Como Vivem Os Anjos
68 Ad Immortalitatem
Notas iniciais
Ad immortalitatem.
(Do latim, “Rumo à imortalidade”)
A morte é apenas uma travessia do mundo, tal como os amigos, que atravessam o mar, e permanecem vivos uns nos outros. Porque sentem necessidades de estar presentes, para amar e viver o que é onipresente. Nesse espelho divino, veem-se face a face; e sua conversa é livre e pura. Este é o consolo dos amigos e embora se diga que morrem, sua amizade e convívio estão, no melhor sentido, sempre presentes, porque são imortais.
(William Penn)
No princípio era o Verbo e o Verbo era Deus e o Verbo estava com Deus. (Jo 1:1) E o Verbo se fez carne e habitou entre nós. (Jo 1:14)
OoO
A última coisa que ele sentiu antes da morte foi o amor do irmão.
Foi um momento de delírio indescritível, ser inundado pelo amor puro de Nicholas Hentz, um tipo de amor raro que poucos tem o prazer de experimentar, pois os que conseguem tal pureza através do expurgo e do sofrimento não se recuperam a ponto de aprenderem a amar novamente. Quisera Ethan estar com Nicholas quando morreu na mesa de cirurgia. Lorenzo teve mais sorte, estava em seus braços, aquecido por seu corpo em meio a uma nevasca num local que sabia ser sagrado.
E ele o sentiu, o amor, em todas as dores de seu corpo. Foi o que aliviou-o da agonia de seu coração parar e o sangue congelar dentro das veias. Sufocar lentamente pela falta de oxigênio foi até um tanto agradável, pois sua cabeça ficou leve como quando bebia vinho. Oh, o vinho, nunca mais o beberia, mas quem estava reclamando? Quando as sinapses de seu cérebro pararam e os neurônios começaram a morrer aos bilhões, ele só sentiu o amor dentro de si, aquecendo-o com seu calor.
Nicholas Hentz fez a morte de Lorenzo Barcarolli doer menos.
E mesmo assim a clareza espiritual de após falar com Elluryiel permanecia. Quando tudo se acabou num último suspiro e as Sombras começaram a devorá-lo, sentiu-se levitando, flutuando para fora do corpo, puxado por uma corda invisível por forças muito mais poderosas do que podia imaginar. Sentia que poderia romper essa corda, mas isso não era para ele. Num momento, só frio da neve e dor da morte, e no outro insensibilidade e calor, e depois, bem depois da curiosa sensação flutuar… nada.
Absolutamente nada.
Só trevas e Sombras.
Nada além de Escuridão, Frio e Vazio.
Passou para o outro lado com plena consciência de que logo sua consciência desaparecia e suas marcas existenciais deixariam a Terra. As Sombras o rodeavam por todos os lados. Ele sentiu novamente o amor, um diferente do de Nicholas, mas curiosamente familiar. Sua mãe. Sim, sua mãe Antonella estava por perto. Pensou que logo iria para ela, e quem sabe, só quem sabe, pudesse vê-la.
Quando o calor veio novamente, as coisas ficaram claras como água para Lorenzo, e ele descobriu por que Ethan morreu e por que ele tinha câncer. Era tão óbvio, assim como o motivo de Nick ter sofrido tanto desde a morte de seus pais, por que passou por tantos ganhos e perdas. O destino fora cruel porque seus fins justificavam os meios. O motivo dos quatro meninos terem ido parar no Vale das Sombras se clarificou. Por que Elluryiel os assombrava com lembranças e pesadelos há meses? Por que ela o levou à clareira sagrada onde há muito tempo levara Oliver Castanelli à beira da morte? Por que no Natal?
Soube de tudo. Lorenzo soube de todas as respostas.
E o amor da mãe o chamava.
Poderia ter ficado no plano terrestre, ter partido a corda e se segurado ao amor irresistível e puro de Nick que lhe fortificava como o Halloween de Nova Orleans e lhe atraía como um feromônio, mas agora via que estragaria tudo se fizesse isso. Seu egoísmo tornaria toda aquela jornada dourada em vão. Porque precisava morrer. Assim como Oliver precisou morrer aos sete anos antes para que a mulher branca viesse.
E ela, por fim, veio. Como prometido.
Lorenzo. Não resista. Siga minha Luz.
O calor estava mais forte. Agora existia como matéria.
Eu não quero seguir sua Luz. Quero ir ao Paraíso ou ao Inferno ou ao Purgatório. Minha hora acabou. O fantasma que fala italiano tornou-se, finalmente, um fantasma.
Sua consciência lentamente se apagava, mas o amor da mãe era facilmente subjugado pelo calor da Luz de Elluryiel.
O Paraíso não existe, nem o Inferno, nem o Purgatório. Deus e os anjos estão mortos há muito tempo. O que existe é a Luz, a Vida e o Poder.
Ela estava mais perto, e não na forma da mulher branca, mas em sua forma original de espírito, mais quente que nunca. Como gostaria de ver sua Luz! Gostaria? Não, não era esse o caminho que tinha que seguir. Precisava virar para trás e seguir o calor de Antonella.
Por favor, deixe-me, eu não quero ir com você, minha hora acabou!
Mas era tarde demais. Ela o agarrara.
Não resista a mim e a meu poder infinito ou vou devorar sua alma, vou torná-la minha como fiz com os habitantes do Vale das Sombras, pois são todos meus, Lorenzo, criei este Vale através dos humanos e através do Vale criei os humanos, são todos meus de corpo e alma e você será também. Abra-se para mim, abra-se como espírito, estamos no limbo e aqui ficaremos até que você se abra, isso, isso, ISSO, ABRA-SE PARA MIM, EU SOU O VERBO E VOCÊ É A CARNE! OLHE PARA MIM, VEJA O QUE EU SOU!
Antes de a Luz chegar a seus olhos, ele pensou ter ouvido um sussurro.
E você está errado, Lorenzo. Sua hora não acabou. A Dança dos Leões está para chegar. Você a verá. Você a verá.
Nicholas já não conseguia mais chorar. Não sabia há quanto tempo estava deitado ali, mas era suficiente para que o rosto ficasse dormente. Se não saísse logo sofreria hipotermia e se tornaria uma estátua de gelo bela e loura. E isso não era tudo: seu corpo nunca seria encontrado. Habitantes do Vale das Sombras que fossem procurá-los nunca os achariam, pois aquela clareira só era achada por quem Elluryiel permitisse. Lincoln poderia mandar derrubar a Floresta das Sombras inteira, mas de nada adiantaria.
Forçou-se a se levantar, embora seus joelhos tremessem. Mal sustentava a si próprio equilibrado, como levaria o corpo de Lorenzo consigo? Poderia arrastá-lo pela neve. Não, que ideia horrorosa, Nicholas. Lorenzo provavelmente a acharia engraçada. Mas não faria isso, e também não o deixaria ali por nada nesse mundo. Não sob aquela pavorosa face de madeira retorcida esculpida numa árvore imensa de folhas tão largas quanto pranchas. Por que não fizera chá com suas folhas mágicas e dera para o irmão beber? Ideia louca. Mas funcionaria nos filmes e livros. Chá sempre resolve tudo.
Olhou para o céu. Não conseguia ver a cúpula da árvore. Ela estendia-se para cima para todo o sempre.
Que clareira estranha, pensou, e não era apenas por causa da árvore colossal. Não se ouve barulhos. O vento movimenta os pinheiros, mas não há farfalhar. A neve tão faz aquele som surdo quando alguém pisa e nossos pensamentos soam tão altos que mais parecem gritos.
— Prometo que vou cremá-lo e jogá-lo na Lagoa das Sombras. — O rosto de pedra de Lorenzo finalmente não apenas parecia uma escultura de Michelangelo. Seus olhos enevoados estavam abertos, cegos para sempre. Fechou-os com a mão. Gostaria de ter ficado feliz porque isso era uma coisa que sempre quisera fazer, mas seria de um egoísmo ridículo. — Só gostaria de saber como fazer isso. Funerárias pedem por documentos e não é como se fosse possível carbonizar um ser humano numa fogueira. Você deveria ter me explicado.
— Peça para a Chaulwen — sugeriu uma voz tranquilizadora quebrando a harmonia silenciosa e curiosamente opressora da clareira. — Eles têm uma sede no Canadá.
Olhou escandalizado para trás e quase berrou de susto. Um rosto que já conhecia, comprido, aristocrático e confiável, pertencente a um rapaz de cabelos louro-escuros e olhos castanhos. O rapaz de Nova Orleans! Ele nem usava roupas de frio! Usava a mesma coisa antiquada da festa à fantasia!
— Acho que eles podem cremar o corpo e entregar-lhe as cinzas. São muito bons em sutileza e ricos o suficiente para contratar uma funerária que não faz perguntas. Você ainda tem o número de Rowan?
Ele nunca recebeu resposta porque Nicholas se jogou contra ele. Com boas lembranças de Nova Orleans e do espantoso toque que dera em seu braço, tinha consciência de sua carne ser dura como pedra, por isso protegeu a cabeça ao jogá-la de encontro ao peito. Eis um princípio que aprendera muito jovem em sua jovem vida: quanto mais alto, maior a queda.
Pego de surpresa, ele não teve como evitar a queda pesada sobre a neve macia da clareira. Não se viam pegadas em parte alguma. Impossível saber de onde chegara. Nick pegou uma pedra de bom tamanho atirada no chão e ameaçou esmagá-la em sua cabeça.
— Oh, por favor, não! — o rapaz berrou terrificado. Não conseguia se levantar com Nick por cima. Em pé, era mais forte que qualquer humano, mas deitado era inútil como uma estátua. — Você não sabe como é difícil imitar a carne, se destruir esse corpo vou passar anos até conseguir de novo! Por favor!
— Você roubou esse corpo? — Ergueu a pedra mais alto.
— Não! Eu… copiei. Do primogênito de um lorde inglês do século XV. Ele havia estuprado e engravidado uma camponesa, depois ameaçou enforcá-la quando ela afirmou que o bebê o qual dera à luz era dele. Lorde Henry, era o nome dele, Henry da Casa Lancaster. É isso mesmo que você ouviu. Eu copiei sua aparência, mas é evidente que não poderia haver dois Lordes Henry, então me livrei do original. Mereceu a morte que teve. Por favor, saia de cima de mim. Tenho coisas importantes para dizer.
— Você sempre tem coisas importantes para dizer, não tem, Lorde Henry da Casa Lancaster? Eu deveria esmagar sua cabeça agora. Já matei antes e sinto-me apto e motivado a fazer isso novamente.
— Não sou Lorde Henry da Casa Lancaster, apenas uso a aparência dele porque o achei bonito e cruel o suficiente para merecer morrer. Você já parou para pensar que as pessoas ficaram mais bonitas com o passar das eras? Henrique VIII tirou a Inglaterra do rebanho papal para se casar com Ana Bolena e mergulhou o país numa sucessão de guerras intermináveis de protestantes contra católicos. Milênios antes, Cleópatra fez imperadores moverem exércitos em honra de sua beleza. Se você vivesse nessas épocas, Nicholas, poderia ter causado a Primeira Guerra Mundial muito mais cedo.
Nick ergueu a pedra novamente, decidido a descê-la. Sua mão apertando o pescoço do rapaz não era nada. Era evidente que ele não respirava.
— Espere, pelo amor de Deus! Deixe-me continuar deitado nessa neve fria. Não precisa se levantar. Olhe para mim, veja o que eu sou. Henrique VIII teve três filhos, três que foram reis, Eduardo VI, Maria I e Elizabeth I, quatrocentos anos atrás. A verdade é que, disfarçado do filho de um lorde próximo à corte da Inglaterra cuja morte era desconhecida, eu consegui me aproximar da Rainha Elizabeth. Uma grande mulher, protestante, que tolerava católicos. Reinou por quarenta e quatro anos e morreu virgem. Bem, dia 24 de março de 1603, às duas da manhã no Palácio de Richmond, foi o momento de sua morte, e eu estava lá, cuidando para que a Rainha Virgem tivesse uma ida tranquila. Eu contei-lhe toda a minha história, que eu não era filho de lorde nenhum, e sim um imortal em busca de respostas. Contei-lhe o que eu era e que desde a aurora do mundo moderno eu sabia que tinha uma grande missão pela frente, mas não sabia qual. A rainha me ouviu silenciosamente. Então, em seus últimos minutos de vida, ela sorriu-me em seu delírio de febre e me profetizou algo.
O rapaz sorriu como se sua vida imortal não estivesse em perigo de ser finalizada por um adolescente e uma pedra. A neve em contato com sua pele já devia tê-la tornado azul, mas esta continuava lisa como a de um recém-nascido.
— Elizabeth Tudor era uma bruxa, assim como sua mãe Ana Bolena e os que vieram antes dela na família Bolena, por isso recusou casamento e permaneceu virgem até a morte. Não queria perpetuar a descendência bruxa e ser queimada na fogueira, ou ter alguns de seus descentes queimados. Uma bruxa, a Rainha Elizabeth I de Inglaterra, uma poderosa clarividente. Sua profecia foi uma versão maior daqueles versos que cantarolei para você em Nova Orleans.
Homens azuis dançarão na clareira.
Sob lua nova, sob azul cegueira.
Em volta daquela que por sete anos foi Luz e carne.
Majestosa, poderosa e vil em sua arte.
Dançantes, em volta do escuro.
Descarnados, em volta do impuro.
Luz e Sombras não batalharão.
Duelos antigos não travarão.
Nenhuma rixa será resolvida.
Nenhuma disputa será interrompida.
Pois unidos estarão, e por uma alma pura serão vistos.
Espíritos, fantasmas, Sombras e Luz, vistos!
Pois uma alma, em dualidade.
Mais uma vez, o Verbo se fez carne.
— Elizabeth morreu após o último verso. Eu não sabia o que nada disso significava, apesar de ter um trecho bíblico no final, e por muito tempo não soube. Passei séculos vagando à procura de respostas para as minhas respostas, achando que talvez as últimas palavras da rainha tenham sido apenas um delírio. Você não sabe como foi desagradável a vinda para o continente americano no Mayflower, mesmo para alguém que não precisa comer e que não adoece. Levaram-se meses. Hoje posso fazer a mesma viagem em questão de horas. Agradeço a vocês humanos pela criação do avião.
— Pare de enrolar.
— Desculpe-me. Eu primeiramente entrei em contato com sua família em 1867, quando, por ocasião do nascimento de John Francis, seus pais, Louis-Charles e Claudette, aportaram na Louisiana e o entregaram aos Hentz de Nova Orleans. Foi puro acaso, eu estava atrás deles porque eram mercadores de escravos e eu queria ver os escravos. Mas eu segui John Francis porque a Luz estava nele assim como está em você. Tenho perseguido cada um dos membros de sua família por gerações, tanto legítimos quanto ilegítimos, procurando saber por que a Luz está em vocês e sabendo que tinha a ver com a profecia da rainha.
“Os anos passaram sem nada extraordinário acontecer. Não importava o quanto eu pesquisasse sobre os antepassados dos Hentz, nada explicava por que a Luz estava em vocês. Os humanos eram inúteis. A maioria sequer sabia que a Luz existia. Eu fiquei desesperado, achando que gastara quase um século e meio da minha vida com os Hentz por nada. Mas então você e Ethan vieram ao mundo. Eu estava lá, no hospital, no nascimento dos dois. Ethan nasceu com a Luz, mas você não. Achei que isso fosse um sinal de que a profecia se concretizasse através dele, que ele fosse a ferramenta, mas me enganei no dia de seu nascimento. Ethan o observava na maternidade nos braços do pai quando a Luz escapou dele, atravessou o vidro e se chocou contra você. É você a ferramenta. Porque você é o único dos irmãos que tem a alma pura e livre de máculas. Seu sofrimento desde a morte dos pais o expurgou. Por isso que você sofreu tanto, porque você precisava chegar até esta clareira com sua Luz intacta. Você é puro. Você é perfeito. Você é Luz. Eu sempre soube disso. Em junho desse ano, outra profecia foi feita pela clarividente mais poderosa desde a Rainha Elizabeth.”
