muito lhe incomodavam sumiram, a neve caiu de seus cabelos, o cansaço se foi, a apatia também.
Bathory levantou-se do chão jovem como uma garotinha pela primeira vez em cinquenta anos; sua pele era pálida como a de um fantasma, seus cabelos eram escorridos e compridos e seus olhos eram negros como as Sombras que lhe rodeavam.
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A cidade aproximava-se lentamente de sua vista. Parecia menor que sua original, menos industrializada e mais arborizada. Havia menos prédios altos e mais condomínios. Era só um pouquinho mais organizada, só um pouquinho… certo, era bem mais. Middleland parecia uma cidade ótima de se morar à medida que as montanhas iam sumindo e mais da floresta ia ficando para trás, o único problema é que ela ficava praticamente dentro de uma cratera. Quando chovia, devia virar uma poça. Na verdade, não era esse o único problema. Ele nascera ali, mas fora embora quando ainda era um bebê de poucos dias de vida. Agora, quinze anos depois, voltava. É como se tivesse desistido de uma vida para entrar em outra, então desistido dela novamente e voltado à inicial.
Aliás, iria morar num prédio destruído por um avião.
— Apenas a cobertura foi destruída, e o prédio já foi reconstruído — sua mãe dissera enquanto dirigia o carro. Era uma mulher loura, jovem e bonita, de pele bronzeada e lábios grossos e rosados. — Anda, Lucas, levante esse rosto.
— Não tenho para que, os prédios são todos baixos. Ali, rua Symphonia é a esquerda. Eu disse esquerda! Você quase bateu naquele caminhão.
— Aprendi a dirigir há dois meses e mal conheço essa cidade.
— Sabia que Ethan e Nicholas Lemnsack Hentz moram no prédio que vamos morar?
— Você nasceu no mesmo dia e hospital que Nicholas Hentz, eu vi Mary Alice Hentz de relance no dia em que ela deixou o hospital. Não sei como alguém pode receber alta dois dias depois de uma cesárea, mas foi assim. Talvez você se torne amigo dele.
— Não, ele deve ter nariz empinado. Não vai me dar atenção.
— Você não sabe.
Meia hora depois, Lucas estava fitando o alto de um prédio de vinte e quatro andares branco e vermelho-escuro. Os dois últimos andares eram reservados à cobertura, o antepenúltimo e o ante-antepenúltimo tinha dois apartamentos por andar e os demais tinham três. Ele e sua mãe ficariam no de número 2.201, bem abaixo do primeiro piso da cobertura. Havia outro caminhão de mudanças estacionado na rua.
Lucas entrou no hall e se sentou no sofá, observando distantemente sua mãe conversar com o motorista do caminhão de mudança, quando um garoto ruivo e suado acompanhado de outro moreno bem menor que ele entrou no mesmo recinto, mancando.
— Da próxima vez que você vir uma bola sendo arremessada na sua direção, você chuta — o menor falou emburradamente, com um leve sotaque italiano. Lucas prendeu a respiração. — Você tem olhos, use-os.
— Estava prestando atenção nos seios da Karym Bello, me desconcentrei — o ruivo disse animadamente, apoiando-se no menor.
— É a terceira vez que você se machuca nessas férias. Acho que a tinta do seu cabelo está estragando seu cérebro.
— Meu cérebro sempre foi estragado e estraguei o de Ethan também, só resta você para salvar a família, então faça-nos o favor de ser inteligente.
De repente, ele parou, fitando Lucas de cima a baixo sem o menor pudor nem constrangimento.
— Olá — disse. Olhou para o caminhão de mudanças, depois de volta para ele. — Está se mudando? — Lucas assentiu lentamente. — Qual seu nome?
— Lucas Fontanelle.
— Legal, conheci um Lucas uma vez. Ou melhor, um Luca, mas dá no mesmo, eu acho. Meu nome é Nicholas, e esse é Lorenzo.
— Você é Nicholas Hentz? — indagou pasmo. O Nicholas Hentz que conhecia era louro e bonito, não ruivo e cheio de piercings. Ele sorriu.
— Sim, estou horrível com essa aparência, não é? — Risos. — Bem, bem-vindo ao prédio e todo esse blábláblá de novos vizinhos. Te vejo por aí.
Nicholas seguiu com Lorenzo através do hall e entrou no elevador. Lucas continuou sentado no mesmo lugar, estático.
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A perna de Nick não parou de latejar mesmo após ele tomar banho. Sua canela estava roxa e inchada e podia jurar que até correntes de ar faziam-na doer. Quando encostou uma bolsa de gelo no ferimento, quase desmaiou de dor.
— Primeira perna quebrada da minha vida — disse a si mesmo, sozinho em seu quarto. — Que maravilha.
O calendário marcava dia primeiro de julho. Desde que Nicholas, Ethan e Lorenzo saíram do Jardim de Ouro para voltarem ao antigo prédio em que moravam, agora já reconstruído e bastante remodelado, Nick andava aproveitando e muito a nova vista do primeiro andar do duplex. Agora a parte de baixo contava com a sala de estar, sala de jantar, escritório, cozinha, área de serviço e banheiro, então a de cima ficou com três suítes e um quarto menor de hóspedes. Aliás, cada quarto tinha agora uma varanda, além de que a da sala de estar fora aumentada. Como deixaram quase tudo da mansão na mansão, redecoraram a casa inteira.
No momento, os três estavam de férias. Depois da fabulosa Revolução M que Melon Chioren propagara na Academia Alphonse Enoi, no início do mês anterior, a diretora Hellen Page cancelou as provas semestrais e deu férias a todos os alunos, pura e simplesmente. Eles voltariam no dia oito de julho, o que não dava a Nick mais que uma semana a mais de férias.
E pensar que, há um ano, eu estava em Paris, vendo Ethan foder Danny Nevarnost.
Uma melodia chegou ao quarto de Nick. O ruivo recostou-se na cama e relaxou, sentindo a perna latejar. Era uma dor suportável, quase prazerosa, se a misturasse com o cigarro que fumava. Roubara-o do quarto de Ethan, ele completara a maioridade e começara a fumar mais frequentemente desde então. Também colocou na cabeça que ter garrafas de uísque e vinho antigo guardadas em casa era uma coisa apreciável. Na verdade, era. Nick dava alguns goles de vez em quando.
A música de piano parou. Lorenzo chutou a parede.
— Será que você pode abrir a janela quando quiser fumar? — ele gritou do outro quarto. Nick se levantou sorrindo e abriu a janela. Uma cidade decrépita estendia-se por quilômetros decrépitos abaixo de si, servindo de moradia para pessoas decrépitas e amaldiçoadas pela vida. Bufou. Nick sabia que era algo absurdo para se dizer, mas a música de um piano de cauda parecia ressoar melhor que a de um piano elétrico.
Soprou a fumaça, vendo-a sumir no ar. Nick gostaria de ser assim, fumaça, podendo se desvanecer a qualquer momento.
A porta se abriu. Sem sequer se virar, Nick contou exatamente dois segundos antes de o sermão começar.
— Você pegou meus cigarros? Eu já te disse para não fazer isso, você tem quinze anos, não deve, não pode fumar. Como pretende continuar praticando esportes se a cada tragada você tira um pouco mais do seu fôlego e um pouco mais dos seus neurônios? Nicholas, olhe pra mim quando eu falo com você.
— Por que quando se vira um adulto se fica tão irritante? — Nicholas se virou, vendo um rosto peludo e arfante latir com tanta vontade que fê-lo pular para trás de susto antes de compreender a cena.
