“‘… Fala-nos dos exércitos secretos do mal, ó Cimon…’

‘Os seus nomes não podem ser pronunciados em voz alta para que não profanem os lábios dos mortais, pois vieram das trevas ímpias e atacaram os céus, mas foram expulsos pela ira dos anjos.’”

(Diálogos de Quios)

OoO

Os ventos do verão estavam lentamente sendo substituídos pelo rigor sépia do outono. Por toda Middleland, as folhas das árvores estavam marrons e quebradiças e as noites eram mais longas que os dias; uma série de tons quentes pincelava a cidade do sul da Califórnia enquanto as pessoinhas minúsculas viviam suas vidas e geriam o mundo.

Nicholas Hentz observava sua cidade distanciando-se rapidamente à medida que o avião levantava voo através de nuvens roxas, mas tão claras quanto os olhos de um bebê. O horizonte guardava ouro puro; era o pôr-do-sol mais bonito que Nick já vira, talvez tanto quanto aquele que vira com Carmen e Vickie Goldenschild no topo do Hospital Santa Rosa.

Famílias antigas e seu incesto antigo, pensou enquanto ouvia música nos fones de ouvido com o volume o mais alto o possível.

Era sexta-feira do dia trinta de agosto quando ele percebeu que nunca tinha deixado Southeria para ir a qualquer outro condado do país. Cornelius Goldenschild fizera bem em presentear Ethan com aquela mansão em Granite Bay. Pertencera a seus pais, afinal.

Nick olhou para sua esquerda, vendo o irmão mais velho com um olhar vago e perdido na cadeira do canto. Como ele crescera tanto em apenas um ano e meio? Como passara por tanta coisa, como todos eles passaram por tanta coisa? Lorenzo estava no meio dos dois, meio adormecido, encostado em Ethan, parecendo um príncipe de olhos cinzentos e cabelos negros.

Quanto mais caía-lhe a ficha de que Ethan Lemnsack estava crescendo e lentamente cravando seus longos e finos dedos no mundo que os acolhia, mais Nick ficava nervoso. A verdade é que sentia-se numa trilha perdida: não estava se esforçando de forma alguma na escola e já se conformara com o fato de que provavelmente repetiria de ano; mas não era só isso. Ele também não sabia o que pretendia fazer quando, e se, finalmente chegasse à faculdade. Não tinha a mínima ideia.

O que vai me fazer querer levantar todos os dias da cama às seis da manhã para voltar oito horas depois? Quanto mais pensava, mais percebia que a resposta escapava de seus dedos como um animal pequeno e escorregadio.

Lorenzo se remexeu ao seu lado, espreguiçando-se. Charlie estava em seu colo, mas levantou a cabeça com o súbito movimento. Nick tirou os fones de ouvido.

— Ainda não chegamos? — Lore sussurrou sonolentamente, acariciando os pelos brancos e castanhos do cachorro. Nick achou-o adorável com os cabelos despenteados e a cara de sono. Perguntava-se se ele sabia o quanto era bonito; seus traços assemelhavam-se tanto com os de Ethan quanto com os de Lucas Fontanelle. E, de certa forma, com os de Luca Granelli também…

— Acabamos de sair de Middleland — Ethan falou, ajeitando seu cabelo novamente. — A gente chega em pouco mais de uma hora.

Após um tempo, Ethan levantou-se para ir ao banheiro, deixando os dois irmãos sentados lado a lado.

— O que vamos fazer lá mesmo? — Lore indagou.

— Reviver a experiência de estar num bairro cheio de gente rica.

Ele tremeu de leve.

— Não faça isso, eu quase… ei, acabei de me lembrar. — Então fitou Nick com seus assustadores e esbugalhados olhos cinzentos e perguntou com sua voz rouca e seu sotaque italiano: — Como é que faz sexo?

Nick cuspiu a água que bebia, olhando de soslaio para as pessoas a sua volta. Nenhuma parecia ter ouvido.

— Pergunte ao Ethan, ele que sabe dessas cois…

— Eu já perguntei, ele me mandou perguntar a você.

— Ah, mandou, é? Aquela grande bicha. Bem, sabe como é que é, você nos fez o favor de nascer cego, então nunca vai poder aproveitar os benefícios da pornografia como qualquer pré-adolescente normal, de modo que vou ter que te ensinar como se faz sexo aos dez anos. Eu sou o pior irmão que existe. Meu Deus.

Ethan voltou a sentar-se nesse momento, indagando por que Nick estava mastigando a tampa da garrafa d’água.

— Porque você sempre me deixa com as partes difíceis — respondeu emburrado. — Vamos fazer o seguinte: eu respondo à pergunta do Lorenzo se você falar sobre Oliver pra ele.

Ethan franziu as sobrancelhas, então uma luz de compreensão surgiu em seus olhos muito escuros.

— Ele precisa saber — o louro sussurrou. — Sonhei com ele ontem, ele me disse algo, mas não sei o que foi. — Olhou pela janela. — Só acho que foi importante.

OoO

Esse quarto é maior que a sala lá de casa, Nicholas pensou, observando o mármore detalhado, o ventilador de teto de madeira marrom, a lareira da cor do marfim com uma TV de plasma fixada logo acima. Observava os criados-mudos tão polidos que em suas superfícies Nick conseguia ver seu reflexo, logo antes de deslizar os dedos pelo abajur dourado e de metal gelado, enquanto sentia o fofura do carpete sob seus pés nus.

Havia também uma poltrona de couro preto e duas janelas de tamanho natural, cada uma ao lado da lareira, além de pinturas e vasos antigos espalhados como ornamentação.

Naquele momento, no entanto, Nick e Lore estavam debaixo da pesada colcha da cama. Era noite e o ar estava gelado dentro do número 5182 de Prior Ridge.

Lorenzo segurava uma lanterna em posição contrária, jogando o feixe de luz para seu próprio rosto espectral. Se Nick não soubesse que era ele, teria realmente achado que era um espírito. Seus olhos brilhavam fantasmagoricamente, um cinza vivo misturado com o dourado da lanterna.

— Quer ouvir uma história de terror? — ele indagou sussurrando, com seu sotaque italiano rasgando cada sílaba, cada fonema. E mesmo tão baixa, sua voz rouca ecoava pelos ouvidos de Nick. — Normalmente a gente põe o nome de quem a ouve nela, mas vou mudar isso.