Nicholas levou alguns segundos para pensar em um nome.
— Gillian.
— Sim, Gillian Pyatt. Ela estava com Rowan no momento em que aconteceu. Seus olhos viraram para trás e se tornaram brancos e ela caiu de joelhos. Algo parecia falar por ela. O que profetizou foi uma versão maior e mais completa do que disse a rainha há quatro séculos. Rowan ouviu, e por isso eu ouvi também.
Grandes Sombras chegarão
Naquele amaldiçoado pela falta de visão
Uma alma corrompida morrerá e voltará
E uma pura entre elas dividir-se-á.
Entre estas desavença, medo e ódio viverão
Até que um que as é encarnado chegará
Desconfiança e cegueira espiritual elas deixarão
Para que em um único inimigo possam se focar.
E homens azuis dançarão na clareira
Sob lua nova, sob azul cegueira
Em volta daquela que por sete anos foi Luz e carne
Majestosa, poderosa e vil em sua arte.
Pois desde então elas os observará
Em seus sonhos histórias e lembranças lhe contará
E com sua Luz sagrada pelo caminho certo os puxará
A despeito do poder que a carne imporá.
A morte de um acordará seus poderes.
O sofrimento de outro legitimará sua pureza.
Os pecados do último, enquanto viveres
Abençoará os que vivem em eterna frieza.
As três almas, unidas desde o nascimento
Pela deusa Luz e pelo deus destino
Ferramentas dos espíritos até o firmamento
Acabarão na clareira onde o céu é cristalino.
Homens azuis dançarão em volta do amaldiçoado
Fantasmas hostis desejarão a carne do puro
Luz e Sombras aliviarão o atormentado
Mas o Grande Autor permanecerá obscuro.
Nenhuma batalha mágica será travada
Nenhuma rixa espiritual será resolvida
Será o fim da dourada jornada
Como uma vez foi-lhes prometida.
Pelas Sombras e pela Luz!
Unidas estarão, e pelo puro serão vistas!
Espíritos, fantasmas, Luz e Sombras, presentes como a cruz!
Esta será suas conquistas!
Pois erguer-se-á a mulher branca e sagrada
Que mais um milagre realizará
Confie nela, que será sua murada
Uma vez carne, carne para sempre sem nunca mudar.
Duas almas, eis que surge a esperança
De salvar a vida de uma pobre criança
Pois serão uma só, em dualidade
E assim, mais uma vez, o Verbo se fará carne.
Nick ouviu tudo com certo pesar. Largou a pedra e saiu de cima do misterioso e milenar rapaz. Os versos ecoavam em sua mente como palavras gritadas numa câmara, sinistros e cheios de desgraças.
— Rowan sabia de tudo isso quando eu implorei a ele uma resposta em Nova Orleans. E não me contou porque cumprir a maldita profecia era mais importante. Mas o que isso significa? — Pensou que fosse chorar de novo. — Lorenzo está morto. Nada disso aconteceu.
— Nada disso aconteceu? — ele perguntou sem acreditar, depois sorriu. Dentes muito brancos. Um inglês do século XV não teria dentes brancos de jeito nenhum, ele certamente consertou aquilo ao copiar o corpo. — Como pode dizer isso? Olhe onde estamos! Olhe o que está acontecendo! — Com cuidado, encostou os polegares nas pálpebras dos olhos de Nicholas. Eram duros, como se houvesse mármore sob a pele. — Nicholas, eu concedo-lhe o dom de ver a Luz. — Então os tirou. — Veja-a, ouça-a!
Ouviu tambores ao longe, bem ao longe, tocando uma melodia primeiramente melancólica, depois violenta e excitante. Figuras azuladas e disformes surgiram na clareira, aproximando-se gradualmente do centro, mexendo-se desajeitadas ao ritmo dos tambores. Montantes de Luz tentando desesperadamente adquirir o formato de homens, com mãos e pés que se arrastavam e se desfaziam initerruptamente. Assustado, Nick se arrastou com o rapaz ao limite da clareira, longe do corpo de Lorenzo e da árvore-totem.
— Sabe o que é, não sabe? — perguntou-lhe o rapaz com malícia. — A rainha sabia. Homens azuis dançam na clareira sob lua nova, sob azul cegueira. Dançantes, em volta do escuro. Descarnados, em volta do impuro. Venham, homens azuis! Esta noite a clareira é de vocês! Olhe para eles, Nicholas! Veja o que eles são!
Ela surgiu num brilho azul que vinha do alto, talvez da cúpula da árvore-totem. Sua figura era faraônica, celestial e arrebatadora. Rodeada de panos brancos esvoaçantes, ela desceu lentamente ao centro da clareira, pairando como um pássaro sobre Lorenzo. Seus cabelos eram brancos e compridos e mexiam-se como as cobras de Medusa. De seus olhos jorrava a Luz azul que agora preenchia toda a clareira. A mulher branca aparentava ser jovem e quase assexuada se não fossem pelo seios visíveis.
— As três almas — gritou o rapaz em meio ao ruído dos tambores —, unidas desde o nascimento pela deusa Luz e pelo deus destino, ferramentas dos espíritos até o firmamento, acabarão na clareira onde o céu é cristalino! Olhe para eles, veja o que eles são!
Fantasmas e espíritos que vagavam sem rumo surgiram dos pinheiros escuros. Figuras humanas desoladas e tristes, envoltas em película azul, aproximaram-se do corpo de Lorenzo, dos homens azuis que dançavam delirantemente em volta e de Elluryiel, que absorvia todo aquele poder em sua megalomania. Os tambores tocavam ensurdecedoramente, parecendo estar por baixo dos ouvidos de Nicholas. Vozes se juntaram a eles, vozes guturais que gritavam e berravam cacofonias de dor e desespero em meio àquele inferno iluminado. A mulher branca tocou espíritos com seus mil dedos de Luz, adorada em sua divindade, e os absorveu, um por um.
Os fantasmas, deixados de lado, gritaram em desespero e espalharam-se aleatoriamente pela clareira. Chocavam-se contra a árvore-totem ou ultrapassavam o limite e desfaziam-se ao baterem contra os pinheiros. Alguns olharam para Nicholas e seu medo refletiu-se em suas faces distorcidas de ódio. Eles tocaram sua carne quente com seus dedos gelados, mas o rapaz afastou-os violentamente com um gesto simples com a mão. A Luz não apenas estava nele como estava em Nicholas. A Luz o vestia. Nem por um segundo Nick pensou em como ele era imensa e infinitamente poderoso.
— Homens azuis dançarão em volta do amaldiçoado! — gritava alucinadamente. — Fantasmas hostis desejarão a carne do puro! Luz e Sombras aliviarão o atormentado, mas o Grande Autor permanecerá obscuro! Olhe para eles, veja o que eles são!
Sombras gradualmente deixaram a Floresta das Sombras e se acumularam na clareira. Nick as via com perfeição, névoa negra e roxo-escura extremamente densa que movimentava-se ao comando dos espíritos que Elluryiel absorvia. Ela tocou Lorenzo com seus dedos brancos, passando sua Luz para o pequeno corpo jogado ao pé da árvore-totem. Uma película azul surgiu desse dedo e o envolveu num casulo protetor. Os fantasmas enlouquecidos tentavam aproximar-se dessa figura luminosa que um dia havia sido uma criança. Eram repelidos com violência pela Luz, a força mais poderosa do universo, e pela mulher branca, que agarrava espíritos no ar e os engolia. A canção demoníaca, formada por vozes em sofrimento e tambores, ressonava e ecoava como num teatro. No céu, a escuridão deu lugar a uma nova cor inidentificável. A lua nova movia-se enlouquecida em movimentos circulares. Os sulcos que formavam o grande rosto da árvore-totem mexeram-se. Tantos sulcos, tantas rugas, como apenas um rosto velho. Ela berrou gritos guturais e primitivos que espalharam-se pela clareira.
— Nenhuma batalha mágica será travada, nenhuma rixa espiritual será resolvida! Será o fim da dourada jornada, como uma vez foi-lhes prometida! Olhe para eles, veja o que eles são!
A agonia da árvore-totem explicou-se: seus poderosos galhos começaram a desfolhar. Uma chuva de folhas escuras como petróleo que se desfaziam em flocos de neve ao atingirem o chão encheu a clareira, esmagando os fantasmas hostis. O corpo de Lorenzo havia se tornado uma massa de Luz azul em forma de menino sob a mulher branca, que com seus longos braços abertos tomou os espíritos que restavam com a ajuda dos homens azuis e os devorou. Eles berraram de dor, mas sumiram tão logo quanto apareceram. A Luz de seus olhos a envolveu e de repente ela não era mais branca, mas azul e resplandecente. Os homens azuis reverenciaram as duas massas alucinadamente, formando uma barreira impenetrável contra os poucos fantasmas que restavam.
— Pelas Sombras e pela Luz! Unidas estarão, e pelo puro serão vistas! Espíritos, fantasmas, Luz e Sombras, presentes como a cruz! Esta será suas conquistas! Olhe para eles, veja o que eles são!
O corpo azul de Lorenzo ergueu-se no ar em frente ao corpo azul de Elluryiel. Os dois brilhavam tanto que era quase impossível distingui-los um do outro. As Sombras e a Luz misturadas formavam uma densa nuvem sobre a clareira que tremia bestialmente. Os dois corpos de Luz se fundiram no ar num último e derradeiro berro dos homens azuis. Espíritos haviam sido devorados pela mulher branca e fantasmas finalmente se desvaneceram.
A árvore-totem rugia tão alto que seu som mal destoava dos trovões da nuvem. Estava nua, totalmente desfolhada, e seus galhos agora eram um emaranhado de espinhos monstruosos. Nick os viu desfazerem-se um a um, caindo na clareira com baques surdos, pois assim como as folhas viravam flocos de neve. Os homens azuis corriam em volta da única massa de Luz azul e pulsante no centro da clareira, tão rápidos eram em seu percurso que suas pobres formas humanas desfaziam-se completamente.
— Pois erguer-se-á a mulher branca e sagrada, que mais um milagre realizará! Confie nela, que será sua murada! Uma vez carne, carne para sempre sem nunca mudar! — O rapaz ergueu-se na neve e gritou a plenos pulmões numa voz alta demais para um ser humano: — Uma vez carne, carne para sempre sem nunca mudar! Olhe para eles, veja o que eles são!
O corpo de Luz absorveu a nuvem de Luz e Sombras que pairava sobre a clareira. A nuvem tornou-se um tornado e foi sugada pela massa, sumindo misteriosamente naquele mistura azulada. E então, ao tudo ser sugado, absorvido, estabelecido, incorporado e revivido, tudo cessou. Nicholas ficou momentaneamente cego quando uma explosão violenta deu forma à massa de Luz e dilacerou o tronco da árvore-totem. Quando se levantou, viu o rapaz ainda parado no mesmo lugar, como se nada o tivesse afetado. Em seu rosto, via-se delírio e perturbação. Da árvore-totem só restava um toco de tronco de um metro de altura, e não de largura imensurável como havia sido a árvore original de Elluryiel, mas um tronco simples de espruce. A clareira parecia muito menor agora. Os elementais haviam sumido ou sido comidos, Luz e Sombras desapareceram, o barulho infernal silenciara. O céu estava negro e a lua nova não se movia. Era Natal.
Na neve, além do toco, havia apenas um corpo caído. O de Lorenzo. Uma silhueta azul brilhante o circundava permanentemente.
— Duas almas — A voz do rapaz agora estava controlada e diplomática —, eis que surge a esperança de salvar a vida de uma pobre criança. Pois serão uma só, em dualidade. E assim, mais uma vez, o Verbo se fará carne. — Ele ajudou-o a levantar e pôs novamente os polegares em seus olhos. — Eu retiro seu dom de ver a Luz. Não precisa dele. Você é puro do jeito que é, sem truques mirabolantes por baixo da manga. Se não fosse, a profecia nunca poderia ser cumprida. Há muitos anos, pensei que falasse de Oliver Castanelli, mas não era ele porque não havia ferramenta que o ajudasse. A profecia era sobre Lorenzo. A ferramenta dele foi você. Mais uma vez, o Verbo se fez carne. A profecia citada pela Rainha Elizabeth I e por Gillian Pyatt, descendente de Atheneus, está cumprida. Bem, o que está esperando? Seu Lorenzo passa bem. Olhe para ele, veja o que ele é.
— Por que fica repetindo isso?
Não esperou resposta. Olhou para o corpo de Lorenzo. A silhueta azul sumira, assim como a aparência mágica da clareira. Agora aquele era apenas um menino normal jogado na neve. Vestia exatamente as mesmas roupas que usava ainda na cadeira de rodas, talvez não o suficiente, mas não importava mais porque já não nevava e o grande paredão de frio que pairava sobre o Vale e a Floresta parecia ter finalmente se dissipado. O som maligno dos tambores, por outro lado, ainda batucava em seu coração. Provavelmente ficaria lá para sempre. Tinha plena consciência de que nunca seria capaz de esquecer o que vira e de que isso poderia um dia levá-lo à loucura.
Mas não era hora de pensar em si mesmo. Ajoelhou-se ao lado de Lorenzo e ergueu a cabeça de seu irmão cuidadosamente. Não pela primeira vez na noite, Nicholas espantou-se com o que viu. Quase deu outro grito. Nos últimos meses, a magreza extrema havia devorado seu corpo, mas agora era como se ele nunca houvesse tido câncer ou quase morrido de inanição. Suas bochechas estavam cheias e coradas, a pele das costas das mãos perdeu o tom azulado e as veias deixaram de ser visíveis.
Ele até parecia mais pesado.
No entanto, a cor da pele era apenas um pouco mais escura que a cor da neve. Lorenzo sempre fora pálido, mas aquilo era absurdo.
Oh, e talvez o mais importante de tudo, ele respirava.
— Ele está vivo! — gritou para o rapaz, mas quando foi ver não havia ninguém ali. Nem pegadas no chão. Ele havia sumido. Seria possível que fosse coisa de sua mente? Talvez sim. Já sentia-se ficando um pouco louco ao descobrir que o irmão que morrera em seus braços estava vivo.
Pode ser que na verdade eu esteja trancado num manicômio em Middleland e a jornada dourada nunca tenha acontecido.
Jornada dourada. Estava na profecia de Gillian. Mas que nome brega. O que Rowan dissera, meses atrás? Não há nenhum ser humano nesta casa, nesta cidade ou no mundo inteiro que possa salvar a vida de Lorenzo. Bem sutil. Nick deveria ter notado a semântica. E também havia: o destino dele já está escrito nas estrelas há muito tempo.
Como pensara, truque ilusionista de ianque.
Quando Nicholas olhou para o rosto de Lorenzo outra vez, foi para piscar os olhos três vezes. Pensou que o que via era uma ilusão de ótica causada pelo reflexo da luz da lua contra a neve. A raiz dos cabelos muito negros e ligeiramente longos que Nick tanto amava estava clareando com uma lentidão que tornou-se rapidez. Não cinza-claro, como seria esperado, mas algo em torno do branco. Logo metade de seu cabelo estava como o de um habitante do Vale das Sombras. Não ousou gritar, já gritara demais com a árvore-totem que não existia mais. Mas observar com pavor o que estava acontecendo não pioraria nem melhoraria sua loucura crescente.
Louro-prateado, igual aos cabelos de Oliver ao sair da Floresta das Sombras. Se mudasse o ângulo, passava de branco a cinza à cor da gema do ovo. Nick tocou naqueles fios macios e perfeitos com cuidado. Eram tão macios e lisos quanto um dia foram os seus, mas a textura mudara um pouco, não mudara? Já tocara nos cabelos de Oliver para comparar? Não lembrava. Mas sabia quem lembraria. Ethan. Ethan lhe daria as respostas.
