Como Vivem Os Anjos
67 Noël
Notas iniciais
Nöel.
(Do francês, “Natal”)
O Natal na era pagã era o tempo das bruxas, o tempo em que os mortos sem descanso caminhavam.
(Lasher
— Anne Rice)
E o menino Stephen adoeceu.
E o menino Stephen morreu?
E os tristes corações se apertaram.
E os enlutados choraram?
Não, não foi este o destino
de Stephen Dowling Bots, o menino;
Embora os corações entristecidos se houvessem apertado,
não foi enfermidade que lhes deixou o peito desolado.
Não foi a coqueluche que lhes fustigou a compleição,
Nem o lúgubre sarampo que lhe causou tanta lesão.
Nada disso maculou o sagrado nome
de Stephen Dowling Bots.
Tampouco a dor de amores não compartilhados
atingiu aquela cabeça de cachos encaracolados.
Nem as dores de estômago que lhe causavam um gemido
Fizeram Stephen Dowling Bots exalar o último suspiro.
Ó, não. Então ouçais com olho marejado,
enquanto relato seu destino malfadado.
Sua alma de fato voou deste frio mundo,
quando ele caiu num poço profundo.
Retiraram-no e lhe esvaziaram o pulmão,
mas, ai, tarde demais para o coração.
O espírito partiu para brincar nas alturas
no reino do bom e do todo-poderoso.
(Ode Ao Falecido Stephen Dowling Bots
— Mark Twain)
OoO
Assombroso, estonteante, inacreditável e indubitavelmente belo. A gigantesca fachada da entrada do Vale das Sombras era feita de madeira grossa e escura, e abria-se como uma boca sem dentes para os visitantes. Intimidadora. Através dela, podia-se ver um caminho estreito onde a neve havia sido retirada, revelando o solo marrom. O destino era desconhecido.
— Você só pode estar de brincadeira — gemeu Lincoln Spring. Ele segurou a mão de Nicholas com naturalidade. A relação dos dois havia crescido muito naquele período de pouco menos de um mês. Em meio a brigas e declarações, a afeição de um pelo outro havia crescido exponencialmente.
Segurava a mão de Lorenzo com a outra mão. Sua cadeira de rodas atolaria horrivelmente naquela neve se chegasse a atingi-la. O menino estava levemente inclinado, como se sua espinha não tivesse mais funcionalidade, com uma expressão ligeiramente idiotizada. Ele estava perdendo os movimentos do lado esquerdo do rosto.
Olhou para trás e viu Pan. Em seus olhos castanhos, molhados e lindos, viu um grande pavor crescente. A boca com lábios grossos estava levemente entreaberta. Ele usava uma bandana na testa para puxar os cabelos da cor do chocolate para trás, um emaranhado de fios ondulados duros de terra até que Nick os afundasse na água e os hidratasse.
— Pan? — chamou-o. Ele grunhiu alguma coisa, ainda compenetrado na placa de boas-vindas. — Você está bem?
— Não sei — respondeu. Andou alguns passos. Usava botas pesadas perfeitas para aquela neve. — Não me lembro muito bem daqui. Essa entrada era tão grande. Ou parecia maior.
O trailer parecia um monstro de metal por trás deles. Era o quarto trailer que usavam desde que invadiram os EUA. O quarto que roubavam. Algum dia precisariam ressarcir todos os donos de trailer roubados. Era uma pena que Nick não houvesse tido a ideia de anotar os nomes deles e as placas originais até então.
O caminho estava livre, mas também vazio. Não havia nenhum franco-canadense loiro de olhos azuis para dizer se podiam entrar ou não. Pensou em perguntar a Pan, mas ele já dissera que não se lembrava muito do lugar. Tinha apenas sete anos quando foi embora. Talvez não se lembrasse nem daqueles que se lembrariam dele.
— Eu não quero entrar aí — resmungou Lorenzo num grande suspiro. Falar para ele se tornara um desafio. Sua língua estava sempre meio engrolada, dando a impressão de que havia algo em sua boca. Além disso, nem sempre ele conseguia fechá-la e acabava deixando escorrer um fio de saliva. — Vamos embora. Por favor.
Lincoln apertou mais sua mão. Nick olhou para ele, pensando em como o amava. Haviam feito amor diversas vezes durante aquele trajeto. A primeira foi após voltarem ao apartamento em Nova York, depois daquela tarde gelada no Central Park. Pan estava assistindo televisão e Lorenzo estava dormindo na rede. Os meninos silenciosamente deixaram as compras na cozinha, subiram até o quarto principal e despiram-se. Nick fez amor com ele tão violentamente quanto costumava fazer com o irmão.
— Não vamos embora — declarou com firmeza. — Chegamos a essa maldito lugar por algum motivo, e vamos ficar aqui. E não tenho certeza se temos gasolina suficiente para chegar na cidade mais próxima. Eu também não sei qual a cidade mais próxima.
Antes de entrar na floresta que agora sabia ser a lendária e mal-assombrada Floresta das Sombras, Nick vislumbrara a beleza magnífica e majestosa das Montanhas Rochosas ao longe. Talvez passasse pelo Parque Nacional Banff para tomar um banho nas fontes termais. Isto é, se sobrevivessem àquele Vale das Sombras.
Não tinha muita certeza de como chegaram ali. Não sabia bem nem por que virara para o norte em Washington ao invés de ao sul. Deveria ter voltado à Califórnia. Quem suspeitaria dele na Califórnia quando o FBI jurava que ainda estava na região dos Grandes Lagos? Dirigiu sem muito rumo até chegar à fronteira do Canadá. Quando deu por si, um guarda estava na porta do trailer, perguntando para onde iam e o que iam fazer no Canadá. Vancouver, visitar minha tia-avó que está muito doente. Nossos pais trabalham e ela queria ver todos os sobrinhos-netos. Somos a família Montgomery.
Nem passaram perto de Vancouver. Nick havia tido a impressão de que o guarda o reconhecera e fizera exatamente o percurso oposto do que ele havia dito para fazer. Quando deu por si, estavam na cidade de Kamloops. Os fusos horários malucos estavam enlouquecendo-o gradualmente. Ficaram algum tempo por lá, apreciando o sistema de saúde gratuito do Canadá, quando finalmente entraram novamente no trailer e pegaram a estrada.
O GPS só tinha mapas da Califórnia e dos EUA em sua programação, por isso o Canadá não era nada além de uma selva gelada. Não era uma boa ideia ir tão a norte naquela época do ano. O Natal chegava e, com ele, seu frio, seus badaluques vermelhos e dourados, suas luzes piscantes e velhos gordos vestidos de Papai Noel. Nick se perguntou se ele existia de verdade. Deveria ter perguntado a Rowan quando teve a chance.
Então tomaram aquela estradinha para o leste de Kamloops, pegaram outra vertente para o norte e mais uma para o sudoeste. Nick dirigia tranquilamente quando a neve começou. Não havia neve em nenhuma outra parte da Colúmbia Britânica. Estava gelado, sim, mas nem tanto assim. Pinheiros altos e assustadores, cujas folhas eram de um verde escuro como petróleo e espruces grossos e frios enchiam as florestas. Galhos cheios de neve branca e fofa. Nick ainda amava a neve. E amava todos os estados americanos onde a encontrara, começando por Nova York.
Começou a ficar frio dentro do trailer, embora o termômetro ainda indicasse uma agradável temperatura ambiente. Foi o coração dos meninos que se encheu de gelo e terror à medida que adentravam no coração daquela floresta escura onde às vezes as árvores se entrelaçam no ar, criando um teto de folhas tão espessas que não se sabia se era noite ou dia. E foi aleatoriamente que Nick virou a direção do trailer nos pontos certos para que chegasse ao ponto mais fundo daquela área, um ponto onde, não importava para onde você olhasse, só se via árvores escuras, neve branca e céu azul.
E, de repente, bienvenue à Vallée des Ombres. Malditos canadenses bilíngues.
— Há pessoas aqui que falam inglês? — perguntou a Pan.
Ele deu de ombros. Uma mania que pegara com Lincoln.
— Claro. Mas muita gente só fala francês. Ninguém só fala inglês.
Pareciam ridículos naquelas roupas de frio, os quatro garotos em sua jornada tresloucada. Estava muito frio, mais que o comum, frio demais para aquela área do Canadá. Não apenas isso, o ar estava pesado, como um paredão gelatinoso e invisível abrindo-se em seus rostos, queimando as pestanas e congelando o nariz. Os dentes de Nick tiritavam, suas mãos tremiam, a de Lincoln também. Segurou a mão dele com mais força.
— Por que vamos ficar aqui? — ele perguntou.
— Dois motivos — respondeu. — Esse vale é tão recluso e fechado que os Lancaster provavelmente desconhecem a existência dele. Sejamos francos, eles nem devem saber que atravessamos o Canadá ainda. O segundo motivo é que esse vale é tão recluso e fechado que as pessoas daqui provavelmente não fazem a mínima ideia de quem eu sou. E olhem o tamanho dessas árvores. Não existe serviço de internet que pegue aqui. Talvez nem mesmo haja telefone. O Vale das Sombras é uma comunidade madeireira agropastoril cujos habitantes ainda vivem no século XIX. Certo, Pan?
— Sim, só que eles usam geladeira e micro-ondas.
— É isso aí. Vamos nos esconder aqui por tanto tempo quanto eles deixarem… qual o gentílico desse povo? Deixe para lá, não é importante. Eu sei que coisas horríveis acontecerem aqui no passado, mas o passado deve ficar para trás. 2002 não é um ano tão longínquo assim, mas tudo bem.
— Vem vindo alguém — sussurrou Pan.
Eles olharam para o interior do caminho. Nada além de árvores por uns vinte metros, onde o caminho fazia curva e não podia-se ver mais nada. No entanto, de repente, eles ouviram passos. Alguém surgiu ao fundo, e quando se aproximou notou-se que se tratava de uma moça jovem, mas mais velha que Ethan, com o amarelo do sol nos cabelos e o azul do céu nos olhos.
Ela sorriu quando viu os meninos. Carregava uma caixa de metal debaixo do braço. Vestida com roupas de frio, parecia habituada a ele, como se houvesse nascido ignorando a fumaça branca que escapava de seus lábios vermelhos de batom. Era uma cor linda que combinava com o resto do rosto. Pele rosada e cabelo curto, nem chegava aos ombros.
Colocou a caixa de metal dentro da pequena cabine que servia de guarita, mas que não parecia ser realmente usada para isso, e virou-se para eles.
— Bonjour! Je m'appelle Amelie. — Com uma de suas delicadas mãos, ela indicou a entrada por trás de si. — Vous êtes chanceux d'arriver dans cette époque de l'année, c'est quand nous recevons les étrangers. Et c'est quand la Vallée est plus decorée et jolie. — Ela deu meia-volta, esperando que eles a seguissem. No entanto, antes disso olhou para eles com olhar suspeitoso. — Vous avez d'argent, n'est-ce pas?
Nick olhou para seus belos lábios vermelhos por um tempo. Ela com certeza era mais velha que Ethan, mas tinha sua altura.
— Inglês? — perguntou em sua língua natal. Ela deu uma risada.
— Oui, perdoe-me. — Tinha um sotaque extremamente forte, quase tão forte quanto o italiano de Lorenzo. — Meu nome é Amelie. Vocês tiveram sorte ao chegarem aqui nessa época porque é quando recebemos estrangeiros. — Estrangeiros, ela disse, para se referir àqueles que não nasceram no Vale. Nick levantou uma sobrancelha. — E está tudo enfeitado e bonito por causa do Noël. Natal. Qual o motivo da visita? Turismo?
— Sim — Nick sorriu se aproximando para chacoalhar a mão dela. — Meu nome é Raymond Fawlan. — Indicou, respectivamente, Lorenzo, Lincoln e Pan. — Estes são Christopher Fawlan, Cameron Botwin-Fawlen e Pamius Botwin. Estávamos nos dirigindo a Alberta, mas nos perdemos e acabamos aqui. Que espécie de lugar é esse?
Isso foi a deixa para que ela pedisse que eles a seguissem. Nicholas andava a seu lado, Lincoln por trás dele e Pan empurrava a cadeira de Lorenzo. Tudo enquanto ela falava.
— O Vallée des Ombres foi fundado em 1822 pelo Sr. Pierre Fournier I e sua esposa, Sra. Sophie Fournier, como um refúgio do poderio da Companhia da Baía de Hudson sob o comércio de peles na região conhecida hoje como Oregon Country. A Colombie-Britannique estava sob autoridade britânica na época, embora os americanos que se instalaram por aqui na década de 1840 não a reconhecessem. Isso causou muitos desentendimentos entre os dois povos, o que aumentou consideravelmente a popularidade do Vallée para os franceses que queriam escapar disso. O Sr. e a Sra. Fournier tiveram juntos doze filhos, os quais todos cruzaram com os franceses advindos desse tempo. São deles que praticamente mais de três quartos do Vallée atual descendem.
“O Vallée enriqueceu bastante quando ouro foi descoberto no Rio Fraser em 1858, tanto pelo próprio minério quanto pelo turismo, uma vez que a descoberta trouxe mais de trinta mil pessoas a essa região. Quando a corrida acabou muito cedo e a Colombie-Britannique endividou-se com construções de estradas, o Vallée era uma das poucas comunidades sem contas a pagar. Isso trouxe dívida e desemprego para toda a província, fazendo com que os barões da madeira que moravam aqui lucrassem com a mão-de-obra barata. Não tivemos problemas durante a Grande Depressão, apesar de todos os asiáticos.
“Depois da Segunda Guerra Mundial, achamos algumas fontes de petróleo e gás natural que se esvaziaram logo, mas, novamente, enriqueceram o Vallée e todos os seus habitantes, que somavam mais de três mil. Depois da década de 60, os EUA começaram a importar madeira do Canadá. Muita dessa madeira vinha de nós. Financiamos parte da construção da Canadian Pacific Railway, nos últimos vinte anos do século XIX. Foi o nosso auge. Depois da guerra, muitos dos jovens, no entanto, acabaram se mudando daqui para as cidades grandes. Queriam fazer faculdade. Isso somado a uma já controlada praga que o Vallée sofreu nessa mesma época, diminuiu nossa população drasticamente.”