— É um Shih-Tzu — Ethan disse, segurando o cachorro de forma que ficasse em pé, erguido no ar. Era minúsculo, uma bola de pelos brancos e castanhos escuros, com olhos tão negros quanto olhos Hentz. A hipermetropia de Ethan atingira o ápice: ele precisava usar óculos o tempo todo para enxergar de perto. — Hoje ele fez sessenta dias de vida. — Colocou-o no chão. O animal desatou a correr contra a perna de Nick, empoleirando-se nela. Por sorte, fora na que não estava machucada. Latiu de novo.
Lentamente, Nick o pegou com os braços, embora fosse tão pequeno que um só bastava. Aproximou o rosto do focinho preto dele, recebendo uma lambida no nariz em troca. Inconscientemente, sorriu.
— Por quê? — indagou. — Pensei que não gostasse de animais.
Ethan se aproximou do menor e colocou o braço em volta de seus ombros, beijando sua testa e então seus lábios.
— Você queria ter um filho, não queria? Não posso te dar um filho, então por que não um filhote? — Ele latiu de novo, fitando-os avidamente com a língua para fora. Nick afundou o nariz nos pelos brancos de seu pescoço, sentindo o cheiro gostoso de talco. — E o que, em nome da dinastia Hentz, houve com a sua perna?
— Charlie. Vamos chamá-lo de Charlie.
OoO
Aquele senhor de óculos escuros e bengala estava sentado na cadeira havia uns bons trinta minutos. Tinha um livro nas mãos, e hora ou outra virava as páginas, às vezes mudando de posição para ficar mais confortável. Tinha pele escura e usava um fraque azul escuro e um sobretudo preto por cima, uma combinação estranha.
Gillian estava na área de ficção científica, ajeitando pela enésima vez naquele dia os livros em ordem alfabética. Não adiantaria de nada, a cada vinte minutos alguém ia lá, tirava um do lugar, folheava e o devolvia em outro lugar, indo embora sem comprar. No entanto, a garota de cabelo rosa insistia naquele empreendimento inútil.
Quando ela voltou ao balcão, onde Rowan estivera pacientemente guardando seu lugar, amarrou sua juba rebelde num rabo-de-cavalo. A livraria estendia-se num tom de monotonia e fastio em tons marrons e amarelos, com um cheiro de livros novos e antigos misturando-se no ar como uma nuvem invisível. Os ventiladores de teto rangiam solenemente enquanto uma antiga versão de Ave Maria tocava na rádio, tão baixa que quase inaudível.
O senhor de óculos escuros levantou-se, pegou sua bengala e saiu da livraria sem comprar nada, assim como vinha fazendo durante toda a última semana. Rowan não teria ficado tão atento nesse detalhe se aquele cara não fosse cego.
Gillian desligou o rádio. Rowan olhou fundo nos olhos azuis acinzentados de sua irmã. Ela era mais velha que ele, tinha dezesseis anos, uma expressão eternamente nervosa, ansiosa e neutra ao mesmo tempo, rosto redondo e um incomparável cabelo comprido totalmente rosa cujas raízes pretas já apareciam.
Rowan tirou suas luvas de frio que usava o tempo todo, mesmo que não estivesse frio. Lentamente, deslizou os dedos pela bochecha direita de Gillian, que fechou os olhos e se deixou levar. Três segundos depois, ele recolocou as luvas.
— Eu sei. Ele vem aqui todos os dias faz uma semana, fica umas duas horas e então vai embora. Não sei por que, mas não está incomodando. Você vê algo?
Ela balançou a cabeça. Eram duas horas da tarde do segundo dia de julho e o dia fervia lá fora, cozinhando as pessoas que faziam o mundo girar. De repente, um garoto ruivo e afobado entrou na livraria, parecendo correr de algo. Ele foi até o balcão e Rowan pensou que só faltava se debruçar para o outro lado. Tinha uma bola de pelos arfante nos braços e estava com a perna enfaixada, o que era incrível, porque ele estava se apoiando nela.
— Olá, há alguma porta dos fundos aqui? — Rowan balançou a cabeça negativamente, sem conseguir parar de olhar para os piercings de seus lábios, nariz e orelhas. Nem o pequeno cachorro que o fitava silenciosamente conseguia distraí-lo. — Que pena. Eu estava fazendo embaixadinhas na rua com meu cachorro e acertei a janela de um cara que cria rottweilers. Ele é um psicopata homicida.
— Por que não se senta e toma uma xícara de café? — indagou suavemente, ignorando a regra do lugar de ser proibida a presença de animais por um motivo que desconhecia. — Ele não te reconhecerá.
— Obrigado, mas não posso tomar café. Sou hiperativo. A propósito, meu nome é Nicholas. Esse é Charlie.
Rowan riu levemente.
— É claro que é hiperativo, que tolice minha. Eu sei que seu nome é Nicholas, eu vivo no andar abaixo do seu há uma semana. Também estudamos na mesma escola. Meu nome é Rowan. Esta é Gillian. — Gillian estava sentada no chão, encostada a uma estante, lendo um livro grosso e antigo e abraçando os próprios joelhos. Ela levantou a vista e fez um imperceptível sinal de cumprimento. — Ela não fala muito.
— Tudo bem. — Latidos foram ouvidos do lado de fora. Charlie latiu de volta. Rowan viu com curiosidade as pupilas de Nicholas se dilataram. Levantou a abertura do balcão.
— Venha para trás — sussurrou. Nicholas o fez, se encolhendo no chão com Charlie, bem colado ao balcão. Tentava parar de arfar. Rowan viu um cara do tamanho de um armário entrar na livraria com dois cães do tamanho de cavalos nas coleiras. — Com licença, senhor. — Apontou para a placa que dizia Proibido animais. Bufando, o cara foi embora. Nicholas não poderia ter entrado ali com um cachorro, é claro.
Ele se levantou vagarosamente.
— Obrigado. — Então, sem nenhum pudor, mediu Rowan de cima a baixo, analisando-o sem nenhuma sutileza. — Quantos anos você tem?
— Treze.
— E trabalha?
Sim, nem todo mundo tem uma herança bilionária. As palavras vieram a sua boca e quase as disse, mas se segurou no final, dando um sorriso simpático.
— Minha mãe é dona da livraria. Fico aqui porque não tenho muito mais o que fazer.
— Ah, claro. Foi um prazer te conhecer. — Ele estendeu a mão.
Rowan hesitou por um único segundo. Sem conseguir se conter, tirou sua luva direita e apertou-lhe a mão com a própria nua. Foi acometido de uma tontura, assim como Nicholas.
— O que foi isso? — ele indagou a si próprio, fazendo uma careta. — To me sentindo enjoado. Bem, até mais.
— Até — Rowan disse, fingindo não estar com vontade de vomitar naquele momento. Quando Nicholas foi embora, recolocou sua luva e olhou para Gillian, que o fitava com desaprovação. — Ele é uma pessoa tão triste.
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O quarto estava gelado como o inferno. Nick engatinhou por cima da cama desajeitadamente e deitou-se em cima do corpo nu de Ethan. Sua perna estava engessada, o que tirava toda a sensualidade da coisa. Seu piercing roçava no lábio dele, e pelo visto ele gostava disso. Nick comparou mentalmente o corpo de seu irmão de um ano e meio atrás ao dos dias atuais. Suas costas estavam mais largas, as costelas menos proeminentes, os braços e as pernas mais musculosos. O pênis dele continuava igual, mas Nick gostava disso.
