Como Vivem Os Anjos

36 Nunca Se Deve Brincar Com Um Leão Lemnsack Hentz


Notas iniciais
Capítulo grande. o/

Quando percebeu, ele estava numa estrada reta e plana, com bonitos ornamentos nas beiradas, cinzenta e polida, brilhante sob a luz do sol. O céu era de um azul tão claro quanto o olho de um bebê feliz, não tinha uma nuvem sequer, e o ar era puro e refrescante, fazia suas dores e tristezas irem embora.

Queria ficar ali, sempre naquele estado bucólico e inquieto, onde nada de ruim parecia que ia acontecer. Não queria caminhar para frente, mas uma força invisível o forçava. Do lado direito da estrada, uma parede branca e altíssima, cujo topo não podia ser visto e o propósito era desconhecido.

No fim da estrada, ou não exatamente no fim, mas muito a frente, do lado esquerdo de sua beira, um castelo. Não daqueles bonitos e altos como dos contos-de-fadas, nem mesmo como o de Sacramento, mas um negro e pontudo. Ele não via seus detalhes, apenas sua sombra escura e assustadora. Como se estivesse sob a noite, o castelo jazia abominável, chamando-o com suas Sombras invisíveis.

Suas pernas se moviam sozinhas.

Não posso ir, não quero ir. Não posso, não quero, não vou. Não! Por favor… pare de me… empurrar… deixe-me ficar em casa… não quero… ir…

Aquele mundo medonho se desvaneceu num véu de lágrimas e tristeza enquanto um abominável som animado enchia os ouvidos de Nicholas Hentz.

— Nigel, ei, Nigel. Acorda!

Ele se remexeu entre lençóis até perceber que estava em sua cama, em seu quarto de hospital, e não na estrada. Mais uma vez, suspirou de alívio. Vinha tendo aquele sonho há quanto tempo, quatro, cinco anos? E quando sumiria?

— Ahnn… que é que você quer? — balbuciou, sentindo a cabeça rodar dentro daquele espaço apertado. — E como entrou aqui?

— Pela porta. Me segue, Nigel, quero te mostrar uma coisa.

— É Nicholas, não Nigel.

— O que é Nicholas?

Nick bufou irritado e se levantou da cama, esfregando os olhos para a pouca claridade que adentrava pelas cortinas fechadas. Carmen Goldenschild estava ali, com uma grande expressão curiosa nos olhos dourados. Ela parecia um filhote de gato e de cobra ao mesmo tempo.

— São quase cinco horas da manhã.

— Eu sei — ela disse, depois ficou fitando-o silenciosamente, provavelmente esperando que se levantasse. Estou com a impressão de que ela tem Síndrome de Asperger. Nick, por fim, cedeu. Escovou os dentes e lavou o rosto, calçando os pés.

— Espero que vala a pena.

— Se não valesse, eu não teria vindo falar com você, teria?

— Não sei. Acho que até uma borboleta voando nesse corredor valeria a pena para você.

— Não, tenho medo de borboletas.

Andaram um pouco até Nick perceber que estavam se dirigindo ao telhado do hospital.

— Acho que não podemos subir até lá — falou enquanto a via subindo pelas escadas até uma abertura no teto do sexto andar. Metade dos pacientes daquela ala do hospital era depressiva e suicida, a janela de seu quarto era até vedada para não ser aberta.

— Eu sei que não, descobri isso quando Vickie tentou subir aqui para se matar, mas felizmente impediram-na. Mas estamos bem agora. Você está bem também, Nigel?

— É Nicho… ah, que se dane. Anda, sobe essa escada.

O céu estava azul acinzentado quando chegaram lá em cima. As nuvens erguiam-se fofas como algodão doce, porém rarefeitas e finas. Uma delas tinha o formato de um dragão comendo uma árvore, como Carmen fez Nick notar. Ele não teve coragem de dizer que dragões provavelmente não comiam árvores, pois seus olhos brilhavam um amarelo límpido.

Vickie estava na beirada do prédio do hospital, apoiada na mureta, fumando um cigarro. Carmen se aproximou e pegou o cigarro da irmã, tragou e ofereceu a Nick, que só então notou que era maconha.

— Eu não fumo isso — ele disse.

— Você fuma cigarros normais? — Vickie indagou, com um desinteresse ofensivo na voz.

— Sim, mas só para irritar meu irmão. Não gosto realmente de fumar.

— Vai gostar se provar isso. Não seja um viadinho.

É tão óbvio que ela me xinga para me provocar, eu sei disso. Então por que estou simplesmente ignorando e indo na dela?

Nick pegou o baseado com cautela como se ele pudesse explodir a qualquer momento. Olhou mais uma vez para o horizonte de casas e prédios de Middleland e imaginou não se a queda daquele telhado o mataria, mas sim o quão rápido o faria. Então tragou.

— Então? — disse Carmen.

— Não senti nada — respondeu. — Por que me trouxe aqui?

— Por causa daquilo. — Apontou para o horizonte, onde nada acontecia. Então, de repente, uma luz dourada ergueu-se das nuvens cinza-arroxeadas e iluminou o céu escuro com aquela luz amarela e antiga. Nick apertou os olhos, pondo a mão em cima das sobrancelhas até perceber que aquele gesto era inútil.

— Vocês me acordaram a essa hora para ver o nascer do sol? Deus, vou voltar para a cama.

— É sempre bom ver o sol nascendo. Você sente como se você próprio renascesse. Por que você tentou se matar? — Vickie indagou, recostando-se na mureta do prédio.

— Não te interessa.

— Pode esconder o motivo, mas as cicatrizes dos seus pulsos não esconderão a consequência. — Ela tragou de novo, soprando a fumaça na cara dele. — Teve tanta coragem para cortar os pulsos com uma faca, mas não tem para dizer por quê?

— Eu não tenho que te dizer por quê.

— Não tem que dizer a ninguém, mas nunca vão parar de te perguntar. — Ela sorriu. — Uma hora, a imprensa vai perguntar. Seus irmãos também vão. Mesmo que você ache que eles saibam, eles vão querer ouvir da sua boca.

— Eles talvez ouçam, você não vai.

— Tanto faz, não me importa mesmo.

Nick bateu o pé no chão. Aquelas Goldenschild pareciam terem nascido com a habilidade de irritá-lo. Fitando aqueles branquíssimos sorrisinhos cruéis (o de Carmen assemelhava-se mais com ingenuidade e curiosidade), só se irritou ainda mais.

Desceu ao sexto andar tendo consciência de que elas o seguiam. A surpresa veio quando voltou a seu andar. Passando bem em frente ao quarto delas, foi empurrado violentamente para dentro do cômodo, vendo Vickie trancar a porta.

— Na verdade, me importa um pouco.

ME DEIXA SAIR…!

— É melhor não gritar, Nigel — disse Carmen. — Você vai ter problemas se descobrirem que está no nosso quarto.

— Que foi, não somos boas o suficiente para Nicholas Hentz? — Vickie indagou, sorrindo. — Também já tente me matar, duas vezes. Uma delas foi me dopando de remédios, a outra foi quando eu tentei me jogar do telhado desse hospital.

— Não conseguiu em nenhuma das duas — Carmen acrescentou alegremente, provavelmente se esquecendo de que aquilo era óbvio. Voltou o olhar para Nick, jogado no chão com os cabelos na frente da testa. — Bonito colar.

Nick inconscientemente tocou o medalhão de seu colar NE, de ouro e diamantes que Ethan lhe dera após sair do hospital após ter um colapso nervoso. Aquilo era tão horrivelmente brega, mas por algum motivo tinha certeza de que Carmen estava sendo sincera. Ela tinha ouro nos olhos, ao contrário de sua irmã, que tinha fogo.

— Uma vez, eu sonhei que estava num avião indo para algum lugar que eu não conhecia — Carmen disse, jogando o olhar para o ar etereamente como se estivesse muito longe dali. — Mas então o céu ficou negro, e era por causa de uma grande nuvem que o cobria. Tipo uma nuvem pesada e chuva, sabe? Então o avião começou a descer, mas mesmo depois de muito tempo descendo, ele nunca chegava ao chão. Então um tentáculo saiu de algum lugar e acertou a asa do avião, e nós começamos a cair de verdade direto para a boca do monstro.

— Você tinha uns sete anos — Vickie falou, ainda fumando a maconha. — Foi quando teve seu primeiro ataque de bipolaridade. Quase quebrou aquela cadeira na cabeça da nossa professora.

— Eu ainda o tenho, mas não tenho mais ataques por causa dos remédios.

— Querem falar de sonhos? — Nick sussurrou, fitando o chão. Abraçou seus joelhos, quase ficando em posição fetal, mas sentado. — Eu frequentemente tenho um pesadelo desde que tinha nove anos. Eu estou numa estrada bem pequena, parecida com uma calçada. Do meu lado direito, há um muro enorme e branco, e do meu lado esquerdo não há nada. Tudo está silencioso num plano azul claro, bem sereno… mas, do lado esquerdo da estrada, bem lá na frente, há a silhueta negra de um grande castelo, que embora esteja sob o dia, é tão escuro que isso é tudo que eu consigo distinguir, sua silhueta. Eu caminho em direção a ele, e por mais que tente parar, alguém me empurra para frente.

— Eu tinha meu sonho porque tenho medo de andar de aviões — Carmen disse. — Por que você tinha o seu?

Nick lambeu os lábios, se levantando.

— O castelo era minha escola, a de Castellobranco. Eu ia andando para lá todo dia com Ethan sobre uma calçada cinzenta. Do lado direito da calçada, havia um muro branco de uns dois metros de altura. A entrada da escola era mais ou menos no lugar onde o castelo está localizado, e tudo é azul claro porque estudávamos de dia. Eu era empurrado sem parar porque Ethan me empurrava para que eu não fugisse, já que detestava a escola. Que criança não detesta?

— Detestar a escola não explica o medo que você sentia de ir para lá — Vickie sussurrou.