Chegavam ao final do caminho. Nicholas podia distinguir, ao longe, as luzes e o barulho que uma comunidade com mais de mil pessoas é obrigada a produzir num dia ordinário de trabalho. Mas não era ordinário, não, senhor, era véspera de Natal! Para onde fora o Dia de Ação de Graças? O Halloween? As ações de graças ficaram em Nova York e o Halloween em Nova Orleans, junto com a magia e a esperança.
— Vocês por acaso anotam o nome de todos aqueles que nasceram neste Vale? — perguntou a Amelie.
— Oui, mas é claro. Fica na prefeitura.
O início do Vale das Sombras era murado por uma profusão de pequenos estabelecimentos comerciais, tais quais como hotéis, restaurantes e lojas de souvenires. Nenhum prédio com mais de dois pisos. Todos de madeira construídos à moda dos belos chalés que vira em Aspen, com muita neve branca em volta para embelezar as construções. Placas com inscrições em francês com mais destaque e em inglês com menor. As pessoas que andavam sem prestar atenção deles eram quase todas louras e falavam francês, tinham roupas de frio rústicas e pareciam todas felizes.
Aquela rua era como a Las Vegas Boulevard numa versão faroeste de clima temperado. Nick tinha absoluta certeza de que aquela era uma área do Canadá onde não deveria nevar. A neve não começara até que se aproximassem da Floresta das Sombras. Por que aquele frio?
— Eu lembro daqui — disse Pan com olhos brilhando. — Sim, sim, lembro-me daquele restaurante. O dono pedia que as crianças se passassem por pedintes e ficassem na porta para pedir dinheiro aos turistas. Depois dávamos todo o dinheiro para ele.
A longa linha de casas de madeira estendia-se por um ou dois quilômetros, como que para impedir a visão dos visitantes ao que havia por trás. Um paredão de pinheiros cheios de neve formava uma proteção natural em volta de tudo. Sim, ninguém ousaria se aventurar na Floresta das Sombras.
— O Vallée des Ombres é basicamente um retângulo — continuou dizendo Amelie, seguindo com eles para a direita. — Os cantos do retângulo são reservados para cultivo de grãos e animais e estoque de madeira. Temos duas reservas florestais dentro da área do Vallée e duas lagoas de água doce. — Nick sentiu vontade de dizer a ela que não existia lagoa de água salgada. As palavras vieram à boca e quase as disse, mas Lincoln apertou sua mão. Péssima ideia, meu grande amigo. Péssima ideia. — O canto inferior da direita é onde produzimos madeira.
Finalmente chegaram a uma região diferente. Por trás de uma cerca alta de arame farpado, viram um campo grande e deserto, exceto pelas centenas de árvores derrubadas, tendo seus galhos arrancados e jogadas em uma grande pilha de troncos nus. Caminhões estavam estacionados num canto, por trás de um grosso portão de madeira. Provavelmente a coisa mais moderna naquele lugar esquecido por Deus.
— Como eu disse, a atividade madeireira é nosso maior sustento. Apesar disso, a Forêt des Ombres nunca diminuiu de tamanho. Ela sempre serviu a nós fielmente. No canto inferior esquerdo é onde criamos ovinos, bovinos e suínos. Nós importamos praticamente tudo o que não nos é usável. Não temos o costume de acumular. Sobrevivemos com o que precisamos.
E, apesar disso, são extremamente ricos, como você já disse.
— Vocês criam galinhas, vacas e porcos? — indagou Lincoln. — Nesse clima? Criam animais de clima quente no meio da neve?
Amelie sorriu e respondeu quase num tom apaixonado.
— Oui, nunca tivemos problemas com esse tipo de coisa. Notre Vallée est bénir. No canto superior esquerdo do Vallée cultivamos grãos, tais quais soja e trigo, e no superior direito há pomares de árvores frutíferas. Estudiosos já quiseram estudar este solo para compreender como as árvores e os grãos conseguem vingar o ano todo, mas nunca permitimos tal coisa.
A longa fileira de estabelecimentos comerciais destinados a turistas havia acabado com o fim do depósito madeireiro. Agora davam a volta nos pequenos e aconchegantes chalés. Nick sentia mais frio que nunca. Mas talvez não fosse ele que causasse a tremedeira em seus dedos.
— Já entrei nesse depósito escondido — sussurrou Pan olhando para o grande campo. Como eles mantinham a neve longe? — Um dos homens mandou-me ir embora, mas ele deixou que os outros meninos ficassem. Os meninos mais velhos iam com os lenhadores para aquelas casinhas de madeira lá ao longe que eles usam como quartos e ficavam durante horas.
Puxou sua mão para longe dali, em direção a Amelie, que dava a volta. Era sensato impedir Pan de se lembrar de lenhadores fazendo sexo com adolescentes numa comunidade conservadora como o Vale das Sombras.
Mais lindas construções de madeira, só que dessa vez residências com famílias de cinco ou seis. Dezenas de crianças louras ou morenas de olhos claros brincavam alucinantemente com bolas de futebol manufaturadas sem nenhuma preocupação no mundo, sob um céu azul que nunca esbranquiçava com a chegada da neve. E nevava. Flocos esparsos, mas nítidos e brilhantes como cristais, desciam lentamente do céu. Pôs a língua para fora e engoliu um. Gosto de nada.
— Como neva? — perguntou Lincoln baixinho. — O céu está claro como água. De onde vem a neve? Isso é meteorologicamente impossível.
Nick acariciou seu lindo cabelo loiro com leveza. Inteligência demais em momentos inoportunos é sempre um fardo.
Olhou para o céu límpido e sem nuvens, uma imagem cercada por pinheiros brancos com folhas grossas e fortes como galhos para segurar a neve que se acumulava. Aquela não era apenas uma comunidade para franceses ou descendente de franceses. Era uma zona livre das influências do tempo, onde todas as pessoas viviam como cordeiros esperando para o abate. Afinal, já ouviu-se falar de alguém que tenha nascido no pavoroso Vale das Sombras, saído… e sobrevivido?
Ouvia-se francês em todas as partes. Raramente inglês. Algumas das placas nem sequer tinham as duas traduções, só a primeira. As que tinham, podia-se ver que a em inglês havia sido pintada fora de planejamento, com as palavras se arrastando e amontoando nos cantos. Definitivamente, não era um lugar para eles.
A rua em que se encontravam estava decorada para o Natal. Guirlandas verdes penduradas em praticamente todas as portas; Papais Noel pendurados nas telhas da varanda como aranhas no Halloween; muito vermelho e dourado; neve de mentira, na verdade algodão; pisca-piscas dourados, muitos deles, milhares e milhares deles, artisticamente emoldurando aquela pequena ruazinha cheia de casas pobres. Pobres, sim, disso Nick tinha certeza, pois apesar de todas serem lindas sabia que haveria maiores ao fundo do Vale. Os ricos sempre preferem privacidade.
Jesus, como eu odeio pinhas. E havia centenas delas espalhadas pela rua e decorando as casas. Pinheiros aos milhares a suas voltas, como poderia esperar que não houvesse pinhas?
Algumas famílias arrastavam vigorosos pinheiros para dentro das casas. No futuro, provavelmente no dia 6 de janeiro, como é tradicional, cortariam seus galhos e retalhariam seus caules para servir de combustível para aquelas belíssimas lareiras de pedra que todas as casas tinham. Será que tinham eletricidade? Seria possível? Perguntou a Amelie.
— A maioria das casas não têm — ela respondeu. — Não as daqui. As do fundo, as depois das reservas, têm, e a prefeitura também. Há uma cozinha comunitária ao lado da lagoa com eletricidade onde as famílias vão quando precisam usar os eletrodomésticos. Um dos trabalhos do prefeito é registrar pedidos de compras das famílias e ir à cidade mais próxima para realizá-los. Normalmente à Vernon, mas a maior parte dos enfeites de Natal vêm de Kamloops. Gostariam de voltar às lojas de souvenires?
Deu outra boa olhada em seu rosto. Será que entre os pedidos feitos ao prefeito o batom vermelho estava incluso? Aquela comunidade estranhamente espaçada no tempo não parecia ter lugar para batons. As roupas eram muito rústicas. Paradas no tempo. Ainda no século XIX.
— Eu gostaria de me hospedar numa pousada — respondeu. — Nós quatro, na verdade.
— Oui. — Ela devia sentir o cheiro do dinheiro. — Permitimos que os estrangeiros fiquem até o dia 6 de janeiro.
— Me parece bom — disse amavelmente. Segurou suas mãos macias e saudáveis. — Mas não é nas pousadas que vimos na primeira rua que quero ficar. Sei que quando o prefeito vai negociar com políticos de outras regiões eles se acomodam num hotel privado no interior do Vale. Parece-me bem óbvio. Então… o que me diz, querida? Talvez… cem dólares por dia, por pessoa? Eu prometo ir às lojas de souvenires. Minha família é conhecida por todo o ouro que tem. E se me conceder passe-livre para o interior do Vale, prometo que quando sairmos daqui no dia 6 de janeiro este lugar parecerá ter vencido a corrida do ouro de 1858.
Trinta minutos depois, Nicholas Hentz, Lorenzo Barcarolli, Lincoln Spring e Pamius Cargill estavam no primeiro andar da prefeitura, numa área transmutada para se tornar um hotel luxuoso. Era um chalé confortável e hospitaleiro, laranja e dourado por dentro, onde os quartos tinham duas camas de casal gigantes e fofas forradas com colchas alaranjadas. Manufaturadas. Um clássico, raro e precioso.
Os móveis eram de madeira escura. A fabulosa lareira de pedra que Nick tanto queria estava acesa e crepitante. Haviam-nos provido de lenha à vontade. Se acabasse, que batessem na salinha lá em baixo. Não custava nada. E não precisavam ir tomar café-da-manhã na cozinha comunitária ao lado da lagoa. O prefeito ficaria feliz em recebê-los. A ceia de Natal seria servida em sua residência, à meia-noite, e ele gostaria que se juntassem.
Finalmente puderam tirar as roupas de frio. Tinham apenas um quarto para todos, mas não fazia mal. Já haviam ficado em lençóis piores nestes vinte e quatro dias infernais de dezembro. O Natal era amanhã.
— Pan, como se sente? — perguntou Nick com sinceridade. Talvez fosse apenas para desviar sua mente dos pensamentos impuros que produziu quando ele tirou sua camisa e expôs o peito. Não queria que Lincoln ouvisse. Era implícito que estavam namorando. Já haviam superado a época de conversa-fiada. — Nesse dezembro, nesse Natal?
Seus dentes branquíssimos sorriram adoráveis.
— Muito bem. Nunca pensei que voltaria aqui. Por que estamos aqui?
— Fugindo de algumas pessoas muito, muito más — respondeu Lincoln mal humoradamente. Ficava daquele jeito às vezes. Não havia o que fazer. Olhou para Nick. — Eu sei que você quer descer à prefeitura e ver o nome dele e dos pais dele, mas você não vai encontrar, seu imbecil. Pan não nasceu aqui. Ele nasceu na Califórnia. E seus pais nasceram na França e em outra parte do Canadá.
— Não é o nome de Pan que quero ver. — A mão de Lincoln segurou a sua com carinho, mesmo que estivesse emburrado. Nem sempre a expressão acompanhava os sinais do corpo.
A lagoa lá fora era uma maravilha da natureza. Não sabia seu nome, mas a chamava mentalmente Lagoa das Sombras. Uma gigantesca poça de água negra lisa como um espelho. A impressão de que a qualquer momento o Monstro do Lago Ness surgiria não saía de sua cabeça. Aquela coisa parecia um grande portal.
— Nick — sussurrou Lincoln aproximando-se dele. Os olhos antes inteligentes agora eram inocentes e assustados. Já lhe chamava de Nick há algum bom tempo. — Por que a água da lagoa é tão negra se a água está espelhando o céu e o céu está claro?
Pobre Lincoln. Ele jamais aceitaria as nuances físicas que transcendiam a realidade daquele Vale das Sombras. Elluryiel não existia para ele, nem seu poder de ler mentes, nem o Halloween de Nova Orleans, ou qualquer outra dessas coisas esquisitas. O Vale era apenas uma comunidade de pessoas normais que preferiam se manter isoladas. Como eles.
Ao invés de responder o que não tinha resposta para, deu-lhe um beijo demorado nos lábios. Realmente gostaria de ter um quarto só pra os dois.
— Vamos andar por aí, nos separar — declarou ao grupo. — Eu vou com Lorenzo ao norte do Vale e, Lincoln, você vai com Pan tentar achar a casa onde ele morou com seus pais. Que acham disso?
Amelie pedira as chaves de seu trailer antes de entrarem no hotel. Dissera que alguém voltaria o caminho para buscá-lo para ele, mas não poderiam estacioná-lo em frente ao hotel. O trailer ficaria no início do Vale, na área destinada aos caminhões que transportavam madeira. É que não havia estacionamento ali. Os turistas normalmente vinham em ônibus programados. Ela dissera algo que fez Lincoln tremer acerca disso.
— Não é normal que as pessoas se percam na estrada e acabem aqui. A maioria nem acha a entrada para a Forêt des Ombres.
Não fazia mal. Eles acharam como se estivesse escrito nas estrelas. Podiam estacionar o trailer. Mas, por favor, que trouxessem seu cachorro Charlie e o aquário com as tartarugas.
Isso aconteceu minutos depois. Dois homens trouxeram o aquário, o cachorro e as chaves do carro. Lincoln envolveu a coleira dele em uma das mãos — o clima daqui não é frio demais para um Shih-Tzu? Oh, é mesmo, eles se originaram no Tibete — enquanto Nick alimentava Donatella, Francesca e Nikita.