— Você sabia que há uma livraria nessa rua? — indagou a Ethan, que acariciava seus curtos cabelos vermelhos.
— Não sabia nem que você sabia ler.
— Idiota. — Mordeu seu ombro com força, deixando uma marca de dentes lá. — Nosso vizinho é balconista lá, você sabia? Por que não conhecemos ninguém desse prédio? É pior que Jardim de Ouro. Mas enfim, ele tem treze anos e é adoravelmente comível. Então, por favor, não o coma.
— Quem, um rapaz monogâmico e ético como eu?
Nick se admirava realmente com a habilidade que Ethan tinha de fazê-lo querer, ao mesmo tempo, matá-lo e amá-lo.
— Cale a boca e me beije. Deus, eu sempre quis dizer isso.
Ethan puxou-o pela nuca até si e tomou seus lábios, beijando-o lentamente, pressionando sua língua contra a dele e vasculhando toda aquela cavidade úmida enquanto passava as mãos pelo corpo do menor, apertando certos lugares. Nicholas puxou o corpo de Ethan para o lado, ficando por baixo, e apertou suas nádegas com força, fechando as pernas em volta de sua cintura num abraço de ferro.
Ethan desviou-se dos lábios vermelhos e suavemente inchados de Nick para mordiscar e lamber seu pescoço, distribuindo chupões fortes da cor de um morango maduro. Desceu mais o corpo com os lábios, sugando toda a região sarada do tórax, mordiscando seus mamilos, sempre gemendo.
Nick estava a ponto de delirar de prazer. Num impulso, virou novamente os corpos, deixando o corpo sensual de Ethan abaixo do seu. Rapidamente, enquanto ele ainda se recuperava do choque inicial por ter sido pego de surpresa, Nick abocanhou um de seus mamilos, apertando o outro com força entre os dedos. Logo separou-se dele e passou a apenas massageá-los, admirando-o gemer. O cabelo negro emoldurava sua cabeça, as bochechas levemente coradas lhe davam um ar adorável, os lábios inchados por causa daquele longo beijo e levemente entreabertos para deixar passar o ar que não seria suficiente se fosse respirado pelo nariz. Acariciou suas coxas com as pontas dos dedos. Nick o amava tanto, tanto.
Desviou os olhos para o membro pulsante de Ethan, que ainda estava com os olhos fechados, apenas aproveitando os dedos de Nick. Este segurou seu próprio membro e o friccionou devagar, sentindo um espasmo. Mordeu o lábio inferior. Sem pensar duas vezes, deixou seu corpo cair para frente, debruçando-se sobre o outro, ouvindo seu gemido. Os dois olharam-se diretamente. Olhos pretos em olhos pretos. Nick não sabia se tentar se auto-hipnotizar funcionava, mas quando sentiu um arrepio, soube que sim.
— Nós também temos outro vizinho que se mudou ontem, eu acho. O nome dele é Lucas.
O maior começou a agarrar o ruivo, passando as mãos por suas costas, pelas nádegas e coxas, deslizando as unhas por ali. Nick fazia a mesma coisa, arranhava as costas de Ethan com um prazer masoquista. Os membros dos dois friccionavam-se, o atrito trazendo-lhes ondas de prazer.
Nick foi descendo mais, aos mamilos já duros do maior e ao abdome levemente definido, até que chegou ao falo duro como pedra. Meteu-o na boca, sentindo-o pulsar. Ethan agarrou-se aos lençóis. Estava com os olhos quase fechados, mas, de relance, podia ver a cabeça de Nick subindo e descendo; sentia a língua dele deslizar por seu membro, sugando-o.
Nick aumentou o ritmo até sentir o líquido viscoso irradiando em sua boca. Engoliu tudo, lambendo a glande inchada.
— Eu te amo — Ethan sussurrou para a escuridão do quarto. Nick subiu seu corpo e selou seus lábios.
— Com quem está falando?
— Com quem quiser ouvir.
— Você é um idiota.
— Eu sei. Me ama?
— Te amo.
Beijaram-se calmamente, saboreando o gosto da boca um do outro; saliva, sêmen e nicotina dançando com selvageria em suas línguas. Sentiam-se drogados. Sentiam-se apaixonados. Não havia muita diferença entre as duas coisas.
Ethan deitou-se em cima do leão, que apertou-lhe a cintura com os braços, deslizando as mãos para suas nádegas de novo. Nick fê-lo lamber seu dedo maior, enfiando-o em seu ânus logo depois de uma vez, sentindo-o contrair-se. Ethan gemia em seu ouvido, xingando-o e amando-o. O menor tirava e colocava repetidas vezes rapidamente. O pênis do maior logo enrijeceu-se novamente.
Ethan chupava o lóbulo da orelha de Nick, aquela em que não havia o brinco, apenas deixando-o violá-lo; era deliciosa a sensação de ser possuído por quem você ama, de dar-lhe prazer, de fazê-lo atingir o ápice do deleite. Desde quando Nicholas ficara tão excitante? Talvez fosse o envelhecimento da imagem de seu irmão, que parecia ter sua real idade pela primeira vez na vida. Os adornos e o cabelo curto tornaram-no um adolescente, embora os traumas que sofrera incrustaram a rebeldia em seu âmago. Ethan queria beijá-lo, lambê-lo, mordê-lo, chupá-lo, amá-lo como a um amante.
Deslizou a língua por seus pelos loiros, por seu pescoço, seus ombros, seu peito, seu membro pulsante, suas coxas torneadas e roliças, gemendo seu doce nome Hentz todo tempo, sentindo seu cheiro de garoto. Foi descendo pela perna que não estava engessada, beijando e mordendo os músculos duros até chegar aos pés; o maior deslizou sua língua desde o calcanhar até os dedos do ruivo e entre eles, chupando cada um, beijando e mordiscando a sola, deixando-a marcada. Ethan fez o mesmo no outro pé, lambendo cada pedacinho dali, deliciando-se com o gosto do irmão.
Voltando ao baixo-ventre de Nick, Ethan pôs seus testículos na boca, acomodando-os lá. O ruivo gemia o tempo todo, se masturbando fortemente; ficou de quatro e encostou o queixo na cama, empinando as nádegas o máximo, entregando-se ao maior. Este afundou seu rosto na bunda de Nick, comendo-o e saboreando-o, brincando com sua língua naquele lugar tão escondido. Ethan sentia o cheiro de sexo vindo dali, o que só o excitava mais; penetrou mais a língua, lambendo e deliciando-se com o gosto do ser do menor.
— Me fode, Ethan — Nick gemeu. — Por favor, me coma.
— E quem sou eu para discordar de você?
Nick deitou-se de lado com uma das pernas levantadas. Ethan posicionou-se deitado por trás dele, com a glande roçando em sua abertura. Começou a forçá-la para dentro, arrancando de Nick um leve gemido.
Quando já estava totalmente dentro, passou a puxar seu pênis para fora daquela cavidade apertada. Antes que a glande ficasse totalmente exposta, Ethan voltou a estocar o irmão com força, enterrando-se com tudo dentro dele.