E por que tinha a assombrosa impressão de que se os cortasse fora com uma tesoura, voltariam a crescer em uma noite?
Ele se remexeu em seus braços, gemendo como uma criança que dormiu demais e acordou desorientada querendo os pais. Nick estava ali para suprir o papel do pai que nenhum deles tinha. Queria tanto aquilo. Alguém para protegê-lo. Bobagem. Concentre-se, Nicholas.
Seria possível que seus olhos estivessem…?
— Lorenzo — sussurrou com toda a doçura que possuía em seu coração entristecido. — Lorenzo, meu Lorenzo. Você me ouve?
Ele balançou sua cabeça loura num movimento impossível de ser interpretado. Não seria de grande importância para ele ter cabelo louro por motivos óbvios. Mas como explicariam aquilo para seus milhões de fãs? Diabos, como explicariam que houvesse sobrevivido ao câncer?
Nick olhou para o céu limpo e viu estrelas. Agradeceu a elas. Quando olhou para baixo, para seu Lorenzo, elas estavam nos olhos dele.
Dessa vez o grito foi inevitável. A única diferença é que não eram brancas, eram azuis, mas ardiam como as do céu. Os mesmos olhos que Oliver possuíra. Os mesmos olhos que fecharam-se para sempre há cinco anos numa rua deserta agora abriam-se. Os olhos de Elluryiel. Nicholas finalmente compreendeu o sentido do verso bíblico da profecia. O Verbo, o espírito da mulher branca, se fez carne quando se fundiu à alma da criança.
Lorenzo gritou. Não de susto como Nick, mas de pavor absoluto e medo irrefreável, do tipo que um ser humano só é capaz de dar quando sabe que vai morrer e nada mais tem a perder. Ele se debateu em seus braços e se encolheu contra o trono de espruce, sem nunca fechar os grandes olhos azuis que agora estavam maiores que nunca. Fitava Nick.
— Eu sei que não é todo menino de onze anos que tem o prazer de morrer e voltar à vida, mas vamos lá, Ethan não gritou como uma menininha. E olha só… eu acho que esse cabelo loiro ficou bem charmoso.
Tendeu se aproximar, mas ele se encolheu mais. Uma luz cresceu dentro da mente de Nick, só uma dúvida, uma bem absurda, mas que mesmo assim precisava ser sanada porque não havia som na clareira e mesmo assim Lorenzo reagira a sua aproximação. Ergueu a mão direita silenciosamente. Os olhos azuis estavam fixos àquela mão. Devagar, moveu-a para a esquerda, e para a esquerda foram os olhos azuis. Moveu-a para a direita, e para a direita foram os olhos azuis.
Nick gritou novamente, uma coisa estridente e efeminada da qual viria a se arrepender mais tarde, mas não se importou com aquilo no momento porque todo o seu juízo só tinha espaço para uma verdade: sua suposição, aquela louca e absurda, estava certa.
— VER! — berrou para a clareira e para os pinheiros em volta. Lorenzo gritou novamente e se encolheu mais. — VOCÊ PODE VER!
Ethan Lemnsack foi acordado na madrugada de Natal de um pesadelo. Imagens de horror pululavam em sua mente, mas não conseguia visualizá-las por mais que tentasse. Sabia que faziam seu coração pular na caixa torácica e sua respiração ficar descompassada. O container que era sua casa há quatro meses tornara-se ainda mais opressor.
O que mais esperar? Samuel havia lhe avisado.
Algo fantástico está para acontecer com seu meio-irmão. Acontecerá no Natal, no lugar onde a neve é sempre branca e as árvores têm ouvidos. Em volta de uma clareira, homens azuis dançarão sob duas luzes: a que é branca e a que é azul. Sombras serão expulsas.
O que pensar dessas palavras enigmáticas dita-lhes por um fantasma num sonho? Ou não apenas um sonho. Ninguém tinha sonhos tão vívidos os quais lembrava por meses, ou seja lá qual fosse o tempo dentro do container. Ethan limitava seus dias às refeições que recebia, mas houve um momento em que simplesmente perdera a noção do tempo. Contar os dias sem ponto de partida era de enlouquecer. As luzes do container permaneciam ligadas o tempo todo e o barulho das máquinas era infernal. Por algum tempo pensou que perderia o juízo.
Pensar. Essa era a coisa que mais fazia atualmente. A humanidade deveria ser avisada desde o nascimento que ficar sozinho com os pensamentos por tempo demais fazia mal. Ethan começou a pensar em toda sua trajetória de dezenove anos, desde o nascimento em Castellobranco até aquele container. Pensou em Jules, Robb e Gabriel, um por um, e em como acabara traindo cada um deles — exceto Jules, mas não tinham nem três horas de namoro quando Ethan foi sequestrado. Pensou em Nicholas e Lorenzo, seus dois irmãos e amantes, e em Amy, sua amiga e uma vez amante. Gostaria de ter tido a chance de vê-la novamente.
Sua amada empresa, Anhert Corporation, estava caindo aos pedaços com a destrutiva administração de Melchior. Ethan ficara de coração partido ao ver os contratos milionários que foram recusados pela vice-presidência com justificativas ridículas. Recentemente ganhara uma irmã, uma bebê medonha de olhos violeta chamada Violett. Ethan teve uma impressão ruim sobre aquela criatura desde que a vira pela primeira vez. Além de Melchior ninguém mais tinha as cores completas da família Chioren.
Também pensava no terceiro aviso de Samuel, sobre Nicholas ser descendente de John Daniel através de uma linhagem ilegítima. Muito surreal que essa linhagem tenha acabado ao lado dos Hentz no momento menos oportuno possível, mas desde quando Ethan lidava com verossimilhança? Era perfeitamente possível que fosse verdade. Se sobrevivesse, mandaria o DNA de Nick a laboratório para exames mais profundos que determinariam se ele era parente de Ethan ou não. Eles conseguiam fazer aquilo nos dias de hoje. Que mundo maravilhoso, esse que a gente vive.
— Por favor, coma — pediu-lhe Honey oferecendo um garfo que Ethan recusou virando a cabeça. Café-da-manhã. Panquecas com mel e calda. Morte aos diabéticos. — Você está emagrecendo demais. Sua saúde vai piorar. Pelo menos beba a água.
Ethan não falou nada. Sabia estar experimentando a depressão que Lorenzo e Nick já experimentaram em diferentes momentos após eventos traumáticos.
— Quero saber que data é hoje — sussurrou. Não era a inanição que o enfraquecia, era o confinamento. A solidão. O fato de Honey ser a única pessoa com quem falava não o tornara dependente dele, contrariando as expectativas. Ethan nunca fora dependente de ninguém.
— Estou proibido de dizer-lhe.
— Também está de falar comigo. E aqui estamos.
— Está com raiva de mim? Sou eu quem mantém Devon longe de você!
Nenhuma resposta. Qual era a sensação do silêncio, Honey?
Ele suspirou.
— Cento e quarenta e cinco dias — respondeu fatigado. Ethan olhou para seus olhos castanhos e seu cabelo preto em forma de capacete. — Você está confinado há cento e quarenta e cinco dias. Soube que é bom em matemática. Faça os cálculos e coma sua comida.
Ele aproximou outro garfo de sua boca. Dessa vez Ethan aceitou, mas sua mente estava longe. Que menino brilhante, que menino teimoso. Respondera sua pergunta sem quebrar as sagradas regras. Ethan fora sequestrado no dia 27 de agosto. Isso mais cento e quarenta e cinco dias… sim, suas suspeitas estavam corretas.
— Feliz Natal. — Sorriu. — Eu gostaria de beijá-lo. Quer que eu o beije, Honey? Sabe que eu seria melhor que Devon. Pode me dizer outra coisa? Responda em enigmas, se quiser. Estamos no Canadá? Colúmbia Britânica? Perto de uma colônia francesa chamada Vale das Sombras? Obrigado, sua expressão já respondeu. Pode me dar o garfo, eu como sozinho.
Ethan comeria sozinho em honra daquele Natal, porque sabia que algo fantástico acontecera. E se suas memórias estivessem corretas, sabia exatamente o que era e com quem porque, um dia, numa época passada, o Caçador de Sonhos lhe havia contado.
Aquele lugar chamado Vale das Sombras a estava arrepiando.
Liane Chamrey tinha lembranças daquele lugar as quais queria esquecer, de quando ainda não tinha aquele nome, e sim um já esquecido. Ficava feliz ao ver que os homens com os quais um dia conversara não a reconheciam. Na verdade, por esse motivo se aproximou do prefeito no estacionamento em Kamloops.
Deveria ter previsto aquilo. O Vale das Sombras, o local mais recluso que Nicholas Hentz conhecia, ser seu esconderijo com seu irmão e os dois curiosos garotos com quem viajava era um tanto óbvio. Não previu, mas descobriu antes de Devon. Ele nem sabia que ela estava no Canadá. Ainda estava na região dos Grandes Lagos, pensando que sua valiosa Liane voltara à Califórnia para acalmar a oitava mulher mais poderosa do planeta.
Melinda ficaria feliz com a notícia. Feliz Natal, família Lancaster. Sua propriedade em Sacramento, uma mansão colossal, reunia hoje centenas de Lancaster para festas de fim de ano. Mas ainda não deviam voltar à Califórnia. Como Cornelius dissera, 31 de dezembro e nada antes. Precisavam esperar que os amigos poderosos de Melinda se juntassem antes de assassinarem um por um. Seria uma beleza.
Liane se encontrava na prefeitura do Vale das Sombras, comandando dezenas de agentes de longe. As regras eram claras. Neutralizem os quatro de forma discreta sem chamar a atenção dos moradores. É claro que vários homens de terno andando sobre a neve chamaria atenção, mas não era problema de Liane. O prefeito teria seu dinheiro.
Mandara seus homens ao norte no momento em que terminou a ligação. Depois de ficar surpresa por ver que aquele lugar tinha telefone, recebeu a notificação de que apenas três dos quatro meninos saíram da casa. Não, não era a hora. Sigam-nos e descubram para onde vão, fiquem de olho no quarto. A festa acabou e o quarto, o rapaz alto de cabelos compridos, ficou sozinho do lado de fora, provavelmente se perguntando para onde foram os outros. Após um agente enfiar uma seringa em seu pescoço e apagá-lo, foi levado para o caminhão de Liane que esperava na entrada do Vale.
Como sempre, discreta e sutil.
Então o loiro que não era Nicholas deixou a última casa da esquerda. Procurou seu amigo alto por alguns minutos quando percebeu que a casa do prefeito estava vazia. Parecia ser inteligente, não levaria muito tempo para perceber que algo estava errado. Mas antes que seus agentes pudessem capturá-lo, Nicholas apareceu correndo esbaforido. O outro gritou com ele e se afastou para o sul, enquanto Nicholas voltou à última casa da esquerda.
Os agentes de Liane o capturaram com facilidade assim que passou das reservas. Agora estava preso no mesmo caminhão que o rapaz alto.
Tomou um café forte para se revigorar. Há quanto tempo não tomava uma refeição decente? Tampouco podia se dar ao luxo de dormir, não durante tempos tão sombrios.
— Sra. Chamrey — falou uma voz vinda de um dos microfones acoplados ao computador. Aquele hotel acima da prefeitura possuía uma atmosfera tão bucólica e tranquila. O quarto dos meninos estava impecavelmente arrumado. Quem diria que Ethan conseguiria colocar algum jeito em Nicholas. — Eles estão lá há mais de uma hora.
— Não invada — respondeu calmamente. Estava nervosa, tão nervosa, com a morte de Lorenzo e tudo mais. O momento não era propício. Precisava agir como um general. — Nicholas está esperando que seu irmãozinho morra. Vou dar-lhe essa oportunidade. Alguma hora ele vai sair. Não vai aguentar ficar perto de um cadáver.
Sim, ele não aguentaria, não depois de tudo que passou. Esperava que não deixasse a casa com o corpo de Lorenzo, ou sua captura seria duas vezes pior do que tinha que ser.
Liane Chamrey pegou o celular, mas não havia sinal externo naquele fim de mundo. Cornelius, Melinda e Devon podiam ser avisados depois. Melinda ficaria empolgada ao receber a notícia que assinaria sua sentença de morte. Até o final do ano, a Califórnia perderia uma governadora, dois ministros, três parlamentares e uma senadora. A praga Lancaster já ia longe demais e era hora de pôr um fim nisso.
— Há movimento dentro da casa — disse a voz.
— Quero que um agente se aproxime antes que ele consiga deixar o perímetro da propriedade. Ponha-o agachado por baixo das janelas frontais. Quando Nicholas sair, apague-o imediatamente. Os outros só devem se mover quando ele desmaiar. Peguem-no de surpresa. Sequer deixem-no perceber o que está acontecendo.
Um tabuleiro de xadrez em que Nicholas era o rei e os agentes de Liane os peões. E a própria Liane… a rainha, pura e simplesmente.
— Sim, senhora, mas… ele não está sozinho. O outro garoto está com ele. E não numa cadeira de rodas. Ele está andando.
Muito antes, ainda na escuridão e quietude enlouquecedoras da Floresta das Sombras, Nicholas Hentz estava jogado de joelhos no chão, estupefato demais para falar. Sua mente estava afundada num torpor tão violento que por vários segundos ignorou tanto os gritos de pavor que seu irmão dava descontroladamente quanto o fato de que tremia de frio. Se houvesse uma montanha nevada por perto, aqueles gritos teriam facilmente causado uma avalanche.
Algo o despertou. Letargicamente, voltou a focalizar Lorenzo Barcarolli que, encostado ao tronco, debatia suas pernas finas contra a neve, criando montinhos chutados. Mantinha seus terríveis olhos de gelo arregalados. Via. Era como olhar para Oliver, tudo novamente. Que sensação mais horrível.
— Lorenzo. — O nome saiu pausadamente de seus lábios. Fez questão de se aproximar, mas ele gritou de novo. — Meu Deus, pare de gritar!
Ele tentou. Seus dentes tiritavam de medo. Era de dar pena.
— V-Você não entende — gaguejou em seu adorável sotaque italiano tentando manter-se controlado. Que voz incrivelmente linda, e quando cantava tornava-se o coro de um anjo. Nick pensou que nunca mais teria a chance de ouvi-la. Que grande desperdício. — E-Eu nunca vi antes. Essas coisas que vejo. Eu… não sei o que são! Eu não sei associar o sólido ao existente! Eu não sei o que é o quê! Quando você se aproxima, meus instintos me dão uma sensação de perigo porque eu não sei distinguir coisas. Tudo isso está me apavorando!
— Então… feche os olhos!
Uma solução tão simples que ele nem considerara por estar com medo demais, como quando vemos algo vindo em nossa direção e não conseguimos desviar. Lorenzo apertou as pálpebras o máximo que conseguia. Bem criança. Segundos de quietude se passaram antes que ele estivesse calmo o suficiente para se levantar. Puxou o casaco para cima e ajeitou as calças com elegância. Bem aristocrático. Suas roupas estavam encharcadas da neve. Ele teria que tirá-las antes que elas o congelassem.
— Certo. — Respirou fundo, controlando o nó na garganta. — Certo, muito melhor. — Agachou-se e tateou o solo cuidadosamente. Agarrou um galho pontudo e levantou-se com a dignidade de um lorde. — Pegue isso.
— O que quer que eu faça com isso?
— Enfie-o nos meus olhos. Arranque-os fora.