Ah, o que o dinheiro não fazia. Envolvê-los numa película de invisibilidade e silenciosidade em um vale assombrado. Por que não?
— Fiquem bem — disse aos dois amigos antes de se dispersarem. Beijou Lincoln mais uma vez, enfiando a língua em sua boca. Ele era essencialmente passivo. Deixava que lhe fizesse o que queria. E Nick fazia. Deus do céu, como fazia. Perguntou-se o que Pan achava de ver dois homens se beijando. Não importava. Ele não beijaria ninguém por um tempo. — Não falem com as pessoas a não ser que elas falem com você. Pan, não revele a ninguém que seu sobrenome é Cargill e que você já morou aqui. Vamos nos encontrar aqui em uma hora.
Deixaram a prefeitura e se separaram. Nick e Lorenzo foram para o norte enquanto os outros dois seguiam para o sul, sob os minúsculos pontos de neve que desciam do céu lentos como se não houvesse nada a se esperar. Era maravilhoso olhar para aqueles flocos e ver como eram únicos, apesar de quase invisíveis sobre a imensidão branca do Vale.
— Agora que eles foram embora, posso falar para você quais minhas impressões sobre esse lugar. — Lorenzo não demonstrou reação. Continuava sentado na cadeira de rodas. Mesmo jeito que estava quando entrara. Nick se ajoelhou a sua frente. Os olhos, afundados dentro do crânio, estavam abertos e cabisbaixos.
Levou-o para baixo de uma linda árvore com flores púrpuras, não muito distante da prefeitura. Ao longe, as pessoas dos Vale os viam em segredo e trocavam cochichos franceses. Nick não se preocupou. Sabia que eles não o conheciam. Eles não conheciam ninguém de fora. Eram uma raça diferente.
— Eu imagino esse lugar no Halloween — comentou sentando-se ao lado do irmão. Encostou-se no tronco da árvore, sobre uma camada limpa de solo. A neve estava amontoada nos cantos. — Talvez uma bolha maior que Nova Orleans. Sabe que não tem paredes ou muros aqui? Os pinheiros fazem todo o trabalho. É escuro demais entre eles para qualquer um sair por qualquer caminho que não seja a entrada principal, por isso eles não se preocupam em nos deixar soltos aqui. Câmeras fotográficas são proibidas. E, apesar de tudo, eu sei que eles têm olheiros nos vigiando.
Lorenzo se remexeu um pouco na cadeira. Suas mãos, anêmicas e pálidas, expunham veias azuis de péssimo aspecto. Os lábios tinham perdido a cor rosada e se tornaram secos e rachados. A magreza de seu corpo era aterradora. Lorenzo… Lorenzo não tinha muitos dias de vida.
— O Vale das Sombras não existe — ele sussurrou. A voz, no entanto, continuava rouca e suave. — Não para aqueles que não querem achá-lo. Ele é invisível para os céticos. Lincoln não vê esse lugar com metade da nitidez que você vê. Ele não vê como os flocos de neve são perfeitos e visíveis, apesar de muito pequenos, ou a perfeição com a qual a água da lagoa se mantém lisa e estável, mesmo que alguém jogue um barco de pesca dentro. Para ele, os habitantes são simples pessoas louras de olhos azuis, mas nós sabemos o que eles são. São filhos dela. Elluryiel fundou esse Vale através dos humanos e os humanos daqui são os filhos dela.
Nick segurou suas mãos com cuidado. Esperava passar seu calor para ele. Quem sabe sua vitalidade também.
— Você sabe por que encontrou esse Vale. Foi porque estou morrendo. Você encontrou esse Vale porque queria que eu morresse aqui, porque pensou que aqui era um lugar bonito, e você tinha razão. Aqui é o lugar mais bonito em todo o mundo. Eu ficarei feliz em morrer aqui. E quando isso acontecer, por favor, creme o meu corpo e espalhe as cinzas naquela lagoa. Porque ela fica no centro do Vale. Eu gostaria de ver todas essas pessoas pela eternidade. Do centro.
Ele sentiu um nó na garganta que obrigou-se a engolir e um aperto no peito seguido de alívio, que era pior que qualquer choradeira melodramática. Fechou os olhos para que parassem de arder. Devia ser por causa do frio, tinha que ser. Nick o abraçou com leveza para não machucar seus ossos. Apenas os ossos, porque a carne tinha-se ido. Lorenzo definhava.
— Você ainda vai viver por muito tempo — sussurrou. Mentira, os dois sabiam. Fungou, afastando a tristeza. — Venha, vamos mais para o norte.
Seguiram o percurso da lagoa com lentidão. Era dali que as pessoas tiravam a água. Ferviam-na em seus fogões à lenha para matar os germes e depois bebiam. Um grande poço. Talvez tenha sido assim que Pan soubera, aos dez anos, usar aquele poço de Lionville.
— Como você deve saber — continuou comentando — Ethan tem uma pintura original de Rembrandt pendurada por trás da escrivaninha no Palácio Real Hentz. A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, de 1632. Ele o comprou de um museu holandês no final do ano passado. Eu sempre gostei de olhar para aquele quadro para ver como eram retratadas as pessoas. Todas as pessoas das pinturas de Rembrandt são retratadas como se tivessem luzes acima de suas cabeças. É assim que eu vejo as pessoas desse Vale. Elas são tão etéreas que é como se existissem em duas dimensões ao mesmo tempo. Exatamente como Oliver. Exatamente como ele. E assim o é todo esse Vale. Graças a Deus que Pan não nasceu aqui. Talvez o escorregão que a mãe dele sofreu que o fez nascer na Califórnia tivesse sido obra do destino.
Chegaram às reservas florestais que Amelie citou, dois pedaços da Floresta das Sombras dentro do Vale. Eram grandes círculos de árvores com, talvez, quinhentos metros de comprimento cada. Os pinheiros, diferentes dos de fora do Vale, não tinham neve acumulada em suas folhas, que também eram escuras como lodo. Cada um dos blocos tinha caminhos feitos pelo homem que levavam ao interior. Uma das reservas tinha uma pequena lagoa, mas Nick não se lembrava de qual.
Podia-se pegar três caminhos para ultrapassar as reservas sem necessariamente entrar nelas. Um caminho estreito e escuro que atravessava o espaço entre as duas, um a extrema esquerda e outro a extrema direita.
— Bem, de qualquer forma é entre árvores — disse com algum pesar. — O caminho não deve ser muito longo. Só uns duzentos metros.
O cheiro dos pinheiros estava impregnado no ar. Aquelas árvores pareciam ser mais altas e seus galhos mais afiados. Nick não era especialista no assunto, mas árvores não deveriam perder suas folhas no inverno? Talvez pinheiros e toda aquela espécie de taiga nunca perdessem. Havia espruces dentro da reserva também.
— Deve haver pescadores lá dentro de uma dessas reservas. Eles tiram seu sustento dos peixes. Os comem e vendem o excesso para o exterior. Eu disse exterior? Me referia a outras cidades. Meu Deus, estou ficando igual a eles. Bem, de qualquer forma, deve ter terrivelmente enfadonho. Você consegue imaginar ficar sentado num barco o dia inteiro em silêncio esperando que um peixe morda a isca? Deve ser enlouquecedor.
Lorenzo não disse nada. Ele seria um bom pescador.
Quando Nick viu a saída de um dos caminhos da reserva da esquerda, calculou ter atingido a metade do caminho. A saída era um pequeno portal ao fundo como a luz no fim de um túnel. As árvores haviam se entrelaçado no ar, seus galhos grossos fortes como troncos cheios de folhas escuras. Impossível saber se era dia ou noite dali. Um tanto agradável, no entanto.
— Mas eu prefiro Nova Orleans.
O sol bateu em seu rosto ao voltarem ao ar livre. Céu azul e neve branca. Tudo branco demais. Parecia a maldita Escandinávia.
O que via era uma grande linha de casarões em estilo chalé. Aqueles tinham até três andares, janelas de vidro, e não de madeira, chaminés de tijolos e varandas em tons escuros com móveis elegantes. Luzes douradas dentro e fora devido aos pisca-piscas e enfeites de Natal vermelhos. Havia uma estátua eletrônica do Papai Noel no jardim de um daqueles chalés. Oh, sim, uma vila de Natal rica e separada da plebe por uma grossa barreira natural de pinheiros e espruces.
A árvore de Natal estava montado no centro do norte do Vale. Um gigantesco pinheiro de cinco ou seis metros de altura coberto de neve e bolas brilhantes, tão brilhantes que espelhavam os rostos humanos como se houvessem prendido suas almas. Pisca-piscas dourados de novo e uma estrela de metal no topo, gigantesca e prateada. Ardia um brilho branco.
— O capitalismo está presente até em comunidades igualitárias — comentou espirituosamente. — Os Hentz deviam ter um chalé por aqui, não acha, Lore? Seria um bom refúgio. Mas talvez o de Aspen seja mais que o suficiente, embora por algum tempo eu sequer soubesse que ele existia.
Onde estava o chalé dos Castanelli? Precisaria perguntar a um dos moradores, mas talvez eles nem falassem inglês ou podiam se sentir ofendidos se ele perguntasse. Não tinha muita certeza do que fazer. Ethan saberia. Será que ele ainda estava vivo?
Olhou mais uma vez a longa linha dos lindo chalés. Nunca parava de nevar naquele Vale, nem mesmo no verão. Nick tinha plena certeza disso. No verão, a estrada para a Floresta das Sombras sumia e as pessoas passavam seus carros direto. Nenhuma parada no acostamento para aliviar as bexigas no matos da floresta, não, com certeza não. Será que a neve sumia? Talvez. A estrada podia voltar quando o prefeito saísse para fazer as comprar semanais, mas sumia na hora em que ele voltasse ao Vale.
Havia apenas um chalé não enfeitado. Suas luzes estavam apagadas, talvez uma janela quebrada. A cerca de madeira da frente estava levemente apodrecida e a neve suja, quase escura, como neve de beira de estrada.
— É ali — disse imediatamente. Não precisava de confirmação. Foi ali onde um dia morou uma alma que se perdeu na Floresta das Sombras por um mês e voltou vivo e mudado.
O chalé era o último do lado direito. Mais ao longe, a uns cinquenta metros de distância, o campo de árvores frutíferas parecia estar no pleno vigor do outono. Via-se árvores de morangos, laranjas, mangas, peras, maçãs, framboesas e arbustos onde cresciam melancias e mirtilos. Talvez um agrônomo fosse enlouquecer ao ver tantas frutas diferentes juntas num local onde caía neve que não acumulava no chão, mas não havia nenhum agrônomo ali. O solo jamais iria empobrecer.
A casa olhava-o ameaçadoramente. Um dos vidros do primeiro andar estava de fato rachado. Provavelmente uma pedrada de alguma criança sem más intenções. A madeira das colunas da frente que sustentavam a varanda parecia seriamente danificada pelo tempo e quem sabe pelo clima. Talvez o Vale não houvesse gostado de seus moradores terem espontaneamente ido embora. Eles eram um clã único e puro, e deviam permanecer juntos. Aqueles três foram embora e veja o que houve. Oliver e seu pai mortos, o tio-avô na prisão e a mãe louca.
Um homem jovem passava por ali. Carregava uma cesta de frutas em cada mão, dirigindo-se ao oeste.
— Com licença. — Sentia-se confiante o suficiente para se aproximar e falar. — Fala inglês? — Ele assentiu, graças a Deus. — Importa-se de me dizer por que essa casa está vazia?
Ele olhou para Nick, depois para a casa, sorriu e pôs as cestas no chão.
— Pode dizer que conhece a história, todo mundo conhece.
— Oh, fala… fala da história do menino que se perdeu na floresta e sobreviveu? Sempre pensei que fosse puro mito.
— Não é mito. Aconteceu em 2002. Eu tinha doze anos naquela época, mas me lembro dele. Oliver Castanelli. Sua família viveu no Vale por gerações, dizem que desde que ele foi fundado. Foram alguns dos primeiros moradores que não descendiam de Pierre e Sophie Fournier. Construíram esse chalé para si e mais alguns dos outros, mas hoje em dia ninguém sabe quais. Foram eles que fundaram a prefeitura ao lado dos Fournier. O primeiro prefeito que não era Fournier foi um Castanelli. O atual é Fournier, é claro. Os Castanelli todos se mudaram e não pertencem mais ao Vale.
Todos bruxos, pensou Nicholas assombrado. Bruxos, feiticeiros. Todos podiam ver fantasmas, ler pensamentos e levitar coisas. Por isso se tornaram tão influentes. Por isso o Vale se tornou tão rico. Eles trouxeram essa riqueza com seus poderes para que os humanos normais a administrassem.
— E quanto a Oliver? — indagou. — O que houve com ele?
— Ele tinha sete anos, se não me engano. Estava brincando no quintal de casa e entrou na floresta sozinho, mas não soube voltar. Todos entraram lá para procurá-lo, e isso não é algo que se costume fazer. Muitas pessoas também ficaram perdidas, mas todas encontraram o caminho de volta. Menos ele. Um mês se passou e pensamos que ele havia morrido. É, eu lembro de ajudar meu pai, que é madeireiro, com as finanças do Vale e ouvi-lo comentar isso com minha mãe. Mas então um dos ônibus de turistas que às vezes recebemos chegou com a notícia de que haviam achado uma criança deitada na beira da estrada, no meio na floresta. Acabou sendo ele. Houve um rebuliço enorme por aqui. Quase todos os habitantes foram à entrada para vê-lo, mas seus pais o levaram de volta para casa e só o vimos de novo quando eles anunciaram que estavam indo embora. Era uma criança estranha, Oliver. Meu irmão menor tinha a idade dele e eles costumavam ir à escola juntos, mas ele sempre mencionava quão esquisito ele era.
Seu irmão foi um dos garotos que o atormentou chamando-o de Caçador de Sonhos. Foi um dos que pôs Pan no ostracismo por ele ter cabelo e pele diferentes dos demais. Um verdadeiro habitante do Vale das Sombras. Você deve ter orgulho dele.