Ambos gemeram alto. Nick sentia-se sendo rasgado por dentro, mas naquele momento, a dor era deliciosa. O mais velho começou a estocá-lo com força, gemendo alto, gritando de puro prazer, sussurrando obscenidades no ouvido do menor, que delirava. Sentir o membro duro e quente de Ethan dentro de si era maravilhoso para Nick, aquela sensação de arrastamento em seu ânus o arrepiava, fazia-o tremer de desejo e loucura, assim como ouvir sua voz grave e forte sussurrar em seu ouvido. A cada dia que se passava, a voz de Ethan tornava-se cada vez mais parecida com a de Charles Lemnsack, assim como os traços de seu rosto. Ethan fazia-o sentir-se tão bem quando o amava, quando seu corpo roçava com o dele, quando era lambuzado por sua língua esguia e experiente, fazendo Nick sentir-se uma iniciante; ser arrastado pela cama, jogado de um lado para o outro, desforrando os lençóis já tão maculados.
Ethan sentia seu pênis ser esmagado pelo ânus do ruivo. Estocava-o com toda a força que podia, fazendo ranger a cama sobre a qual estavam. Os únicos sons ouvidos naquele quarto eram os gemidos dos dois adolescentes e o da cama, o barulho do corpo de Ethan chocando-se contra o de Nick. O maior não queria sair dali de dentro nunca mais, queria fodê-lo pelo resto da vida, o prazer consumindo-o, fazendo-o suar.
Nick ronronou gostosamente.
— Oh, mano, oh, oh. — Fitou o maior provocativamente. — Quem diria que um dia ficaria melhor que eu.
Ethan enterrou-se dentro de Nick para calar sua boca, atingindo sua próstata. O menor gozou instantaneamente, despejando na cama a semente branca e viscosa. O maior retirou seu membro de dentro do ruivo, seguido de uma fila de sêmen que escorria de dentro dele.
Beijaram-se apaixonadamente.
— É assim que se faz, garotão — Nick sussurrou. Quando seu coração parou de bater, abriu a gaveta do criado-mudo e tirou um livro grosso de aparência antiga de dentro. — Outro dia eu estava vasculhando nossos livros antigos para ver se tinha mais algum outro que era na verdade uma caixa, e encontrei isso. — Abriu o livro e estendeu um papel dobrado em dois para Ethan, que pegou seus óculos no outro criado-mudo.
Nick pousou a cabeça em seu ombro, observando a carta com ele.
As Sombras não vieram hoje. Obrigado.
— O que significa? — indagou a ele
— É do Oliver — Ethan sussurrou. — Ele escreveu isso no dia seguinte ao dia em que nós… em que nós nos amamos pela primeira vez. Você já estava dormindo quando ele bateu na porta da nossa casa em Castellobranco, tarde da noite. Nós já andávamos conversando há alguns dias e eu já notava que havia algo de estranho nele, principalmente naquele dia. Estava suado e ofegante, como se estivesse correndo de alguma coisa, mas quando eu perguntei do que era, ele simplesmente me olhou como se eu tivesse, sei lá, criado asas ali mesmo. Não estou correndo de nada, não há nada para eu correr de, ele respondeu, e então sorriu e perguntou se podia dormir ali. Nossos pais não estavam em casa, e eu acho que já estava apaixonado por ele a esse ponto. Eu deixei. Nós nos deitamos em frente à lareira, muito embora eu dissesse que ele podia dormir no quarto de hóspedes. Depois disso… bem, aconteceu.
— O que são as Sombras? — Ethan deu de ombros, dobrando a carta novamente.
— É uma palavra que ele usava para designar tudo de ruim que acontecia na vida dele. Tudo de ruim no mundo eram as Sombras. Não é nada demais. Se foi. Com ele. — Um pequeno silêncio. — Tenho que buscar Lorenzo na aula de música. E… você disse que nós temos um novo vizinho?
Nick deu um selinho em seus lábios, aconchegando-se em seu peito, sentindo seu calor.
— Que tipo de pessoa escolhe ter aulas durante as férias? Sim, Rowan é nosso vizinho.
— Estou falando do outro.
— Ah, sim. Ele parece ter a minha idade. É bem parecido com você, olhos e cabelos pretos. O nome dele é Lucas. — Fungou. — Lucas Fontanelle.
OoO
Os dedos de Lorenzo doíam. Treinar piano era exaustivo. Sentia o ar da Academia Alphonse Enoi em volta dele, assim como as respirações das pessoas a sua volta. O mundo inteiro andava muito mais claro há um certo tempo, mas achara melhor não contar isso a seus irmãos. Como eles poderiam entender o que acontecia com Lorenzo? Como poderiam entender que Lorenzo começara a ver o mundo a sua volta de um jeito que nem o tato já lhe permitira? Quando alguém se aproximava dele, mesmo que sem fazer nenhum barulho, sem tocá-lo ou se agitar, Lorenzo automaticamente sabia quem era. Conseguia identificar a altura das pessoas e até mesmo se eram homens ou mulheres. Tudo isso sem saber quem eram, sem ouvir-lhes as vozes.
Também sabia o que sentiam. Quando encostava suas mãos quentes no rosto de alguém, podia dizer se estavam tristes mesmo que sorrissem, ou que estavam felizes mesmo que chorassem. Da primeira vez que se encontrara no mesmo recinto que Charlie, o cachorrinho de Nick, soube imediatamente que ele precisava urinar, tanto que se recusou ao segurá-lo. Quando Nick perguntou por que, Charlie o usou de hidrante. Depois que ele terminou, Lorenzo o segurou nos braços e descobriu que sentia fome. Não sabia como, mas, Deus, sabia.
O fato de receber impressões das emoções e necessidades das pessoas era tanto uma bênção quanto uma maldição. Na primeira vez que fora para a aula de música da Academia, descobrira que Taylor Delamour o detestava por conseguir tocar de primeira uma música que ela andava treinando há anos, sendo que ela era quatro anos mais velha que ele. Também descobrira que os gêmeos Joe e Marie Preston, que eram de sua idade, estavam se sentindo atraídos por ele, tanto a garota quanto o garoto. Lore não sabia como lidar com isso. Não sabia por qual gênero se atraía. Ele já gostara de Jill Nevarnost, mas Marco Chioren o beijara no último dia que se viram, no dia três de junho daquele mesmo ano, e Lore gostara do beijo. Assim como gostara do que Jill dera nele.
Havia outra coisa que ele andara notando: a música tinha gosto. Quando tocava piano, era como se estivesse comendo algo diferente para cada nota. O Dó parecia chocolate ao leite, enquanto o Ré parecia o amargo. O Mi era uma mistura entre laranja e morango, Fa tinha gosto de café com açúcar demais, Sol era quente como uma torta de frango, Lá tinha o gosto forte do camarão ao molho de tomate e o Si parecia suco de uva. Sabia que aquilo se chamava sinestesia e que era uma doença, mas Lorenzo não via o mal que devia causar. Na verdade, o ajudava muito a decorar músicas.
Imaginava o quanto Taylor Delamour se irritaria nos próximos meses com ele. Riu para si mesmo.
— Lorenzo. — Era Ethan. O garoto se levantou do banco de frente ao prédio de música da Academia e seguiu sua voz. Ethan pôs a mão em suas costas, como que para guiá-lo, mas não era realmente necessário. Lorenzo se lembrava de quase todos os lugares da escola, principalmente do portão de saída.
— Nick engessou a perna? — indagou ao entrar no carro. O cheiro de carro novo ainda estava no ar. Ethan murmurou em concordância.
— Ele não a quebrou, no entanto, mas como ele é um leão serelepe que não consegue parar quieto num canto, pedi para o médico engessá-la do mesmo jeito, ou não sararia nunca. Não conte isso a ele, aliás. Como foi a aula?