— Pelo amor de Deus. Nem por um segundo achou que eu faria isso, achou? Largue essa coisa. Olhe só para você. Suas pernas funcionam. Você sempre ficou tão bem em calças skinny. Você… você voltou. — Se aproximou de novo para abraçá-lo, dessa vez não foi repelido. Apertou-o tão forte que acreditou ser capaz de ter quebrado suas costelas se ainda estivesse no estágio final do câncer. Os corações batiam em sincronia, fortes como tambores. Lorenzo também o apertava de volta, claramente aliviado e ligeiramente emocionado. Como seria a sensação de ser apertado por braços tão protetores que moveriam montanhas por ele? — Olhe para você, para seu rosto, tão corado e saudável.
Apesar da brancura que agora cobriria sua pele para sempre, uma leve cor rosada tomava-lhe as bochechas e nariz. O poder frio de sua face sumira. Ele não era mais uma estátua como quando morto, nem um fantasma como quando vivo. Era algo que Rembrandt pintaria.
— Eu me sinto corado e saudável. — Sua voz pura de falsete ecoava infinita na clareira. — Eu posso ficar em pé e isso é maravilhoso. Nunca respirei tão bem ou pensei com tanta clareza. Sinto-me melhor do que antes de ter câncer e meus poderes voltaram. Posso notar perfeitamente que essa clareira é praticamente feita de Sombras. Sinto-me capaz de explodir uma árvore com o pensamento. Falando em árvores, tenho certeza que elas estão tentando se comunicar conosco, mas não conseguem porque estamos nessa clareira amaldiçoada. Mas não posso ver agora, Nick, eu simplesmente não posso ver. Estou assustado.
— Deixe-me ver o que posso fazer.
Não havia nada que pudesse usar para cobrir os olhos dele a não ser suas próprias roupas. Enfiou as mãos por baixo dos casacos que vestia por cima da camisa e rasgou um pedaço longo da barra. Usou o tecido para vendar o irmão, rodeando sua cabeça com ele e atando com um nó firme.
— Assim está melhor. Cego como sempre. Obrigado.
— Lorenzo… você lembra o que aconteceu?
A lua nova brilhava intensamente no céu, expulsando um pouco da frieza e da escuridão da Floresta das Sombras. Os cabelos de Lorenzo tinham a cor dos limões, alternando entre o branco da neve e o tom claro de cinza que seus olhos uma vez possuíram. E como Nick desejava olhar novamente para aqueles olhos de agora. Mas não era hora. Talvez de manhã. Que manhã melhor para aprender a enxergar que na manhã de Natal?
— Um pouco — respondeu quietamente, como se não quisesse falar sobre aquilo. — O suficiente. Mas a maior pergunta é: você sabe o que aconteceu? Comigo? Com ela?
— Eu sei. Eu vi acontecer. A Luz transformou seus corpos em massas que se fundiram com a ajuda dos homens azuis. Ela devorou espíritos para se tornar forte o suficiente para se unir à sua alma. Fantasmas que vagam por essa floresta viram acontecer e tiveram inveja de você. Ficaram bem hostis. Tive ajuda para ver a Luz. Aparentemente havia uma profecia falando sobre essas coisas. Eu conto-lhe os detalhes quando voltarmos à prefeitura. Oh, como Lincoln vai reagir quando vir você? Ele nunca acreditaria. E Pan? Ele conheceu Oliver, sabe o que houve a ele. Mais ou menos. E quando ele vir seus olhos e seu cabelo? Ele está branco, igual ao de Oliver.
— Vamos discutir essas coisas depois. Meu casaco tem capuz, pode cobrir meu cabelo. Branco, você diz? Combina comigo? Deixe para lá. Estou morrendo de frio. Leve-me embora daqui.
Nick olhou em volta da clareira. Havia um caminho livre entre pinheiros, um escuro e convidativo. Elluryiel deixara-o livre para que eles soubessem qual pegar. Não morreriam de frio àquela noite, nem morreria Nick de depressão, pois seu amado irmão Lorenzo estava vivo, saudável e podia ver!
Aproveitou e deu um tapa em sua cabeça. Ele resmungou de dor.
— Isso é por ter dormido com Ethan.
— Você sempre escolher os momentos mais inoportunos para me disciplinar. Desculpe-me ter dormido com ele. Não sei o que deu em mim, Ethan me atrai de uma forma inexplicável. Não tem a ver com a aparência porque, se você não percebeu, até então eu era cego. É a força que ele irradia. O cheiro almiscarado que ele exala quando dá ordens. Você não percebe isso, mas eu percebo. Isso é como um feromônio. Por meses não consegui pensar em nada além de dormir com Ethan. Acho que desde o acidente de avião no nosso prédio que nos fez mudar para Jardim de Ouro. Ele foi me buscar no meu quarto e estava nu. Eu não sabia o que era aquele calor que ele me fez sentir, mas agora eu sei. Desculpa. Prometo não fazer novamente.
Chegaram a uma parte aberta da floresta, a lua iluminando seu caminho. Nick praticamente refez todos os passos que deu para chegar à clareira. Quanto será que caminharam?
— Eu entendo. Sei como é a sensação. É difícil resistir a ele. Sinto-me atraído por Ethan desde os treze anos, quando ele moveu montanhas para ganhar minha guarda. Eu sabia o que era, mas fiquei com medo de tentar algo. Na verdade, acho que tenho esse desejo desde criança. Ethan é um garoto e tanto. Mas para mim tem muito a ver com o corpo dele.
— Você é tão engraçado. Se você diz isso, será que agora poderia considerar meu singelo conselho de que se vocês trepassem mais, brigariam menos? Você o quer. Eu o quero. Nós nos queremos. Ele nos quer. Ele sempre quer garotos novos demais para ele.
Nick levou algum tempo para responder.
— Não sei. Talvez. Vou pensar nisso. Provavelmente não haveria sexo melhor e mais delicioso que o meu com Ethan.
— Haveria — murmurou com um leve toque malicioso na voz que só ele sabia impor. — Oh, com certeza haveria. Você vai ver. Assim que tudo acabar e nós o encontrarmos num quarto sozinhos, só nós três, eu vou mostrar a vocês dois que há um sexo melhor e mais delicioso, sim.
Cornelius Goldenschild foi acordado por seu telefone privado antes do amanhecer no Château de Wintorland, mas isso não chegou a incomodá-lo. Nos últimos dias, andava dormindo e acordando cada vez mais cedo. Quanto mais você envelhece, menos sente necessidade de dormir, pois afinal vai estar dormindo para sempre daí a algum tempo. Seus parentes já cuidavam dos negócios.
— Os quatro foram capturados — disse uma voz feminina sem se identificar. — Estou no Canadá, numa colônia francesa chamada Vale das Sombras. Devon e Melinda já foram informados. Devon está vindo para cá. Melinda quer que viajemos para Sacramento imediatamente. Devon quer se divertir com eles antes.
— Seis dias — sussurrou ainda deitado em sua suntuosa cama que um dia dividira com a esposa Sybil. — Segure-os por seis dias. Prometa a Melinda que ela mesma poderá decapitá-los. Causarei algum distúrbio para ocupá-la. Dê alguns corpos para Devon para que ele se divirta. Torture os meninos para agradar aos dois, mas não os enlouqueça e tome cuidado para que não cometam suicídio. Como está Lorenzo? Ele ainda vive?
— Não pergunte sobre Lorenzo. A coisa é inacreditável. De qualquer forma, Ethan está com Honey em Vancouver, no estacionamento da Transportadora Chrysler. Vou levá-los para lá, mas Honey não vai saber disso. Eles não vão chegar a se encontrar até voltarmos à Califórnia.
— Excelente. Vou aprontar o necessário com meus parentes. Posso fazer no máximo dois caminhões da Transportadora Chrysler passarem pela fronteira sem revistas. Ponha-os nesses caminhões. A segurança de Melinda será substituída por homens nossos. O Primeiro Ministro terá planos de ocupar os ministros, parlamentares e senadores durante as festas de fim de ano ao ponto que eles só poderão se encontrar com Melinda no Ano Novo. A política da Califórnia sentirá falta daqueles Lancaster. Falo com você depois.
— Obrigada, Cornelius.
— De nada, Liane.
Cornelius desligou o telefone, pensando com sua mente calculista. Por semanas o Presidente dos Estados Unidos, um republicano, lhe ligava pedindo sua opinião sobre invadir um país africano cujo governo estava em guerra contra um grupo rebelde. O Partido Republicano achava que sim, o Partido Democrata achava que não. A mídia americana, dividida entre conservadores e liberais, dividira também a opinião pública. Cornelius nunca retornara suas ligações. Agora retornaria com um sim.
Quando o presidente tomasse sua decisão e pedisse o apoio do Primeiro Ministro da Califórnia, do Partido Trabalhista, este lhe ligaria pedindo sua opinião. Cornelius responderia que não ao ministro. Ao mesmo tempo, o conglomerado midiático da família Goldenschild induziria a opinião pública californiana a um sim. O governo ficaria dividido entre o conselho dos poderosos que não queriam guerra e a opinião do povo que estava sedento por carnificina. No fim, como Cornelius sabia, a vontade do povo prevaleceria e a Califórnia daria seu aval.
Isso manteria as governadoras ocupadas ligando para parlamentares e senadores, rearranjando relações e fazendo acordos por tempo suficiente para Melinda esquecer os Hentz. Afinal, a última coisa que um político quer é perder o apoio popular. Melinda planejara exercer mais um mandato como governadora antes de se candidatar ao posto de Primeira Ministra quando Redford Bellafonte ainda estava na jogada, pois era claro para todos que ele assumiria o posto em 2018. Com Bellafonte preso, 2018 ficara livre para ela.
Por causa dos Hentz, um país africano seria invadido. Quanta doçura.
Começou a pensar nos nomes dos suplentes dos políticos que seriam assassinados dali a seis dias. A Governadora de Northeria, o Ministro da Defesa, a Ministra do Tesouro, três parlamentares, dois pelo Condado de Westeria e um por Southeria e uma senadora pelo Condado de Easteria. Todos do Partido Conservador, eram contra a legalização da maconha, o desarmamento e achavam bonito crianças rezarem em escolas públicas. Fariam falta. Cornelius teria que cuidar de seus suplentes. Precisava de seus segredos e precisava conhecer suas personalidades. Não era coisa fácil chantagear um político californiano, quanto mais um Lancaster.
E quanto aos ministérios vazios, novos ministros seriam imediatamente nomeados pelo Primeiro Ministro. Não era problema. Essa era a beleza do parlamentarismo. Tudo acontecia depressa demais.
Tinha que dar alguns telefonemas. Através de um botão no telefone, chamou seu assistente pessoal, um jovem alemão louro e entusiasmado chamado Erik von Goldenschild, seu sobrinho distante.
— Chamou, Sr. Cornelius? — ele indagou minutos após colocar a cabeça para dentro do quarto. Erik não parecia dormir nunca. Agora que pensava, Cornelius nunca lhe apresentara nenhum quarto desde que seu primo do ramo alemão dos Goldenschild pediu que acolhesse o jovem como aprendiz. Ele queria ser banqueiro. Estava estudando para ingressar na Universidade Goldenschild, uma universidade privada em Northeria fundada há um século por um petroleiro filantropo chamado Fitzgerald Goldenschild.
Falando em quartos, era estranho saber que o ouro incrustado nas paredes daquele cômodo financiaria um ano de pesquisas contra o câncer.
— Chamei. Quero que marque reuniões com Marcel, Vernon, Elroy, Hans e Evelyn. — Vernon controlava o grupo midiático Goldenschild, Evelyn era diplomata, imune e intocável como um rico num país de Terceiro Mundo, Marcel era dono de uma empresa que treinava e fornecia equipes de segurança a metade dos políticos do país, Elroy e Hans tinham negócios com armamentos e produção de explosivos. Estavam na Califórnia por ocasião de uma reunião do G8 que acontecia em Sacramento. — Hoje, se possível.
— Sim, senhor. Vou preparar-lhe o café-da-manhã. Gostaria de um charuto enquanto espera?
Cornelius quase respondeu que sim, mas já era hora de parar. A quimioterapia começara e o estava destruindo lentamente. Não havia mais sentido em fumar considerando que não lhe dava mais prazer. Não devia ter aprendido com Samuel, catorze anos atrás? Um infarto no meio de uma reunião aos setenta anos. Tão jovem. Cornelius fora a seu enterro em Middleland, em junho de 2000. Cemitério Santa Rosa, no jazigo da família Hentz, onde dois grandes homens descansavam em gavetões de pedra.
Fora a primeira vez que entrara em contato com sua bela filha de vinte e sete anos, Mary Alice, e seus dois netos, um menino de quatro anos chamado Ethan e um grande bebê de dois anos chamado Nicholas. Mary Alice foi CFO, diretora de finanças, da Kruger-Vorheel Company até o dia 4 de junho, quando um infarto fulminante automaticamente a elevou ao cargo de presidente, diretora-geral e CEO de um dos maiores conglomerados do mundo. Os homens com quem Samuel conversava na trágica reunião eram engenheiros japoneses que queriam construir uma cadeia de hotéis japoneses na Califórnia. Em um momento Samuel andava de um lado para o outro em seu escritório na sede da Kruger-Vorheel dizendo como diminuir custos de construção e maximizar lucros e no outro estava jogado no chão, morto. Rezava a lenda que assim que os japoneses o viram morto, um virou-se para o outro e disse: qual é mesmo o nome da filha?
Literalmente de um segundo para o outro Mary Alice Hentz passou de princesa para imperatriz. A mídia sensacionalista ficou polvorosa. Todos queriam saber sobre ela, sobre os antepassados de seu bonito e misterioso marido e sobre as belas crias que os dois fizeram.
Cornelius lembrava-se de ter se aproximado dela na recepção após o enterro de Samuel em sua antiga casa, uma propriedade num condomínio de luxo chamado Magellanic. Cornelius imediatamente compreendeu Mary Alice como uma mulher que gostava de ir direto ao assunto e que não era do tipo que derramava mais lágrimas que o necessário. A morte do pai havia sido digerida, agora era agradar os poderosos com sorrisos e apertos de mão. Dispa-se desse seu rosto jovem e louro e assuma a posição de uma presidente. Olá, Sra. Hentz. Sou Cornelius Goldenschild. Se os Goldenschild romperam com a Kruger-Vorheel no passado, o que nos impede de estabelecer novas relações nesse novo milênio?
Cornelius foi provavelmente a primeira pessoa a saber do plano maligno de Mary Alice de dividir a empresa dos Hentz e jogar até a última de suas ações na Bolsa de Valores. Talvez por isso tivesse sido o maior comprador dessas divisões e o que saiu com os maiores lucros no cataclismo mundial que a venda da Kruger-Vorheel causou. Informações privilegiadas de contatos privilegiados. Mary Alice não se saiu pior. Desenvolveu a maior fortuna jamais possuída por uma mulher em toda a história. É claro que depois doou metade dela de uma vez, mas não era essa a questão. Ethan merecia aqueles sessenta bilhões de dólares, mas às vezes era bom começar de baixo.
— Sr. Cornelius? — repetiu Erik tirando-o de seus devaneios. — Gostaria de um charuto enquanto espera o café-da-manhã?
Era gostoso pensar que os membros da família Goldenschild comunicavam-se com Erik duas vezes por dia para saber se Cornelius já começara a perder a sanidade. E quando alguém falava com ele, estando imerso em lembranças, achava que finalmente era hora de pô-lo num asilo até que Cornelius viesse com um conselho genial que ninguém mais poderia ter pensado. É, ainda não era sua hora. Quando fosse, o mundo seguraria a respiração para ver quem herdaria o poder e o que pretendia fazer com ele. Precisava nomear um sucessor. Ethan estava fora de cogitação. O Banco Goldenschild precisava de um Goldenschild. Por que não uni-los aos Hentz por casamento? Seria mais fácil se os Hentz não fossem tão jovens e não apreciassem tanto a companhia do mesmo sexo. Não era nenhuma aberração.