— Muito obrigado pelas informações. — Sorriu meigo. Gostava de fazer aquilo e anotar mentalmente as reações das pessoas. Elas podiam se apaixonar ou não fazer absolutamente nada. — Desculpe incomodá-lo.
Era melhor que ele se afastasse ou começaria a fazer perguntas sobre ele. Seu nome, de onde vinha, o que havia de errado com o pequenino na cadeira de rodas. Nick nem mesmo inventara uma doença.
— Gostaria de ter uma bactéria devoradora de carne? — perguntou sutilmente a Lorenzo. — Ou você pode ter alguns órgãos a menos porque teve falência geral de órgãos durante uma cirurgia. Ou você foi parte de uma experiência experimental, com o perdão da redundância, com uma versão desativada do vírus da AIDS, mas ele se ativou e te contaminou. Desculpe, acho que ando vendo programas médicos demais.
— Muito bem. Duas coisas que não posso fazer. Andar e ver.
Pelo menos ele estava falando. Isso que era importante.
Do outro lado do Vale, em meio a tantos franceses ou franco-canadenses falando aquele idioma estúpido e cheio de flexões verbais, Lincoln Spring e Pamius Cargill observavam um pequeno chalé. Em relação aos outros, era menor. Uma das janelas de madeira estava quebrada e a outra com bastante desgaste. Uma tempestade a arrancaria. A chaminé foi demolida com o tempo, restando apenas um toco de pedra que surgia do telhado pateticamente.
Pan subiu nos degraus da casa. O rangido era irritante assim como o idioma francês. Ele passou seus longos dedos pelo corrimão da escada.
— Uma vez eu tropecei no degrau e bati a cabeça aqui.
Lincoln acreditava nele. Pan realmente parecia o tipo de pessoa que batera a cabeça quando criança.
Havia uma coisa estranha que não queria contar a ninguém, absolutamente ninguém: apesar de a maioria das pessoas pobres só falarem francês e não entenderem uma palavra de inglês, quando Lincoln ocasionalmente ouvia seus pensamentos, ele os entendia. As pessoas sempre pensam em suas línguas maternas, mas os pensamentos daquelas traduziam-se instantaneamente, como se fossem uma língua única e mundial.
Não era bom. A última coisa que Lincoln queria era ouvir aqueles colonialistas reclamando de o gramado do vizinho ser mais verde. Metaforicamente falando.
E havia outra coisa ainda mais estranha: Charlie estava ligeiramente alucinado desde que entrara no Vale. Dizia-se que cães conseguiam ver coisas que humanos não conseguiam.
Entraram na casa. A porta da frente rangeu e resmungou ao ser aberta. O que uma vez devia ter sido um belo piso de madeira estava com uma cobertura de dois centímetros de poeira. Teias de aranha infestavam os cantos do teto e o interior dos abajures e lâmpadas.
A casa estava mais ou menos como, há muitos anos, Étienne Cargill e Gabrielle Gauthier deviam tê-la deixado. Móveis velhos, de segunda ou terceira mão. Um buraco gigante em um dos assentos do sofá de tecido verde. Uma bela pintura pendurada na parede, cuja moldura já apodrecia. Diabos, aquela fruteira em cima da mesa nem parecia ter sido tocada em todos esses anos, embora tivesse cara de ter visto toda a Era Cristã!
— Eu não entendo — disse Lincoln. — Essa casa parece ter sido abandonada há décadas. Mas faz apenas uns doze anos.
Charlie latiu. Pan olhou para ele. Seus olhos estavam como nunca estiveram antes. Úmidos, mas não era vontade de chorar. Os lábios grossos estavam crispados de um modo que fez Lincoln querer beijá-lo. Se ele fosse um menino de dezenove anos de verdade, é o que provavelmente já teria feito há muito, muito tempo.
— As coisas no Vale das Sombras apodrecem rápido quando não há ninguém para cuidar delas. Sem presença humana aqui, o Vale definha. Quando pessoas saem do Vale, elas definham. Quando a Terra for um local inóspito e toda a comida e toda a água se tiver ido, o povo do Vale das Sombras será o último a cair de joelhos. E, quando isso acontecer, pode-se considerar a humanidade extinta.
Ele fazia aquilo às vezes. Bancava Shakespeare. Uma pena que não fosse britânico, seria mais agradável de se ouvir.
Pan entrou ainda mais naquela casa imunda. Lincoln já vira o suficiente. Voltou ao exterior com Charlie para inspirar o ar puro que o clima polar proporcionava, mas o que aconteceu foi que inspirou uma boa quantidade de fumaça de cigarro. Tossiu. Uma velha enfiada em roupas largas de tecido grosseiro olhava fixamente para ele. Tinha o cabelo grisalho amarrotado e muito sujo e os olhos eram azuis como o céu. Fumava um cigarro de palha caseiro. Parecia uma bruxa da Disney.
— O menino que entrou na casa. — E não é que tinha a voz mais horrível que Lincoln já ouvira na vida? — O mais alto, de cabelos negros e olhos bondosos. Qual o nome dele?
Ele levou dois segundos para lembrar-se do nome fictício de Pan.
— Pamius Botwin.
Ela ficou escandalizada. Lincoln constatou tarde demais que não ter mudado o excêntrico primeiro nome de Pan foi o maior erro que poderiam cometer. Em comunidades pequenas, todos se conheciam pelo primeiro nome e não havia mais ninguém no mundo que se chamasse Pamius.
— C'est pas Botwin, Cargill... Il s'appelle Cargill!
Oh não, pensou horrorizado. Cargill. Ela o descobrira. Deveria tê-lo conhecido quando criança, impossível ele se tornar irreconhecível em meio a tantas peles claras como leite. Deviam tê-lo obrigado a cortar e pintar o cabelo, mas Pan sempre chiava como um gato quando alguém sugeria isso.
Ele surgiu do interior da casa com teias de aranha no cabelo. Arrancava-as com alguma dificuldade quando seus olhos pousaram naquela velha sinistra e se arregalaram.
— Mademoiselle Claudette!
A próxima coisa que Lincoln viu foi um rapaz de dezenove anos e um metro e oitenta de altura se jogar nas saias de uma velha de sua altura como um menininho que houvesse voltado para cara após uma longa viagem. Não deixava de ser adorável. Ela segurou seu rosto com as mãos nodosas e manchadas de fumo. Unhas e dentes amarelados, veias azuis saltando da pele das mãos. Velha.
— Qu'est-ce que a passé avec Étienne? — ela perguntou. A voz era uma lixa. Cada palavra era uma lixada. Charlie latiu de novo.
— Il est mort. — Pan fungou, olhou para baixo, depois para cima. Estava de joelhos a frente dela. — Je peux seulement dire qu'il est mort.
Que fluência perfeita, tão natural. Lincoln ousava dizer que ele não tinha nenhum sotaque. Era francês tanto quanto era californiano. Um canadense nato. Um habitante do Vale das Sombras.
— Pan, temos que voltar ao hotel — sussurrou casualmente. — Ray e Chris estão a nossa espera. — Com muita sorte, talvez a velha, Mademoiselle Claudette, fosse ignorar a troca de sobrenomes. Ele se levantou e deu-lhe um abraço digno. Ela batia em seu peito, no máximo.
— Je rétournerai — Lincoln ouviu aquilo ecoando na mente de Pan, traduzindo-se instantaneamente. Eu voltarei. Odiou aquilo.
Puxou-o pela mão para longe dali. Em direção à lagoa, um pequeno prédio de madeira em formato de chalé com um brasão na frente. A prefeitura. Onde eles dormiam no segundo andar de maneira quase ilegal.
— Você a conhece? — indagou ao se afastarem.
— Mademoiselle Claudette costumava cuidar de mim quando minha mãe ia trabalhar no restaurante e meu pai na madeireira. Isso era todos os dias. Eu ficava na casa dela. Ela costumava ter um monte de gatos e fumar aqueles cigarros horríveis. Eu adorava. Ela me consolou quando minha mãe morreu e foi a última a se despedir de mim quando meu pai decidiu que devíamos ir embora. E estava comigo quando Ollie foi embora também. Ela não tem filhos.
Lincoln podia imaginar que uma mulher idosa sem filhos não tinha muito valor numa colônia conservadora como o Vale das Sombras. E ela não tinha dinheiro. Mas talvez… Não, isso seria com Nicholas, não com ele.
Charlie latiu uma terceira vez.
Para eles não faltava menos de meia hora para voltarem à prefeitura. Nicholas e Lorenzo foram, como prometido, às lojas de souvenires gastar seus preciosos trocados em bugigangas que não usariam nunca. Nick não entendia por quê. Não é como se quisesse se lembrar do Vale das Sombras.
Estavam perto do canto inferior esquerdo, aquele onde eles criavam galinhas, vacas e porcos. Os animais pastavam e chafurdavam à vontade sem preocupações no mundo, pois embora alguns deles estivessem para ser abatidos para estrearem nas ceias de natal das famílias ricas, aquela que regia aquele mundo pequeno e mágico tornava suas curtas vidas maravilhosas enquanto durassem.
Talvez por isso ela se esquecesse das almas que iam embora.
Posicionara a cadeira de Lorenzo de forma que o vento batesse em seu rosto. Facilitava sua respiração já difícil. Nick suspeitava que só um de seus pulmões funcionava, mas uma coisa engraçada acontecera. Acreditava que um derrame pequeno havia paralisado o lado esquerdo de seu rosto há alguns dias, mas desde que pisaram no solo sagrado do Vale das Sombras esse lado havia recuperado tais movimentos, mesmo que Lorenzo não os usasse com frequência. Ele não se importava com o frio tampouco.
Seu cabelo preto como petróleo estava cinza-escuro. A pele estava cinza-clara. Às vezes levava tanto tempo piscando que Nick imaginava que caíra no sono, e isso também acontecia com frequência. Ultimamente vinha alimentando-o com uma vitamina de líquidos que levava desde mamão e laranja até ovos crus. Os ovos davam-lhe proteína, mas precisava-se ter cuidado com a salmonela. Era sempre um dilema para Nick se devia adicionar os ovos ou não.
Depois de batida no liquidificador, a vitamina ficava repulsiva, mas Lorenzo bebia-a sem reclamar. Ele beberia qualquer coisa que Nick encostasse em seus lábios. Mas apenas Nick. Ele não deixava que nenhum dos outros dois encostassem o dedo nele.
— Procura por algo em específico? — perguntou a dona da loja em que se encontrava. Uma mulher muito baixa, mais que ele, e velha, embora seus cabelos continuassem louros.
— Apenas fazendo o suficiente para agradar os guias.
Havia totens de madeira, pequenos chalés presos a chaveiros, assustadores bonecos de madeira, máscaras de nariz pontudo e lembrancinhas com o nome Vallée des Ombres escrito à mão. Por que a impressão de que com o passar dos meses a tinta desapareceria, obliterando assim as memórias do turista? Isso aconteceria com ele? Não podia esquecer aquilo. As cinzas de Lorenzo seriam jogadas ali.
— A Luz o segue.
Virou-se horrorizado. Ela o olhava fixamente com um olhar sinistro. Uma bruxa.
— Não sei do que está falando.
Iria embora nesse momento se não fosse por algo que viu por trás da mulher. Penduradas na parede havia pequenas pinturas rústicas à venda. Uma delas mostrava uma figura branca luminosa numa clareira azul. Nick se aproximou do quadro. A figura estava entre destroços do que parecia ser uma cabana. Feminina. A figura branca era feminina.
Olhou para a mulher, decidido.
— O que o quadro retrata?
A velha examinou-o por dois segundos antes de responder.
— Ela tem muitos nomes. A deusa da Luz. O espírito da floresta. A dama brilhante. Mas comumente a chamamos de a mulher branca. Conta-se histórias de aparições dela desde que o Vale foi fundado, mas ela já existia muito antes, quando esse lugar era habitado por índios. Eles a cultuavam e erguiam totens para ela, implorando por paz e prosperidade. E por milênios ela concedeu. Mas um dia o homem branco chegou e os dizimou. Conta-se que ela é a união da Lua, por sua cor, e do Sol, por seu brilho. Conta-se que ela é a representação das árvores e das águas, ou mesmo da neve.
“Também conta-se que ela tinha o costume de atrair os homens dos povoados que viviam na região para seu covil, mas descrições desse covil sempre mudam. Alguns diziam que era uma árvore gigantesca, outros uma caverna, outros uma cabana. Dizia-se que a mulher branca tinha obsessão por engravidar, então atraía os homens e fazia o que você já deve imaginar. Eles podiam ficar por dias, semanas ou meses com ela. Não se sabe se ela algum dia conseguiu engravidar ou não.”
Nick a seguiu para dentro da casa. Pendurado numa parede, um longuíssimo e antiquíssimo tapete com desenhos indígenas. Uma mulher de cabeça quadrada, tronco longo e pernas curtas. Todas as suas roupas eram azuis. Em outra parede, havia escudos com basicamente a mesma coisa desenhada. Uma mulher branca e azul. Ela lhe mostrou uma máscara com cabelos brancos artificiais. E um totem de quase dois metros de altura com uma figura feminina esculpida em seu centro. Ao seu redor, dezenas de pessoas se curvavam. Tudo aquilo parecia ser muito antigo.
— São os artefatos que eu consegui reunir ao longo dos anos. Vierem dos antigos povos indígenas que habitavam essa região, mas foram segregados nos dias de hoje. Existem poucas obras representando a mulher branca. Tudo se perdeu com o passar dos anos. Dizia-se que ela conseguia cuidar daqueles que guardassem uma representação de si em suas casas, por isso que quando o europeu invadiu essas terras ele as destruiu. Não sobrou muito. Não saí desse Vale muitas vezes na vida, mas quando saí foi para procurar sobre ela.
— A senhora acredita nisso? Na mulher branca?