— Legal. Muita gente gosta de mim e muita gente não gosta. Que nem em qualquer outro lugar do mundo. Por que está tão nervoso? — Antes de Ethan chamar sua atenção ainda lá na Academia, Lorenzo sentira um misto de ansiedade e nervosismo o envolver. Só podia vir dele.
— Não estou nervoso — Ethan mentiu nervosamente.
— Não minta pra mim. — Manuseou a própria bengala entre os dedos. — Preciso de outra bengala. Essa está muito pequena.
— Tudo bem — Ethan engoliu em seco. Lore franziu as sobrancelhas. — Eu fui a uma loja de antiguidades comprar um relógio ontem e vi algumas bengalas lá. Podemos ir amanhã, se você quiser.
— Obrigado. Quando quiser se abrir comigo, pode se abrir, se quiser. Não sei o que te aflige, mas eu sou seu irmão e vou me esforçar para te entender.
Uma pequena e alegre energia se apoderou de Ethan para, um segundo mais tarde, ser substituída pela velha ansiedade.
— Você é. — Ele bagunçou seus cabelos, parando o carro. Lore soube que chegaram ao prédio, mas ainda não à garagem. — Você é.
OoO
Ethan saiu da garagem com Lorenzo em seu encalço. Ele não precisava ser segurado, não precisava puxá-lo pela mão para que soubesse o caminho. Apesar de a bengala estar curta demais, o menino parecia ver melhor do quem conseguia enxergar.
Ele parece ver melhor do que eu. Bem, quem fodeu a visão e agora tem que usar óculos o tempo todo mesmo?
Entraram no hall a tempo de ver um garoto de cabelo castanho claro entrar no elevador. Ao vê-los, o garoto segurou a porta até que entrassem. Ethan olhou-o de soslaio. Ele tinha olhos azuis acinzentados bastante escuros e lábios grossos, era menor que ele, mas mais alto que Nick. Não muito, dois centímetros no máximo. Usava roupas de frio e luvas nas mãos, embora os dias estivessem quentes como o inferno. Ele era adorável.
— Obrigado por segurar o elevador — disse. Ele sorriu.
— De nada. Eu sou Rowan, você deve ser Ethan Lemnsack, não é? — Ethan assentiu. Ele olhou para Lorenzo e seu sorriso morreu, assim como o da criança. Eles não pareciam estar se hostilizando, era mais como se estivessem notando algo no outro que não notaram antes. Isso tão era estranho quanto assustador, porque eles nunca se viram antes e Lorenzo era cego. — E você deve ser Lorenzo… Barcarolli.
— Sim… prazer em conhecê-lo. — Lorenzo estendeu a mão. Rowan tirou a luva para cumprimentá-lo. No momento em que as apertaram, ambos pareceram sentir uma espécie de tontura, embora Rowan estivesse claramente tentando encobrir esse fato com um sorriso simpático. Ele estendeu a mão a Ethan depois, que a apertou igualmente, sentindo a mesma tontura que Lorenzo provavelmente sentira.
O elevador parou no andar vinte e dois, onde havia apenas dois apartamentos, o de Rowan e o de… Deuses. Quantos Lucas Fontanelle deviam existir na Califórnia?
Despediram-se e subiram até o andar de cima.
— Ele é estranho — Lorenzo sussurrou quando as portas do elevador se abriram. Ethan olhou para ele. — Rowan, ele é estranho. Senti algo quando as portas se fecharam… não sei explicar direito, como se algo… sei lá, me atraísse para perto dele. Senti vontade de abraçá-lo e então de dar-lhe um soco. Isso é estranho? A última vez que senti algo assim foi com Luca Granelli, mas acho que é porque ele falava italiano. E ainda tem aquele aperto de mão. E Ethan… tive a impressão de ver algo se movendo ao redor dele.
Ethan tinha que concordar. Algo estranho acontecera naquele elevador, mas, por algum motivo, sentia vontade de deixar para lá. Quando desligou as luzes do corredor antecedente a porta do apartamento, teve a ligeira impressão de que as sombras se moviam sozinhas. Fechou a porta rapidamente, girando a chave duas vezes.
OoO
Naquela noite, Nicholas Hentz sonhou.
Estava num barco pescando em alto mar. Um barco grande, mas não muito, e parecia levemente desgastado, como se fosse usado com frequência. Não havia terra em nenhum lugar em volta dele, e não estava sozinho. Uma menina de cabelo rosa estava ali, mas ela não tinha rosto, apenas um grande buraco preto no lugar. Havia também uma mulher muito pálida cujo cabelo era de um branco muito puro, mas com alguns tons de roxo. Ela também tinha um buraco na cara. No céu, nenhuma nuvem e um sol agonizantemente quente.
Nick olhou para o mar gigantesco e azul, fazendo-o sentir-se infimamente minúsculo, mas ao mesmo tempo raro e precioso por ser a única coisa diferente em tanta imensidão calma. Segurava uma vara de pescar comprida cuja linha estava jogada ao longe. De repente, a linha foi puxada fortemente. Excitado, Nick retirou a vara do suporte, mas isso se revelou um erro. O carretel chegara ao final do rolo, levando a linha e Nick para o fundo do mar.
Constatou que não sabia nadar. Tudo o que fazia era bater os pés e as mãos incontrolavelmente, tentando a todo custo manter-se acima do nível da água, mas o peso de seu próprio corpo o arrastava para baixo, para sua tumba molhada nas imensidões do fundo oceânico. Nick berrava a plenos pulmões, mas o barco parecia se distanciar. De repente, todo o azul do mar escureceu, assim como a claridade do céu. O sol se apagou, seu calor se foi, o barco também, a água tornou-se uma gosma melequenta e grossa escura como a noite que o envolvera. As Sombras o engoliram para seu interior, de onde não poderia sair mais nunca.
Nick acordou naquele dia três de julho suando e a ponto de chorar. Sua cabeça doía e sua perna latejava mais do que qualquer coisa. Não teria sido tão estranho se Ethan e Lorenzo tivessem acordado a mesma hora, do mesmo jeito, com as mesmas lembranças estranhas sonhadas na cabeça.
OoO
Rowan estava no hall do prédio, sentado no sofá, quando Ethan, Nicholas (que usava muletas) e Lorenzo saíram do elevador. Os três pareciam abatidos com alguma coisa, pareciam não dormir há séculos. Lorenzo segurava a coleira de Charlie, que caminhava energicamente sobre quatro patas. Rowan entrelaçou os dedos sobre o livro grosso que lia, observando-os com seus olhos azuis. Sorria quase imperceptivelmente.
— Bom dia — disse-lhes alegremente.
— Bom dia — cumprimentou Ethan. Nick parecia abatido demais para falar e Lorenzo se arrepiou ao se aproximar de Rowan, assim como o próprio ao ver Lorenzo. Charlie rosnou levemente, mas continuou seu caminho. Desde a noite anterior no elevador, andava com fortes impressões sobre o garoto. Ele parecia simplesmente atraí-lo como um imã o faria. Sem nenhuma intenção. Ethan parou onde estava, olhando para o livro que Rowan tinha nas mãos. — Esse livro — ele sussurrou.
Rowan olhou a capa do livro, depois de volta para Ethan.
— O que há?
— Posso vê-lo? — Ethan o pegou para si, passando os dedos pelo título e pelo nome do autor com enormes olhos pretos. Os olhos de Nicholas não tinham a mesma profundidade que os de Ethan.