— Não. — Nick sorriu. — Não explica.

Então contou a elas o motivo de ter medo de ir para lá, e na verdade seu medo durara apenas um dia, dia seguinte ao qual teve aquele conversa com sua mãe. Aquela conversa de noite na cama, em que ela lhe cantou uma música e fez o que tinha de ser feito antes de desaparecer pela manhã.

Ethan não tinha culpa. Ele nunca soubera. Ele nunca soubera que Mary Alice Hentz era o ser humano mais egoísta que já pisara na face da Terra. E ela era sua mãe. Não era irônico?

— Agora vou voltar ao meu quarto — disse às gêmeas. — Se me dão licença.

OoO

Quando Lorenzo veio visitá-lo àquela tarde, Nick estava à espera com as malas prontas. Ninguém pretendia que ele saísse do hospital naquele dia, mas, bem, Nick Hentz sempre foi um garoto adepto a surpresas.

— Por que está tão ansioso? — Lore indagou, sentando-se à cama com Charlie no colo. Nick pegou o cachorro nos braços, vendo como crescera.

— Não estou — mentiu, mesmo sabendo que Lorenzo saberia que estava mentindo. Ele podia fazer grandes coisas, sentia isso. Também era o que Rowan dissera. Rowan, que ele não via há mais de um mês. — Onde está Ethan?

— Lá em baixo, pagando essas semanas que você ficou aqui. Talvez adiantando algumas outras.

— Tomara que esse hospital ofereça reembolso.

— O quê?

Ethan entrou no quarto nesse momento. Nick observou que ele devia ter crescido uns dois centímetros naquelas semanas. O que era aquilo com aquela família? Passavam anos sem crescer um centímetro para de repente desataram seis ou sete centímetros em seis meses. Talvez não fosse nada, a mesma coisa acontecera com Nick e ele não era nem um Lemnsack, nem um Hentz, nem um Barcarolli.

— Acho que só não abdico do nome Lemnsack Hentz por causa da fortuna que eu perderia — disse cinicamente, vendo o irmão erguer as sobrancelhas, com uma profunda irritabilidade e desinteresse no olhar. — Quero sair desse hospital.

— Sair? — Lore sussurrou.

— Sim — Nick respondeu, ainda olhando para Ethan. — Não aguento mais esse lugar. Fiquei duas semanas aqui e não aprendi o nome de ninguém, nem das enfermeiras, e algumas delas são gostosas. E apesar de estar com apenas quarenta e três quilos, minha psicóloga Ellis diz que eu posso sair, já que minha anorexia era causada pela depressão, e não porque eu realmente queria ficar mais magro. Acho que ela disse que foi para chamar atenção. Prometo não tentar me matar de novo, ou, se eu tentar, prometo ter êxito.

— A vida é uma piada para você, não é, Nick Hentz? — Ethan indagou. Nick descobriu que odiava ser chamado daquele jeito.

— E quem me diz, a pessoa que mandou matar oito pessoas. — Olhou para o rosto infantil de Lorenzo, e viu sua surpresa. — Tem muita sujeira varrida para baixo do tapete nessa família, Lore. Você ainda vai saber delas.

— Você não vai sair daqui — Ethan rosnou. Nick se perguntou o que Melchior faria, até se lembrar do rosto de anjo dele sendo filmado por uma dúzia de câmeras durante a Revolução M. Ele respondeu todas as perguntas com um grande sorriso, um cinismo maior ainda e vomitava carisma.

— Ellis também acha que eu estou mentalmente bem para dar algumas voltas por aí, sabe? E tipo, meu rosto é bem conhecido, pode ser que algum paparazzo venha falar comigo e eu acabe falando algo que não devia.

Viu com satisfação Ethan levantar uma sobrancelha. E o fato de o sorriso de Nick ter morrido naquele momento mostrou que estava falando sério.

Momentos depois, enquanto saía do hospital rumo ao sedã preto do estacionamento, Nick meio que saltitava pelo cimento.

— Sabe, se você pretende construir uma empresa, devia começar com hospitais — disse ao maior. — Eu fiquei seis horas num hospital público e tive uma infecção, pelo amor de Deus.

E percorreram o resto do caminho em silêncio. Nick via seu irmão como um balão, e cada malcriação sua o enchia um pouquinho mais até que chegasse ao seu limite. E o que acontecia quando Ethan chegava ao seu limite? Ora, ele explodia.

Mas ele esperou até que os dois estivessem sozinhos na sala de casa para fazê-lo.

Eu dei a minha vida para você! — Ethan berrou para Nick, que sentava-se encolhido no sofá. A verdade é que não aguentaria a indiferença de Ethan por muito mais tempo. Seu grito era melhor que seu silêncio. — Eu entreguei a minha vida para você, Nicholas Hentz, desde que eu tinha dois anos. Eu literalmente vivia para ver você feliz, porque eu não era feliz. Eu só fui feliz durante três meses da minha vida, e você os destruiu! — Nick notou que os olhos de Ethan lacrimejavam quando ele gritava. Ou talvez quisesse apenas chorar. — E mesmo depois disso, eu te perdoei, e por quê? Porque eu amo você, seu egoísta estúpido! Você não entende isso? Que você é e sempre foi o amor da minha vida?

Bom, ele realmente quer chorar, o ruivo pensou, com a expressão neutra. A despeito de sua expressão, começava a se sentir culpado. Apenas imaginara o quanto ele se sentira agoniado estando a setecentos quilômetros de distância com nenhum modo de impedi-lo de fazer o que quisera fazer.

— E como é que você agradece dezesseis anos de dedicação exclusiva a você? — ele sussurrou. Ethan se aproximou e Nick pensou que ele fosse bater nele, mas o maior apenas ergueu seus pulsos e só faltou esfregá-los na sua cara. — Com isso — falou com repugnância. — Isso nunca vai sair daí, vai ser sempre a merda da prova da merda que você fez. Queria que eu ficasse do mesmo jeito que você ficou quando Mia morreu?

Ethan virou-se de costas e Nick abaixou a cabeça. Ficaram em silêncio por alguns segundos antes que o menor o quebrasse.

— Tenho que tomar meus remédios — sussurrou. Quando voltou o olhar ao irmão, ele estava realmente chorando. — Se não tomar, vou ter uma crise de abstinência.

Nick fechou os olhos e jogou a mente para longe, tentando se lembrar de um par de olhos azuis e cabelos louro-prateados muito claros.

— Você tem ciúme de mim? — Ollie indagou. Estavam sozinhos no jardim da casa cor de vinho de Castellobranco, aquela do fim da Rua Boulevard; Ethan não sabia que ele tinha ido ali.

— Não — Nick respondeu, mesmo tendo vontade de envolver a mão no pescoço dele e apertá-lo até que seu rosto ficasse roxo e seus olhos ficassem tão inchados que perdessem todo aquele sobrenatural brilho azulado.

— Está mentindo — Oliver falou, com uma neutralidade irritante na voz.

— Me deixe em paz — Nick disse, depois se virou, mas então sentiu sua mão suave em seu ombro.

— Eu achei isso — sussurrou, estendendo-lhe um papel dobrado — dentro do armário da professora da educação infantil da St. Emanuelle. Tinha seu nome no envelope, então abri. Foi isso que me fez perceber que eu gosto muito do Ethan.

Aquilo irritava tanto Nick, o modo como Oliver falava. Parecia uma criança, como se tivesse voltado aos primórdios da própria vida; e outras vezes ele falava como um adulto, como um poeta.

Pegou o papel e abriu, erguendo as sobrancelhas. Como vivem os anjos? foi tudo o que conseguiu ler antes de desviar a vista.

— Eu fiz isso quando tinha seis anos — falou. — Eu só deveria receber ano que vem, você não deveria ter pego.

— Leia o que escreveu.

— Não. — Nick dobrou o papel e lhe devolveu. — Devolva a onde achou. — Oliver, porém, teimoso como o Diabo, abriu a carta e começou a ler:

Os anjos não estão no céu, estão aqui, com a gente — ele entoou roucamente. — Eles acordam você de manhã com um beijo no rosto e te obrigam a tomar banho porque sabem que vai ser melhor para você. Eles ajudam você com o dever de casa e assistem TV com você. Quando você se machuca, eles beijam o machucado e limpam suas lágrimas e dizem que vai parar de doer logo. Eles te abraçam quando você sente frio. Eles deixam o último biscoito pra você e quando repartem um chocolate, sempre te deixam ficar com o maior pedaço. Eles são gentis e simpáticos. Eles te contam histórias para dormir e dormem com você quando está chovendo forte. Eles estão sempre perto de você para o que der e vier. E te amam mais do que tudo. Eles vivem por você e para você. — Então completou: — O único anjo que eu conheço é meu irmão, mas devem existir muitos. — Ergueu a vista, encarando-o com aqueles olhos intimidadores. — Ethan faz isso com você?

— Faz — Nick sussurrou, baixando o olhar.

— Ele não faz comigo. — Voltou a levantá-lo. — E sabe por quê? Porque não sou eu, Nicholas, é você… o anjo dele é você… não fique magoado, com raiva, angustiado…

Ele sempre fazia aquilo. Dizia o que as pessoas estavam sentindo. E aqueles olhos… aquelas coisas pareciam estar vivas, e na verdade não pertenciam a Oliver, mas Oliver pertencia a elas.

— E você sabe o que é mágoa, raiva ou angústia? — indagou irritado. — Ou sequer amor? — Oliver assentiu.

— A mágoa é uma nuvem densa e cheia de Sombras. Raiva é um ameaçador estrondo de trovões. A angústia é uma chuvinha constante, fria e cheia de terror. E o amor… sai de casa toda manhã com um casaco e um guarda-chuva…

A voz suave de Oliver Castanelli se desanuviou num véu de lágrimas e beijos que Nick só se deu conta de existir quando percebeu que Ethan o osculava com fervor, e ele retribuía.