— Não, Erik. Jogue-os fora. Não, melhor, fique com eles para você. Se algum dia quiser ser como eu, deve desenvolver câncer de pulmão na velhice através de charutos cubanos. Agora vá. Deixe-me só.
Deixe-me só com minhas reminiscências, pois depois de noventa anos de vida são tudo o que me resta. Talvez entregasse aquela casa a Ethan. Ele não expressara desejo de abrir um museu? Que lugar melhor que uma mansão difícil de morar e impossível de manter, onde tantos já viveram e morreram infelizes? Talvez o Diamante Hentz encontrasse espaço ali.
Cento e cinquenta e um dias de cárcere, considerando que Ethan seria liberto em 31 de dezembro. Sobrevivera. Nada surpreendente vindo de um neto de Samuel. Nada podia dar errado. A guerra que os Estados Unidos estavam prestes a criar injetaria bilhões na indústria de armamentos Lancaster, Lancaster Army, e se Melinda não fosse morta antes assumiria o posto de Primeira Ministra em 2018, a primeira mulher a ocupar o cargo, ou talvez antes considerando que o Partido Trabalhista poderia muito bem forçar Clarke Heath a renunciar por apoiar a guerra. Isso seria abominável.
Porque significava que se Cornelius falhasse em matar os Lancaster, poderia ter colocado Melinda na liderança de quarenta milhões de californianos, no controle de dois trilhões de dólares de produto interno bruto e, basicamente, aumentado seu poder em dez milhões de vezes.
Ele acordou com uma insuportável pressão na nuca, do tipo que se sente ao acordar com um desagradável torcicolo. Estava deitado em alguma espécie de chão de metal frio que volta e meia tremia e chacoalhava. Tentou se levantar, seus tornozelos e pulsos estavam amarrados com cordas. E como se não bastasse também haviam enfiado um saco de tecido grosseiro em sua cabeça.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Nicholas mexeu a cabeça tanto quanto ousou para tirá-la de dentro do saco. Estava com enxaqueca. Pensou que fosse vomitar de dor, mas ao se livrar do saco e sentar-se desajeitadamente, encostou-se na parede mais próxima e pôs sua respiração num ritmo constante e longo. Ajudava a afastar o enjoo. Feche os olhos para facilitar. Estar em movimento e ficar olhando para um ponto fixo ao estar enjoado é pedir para vomitar.
Levantou a cabeça, respirou fundo mais uma vez e abriu os olhos lentamente. Não viu nada. Um breu total. Mas ouviu algo além do barulho óbvio de um veículo pesado na estrada. Era um menino jovem gemendo da mesma forma que ele gemera antes de tomar consciência das coisas. Lorenzo.
Nos pegaram, pensou com amargura, estranhamente despreocupado. É o fim. Vão ter que enfiar uma granada na garganta de Lorenzo para conseguir matá-lo, mas é o fim.
Com alguma dificuldade, Nick passou os pulsos amarrados por baixo do corpo, uma das maravilhas de ser tão magro e atlético, e seguiu o som de gemido. Sim, como pensava, seu Lorenzo. Arrancou o saco de sua cabeça e puxou as cordas de seus pulsos com habilidade, mesmo que não enxergasse nada. Conseguiu soltá-lo.
— Lorenzo — falou tentando acordá-lo e fazê-lo se focar. — Preciso que me ajude a tirar as amarras dos meus pulsos. Por favor.
Ele mexeu nas cordas grossas com suas mãos pequenas. Nick não compreendeu por que pediu ajuda a ele, Lorenzo nunca conseguiria puxar aquelas… ele conseguiu. As cordas caíram. Usou as mãos livres para livrar os tornozelos, depois livrou os dele. Ainda usava a venda.
Ouviu outros gemidos. Reconheceu-os como Lincoln e Pan, ninguém mais. Tateando na escuridão daquele caixotão de metal ambulante, achou os dois amigos e livrou-os das cordas e dos sacos na cabeça. Depois foi se juntar de volta ao irmão, encostando-se na parede com ele abraçado a si.
— O que houve? Onde estamos? — perguntou a voz de Lincoln. — Meu Deus, não vejo nada.
— Agora sabem como eu me sinto — disse Lorenzo.
Ele deu um grito baixo e levemente efeminado.
— Você ainda está vivo? Como é possível?
— Não importa como é possível, o que acontece é que estou vivo.
— Fomos capturados — informou Nick com pesar antes que aqueles dois brigassem. — Não sei como eles conseguiram nos achar naquele fim de mundo que é o Vale das Sombras. Mas acharam. Estamos dentro de um container em algum caminhão. Talvez algum turista tenha nos reconhecido.
— Então por que o turista não avisou à polícia? — perguntou Lincoln.
— Como vou saber que não avisou? Os Lancaster têm ligações em todos os setores do universo. Talvez tenham avisado, mas seja quem recebeu o recado tenha avisado a eles. Não importa agora. É Natal. Lorenzo está vivo. Mas estamos todos a ponto de morrer. Devon vai querer nossas cabeças. Desculpa ter arrastado vocês para isso.
— Nós fomos com você porque quisemos ir — disse Pan, um comentário brilhante e bem articulado. — Não é culpa sua. Quanto ao fato de morrermos, fico feliz por ser com vocês.
— Que gentil — disse Lincoln cinicamente, mesmo que no fundo houvesse gostado de ouvir aquilo. — Como você sobreviveu?
— Não vamos falar sobre isso — respondeu Lorenzo com frieza. Soava como Ethan. Nick gostaria de ter dado mais uma olhada naqueles olhos, mas no momento não olhava coisa alguma. — Fiquemos felizes porque estou curado. Sei que não é fácil de se digerir, mas estou curado e não vou mais morrer. Meu sofrimento acabou e… pare de tentar ler meu pensamento!
— Sinto muito, Jesus Cristo. Não é uma expressão, estou literalmente chamando você de Jesus Cristo. Vocês não podem fazer essas coisas e esperar que eu e Pan engulamos calados!
— Lincoln — disse Lorenzo com a mesma condescendência que se usa para falar com crianças e idosos —, é Natal. Feliz Natal, Link.
— Vá se foder. Não me chame de Link.
— Parem com isso — disse Nick. Engatinhou com Lorenzo para o outro lado do container e colocou seu braço em volta do pescoço de Lincoln. Afundou seu rosto em seus cabelos loiros e aspirou o cheiro natural. Adorava aquilo. — Ele tem razão. É Natal.
Lorenzo sentou-se ao seu lado e abraçou seus joelhos. Apertou sua outra mão. Nick apertou de volta. Pan se aproximou dos três sem dizer nada, mas era perfeitamente visível o aroma de chocolate vindos de seus cabelos compridos. O mais novo dali começou a cantar com sua voz finíssima e pura, quase indistinguível de uma voz feminina, sem sotaque algum:
Silent night, holy night
All is calm, all is bright
Round yon Virgin Mother and Child
Holy Infant so tender and mild
Sleep in heavenly peace
Sleep in heavenly peace.
Após alguns segundos, os outros três o acompanharam.
Silent night, holy night
Son of God, love's pure light
Radiant beams from Thy holy face
With the dawn of redeeming grace
Jesus, Lord, at Thy birth
Jesus, Lord, at Thy birth.
E depois ficaram os quatro meninos juntos, silenciosos e abraçados no interior do container naquela madrugada fria de Natal. Sua jornada dourada havia chegado ao fim e agora eles experimentariam a redenção. Como uma vez foi-lhes prometida, como uma vez foi profetizado.
Erik von Goldenschild serviu o chá da Sra. Evelyn com cuidado e discrição após ter entregado a xícara de café ao Sr. Marcel. Andava com passos leves sob o tapete macio da suntuosa sala de visitas do Château de Wintorland e só fazia barulho quando perguntava se o visitante queria uma ou duas pedrinhas de açúcar na bebida em questão. Mal respirava.
O Sr. Cornelius estava sentado na poltrona principal, elegante e magnificente em seus noventa anos. Sra. Evelyn estava sentada elegantemente no sofá ao lado do irmão, Sr. Vernon, e os Srs. Elroy e Hans estavam no sofá de frente. O Sr. Marcel estava em outra poltrona. Nenhum deles era despido de cabelos brancos e olhos dourados. Irradiavam poder.
— O que está pedindo é muito, Cornelius — disse a Sra. Evelyn em tom cuidadoso. Erik já havia notado que absolutamente todo mundo usava aquele tom para falar com o Sr. Cornelius.
— É por uma boa causa, minha querida Evelyn.
— Não é estratégico perder o Ministro da Defesa atual quando estamos à beira de uma guerra — argumentou o Sr. Elroy.
— Mesmo quando poderemos escolher o próximo?
— E se o Primeiro Ministro renunciar… — começou o Sr. Vernon.
— … Melinda assume, disso todos sabemos. Mas Meredith vai garantir que isso não aconteça.
— É arriscado demais — comentou quietamente o Sr. Hans. — Embora admita que gostaria de ver aquela criatura que Melinda chama de filho tendo o destino que ele merece. Como pode deixar que Honey fosse para eles? Ele é metade Goldenschild, como você bem sabe.
— Fins justificam os meios, Hans. Com Honey como brinquedo, Devon tem menos chances de machucar alguém e prejudicar sua mãe. Isso foi na época em que eu ainda considerava com carinho a ideia de que um dia ela se tornasse Primeira Ministra. E os pais dele haviam tentado assassinar o príncipe do meu país. Digamos que eu não me sentia muito generoso.
O Sr. Marcel era o único que não falava. Tinha pouco mais de sessenta anos e rumores diziam que talvez fosse o mais apto a assumir o Banco Goldenschild depois do Sr. Cornelius. A Califórnia agradeceria.
— Vamos assumir os riscos — ele disse por fim contrariando a vontade de todos os outros. — Vernon, cuide para que um comunicado sobre um possível ataque à governadora Lancaster por seu apoio público à guerra na África se torne notícia de última hora em todos os telejornais do país. Evelyn, você tem contatos com diplomatas naquele país. Confirme o comunicado. Em nome da família Goldenschild enviaremos alguém para oferecer à governadora uma equipe de segurança da mais alta qualidade e uma possível parceria entre o Banco Goldenschild, coisa que será confirmada por Cornelius, e a Lancaster Army, que será confirmada por Meredith. Elroy e Hans… bem, façam parecer um acidente.
De hora em hora o Sr. Marcel olhava para o Sr. Cornelius após ter acabado de dar uma ordem para ver se ele concordava. O Sr. Cornelius apenas balançava a cabeça com discrição.
— Casas antigas têm canos antigos com possíveis vazamentos de gás — comentou o Sr. Elroy, considerando a questão.
— E festas de fim de ano estão normalmente cheias de fogos de artifício — comentou o Sr. Hans, também considerando a questão.
— Vou tentar com alguns senadores e parlamentares que escrevam discursos de pêsames pela morte de seus companheiros de trabalho — disse a Sra. Evelyn. — Só mais uma coisa. Quem vamos enviar?
— Meu querido Erik — disse o Sr. Cornelius. Outros cinco pares de olhos dourados voltaram-se para ele. — Não disse que gostaria de ser útil à família Goldenschild? Acabamos de descobrir como.
Melinda Lancaster, a Governadora do Condado de Northeria, estava em seu gabinete no Palácio da Governadora, na capital da Califórnia, Sacramento. Era um ambiente todo de madeira escura ao estilo elisabetano, com livros grossos e antigos nas estantes e poltronas de couro escuro por todo lugar. Uma grande cruz folheada a ouro estava pendurada por trás da poltrona de Melinda. O Palácio da Governadora era uma das quatro partes em que estava dividido o Capitólio da Califórnia. As outras três eram o Parlamento, o Senado e o local de trabalho e residência do Primeiro Ministro. No caso de Northeria, apenas nesse caso, o Palácio da Governadora era um prédio anexado ao do governo. Os outros condados tinham um Palácio da Governadora próprio.
Seu assistente pessoal ligou para seu telefone, informando que o senador Morris estava a sua espera. Melinda não fazia nada demais, mas nada a impedia de deixar o senador esperando.
O que tinha em mãos, em cima de sua escrivaninha, era um relatório da Lancaster Army, uma previsão que os contadores fizeram dos lucros da companhia se os Estados Unidos invadissem aquele país africano. Os números eram absurdos. Melinda esperava para vê-los há semanas. Graças a Deus seu bom primo distante Cornelius Goldenschild finalmente voltara a seu juízo perfeito. Melinda não tinha contato com Cornelius já há vários anos, mas ainda admirava seu poder.
Afinal, recebera há pouco tempo uma ligação pessoal do Secretário de Defesa dos Estados Unidos. O presidente americano esperava receber uma visita sua na Casa Branca em meados de janeiro do ano seguinte. Claro que sim, Sr. Secretário de Defesa. O presidente pode ter o que quiser. Ninguém esperava ter que guerrear durante as festas de fim de ano.
Mas ela estava pronta. Isso é, estaria assim que resolvesse a crise que vinha se abatendo contra sua família pelos últimos quatro meses. Era dia 31 de dezembro. Hora de resolver as coisas e começar o novo ano expurgada.
Apertou um botão em seu telefone.
— Mande o senador Morris entrar.
Ela levantou-se para receber o senador. De frente às vidraças de um armário onde guardava relíquias antigas, viu seu reflexo. Melinda era uma mulher de altura mediana, com cinquenta e poucos anos, cabelos lisos e extremamente escuros que chegavam à metade das costas e olhos azuis muito claros, frios e gélidos, assim como os de seu único filho. Usava roupas justas e conservadoras, como era esperado de uma mulher que guardava uma bíblia eternamente aberta em cima de um pedestal no topo do armário.
O senador entrou. Mesmo quando chegara já estava quinze minutos atrasado, pois agora formavam-se trinta. Um homem de sua altura, do partido de oposição ao dela, influente e amigo do Primeiro Ministro.
— É um prazer vê-lo, senador. Por favor, sente-se.
Eles se sentaram em seus respectivos lugares.
— Eu sei sobre o que quer conversar, governadora Lancaster — disse ele com vivacidade na voz. Certamente ganharia um segundo mandato. — Quer meu apoio quando o Primeiro Ministro decidir autorizar a entrada da Califórnia nesta guerra americana.
— Pensei que fosse bastante óbvio. Não é uma guerra americana, é um serviço de proteção à população do país em questão. Gostaria de um copo de uísque? É quase 2015, afinal. Aproveite.
Ela tirou uma garrafa de vidro cheio de um líquido escuro de dentro de uma das gavetas. Serviu copos aos dois.
— A senhora sabe melhor que isso, governadora. Ir para a África não tem nada a ver com proteger cidadãos dos conflitos entre o governo e um grupo rebelde de oposição. Há conflito de interesses nesse caso. A sua família tem uma companhia de armamentos.
— Sim, senador, o senhor falou bem. Minha família tem uma companhia de armamentos a qual estou completamente desligada. Não controlo sua administração ou qualquer decisão que a empresa tome.
— Não me venha com essa.
— Estou ofendida, senador Morris.
— Não deveria ficar. Sabia que eu me recusaria a apoiar essa guerra, não importa o que a mídia conservadora diz. O Partido Trabalhista é contra e assim eu também serei.
É, e se por pressão popular o Primeiro Ministro autorizar a guerra o partido vai forçá-lo a renunciar. Na verdade o Parlamento faria isso, mas eles tinham maioria lá, assim como tinham no senado.
— O senhor tem capacidade de mudar o pensamento do partido se assim for o pensamento da população. É bastante influente. — O senador Morris era o líder da maioria no Senado, que era composto por pouco mais de quarenta senadores, metade trabalhista e metade conservador.
— Diga-me, o que pode me oferecer, a despeito do claro tráfico de influência que balanceia sua posição nessa questão?
— Sua reeleição estará garantida se nos apoiar, senador. Os dois partidos podem e vão trabalhar com muito mais cooperatividade ano que vem. Chega de batalhas pessoais no Parlamento e no Senado. Vamos salvar as criancinhas na África.