Nick sentiu um arrepio na espinha. Ethan tinha contado a Lorenzo sobre Oliver. Talvez não tudo, mas apenas que eles namoravam antes daquela criatura de olhos azuis e cabelos platinados ser cruelmente assassinada.

— Vou colocar o nome Oliver Castanelli. — Por que isso não me surpreende? — Sabe, no século XIX, os caixões costumavam ser construídos com furos neles, porque a medicina era ruim e algumas pessoas eram dadas como mortas quando ainda estavam vivas. Num dos furos, era instalado um tubo de cobre longo o suficiente para dar na superfície para a passagem de ar, e no outro era instalado um sino. Assim, se a pessoa estivesse viva e acordasse, não morreria sufocada e poderia tocar o sino para ser salva.

“Então estava o velho coveiro num antigo cemitério de uma pequena cidade perto de Londres. Já era tarde da noite quando ele ouviu gritos e lamentos vindos de algum lugar por ali. Inicialmente, pensou ser uma criança brincando, ou talvez o vento. A voz, porém, vinha de um túmulo e implorava para ser desenterrada. Oliver Castanelli, dizia a lápide.

“‘Você é Oliver Castanelli?’, perguntou o coveiro. ‘Sim, sou eu!’, gritou a voz do fundo. ‘Por favor, me salve!’ ‘Aqui diz que você morreu em dezesseis de janeiro de 1827’, disse o coveiro. ‘Foi um erro, não estou morto, foi um erro! Me desenterre, me liberte!’ ‘Me desculpe, sir’, o coveiro disse antes de cortar o cordão do sino e começar a colocar terra dentro do tubo de ar. ‘Mas nos já estamos em setembro; você morreu há oito meses. Seja lá o que estiver aí em baixo, não está mais vivo. E você não vai subir.’”

Todos os pelos do corpo de Nick estavam eriçados quando ele deu um grito ao sentir algo pulando em suas costas. Arrancou-se de debaixo da colcha quando percebeu que o tal algo era Charlie; com a língua de fora e uma expressão travessa.

Lorenzo começou a rir histericamente.

— Cale a boca — Nick resmungou, ligando todas as luzes, inclusive os abajures, embora não houvesse necessidade. Seu coração quase pulava para fora da caixa torácica. — Quando as Sombras vierem, não me espere te salvar.

— Me salvar? — ele arfou. — E quem virá salvar você? — Mais risos.

Nick saiu do quarto emburrado e irritado com a súbita mudança de humores de Lorenzo. Não parecia que havia sido naquele mesmo ano que aquela criança desenvolvera depressão e trancafiara-se dentro do próprio mundinho. Agora, ele estava ali, com os olhos brilhantes como diamantes e o riso rouco e rasgado.

Ethan estava na sala de estar, sentado num daqueles fabulosos sofás que deviam custar mais que sua vida. Ele, porém, estava com uma expressão curiosamente perplexa. Segurava, nas mãos, um livro enorme e pesado, de capa de couro preto e totalmente retalhado. As primeiras páginas, que compunham mais de um terço do livro, pareciam feitas de pergaminho, papel antigo e amarelo, mas entre elas havia papel branco, apenas encardido. Quanto mais avançava o livro, mais novas as páginas ficavam.

— Que está fazendo? — perguntou, fazendo o mais velho sobressaltar-se. Ele não parecera notar sua proximidade. Mas, mesmo após alguns segundos, Ethan ainda estava meio confuso. — Alô? Sou eu, Nick Hentz. O que é isso?

Ele olhou para o livro como se tivesse saído de outro planeta.

— Sabia que nossos ascendentes faziam parte do Clube de Bilderberg? — Ethan perguntou, como se houvesse alguma chance de Nick saber o que era aquilo.

— Não sei nem o que é isso.

— É uma reunião anual informal que ocorre para menos de cento e trinta convidados em algum grande hotel do mundo. Participam dela grandes industriais, magnatas, economistas, banqueiros, bilionários, jornalistas de grande influência e etc., e eles discutem os rumos do mundo e coisas assim. Quer dizer, é o que se pensa que eles discutem. Essa é uma das reuniões mais secretas e fechadas do mundo, ninguém sabe o que exatamente é dito lá. John Daniel participou das de 1955, 1959, 1975, 1977 e 1979, que foi o ano em que ele morreu. E Samuel participou das de 1980, 1987 e todas as da década de 90, até a do ano 2000, que foi quando ele morreu. E nossa mãe participou das que aconteceram nos Estados Unidos, que foram as de 2002 e 2008, e ia participar da de 2012, mas...

— ... ela morreu. — A coincidência da coisa era arrepiante. — E daí?

— E daí?! — Ethan berrou como se tivesse ouvido uma heresia. — E daí que eles escreveram tudo nesse livro! — Fechou-o estrondosamente, sacudindo poeira por todos os lados. Na capa, gravado numa placa dourada, um nome que menos chamativo não podia ser: O Livro Hentz. — Eu encontrei essa coisa sabe onde? No fundo falso de uma gaveta da estante da sala! Pelo amor de Deus. — Ele parecia histérico folheando-o agressivamente. — Aqui tem detalhes do funcionamento da Kruger-Vorheel e coisas assim, aqui tem segredos que os Estados Unidos se orgulhariam em guardar. A Revolta Californiana só foi possível porque John Daniel Hentz a patrocinou. Tipo, cacete. Ele subornou a maioria da guarda policial da Califórnia da época para que fosse possível que os ataques que Henrietta comandou acontecessem. A família Hentz patrocinou a emancipação da Califórnia!

Ethan estava tão atarantado que só podia ficar um pouco mais se Nick dissesse uma única coisa, e foi ela que ele disse, cinicamente:

— E daí?

Ethan quase lhe bateu.

— Essa coisa é a bíblia dos teoristas da conspiração. Você não entende? Esse livro esteve escondido dentro dessa casa durante anos à mercê de qualquer um. E Cornelius Goldenschild veio aqui. E se ele tiver lido? Quer dizer, por que outro motivo ele me compraria essa casa?

— Eu tenho uma fortíssima suposição de que você deu pra ele.