Nick puxou-o pela cintura, fazendo-o deitar-se sobre si. Abraçou-o com as pernas num aperto de ferro, beijando sua boca e arranhando suas costas. Gemia quando enfiou a mão em sua cueca e apertou suas nádegas, sentindo a língua esguia de Ethan deslizar por seu pescoço.

Há quanto tempo não faziam amor apaixonadamente daquele jeito? Nick não raciocinou direito quando o maior arrancou sua camisa e desceu o zíper da calça, ajoelhando-se em cima do peito do ruivo. Nicholas segurou seu membro duro como rocha pela base e colocou a glande vermelha na boca, sentindo seu sabor e seu cheiro de sexo inebriando seus sentidos.

Ethan passou a estocar a boca do menor enquanto este apertava e arranhava suas coxas, quase engasgando com o membro entrando até o fundo de sua garganta. Nick deslizou os dedos para o meio das pernas de Ethan e penetrou-lhe com um dedo, depois com dois, fazendo movimentos circulares e violentos, como que para lhe causar dor. Ethan acabou ejaculando mais cedo com isso.

Nick engoliu o esperma, dividindo-o com o maior num beijo apaixonado. Então, repentinamente, deitou-o no sofá, erguendo as suas pernas.

— Acho que você vai ser a minha namorada hoje — sussurrou-lhe. Ethan estava suado, ofegante, ainda excitado, com os joelhos lado a lado quase tocando o peito. Ou seja, tão sexy quanto nunca.

Nick ficou de quatro no sofá e afundou o rosto entre as pernas no maior, encostando a língua em seu ânus e penetrando-a lá. Ethan se contorceu de excitação, puxando os cabelos vermelhos do irmão enquanto ele o beijava e mordiscava naquela parte tão íntima.

O menor pressionava o membro contra o sofá, quase delirando com o sabor do moreno bem ali na sua boca. Subiu um pouco e acomodou seus testículos em sua boca, chupando-os delicadamente enquanto alargava a entrada de Ethan com três dedos ao mesmo tempo.

Deu chupões em suas coxas e afundou os dentes nela, fazendo o mesmo no restante da perna até chegar aos pés. Nick deslizou sua língua desde o calcanhar até o dedão, beijando toda a sola, aspirando seu cheiro e mordiscando os dedinhos menores. Pressionou-os contra seu rosto antes de pôr Ethan de quatro.

Quando sua glande entrou, Nick preencheu o irmão de uma vez, sentindo o maior prazer desde muito tempo. Puxou-o pela cintura e começou a estocá-lo com força. Puxou seus cabelos, arranhou e beijou suas costas, sempre fodendo-o com violência e sem se importar com sua dor. Em certo momento, saiu de dentro de Ethan e o deitou se lado, dentando-se por trás dele. Começou a bombardeá-lo de novo até que sentiu sua ejaculação quente enchê-lo por dentro, gemendo baixinho em seu ouvido, como que só para ele.

E por fim, estavam deitados lado a lado, nus com os dedos entrelaçados.

— Afinal de contas, você pegou ou não pegou meu remédio? — indagou, fitando seus olhos sem cor. Ethan limitou-se a pegar um comprimido de cima da mesinha de centro e um copo d’água, o que fez Nick perceber que ele devia tê-lo pego na cozinha e, quando voltara, encontrara-o ali, chorando a toa. — Vou pintar o cabelo de louro — disse. — E deixar de usar os piercings. Mas vou continuar com o brinco.

Ethan não falou nada. Nick beijou seus lábios com vontade, sorrindo por dentro ao ver que ele retribuía sem dó.

É, a resposta é sempre a mesma: na dúvida, faça o que Melchior faria.

Quando se levantou, jogou o cabelo para trás e catou as roupas no chão, subindo as escadas enquanto seu dourado corpo nu reluzia na luz do sol poente e cantarolava:

Um rivotril para o pão trazer.

Dois rivotris para dar de comer.

Três rivotris para a água procurar…

OoO

Bem, se aquilo não era um castelo, estava perto de ser. Eadwine lhe contara que aquela casa pertencia à Família Goldenschild, e que era frequentemente alugado por celebridades que queriam tirar umas férias sossegadas do mundo numa cidade média como Middleland. No momento, estava alugada para a Chaulwen.

— Como me achou aqui, na Califórnia? — indagou a ele enquanto andavam pelos corredores antigos, mas construídos há não mais que sessenta anos. Era o que as paredes lhe disseram quando lhes tocara; vira pedreiros e eletricistas e arquitetos e engenheiros montando aquele castelo para que parecesse ter sido feito há três séculos.

— Depois do seu afogamento em Huntington Beach, saíram algumas notas no jornal local sobre a morte de seu pai adotivo, Owney Hannersmith. Nós sabíamos que ele era o marido de Maya Pyatt, e sabíamos que havíamos entregado o último Atheneus vivo a uma Pyatt, mas Maya sumiu dos mapas quando você tinha por volta de três anos. Só a achamos sete anos depois, quando seu marido morreu. Depois disso, foi de certa forma fácil achá-la pelo condado de Southeria.

“Não tentamos contatá-la, porém. Creio que ela nunca se recuperou totalmente da morte de Owney, embora eu possa perceber que continua amando você tanto quanto antes. Procuramos seu nome nas escolas daqui e finalmente o achamos na Academia Alphonse Enoi, assim como o de Gillian.”

— Quer dizer que minha mãe sabia disso — sussurrou tristemente. Aquela enganação toda o irritava profundamente; sua mãe sempre dissera que o adotara de um orfanato ainda bebê.

— Sim — Eadwine lhe disse. — Os Pyatt são hoje a família mais próxima dos Atheneus que ainda existe, muitos dos seus antepassados foram mortos queimados do século XV até o século XVII, na caça às bruxas dos confins da Europa. Foi isso que incitou os Atheneus a se deslocarem de lá para pontos remotos da Escócia, França, Haiti, Estados Unidos e finalmente a Califórnia.

“Eles, os Pyatt, porém, parecem ter se esquecido de suas origens mágicas com o passar do tempo. Muitos deles ainda têm habilidades de fazer as coisas que chamamos de bruxaria, que é a capacidade de manipular forças invisíveis, seja quais forem. A avó de Maya, Ivienna Pyatt conseguia mover objetos pequenos. Era uma telecinética relativamente poderosa, mas nunca desenvolveu seus poderes plenamente. Maslynn, irmã de Ivienna, era sensitiva. Sawyer e Samuel Pyatt, os filhos gêmeos de Maslynn e tios de Maya, eram clarividentes, os dois. E Deirdre, mãe dela, possuía o poder de ler mentes.”

— Mas… — Rowan sussurrou. Gillian estava ao seu lado, e seus olhos indagavam a mesma coisa que ele. — Deirdre teve minha mãe quando ela tinha o quê…? Dezesseis anos? Foi um escândalo na família. Deirdre morreu louca.

— Porque ela não conseguia controlar os próprios poderes. Ficou tão exausta de ouvir pensamentos aleatórios que não faziam sentido por onde quer que fosse que sua mente entrou em colapso. Eu me lembro dela, era uma jovem tão bonita. Foi uma das últimas Pyatt a ter relações com a Chaulwen, ela interessava-se realmente por isso. Mas não o resto dos Pyatt. Eles isolaram sua mãe, como você sabe.

— Como vocês funcionam? Quer dizer… vocês têm sedes no mundo todo?

— Em Amsterdã, Zurique, Londres, Nova Iorque, Paris, Lisboa, San Francisco, Sacramento e Middleland. Essas são as maiores sedes, ou Casas, como preferimos chamá-las. Há uma em Roma também, mas é menor, embora seja uma das mais importantes. A Igreja Católica não parece gostar muito de nós.

— Mas se a Chaulwen é uma organização tão grande, como podem ser tão secretos?

— Nossa atitude é essencialmente passiva, Rowan. Coletamos informações e as transcrevemos para nossos arquivos, fazemos associações, coligações e rastreamos outros descendentes de Atheneus pelo mundo. Fazemos chegar informações a quem merece, a quem experimenta sensações de pós-morte e acorda seus poderes assim. Às vezes, chamamos alguém para fazer parte.

Havia uma coisa que queria perguntar, mas tinha vergonha o suficiente para não fazê-lo. Gillian, porém, não tinha. Na verdade, ela respondeu a pergunta de Rowan.

— Vocês roubaram o dinheiro dos cavaleiros templários — ela disse, deslizando os dedos finos pelas paredes verde-escuras. — Eles entregaram o dinheiro a vocês por segurança quando o rei da França os prendeu. Mas eles foram mortos e, no fim, vocês não tinham a quem devolver um centavo, então ficaram com ele. Por isso têm essas Casas por todo o mundo. São podres de ricos, cheios de dinheiro antigo.

— E temos uma profunda vergonha disso — Eadwine acrescentou, sem parar de andar. — Fomos criados há séculos para protegermos os Atheneus para que não sucumbissem pelos seguidores do Mal e para prendê-lo novamente à terra a cada cinquenta anos, quando ele se levanta. Com o passar do tempo, também começamos a coletas informações a respeito de bruxaria, feitiçaria e coisas assim. Nunca pusemos o demônio no meio disso tudo, nossos historiadores antigos eram alguns dos poucos que pesquisavam sobre o oculto e acompanhavam a magia negra sem, no entanto, praticá-la. Sempre observamos tudo neutros.

— Como a queima de mulheres inocentes acusadas de bruxaria — Gillian sussurrou pesadamente.

— Posso te afirmar que muitas delas não eram inocentes, embora a percepção de mundo daquela época fosse tão ínfima que não podíamos realmente fazer nada para impedi-los. As que se juntavam a nós normalmente sobreviviam, nós as ensinávamos a esconder seus poderes e cobrir as Sombras que as seguiam.

“Na verdade, não aceitamos apenas aqueles que têm dons extraordinários, mas todos que têm interesse nesse tipo de conhecimento, aqueles que respeitam dogmaticamente nossa falta de dogma, nossos métodos lentos e meticulosos de interferência apenas quando necessário.”