— É, ele foi inspirado no Massacre da Coruja — falou. — A Sociedade das Pequenas Caixas, escrito por Melchior. Ele mora em Jardim de Ouro, sabia? A irmã dele foi morta no Massacre. Tenho uma leve impressão de que o personagem Dylan Strauss foi inspirado em… você.
— Não me diga… — Ethan sussurrou, parecendo hipnotizado. — Quem não conhece Melon Chioren? Depois da Revolução M, até a rainha o conhece.
— Você poderia me contar mais sobre a Revolução M? — perguntou a ele, sorrindo com os olhos e com os lábios. — Eu estudo na Academia Alphonse Enoi também. Queria saber o que aconteceu lá. — Rowan sabia, mas sempre achava que memórias eram melhores quando faladas por seus donos.
— Adoraria. — Os olhos de Ethan brilharam. Ele não tem pudor mesmo. — Estou indo a uma loja de antiguidades chamada Ultimum Temporum. Pode vir conosco, se quiser.
OoO
Há quanto tempo aquela criatura das trevas andava escrevendo isso?, Ethan pensou, ao mesmo tempo em que falava com Rowan e dirigia o carro. Ninguém escreve um livro de quatrocentas páginas em menos de um mês.
Olhou pelo retrovisor para o rosto ruivo e mutilado de Nicholas Hentz. Nós temos um novo vizinho. O nome dele é Lucas Fontanelle. Seria possível? Não. Seria coincidência demais que o Diabo de mudasse para o apartamento vizinho justo num momento tão delicado da psicopatia de Nick. Seu irmão era tão emocionalmente complexo que, quando sofreu o maior trauma de sua vida, enclausurou-se numa fachada de desinteresse, egoísmo e mesquinhez ainda maior do que a do original Nicholas Hentz, louro e hiperativo. Este Nick era uma criatura cinzenta e triste, com uma aura tão deprimente em volta de si que contagiava quase todo mundo a sua volta; um buraco negro ocupava o lugar onde devia estar seu coração. Descobrir a verdade sobre seu nascimento era jogar gasolina na fogueira.
Lorenzo já dissera que tinha a impressão de ver algo se movendo quando olhava para Nick, da mesma forma que disse que viu quando olhou para Rowan. Isso não fazia sentido, ele não podia ver, mas ele dissera. É mais do que aparenta, aquele garotinho cego, Melchior já dissera a Ethan. Estava cada vez mais convencido de que aquilo era verdade. E não era só Lorenzo. Rowan também parecia ter um que a mais.
A loja de antiguidades ficava na periferia de Middleland, lugar que Ethan só frequentava quando não queria gastar muito, o que vinha acontecendo com frequência ultimamente. A Ultimum Temporum era uma loja amarelada e descascada pelo tempo, administrada por uma idosa mais desgastada ainda. Ficava numa rua estreita não asfaltada e cheia de charcos de lama e poças d’água, com um terreno-baldio cheio de entulho logo em frente. Ethan tentou a todo custo manter os olhos longe da criança mendiga que estava metade sentada no terreno e metade sentada na calçada, coberta de moscas e trapos, com a tristeza solidificada no rosto. Seus cabelos negros eram curtos, mas não era possível saber se era menino ou menina.
Ethan entrou na loja seguido de Nick, Lorenzo e Rowan. A despeito da idosa balconista de dois dias atrás, a mulher por trás do balcão era esbelta e jovem, talvez não mais que vinte e poucos anos. Seu cabelo era tão negro quanto Ethan pensava ser possível, assim como seus olhos.
OoO
Enquanto passava os dedos pelos objetos empoeirados da loja, Lorenzo também ouvia Ethan conversando com a balconista.
— Eu vi aqui há alguns dias e havia uma senhora no seu lugar — ele falou casualmente. A mulher deu uma risadinha.
— Ah, Bathory é minha avó. Meu nome é Elizabeth.
Elizabeth… Bathory. Que interessante. Há algo de errado com essa mulher. Ela é jovem, mas há algo de velho na voz dela.
Lorenzo sentiu a presença incômoda de Rowan perto de si. Não era exatamente incômoda, mas… chamativa, como se ele inconscientemente o forçasse a prestar atenção nele, enclausurando-os numa bolha invisível e impenetrável. Queria saber por que se sentia assim com ele.
— Eu tive um sonho bem estranho essa noite — sussurrou para ele. Imediatamente percebeu sua atenção voltada a si. — Eu estava num barco pescando e tinha duas mulheres junto comigo. Mas então algo puxou a vara de pescar e me arrastou para a água. Eu não sabia nadar e comecei a me afogar. Aí eu acordei. Nick me disse que ele teve o mesmo sonho. Não é estranho?
Rowan deu um divertido sorriso interno.
— Sonhos compartilhados são mais comuns do que você pensa.
— Imagino. Sabe o que é ainda mais estranho? Eu sou cego, mas tenho a impressão de ver algo se movendo ao seu redor. Aliás… — Lorenzo meneou a cabeça pelo lugar, sentindo um arrepio. — Por todo esse lugar.
Silêncio.
— Meus olhos são castanhos — Rowan disse. Era uma mentira.
— Não são — Lorenzo retorquiu.
— São verdes. — Outra mentira.
— Não são.
— São dourados.
— Não, não são.
— Pretos.
— Não.
— Azuis…
Lorenzo franziu as sobrancelhas.
— Não…
— … acinzentados.
— Sim. É isso.
— Como sabe?
— Não sei, só sei.
Ouviu-o dar uma risada mais alta dessa vez, como se tivesse descoberto algo impressionante. Parecia deboche.
Após alguns minutos, saíram da loja. Lorenzo escolheu uma bengala simples ajustável de madeira e ferro quando soube o quanto sua antiga bengala havia custado, e por quanto tempo lhe servira. Nicholas a havia escolhido quando ele ainda tinha apenas oito anos e o mundo era um borrão sem forma.
— Tenho pena daquela criança — Rowan sussurrou.
— Que criança?
— Há uma criança vestida em trapos ali no terreno. — Então falou mais alto: — Vou dar algum dinheiro a ela.
— Ela está ali desde anteontem. Lorenzo, dê também — Ethan disse, pondo algumas moedas em suas mãos.
Lorenzo sentiu um arrepio quando sentiu os dedos sujos da criança rasparem a palma de sua mão, como se algo de maligno estivesse sendo transmitido através dela. Mas que bobagem. Era apenas uma pegada de mão.
Quando voltaram ao carro, puxou Rowan pela mão, percebendo que ele usava luvas. Sentiu outro arrepio, mas menos desagradável.
— Você sentiu? — indagou.
— Sim — Rowan sussurrou.
OoO
Gillian estava com problemas em acertar o tom da tinta de cabelo, ou estaria se ela não soubesse que erraria as treze primeiras tentativas e acertaria a décima quarta. Logo, uma pasta cremosa estava sendo passada em seus longos cabelos desidratados.
Rowan segurava um chaveiro com uma miniatura de barco nas mãos, tocando-o com as mãos nuas, vendo imagens disformes dançando na frente de seus olhos em lapsos tão rápidos que eram quase indistinguíveis, mas ele estava acostumado. Gillian o havia derrubado de cima da estante da sala acidentalmente naquela manhã, enquanto Rowan ainda dormia. Sua mãe, Maya, havia espanado a estante pouco depois e esquecido de tirar-lhe o pó. Talvez o chaveiro fosse uma lembrança muito cruel. Talvez fosse egoísmo ele querer que continuasse ali, mas era a única recordação que tinha daquele dia, de três anos atrás.