— Cala a boca. — Ethan voltou a olhar para as páginas do livro. — Olha só essa descrição de John Daniel de uma das reuniões do Clube de Bilderberg.

“Vinte e dois de abril de 1975, Esmirna, Turquia. A sala é grande e confortável, com móveis antigos e coloniais que apenas a Turquia poderia proporcionar. Há um candelabro grande de cristal no centro do teto que ilumina fracamente a sala, mas todos os presentes, inclusive eu, sentam-se em cadeiras cobertas pelo círculo escuro em que a luz não chega.

“A Suprema Mãe senta-se na maior cadeira, como sempre. Apesar de estar escuro, percebe-se que é uma figura baixa de grandes cachos louros, com uma voz tão poderosa quanto seu nome. Algo me diz que ela é uma Goldenschild, ou talvez uma Rothschild ou quem sabe ainda uma Collins ou Rockefeller. Está falando sobre o fim da Guerra Colonial Portuguesa. Ela está furiosa.”

Nick continuava impassível, mas Ethan ainda lia o livro furiosamente.

— Tem coisas escritas por John Francis no século XIX, coisas que especificam bem como ele encontrou o diamante na África do Sul. Sabe, ele foi cruel com os que tentaram se intrometer em seu caminho. Havia dois homens, aliás, que quase conseguiram roubar-lhe o diamante, e adivinha quais seus nomes? Gregor Kruger e Adam Vorheel. Nicholas, John Francis Hentz colocou os sobrenomes deles na maior empresa do mundo para fazer chacota. E ele engravidou a filha de Gregor Kruger e então a convenceu a fazer um aborto, coisa que acabou com o útero dela e sua capacidade de procriar. Era a última da família de Gregor e sua única filha, a moça tinha catorze anos. — Ethan deu uma pausa para respirar. — Olha só pra isso, pelo amor de Deus.

“Dezesseis de março de 1937. É no pulmão, eles disseram. Disseram também que está se espalhando depressa e que logo, logo ocorrerá a metástase. Não tenho muito tempo, de quatro a seis meses de vida. A essa altura, meus ossos doem tanto que preciso de ajuda para levantar da cama sozinho. Ondy me ajuda sempre, e isso só me faz ter mais vontade de fazê-lo.”

— De fazer o quê? — Nick indagou. — E quem é Ondy?

— Deve ser Ondromeda Olrwen — Ethan respondeu como se aquilo fosse muito óbvio, e ainda acrescentou: — John Francis morreu no final de 1937 de câncer de pulmão.

“Vinte e sete de abril de 1937. Levantar da cama já é impossível pra mim. Ondy me ajuda sempre que pode, mas procuro não forçá-la muito. John assumiu os negócios para mim, embora me peça conselhos sempre que pode. Procurarei trabalhar o máximo que puder até que perca a sanidade. Ondy não anda muito bem também. De alguma forma, ela sempre se culpou de não poder me dar outro filho. Seu cabelo louro como o sol está perdendo a tonalidade a cada dia. Temo que ela parta antes de mim.”

— Pobre John Francis — Nick comentou animadamente. — Ondromeda só morreu trinta anos depois dele.

— Shh, quieto.

“Dezoito de junho de 1937. Contei aquilo que fiz. Não a Ondy, mas a John. Ele ouviu tudo atentamente e, quando terminei meu relato, no qual procurei detalhar o máximo possível, apenas assentiu e voltou ao trabalho. Disse que pretende expandir a Kruger-Vorheel pelo mundo. Eu disse que é uma jogada arriscada, o mundo está prestes a explodir. Não tenho mais forças para fazer nada além de levar a caneta ao tinteiro.”

— O que ele quis dizer com prestes a explodir?

— A Segunda Guerra Mundial estourou dois anos depois disso; e, mesmo assim, John Daniel conseguiu fazer o que queria. Expandiu uma empresa globalmente, mesmo que todo mundo se odiasse nessa época. Por isso que ele é considerado um dos maiores magnatas de todos os tempos, quase tão bom quanto John Francis.

— Leia o próximo relato dele.

— Não há, John Francis morreu cinco meses depois desse último, mas não escreveu mais nada. Diziam que, ao final da vida, sentia tanta dor que seus analgésicos acabaram matando-o. Mas há um de John Daniel, praticamente finalizando o dele.

“Ao que parece, meu pai fez o primeiro marido de minha mãe morrer para poder se casar com ela. Em seu leito de morte, John Francis Hentz confessou e explicou à senhora minha mãe, Ondromeda Olrwen, de como envenenou Orcus Ozaczaki. De outro modo, ele não conseguiria se casar com ela, que é vinte anos mais nova que ele. Ela o amaldiçoou e despediu-se dele sob praguejamentos e lamentações. Meu pai definhou em agonia, e minha mãe provavelmente viverá seus últimos anos da mesma maneira.”

Ethan deu uma pausa.

— Ela passou os últimos trinta anos da vida renegando o marido morto e talvez o segundo filho. Sabe, aqui diz que ela acredita que Olannis, que é o primeiro filho dela e bisavô de Owl, se afastou dos Hentz por causa disso. De fato, nenhum dos filhos de Olannis parece ter sido contado de ser parente distante dos Hentz. A Dama Prateada devia ser realmente linda pra fazer um homem querer casar-se com ela viúva e com filho em pleno ano de 1908. É triste saber que uma família tão antiga e próspera como os Olrwen estejam quase todos extintos. Quer dizer, Ottis e Olívia Olrwen se divorciaram, e algo não me diz que ele vai se casar de novo.

Nick sentou-se propositalmente no colo de Ethan, sabendo que ele não calaria a boca tão cedo assim.

— Li algumas coisas escritas pela mãe também — falou baixinho. Nick se arrepiou de cima a baixo com aquilo, mas o olhar de Ethan não dizia muita coisa. — Ela realmente acreditava que o pai a estava traindo, embora fossem só suspeitas. Mas… bem, acho que isso desgastou o relacionamento deles. — Engoliu em seco ao virar mais uma página, uma das novas, lendo-a atentamente. — Ela escreveu pela última vez uma noite antes de partir para a Romênia, onde, na viagem de volta, morreu no acidente. Veja só: Tivemos que subornar metade da Romênia para abrir uma filial da Lemnsack Hentz World Donations lá. Licitações furadas e branqueamento de capitais são o que não falta. Não há muito mais a dizer. Quando eu a Charles voltarmos, nos divorciaremos. Acabou.