Então ele se lembrou de algo.

— Lorenzo. Lorenzo Barcarolli; qual a relação dele com Atheneus?

— Calculo a relação dos Barcarolli com Atheneus tendo começado por volta dos anos 1820, quando Giovanna Accioli teve um filho ilegítimo com Vicenzzo Atheneus, que era descente direto de seu homônimo. O pai nunca assumiu a criança e a mãe voltou com ela à Itália, tendo seus descendentes posteriormente adotado o sobrenome Barcarolli. A Chaulwen os vigiou por um tempo, mas então os perdeu.

— Só que reencontraram. Vocês sabiam que Antonella era uma Atheneus distante. Nunca entraram em contato com ela?

— Entramos, mas não exatamente por causa dela… ela nunca demonstrou ter habilidades especiais, mas o fato de ter um filho cego que não aparentava dificuldade nenhuma para enxergar nos interessou. Eu tive uma longa conversa com ela há alguns anos, creio que Lorenzo tinha cinco anos de idade nessa época. Eu percebi que ele me entendia falando com ela, mesmo que conversássemos em inglês, e na época ele teoricamente não soubesse o idioma. Mas Antonella tinha uma atitude tão extremamente superprotetora em relação a ele que decidimos deixá-los em paz, embora cuidássemos para que os seguidores do Mal não os encontrassem. Hoje em dia, estimamos um montante de mil e duzentas famílias descendentes distantes de Atheneus espalhadas pelo globo em cinco continentes diferentes, com pouco mais de onze mil membros.

Gillian ouvia tudo atentamente. Rowan havia tentado transmitir-lhe o que Eadwine lhe dissera naquele dia na livraria de sua mãe, mas era difícil demais. Por isso a tocou de leve no rosto e passou-lhe suas lembranças. Estava tentando evitar aquilo porque tinha medo de acabar jogando em sua mente alguma recordação do Porão de Bathory.

— E quanto a… Oliver Castanelli?

Eadwine fez uma leve hesitação ao ouvir aquele nome.

— Oliver — ele repetiu. — Sim, nós tomamos consciência dele após o curioso caso ocorrido no Vale das Sombras, no Canadá, há alguns anos. Uma criança que se perde numa floresta de neve por um mês e não morre não é algo que se vê todo dia, ainda mais uma que clama ver pessoas azuis que ninguém mais vê. Imediatamente, percebemos que os espíritos que o seguiam se importavam com ele. A maioria deles é irresponsável e travessa, é uma característica comum a quase todos. Quando ele saiu do Canadá, morou algum tempo em Nevada, nos Estados Unidos, depois foi para Piazzavuota, no norte da Califórnia. Foi aí que começamos a observá-lo mais atentamente. — Eadwine tomou ar. — Foi o pior caso de sobrecarregamento de poderes que eu já vi na vida. Ele era como um ímã de espíritos, principalmente os de crianças, talvez pelo fato de ter sido abusado. Mas os ignorava completamente, então eles se acumulavam e o atormentavam. Quando ele chegou a Castellobranco, percebemos que era tarde demais. Seria impossível convencê-lo de que ele não tinha esquizofrenia, isso já estava tão enraizado em sua mente que… — Outra pausa. — Eu planejava conversar com ele, mas menos de uma semana depois, ele morreu.

— Se ele não tivesse morrido, teria ficado louco como Deirdre ficou — Rowan sussurrou.

— Muito provavelmente. Temos algumas evidências que provam que a rainha Henrietta também descende de algum ramo distante dos Atheneus, mas isso é contestável, já que nenhum outro membro da família real demonstra possuir poderes.

Era engraçado achar alguém sentado numa poltrona com uma pilha de livros ao lado lendo cuidadosamente, tão imperturbável quanto se estivesse sozinho. Rowan sabia que tinha um poder magnífico nas mãos e que havia como desenvolvê-lo ao ponto de se tornar como o de Eadwine, mas era difícil. Ele era só um garoto. E Gillian, apesar de ser três anos mais velha, também era apenas uma garota.

— Você é uma das pessoas mais poderosas que já se ramificaram dessa dinastia — Eadwine disse a ela enquanto pisava no tapete vermelho de um dos salões do castelo. Ficava na parte sul de Middleland, quase deixando os limites da cidade, encoberta pelos muitos séculos de árvores penosas e pelos poucos anos de arranha-céus modernos. — Uma sensitiva clarividente que vê as Sombras com perfeição e nitidez é rara e preciosa. Creio que a última que podia se comparar a você era… Althea Atheneus. Se você for ensinada bem, pode aprender a filtrar suas variadas visões. Com o tempo, você aprenderá a ver o que realmente vai acontecer, e não apenas suas possibilidades.

— Há outros sensitivos por aqui? — Rowan indagou, quase esbarrando num apressado garoto de cabelo completamente branco de uns doze anos ou menos que andava apressadamente, como que fugindo de algo, ignorando as diversas artes antigas penduradas nas paredes.

— Sim, como esse que acabou de passar por você. Ele está dando um pouco de trabalho, é difícil convencê-lo de que as pessoas que ele vê correndo atrás dele não podem machucá-lo diretamente. Tivemos que interferir porque ele estava ficando louco com os espíritos lhe atormentando

— Gostei do cabelo dele.

Chegaram a um longo corredor com vários quadros gigantescos emoldurados do lado direito da parede. No lado esquerdo, janelas de tamanho natural davam vista para um enorme lago artificial cercado de grama verde e carvalhos antigos também deixavam entrar uma luminosidade fosca do sol nublado lá de fora. O mundo estava mudando, Rowan sentia isso.

O primeiro quadro era uma pintura antiquíssimo de um homem de porte magnífico com longos cabelos acinzentados.

— É Atheneus — Rowan adivinhou.

— Ou como se pensa que ele era. Não existem retratos dele. Não existiam retratos naquela época. Acredita-se que ele tenha vivido por volta do século I. — O homem da foto tinha rosto comprido e austero, seus olhos eram da mesma cor que o cabelo e havia algo de cansado em sua expressão.

Eadwine continuou andando, mas Rowan fixou os olhos no retrato. Não precisa tocá-lo para saber o ano, estúpido. 1664, está escrito na moldura. Os olhos de Atheneus pareciam fitá-lo com uma certa sagacidade e quem sabe até uma perspectiva grandiosa. Bobagem. Era só uma pintura.

Gillian puxou-o pela mão, tirando-o de seu transe. Eadwine passou pelos próximos seis quadros em passo lento, e Rowan não precisou que ele dissesse que as duas mulheres e os quatro homens pintados eram o resto da Comitiva, longinquamente inspirados em reminiscências de seus antepassados.

Entraram por uma porta à direita.

O quarto em que se encontravam era tão grande quanto um campo de futebol. Parecia ser maior que a mansão inteira e estava atulhado de prateleiras altíssimas cheias de livros antigos e novos, manuscritos de séculos de idade e fotocópias dos mesmos disponíveis para leitura. Algumas pessoas recostavam-se em poltronas, mesas e sofás. Rowan ficou pensando quais segredos uma sociedade tão antiga quanto à própria Igreja Católica podia esconder.

— Isso é o paraíso — sussurrou.

— É uma ilusão — Gillian falou. Não sei se estou ficando louco, mas a voz dela me parece estar um pouco mais… intensa. — Esse quarto não é desse tamanho. Foi aumentado para que fosse possível guardar todos os arquivos. Vejo resquícios de Sombras em cada centímetro que olho.

Havia escadarias que levavam a pisos superiores, e quando Rowan atravessou a biblioteca para chegar ao primeiro andar, percebera que nunca vira tantos quadros em sua vida. Vários corredores armados com paredes artificiais montavam um quarto monstruosamente grande, e cada corredor continham sete quadros em cada lado da parede. Todos mostravam pessoas únicas, homens ou mulheres, velhos e jovens, sentados numa posição austera. Todos bruxos, todos Atheneus.

Demorou um pouco para chegarem aonde Eadwine queria. Ele não precisava da bengala para andar, e a usava em público apenas para manter as aparências. Parecia enxergar tão bem quanto Rowan.

O último corredor continha apenas um quadro do tamanho de uma pessoa, que estava iluminado por uma fraca luz branca. O que Eadwine dissera a Gillian? A última que podia se comparar a você era… Althea Atheneus. Althea Atheneus era o nome talhado na placa dourada de baixo do quadro. Tinha o cabelo castanho de Rowan, tinha os olhos azuis-acinzentados de Rowan, tinha as feições delicadas de Rowan. E não estava sorrindo, mas, com os olhos cobalto muito brilhantes, sorria maravilhosamente.

— Ela sempre foi assim — Eadwine sussurrou, parando em frente ao retrato como um perfeito cavalheiro inglês. — Sempre parecia estar sorrindo, mesmo quando não estava. Sempre fora assim, ativa e altiva, as Sombras nunca a seguiam por muito tempo. Até em sua morte, quando o corpo dela foi tirado daquele carro, você estava em baixo dela; chorava. E ela… sorria.

— O que ela fazia?

— Tudo — ele respondeu simplesmente. — Todo esse lugar, toda essa fantasia na qual estamos agora foi feita por ela. Althea manipulava a realidade com o dom da ilusão, um poder que só foi visto pela última vez no século XIX. Era tão poderosa que sua magia ainda persiste mesmo depois de morta.

— Foi… provocado? O acidente? — indagou, sentindo um nó na garganta ao olhar para aquele rosto que nunca conhecera e que tanto o amara.

— Foi — Eadwine admitiu. — Bathory estava desaparecida até cerca de dois anos depois do seu acidente. Estou falando do afogamento, não do de carro. Acreditamos que, de alguma forma, descobriram onde você estava e tentaram te matar. Talvez por isso que Maya tenha fugido. Quando descobrimos que Bathory fixara residência em Middleland, também viemos para cá. Foi uma coincidência encontrar Maya aqui.