— Tornou-se folclore com o passar dos séculos, muitos dos próprios habitantes do Vale das Sombras não acreditam mais. Acreditam ser apenas histórias de ninar. Inclusive derrubaram a penúltima árvore com uma imagem da mulher branca esculpida quando o Vale foi fundado. Nunca encontraram a última. E, mesmo assim, eles não acreditam mais. Mas eu… eu já a vi. Quando era uma menina. Perdi-me na Floresta das Sombras por algumas horas. Não lembro por que cheguei a entrar lá. Tinha seis anos. Estava muito frio, foi numa noite rigorosa de inverno. Nevava tanto que meus pés afundavam até os tornozelos no chão. Após horas andando, cheguei a uma clareira e caí aos pés de uma árvore, mas não uma árvore qualquer. A maior árvore que eu já vira na vida, cinquenta vezes maior que a maior árvore da Floresta das Sombras. Preparei-me para morrer.
“Mas então eu ouvi uma música, a mais bela música que já foi criada. Abri os olhos, pois novas forças me foram concedidas, olhei para a árvore e vi um rosto feminino esculpido. Era a lendária última árvore-totem. A que nunca conseguiram encontrar. Eu sabia que, mesmo que derrubassem toda a Floresta das Sombras, aqueles que a procuravam com má intenção nunca a encontrariam.
“Aqueles olhos cegos de madeira brilhavam uma luz branca. Eles se tornaram então um rosto físico, e eu pude vê-la. Uma linda mulher com pele e cabelos da cor da neve. E aquela luz esbranquiçada emanava de seus olhos como se ela a produzisse. Senti seu calor ardente, de suas mãos e de seu coração. Perguntei-lhe se estava para morrer. Ela respondeu que não, pois ainda não era minha hora, ergueu uma das mãos e a pousou sobre meu peito. Eu usava tantas roupas de frio, mesmo naquele momento foi como se estivesse nua. A mão estava tão quente. Ela me concedeu o dom, pois naquele momento toda a luz que eu via branca tornou-se azul.
“Acordei em casa, na minha cama, no dia seguinte. Ninguém nunca soube que eu saí para a floresta. E então eu percebi que branca era a luz que ela permitia que os homens vissem porque é assim que a luz material é. Mas há outro tipo de luz, uma Luz azul, invisível e poderosa, que poucos podem ver. Uma Luz que controla a tudo e a todos e não é controlada por ninguém. Ela me deu o dom de vê-la. E eu posso vê-la ao seu redor.”
Nicholas tinha em mãos uma lasca de madeira com inscrições indecifráveis. Desenhos rústicos. Um pedaço da árvore-totem que foi derrubada, ele sabia disso sem saber como. E também sabia o que estava escrito.
— Elluryiel — sussurrou. Olhou para a velha. — O nome dela é Elluryiel.
O Sr. Pierre Fournier IV, o quarto Pierre Fournier desde o fundador do Vale das Sombras, era o prefeito da colônia francesa dentro da própria, mas do lado de fora não era nada além do representante de uma vila que a muito custo não era reconhecida como cidade. O título viria com mais despesas e obrigações, e Pierre Fournier era inteligente o suficiente para saber que despesas e obrigações para com cidades vizinhas eram a última coisa que os habitantes do Vale queriam.
Era um homem com as características típicas. Loiro de olhos azuis. Tinha cinquenta e oito anos e assumira o posto de Prefeito do Vale das Sombras com vinte e nove. Dentre puxar o saco de seus primos distantes donos da maior parte da força de trabalho madeireira e dos caminhões usados para levar a mercadoria para fora, não havia muito o que fazer. Seu pai — que não vinha a ser Pierre Fournier III, este fora seu avô — lhe ensinara certas coisas, e a mais valiosa fora não irrite os ricos do Vale das Sombras.
É claro que, teoricamente, a riqueza pertencia a todos. Pierre Fournier nunca deixava alguém passar fome ou congelar até a morte por não conseguir comprar lenha para a lareira. A cozinha comunitária foi uma criação sua. As contas de luz eram pagas sempre em dia e quando um eletrodoméstico quebrava, ele saía e comprava outro, ou chamava alguém para consertar, dependendo da gravidade.
O Vale das Sombras tinha um acordo com um aterro sanitário local para ter um destino para seu lixo. Vinha funcionando bem com o passar dos anos. Praticamente todo o encanamento dos muitos banheiros comunitários fora trocado ainda na década passada. E ao contrário do que pode-se parecer, estes estavam sempre limpos.
Pierre Fournier morava no norte do Vale, no maior e mais antigo chalé ainda em atividade, construído por seu antepassado, Pierre Fournier I, o lendário fundador do Vale das Sombras. Uma lenda do folclore local dizia que ninguém sabia onde o primeiro Pierre estava enterrado ou como e onde morrera. A lenda era verdadeira. Mais ou menos. Não é porque o quarto Pierre não sabia onde era sua cova na Floresta das Sombras que ela era desconhecida. Estava na Floresta das Sombras. Seu pai devia ter sabido, mas ele morrera delirando de febre tifoide em cima de uma cama.
Foi numa disputa com os Castanelli do século XIX. Houvera um tiroteio entre os chefes dos clãs na reserva florestal da esquerda após um desentendimento. Algo em relação ao chefe de um ter dormido com a esposa do outro, mas os detalhes lhe eram desconhecidos. Havia poder envolvido também. As duas famílias vinham disputando a prefeitura e a tesouraria do Vale das Sombras há décadas. Fazendeiros coronelistas. O resultado não podia ser diferente.
De fato, quando Pierre Fournier IV começou a promover as reformas populistas na década de 90, o único homem capaz de tirar-lhe do poder vinha a ser Antoine Lestant Castanelli. Isso quase aconteceu. Mas num belo dia seu filho perdeu-se na Floresta das Sombras e voltou vinte e oito dias depois como se nada tivesse acontecido. E quando essa história acidentalmente vazou e a pacificidade do Vale começou a ser atormentada, os Castanelli não tiveram escolha a não ser se mudar.
Foram bons tempos desde então.
Pierre Fournier estava na cidade de Kamloops, num supermercado local, fazendo as últimas compras para os jantares de Natal das famílias menores. O que ele via apenas como acompanhamento era, muitas vezes, o que a maioria das famílias empobrecidas tinha para comer. Nenhuma delas morreria de fome. Estava tudo bem. Às vezes, quando ficava sozinho por muito tempo longe do Vale das Sombras, começava a pensar de forma diferente. Qual era a expressão usada para isso? Pensar fora da caixa.
A fila estava demorando. Muitas pessoas só compravam presentes para amigos e família agora, no dia 24 de dezembro. Para se distrair, olhou para a televisão. Não havia televisões dentro do Vale das Sombras, de modo que Pierre não estava acostumado a resistir à hipnose mental que as imagens animadas produziam. Sim, nenhuma televisão, a não ser aquelas portáteis e modernas que os turistas traziam e vez ou outra esqueciam em seus quartos nas pousadas. Era obrigatório reportar a presença de qualquer aparelho eletrônico à prefeitura. Um dos maiores orgulhos de Pierre Fournier era que em nenhum momento em seus sucessivos mandatos de dois anos como prefeito ele precisou usar de força policial.
A televisão mostrava o retrato de um adolescente de cabelos loiros e compridos e olhos da cor das amoras-pretas. Uma beleza extraordinária. Seu rosto era liso e púbere, de uma aparência delicadamente andrógina e jovem demais para a citada idade, dezesseis anos. Nicholas Hentz. Um nome que ele já tinha ouvido antes. Estava desaparecido há quatro meses. Ora, Pierre esperava que não tivesse sido sequestrado. Todos sabem como adolescentes podem ser rebeldes e teimosos. Os do Vale das Sombras manifestam desejo de deixar o Vale e ver o mundo até mais ou menos os dezoito anos, quando finalmente aquietam-se e tornam-se lenhadores.
Outro menino na tela da televisão. Um ainda mais jovem, de aparência sinistramente pálida e cabelos muito escuros. Os olhos eram curiosamente cinzentos e havia alguma coisa estranha com eles, como se lhes faltassem algo. A repórter mencionou ele ser cego e estar desaparecido. Ah, era isso. Espere, desaparecido, também? E… o menino loiro o havia sequestrado? E eles eram californianos? E irmãos? E tinham outro irmão mais velho que também havia sido sequestrado? Mas que loucura.
Que todas as graças estivessem com aquela louca família Hentz.
Alguma coisa impedia-o de desviar os olhos da televisão fixada no alto. Quase perdeu seu lugar na fila. O que enchia sua cabeça? Pense fora da caixa, Pierre. Que pensamento era aquele? Que suposição? Uma suspeita, sim, era isso. Coisas como aquela aconteciam após muito tempo fora do Vale das Sombras, sim, senhor. Sua mente ficava mais clara e você pensava melhor. Você pensava fora da caixa.
O Sr. Pierre Fournier IV reconheceu Nicholas Hentz mais ou menos no momento em que deixou o supermercado com dois carrinhos cheios de mantimentos. Seria possível? O mesmo rapaz rico que dormia no primeiro andar de sua prefeitura, no quarto reservado a outros políticos locais? O noticiário mencionara o fato de sua família ser antiga e muito rica.
Ele colocava suas compras no cargueiro da caminhonete ainda imerso em pensamentos. Se ele o denunciasse e o rapaz de fato fosse Nicholas Hentz, o Vale das Sombras encher-se-ia de repórteres e policiais enxeridos. Se ele o denunciasse e o rapaz de fato não fosse Nicholas Hentz, o Vale das Sombras encher-se-ia de repórteres e policiais enxeridos do mesmo jeito. O que fazer? Será mesmo que sequestrara seu irmão? Aquela coisinha minúscula e cadeirante? Pierre ficara embaraçado demais para perguntar o que o menino tinha, mas o noticiário respondera. Um agressivo câncer terminal.
E o que dizer dos outros dois meninos, o mais alto que lhe era estranhamente familiar e o menor, também loiro?
— Com licença, senhor — disse em inglês uma mulher por trás de Pierre. Ele virou-se para olhá-la. Tinha olhos azuis e cabelo muito negro e um rosto aristocrático e manchado de lágrimas. — O senhor viu esses meninos?
Ela segurava uma foto impressa dos dois meninos que ele acabara de ver na televisão.
— Os do noticiário? — ele indagou. Sua garganta fechou-se por um momento. Engoliu um desagradável nó.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Sim, meu nome é Liane Chamrey. Sou uma amiga da família Hentz. Venho procurando-os há quatro meses e tomei conhecimento de pistas que levam o paradeiro dos dois a Kamloops, mas se perdem aí. Achei que eles pudessem estar em supermercados porque, afinal, precisam de suprimentos. Dirigem um trailer.
Aqueles garotos haviam chegado ao Vale das Sombras em um trailer.
— O que aconteceria se eu tivesse visto? — perguntou cuidadosamente. — Eles não estão sendo procurados pela polícia, ou algo assim?
— É bem mais complicado que isso. — Ela parecia sincera. Limpou os olhos cheios de rímel preto com um lenço caro. — Eu só quero levá-los de volta para casa, na Califórnia. É claro que também ofereço uma enorme recompensa a quem achá-lo.
Ela o pegou na palavra recompensa, e percebeu isso.
— Seria tudo muito discreto, também — acrescentou com sutileza. — Sem envolvimento policial. Apenas eu e meu pessoal.
Havia outros homens de terno e óculos escuros interrogando diferentes pessoas no estacionamento do supermercado com a mesma foto nas mãos. Pierre notou isso. Seu coração estava dividido, mas pendia para o lado…
— A recompensa é de cento e cinquenta mil dólares.
… dela. E que Deus o perdoasse se estivesse mentindo.
Um grande livro de capa de couro escuro e folhas amareladas atraía todas as atenções do ambiente. Nick estava de volta à prefeitura, em uma das salas laterais direcionadas para turistas, em frente a um pedestal, fitando o livro. Um pouco menor que o Livro Hentz e muito menos impressionante.
Procurou os sobrenomes começando com C até achar a família Castanelli. Os Castanelli estavam ali desde 1822, mas o livro só cobria quatro gerações. O mais antigo era um homem chamado Olivier Castanelli, nascido em 1899 e falecido em 1955. Bisavô de Oliver. Olivier casou-se com Carmelita Lee, nascida em 1914 e falecida em 1985, e teve, respectivamente, em 1926 e em 1945, dois meninos, Percival e Adrien Castanelli. Percival morreu em 1982, mas antes casou-se com uma mulher chamada Isabel Lestant, nascida em 1936 e falecida em 2008, um ano antes da morte de seu neto. Percival e Isabel tiveram Antoine em 1958, que casou-se com Annice Roth, de 1967, e tiveram Oliver em 1995. Oliver morreu em 2009. Antoine se suicidou em 2010. Annice estava viva e louca. Todos do Vale das Sombras. Aquela família era, em termos gerais, ainda mais amaldiçoada que os Hentz.
A ascendência bruxa de Oliver podia vir de qualquer um deles. Como cada um dos elementos tinha uma pequena história, Nick suspeitava que vinha diretamente de Olivier. Carmelita vinha a ser uma religiosa fervorosa. Não seria incomum que suprimisse as habilidades ancestrais de seu marido, filhos e neto. Talvez os Castanelli devessem ter ficado no Vale das Sombras. Podia-se ver que o tio-avô de Oliver, Adrien, tinha deixado o Vale ainda na juventude, mudando-se para a Califórnia. Piazzavuota, Northeria. Onde, mais tarde, acabou por reencontrar seu sobrinho-neto.
Nick fechou o livro e voltou ao hall da prefeitura. Estava para subir as grossas escadas de madeira de volta ao primeiro andar quando uma voz conhecida o chamou. O Prefeito do Vale das Sombras.
— O que está achando do Vale? — ele perguntou em inglês. Tinha pouco sotaque, e o que Nick ouvia era diferente de todos os outros. Diferente até do inglês canadense. O Vale tinha um inglês próprio, quase mesclado ao francês.
Sorriu graciosamente e empunhou o sotaque britânico.