Silêncio na sala. Ethan observava a folha ainda nova fixamente com um semblante sério. Os olhos negros rugiam por baixo dos óculos.

— Ela sabia que Lorenzo existia — ele declarou, fechando o pesado livro. — Ela descobriu sobre ele. Não diz tudo claramente aqui, mas dá pra ler nas entrelinhas. Sabe, uma das primeiras coisas que John Francis escreveu comentava sobre os pais verdadeiros dele. Todo mundo sabe que ele cresceu numa cidade pequena em algum estado esquecido dos Estados Unidos, mas aqueles que o criaram eram seus pais adotivos. Ninguém conhece a origem de seus pais verdadeiros… quer dizer, até agora.

— Como assim?

— Ele descobriu — respondeu simplesmente. — Pesquisou e descobriu, depois fez questão de que ninguém descobrisse mais. Pelo que diz aqui, seus pais eram mercadores de escravos. — Pausa. — Na França, ou eram até pelo menos 1848, quando a escravidão foi abolida, então tornaram-se traficantes. Aqui diz que eles tinham outros filhos também, mas haviam abandonado John Francis, que terminou adotando o sobrenome dos pais adotivos.

— Quer dizer que há parentes distantíssimos nossos de origem francesa zanzando pelo mundo afora?

— Acho que sim.

— Posso pegar o livro? — indagou suavemente. — Sei que não sou um Hentz, mas gostaria de dar uma olhada.

Ethan não parecia estar raciocinando direito.

— Sim. Eu vou para a cama agora… preciso pensar. Se quiser, pode vir também… — ele sussurrou, olhando para um ponto qualquer da sala por um longo tempo. Então olhou para Nick por um tempo e o beijou apaixonadamente. — Eu te amo muito, te desejo mais ainda. Seu corpo louro, seus lábios, seus olhos, suas curvas, seu cheiro, seus gemidos. Tudo isso me atrai. E senti falta do seu cabelo louro. — Outro selinho. — Então se quiser quebrar aquela cama comigo, eu adoraria. Eu sinto saudades de você.

Eu sinto saudades de você, uma longínqua voz ingênua sussurrou no ouvido de Nick. De fazer amor com você, de conversar na cama com você depois disso. Sinto saudades da nossa vida como ela era. Você sabe que se continuar assim comigo, eu não vou aguentar.

Sorriu amavelmente. Mesmo após ter lido a mensagem de Gabriel naquele dia, Ethan ainda não aprendera a apagar suas mensagens após ouvi-las. O príncipe Senn o convidara para visitar o palácio real no dia seguinte.

E você precisa estar bem carregado para se derramar no futuro rei.

Encostou seus lábios nos de Ethan sem nenhuma vontade.

— Faça o que adolescentes fazem, se masturbe.

OoO

Realmente, se ele tivesse virado algumas páginas para trás, Nick estaria perdido.

Observando aquela página do pesadíssimo livro ali à luz de velas, enquanto a luz branca de uma lua minguante atravessava as janelas, Nick via a resposta de uma de suas perguntas mais duradouras.

Quatro de junho de 2007. Ontem foi o aniversário de Nicholas, e ele me falou uma coisa que me destruiu por dentro. Charles não poderá saber jamais, muito menos Ethan. Ele nunca se perdoaria se soubesse que isso aconteceu a seu irmão menor. Ele o ama muito, eu percebi isso, e o protege mais do que a si mesmo. Então como é que se faz para chegar num garoto de onze anos e dizer tal coisa a ele?

Fui a St. Emanuelle hoje e fiz o que devia fazer. Não foi muito difícil, a Madre Superiora sempre gostou de me bajular; maldita aproveitadora. Ele será transferido, ela disse, mas não podia fazer muito mais que isso. De certa forma, ele era seu superior. Não procurei sequer reconhecer o rosto do maldito.

E quanto a Nick, ele é um leão dourado. Vai resistir. É o que todos nós fazemos há tanto tempo, os Hentz. Resistimos.

— Vou resistir — Nick repetiu para si mesmo. Um pouco mais abaixo, havia mais detalhes de sua lendária conversa com Mary Alice Hentz ao pé de sua cama, no dia de seu aniversário de nove anos.

Era muito engraçado como aquilo se desenrolara. Enquanto Lorenzo era claramente cristão e Ethan era de certa forma agnóstico, Nick era ateu pelo simples desprezo que sentia no fundo de seu coração quando pensava nas portas de ferro da Escola St. Emanuelle de Castellobranco, na freiras malditas com suas vozes velhas, cruéis e desumanas.

Ele ainda se lembrava daquele poder mesquinho que elas exerciam, de suas vozes aplicando-lhe sermões todo santo dia. Achava que era por aquilo que, no ano passado, queria tanto não voltar à Castellobranco. Não era apenas a possibilidade de Ethan descobrir sobre Oliver, mas sim a de Nick reencontrar algum conhecido, alguém que pudesse se lembrar de seu lindo e louro rosto Hentz.

Bobagem. Como sua mãe escrevera e provara, ele havia sido transferido.

Cheio de ira, Nicholas Hentz arrancou aquela página do Livro Hentz e a jogou no fogo da lareira, que estava inutilmente acesa.

Relendo algumas das páginas escritas por Samuel Hentz, achou algo interessante.

Então quer dizer que ele teve um caso com uma mulher chamada Cistie Chioren. Que Deus não permita que ela tenha sido parente do Melchior.

A seguir, arrumou uma caneta e abriu a primeira página em branco do livro, logo após o último relato de Mary Alice, e escreveu:

Mary Alice Hentz e seu marido, Charles Lemnsack, morreram num acidente de avião em fevereiro de 2012, deixando seus dois filhos órfãos; Ethan e Nicholas, com dezesseis e treze anos, respectivamente.

Parou por um momento, respirando fundo.

Ethan Lemnsack se emancipou com um casamento de fachada com a filha do governador do condado californiano de Southeria, Amy Christine Bellafonte, e então tomou a guarda de seu irmão mais novo. No primeiro dia em que os dois estavam finalmente juntos, eles se amaram de uma forma que nenhum irmão devia amar o outro.