— Por que a deixam matar todas aquelas crianças? — perguntou irritado. — Deviam fazer alguma coisa para pará-la.

— Porque, se nós a impedimos, ela fugirá com Jhahantar e a perderemos de novo. E Deus sabe quando a conseguiremos encontrá-la. Sempre foi assim que fizemos: execramos o Mal após algum tempo dele acordado. Se Bathory morrer, ele arrumará outra pobre criatura.

Rowan desviou o olhar daquele rosto feminino que sorria num momento tão inapropriado.

— Quem era meu pai? O verdadeiro.

— Seu nome era Seth Richmond, ele era um pintor americano. Foi ele quem pintou esse quadro.

— Minha família foi dizimada então? — perguntou tristemente. Rowan sempre soubera daquilo, mas ninguém nunca lhe dissera. Ele precisava ouvir.

— Não, Rowan. Seu pai tinha irmãos e irmãs, e você tem tios e tias e primos e primas. Mas escondemos isso de você porque o acidente que vitimou Althea e Seth não foi um acidente. Eles queriam você morto, e a Chaulwen não. Queríamos te contar a verdade quando fizesse dezoito anos. Foi um acordo que fizemos com Maya. Ela foi a única dos Pyatt que aceitou ficar com você.

Rowan voltou o olhar para Althea, com seus longos cabelos castanhos e com névoas sonhadoras nos olhos. Uma bruxa, sua mãe. Parecia tão feliz ali, e descobriu o porquê quando tocou no quadro e viu um jovem e bonito pintor de cabelos louros e olhos verdes pincelando numa tela quase completada. Althea estava sentada na cadeira até que um som de choro foi ouvido e ela se levantou, pegando um bebê rechonchudo de um berço e ninando-o no colo. Seth parou de pintar. O quadro estava finalizado. Pouco menos de um mês após seu nascimento, no ano 2000, ele estava finalizado.

Rowan Pyatt sentiu um gosto salgado em seus lábios, mas a mão de Gillian estava em seu ombro, e lhe reconfortava.

OoO

Ela acordou àquele dia com uma dor no estômago que a fez se contorcer na cama, mas passou quando engoliu aquelas pílulas vermelhas e amarelas. Levantou-se nua de sua cama e abriu as cortinas, sentindo o doce aroma do Château de Wintorland, residência oficial de Cornelius Goldenschild, seu pai adotivo; era uma casa de campo construída sob estilos neorrenascentistas em 1844, ou 1845, ela não se lembrava direito, pelo Barão Ferdinando de Goldenschild, que Deus o abençoasse.

Seu quarto dava vista para o terraço. O parterre do jardim frontal consistia em canteiros de equináceas, gerânios, azaleias, dálias, lírios brancos e roxos, coleus, zinias, vincas, margaridas e rosas, cujos leitos florais eram delimitados por muretas baixas de pedra, rodeados de alamedas de passeio dispostas simetricamente e pavimentadas com gravilha.

O sol lançava uma luz fraca e enevoada para a grama muito brilhante molhada pelo orvalho, e Carmenia Goldenschild já via diversos jardineiros trabalhando naquele pequeno mundo verde. Enrolou uma mecha de cabelo desidratado entre seus dedos compridos antes de deixar o quarto e entrar no de Vickie.

— Tive um pesadelo — falou à irmã, que dormia como uma pedra. Sacudiu-a até que ela gemesse de irritação. — Posso dormir com você?

Vickie balbuciou alguma coisa.

— O do avião?

— Sim.

Carmen se aconchegou debaixo dos lençóis grossos e esfregou as mãos frias.

— Ainda estou pensando naquilo — disse. — Naquilo que Nigel disse, lembra?

— Ah, sua vadia louca — Vickie resmungou. Ela sabia que Carmen não a deixaria voltar a dormir. — Sua vadia louca que não come nunca.

— Não, quem não come é o Nigel. Eu como, mas depois vomito.

— Quem é Nigel? Ah, o Nicholas.

— Quem é Nicholas? — indagou curiosamente.

— Ninguém. Certo, certo, também estou pensando no que ele disse, mas já passou. Agora vamos voltar a dormir.

— Perdi o sono. Vamos falar com ele amanhã na escola?

— Para qual escola vamos dessa vez?

— Academia Alphonse Enoi. Espero que você não seja expulsa por espancar outro garoto.

— Também espero. E se for, espero que seja o Ben e que eu o mande pro hospital. Agora feche os olhos e fique quietinha por mais umas seis horas… você está magra demais. — Vickie desceu os olhos pelo corpo nu da irmã. Os seios pequenos e perfeitos caíam graciosamente por seu peito. — Como passou pelo exame do hospital?

— Coloquei pesos dentro da calcinha, engordei meio quilo. Acho que vou cuidar do Romeo.

— Ele está dormindo.

— Então vou acordá-lo e forçar o Ben a cuidar dele comigo. Ele precisa disso. Sabe, precisa aprender a cuidar do filho dele.

— Ele precisa aprender o que é camisinha e parar de ter filhos aos quinze anos.

— Isso também. — Deu-lhe um beijo na testa. — Mas Nigel também quase teve um aos quinze anos, lembra? Ele me parece estar cheio de amor de pai para dar. Vamos convidá-lo para vir para cá e segurar Romeo nos braços e sentir como seria ter um filho de verdade e…

— Vê-lo chorar como um bebê ao se lembrar de que o filho dele nunca nasceu. — Vickie sorriu largamente. Ela sempre soubera como destruir as felicidades de qualquer um. — Mas ele poderia vir para cá. Se essa casa ficar mais silenciosa, acho que vou enlouquecer.

Carmen riu e olhou para a janela, onde, lá fora, o orvalho começava a derreter, e uma fina garoa gelada varria os céus cinzentos.

OoO

Levou um certo tempo para Rowan Pyatt se lembrar de que Nicholas Hentz também estudava na Academia Alphonse Enoi. Fazia tanto tempo que não o via lá que se esquecera. Ele parecia mais magro, mais abatido, com os olhos injetados. Seu cabelo estava louro novamente, essa era a grande surpresa, embora estivesse seco como entre as pernas de uma freira.

— Acho que não vou passar de ano — ele comentou animadamente, sentando-se na mesa dele na cantina da Academia, onde passava o intervalo com Gillian. — Faltei um mês no início do ano depois de a minha namorada ser morta e passei mais duas semanas sem vir porque estava internado com anorexia e depressão.

— Nós sabemos.

— Sim, sabem. Vocês me salvaram, não é?

— Está agradecido?

— Sim, estou. Não façam de novo. Como está a vida?

— Descobri que sou descendente de um bruxo milenar pavorosamente poderoso e que o mundo está sob potencial perigo porque forças malignas estão se levantando uma vez mais.

— Legal — ele enfiou o garfo na boca, mastigando o que parecia ser um pedaço ridiculamente pequeno de torta de chocolate. — Ainda vou ter que ir à minha psicóloga duas vezes por semana até que ela me libere definitivamente, mas acho que isso não vai tardar. — Nick fungou. — Só vou precisar tomar medicamentos pesados pelo resto da vida. Não é legal?

— Você está se destruindo — Rowan sussurrou, sinceramente preocupado. Aquele semblante animado era uma máscara que ele usava para esconder seus conflitos internos.

Teve de aguentá-lo fitando-o com aqueles olhos negros.

— Não tanto quanto você já tentou fazê-lo. — Nick estendeu seu braço direito, colocando-o lado a lado com o de Rowan. As cicatrizes dos pulsos cortados de ambos combinavam perfeitamente, como uma ferida aberta de uma só vez com a mesma faca. — Quer tirar as luvas e me tocar?

— Não preciso fazer isso pra te entender.

— Oh, Rowan. — Nick riu lindamente, um sorriso de leão dourado. — Eu acho que precisa sim. — Então seu sorriso morreu e seus olhos encheram-se de puro terror enquanto gritava: — Que é que vocês estão fazendo aqui?!

Rowan não teve tempo de virar a cabeça quando viu uma loira de amáveis olhos dourados sentando-se ao lado dele, quase que colando a perna dela à sua, como se fosse a coisa mais normal do mundo. E pela meiguice de sua expressão, ela realmente devia achar que era.

Outra loura idêntica a ela, mas muito diferente de expressão, sentou-se ao lado direito de Nick.

— Olá, eu sou a Carmen, e aquela é a Vickie — a do lado de Rowan disse, apontando para a outra garota com uma mão e estendendo-lhe a outra. Ele apertou-a hesitantemente. Havia algo estranho nela, parecia uma criança, enquanto sua gêmea parecia uma mulher. — Seus olhos são bonitos.

— Rowan. Obrigado… os seus também. — Ela parecia ter olhos de gato. Os orbes dourados encheram-se de uma alegria ingênua.

— Que diabos estão fazendo aqui? — Nick indagou arfante. — Quer dizer, eu estava aqui comendo bolo de chocolate calmamente e falando com dois bruxos quando de repente essas aberrações duplicadas aparecem. — Ele não parecia estar falando com ninguém especificamente.

— A gente estuda aqui — Vickie disse. — Desde hoje. É verdade que as pessoas costumam transar naquele corredor por trás do Espaço?

— As pessoas pararam com isso quando colocaram câmeras lá há um tempo, mas foram todas destruídas na Revolução M e… estão me seguindo?

— Claro que não, Nigel — Carmen disse amavelmente.

— Quem é Nigel? — Rowan indagou, levemente confuso.

Carmen fitou-o com surpresa.

— Eu pensei que vocês se conhecessem. — Ela olhou para Nick. — Nigel, esse é o Rowan. Rowan, Nigel.

Nigel, Rowan. Rowan, Nigel. Essa está sendo a conversa mais estranha da minha vida. A verdade é que Rowan estava controlando a vontade de tirar as luvas e tocar no pulso de Carmen. Precisava parar com aquilo. Ele chorara de verdade ao ver Nick sendo levado pela ambulância até o hospital. Tocar as pessoas acabava fazendo-o ser meio que parte delas, compartilhar suas emoções, dores, tristezas e amores.