O senador Morris riu e tomou um gole do uísque. Melinda tomou um gole também por educação.
— O Ministro da Defesa é seu primo, não é, governadora?
— Primo em terceiro grau. Somos bastante próximos.
— Compreendo. Creio que teria facilidade em manipulá-lo, nesse caso.
— O senhor me ofende novamente, senador. Ele foi colocado onde está pelo Primeiro Ministro porque é de confiança dele. Nossas ideologias pessoais não interferem nesse caso.
— Talvez não, mas os seus desejos pessoais e sua ambição, sim. Há rumores de que o país está sedento por uma Primeira Ministra mulher. Se a guerra acontecer e o Primeiro Ministro renunciar, uma coisa terrível que nós dois sabemos que vai acontecer, e o Parlamento procurar uma mulher para ocupar o cargo, o que os impedirá de anunciá-la?
As eleições para o cargo de Primeiro Ministro eram indiretas na Califórnia, ou seja, não tinham participação popular. O povo votava por vereadores, prefeitos, senadores, parlamentares e governadores, mas os parlamentares elegiam o Primeiro Ministro entre si, normalmente a cada cinco anos em anos terminados em três e oito, na mesma época em que o Parlamento era renovado pelas eleições. Nada impedia o partido do Primeiro Ministro de forçá-lo a renunciar se percebesse que não estava fazendo um bom trabalho, no entanto. Os ministros diversos e juízes da Suprema Corte eram nomeados pelo próprio Primeiro Ministro, podendo ser demitidos a qualquer momento durante seu mandato. Senn, o Rei da Califórnia, podia expressar seu desejo publicamente de que tal nome fosse eleito, mas isso não necessariamente precisava acontecer. Aconteceu uma vez nos anos 70. A Rainha Henrietta citou um nome e o Parlamento o elegeu, mas foi mais pela pressão popular que por qualquer outra coisa.
— O senhor tem filhos, senador Morris? É casado? — perguntou Melinda tirando um grande dossiê de outra gaveta.
— Sim e sim. Tenho três meninas.
— Compreendo. Fico feliz de não ter tido meninos. Com certeza estes aqui também ficariam se estivessem vivos para contar história. — Ela espalhou o conteúdo do dossiê sobre a mesa, exibindo imagens horrendas tiradas por legistas de cadáveres de adolescentes com rostos desfigurados. Quase todos os corpos haviam sofrido tentativa de desaparecimento, alguns sendo enterrados em florestas e outros jogados em lixões. Melinda nem piscou quando viu as imagens. — Essa investigação começou no início do ano. Pedi ao procurador-geral, um grande amigo meu, que a mantivesse trancada a sete chaves enquanto não estivesse completa. Treze corpos em catorze anos, senador Morris? Entendo perfeitamente que prefira esses adolescentes de catorze, quinze ou dezesseis anos a sua esposa, mas eu esperava que tomasse mais cuidado em não deixar amostras de DNA. — Dentre as fotos, havia relatórios de laboratório comparando duas amostras de DNA. Uma das amostras era sempre a mesma, a do senador Morris, e a outra variava dependendo do cadáver. Vinha de sêmen, saliva ou fios de cabelo. — O procurador-geral pretende levar isso a público em janeiro. Ele quer a cabeça de alguém, senador, e eu tenho duas escolhas. Posso obrigá-lo a prender os homens que você contratou para se livrarem dos meninos que você espancou até a morte enquanto estuprava, sendo que ele vai admitir que o autor dos estupros nunca será encontrado, já que todas as evidências de DNA foram inconclusivas. Ou posso autorizá-lo a levar a força de Segurança Nacional até a sua mansão e prendê-lo na frente de sua esposa e três filhas e de todo um batalhão de câmeras e jornalistas que exporão seu rosto para todo o mundo ver. Gostaria de deixar claro que se eu for obrigada a deixar que o procurador-geral faça seu trabalho sem interferências, você for preso e condenado a qualquer sentença além da pena de morte, vou eu mesma cuidar para que alguém acidentalmente deslize uma lâmina pelo seu pescoço enquanto você dorme na prisão. Não faz ideia da merreca que guardas ganham. Eles também odeiam prisioneiros.
Duas horas mais tarde, o senador Morris estava de pé num palanque em frente à área do Senado no Palácio do Governo, discursando sobre os problemas no país africano e em como a Califórnia tinha obrigação moral de interferir em parceria com os Estados Unidos… toda a baboseira política de sempre que o público gostava de ouvir.
Melinda deixou o Capitólio gritando em seu celular com o chefe de segurança de sua propriedade. Aquele seria o último dia em que sua família se reuniria para as festas de fim de ano. Melinda morava em Granite Bay, uma área residencial rica a quarenta minutos do Capitólio. O sol já se punha. Estava atrasada para a festa do último dia do ano.
Seu celular tocou. O número fê-la atendê-lo imediatamente.
— Olá, mamãe — cumprimentou a voz masculina do outro lado. — Sinto saudades. Faz muito tempo.
— Devon — disse Melinda em tom controlado enquanto descia as escadas do Capitólio com dois seguranças por trás. Sua limusine a esperava na beira da rua. O chofer já havia aberto a porta para ela. Tinha que andar rápido antes que os repórteres que haviam acabado de entrevistar o senador Morris a pegassem para falar sobre a guerra. — Por que me liga agora?
— Voltei à Califórnia, mamãe — ele respondeu excitado como uma criança de seis anos. — Chego a Sacramento em menos de uma hora. Estou com eles. Com todos eles. Estão vivos e prontos para morrer.
Não era bom falar aquele tipo de coisa por telefone, mas sempre precisava-se de cuidado para falar com Devon para que ele fizesse o que se pedia sem saber que estava sendo manipulado.
— Isso é bom. Pretende ir até Granite Bay?
— Sim, senhora. Os caminhões serão estacionados no The Rivaille e os quatro serão sedados. Três deles ficarão trancados no hotel, e para isso já reservamos os últimos três andares inteiros, e Ethan será levado para você.
Matar Ethan Lemnsack por si mesma havia sido uma das coisas que tivera que aceitar fazer para que Devon voltasse para a Califórnia.
— Faça o corpo ser trazido pela porta dos fundos e levado até o gabinete principal da casa. Trancafie-o. Quero que você esteja comigo. Vou precisar de você quando o Primeiro Ministro renunciar e eu tomar seu lugar.
— Sim. Será tão excitante. Eu a amo, mamãe.
— Eu também o amo, Devon.
Sim, amava-o perdidamente desde que, dezessete anos atrás, fora obrigada a matar seu marido, pai de Devon, após este ter expressado desejo de mandá-lo a uma instituição mental. Ele tinha apenas seis anos. Uma instituição mental não era lugar para uma criança, mesmo uma que não expressasse remorso algum em ter aberto o estômago de uma gata grávida com uma faca para ver os fetos antes que nascessem.
Não era hora de pensar nisso. Era hora de falar com Meredith.
Estava quase na hora. Devon mal podia esperar.
Estava na cobertura do The Rivaille, em uma de suas melhores suítes. Três dos prisioneiros estavam desacordados e amordaçados num dos aposentos laterais cujas portas estavam trancadas e fortemente vigiadas por sua equipe de segurança. Havia homens de preto portando pistolas com silenciadores e vigiando as saídas por todo hotel. Eram as festas de fim de ano e os quartos estavam cheios de Lancaster, primos e mais primos distantes que reuniam-se na propriedade de sua mãe para a virada. 2014 foi um bom ano. 2015 seria melhor porque, como Primeira Ministra, sua mãe seria oficialmente a mulher mais poderosa do mundo. E Devon seria seu chefe de gabinete.
Já era tarde da noite. Ethan estava na propriedade Lancaster, sedado e vigiado no cômodo principal da casa, que permanecia trancado e guardado pela equipe de segurança que a mãe recebera da família Goldenschild, seus parentes distantes. Cornelius Goldenschild se afeiçoara a ela e garantia que a tornaria Primeira Ministra, tudo em troca da megalomania de Ethan em fazer um banco por suas costas. O que a arrogância não trazia a um homem? Devon esperava que ela o fizesse sofrer, e sofrer muito.
Quanto aos outros, um tiro na testa bastava, assim que Devon pudesse ver a expressão de Nicholas Hentz ao ouvir que seu irmão estava morto. Assim que visse seus olhos negros de leão encherem-se de lágrimas e aquela voz estridente e rouca perder-se em dor e agonia. Queria vê-lo se debater no chão até perder as energias. Então, aí sim, um tiro na testa bastava.
Mas no momento não era hora de pensar nisso. Devon acendia um cigarro enquanto andava de roupa de baixo por seu luxuoso quarto no The Rivaille decorado em branco e dourado. Um garoto de programa estendia-se nu na cama. Tinha cabelos compridos muito escuros e encaracolados e pele bronzeada em tons escuros, quase parecido com o rapaz alto que aprisionara com Nicholas Hentz, mas mais novo, tinha catorze anos. Esperava-o deitado de lado com uma expressão gatuna no rosto bonito. Os lábios cheios e vermelhos eram deliciosos, e seus olhos grandes e amendoados, da cor das castanhas, eram oblíquos e dissimulados. Os quadris eram enormes e a cintura fina, a barriga e o peito lisos. Pelos inexistentes. Como ele gostava.
Não sabia seu nome, nem ele sabia o seu, e isso não era necessário. Devon foi para cima do rapaz com selvageria, beijando seus lábios grossos com desejo, ao passo que ele correspondeu. Usava-o já há alguns meses, mas por circunstâncias atenuantes tivera que se ausentar por quatro meses. Agora os dois estavam famintos; ele por seu dinheiro e Devon por seu corpo.
Beijou-lhe todo o corpo delgado, sugando a pele escura para dentro da boca, e mordiscou onde ela se acumulava. Colocou seu membro na boca por tempo suficiente para que ficasse duro e a ponto de ejacular, e então virou-o de costas. Sua língua resvalou por entre o meio de suas nádegas até a nuca, onde mordeu o pescoço e sentiu o cheiro delicioso de seu cabelo. Ele gemia o tempo todo, pedindo por mais. O contraste das duas peles era evidente, a de Devon branca e pálida como um fantasma e a dele da cor da noz-moscada.
Penetrou-o com força, como gostava de fazer. Devon tinha plena consciência de que ele estava segurando seus gritos de dor como um bom prostituto devia fazer, mas não se importava o suficiente para não aumentar o ritmo violento das estocadas. A cama tremia e rangia num som metálico terrível, tudo rangidos e gemidos dele. Puxou seus cabelos para forçá-lo a ficar de quatro e aumentou a velocidade.
Antes de finalmente atingir seu orgasmo, Devon virou-o de repente, pegando-o de surpresa. Suas mãos fecharam-se no pescoço jovem enquanto ainda estocava, agora violento a ponto de machucá-lo, e apertaram-no. Os olhos escuros encheram-se de terror ao fitarem os azuis de gelo. Aqueles lábios deliciosos estavam entreabertos, mas incapazes de deixar escapar qualquer som. Devon encheu-se de adrenalina e do tesão que esperava sentir desde que começara a trabalhar nele, fazendo-o apaixonar-se por ele a ponto de cobrar menos por seus programas. E depois de meses de desaparecimento ele voltava com grande expectativas e carinhos. E agora arrancava toda a esperança daquele lindo menino, pobre menino.
Seu rosto estava roxo-escuro quando Devon explodiu dentro dele, sentindo seu interior quente se contrair ao redor do seu pau, as últimas respostas de um corpo morto. Caiu ao lado do cadáver, cansado, suado e ainda excitado. Com algum cuidado, fechou seus lábios e deixou seus olhos bem abertos, mas isso não diminuía a ruína que seu rosto se tornara. Começou a se sentir excitado de novo.
Esperou trinta minutos antes de deslizar de novo para dentro dele. O corpo não esfriara, demorar-se-iam horas para isso, mas já era suficiente. O vermelho dos lábios tornara-se azul, a língua endurecera, os olhos estavam cegos para sempre. Devon abriu suas pernas enrijecidas e enterrou o pau já duro em sua abertura sem piedade, puxando-o pelas coxas. O corpo balançava para cima e para baixo como um boneco. As mãos jovens não mais agarravam os lençóis e nem ouvia-se mais suspiros. Só o silêncio. Só a vulnerabilidade e a possibilidade de estuprá-lo sempre que quisesse.
Do jeito que ele gostava.
Quando terminou, tomou um bom banho, vestiu-se e chamou seus seguranças que faziam o que pedisse sem questionar. Eles vieram com sacos plásticos para o corpo e para as roupas de cama e líquidos alcoólicos pra limpar o quarto de quaisquer resquícios da presença do menino ali. Devon sentiria falta dele. Gostaria de ter sabido seu nome.
Eles foram embora com o cadáver, deixando-o sozinho. Passou pelos vários aposentos que a suíte presidencial do The Rivaille oferecia até chegar àquele em que estavam trancados os Hentz e companhia. Havia dois seguranças na porta que saíram da frente para que ele pudesse entrar.
A janela estava aberta. O quarto estava vazio.
Trinta minutos antes, Nicholas Hentz acordou amarrado num belo quarto de hotel.
— Oh, minha cabeça — gemeu ao sentir tonturas semelhantes às de quando acordara no caminhão. Mesma droga, mas injetada no braço ao invés de no pescoço. Naquele dia de Natal, apenas algumas horas depois de todos acordarem, os portões do container se abriram para revelar seis homens com metralhadoras. O fato de terem se livrado das cordas pouco dizia. Foram vedados e transportados para outro caminhão com um container maior e mais equipado. Por seis dias viveram naquele container até a nova sedação. Agora acordavam em camas luxuosas.
Lorenzo, Lincoln e Pan também despertavam de seus sonos letárgicos. Nick começou a forçar os pulsos e puxar as cordas com os dentes.
— Não vá se forçar demais — murmurou Lorenzo tontamente, que após todo aquele tempo ainda usava a faixa nos olhos. — Cuidado com a circulação sanguínea nos pulsos. — Dentro da escuridão absurda dos containers, cujas luzes só eram ligadas para que eles comessem, Nick não tivera tempo de ensiná-lo a enxergar. Do outro lado do quarto, nas outras duas camas, Lincoln se sentava cansadamente na beirada, com uma expressão abatida e adoentada. Era possível perceber que estava mais pálido que nunca, embora ao contrário de Lorenzo isso não indicasse melhoria de saúde. Pan, por natureza, era mais resistente que os outros dois juntos, a exceção de Lorenzo.
— Onde estamos? — perguntou Lincoln. Seus pulsos e tornozelos estavam inchados e avermelhados. Por que, afinal, eles não os prendiam com algemas? Talvez Devon Lancaster achasse divertido expô-los ao fato de poderem se soltar, mas não fugir.
— Não sei — respondeu Nick. Tentou abrir as portas duplas, mas estavam trancadas. Nenhuma surpresa. — Mas que merda. — Tentou a janela. Destrancada, mas se calculava bem estavam a, pelo menos, trinta andares de altura do chão. Esconder a surpresa de não estarem mais em um caminhão foi uma boa ideia. Deveria ter percebido isso. Ethan nunca demonstrava aos irmãos quando errava, talvez por isso ele parecesse ser perfeito.
Um lindo bairro residencial ainda decorado para o Natal estendia-se lá em baixo. Mesmo na escuridão da noite, Nick conseguia visualizar enormes propriedades gramadas com belas mansões e piscinas azuis.
— Ah, meu Deus. Reconheço esse lugar. É Granite Bay. Lembra-se, Lorenzo? Você e Ethan vieram para cá ano passado para a festa de condecoração do Primeiro Ministro. E depois viemos todos juntos. Cornelius Goldenschild deu-nos uma casa aqui, onde encontrei e destruí o Livro Hentz.