Passou o resto da noite escrevendo. Escreveu sobre o assassinato de Oliver, sobre os skinheads e sobre sua culpa no caso. Escreveu sobre como os Nevarnost tentaram matá-los por um erro da Kruger-Vorheel que matou sua filha mais velha e escreveu sobre Antonella Barcarolli. Escreveu sobre como ela se envolvera ao mesmo tempo com um chefe da máfia italiana e um filantropo milionário, tendo um filho do segundo e, possivelmente, do primeiro também. Escreveu sobre como encontraram Lorenzo e sua primeira reação ao ver aquele garotinho italiano que mal falava inglês sentado no sofá de sua casa, fitando-o com olhos cegos que nada viam.

Escreveu sobre como estava amando Ethan naquela noite de Natal em que um avião destruiu o telhado de sua casa. Escreveu sobre como foram forçados a se mudar para Jardim de Ouro, mais especificamente para a antiga casa dos Granelli, que estava vaga após Enzo Granelli ser preso e Luca voltar à Itália. Escreveu sobre seu primeiro encontro com London Weswalk, Ritchi Revonne e Melon Chioren e seus jogos mentais que usava para controlar as pessoas como se fossem marionetes. Descrever Melchior foi particularmente difícil, uma vez que aquela criatura das trevas era uma das pessoas mais complicadas já nascidas na história da humanidade. Escreveu sobre o Senhor do Mundo M e sobre a Revolução M.

Escreveu sobre o ataque a Lorenzo, sobre Mia e sobre Charlie. Escreveu sobre Owl também, tentando manter-se imparcial. Escreveu sobre Lorenzo e seus três amores, e de como o terceiro fizera Ethan comprar uma agência de publicidade e chantagear seu cofundador para deixar seu meio-irmão mais novo feliz, e de como, assim, fundara a Anhert. Acrescentou um Inc. ao final de Anhert, pois pensara que seria mais bonito.

Escreveu sobre o príncipe Senn e sobre sua tentativa de assassinato; também sobre sua própria depressão, sua anorexia, sua tentativa de suicídio e inevitavelmente sobre Carmenia e Victoria Goldenschild. Percebeu, com assombro, que a imagem das duas estava fixa em sua mente; mesmo sendo tão iguais, eram tão diferentes. Carmen possuía uma inocência e bondade inalienáveis nos olhos e no sorriso, uma expressão adorável e travessa o tempo todo e a ingenuidade de uma criança, mas quando queria era astuta e perspicaz, mesmo que sequer notasse isso. Já Vickie era uma espécie diferente de leoa, agressiva e astuta, que possuía um coração tão grande quanto o da irmã, apenas evitava demonstrá-lo. Pensou não precisar escrever sobre como estava apaixonado por elas da mesma forma que estivera apaixonado por Mia, pois acreditou que isso estava implícito nas entrelinhas.

Escreveu sobre como forçara Gabriel Melnick a falar com Ethan pela primeira vez; depois sobre Ethan e Danny, sobre Ethan e Melchior, sobre Ethan e as Pessoas, e de como todas elas descansavam agora eternamente no fundo do mar. Escreveu sobre Lucas Fontanelle e também o que pensava de sua mãe Mary Alice, dando especial atenção à confusão que tinha em seu coração sobre ela.

Depois imaginou que já falara tanto de Oliver Castanelli, pois ele estava tão presente em todos os momentos de sua vida, que pensou não ser mais necessário mencionar o nome daquela criatura platinada de olhos azuis, apenas citar que ele tinha mundos no lugar dos olhos e prata no lugar dos cabelos, além de uma excepcional habilidade em tornar miserável a vida de todos a sua volta. Porém, quando percebeu, havia escrito mais de seis páginas sobre ele. Era incrível como se podia conhecer uma pessoa por tanto tempo e, mesmo depois de se separarem, ela continuava a te surpreender.

Também mencionou que ele podia ver fantasmas.

E isso levou-o a mencionar Rowan e Gillian Pyatt, e sobre como Ethan acabaria inevitavelmente levando esse primeiro para a cama uma hora ou outra, logo após fazer a mesma coisa com o príncipe da Califórnia. Uma descrição detalhada de como se sentira ao tocar Bathory foi adicionada, pois não fazia mal a ninguém.

Finalizou com a seguinte frase:

Eu termino por aqui esse relato, escrito na madrugada do dia trinta para o dia trinta e um de agosto de 2013 por Nicholas Antonella Lemnsack Hentz, o último leão dourado. Esse é o relato das vidas de vários anjos, pois é assim que eles vivem. Se alguém já quis saber como vivem os anjos, é assim.

Com todos os melhores amores do mundo,

Nicholas Hentz.

Já era de manhã e a luz de Sacramento invadia as janelas grandes, iluminando a grande sala, fazendo-a parecer o paraíso. A lareira já havia se apagado, mas Nick acendeu-a de novo.

Quando o fogo começou a crepitar vigorosamente entre os tijolos de pedra, Nicholas Hentz fechou o Livro Hentz, deu um beijo em sua capa de couro preto e atirou-o no fogo.

OoO

Senn acordou àquele dia com uma dor de cabeça dos infernos que só foi se intensificando à medida que o dia passava. Seus escassos parentes estavam ainda mais insuportáveis que o normal.

A despeito de Henrietta, sua mãe Antoniette, seu pai Alexander e sua irmã Toni, os parentes distantes de George Fellow também moravam no castelo, alguns deles. A única irmã de George e tia-bisavó de Senn, Mary Beth, que acompanhara o irmão em seus últimos meses de vida com um câncer a comer seus ossos lentamente, parecia ser mais velha que a rainha, sendo que era quase trinta anos mais nova. Não seria tão ruim se ela não fosse tão parecida com Henrietta não só na aparência, mas também na personalidade. Era como se as duas velhas disputassem o matriarcado.

Como de praxe, seus incontáveis descendentes amontoavam-se ao redor da longa mesa do salão de jantares particulares. Mary Beth tivera seis filhos e uma filha com seu já falecido marido; três de seus filhos moravam em partes diversificadas da Califórnia, enquanto sua filha morava na França. Os outros três moravam no palácio e haviam-lhe feito o favor de lhe dar dezessete netos, doze dos quais haviam construído famílias independentes. Alguns moravam ali mesmo em Sacramento; outros em San Diego e San Francisco; outros em Los Angeles e alguns até mesmo nos EUA. Os outros cinco tinham, ao todo, doze filhos, sendo que apenas quatro moravam ali no palácio.