Saiu de seus devaneios quando percebeu um garoto um pouco mais velho que todos eles ali se enfiando no banco entre Nicholas e Vickie. Era louro e bonito e não pareceu perceber que ela estava ali, sentando-se quase em seu colo, acabando por empurrá-la bruscamente para o lado.

— Ei, é verdade que você tentou se matar? — indagou a Nick, que ergueu uma sobrancelha. O garoto estava praticamente espremido entre ele e Vickie, que possuía um semblante terrivelmente raivoso. — Cortou os pulsos e tudo?

— Quem em nome de Deus é você? — o leão dourado sussurrou.

— Por que você fez isso? — ele voltou a indagar, parecendo sinceramente curioso, mas sem deixar de ter um tom ácido na voz. — Por que um de seus irmãos é gay e o outro é cego, algo assim?

Rowan observou os nós dos dedos de Vickie ficarem brancos de tão forte que ela se agarrava à madeira da mesa. E Carmen não estava muito melhor. Na verdade, ela parecia estar passando por uma mutação.

— Que tal você cuidar da sua vida? — Nick perguntou, dócil e venenoso ao mesmo tempo.

— Não fale assim comigo, seu estúpido, só estou tentando…

A expressão de Carmen mudou para algo horrivelmente raivoso num segundo. Ela meteu a mão no copo de cima da bandeja de Nick, derramando refrigerante no colo do garoto a seu lado, e quando este se levantou num pulo gritando um palavrão, Vickie pegou o prato do louro e o meteu na cara do garoto, atirando-o no chão com as calças molhadas e a camisa suja de bolo de chocolate.

— Vem pra nossa casa mais tarde — Carmen disse a Nick, alegre como um passarinho de novo. — Fica em Wintorland, quase nos limites da cidade, no sul. É parecida com um castelo, você não vai errar.

Quase todo mundo em volta estava olhando para eles, e aquelas gêmeas fingindo que nada acontecia.

— A gente te espera lá — Vickie disse, dando-lhe um beijo na bochecha e saindo dali com Carmen. Nick não disse nada, apenas puxou uma batata-frita do prato de Rowan, ouvindo calmamente o garoto bem atrás de si gemer no chão enquanto mastigava.

— É melhor sairmos daqui antes que a coisa fique feia — ele disse. Então se levantou e acenou para Gillian e Rowan, que levantou-se e puxou a mão da irmã.

— As pessoas de Middleland são loucas — ele disse, caminhando para longe dali. — E você sabia o que ia acontecer.

Gillian deu de ombros, sorrindo sorrateiramente.

Eu vi várias versões daquele garoto morrendo, ela lhe disse. Pessoalmente, queria que isso tivesse acontecido. Seria interessante, não acha?

OoO

É, se aquilo não era um castelo, estava perto de ser.

Quase nunca vinha a Wintorland, que era definitivamente o barro mais rico e afastado de Middleland, uma morada de milionários e celebridades que queriam se afastar um pouco da luz dos holofotes. Nicholas Hentz não parava de olhar para o monumento de pedra arquitetônica que se erguia majestoso a sua frente. Ele se sentia entrando num palácio para beijar os pés da rainha. A diferença é que não era uma rainha que morava ali, e sim Victoria e Carmenia Goldenschild (o que realmente não era muito diferente).

Foram elas próprias quem atenderam a porta, e isso o surpreendeu. Pensava que devia haver um batalhão de empregados e mordomos ali.

— Nigel! — exclamou Carmen, dando-lhe um longo abraço. — Que bom que veio. Quer entrar?

Não, vou ficar prostrado na porta admirando as azaleias.

— Sim, claro. — Quando ela fechou a pesada porta de madeira que parecia custar mais que o táxi que o levara até ali, Nick notou que Vickie segurava nos braços um bebê louro e rechonchudo de brilhantes olhos dourados, provavelmente um menino. Seu leve balancear indicava que estava tentando fazê-lo dormir. — Como ele é fofo — sussurrou sinceramente, embora sentisse um ímpeto de tristeza dentro de si. Poderia ser ele a estar segurando um bebê ali, naquele momento. Não poderia. Charlie só nasceria em dezembro. — Qual o nome dele?

— Romeo — Carmen falou. — É nosso sobrinho.

— Sobrinho-neto também — Vickie acrescentou. — E primo de sexto grau.

A cabeça de Nick doeu.

Famílias antigas e suas árvores genealógicas impossíveis.

— Como isso é possível? — arriscou perguntar. Vickie fez um sinal para que ele a seguisse com Carmen, e começou a falar baixinho enquanto subiam as escadas para o primeiro andar.

— Já te disse que Cornelius é nosso primo de terceiro grau, primo do nosso avô paterno. Bem, ele tem um filho chamado Henry, que é tanto nosso irmão adotivo quanto nosso primo de quarto grau.

— Nesse momento, se encontra em algum ponto remoto da África, fazendo trabalho de caridade, ou algo assim — Carmen disse. — Bem, quando Henry tinha quinze anos, ele teve um filho chamado Benjamin, que nasceu com não muito tempo de diferença de nós. Ben é tanto nosso sobrinho quanto primo de quinto grau.

— E, ano passado, ele seguiu os gloriosos passos do pai e teve essa coisinha aqui aos quinze anos — Vickie falou, parando em frente a uma porta verde-escura que Carmen abriu. — E Romeo é tanto nosso sobrinho-neto quanto nosso primo de sexto grau. Entendeu?

— Acho que sim. — Nick viu Vickie repousar aquele pequeno ser num berço dourado o qual não tinha muita dúvida de ser feito de ouro. Os Goldenschild realmente faziam uso literal da expressão nascido em berço de ouro. — E onde Ben está?

— No hospital — Carmen disse alegremente. — Vickie quebrou o nariz dele com um prato cheio de bolo de chocolate hoje na escola.

— Ele sempre foi um idiota — Vickie disse, dando um sorriso orgulhoso e saindo do quarto com os outros dois. — Deu em cima de mim quando tínhamos onze anos. Acho que foi a primeira vez que eu tive um surto de raiva. Quase quebrei o braço dele.

— Quem é a mãe de Romeo? — Nick quis saber.

— Hélène-Austin de Collins e Goldenschild… — Vickie disse, sorrindo. — Uma grande vadia. Nossa meia-irmã. Primeira filha do nosso pai verdadeiro. Ela deve ter uns vinte anos, e isso faz de Romeo nosso sobrinho também. É, nossa família é uma grande porcaria. Pelo menos também vamos herdar alguns bilhõezinhos da fortuna de Cornelius. Adoro lembrar Ben disso.

— Que crueldade — Nick disse, notando que aquelas meninas da idade dele já eram mais ricas do que ele poderia sequer sonhar em ser. — Deve ser legal pertencer à dinastia Goldenschild.

— Não é — Vickie falou, dirigindo-se um andar acima —, a empresa de publicidade que propagandeava a Goldenschild’s Eletronics faliu e agora a GE vai por água a baixo porque ninguém mais quer pegá-la. Dizem que está amaldiçoada. — Ela deu uma risada, chegando ao fim de um corredor acarpetado em vermelho. — Talvez os Goldenschild devam continuar apenas como banqueiros.

Aquilo lembrou Nick de algo, e parecia ser muito importante, mas se esvaiu de sua mente quando Vickie encostou os lábios dela nos dele. Quando enfiou a língua em sua boca, soube que provavelmente nunca mais se lembraria.

Enquanto entrelaçava sua língua na de Vickie, sentiu os lábios de Carmen encostarem-se na parte de trás de seu pescoço, arrepiando-o. Nick puxou a cintura da mais velha das gêmeas para si; Carmen enfiou as mãos dentro de sua camisa e apertou seus mamilos entre os dedos. Nick gemeu.

E no minuto seguinte, os três estavam na cama. Nick, apenas de calça, segurava Vickie em seu colo. Tirou-lhe o sutiã e deslizou a língua pelos mamilos duros e perfeitos, pressionando sua ereção contra a barra de sua calcinha. Carmen estava totalmente nua, apertando os seios contra as costas de Nick enquanto dava-lhe chupões no pescoço.

Nick deitou Vickie na cama deslizando a língua por seu pescoço. Ele gemia e mordia o lábio inferior. Carmen puxou a calça junto com a cueca de Nick de uma vez, desnudando-o completamente. Deitou-se em cima dele, pressionando seu corpo louro contra o corpo de sua irmã gêmea.

Ele gemeu quando Carmen mordeu seu pescoço e quando desceu com a língua por suas costas, deixando um fino fio de saliva no trajeto até chegar às nádegas, onde fincou os dentes com os dentes.

Enquanto ela fazia isso, Nick massageava os seios pequenos e redondos de Vickie, pressionando sua ereção contra a cama. Ela sentou-se, orientando sua língua com surpreendente meiguice tronco abaixo até que chegasse a seu sexo, onde ele afundou o rosto na linha de pelos escuros perfeitamente aparada.

Carmen enfiou a língua entre as pernas de Nick, que se encontrava de quatro com o rosto enfiado entre as pernas de Vickie. Ele gemeu ao senti-la tocá-lo em seu ânus com toda a umidade de seu órgão. Carmen parou por um minuto para levar sua mão direita para o meio das próprias pernas, sentindo a umidade latente quando começou a se acariciar.

Vickie se contorcia à medida que Nick chupava e lambia mais seu clitóris, massageando seus mamilos duros e gemendo. Ela pressionava os cabelos louros contra seu sexo, jogando os próprios para trás, em êxtase.

No minuto seguinte, Vickie se encontrava sentada no colo do louro, de frente a Carmen, que se sentava no rosto dele. Enquanto a mais velha cavalgava no membro, Carmen encontrava-se com os dedos enfiados entre suas pernas. A língua de Nick os envolvia.

Elas selaram os lábios no momento em que Nick ejaculou. Vickie saiu de cima dele, que tirou a camisinha e deu um nó em sua abertura.