— A segunda vez foi quando Ethan comeu Senn — murmurou seu irmão. — Quer dizer que voltamos à Califórnia? Estamos em Sacramento, a sete horas de distância de Middleland? Os Lancaster moram aqui. Não posso acreditar. Nick, quer dizer que…
— Quer dizer que eles vão matar-nos todos hoje — respondeu Lincoln desagradavelmente levantando-se da cama. Aproximou-se da janela e olhou lá para baixo. — Não há jeito de descer, mas… veja! Há um andaime de lavar janelas abaixo dessa janela.
— Eu sei — disse Nick. — Três andares abaixo dessa janela. São nove metros de altura. Uma queda dessas quebraria o braço e a perna de alguém. Aliás, o peso poderia muito bem derrubar o andaime.
— Eu sou leve o suficiente — disse Lorenzo. Nick olhou para ele, para aquele cabeça vendada coberta por cabelos platinados que tornavam-se mais espessos e brilhantes a cada dia, mais parecidos com os de Oliver e menos com os de Lorenzo. Sua pele de papel resplandecia sob as luzes douradas. — Sou leve o suficiente para não derrubar o andaime.
— Ainda assim são nove metros. Você iria quebrar alguma coisa.
Lorenzo puxou Nick pela mão para um canto do quarto. Arranque essa venda dos olhos e deixe-me vê-los, por favor, deixe-me ter esperança de que o azul estelar ainda esteja aí.
— Há algo que não te contei. — Ele sussurrava. — No Natal do Vale das Sombras, quando eles nos sequestraram na frente da casa de Oliver, algo estranho aconteceu. Você não viu porque injetaram a droga em você primeiro e você desmaiou imediatamente, mas eles precisaram me injetar não uma, mas três vezes para que fizesse efeito. E, mesmo assim, eu demorei bastante para desmaiar. Primeiro fiquei bastante fraco e tonto, mas ainda perfeitamente acordado e lúcido. Poderia ter fugido se não houvessem dezenas de homens de preto por lá. E quando nos sedaram de novo para nos trazer aqui, aconteceu a mesma coisa. Precisei receber três vezes mais dose. Vocês nunca perceberam porque eu sou sempre o último a ser sedado.
— O que quer dizer? — Nick sabia o que queria dizer.
— Você sabe o que eu quero dizer. Quero dizer que faz uma semana que, naquela clareira medonha, sob testemunho da lua e do céu, eu deixei de ser uma pessoa normal. Sob seu testemunho. Você sabe o que aconteceu. Por favor, não negue. Nunca negue o que aconteceu. Aceitar é o maior passo. Olhe para mim, veja o que eu sou. Há algo de errado em mim, Nick, algo que me permite cair nove metros de altura e não quebrar o braço.
Lincoln não olhava mais para nenhum dos dois. Nem mesmo os escutava. Ele não queria, não podia. Ignorar o cabelo platinado e repentina saúde de Lorenzo era demais para ele. Fitava a bela paisagem escurecida lá fora.
— Por favor, deixe-me tentar — Lorenzo continuou dizendo. — Se eu chegar ao andaime, posso mexer nos controles para subir com ele e tirar todos nós daqui. É dia 31 de dezembro. Você sabe que eles vão nos matar hoje à noite. Temos que ser rápidos.
— Se você se machucar, nunca vou me perdoar.
— Se você não me deixar tentar, também nunca vou te perdoar.
Nicholas ponderou a questão por tempo suficiente para saber seu irmão Lorenzo estava decidido demais para mudar de ideia. Nick apertou a venda de seus olhos e deu-lhe um beijo apaixonado na bochecha. Abraçou-o com força. Ele abraçou de volta. Era tão bom ver como, depois de quatro meses e sucessivas possibilidades de mortes, todos eles cresceram. Não reconheceriam as caricaturas que deixaram em Middleland.
— Está bem, faça por nós. Deus sabe que você tem poder suficiente.
— Agradeça de não ter sido você quem foi seduzido por uma deusa.
— É, agradeço. Se bem que eu adoraria ter ficado estiloso como você.
Olhou novamente para baixo da janela, deixando que o frio do inverno sem neve da Califórnia entrasse no quarto. O andaime era uma tábua retangular de metal com grades de ferro contornando-o e controles eletrônicos agarrados a um dos lados. Cabos grossos vindos do topo do prédio suspendiam-no. É, Nick sabia em que hotel estavam. O vira quando viajara para Granite Bay ano passado. Seria até capaz de encontrar a casa de Ethan dali.
O andaime era grande o suficiente para os quatro, era verdade, mas trazê-lo para cima seria perigoso. Robb Thanathos morrera num andaime.
— Mas Melchior não está aqui — murmurou Lincoln.
Nick concordou. Com alguma dificuldade, ajudou Lorenzo a passar para o outro lado da janela, apoiando os pés no parapeito.
— Lincoln, Pan, me segurem para que eu não caia. Vou suspendê-lo o mais baixo possível e então vou soltá-lo, está bem? Quando cair no andaime, ele vai balançar. Não fique de pé de imediato, agache-se, agarre-se às grades e faça o possível para mantê-lo estável. Eu digo quando você deve se levantar e te oriento aos controles. — Lorenzo assentiu. Lincoln e Pan agarraram a cintura de Nick quando este enfiou-se metade para fora da janela. Lorenzo soltou seus pés do parapeito e deixou-se cair, segurado apenas pelos braços pelo irmão. Foi se soltando aos poucos até que os dois estavam ligados apenas pelas mãos. Congelava do lado de fora. De certo modo, era aliviante não ver mais um cobertor branco e opressor cobrindo a paisagem até onde a vista podia alcançar. — Eu vou soltá-lo. O andaime está sete metros abaixo de você. Agache-se e agarre-se às grades.
Em meio a ventania, Lorenzo gritou sua confirmação. Nick finalmente soltou-o. Viu-o cair e cair em queda livre durante dois segundos até que o desagradável barulho de metal contra metal ecoou. Como fora ordenado. Lorenzo ficou agachado, segurando as grades dos dois lados. O andaime balançava terrivelmente para os lados. Ele se levantou devagar, balançando o corpo para os lados contrários ao balanço do andaime. Em poucos segundos, ele se estabilizou.
— Ele não quebrou nada — sussurrou Nicholas para si mesmo. — Graças a Deus. Uma queda dessas deveria ter quebrado suas duas pernas. Mas ele está muito bem. Como se tivesse caído da cama. Não foi nada.
— Agora me diga como faço essa coisa subir — ele gritou lá de baixo.
— Certo, preste atenção. O controle está por trás de você, é uma caixa metálica presa na extremidade do andaime. Cuidado, ande devagar e sem soltar as grades. Isso, perfeito. Agarre a caixa. Ela tem três botões, um em cima, um no meio e um em baixo. Aperte o de cima.
Os cabos retrocederam, puxando o andaime para cima. Em poucos segundos, os quatro meninos estavam em cima do andaime e, em menos de dois minutos, chegavam ao chão.
O hotel, The Rivaille, estava cercado de seguranças. Nenhuma necessidade de saber que aqueles eram dos Lancaster e que tinham ordens de não deixar que ninguém desautorizado deixasse as imediações do prédio. Os meninos estavam escondidos no gramado do estacionamento, entre enormes árvores e arbustos.
— O que vamos fazer agora? — perguntou Lincoln.
— Para onde vamos? — perguntou Lorenzo. — Para a nossa casa?
— Fiquem quietos. Deixem-me pensar. Sim, nossa casa. Há uma chave extra debaixo de uma estátua do jardim. Lembro-me de ter deixado lá, mesmo que Ethan tivesse me proibido de fazer isso. É para lá que vocês vão.
— Nós? — repetiu Lincoln. — E você?
— Quanto a mim. — Nicholas cerrou seus dentes. — Eu vou até a propriedade dos Lancaster acabar com isso de uma vez por todas.
— Não seja tão dramático.
— Lincoln, agora eu quero que você me obedeça. É essa a hora de matar ou de ser morto. Estou cansado de fugir, e já vimos que não vamos conseguir fugir para sempre. Você vai pegar os meninos e tomar um táxi para Prior Ridge, número 5197. Há montantes de dinheiro dentro da casa, dentro da escrivaninha do escritório no térreo. Use-o para pagar o táxi.
— Eu vou com você — disse Lorenzo. — Meus poderes estão absurdamente grandes. Sei que é perigoso, mas eu sei o que se passa pela cabeça de todos esses seguranças. Acho que posso matá-los, se eu quiser.
— Você não vai matar ninguém.
— Tem razão — disse Lincoln. — Mas eu vou. Você não pode entrar na casa dos Lancaster desarmado. E eu quero ir com vocês. Também estou cansado de fugir.
— Você precisa levar Pan à casa.
— Eu posso ir sozinho — disse Pan. Nick tomou suas mãos maiores que as dele e as apertou, procurando confiança em seus olhos. — Ouvi tudo o que você disse. A chave está debaixo da estátua, o dinheiro está dentro da escrivaninha. Sei pegar um táxi e posso pagá-lo sozinho.
Nick sorriu.
— Meu querido, sinto orgulho de você.
— Lorenzo — disse Lincoln —, ache-me um segurança que esteja relativamente sozinho. Eu vou conseguir uma arma para nós.
— Me dê alguns minutos. — Lorenzo se encolheu no gramado, quase em posição fetal. — Tem um naquela direção. — Ele apontou para o interior do estacionamento, uma parte cheia de carros. — Sim, está vistoriando um carro. Ao que parece, alguém deu queixa de terem avistado vândalos nesse estacionamento e ele foi lá ver. Os vândalos somos nós.
— Ótimo. — Lincoln agarrou uma pedra do tamanho de uma fruta no gramado. — É, esta está boa. — Fitou Nicholas nos olhos, talvez por ter visto sua preocupação ou ansiedade. Com o que se preocupar mais, com o fato de ele estar apto a matar um segurança inocente para se apoderar de sua arma ou de poder ser morto no processo? — Não se preocupe comigo. Vou ficar bem. Os fins justificam os meios.
Lincoln voltou cinco minutos depois. Havia sangue em suas roupas, sangue que não era dele, e duas pistolas modernas em suas mãos.
— Peguei-o desprevenido. Ele tinha uma arma no coldre da cintura e uma reserva no tornozelo. Estranho pensar que eu sou mais apto a usar uma arma do que você. Mas você aprendeu comigo.
— Lincoln…
— Não ouse vir com sentimentalismo agora ou sobre como você está preocupado com minha provável sociopatia, seu desgraçado, ou eu atiro em você. Cheguei até aqui por você e vou matar por você.
A coisa implícita era que ele iria matar ou morrer por ele. Todos sabiam que uma dessas coisas estava para acontecer, provavelmente até Pan. Bem, quando em Roma, faça como os romanos. Quando na propriedade dos Lancaster, faça como os Lancaster. Esteja presente, sempre observe, e não tenha misericórdia.
— Senhoras e senhores, agradeço-lhes por comparecerem — disse Melinda Lancaster do conforto de sua poltrona. Estava em seu gabinete particular, o cômodo principal da mansão Lancaster, tentando ignorar o barulho da música de jazz do lado de fora, onde a festa de fim de ano acontecia. Espalhados pelo escritório, estavam o Ministro da Defesa e a Ministra do Tesouro, três parlamentares e uma senadora, todos da família Lancaster, além de Meredith Goldenschild-Lancaster e mais uma porção de homens e mulheres. A senadora era sua irmã e um dos parlamentares seu irmão. Devon também estava ali, além de ninguém mais ninguém menos que Cornelius Goldenschild. — E também agradeço-lhes por, a pedido meu, terem lidado com tanta maestria a situação delicada pelo qual minha família passou pelos últimos quatro meses. Foram todos muito pacientes com isso. — Não só pacientes, também haviam cometidos várias tentativas de obstruir a justiça para que os Hentz não fossem achados antes do tempo. — Mas isso agora se acaba.
— Você capturou Ethan Lemnsack, minha querida Melinda? — perguntou Cornelius com um sorriso simpático. Há pouco tempo ele tinha declarado seu apoio ao desejo de Melinda de se tornar Primeira Ministra na forma de um cheque em branco.
Em cada uma das saídas do escritório havia um segurança fortemente armado, além de mais espalhados pelo território da mansão. O Primeiro Ministro Clarke Heath havia passado por ali durante cinco minutos no início da noite para dar as caras na festa. Mas precisava voltar para sua reunião do G8. Que a aproveitasse, seria sua última em exercício.
— Sim, Cornelius. E pretendo dar um fim nele ainda hoje.
— Eu espero que sim — murmurou uma das mulheres, uma famosa juíza já idosa e de cabelos brancos e elegantes. — Despi-me de cada resquício de moralidade que eu possuía para proteger seu filho.
— Foram feitos muitos sacrifícios por parte de todos, Juíza Thatcher.
Melinda prometera que uma vez que se tornasse Primeira Ministra, indicaria a desagradável juíza para um lugar na Suprema Corte. Eleanor Thatcher era a segunda esposa do falecido pai de Melinda. Em quarenta anos, as duas nunca haviam se tratado por nada além de títulos. Ter ganhado a eleição para o governo de Northeria em 2013 foi mais delicioso pela expressão que pusera no rosto da madrasta do que pelo cargo em si.
— Melinda — disse sua irmã Marjorie, senadora pelo Condado de Easteria. — Há aquilo sobre o que conversamos.
— Você pode falar, senadora — disse-lhe Devon com cinismo na voz.
Ela olhou para ele com ferocidade no olhar, depois de volta para a irmã.
— Você tem que controlá-lo de agora em diante. Não é o primeiro problema que ele causa.
— Problemas como esse não vão mais acontecer, Marge — disse Melinda em tom tranquilizante.
— Ótimo — disse Eleanor. — Agora faça-me o favor e mate Ethan Lemnsack, seja lá o que ele fez. E quanto aos outros, o irmão dele? Foi capturado também, não foi?
Melinda olhou para Devon.
— Bem, quanto a isso…
A porta por trás de Melinda, a que levava ao banheiro do aposento, foi violentamente aberta pelo que pareceu ser um chute. Uma criatura esbaforida e loura saiu de lá e seu primeiro ato foi passar o braço em volta do pescoço da governadora e encostar uma arma em sua têmpora.
Nicholas Hentz não deu tempo aos outros de se recuperarem do choque do barulho da porta. Tinha a Governadora de Northeria na mira do cano de sua arma em frente às pessoas mais poderosas do país. Melinda automaticamente agarrou o braço que a agarrava, com falta de ar.
Ele viu os seis seguranças do escritório erguerem pesadas metralhadoras e apontarem para ele. Cornelius Goldenschild levantou-se de sua poltrona, nunca aparentando menos ter todos os anos de vida que tinha, e berrou para que ninguém se mexesse.
— Não atirem! E vocês, não se mexam!
Falava aos outros convidados. Reconheceu a senadora que era irmã dela e o ministro que era seu primo distante. Uma mulher loura de olhos dourados, muito jovem e bonita, tirou uma arma da cintura e apontou para ele.
— Meredith, abaixe essa arma — disse Cornelius. Ela não abaixou. Ele voltou a fitar Nicholas. — Nicholas, acalme-se. Você vai estragar tudo.
Ele odiava ouvir aquilo.
— Cornelius — sussurrou irritado. Lincoln estava ao seu lado, também com uma arma em punho, apontando simultaneamente para cada um naquela sala. — Se algum de vocês pensar em se aproximar de alguma das portas, meu querido amigo Lincoln vai atirar. Não é mesmo, Lincoln?
— Vou — ele murmurou concentrado em seus alvos. Quão surpreendente seria ver um menino de treze anos com tanta ferocidade na voz?
— Você não sabe o que está fazendo — disse Cornelius. A música do lado de fora do escritório subitamente parara. Ouvia-se movimento de pessoas. Nicholas não tinha muito tempo. — Como entrou aqui?