Se Henrietta não se dera ao trabalho de aumentar a família real, Mary Beth Fellow o fizera com perfeição. Doze de seus descendentes estavam ali no salão. A cabeceira da longa mesa estava vazia quando Senn entrou ali para o café-de-manhã; empregados serviam a comida em bandejas de prata, mas era de certa forma uma regra não começar a comer enquanto a rainha não o fizesse.

A direita da cadeira da cabeceira, a mãe de Senn sentava-se com seu pai ao seu lado. A cadeira esquerda era de Senn, e a direita desta encontrava-se Toni.

Senn gostava de imaginar que os Fellow eram loucos para ver os Walker todos mortos. Mary Beth devia pensar que se toda a escassa descendência de Henrietta acabasse, a Coroa seria dela.

Não, será dos Estados Unidos. Quanta ingenuidade, minha velha tia.

Falando no Diabo, a rainha andava mais fraca a cada dia que se passava. Ficara na cama no dia seguinte ao atentado em Middleland (por isso fora tão fácil para Aileen tirar Senn do hotel e levá-lo ao apartamento de Ethan), mas pensara-se que fora apenas pela experiência. Pelo visto, realmente não era. Henrietta vinha tendo dificuldades para andar, esquecia-se frequentemente das coisas e uma vez confundira Senn com Toni (embora ele pensasse que aquilo fora proposital).

Era de consenso geral dentro da família real a suposição silenciosa de que a rainha estava morrendo.

— Do jeito que ela é — dissera uma vez a Aileen —, vai decidir morrer no Natal, bem no meu aniversário, para que eu seja coroado no mesmo dia e assim essa data não possa ser comemorada nunca mais pelo resto da minha vida.

— Você está exagerando — ela dissera.

— Estou? Ela se coroou no mesmo dia em que emancipou a Califórnia, e que dia foi esse? O mesmo dia em que os Estados Unidos comemoram sua independência. Foi o maior insulto formal da história da humanidade, e ela ri quando se lembra disso.

A porta do salão de jantares abriu-se e Henrietta adentrou no recinto imperialmente, tão digna quanto tinha o direito de ser. Alexander ajudou-a a sentar-se, já que Antoniette ainda não parecia ter se recuperado da ressaca. Senn imaginou que ela também não duraria muito. Parecia ter cinquenta anos.

A rainha começou a comer, assim como todo o resto da nobreza.

Ao final daquele dia, Senn estava na beirada do Lago Aquortus, pois fora ali que marcara se encontrar com Ethan Lemnsack.

Havia uma passagem secreta naquele castelo que permitiria que os dois fossem ao quarto de Senn sem que ninguém os visse e, aí… bem, Senn não sabia exatamente o que faria. Mas Ethan era mais velho, ele saberia.

Finalmente o viu no fim do gramado, e ele logo se aproximou. Parecia levemente furioso com alguma coisa, mas sorriu ao ver o príncipe. Seu cabelo negro reluzia a luz do sol, e seus olhos eram escuros como buracos-negros por trás dos óculos retangulares.

— Fiquei me perguntando se o seu convite para vir aqui foi um convite ou uma ordem — ele disse ao se aproximar. Senn sorriu de canto, deu-lhe um leve abraço e o chamou para dentro.

— Já subiu uma escada de um metro de largura dentro de um corredor de pedra escuro? — indagou-lhe travessamente.

Seguiram pela mesma passagem que Aileen seguiu para levar Senn de volta ao seu quarto depois de ter esvaziado uma garrafa de vinho, alegando indisposição, por isso o jovem príncipe teve de se ausentar mais cedo. De fato, indisposição foi o que sentiu na manhã seguinte, na primeira e maior ressaca de sua vida. Vomitara o que não pensara haver em seu estômago.

Escada acima, saíram num corredor atapetado e bem-decorado. Seguiram então para o final dele, onde estava o quarto de Senn.

— Além de você, seu pai, sua mãe, sua irmã e a rainha, quem mais mora nesse lugar? — Ethan indagou quando Senn discretamente trancou a porta.

— Ah, uns primos distantes, descendentes da minha tia-bisavó Mary Beth. Se eu pudesse, queimaria esse palácio com todos eles dentro. Sabe, a rainha está morrendo. Não devia te contar isso, mas ninguém aqui dentro fala, e vou me matar se não desabafar.

— Pensei que não gostasse dela.

— Não gosto, e você vê, isso é o estranho. Eu realmente a odeio no sentido mais cru da palavra, mas vê-la tendo dificuldade para andar e até para falar, pois um canto de sua boca está paralisado, me faz sentir algo estranho. Quer dizer, o que é isso, pena?

— Provavelmente.

— É isso mesmo, estou sentindo pena da rainha, coisa que pensei ser impossível. E estou com raiva de mim mesmo por isso.

Ethan lançou-lhe um olhar enigmático, depois se levantou e passou o olho pela estante de livros do príncipe.

— Oh, veja só, Lympharia — ele disse jovialmente, folheando um dos grossos volumes. — Eu conheço Melon Chioren, sabia?

— Imaginei que sim, ele mora em Jardim de Ouro.

— Estou dizendo que conheci intimamente. — E deixou a frase jogada no ar, como que para ser interpretada livremente por quem bem entendesse. — E Melchior é um sociopata, no sentido mais cru da palavra. Não sente nada por ninguém.

— Mas não foi o que pareceu nas entrevistas que ele deu…

— De fato, não, porque estou falando de Melchior, não de Melon. Sabe, Melon é um garoto adorável e amoroso, cheio de sentimentos bons e humanos. Mas ele não existe, Senn. Melon é uma segunda personalidade que Melchior criou para que as pessoas não estranhassem sua sociopatia. Ele não sabe disso, porém. A mente dele é tão calculista que fez isso por si própria, pois sabia que as pessoas o evitariam se ele simplesmente não sentisse empatia, e ele não sobreviveria sem conseguir manipulá-las. Todas as emoções que ele sente são artificiais. Melchior criou Melon. Antigamente eu pensava que era o contrário, que Melchior era sua segunda personalidade, mas eu percebi que estava errado. Ele é isso, um sociopata com fortes tendências à psicopatia.