— Foi para isso que me pediram para vir aqui? — Nick indagou, olhando para o teto verde-escuro com bordas trabalhadas em madeira. — Para me estuprarem?

— Se você considerou estupro — Carmen disse, recostando a cabeça em seu peito. Nick acariciou seu cabelo, sem conseguir se conter. Seus olhos dourados transmitiam uma necessidade de serem cuidados tão grande que era como se fisgassem qualquer um que os fitasse.

Nick suspirou longamente, perguntando-se onde era o fim das estradas tortuosas da vida, e o que lhe esperava lá.

OoO

… Ethan, aqui é o seu espião particular da Lovegood & Martell. Adivinha só? Stevie Martell morreu e seus filhos agora querem vender a parte dele das ações da empresa, mas Romney não pode comprar. Você conhece alguém que possa comprar 51% das ações de uma agência de publicidade? Acho que está na hora de você começar seus negócios, jovem magnata.

Foi essa a mensagem que Nick ouviu na secretária eletrônica do quarto de Ethan. Perguntava-se quem é que ainda tinha secretária eletrônica naqueles tempos.

Ethan Lemnsack surgiu no quarto de surpresa, sem esperar o irmão mais novo ali, sentado na sua cama. Já era noite lá fora, e a luz da lua entrava no quarto escuro até que a luz foi acesa?

— Que está fazendo aqui? — ele perguntou. Tivera aula o dia todo e provavelmente estava em cacos, então é claro que Nick não o deixaria descansar.

— Eu estava pensando que é meio cruel deixarmos que o terceiro amor de Lore se desvaneça assim.

Ethan levantou uma sobrancelha.

— Goldie?

— Sim. Quer dizer, Jill foi embora, Marco ficou em Jardim de Ouro, o pai de Goldie não o deixa sequer falar com Lorenzo. Isso é muito cruel. Ele só tem dez anos.

— Que é que quer dizer?

Nick se inclinou para o criado-mudo e apertou um botão na secretária. A mensagem deixada por Gabriel ecoou novamente naquele quarto, e Ethan a escutou atentamente, sem deixar escapar palavra.

— Sei o que está pensando, mas não vai dar certo. — Ele jogou a mochila num canto qualquer. — Eu sou um adolescente, mal acabei o ensino médio. Se eu comprasse a parte de Stevie Martell da Lovegood & Martell, Romney sairia levaria todos os clientes com ele. Ninguém iria confiar num garoto de dezoito anos para comandar suas propagandas.

— E se você por acaso tivesse um grande cliente precisando de uma empresa de publicidade? Você acha que os outros clientes ficariam?

— Bem, sim, e assim eu teria… como é que Melchior dizia? Eu teria Romney na minha mão. Mas a questão é que eu não tenho.

Nick sorriu.

— Ethan, você não deu uma conversada com Cornelius Goldenschild na posse do Primeiro Ministro, em Sacramento? — Quando Ethan assentiu, Nick completou: — Acho que está na hora de você começar seus negócios, jovem magnata.

OoO

Na tarde do dia vinte e seis de agosto, Gabriel Melnick disse bom dia a Romney Lovegood. Ele parecia muito bem disposto naquele dia, com os cabelos pintados de preto e um grande e estúpido sorriso no rosto.

— Bom dia — ele respondeu, pegando a xícara de café que Gabriel deixara em sua mesa. — Como vai ser meu dia hoje?

— Oh, infernal. — Gabriel sorriu, inclinando levemente a cabeça e entregando-lhe o jornal do dia. — O cliente das quatro horas está esperando na Sala de Conferências.

OoO

Quando Romney entrou naquela bonita e longa sala com portas de mogno marrom e viu Ethan Lemnsack lá dentro, derrubou a xícara.

— Então, vejamos como fica… — Ethan disse, entre um casal de gêmeos louros, um homem e uma mulher já de seus quarenta anos. — Também faturaremos todas as despesas… — Ele parou de falar quando viu Romney ali.

— O que é isso? — ele indagou, claramente embasbacado.

Sorrindo, Ethan largou os papeis que segurava letargicamente, apreciando o sabor daquela cena.

— Romney, acabei de ter uma conversinha com o Eric e a Sylvia Martell aqui, filhos do falecido Stevie, que Deus o tenha, e me parece que os negócios estão com problemas. Assim como o seu carro. — Então disse inocentemente: — Então eu comprei tudo.

Levou um tempo para ele compreender.

— O quê?

O sorriso de Ethan alargou, e agora continha uma leve menção de travessura.

— Eu acho que deveríamos ir — disse Eric Martell.

— É uma ótima ideia — disse Sylvia. Ela apertou a mão de Ethan. — Boa sorte, Ethan.

— Muito obrigado.

— Foi meu prazer.

— Ethan — disse Eric, apertando a mão dele também. — Adoro você.

— E eu adoro seu sobretudo.

Quando eles saíram, Romney finalmente desabou sobre a cadeira de frente à longa mesa de madeira de doze lugares.

— Você não… poderia ter feito algo assim.

— Oh, poderia sim. — Ethan recolheu todos os papeis e os pôs numa maleta preta. — Ganhei uma herançazinha quando meus pais morreram, nada demais.

— Não, você não poderia… Deus.

— Bem, parece que eu fiz. Sabe de uma coisa, Romney? Não sabia o quão divertido é trabalhar.

— Escuta, se você tentar tomar minha agência de mim, eu saio — ele disse simplesmente. — E levo todos os clientes comigo.

Ethan deu de ombros.

— Fique à vontade.

A mesa tremeu quando Romney bateu com o punho nela.

Não estou brincando, Ethan! Vou levar todas as contas comigo.

— Essa mesa parece ser muito cara.

— Esse lugar sem mim… — Ele deu de ombros — não funciona.

— Eu acho que não, Rommie. — Ethan mordeu o lábio inferior. — Não depois da conta de… três bilhões de dólares que eu consegui.

A morte do sorriso dele foi tão prazerosa.

— Conta? Que… conta?

— Goldenschild’s Eletronics; tive uma conversinha com o velho Cornelius em seu castelo em Wintorland uns dias atrás e parece que ele está bem interessado em mim. Bom pra ele. Está com raiva, Romney? Quer beber meu sangue? — Ethan se levantou. — Acho que devíamos continuar essa reunião no meu escritório.

— No seu escritório? — Romney se levantou, segurando-o de leve pelo braço. — Ethan, se continuar com isso, vou ficar sem nada. As agências da cidade só procuram por jovens publicitários.

— Que triste…

— Como você espera que eu compita? Eu tenho quarenta e seis anos, pelo amor de Deus. Eu teria que começar de novo.

— Eu sei como se sente — disse empaticamente. Aproximou-se dele. — Quer continuar como presidente da Lovegood & Lemnsack? Não, espera, Lemnsack & Lovegood soa melhor. Comece a tolerar o relacionamento precoce do seu filho de cabelos dourados. — Romney olhou-o como se Ethan tivesse-lhe pedido para deflorar seu jovem filho. Não é bem mentira, só que não serei eu a fazê-lo, será o Lore. — Eu não vou te tirar daqui porque, afinal de contas… você é o Lovegood.

A verdade era que, na prática, Romney se tornaria funcionário de Ethan, teria o dobro do trabalho que já tinha ganhando praticamente a mesma coisa enquanto Ethan não teria nada mais para fazer além de sentar no antigo escritório de Stevie Martell o dia todo girando os polegares e vendo o dinheiro entrar. Romney Lovegood estava, como Melchior diria, nas mãos de Ethan.

Mesmo ainda estando na escola, Ethan pensou, dirigindo-se à saída da agência, eu já mostro que nunca se deve brincar com um leão Lemnsack Hentz. E isso é tão delicioso.

OoO

Havia um pacote que estivera esperando por Ethan a tarde toda. Nicholas não se atreveu a abri-lo antes que ele chegasse em casa. Queria ouvi-lo falar como fizera Romney Lovegood molhar as calças e contar a Lorenzo sobre Goldie antes de abri-lo. Devia ser uma ocasião especial, afinal. O pacote vinha da Família Goldenschild.

Nick não se importava com a série de coincidências que levaram-no a se aproximar dos Goldenschild através de Carmen e Vickie, mas agradecia por elas. Afinal, se nunca tivesse sabido que a Goldenschild’s Eletronics precisava de uma agência de publicidade, nunca poderia tê-lo contado a Ethan e ele nunca precisaria fazer seu jogo. Melchior ficaria orgulhoso.

Não, ficaria com inveja, Nick pensou. Isso é a forma mais pura e sublime de manipulação. E falando no Diabo…

Melchior virara um escritor famoso, pelo visto. Era o que Nick percebia enquanto assistia a uma entrevista com ele no notebook, com Lorenzo a seu lado. Parecia uma coletiva de imprensa, mas ele estava sentado, assim como seu entrevistador, e uma plateia de estudantes universitários assistia a tudo com olhos brilhantes. Havia um sobretudo e um par de olhos púrpuras, como não podia deixar de ser.

— Você já disse que começou a escrever Lympharia com dez anos, certo? — o entrevistador perguntou. Melchior assentiu suavemente. — A pergunta é: como?

— Bom, sempre me disseram que eu era inteligente. — Risos da plateia. Melchior lambeu os lábios. — De fato, creio que eu era superdotado. Eu falei pela primeira vez com oito meses de idade; aprendi a ler com três anos e decorei a tabela periódica com cinco. Meus pais me dizem que eu lia livros de duzentas páginas em uma semana quando tinha seis anos; já passei no ACEM duas vezes. E eu aprendi a tocar violino sozinho.

— Ele sabe tocar violino? — Lorenzo sussurrou, franzindo as sobrancelhas.