— Contornei a mansão e matei os seguranças do jardim. Contei oito deles. Depois subimos pela trepadeira até chegar à janela do banheiro desse escritório e aqui estamos. Irônico, não é, que Ethan tenha posto a vida em risco por tentar matar uma nona pessoa, e que agora eu esteja pondo a minha vida em risco por tentar matar uma nona pessoa?
— Nicholas — disse Cornelius novamente, muito devagar, pronunciando cada sílaba de seu nome com cuidado. Em seu rosto via-se um homem desesperado para manter a estabilidade de uma situação, mas muito confiante e que exalava poder em cada movimento que fazia. Meredith apontava a arma para Lincoln, que apontava para a senadora, depois para a Ministra do Tesouro. Os seis seguranças apontavam as armas para Nicholas, que se protegia por trás do corpo de Melinda Lancaster. — Você vai morrer se continuar assim. Largue essa arma. Vamos negociar.
— Vou morrer de um jeito ou de outro, Cornelius, se não aqui, mais tarde, quando o filho dessa mulher decidir me matar. Eu prefiro levá-la comigo antes que isso aconteça. Eu prefiro fazer jus à minha ascendência e mostrar para vocês exatamente porque meu sobrenome é Hentz.
— Eu estuprei seu irmão mais velho — disse Devon Lancaster. Nicholas deu uma boa olhada nele. Um homem alto, mais alto que Pan, com cabelos muito escuros e olhos azuis extremamente claros, parecidos com os de Luca Granelli, que eram tão claros quanto gelo, mas os de Devon eram mortos e vazios. — Sim, eu fiz isso. Entrei no container dele, o despi e fiz o que queria. Ele gritou tanto quando isso aconteceu. Gritou tanto.
Agora Lincoln apontava a arma para ele.
— Como pode deixar que isso acontecesse com a minha família? — perguntou a Cornelius fazendo o possível para ignorar Devon. — Eu namorei suas filhas, as duas, e eu as amei e elas me amaram. Eu dormi debaixo do seu teto, eu comi debaixo do seu teto, eu fiz amor com elas debaixo do seu teto. Eu fiz Carmen se recuperar da anorexia e Vickie deixar de ser tão explosiva. E elas me ajudaram a querer viver de novo.
— Você quer ver Victoria? — Cornelius indagou com uma condescendência irritante. — Você gostaria de ir à Suíça e vê-la? Talvez você possa fazer isso. Você deve sair da Califórnia após tudo acabar. Ethan tentou matar Devon e agora Devon quer matar Ethan. É uma vingança por sangue.
— Vingança por sangue porra nenhuma. Isso não é o século XIX.
Nicholas olhou para Lincoln, que olhou para ele.
Eu atirarei em Devon, ouviu-o dizer em sua mente. Você atira em Melinda. E depois tudo acaba, porque eles atiram em nós e nós morremos.
— Gostaria de morrer antes ou depois do seu filho, governadora? — sussurrou no ouvido de Melinda Lancaster.
— Vá ao inferno — ela sibilou de volta. — Mate-me. Nunca vai me fazer implorar. Não como fez seu irmão.
Nicholas estava prestes a puxar o gatilho quando as portas da frente se abriram. Revelou-se outra leva de seguranças, pelo menos uma dúzia de homens vestindo coletes à prova de balas e armados até os dentes. Aqueles homens teriam servido para proteger o Presidente dos Estados Unidos numa zona de guerra. E entre eles havia uma criatura baixa de cabelos platinados.
— Achamos ele no gramado traseiro — falou um dos homens a Cornelius. — Escondido entre os arbustos.
Lorenzo levantou o rosto para Nicholas. A venda sumira, seus olhos estavam fechados, mas a expressão no rosto era de tristeza.
— Eu sinto muito.
Nicholas pensou que fosse chorar também. Realmente pensou em fazer isso, mas não queria morrer chorando.
— Tudo bem, Lorenzo. Não é culpa sua.
— Abaixe a arma, Nicholas — disse Cornelius Goldenschild em tom duro e ameaçador, mais autoritário do que Ethan jamais conseguira ser. — Abaixe a arma. Não vai querer que seu irmão veja a sua morte.
Olhe para mim, veja o que eu sou.
— Meu irmão é cego, seu grande imbecil.
Mas mesmo assim abaixou a arma e libertou Melinda de seu braço. Ela afastou-se dele cambaleando, indo parar ao lado de Devon. O pescoço estava roxo, respirava com dificuldade, havia ódio em seu rosto. Pelo menos a machucara. Trajava uma roupa tão bonita e justa, com saltos Louboutin bastante caros. Aquela era uma mulher que viveria e seria lembrada para sempre. Lincoln também abaixou a arma. Os dois deixaram que elas caíssem.
— Muito bem — disse Cornelius, virando-se para Melinda. — Sra. Lancaster, o que acha que eu deveria fazer com os causadores dessa crise?
— Mate-os — ela gritou cheia de raiva.
— Está bem. Então que seja.
É o fim.
Cornelius Goldenschild virou-se para seus seguranças e fez um sinal com a mão. Nicholas fechou os olhos, esperando o pior, esperando a dor e finalmente o grande alívio. Ouviu o primeiro tiro, mas não sentiu nenhuma dor. Quando abriu os olhos, viu a Ministra do Tesouro cuspir sangue e cair morta no chão.
Os próximos tiros foram todos simultâneos. A senadora irmã de Melinda foi atravessada por uma saraivada de balas enquanto tentava fugir. Os parlamentares tiveram estômagos perfurados, o Ministro da Defesa perdeu parte do nariz ao ser atingido no rosto por uma bala. A Juíza Eleanor Thatcher teve sua cabeça esmagada pela bota de um agente antes que ele enfiasse a metralhadora em sua nuca e atirasse.
Meredith Goldenschild aproximou-se perigosamente de Melinda Lancaster, que estava encolhida na parede escandalizada, e puxou-a pelos cabelos para o meio do escritório, onde uma poça de sangue se acumulava.
— Olá, querida cunhada — sussurrou Meredith. Ergueu Melinda do chão e fechou as mãos em seu pescoço branco. O rosto da mulher contorceu-se em gritos, mas sua voz não saiu. — Eu queria deixar claro uma coisa para você. Eu e Samuel Hentz matamos seu irmão. Planejávamos fugir juntos, mas, semanas depois, ele morreu e eu herdei a Lancaster Army.
Quando Meredith largou a governadora no chão, seu rosto estava preto. O azul gelado de seus olhos perderam-se em meio à vermelhidão sanguinolenta do branco do olho, mas ainda estavam abertos e fitavam o nada. Melinda Lancaster estava morta.
Lorenzo estava encolhido num canto, ileso. Nicholas correu até seu irmão e o abraçou contra si, procurando ferimentos de balas. Não havia nenhum. Lincoln também estava bem, apenas completamente apavorado. O tiroteio durara menos de dez segundos, mas o barulho dos tiros ainda ecoava nos ouvidos de Nick. Como pode não ser atravessado por uma bala?
Cornelius caminhou tranquilamente por entre os corpos, sujando seus sapatos caros de sangue, examinando-os para ver se realmente estavam mortos. Nick viu o rosto de um parlamentar morto voltado para ele. Ainda se lembrava de vê-lo num outdoor em sua campanha eleitoral em Southeria, discursando sobre problemas nos transportes públicos. A Juíza Eleanor Thatcher tinha um grosso fio de sangue escapando de sua boca.
Nicholas sentia-se tão anestesiado que não foi capaz de falar por vários minutos. Observava equipes entrarem no escritório após os atiradores saírem e começarem a recolher os corpos em sacos plásticos e limpar os litros de sangue que formavam uma poça no tapete caro.
O ombro de Devon Lancaster exibia um ferimento de bala e de sua boca saía sangue, mas fora isso ele estava vivo. Foi jogado de joelhos na frente de Nicholas por um dos homens. Sua cabeça foi puxada para trás pelos cabelos por Meredith.
— O que quer fazer com ele? — ela perguntou. — Cornelius decidiu que a decisão será sua. Sinto muito por não ter deixado que matasse Melinda, mas havia questões pessoais entre mim e ela. — Estendeu-lhe uma arma.
Por muito tempo Nicholas Hentz olhou nos olhos de Devon, procurando ali qualquer resquício de dor, arrependimento ou remorso que pudesse haver. Não havia nada. Devon era feito de raiva, ódio e desejo. Ele não se importava com mais nada. Não havia nem sequer o que o caracterizasse como ser humano. Seu narcisismo sanguinário lembrava Melchior.
Ethan matara nove homens. Os oito que estupraram Oliver e Lafferty Winter. Nicholas matara nove homens. O que tentou estuprá-lo, cujo nome ele jamais saberia, e os oito seguranças do jardim, cujos corpos também deviam estar sendo recolhidos. Lorenzo ajudara-o a matar os oito seguranças ao localizá-los e Lincoln ajudara ao confundir-lhes a mente com pensamentos aleatórios para que se afastassem do grupo e Nick pudesse atirar neles. Eram homens inocentes pagos para protegerem uma casa, só isso.
— Não — respondeu. Levantou-se com dignidade e olhou Devon de cima. Ele era patético. — Pessoas demais já morreram hoje. Nós temos o vídeo que o mostra estuprando Oliver. Ele vai ser condenado pelo estupro e assassinato de Oliver e vai passar o resto da vida na prisão, ou talvez pegue pena de morte, mas aí é com o Estado. Eu quero que ele viva tanto tempo quanto possível. Quero que ele sofra sabendo que a única família capaz de acolhê-lo não existe mais.
Por fim, Nick deu-lhe um chute no rosto que, se não quebrou sua mandíbula, arrancou-lhe meia dúzia de dentes, pelo menos.
Devon sorriu-lhe com um sorriso sanguinolento. Era um sorriso horrível, despido de alegria e cheio de cinismo.
— Obrigado por me deixar viver, Nick Hentz. Vou passar o resto da vida pensando em como foi bom comer seu irmão. Devia ter feito com você também. E com Lorenzo.
— Não há de quê — sussurrou com ódio. — Você vai viver.
— O diabo que ele vai! — gritou Lincoln. Nick teve tempo de vê-lo tomar a arma das mãos de Meredith, engatilhar e apontá-la para a testa de Devon, mas não teve de impedi-lo de atirar. Dois tiros foram o suficiente para espalhar pedaços do cérebro dele na parede por trás.
Devon Lancaster caiu morto no chão com um ferimento horrível na parte de trás da cabeça, algo parecendo uma mordida de cão. Um homem tão grande, com uma maldade tão grande dentro de si, detido por umas coisinhas pequenas como aquelas balas. Os olhos azuis estavam abertos e vidrados numa expressão que não podia ser lida como nada além de não acredito que estou morto.
Meredith tomou a arma de volta das mãos de Lincoln e deu um tapa em sua cabeça como se ele fosse uma criança mimada.
— Da próxima vez, avise que vai atirar em alguém.
Lincoln olhou para Nicholas. Era possível ver que estava tentando transformar sua decepção em raiva, e estava funcionado.
— Como você ousa fazer isso? — ele gritou em sua voz pubescente, como se não fosse ele quem tivesse acabado de matar Devon sem permissão de ninguém. — Como ousa deixar que ele vivesse após tudo o que ele fez? Tudo que ele fez com Ethan, Lorenzo, Pan e comigo? Só porque você se acha superior a ele e capaz de seguir em frente, não quer dizer que os outros sejam capazes também! Como eu poderia viver sabendo que esse monstro está vivo? Eu não sou você! Seu egoísta, narcisista e egocêntrico de merda! — Lincoln suspirou, contendo a raiva. — Eu vou para casa ficar com Pan. — Então se aproximou perigosamente, olhando-o de baixo, mas com a superioridade que Nick nunca teria. Seu ódio era evidente. — Vá trepar com o seu irmão, como eu sei que você quer.
Cornelius Goldenschild se aproximou dos dois irmãos minutos depois de Lincoln ir embora. Todos os corpos já haviam sido recolhidos. O sangue espalhado por todas as paredes, chão e teto foi limpado, deixando o aposento impecável. Melinda e Devon se foram para sempre.
— O que acabou de acontecer? — indagou cansado ao homem.
— Sempre houve uma conspiração para salvar seu irmão — respondeu Cornelius com simplicidade. — Eu tinha espiões em todas as esferas de poder dos Lancaster que sempre manipularam as coisas para que acontecessem como tinham que acontecer. Você quase estragou tudo quando quis matar Melinda antes do tempo e se expor ao risco de morte. Quando você apareceu, mandei um sinal aos meus homens para que esvaziassem a casa de Lancaster e subissem ao escritório. Agora simularemos uma explosão nessa casa, que começará deste escritório, onde todos os falecidos estariam em reunião com a Governadora Melinda Lancaster quando aconteceu. Vazamento de gás, fogos de artifício para comemorar o ano novo. Nada demais. Serão notícia por algum tempo e depois o país esquecer-se-á deles. O que aconteceu aqui é e será para sempre um segredo absoluto. Você nunca deve revelar o que você viu para ninguém, nem escrever, gravar ou registrar de qualquer forma. Acabou, Nicholas. A família Hentz está salva.
Ouvir aquelas palavras deu a Nick um alívio tão grande quanto teria se Ethan aparecesse ali para abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem. Acabou. A jornada dourada finalmente chegara ao fim. O perigo passara. Eles não morreriam. Eles eram imortais e indestrutíveis.
— Os Goldenschild que derrotarem os Lancaster — murmurou Lorenzo, que ainda mantinha os olhos fechados. — E vocês são parentes deles. Assim como os Tudor derrotaram os Lancaster na Guerra das Rosas. Eram parentes deles. Os York foram apenas coadjuvantes. Assim como os Hentz.
— Coadjuvantes importantes — disse Cornelius, ignorando que Lorenzo estava vivo, louro e saudável. — Bela alegoria. Amanhã me reunirei com sua família para discutirmos o que vamos dizer à mídia em relação ao sequestro de Ethan e sua fuga. Isso na sede da Anhert. Mas agora… gostaria de vê-lo?
— Se eu gostaria de ver Ethan?
— Ele está na sala ao lado. Já, já vai acordar.
Cornelius indicou com uma mão uma das portas laterais.
Olhe para ele, veja o que ele é. O Ethan emagrecido, fortemente sedado e até pouco tempo atrás sequestrado, cuja vida estava por um fio, não era quem ele era. Não era seu poderoso e magnífico irmão Ethan, seu irmão perfeito, o amor de sua vida. Não era assim que ele gostaria de ser visto.
— Não — respondeu para surpresa de Cornelius. Divertido surpreender um homem que sabia e podia tudo. — Agora não. Mande-o comer alguma coisa, tomar um banho, fazer a barba e se vestir propriamente antes de mandar essa casa para os ares. Então diga-lhe que vá até a suíte presidencial da cobertura do The Rivaille. É onde eu estarei à espera dele.
Deixaram a propriedade pouco tempo depois. Caminhavam devagar no meio da rua escura, meio cambaleantes, em direção ao The Rivaille. Lorenzo meio que carregava Nick, cujas pernas estranhamente não funcionavam direito. Lincoln e Pan estavam a salvo na mansão de Ethan em Granite Bay e eles estavam a algumas horas de se encontrarem com seu irmão pela primeira vez em quatro meses.
Os cento e cinquenta e um dias de cárcere acabaram.
— E agora? — perguntou Lorenzo. Nick acariciou seus cabelos lindos.
— E agora, estamos salvos. Voltamos ao nosso esplendor e glória. Porque somos Hentz. Somos leões poderosos, ricos e onipotentes, e esta é nossa dança. Lorenzo, poderia cantarolar Como Vivem Os Anjos? Eu sempre gostei daquela música. E Ethan também. Ele vem aí. Ethan vem aí.
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