Ele ainda se lembrava daquele dia claro cujo sol ardia fervorosamente no céu azul como os olhos de um bebê, sem uma única nuvem do céu. Lembrava-se da imensidão azul que varria todos os lados, sendo o barco o único a se destoar por vários quilômetros de nada.
Estava sozinho nele com sua mãe, sua irmã e seu pai. Tinha apenas dez anos, tão excitado que estava, insistira em pescar em alto-mar. Começara bem e logo o tédio o tomara, fazendo-o apoiar sua cabeça de criança na borda do barco a esperar qualquer movimentação nas águas, como um kraken imenso e assassino erguendo seus tentáculos.
Quando a vara foi puxada, Rowan se alegrou de novo. A partir daí, suas lembranças encurvavam-se e dobravam-se por cima de si próprias, perdendo-se em lapsos de memórias e reminiscências, borrões cruéis vagando pelas imensidões de sua mente. Rowan apenas se lembrava de ser puxado junto com a vara violentamente para dentro da água gelada, e ela era tão gelada… a claridade do céu sumia à medida que ele era puxado para baixo pelo próprio peso. Não sabia nadar.
Depois disso, Rowan acordou num hospital. Descobrira que seu pai havia pulado no mar para salvá-lo de se afogar e, em troca, se afogara ele. Seu pai se fora. A coisa toda não seria tão cruel se Rowan não fosse adotado. Sua mãe, Maya Pyatt, isolara-se praticamente de todos os Pyatt para que Rowan não sofresse o preconceito concedido apenas pelas famílias mais tradicionais e conservadoras àqueles que não têm, digamos assim, seu sangue.
Quando sua mãe foi-lhe contar o que acontecera, ele dissera que não precisava, porque já sabia. O chaveiro com a miniatura do barco, que estava preso ao bolso de seu pai adotivo quando ele pulou na água para salvá-lo, também estava no balcão ao lado de sua cama quando acordou. No momento em que Rowan o tocou pela primeira vez, se viu pulando dentro de uma água escura e traiçoeira, o que o fez largá-lo rapidamente, aos berros. Quando percebeu que ainda estava em seu quarto de hospital, tocou-o de novo e soube do resto da história.
O Rowan que caíra no mar não era o mesmo que saíra dele. Descobrira que havia morrido por quarenta e dois segundos, sendo ressuscitado por paramédicos. Sempre que Rowan tocava em um objeto com as mãos nuas, podia ver sua história: as últimas pessoas que o tocaram, de que forma o manusearam, como ele foi parar ali, naquele lugar, podia ver como fora fabricado e, se fosse mais longe, podia até mesmo, por exemplo, ver a árvore que servira a madeira para a fabricação do objeto ainda viva, numa floresta qualquer. Tudo vinha a sua mente em lapsos de imagens borradas e sem nexo. A princípio, era muito confuso, embaralhando a mente de Rowan como se a enlaçasse de novo e de novo até que o nó fosse permanente.
Ele se enclausurou do mundo por quase um ano por dois motivos: não conseguia tocar em nada sem sentir vontade de vomitar de tontura e ainda se culpava pela morte de seu pai.
Passara a ter de usar luvas o tempo todo. Na primeira vez que o fizera, descobrira passo a passo como a lã é feita e costurada, mas essa informação logo se esvaiu de sua mente. Com as mesmas já postas, experimentou tocar sua cama. Um borrão extremamente apagado, e então nada. Com o tempo, elas se tornaram o que eram hoje: suas armaduras.
Também com o tempo, ele passou a controlar o fluxo de imagens que surgia diante de seus olhos ao tocar algo. A corrente de informações era tão descontrolada do jeito que era simplesmente porque ele não sentia vontade de pará-la. Um certo dia, tocou num quadro de sua casa com as mãos nuas e viu uma árvore sendo derrubada para fazer a moldura, plantas sendo trituradas para fazer a tinta, metal sendo retorcido para fazer os grampos que prendiam a tela à madeira e então um bonito e jovem rapaz com o rosto sujo de tinta. Parou nele. Quando percebeu o que podia fazer, tudo se tornou muito mais fácil.
Foi quando experimentou tocar numa pessoa. Fazia-o há pouco tempo, de modo que uma tontura ainda lhe acometia quando roubava as memórias de alguém. Descobrira da pior maneira que, quando o fazia, parte de suas memórias também passava para a pessoa, como o sonho do acidente de barco; Ethan, Nicholas e Lorenzo confirmaram isso.
Apesar de ter um rígido código de conduta ética para nunca usar os segredos de uma pessoa contra ela, não resistira a tocar Nicholas Hentz. A primeira coisa que vira fora o rosto de uma criança morena de olhos pretos, que, à medida que o tempo passava, foi crescendo. No corpo de Nicholas, ele corria com a criança, brincava com ela, a abraçava, a amava da maneira inocente e da não inocente também. Lentamente, Rowan se deu conta de que aquele era Ethan Lemnsack. Um caso de incesto, por que aquilo simplesmente não o surpreendera?
Também viu mais: Ethan chorando e um garoto loiro como o sol e com olhos azuis do tamanho de mundos que escondiam um conteúdo incomensurável. Viu-os sendo machucados por rostos disformes e uma grande tristeza. Viu mais: uma garota com um bebê, apenas para serem rasgados ao meio como se fossem um pedaço de carne.
Tudo isso aconteceu em menos de um segundo. Em pouco tempo, Rowan logo sabia de Peter Marahana, Timothy Watanabe, Derek Merriweather, Kenneth Ellenzweig, Pablo Choi, Marion Ward, Stewart Hetch e Joshua Scalamonti, assim como sabia de Oliver Castanelli e que todos eles estavam mortos. Sabia de Angie, Ned, Daniel, Penelope e Jill Nevarnost, de Antonella Barcarolli e Enzo e Luca Granelli também. Sabia de Melon Chioren, London Weswalk e Ritchi Revonne, sabia da verdade sobre Rhanys e Olenna Olrwen, e também de Meera Cinneto e Charlie Hentz, que nunca chegara realmente a viver.
É claro que muitos detalhes inúteis foram simplesmente desaparecendo de sua mente com o tempo, isso acontecia muito. Mas os maiores sentimentos, ele guardava; as maiores felicidades, tristezas, bênçãos, culpas, amarguras e ansiedades, tudo ficava dentro de Rowan Pyatt mesmo que não quisesse. Tocar as pessoas o fazia ficar com pena delas. Por isso não as tocava sempre.
Mas seu desejo de saber sobre os Lemnsack Hentz Barcarolli aumentou. Quando tocou Lorenzo, Rowan ficou momentaneamente cego e vivenciou as maiores tristezas e alegrias que pensava que nunca mais iria vivenciar. Descobriu que Antonella era uma espiã e que era amante de Enzo Granelli; sentiu um forte sentimento por Jill Nevarnost e Marco Chioren. Quando tocou Ethan, quase foi ao chão. Tinha tanta coisa dentro dele, tanta coisa guardada e suprimida. Ele tivera que crescer tão rápido que não tivera condições de ser um adolescente. Descobriu sobre Lucas Fontanelle e sobre Ethan e Gabriel Melnick, Ethan e Danny, sobre Ethan e Melchior, sobre Ethan e Oliver. Não conseguira comparar o amor que ele sentia por Nicholas com o amor que sentia por Oliver, eram os dois tão grandes e vívidos que era surpreendente pensar que Oliver morrera por culpa de Nicholas e Ethan o perdoara, logo depois de ter um colapso nervoso.