— Ótimo, para falar a verdade. Nunca conheci um lugar assim. É uma gentileza do senhor deixar que eu e meus parentes fiquemos aqui. — Pelo bem da educação, podia-se ignorar o montante de quatrocentos dólares por dia que estava pagando.
Ele assentiu sorrindo também. Algo em Pierre Fournier IV lembrava-o Redford Bellafonte.
— Perdoe-me, mas qual disse que era seu nome mesmo?
— Raymond Fawlan.
— Ah, sim… Sr. Fawlan. Lembro-o que também estão convidados a cearem conosco em nossa casa no norte. É a de número 1, perto da margem direita. Podem chegar por volta das dez horas.
— Acho que a vi quando fui ver o norte. Obrigado, Sr. Fournier. Nós iremos, mas creio que não poderemos ficar por muito tempo. Meu irmão tem dormido muito cedo ultimamente.
— Entendo. Desejo minhas melhoras a…
— Christopher. Muito obrigado.
Subiu as escadas de volta ao quarto. O sol já se pusera no horizonte há algum tempo. Parara de nevar. As pessoas entraram em suas casas, acenderam suas lareiras e começavam a entoar cantigas de Natal.
O quarto estava decorado. Em cima da enorme lareira acesa, havia quatro meias vermelhas e brancas por baixo de guirlandas vermelhas e douradas. A árvore de Natal era pequena, mas bem-decorada. Estava bastante quente e aconchegante e eles tinham belos aperitivos em cima da mesa. Seguros e satisfeitos. Há quanto tempo não se sentiam assim?
— Não comam demais — avisou a Lincoln e Pan. — O prefeito convidou-nos para a ceia, e apesar de eu não achar boa ideia, seremos obrigados a ir para fingir que somos pessoas normais, e não procurados pelo FBI.
— Fale baixo — ralhou Lincoln, que estava sentado na enorme e confortável poltrona. — Você não sabe se eles escutam.
— Você acha que há microfones aqui? Essa gente mal deve saber que a penicilina já foi descoberta. Eles pararam no tempo. Vivem no século XIX, como um dia viveram seus antepassados.
— Bem, você vivia numa riqueza do século XIX. Como um dia viveram seus antepassados.
Nick fitou-o penetrantemente. Talvez os Hentz tivessem um fraco por olhos verdes. Gostaria de beijá-lo e depois de fazer mais, mas não tinham como. Por isso, ao invés de pensar em seu lindo corpo nu, começou a imaginar como eles faziam para mesclar o século XIX a banheiros modernos.
— Há uma coisa que eu preciso dizer — ele sussurrou-lhe. — Quando fui com Pan ver a antiga casa dele, uma mulher o reconheceu. Nós deveríamos ter mudado o primeiro nome dele, sabe, junto com o segundo.
Nick arregalou os olhos.
— Oh, Deus, isso é terrível. Eu disse a todo mundo que somos primos. Quando descobrirem que ele na verdade é Pamius Cargill, que como todos sabem não tem primo nenhum, vão descobrir que somos impostores e que escondemos alguma coisa.
— Desculpe.
— Não é culpa sua.
Mas era, sim, simplesmente terrível. Nick olhou pela janela, para aquela pequena comunidade a qual, de alguma forma, nutria uma certa paixão parecida com a que sentira por Nova Orleans. Não havia luzes externas. As pessoas locomoviam-se com destinos específicos carregando lampiões rústicos movidos a azeite. Luzinhas douradas numa imensidão azul-escura.
— Temos que ir embora amanhã de manhã — declarou. De repente, todo o peso da jornada caiu de volta em seu coração. Doeu como o inferno. Virou-se e olhou para os meninos. Viu a mesma dor nos olhos deles. — Não, não, mas que droga. Não vamos embora. Estou cansado de fugir. Lorenzo quer morrer aqui, e ele vai morrer aqui. — Deu um suspiro. — Eis o que vai acontecer. Vamos esperar isso acontecer, vamos cremá-lo e jogar suas cinzas na Lagoa das Sombras.
— Eu ainda estou vivo — Lorenzo sussurrou com seu notável mau-humor. — Não fale de cremar uma pessoa que ainda está viva.
— Então eu vou voltar à Califórnia.
— O quê? — Lincoln e Lorenzo perguntaram em uníssono. Tons e alturas diferentes, mas no fundo a mesma emoção.
— Já é hora de acabar com essa loucura. Eu vou voltar à Califórnia cheio de fúria e acabar com os Lancaster de lá. Eu sei que não faço a menor ideia de como fazer isso, mas no dia 1 de janeiro de 2015 Ethan será dado oficialmente como morto e tenho que impedir que Melchior herde a fortuna e a empresa e a feche. E, depois de tudo ser meu, farei o possível para matar Devon e Melinda Lancaster.
— Você vai estar na prisão — ponderou Lincoln.
— Eu sei, querido, mas eu nunca penso em todos os detalhes do que quero fazer. Eu ainda tenho Lauren Mayfair e Liam Stonem. E não sei exatamente se vou ser condenado pelo sequestro de Lorenzo. Vou, na verdade, ser obrigado a contar a verdade por trás do sequestro de Ethan.
— E se Ethan estiver vivo ele será preso.
— Pelo menos estaremos juntos.
— Não vão estar juntos, seu pateta. Você levou seu irmãozinho com câncer embora por pura possessividade. Ethan assassinou oito pessoas e tentou assassinar uma nona. Ele não vai pegar meses ou anos numa prisão de segurança mínima como você. Ele vai para a segurança máxima. Ele vai pegar prisão perpétua. Isso… se não for para a cadeira elétrica.
— Eu não acho que hoje em dia eles eletrocutem mais ninguém.
— Você quer parar com isso? Você não pode se entregar, droga. Não pode jogar Ethan na cadeia. Ele nunca vai te perdoar. E não pode se jogar na cadeia. Não pode… me abandonar e abandonar Pan.
— Pan pode escolher ficar no Vale das Sombras. E eu prometo que você terá tudo o que precisar para sempre. Meu dinheiro é infinito. Mesmo da prisão, meus advogados continuam sendo meus advogados.
— Nick, isso é uma estupidez. Não vai dar certo. Nada disso vai dar certo. Os Lancaster vão te matar dentro da prisão, e vão matar Ethan também. E a mim. Isso se Melchior não me matar primeiro. É uma péssima ideia.
— É uma péssima ideia — corroborou Lorenzo. Ele estava deitado na cama, coberto pelos lençóis, quase em posição fetal. Sua voz era muito baixa, mas a coisa boa de só falar algumas vezes ao dia era que todo mundo prestava atenção. — E se eu concordo com Lincoln, é porque a coisa é séria. Você não vai fazer nada disso. Se fizer, nunca te perdoarei. Não quero que esses quatro meses tenham sido em vão. Você não pode combater os Lancaster de dentro de uma prisão ou mesmo de dentro de um escritório.
— O que quer que eu faça? — indagou fatigadamente.
— Eu quero que você se deixe ser encontrado por Devon Lancaster e enfie uma faca no coração dele, mesmo que você morra depois. Porque provavelmente vai morrer depois. E Melinda vai matar Ethan. Assim vocês dois vão poder se juntar a mim e toda essa novela vai acabar.
— Você não vai levar Nick e Ethan com você — Lincoln rosnou para Lorenzo. — Morra sozinho. Eles não precisam ir com você.
— Cale a boca. Eu prometo que Nick vai deixar algum dinheiro para você, como sei que você quer. Você só está vivo por causa de nós, ou ainda estaria trabalhando para um traficante. Talvez você devesse estar. Nunca devíamos ter te tirado daquele chiqueiro em Middleland.
— Como você ousa achar que só estou com vocês porque quero que cuidem da minha situação depois de tudo? Acha que após quatro meses eu não mudei? Por que você não morre logo? Por que ainda está vivo?
— Parem com isso!
Não foi Lorenzo quem gritou isso. Ou Lincoln. Nicholas não teria forças para fazê-lo. Foi Pan. Ele havia se levantado da cadeira e agora olhava irritada e magoadamente para os três. Os cabelos da cor do chocolate caíam na frente do rosto. A pele acobreada estava quase laranja. Em seu um metro e oitenta de altura, encontrara força suficiente para gritar com aqueles dois.
— Eu não entendo o que vocês estão falando, mas, por favor, parem. Parem de brigar. Por favor.
Nick se levantou e o abraçou com carinho. Ele o abraçou de volta e por um ínfimo momento, abraçando aquele garoto maior que ele, sentiu-se de novo com Ethan. Não estava mais protegendo três pessoas. Estava sendo protegido. E por um ínfimo momento, foi maravilhoso.
— Obrigado, Pan. — Virou-se aos outros dois. — Não vamos mais falar a respeito disso. Ficaremos aqui até que Lorenzo venha a falecer, e só depois eu decido o que faremos. Não quero mais ouvir vocês discutindo. Lincoln, vá tomar um banho e se preparar para o jantar.
— Eu vou — ele respondeu. — Se você vier comigo.
A casa do prefeito vinha a ser o maior e mais iluminado chalé do Vale das Sombras. Enquanto as casas do sul do Vale eram iluminadas com lampiões e velas, aquela ardia cores douradas e vermelhas obscenamente, ofuscando os outros chalés. Mas tinha-se que admitir que em meio àquela vastidão gelada e silenciosa, as decorações eram adoráveis. Era como entrar na oficina do Papai Noel.
Nick ouvia cantigas de Natal oriundas dos outros chalés. Era isso, aquela era a mais bela noite do ano, a noite de véspera de Natal. Talvez o dia seguinte fosse o segundo dia mais mágico, atrás do Halloween. Por que não seria? Há exatamente um ano, Nicholas Hentz estivera no meio da Champs-Élysées com os dois irmãos conversando com lindas fãs francesas. Naquele tempo, uma tragédia como a que vivenciava parecia impensável. Eles eram imortais e indestrutíveis. Os Lancaster provaram o contrário. Os Hentz eram tão mortais quanto os mortais que dominavam.
Onze e meia da noite. Com Lincoln e Pan por trás e Lorenzo na cadeira de rodas em sua frente, tocou a campainha. A porta foi aberta por uma linda mulher loura que se aproximava da meia-idade, talvez um pouco mais velha que o prefeito. Tinha um lindo sorriso e usava pérolas no pescoço.
— Olá, sejam bem-vindos — disse ela com uma voz polida e agradável. Falava inglês com um leve sotaque francês. — Sou Marguerite Fournier. Primeira-dama do Vale das Sombras.
Nick sabia que aquela mulher se intitularia dessa forma.
— Olá, eu sou Raymond Fawlan. Esse é meu irmão Christopher. E esses são meus primos Cameron e… — Um nome para Pan, ele se esquecera de inventar um nome para Pan! Mas já havia mencionado o nome dele a tantas pessoas que o prefeito provavelmente já tinha ouvido. Mudar de repente seria receita para desastre. — Pan.
Marguerite Fournier convidou-os para entrar e pegou seus casacos. Lorenzo ficou com o dele, tanto porque sentia frio o tempo todo quanto porque seria uma chateação inominável tirar-lhe as roupas de frio.
A casa era linda. Um chalé moderno, por assim dizer. Estava tudo coberto de vermelho e dourado. Um fogo relaxante crepitava na lareira. Havia outras pessoas lá também, parentes distantes ou próximos dos Fournier. Nick reconheceu Amelie e o rapaz que falou-lhe da casa de Oliver. Uma adorável menina da idade de Lorenzo organizava diversos presentes debaixo da grande árvore de Natal. Se a cadeira de rodas fosse sua única mazela, ele conseguiria cortejá-la, porque ele conseguia cortejar todo mundo.
Deixou sua cadeira próxima à lareira, numa distância suficiente a aquecer-lhe sem queimar-lhe a face.
— Como se sente? — perguntou. Seus olhos estavam semicerrados, fitando o fogo. O calor laranja perdia-se na névoa cinza.
— Como sempre. — A voz era agora um sussurro quase inaudível.
— Quer um gole de vinho?
— Eu vomitaria tudo. Deixe-me por uns momentos. Preciso descansar.
— Está bem. Em breve te levarei de volta ao quarto e dormiremos juntos. Amanhã será um novo dia. Veja só, voltou a nevar.
Ele murmurou algo que Nick não ouviu. Deu-lhe um caloroso beijo na testa e afastou-se.
Pan estava mexendo nos guizos da árvore, que retiniam um conhecido barulho metálico. Nick implorou que ele não deixasse cair nenhum e que mantivesse escondido o fato de que morou no Vale. Se alguém perguntasse sobre sua história, que ele desse um jeito de se afastar. Diga que precisa ir ao banheiro, ninguém nunca segura alguém que precisa ir ao banheiro.
Ao contrário das roupas grosseiras manufaturadas do povo do sul, aqueles nortenhos vestiam-se com vestidos de seda e ternos caros. Aquela casa tinha duas lareiras e quatro banheiros no térreo, uma escada cujos corrimões deviam custar mais que uma casa sulista e champanhe e vinho para o que der e vier. Uma linda moça tocava violoncelo e um rapaz tocava piano. Música e clima agradáveis. Uma autêntica festa de Natal da alta sociedade.
— Estou vendo desde maquiagem pesada a colares de diamantes — comentou Lincoln na surdina. — Acho que essa gente levou muito a sério o compromisso de viver como numa época passada, mas eles erraram de época. Estamos na Idade Média, no feudo do Vale das Sombras. Camponeses morrem de fome e frio e comem batatas enquanto seus lordes empanturram-se com pão e carne e embebedam-se com vinho.
Lincoln tinha essa habilidade estranha de acabar com a alegria e divertimento de praticamente qualquer situação e levantar questões morais que ninguém queria pensar a respeito. Nick deu-lhe um beijo na bochecha.