— Por que está me contando isso?

— Para te mostrar que não é errado sentir pelas pessoas que você odeia, e sim não sentir. É sua mente mostrando que você é humano, Senn. Não queira não sentir. Você não é o Melchior. Você não é Deus.

Senn notou que a cada frase que Ethan proferia ele se aproximava cada vez mais de si, sempre com um brilho fosco nos olhos que o hipnotizava. No final, estava a poucos centímetros de distância.

— É assim que você encanta as pessoas? — indagou a ele. — Sussurrando palavras à medida que se aproxima delas? Fitando-as com esses olhos amedrontadores?

— Já notou os olhos de Melchior? — Ethan indagou antes que definitivamente beijasse o príncipe. Depois se separou e disse: — São as coisas mais demoníacas que já vi na vida. Oh, minha doce criança. O que você sabe sobre ter medo?

Os lábios de Ethan estavam vermelhos pelo súbito toque com os do príncipe, que sentia inflamar-se dentro de si o desejo que há muito não sentia. Ethan parecia realmente um adulto do ponto de vista de Senn, mesmo sendo os dois da mesma altura. Os óculos davam-lhe um ar maduro. A voz grave e levemente rouca eriçava os pelos de sua nuca à medida que Ethan beijava seu pescoço suavemente, envolvendo sua cintura com os braços. Senn sentia seu sexo já aceso por dentro da calça.

Sentia também sua respiração lentamente tornando-se ofegante, a carícia que faziam os lábios de Ethan em sua pele intocada. A ansiedade pela coisa que acontecia e que estava para acontecer logo transformava-se em desejo, e depois em desespero.

Ethan sentou-o gentilmente na espaçosa cama, impecavelmente arrumada. Voltou a beijar-lhe os lábios, deitando-se realmente sobre o príncipe. Os corações dos dois pulsavam em sincronia, seus alentos alinhados um com o outro, como se se precisassem simultaneamente para sobreviver.

Senn gemeu alto.

— Está tudo bem? — Ethan lhe indagou. Seus narizes estavam a um centímetro de distância, Senn conseguia sentir seu hálito fresco e morno. Uma cor avermelhada tomara seu rosto, e sua ereção estava maior que nunca. Seu tom de voz indicava que não queria lhe beijar contra sua vontade. Ele lhe deu toda a deixa necessária para que se afastasse. É claro que Senn não tinha a menor intenção de fazer aquilo.

— Está — sussurrou-lhe quase que com desespero. O sentimento de ser envolvido e protegido brotou em Senn como uma semente, e os beijos e carícias de Ethan eram seu sol e água.

Sentiu-se nascendo novamente quando Ethan deslizou sua calça por suas pernas macias, voltando-se para cima para beijá-lo de novo e então tirar a própria camisa. Ele absolutamente não o fitou com desejo, apenas com carinho, e Senn adorou aquilo por algum motivo.

Ethan sentou-se na beirada da cama e puxou-o delicadamente para que se sentasse em seu colo, com as pernas envoltas em sua cintura. Segurou a nuca de Senn e olhou profundamente para seus olhos verde-acinzentados. Após poucos segundos, o príncipe sentiu-se caindo para dentro de uma escuridão infinita ali mesmo no rosto de Ethan. De repente, sentiu um calor absurdo, depois um frio que lhe atravessava os ossos.

A hipnose parou quando Ethan abocanhou seu pescoço. Senn torceu os dedos por trás de suas costas nuas, deslizando as unhas pela pele exposta e alva. Ele agora deixava toda a delicadeza para trás e mostrava-se selvagem e louco por aquele sexo. Beijava-o sem parar, sugando a pele, os lábios, beijando-os, fitando-o.

Segurou suas nádegas com as duas mãos; envolvia a carne voluptuosa e sólida por baixo da cueca, fincando suas unhas lá. Senn desejava Ethan com todo o poder do mundo, o queria dentro de si, preenchendo-o por dentro, tirando sua virgindade.

— Me coma, por favor — sussurrou antes de Ethan colocá-lo de bruços em cima da cama. Por cima do ombro, Senn observou-o tirar a calça junto com a cueca, revelando o membro duro e pulsante, com poucas veias e nenhum pelo.

Enfiou o rosto no colchão quando sentiu-o deitar-se em cima de si. Quase nada separava o pênis dele de suas nádegas senão um fino pedaço de tecido incômodo que Senn ansiava mais que tudo tirar, mas Ethan não permitiria. Ele estava jogando com ele, cruel e lentamente.

O maior ajoelhou-se em cima da cama, bem a frente de Senn. Quando o príncipe fez questão de levantar, Ethan o impediu, forçando-o para baixo com uma única mão. Aquilo era crueldade, mas ele sorria amavelmente, com apenas um leve toque de cinismo.

Senn se contorcia abaixo dele, indefeso e desesperado. O olhar de Ethan dizia o que ele devia fazer, mas sentia um constrangimento imenso se fazer aquilo debaixo daqueles olhos escuros e assustadores que observavam seu corpo branco e liso.

Finalmente, envolveu-lhe o membro com os cinco dedos da mão direita, sentindo-o pulsar como um organismo vivo. Tocou a glande vermelha com a língua. Ethan gemeu propositalmente, e isso fez Senn colocar o resto do membro na boca, felando-o silenciosamente.

Ethan contorcia-se dentro da boca de Senn. Os cabelos castanho-claros subiam e desciam, assim como seus lábios grossos, mas estes últimos ao longo do maior. Senn agarrou suas nádegas com as unhas, apertando-as gostosamente.

Ethan deslizou seus longos dedos pelo cabelo macio e volumoso do príncipe, separando-o delicadamente, mas com um aperto firme. Forçou-o a fitá-lo nos olhos. Um fiapo de voz saiu da boca de Senn Walker-Fellow, tomando aquele aposento como uma peste.

— Por favor.

Enfiou o rosto na cama; o maior mordiscava a pele delicada de seu pescoço, na parte de trás. Foi descendo cada vez mais com a língua, dando chupões fortes por toda a extensão das costas levemente musculosas. Senn sentia-se sugado por seus lábios compridos e famintos. A língua de Ethan foi deslizada desde seu cóccix para a barra de sua cueca, e foi quando a deslizou lentamente para baixo.