— Não sou modesto o suficiente para não admitir que Lympharia é uma coisa extremamente complexa para uma pessoa tão jovem escrever em dois anos, mas, hoje em dia, eu leio algumas páginas daquele livro e tenho vontade de queimá-lo. — Mais risos. — Superdotado ou não, algumas frases, cenas, situações me parecem tão infantis e levianas que, às vezes, eu acho que deveria ter esperado um pouco mais antes de publicá-lo. Mas bem, já está feito, e o que eu deveria fazer, reescrevê-lo? Talvez eu devesse. — Risos, risos em todo lugar. — Mas sim, eu era uma criança inteligente, é toda a resposta que eu posso dar, porque nem eu sei exatamente como escrevi essa série.

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Após uma pausa, o entrevistador fez outra pergunta.

— De onde veio inspiração?

Melchior olhou fixamente para ele, depois fez um sorrisinho.

— Aos oito anos, eu tive um amigo com um mundo dentro da própria mente, um mundo que ele podia controlar, construir e destruir da forma que quisesse. Todos o saudavam, e lá ele era o rei. — Uma longa pausa. Ele parecia ter ficado levemente, apenas levemente, emocionado. — Mas, um dia, todos os reis caem. E aqui, ele era apenas um garoto de olhos azuis e cabelos platinados. Pode haver muitas facetas numa única pessoa, eu nunca gostei do clichê de mocinho e vilão. Todas as pessoas tem a vilania dentro de si, assim como a mocidade. Tudo depende de quem as julga. — Subitamente, Melchior pareceu querer terminar logo com aquilo. — Todo mundo tem um mundo dentro de si. Então transformei isso em livro.

— Algumas pessoas acreditam que A Sociedade das Pequenas Caixas foi inspirado no Massacre da Coruja. Isso é verdade?

Melchior deu de ombros.

— Talvez. Qualquer coisa pode ter sido inspirada em qualquer coisa, na verdade. Depende de quem as julga.

— Certo, essa pergunta é de um leitor. Quando Lympharia será transformada em filme?

— Nunca. — Melchior sorriu. — Ela é tão grande que seria um sacrilégio cortar metade do livro para fazer um filme mais ou menos bom. E acreditem: eu recebi muitas ofertas. Diretores já me fizeram todos os tipos de propostas, desde fazer um filme para metade do livro, e, se desse lucro, fariam outro para a outra metade a fazer um filme contando a história de tais personagens, depois fazer outro contando a dos outros… nenhuma delas me agradou. Até… — Pausa dramática — que dois jovens diretores de TV me fizeram uma proposta de transformá-la em série de TV. E bem, por que não?

— Isso quer dizer que Lympharia será transformada em série de TV?

— Sim, e a primeira temporada provavelmente envolverá o conteúdo do primeiro volume, Sereno Azul.

Murmúrios de felicidade por parte da plateia.

— O que tem a dizer a jovens que querem ser escritores?

— Bem, primeiro, não tenham dez anos. — Risos, Melchior também riu. — Mas sério, não é que eu me arrependa de ter escrito Lympharia tão cedo, é apenas que quando eu me deito à noite e penso nas milhares de coisas que eu mudaria, bem, isso é uma das piores sensações que existem. A questão é que é uma loucura planejar épicos de sete livros sendo tão jovem. Se você tem dezesseis anos e quer escrever, escreva um conto curto e venda para uma revista, depois torça para que eles aceitem. Crie um nome seu. Digo isso tanto porque a maioria não tem maturidade suficiente para escrever livros tão grandes, quanto pelo fato de que eu quero continuar sendo um dos escritores mais jovens do mundo.

Mais risos, montes de risos, palmas também. Nick fechou o notebook no momento em que a fechadura da porta rosnou. Ethan entrou em casa cansadamente, jogando-se no sofá.

— Quero aprender violino — Lorenzo resmungou.

— Você tem um pacote — Nick disse ao maior, apontando o embrulho de cima da mesa. — Acho que Cornelius realmente gostou de você. O que você fez, deu pra ele?

Ethan olhou o remetente do pacote e franziu as sobrancelhas. Abrindo a caixa cuidadosamente como se fosse de vidro, deparou-se com uma caixa de madeira polida que servia de apoio para o que parecia ser uma garrafa de vinho roxo escuro, mas que era de um vidro claro e em formato de cone, com uma rolha de vidro na extremidade larga e uma ponta afiada na outra.

— Esses ricos e suas extravagâncias — Ethan murmurou, lendo o cartão. — E que extravagâncias. — Ele levantou a sobrancelha. — Pelo visto, o vinho dessa garrafa data de 1787 e é o último da safra de cabernet sauvignon mais antiga do mundo, cultivada no Château de Bordeaux, que pertencia aos Goldenschild, como não pode deixar de ser. Diz que pertenceu à adega do presidente Thomas Jefferson também… — Ele deu uma pausa. — Essa coisa custa mais de cento e oitenta mil dólares.

— Legal, quando vamos abrir?

Você parece apreciar bons sabores — Ethan repetiu as letrinhas miúdas manuscritas elegantemente na carta, depois sorriu. — Nunca, vamos apenas ficar olhando. Isso não é pra ser bebido, serve apenas para você dizer que tem.

— Mas, Ethan…

— E se você abrir, te envio a 1787 para pegar outra garrafa.

— Você não vê que esse é um dia histórico? — Nick arrancou a garrafa do suporte e subiu no sofá, estendendo-a no ar como se fosse um troféu e estivesse falando dramaticamente para uma plateia. — Hoje, dia vinte e seis de agosto de 2013, às seis horas e quinze minutos da tarde, na cobertura do prédio 266, na cidade de Middleland, condado de Southeria, no Reino da Califórnia, o vinho da safra mais antiga dos Goldenschild foi aberto por ninguém mais, ninguém menos que o lindíssimo e perfeito Nicholas Hentz para comemorar o nascimento da Anhert Corporation, um conglomerado que nasceu como uma agência de publicidade nas mãos de Ethan Lemnsack. Você registrou a empresa com esse nome, não registrou? — Então fez menção de puxar a rolha de vidro.

— Sim, acabei de fazer isso no cartório. — Ethan fez menção de tomar a garrafa dele, mas Nick a ergueu muito alto e ameaçou não verbalmente a derrubá-la. — Nick, eu falei sério sobre 1787.

— Eu também. — O louro deu uma pausa dramática enquanto olhava para os olhos negros de Ethan. — Rápido, Lorenzo, pegue três taças.

— Mas eu não posso beber — ele disse.

— E eu teoricamente não podia fazer sexo aos onze anos, mas eu fiz, certo? — Nick pulou por cima do sofá e foi até a cozinha, abriu o armário e tirou três longas taças de vinho tinto da prateleira alta.

Voltou à sala com as mesmas já cheias quase até a borda.

— É uma data especial — falou em voz alta, como que para justificar a lenta perda do sabor centenário do vinho. Entregou uma das taças a Ethan e outra a Lorenzo. Fazendo menção de fazer um brinde, Nick voltou a sua voz dramática. — Um brinde porque, daqui a umas gerações, os Lemnsack Hentz Barcarolli serão tanto ou ainda mais que os Goldenschild.

Os três tocaram de leve os cálices. Nick deu um longo gole do que devia ser no mínimo tão bom quanto o néctar dos deuses antes de sentir vontade de cuspi-lo fora.

— Essa é a coisa mais azeda, amarga, doce, aguada e forte que eu já provei na vida — resmungou. — Famílias antigas e seus vinhos asquerosos. — Então bebeu o resto da taça, fazendo uma careta logo depois. Suas papilas gustativas tinham orgasmos e vomitavam ao mesmo tempo. Era como uma grande orgia em sua boca em que nem todo mundo se divertia.

— Eu gostei, isso é incrível. Melhor que os que eu tomava na Itália, no Natal — Lorenzo disse, com os lábios roxos e o rosto corado pela súbita ingestão de álcool. Ele estava adorável.

— Bem, se não acabarmos com a garrafa agora o vinho vai estragar — Nick disse meio engrolado. — Você já pode ser um pequeno alcoólatra. O que mais dizia na carta de Cornelius?

Ethan reencheu a própria taça até quase a borda novamente. Uma leve coloração avermelhada tomava rosto, assim como o de Lorenzo. Ele estava meio aéreo, seus lábios estavam roxos e seus olhos brilhavam.

— Dizia que a casa que eu e Lore ficamos em Sacramento pertenceu a nossos pais, coisa que eu já sabia, e que Cornelius a visitou e que gostou muito dela. — Com um único gole, Ethan acabou com metade da taça. — Então ele a comprou para mim.

— O quê? — Nick quase cuspiu o vinho de cento e oitenta mil dólares, mas não o fez porque, bem, aquele era um vinho de cento e oitenta mil dólares. — Ele te comprou uma casa de um milhão e meio de dólares? Assim, sem mais nem menos?

— Cornelius é o homem mais rico do mundo e tem quase oitenta bilhões de dólares, ele pode comprar a todos nós se quiser.

— Famílias antigas e seu dinheiro antigo — Lorenzo falou simplesmente, já com o segundo copo vazio. Eu devo ser o pior ou o melhor irmão do mundo por embebedar uma criança de dez anos? — Vamos fazer outro brinde em homenagem a nossa nova casa de veraneio.

Um tilintar fino e agudo ouviu-se naquele apartamento. A garrafa de vinho logo se esvaziou, mas parecia ser tão cara que Nick a guardou mesmo assim. Lorenzo já estava bêbado quando Ethan contou a ele que podia voltar a falar com Goldie, de forma que ele apenas deu-lhe um abraço tontamente, se arrastando escada acima para seu quarto, agarrado ao corrimão.

Amanhã teremos a pior ressaca que a humanidade não sente desde 1787, Nick pensou olhando para a varanda. Foi para aquele mesmo espaço que olhara no natal do ano passado, quando aquele avião destruíra o telhado do prédio. Não havia nenhum avião ali, porém. O céu estava preto e as nuvens eram escassas.

As Sombras estavam cobertas. Tudo estava bem.

Notas finais
A empresa do Ethan nasceu, quem tá feliz? :D qqq