O jantar foi servido exatamente à meia-noite. Os convidados fizeram uma longa fila com pratos de porcelana muito caros — uma das crianças derrubou um no chão e o estraçalhou. Foram servidos peru com castanhas; foie gras, uma espécie de comida feita de fígado de pato; tourtière, uma torna de carne de vitela, entre outras coisas. De sobremesa, houve bûche de Noël, um bolo esponjoso coberto de chocolate, cerejas, sementes e cogumelos; pompe à l'huile, uma sobremesa feita à base de farinha e açúcar; e trufas e mais trufas. Tudo regado a garrafas de vinho e champanhe.
Nicholas permitiu-se uma taça de cada e foi só. Deixou que Pan e Lincoln dividissem uma taça de champanhe e proibiu-os de beber mais que isso, pois a última coisa que precisava era de adolescentes bêbados abrindo o bico sobre os crimes que cometerem nos últimos meses.
Enquanto seus meninos divertiam-se na festa, Nick trancou-se no banheiro dos fundos com Pierre Fournier V, o filho do prefeito. Este tinha sua idade e lindos olhos azuis, embora não os tivesse visto enquanto ele se ajoelhava e colocava seu membro na boca. Foi sugestão de Lincoln. Nick pediu aquilo a ele e ele mandou-o procurar outra pessoa.
Durou alguns minutos, foi bom no final. Pierre levantou-se e tirou uma escova de dentes de dentro do armário. Pôs pasta de dente nas cerdas e começou a escovar. Ele não falava inglês muito bem.
— Como vocês chegam aqui?
— Como vocês chegaram aqui — corrigiu. — Estávamos indo à Calgary, Alberta, quando nos perdemos. Acabei entrando na Floresta das Sombras. Mas tudo bem. Nosso prazo só acaba ano que vem. Poderemos ficar aqui por mais alguns dias.
— Por que não vem amanhã? — Ele sorriu. Nick sorriu também.
— Talvez.
Voltou à sala de estar. Lorenzo continuava no mesmo lugar, quieto e sereno sob o fogo crepitante. Nick havia levado algumas trufas para ele e um gole de limonada. Ele bebeu o suco, mas recusou as trufas. Já havia se passado quarenta e cinco minutos desde que chegaram, era Natal e estava na hora de Lorenzo ir para a cama.
Ajoelhou-se a sua frente. Os olhos estavam fechados. As chamas da lareira dançavam em seu rosto pálido de estátua. Nick foi tomado por um pavor imenso de que talvez tivesse finalmente acontecido. Sacudiu-o levemente e chamou seu nome. Ele abriu os olhos sonolento.
— Graças a Deus — sussurrou para si mesmo. — Vou levá-lo de volta à prefeitura e amanhã teremos um grande dia. Vamos pescar na reserva. — Fez menção de se levantar, mas o toque dos dedos dele o impediu.
— Nick — ele murmurou. Sua voz não era quase nada. — Nick, está na hora.
A verdade estava em seus olhos. A morte vinha.
— Não — disse, ou talvez não tivesse dito, e sim pensado, pois não se ouviu falar. Toda a sala de estar aquecida e com cheiros deliciosos de comida girou a sua volta. — Não, não agora, por favor, não estou pronto.
— Eu também não. Quero que esteja comigo. Por favor. Leve-me à casa de Oliver. Eu quero vê-lo antes de fazer a travessia. Quero falar com ele. Quero pedir que ele abençoe você. E quero ver a Luz.
Nick sentia-se paralisado. Não conseguiria fazer aquilo. Sentiu vontade de se jogar no tapete e começar a chorar e se debater como um garotinho. Precisava de Ethan ali. Ethan! Meu Deus. Ele não veria acontecer.
Lincoln chegou ali em algum momento. Ele segurou seus ombros com carinho, disse que acabara de sair do banheiro com Pierre Fournier V e que preferia sua boca. O menino nunca se decidia o que fazer com a língua. Então olhou para os olhos tristonhos de Lorenzo e os apavorados de Nick.
— Oh, não — ele murmurou subitamente deprimido. — Eu sinto muito pelo que disse hoje cedo. Não queria realmente que morresse. Me perdoe.
— Eu perdoo. Quero ir à casa de Oliver. Me levem para lá.
— Está bem. Nick, vamos. Não pare, não pense, só me siga. Não há tempo de procurar Pan.
O Prefeito do Vale das Sombras viu-os deixando a casa. Foi ao telefone residencial e fez uma ligação. Uma voz feminina lhe respondeu.
— Eles estão saindo em direção ao nordeste do Vale.
— Mande seus convidados para casa, Sr. Prefeito. Não vão querer que eles vejam os meus convidados.
Nick aproximou-se da porta de entrada de madeira. A fechadura estava enferrujada, não foi preciso muito para quebrá-la. A porta abriu-se rangendo horrivelmente, como um silvo de dor. Lincoln trouxe Lorenzo por trás. A casa estava gelada e escura como um mausoléu abandonado há muitos anos.
— Lincoln, corra até a cozinha e veja se acha fósforos.
Antes de se mudarem, os Castanelli haviam recolhido lenha e a amontoado ao lado da lareira, graças a Deus. Nick pegou dois pedaços grandes e posicionou-os lado a lado na lareira, deixando um grande espaço entre eles, depois pegou um mais longo e fino e colocou por cima. Amassou um punhado de jornais e enfiou no espaço entre os dois primeiros pedaços, misturando-os com gravetos menores. Agora só faltava…
Lincoln voltou da cozinha com uma caixa de fósforos.
— Achei um saco de carvão na despensa. Isso ajuda?
— Ajuda muito.
Nick foi à despensa e voltou à sala trazendo um copo de plástico cheio de carvão, o qual pôs em cima dos jornais. Por fim, acendeu a lareira com os fósforos. Aos poucos, o fogo aumentou, iluminando a sala escurecida. Nenhuma luz artificial era visível dali. Os enfeites da casa vizinha eram muito fracos para seu brilho atingir aquela casa, ou então alguma coisa o impedia.
— Acho que o fogo vai vingar — murmurou na quietude da sala. Mexeu na madeira que se desfazia com o atiçador da lareira. Ferro negro e gelado. — Eu não sei bem qual a expectativa de vida da madeira, mas eu acho que essa casa não foi abandonada há tanto tempo para que os móveis começassem a apodrecer. O que houve?
— Não há pessoas — resmungou Lincoln. Estava recostado na parede, sentado, abraçando seus joelhos. — Quando não há pessoas, o Vale começa a definhar. E vice-e-versa.
Olhou para o rosto de seu irmão. Seus suspiros eram cada vez mais difíceis e barulhentos. O peito subia e descia rapidamente. Nick sentia a morte se aproximando. As Sombras vinham para reclamá-lo.
Lorenzo olhou para Lincoln.
— Vá buscar Pan. Quero-o aqui.
Lincoln não discutiu ou argumentou. Simplesmente se levantou, subiu o zíper do casaco e deixou a casa. Lá fora, a lua estava nova, fina e afiada como a lâmina de uma faca, incrustada no céu preto e glacial.
— Lorenzo — sussurrou entristecido. Tinha uma sensação horrível de que desataria a chorar a qualquer momento. Toda a sua vida estava passando diante de seus olhos. Não estava pronto para perder seu irmãozinho. Tinha-o conhecido há apenas dois anos e meio. E pensar que quando Ethan contou-lhe que tinham um meio-irmão por parte de pai a primeira coisa em que pensou foi se ele tinha ou não direito à fortuna.
— Nick, vem cá. — Nick se aproximou de sua cadeira. Ele segurou seu rosto com dedos finos como gravetos. Mal sentia-os. — Oh, Nick. Eu te amo tanto. Mais que tudo. Eu te amo mais que tudo. Nunca poderia amar alguém mais que amo você. Desculpe-me por ter sido tão insuportável nos últimos meses. Você lidou bem com a situação. Até penhorou o anel que tanto amava para pagar pelos meus remédios. Ethan… — Tosse — ficaria orgulhoso.
Agora Nick chorava compulsivamente sem emitir barulhos. Não conseguia falar. Não conseguia expressar também o quanto o amava. O destino havia sido injusto com ele. Não era para nada daquilo acontecer. Como Rowan Pyatt dissera, nenhum ser humano seria capaz de curá-lo.
— Você nunca se importou que nós tivéssemos um caso, se importou? — ele perguntou.
— Não. — Engoliu um nó. — Claro que não. Sempre expressei melhor meus sentimentos com sexo do que com qualquer outra coisa. Talvez você tenha razão. Se eu e Ethan tivéssemos trepado mais, brigaríamos menos. Adorei cada segundo que passei com você na cama. Gostaria de ter aproveitado mais disso. Se fosse só nós dois, talvez pudéssemos ter feito mais.
— Não tem mais raiva de mim por ter sugerido tantas vezes que você e eu tivéssemos um caso com Ethan?
— O quê? Não… claro que não. Esqueça essas coisas, Lore. Não pense no que eu disse de ruim nos seus últimos momentos. Você vai se reencontrar com sua mãe e com todos os outros que a família Hentz matou ao longo dos anos. Não foram poucos. Oh, Deus, eu não consigo. Não consigo. Você… você é católico, não é? Roubei uma cruz da casa do prefeito.
Colocou em suas mãos miúdas um pequeno crucifixo de madeira com detalhes em metal. Retratava Cristo ensanguentado. Nick sempre achara aquelas coisas de extremo mau-gosto, mas não é como se Lorenzo pudesse ver o sangue falso.
— Obrigado. Significa muito para mim. Sabe rezar?
— Não. Nunca aprendi.
— Reze comigo. Repita depois de mim. Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a Ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa e me ilumina. Amém. Isso, muito bom. Agora continue repetindo depois de mim. Ave Maria, cheia de graça. O Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém. Obrigado. Sei como é difícil para você.
— De nada. Não foi nada. Lorenzo, preciso que você me faça um favor. Deixe-me alimentá-lo mais uma vez com algo que você gosta. Morrer sentindo o gosto daquela vitamina horrível não vai ajudar em nada. Veja, eu fiz milk-shake e coloquei numa garrafa térmica. Pretendia te dar de presente de Natal. Não é bobo?
— Não é bobo. Obrigado.
Nick sorriu e limpou uma lágrima. Mais cedo, tinha misturado sorvete e leite no liquidificador e adicionado alguns dos remédios de Lorenzo. Todos os analgésicos que tinha e dezenas de pílulas para dormir. Esmagara todas com os dedos e adicionara à mistura. Aquilo o poria para dormir em poucos minutos. Dormir para sempre. E então… e então a dor iria embora.
Ele bebeu tudo, até a última gota. Terminara a garrafa com um bigode de chocolate. Sorriu e relaxou na cadeira.
— Isso é ótimo. O calor do fogo e o sabor da bebida. E a sua companhia. Só seria melhor se Ethan estivesse aqui. Ethan… eu o amo tanto também. Ele fez tanto por mim, coisas que nenhum irmão jamais faria pelo outro. Coisas boas. Coisas ótimas. Quando ele se deitou comigo àquela noite no apartamento…
— O que está dizendo?
— … e despiu-se. E eu também estava despido, pois tinha acabado de sair do banho. E então fizemos aquela coisa. Eu gostei tanto de fazer com ele quanto de fazer com qualquer um. Foi maravilhoso. Foi mágico. Nunca vou me esquecer da sensação do calor do corpo dele contra o meu. O gosto da boca dele. E das outras partes do corpo dele. E depois fizemos de novo no Palácio Real Hentz. Várias vezes.
Nick se levantou do chão mais rápido do que pretendia. O vento que se formou quase apagou a lareira. Seus dentes tremiam.
— Vocês… vocês dois… vocês dois tinham… um…
— Sim, Nick, nós dois tínhamos um. Eu e Ethan. Sem você saber. Eu sinto muito, deveria ter te contado antes. Talvez pudéssemos ter tido uma chance de fazer amor juntos. Nós três.
Seu mundo estava novamente girando. De repente, aquele menino a sua frente não era seu amado irmão Lorenzo, mas um manipulador psicótico que odiava. Um impostor. Nada além disso.
Nick empurrou sua cadeira e gritou alguma coisa. Não soube o quê. Nos anos que se passaram, Nicholas Hentz jamais foi capaz de lembrar-se do que gritara ao irmão após a revelação. Mas ele se lembrava de a lareira ter se apagado e de ter caminhado sozinho para fora da primeira casa de Oliver Castanelli e deixado a porta aberta.
Ele não pensou no que estava fazendo. Só andou e andou.
As dores se acumulavam em todos os pontos como mordidas de pequenos insetos. O violento empurrão que Nick dera em sua cadeira trouxera de volta as agonias que seu corpo lhe proporcionava há meses. Lorenzo sentia-se preso dentro de um casulo de carne sem outro objetivo além do de destruí-lo. Estava dando certo. A dor o enlouquecia com lentidão. Em seu coração, principalmente. Mas estava chegando ao fim.
Por alguns segundos, permitiu-se odiá-lo, mas isso logo passou. Não conseguia odiar Nick. Nick. O doce e louro Nick. Tão perfeito com todos os seus defeitos. Ele logo se arrependeria de ter feito o que fez e voltaria rastejando, como sempre. Talvez devesse ter revelado aquilo antes. Talvez… talvez devesse revelar a verdade sobre seu nascimento, só para o caso de Ethan não estar vivo para revelar isso. Nick não poderia morrer sem saber.
Lorenzo tinha muitas memórias boas daquela vida, o abandono numa casa escura e gelada não precisava ser sua última. Não sentia as Sombras já há muito tempo, mas sabia que elas vinham. Não é assim que todos os mortos se sentem? Sufocando de Sombras? Oh, e a propósito onde estava o filme sobre sua vida que deveria passar diante de seus olhos?
A dor veio mais forte, na cabeça e no estômago. Ele pensou que fosse vomitar de enxaqueca. Queria alguém ali. Alguém precisava abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem, mesmo que não fosse verdade. Pan faria isso com sinceridade e tristeza. Poderia até ser Lincoln.
Mas tudo o que via a sua frente era escuridão. Escuridão e silêncio.
E então… e então ele a escutou.