Os reais dedos de Senn agarraram-se ao lençol. Seus dedos dos pés se contorciam; sua voz era uma relíquia do que havia sido há poucos minutos. Ele não queria gemer alto, alguém poderia ouvir, mas a boca de Ethan o comia com sofreguidão, e seu falo era pressionado contra a cama o tempo todo.

Ele mordeu suas nádegas com vontade. De quatro em cima de Senn, Ethan desceu até as duas coxas, marcando-as cada. O corpo intocado do príncipe era tão suculento que ele tinha que se controlar para não simplesmente jogá-lo de quatro na cama e montá-lo sem piedade. Era tentador, Senn era a criatura mais submissa que já vira na vida, mas era claramente virgem, e Ethan queria que ele sentisse prazer.

Saiu de cima da cama, ajoelhou-se no chão, abriu as duas pernas do mais novo e afundou o rosto lá.

— Deus, Ethan — Senn gemeu, se contorcendo na boca de Ethan assim como este o fizera na boca dele. — Isso; oh, por favor. Me coma. Eu quero você.

— Você quer?

— S-Sim… eu imploro.

— O que você implora?

— Não faça isso. — Senn gemeu de agonia. Ethan parara de sugar sua entrada, massageando-a com um dedo antes de penetrá-lo. — Isso dói muito.

— Doerá mais se eu não o fizer.

Fez movimentos circulares dentro dele antes de enfiar um outro dedo, e então o terceiro. Senn se contorceu de dor em todos. Cada toque era novo pra ele.

Ethan não resistiu em pô-lo de quatro e dar um tapa em suas nádegas, mandando-o que as empinasse o máximo possível. Senn encostou o queixo no colchão, afastando as pernas o suficiente para que Ethan encostasse a glande de seu membro em seu ânus. Seu corpo branco e liso estendia-se como uma flor em cima dos lençóis de seda.

Deslizou a camisinha por seu membro e a untou com lubrificante, e fez o mesmo entre as pernas do príncipe, cujo membro estava vermelho e inchado, intocado durante todo aquele tempo.

Quando começou a penetrá-lo, nem seus lamentos e resmungos de dor fizeram Ethan parar. Logo estava estocando-o com toda a força, puxando-o pelas coxas e pelos ombros. Senn gemia de dor e prazer; tentou-se masturbar-se algumas vezes, mas a tarefa realizou-se impossível.

O barulho do dossel da cama batendo na parede era tudo que se podia ouvir ali, além das respirações desenfreadas dos dois amantes. Ethan bombardeava violentamente Senn sem dó, e no final daquilo tudo, suas nádegas estavam vermelhas de tantos tapas, assim como suas costas.

Jogaram-se caídos na cama, por um momento cansados demais para falar.

— O que achou da sua primeira vez, jovem príncipe? — perguntou-lhe travessamente. Os cabelos de Senn estavam jogados em sua testa suada, seu rosto estava vermelho e os olhos verde-acinzentados, cheios de brilho. Não resistiu em puxá-lo para si e beijá-lo com vontade.

— Não conseguirei andar amanhã, mas valeu a pena — ele sussurrou. E Ethan soube naquele momento que aquela fora a primeira vez, mas que não seria a última. Pensou também que chegaria tarde em casa.

OoO

E quando o fez, já era meia-noite. Admirava-se que não tivesse sido perseguido por paparazzi, mas havia algo muito pior o esperando: a cruel reprovação de Nicholas Hentz.

— Divertiu-se com o príncipe Senn? — ele perguntou enquanto mexia num notebook na sala de estar, sem sequer se dignar a lançar-lhe um olhar.

— Está irritado comigo? Por isso você queimou o Livro Hentz? — resmungou.

— Não seja tolo, se aquela coisa chegasse às mãos erradas, seria o fim da dinastia Hentz. Enquanto você maculava os reais lençóis da Califórnia, perdeu uma bomba.

— O que é? — perguntou, se aproximando.

— Acharam o avião dos nossos pais — ele disse.

Ethan demorou um pouco para entender o que havia dito. Era como se a memória de seus pais tivesse quase se esvaído de sua mente, e no momento eles estavam apenas isso: mortos.

— O avião deles caiu no meio do Atlântico — sussurrou.

— Habitantes de um arquipélago português no nordeste do Atlântico chamado de Região Autônoma dos Açores avistaram destroços de alguma máquina trazidos pela maré até alguma praia de lá. A ilha logo identificou como sendo o avião da Aero-Brent que caiu ano passado, avisaram à Califórnia e eles traçaram um trajeto até onde o avião provavelmente caíra. Estavam fazendo isso há alguns meses, na verdade, mas em segredo. Agora eles acharam. Estava a quase mil metros de profundidade, há algumas centenas de quilômetros da costa dos Açores. — Nick tremeu. — Sinto calafrios ao pensar que o mar é tão vasto e fundo.

— Você está dizendo que… — Ethan murmurou — podemos ter o corpo dos nossos pais de volta?

— Não sei, o frio do Atlântico pode ter conservado a maioria dos pertences, mas os peixes devem tê-los comido todos. — Nick olhou-o com aqueles olhos escuros de leão incrustados no rosto delicado e bonito. — O avião explodiu, Ethan. Devem estar todos carbonizados. Diz aqui que, se o governo identificar os corpos, entrarão em contato com as respectivas famílias. Creio que se eles forem achados, receberemos não muito mais que ossos carcomidos pelo fogo.

Havia um nó na garganta de Ethan, que de tão apertado parecia impossível sair.

— Eu nunca fui no túmulo simbólico deles do cemitério de Middleland.

— Eles nem nasceram lá. Nasceram em Castellobranco, como você. Eu nasci em Middleland. Talvez se eu tivesse nascido lá, as coisas pudessem ter sido diferentes e você pudesse estar comendo Lucas Fontanelle agora.

Ethan enxugou as lágrimas que não existiam e sorriu.

— Não seja bobo, eu nunca faria isso. Afinal de contas, seria incesto.

Notas finais
O Clube de Bilderberg existe de verdade, mas a descrição da cena achada no Livro Hentz foi puramente ficcional, e tanto o título desse capítulo quanto a citação no início dele foi tirada do livro homônimo de Sidney Sheldon.