As pessoas eram tão absurdamente complexas que era engraçado imaginar que eram apenas pessoas, tão pequenas, mas tão raras e preciosas.
Rowan largou o chaveiro, olhando para Gillian, que terminava de pintar o cabelo do outro lado do corredor, no banheiro. A verdade é que Maya não se surpreendera demais com a habilidade de Rowan porque ela já lidava com algo assim antes. De repente, sentiu pena de Oliver Castanelli, sendo chamado de esquizofrênico e dopado de remédios quando na verdade ele era igual à Gillian. Se apenas não tivesse cometido a besteira de falar aos quatro ventos que via gente morta e ficasse de boca fechada como sua irmã fazia, não o tivessem quase internado. Ele poderia ainda estar vivo.
A diferença entre Rowan e Gillian é que Rowan tivera uma experiência de pós-morte. Gillian nascera daquele jeito.
Também havia algo de estranho com Lorenzo. Não sabia se a habilidade dele de poder enxergar mesmo sendo cego era comparável à dele e a de Gillian, mas, se não era, deveria ser. Ele sabia identificar uma mentira com perfeição, como? E além de Lorenzo, aquela loja de antiguidades, aquela balconista horripilante e aquela criança mendiga mais estranha ainda. Talvez estivessem todas loucas, aquelas pessoas. Talvez ele estivesse louco. Louco ou não, sabia que algo estava errado. Lorenzo dissera que via algo se movendo em volta de Rowan, e as Sombras não se levantavam assim sem mais nem menos.
Quando Gillian saiu do banheiro, Rowan chamou-a para se sentar ao lado dele. Ela o fez.
— O que eles dizem? — indagou.
Ela olhou em volta, onde nada havia senão os móveis da casa. Eles estavam sozinhos. Seus olhos azuis acinzentados fitaram os de seu irmão novamente. Era apenas uma coincidência que ele tivesse os mesmos olhos dos Pyatt. Rowan não conhecia seus pais verdadeiros. Tocou-a com os dedos nus.
Estão agitados. Algo está acontecendo. As Sombras estão por toda parte.
— Eu senti — sussurrou de volta. — Eu sinto o tempo todo. Lorenzo sente também. Há algo de especial nele. Numa loja de antiguidades que fomos hoje, ele disse que as viu. Ele viu as Sombras.
Gillian fechou os olhos por um momento, respirou profundamente e então soltou o ar. Rowan a tocou de novo, esperou alguns segundos, arregalou os olhos e pulou do sofá, correndo do apartamento e chamando o elevador.
OoO
Meu Deus, ele sou eu alguns anos mais novo.
Não dava para ficar calmo olhando aquela criatura de olhos e cabelos pretos desfilando por aí como se não tivesse o sangue dos maiores magnatas do mundo correndo nas veias, como se não tivesse o sangue de Mary Alice Hentz e Charles Lemnsack, o sangue de Ethan.
Melchior tinha razão. Os genes dos Hentz eram muito fracos e o dos Lemnsack muito fortes, tanto que no momento em que um Lemnsack e um Olrwen se uniram, nasceram lindos bebês morenos de olhos pretos. Charles e Mary Alice nunca teriam um filho loiro e mesmo assim lá estava ele, aquela miniatura de Lemnsack pegando a correspondência como se nada de ruim acontecesse no mundo.
Como Oliver diria, as Sombras moram ao lado. Literalmente.
Mas que diabos, como seus pais poderiam nunca ter descoberto aquilo? Como nunca poderiam ter feito um teste de sangue ou algo assim, como Ethan foi obrigado a fazer quando Nick levou um tiro? Como duas pessoas poderiam ter sido tão estúpidas por treze anos? Ah, mas é claro. Eles não estiveram ali durante aqueles treze anos. Talvez durante uns dois ou três, só talvez.
Sentir ódio dos mortos é irracional, Ethan disse a si mesmo, principalmente quando seus corpos descansam despedaçados no fundo do oceano Atlântico. E quando são seus pais.
Parado na frente do elevador do prédio, não tardou até Lucas notá-lo ali, sorrindo com dentes brancos.
— Olá — ele disse, estendendo a mão. — Você deve ser o Ethan. Meu nome é Lucas. É… um prazer te conhecer.
— Igualmente — Ethan disse.
De repente, a porta do elevador se abriu, liberando ninguém mais ninguém menos que Nick Hentz. Ele levava uma bola de futebol de baixo de um braço e uma coleira no outro, com Charlie no fim dela. Não seria tão impressionante se ele não estivesse andando de muletas.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Espero não quebrar nenhuma janela dessa vez, tem um cara que está me perseguindo até hoje. E a rua está lotada de carros. Claro que está. A família real está na cidade. — Nick riu, passando pelos dois garotos como se não existissem. Então parou, virou e sorriu para Lucas. — Não posso jogar com a perna assim, mas posso fazer embaixadinhas. Quer vir comigo?
— Sim, eu adoraria — ele respondeu. Nick olhou para Ethan, depois de volta para ele, então seu sorriso morreu. De novo, Ethan, Lucas, Ethan e Lucas. Voltou a sorrir.
— Vocês realmente são parecidos. Vamos então.
Lucas se despediu e ambos deixaram o prédio, seguindo a rua Symphonia pelo lado esquerdo. Quando Ethan se deu conta, vários minutos haviam se passado com ele parado ali como um idiota.
Ele não vai descobrir. Nick não é inteligente. Oh, Deus, não acredito que pensei isso. Nick é um gênio. À sua maneira.
Quando percebeu um toque em seu ombro, Ethan virou-se. Era Rowan. Ele parecia assustado.
— O que houve?
— Nicholas e Lucas já saíram? — indagou arfante. Como Ethan demorasse para responder, ele gritou: — Já?!
— Já, qual o problema? E como sabia que eles sairiam?
Rowan atravessou o hall em direção ao pátio do prédio, deixando Ethan sozinho. Logo depois, uma garota de cabelo rosa saiu do elevador calma como uma criança, sem sequer lançar um olhar para ele.
— Ninguém mais me dá atenção — sussurrou quando ela saiu. — O que é que houve com garoto de um bilhão de dólares?
OoO
Rowan parou de correr quando chegou ao portão do prédio. Podia vê-los ao longe, quase em frente a um banco. Olhou no relógio. Eram quase seis horas da tarde.
— EI! — berrou a plenos pulmões. — EI, NICHOLAS! LUCAS!
Eles pararam e olharam para trás. Nesse momento, Nicholas deixou cair a coleira de Charlie e o animal desatou a correr dali, em direção ao prédio. Nicholas correu atrás dele e foi nesse momento que o relógio de Rowan marcou seis horas.
Um barulho monstruoso encheu o ar quando a porta do banco foi explodida e suas janelas estraçalhadas. Uma fumaça branca cheia de poeira ergueu-se do nada, escombros caíam pela rua e pessoas gritavam. Charlie e Nicholas conseguiram se afastar a tempo, mas Lucas foi tomado pela fumaça.
Rowan correu para lá bem a tempo de ver um pedaço de ferro atravessado inteiro na perna direita de Lucas.
OoO
Vendo seu irmão correndo desesperado, Gillian Pyatt sentiu-se culpada e frustrada. Andara vendo aquele banco explodir a semana toda, mas descartara aquela imagem porque, normalmente, os prédios a sua volta estavam sempre explodindo ou caindo de repente, embora isso nunca acontecesse.
Avisara-o muito tarde. Falhara.
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