Lorenzo, está na hora.
A voz, a mesma voz que há meses falava com ele em sonhos.
Lorenzo, siga minha voz.
Mas sua voz vinha de dentro de si, como poderia segui-la?
Você pode andar novamente. Venha, siga minha voz.
Ele forçou seus joelhos a dobrarem-se e descobriu que eles funcionavam. Empurrou-se para fora da cadeira, desesperado para manter o equilíbrio. Vontade de vomitar de novo. Pensou que fosse desmaiar.
Minha voz, Lorenzo. Siga minha voz.
Cambaleou através da sala, esbarrando nos móveis estupidamente. Por que não tinha sua bengala ali com ele? Suas mãos esbarraram-se em algo gelado. Vidro. Uma porta deslizante de vidro. Ele a empurrou para o lado. Um frio glacial se chocou contra seu rosto, fazendo os dentes tiritarem.
Caminhou bravamente para frente. Estava no quintal da casa de Oliver, um campo vazio coberto de neve cercado por nada além de pinheiros que testemunhavam as vidas dos habitantes do Vale das Sombras desde que nasceram. Pinheiros altos e cobertos por neve.
Siga o caminho dos pinheiros.
O caminho dos pinheiros. O que a voz queria dizer com isso?
Atravessou a desagradável neve em que seus pés afundavam. Os tornozelos e pulsos congelavam, e o que dizer de seu rosto? No momento em que os dedos tocaram uma coisa dura e carrasquenta, um tronco de pinheiro, já não podia senti-los. Entre madeira e folhas cheias de neve, a barreira parecia impenetrável, mas ele achou um caminho por baixo de uma galhada. Adentrou na Floresta das Sombras, sempre seguindo a voz pura e suave.
Seus passos tornavam-se cada vez mais vacilantes e as árvores, mais esparsas. Já não era arranhado por galhos, mas a neve tornara-se mais profunda. Oh, sim, estava deixando a área de influência humana na Floresta das Sombras, entrando na parte nunca pisada por ninguém, absolutamente ninguém… exceto um. Uma criança de sete anos, muito tempo atrás.
A respiração tornou-se mais difícil. O ar gelado era como uma navalha em seus pulmões. Ardia como o diabo. Manter o equilíbrio voltou a ser impossível. A dor na cabeça pulsava violentamente. Já não ouvia mais a voz e quanto caminhara? Cem, duzentos metros? Um quilômetro? O que fora fazer? Por que não ficou na casa de Oliver se sabia que Nicholas voltaria?
Seu Nicholas. Queria morrer com ele, mas Lorenzo não estava mais com ele e sabia que ele nunca o encontraria porque ninguém nunca entrava na Floresta das Sombras e voltava com vida, a não ser que ela quisesse, e ela não queria Nicholas. Seu corpo seria devorado pelos animais selvagens e esquecido com o tempo.
A nevasca voltara ensurdecedora. Seus membros estavam congelados. Ele não conseguia mais dar nenhum passo. Caiu de joelhos perante um tronco, um tronco gigantesco, como bem percebeu ao agarrá-lo com suas mãos. Mas havia algo diferente com esse tronco, sulcos e depressões esculpidos… um rosto. Um rosto grande e benevolente com olhos quentes.
— Onde você está? — perguntou desesperado. Queria uma resposta. Queria alguém. Não podia morrer sozinho. Não podia ser esse seu legado.
Silêncio.
Silêncio.
E então…
Estou aqui, Lorenzo. Estou aqui com você e com você estarei para sempre. Ouça minha música.
Silêncio.
Silêncio.
Silêncio. Só neve.
E então ele ouviu a música. Sim, uma música vinda do céu, da neve, do tronco e das árvores a sua volta e de seu próprio peito. Sim, a mais bela música que já ouvira na vida! Um coro de mil vozes e mil trombetas, violinos e pianos ressoando violentamente em seus ouvidos sem parar. O tipo de música que ele amava, o tipo humanamente impossível de se tocar. O tipo que levantava sua alma e a jogava do palco contra a plateia, estraçalhando-a em mil pedaços. A nevasca já não era mais audível, pois não era neve que nevava, e sim música. O céu nevava música. Ele teve força para levantar a cabeça recostada no tronco e deixar-se levar pela música.
Pressentiu a chegada da Luz, não soube como. Dedos quentes tocaram sua pele, dedos tão reais e ardentes quanto os de qualquer ser humano. Recostou sua cabeça no peito da criatura, pois dali vinha a música ensurdecedora e o calor que quase o derretia. Ele sabia quem ela era.
— Esperei tanto tempo para vê-la.
Eu também, meu Lorenzo.
A árvore sumiu deixando para trás um som conhecido de poc, como se a matéria simplesmente deixasse de existir e o ar enchesse novamente o espaço vazio. Ao invés de uma árvore com rosto, uma confortável e aquecida cabana apareceu em seu lugar. Ela o levou para dentro e o deitou na cama. Os calores de sua Luz o rodeavam em todos os pontos de seu corpo. Quente o suficiente para tirar as roupas de frio. A música parara. A dor cessara. Estava quase em paz…
Sentiu que ela despia os panos que usava. Procurou seu corpo com as duas mãos até encontrar a carne macia e ardente. Sabia ser falsa, manufaturada, ou qualquer coisa que o valha, pois não era humana. Ela subiu em cima dele, já nua, e começou a se movimentar de um modo que ele conhecia bastante bem. Talvez Oliver houvesse se sentido do mesmo jeito, mas ele tinha apenas sete anos e ela nenhum conhecimento de que meninos de sete anos não dispunham dos elementos naturais necessários para engravidar. Mas ele… talvez ele dispusesse. Não sabia muito bem.
Ela iria matá-lo se continuasse quente daquele jeito. O movimento violento quase quebrava seus ossos. O orgasmo que chegou foi quase insuportável, algo entre a explosão de uma supernova e o nirvana.
Oh, foi um de seus últimos pensamentos antes de perder a consciência. Uma clareza espiritual absurda tomava conta de sua mente. Sentia-se capaz de resolver todos os mistérios do universo. Então era para isso que ela queria a virgindade.
Quando Nicholas chegou à casa do Prefeito do Vale das Sombras, estava ofegante. Mas não era essa a pior parte. O suor de seu corpo congelava sob o vento frio, que por algum motivo parecia ainda mais frio, podendo causar-lhe hipotermia. Mas também não era essa a pior parte.
Ele olhou em volta e a primeira coisa que achou estranho foi a ausência de barulho. Onde estava a música da festa de Natal que deixara há apenas vinte minutos atrás? Os risos dos convidados? E… as luzes, pelo amor de Deus. As luzes da casa do prefeito estavam apagadas. Os enfeites de Natal tinham um incômodo tom morto.
— Nick? — Graças a Deus, a voz de Lincoln. Olhou para trás e teve uma desagradável sensação de déjà vu. Uma tarde gelada no Central Park, uma noite gelada de Natal no Vale das Sombras. Quais as chances? — O que está fazendo aqui? Lorenzo… ele finalmente…?
— Não. Não sei. — Sentia-se meio desorientado. Pensou que fosse vomitar a qualquer momento.
— Você… você abandonou Lorenzo? De novo?
— Eles tinham um caso! — gritou para o menor, momentaneamente descontrolado. — Ele e Ethan! Os dois tinham um caso sem eu saber! Veja o momento em que ele decidiu me contar!
— Oh… então… Lorenzo e Ethan… tinham um caso… e eles eram irmãos… oh, incesto na família Hentz… bem, por que é que isso não me surpreende? Por que será que isso não me surpreende nem um pouco? Em outras famílias seria uma tremenda tragédia, motivo de deserdação, mas por que em mim isso nem mesmo faz cócegas?
Fitou seu rosto jovem e cínico. Ele estava furioso. Não como estivera no Central Park, mas inimaginavelmente furioso.
— Eu não encontrei Pan — continuou entre dentes. — Quando cheguei aqui, a festa tinha desaparecido. A casa estava fechada, as pessoas tinham ido embora. Isso é péssimo. Eis o que vai acontecer. Eu vou voltar à prefeitura para ver se ele voltou ao hotel, e se não estiver lá vou procurar Mademoiselle Claudette. Talvez ele tenha ido vê-la. E você vai parar de ser uma bicha e vai procurar seu irmão à beira da morte e dizer que o ama e o perdoa ou eu juro por Deus que vou estrangulá-lo enquanto você dorme!
— Mas…
— Nicholas, pelo amor de Deus, aja como Ethan!
Lincoln deu-lhe as costas e desapareceu no caminho entre as reservas florestais. Nick ficou muito tempo de joelhos na neve, congelando de frio, ouvindo nada além da nevasca que caía ao seu redor. Para onde foram as pessoas? Não, isso não era importante. Ethan jamais o perdoaria se soubesse o que fizera com Lorenzo. De novo.
Levantou-se e correu para a casa de Oliver. A porta estava entreaberta e o interior voltara a ser mortalmente gelado. A lareira havia se apagado. Uma brisa fria entrava pelo quintal… a porta de vidro estava aberta! E a cadeira de rodas estava vazia. E havia pegadas na neve. Só podia significar uma coisa.
Oh, não, não é possível que isso esteja acontecendo.
Seguiu as pegadas através do quintal até chegar à barreira natural de pinheiros, onde empurrou seus poderosos galhos para abrir caminho. Eles pareceram leves demais para galhos tão grossos. Seguiu a trilha de pegadas que se embrenhava cada vez mais na Floresta das Sombras, ciente de que era possivelmente a terceira pessoa em toda a história a fazer aquilo.
Ou quarta, se considerasse a velha de olhos azuis que via a Luz.
As árvores começaram a escassear, dando lugar a uma linda paisagem escura e gelada. A nevasca barulhenta só tornava o lugar mais bonito e pacífico. Nicholas poderia ficar ali por horas se não soubesse que congelaria até a morte. A temperatura estava em dez, talvez quinze graus negativos, e só pioraria com o avanço da madrugada.
Não sentia seu rosto ou seus dedos, e estes estavam bem cobertos por grossas camadas de tecido de fábrica. O que Lorenzo, com sua magreza extrema e suas poucas roupas, devia estar sentindo? Meu Deus, como ele conseguira andar tantas centenas de metros em tão pouco tempo? As pegadas estendiam-se pelo que parecia ser até o infinito. Não visualizava o fim delas. Começou a gritar seu nome, tendo ultrapassar a nevasca, mas foi respondido apenas pelo eco.
Então ele viu. Não Lorenzo ou qualquer outra coisa, mas uma claridade. Um brilho branco e forte vindo de trás de um punhado de árvores. As pegadas se dirigiam para lá. Nick enfrentou os arbustos e galhos que agarravam-se a sua roupa até chegar a uma enorme clareira de onde podia ver o céu negro e a lua nova. Os pinheiros formavam um círculo perfeito.
No centro da clareira, ele viu um gigantesco espruce, o maior que já vira na vida, cinquenta vezes mais alto que a maior árvore de toda a Floresta das Sombras, diabos, cinquenta vezes mais alto que a maior sequoia do mundo. Nick sabia que seria impossível passar perto da floresta e não ver aquela árvore, e quando notou um rosto esculpido em seu gigantesco tronco, percebeu que aquela era a lendária árvore-totem de Elluryiel.
Lorenzo estava recostado na árvore-totem, desacordado. O brilho branco que Nicholas vira estava sobre ele, mas desapareceu completamente à medida que se aproximava. Agora ele não era nada além de um menino minúsculo sob uma árvore impossível de existir. O rosto de madeira fitava-os severamente. Ele o ignorou.
— Lorenzo — sussurrou erguendo sua cabeça com cuidado. Ele não pesava quase nada. Ainda estava quente. — Lorenzo, acorde, por favor.
Ele tremeu e resmungou alguma coisa. Abriu os olhos com lentidão, os olhos cinzentos e cegos que Nick tanto amava.
— Você veio. Eu sabia que viria.
— Lore, meu Lore, me desculpe, por favor, me desculpe, eu não queria fazer aquilo, nunca devia ter feito aquilo. Eu não devia. Meu Deus, me perdoe. Olhe só para você. Eu tenho tanto orgulho de você.
— Eu também tenho orgulho de você. E perdoo você. Não se culpe, Nick. Eu vivi uma vida ótima e tenho ótimas lembranças de você. E vou amá-lo para sempre, não importa o que aconteça. Obrigado por me procurar.
— Lorenzo…
— Você me faz um favor? Recite um poema para mim. Eu sempre gostei deles. Um sobre morte.
— Eu… eu não… eu só me lembro de um. Ode ao falecido Stephen Dowling Bots. É do livro As Aventuras de Huckleberry Finn. — Nick não compreendeu como se lembrou do poema de cor, as palavras jorravam em sua cabeça. Mas não importava. Não conseguia parar de chorar.
— É um lindo poema. Diga-me, que fim teve Huck Finn?
— Eu não sei. Nunca terminei o livro.
— Tudo bem, prometa para mim que quando voltar à Middleland e nossa família retomar toda a sua glória e esplendor, você vai terminar o livro de Huck Finn. Agora… deixe-me ir… por favor… deixe-me…
Ele não completou a última frase. Lorenzo arregalou os olhos, inspirou o ar gelado, e mais uma vez, e um pouco mais. Seu coração foi o primeiro a parar, depois os pulmões. Estava tão pálido, mais pálido do que Nick se lembrava. Ele sorriu, sem nunca completar sua última frase, e parecia sorrir para o irmão. Então expirou todo o ar, virou a cabeça, e morreu.
Nicholas Hentz apertou o corpo do irmão menor em seus braços contra seu corpo sem nenhum cuidado. Gritou o mais alto possível, e de novo e de novo, liberando todo o seu ódio sobre a poderosa árvore-totem e seu rosto cruel de madeira, e sobre a neve que se acumulava e a nevasca que mais uma vez parara, e também o céu negro e a lua nova.
E depois, já sem forças, deitou na neve, e chorou, chorou, chorou e chorou.
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