Como Vivem Os Anjos
47 Nicholas No País Das Maravilhas
Notas iniciais
Ele estava no final de uma ruela escura fedendo a lixo que não foi recolhido, com ratos em seus pés e tijolos vermelhos em suas costas. Lábios machucavam a pele delicada de seu pescoço, lábios agressivos, lábios de ferro com dentes de aço que rasgavam a carne e chupavam o sangue como um vampiro.
As mãos o prenderam contra a parede enquanto rasgavam o resto da pele. Ele gritava, ele chutava, dava socos cegos no ar. Sim, no sonho ele era cego, e também mudo, mas não surdo. A todo o tempo, ouvia-o chamando seu nome, chamando-o por seu apelido, chamando-o de seu.
Não sou seu, não sou seu, pensou, mas descobriu-se incapaz de ouvir os próprios pensamentos.
Quando a boca mortífera chegou ao centro de seu ser, Nicholas deu um grito.
— Quem é você? — perguntou uma voz doce como uma canção, uma voz de mel que resvalava em seus ouvidos. Por mais profunda e perto de si que fosse e estivesse, não parecia estar se dirigindo a ele, mas a outro em particular. Não a uma pessoa… era difícil explicar.
Pare, por favor. Não sou seu para que você faça isso.
— De quem é, então? — perguntou a voz muito doce, tão doce que Nicholas começou a se sentir enjoado, como se houvessem mil borboletas em seu estômago e todas estivessem tentando sair pelo seu esôfago ao mesmo tempo, pequenos monstrinhos irracionais. — De quem é? — ela insistiu.
Não sou de ninguém, sou meu, só meu.
— Só seu — zombou a voz. — Último leão dourado, único leão falso, matador de leões brancos, um leão dançarino em agonia, ou simplesmente um leão…
Agora um zumbido zunia por todos os lugares, como se tivessem enfiado sua cabeça numa colmeia de abelhas, mas não sentiu a dor das picadas. A dor era mais intensa, era no fundo de sua alma, bem no seu coração, aquela dor que o faz desejar estar morto acima de tudo.
Por favor, me mate.
— Monstro — a voz sussurrou, e então se desvaneceu.
Quando ele acordou, suava copiosamente. Estava só de cueca, e cada centímetro de seu corpo estava molhado de suor, assim como o colchão. Parecia que, de uma vez só, a pele havia chorado todas as lágrimas que seu coração um dia chorara.
A luz gelada da lua invadia a pequena janela do topo de seu quarto; estava frio. Castellobranco era sempre fria a noite, não importava a estação. E em que estação estavam agora? Não lembrava. Parecia que alguém havia arrancado aquela informação à força de sua cabeça. E havia levado algo a mais.
Caminhou até o banheiro em passos letárgicos sem ligar a luz, deixando o quarto no negrume absoluto. Tirou a cueca e entrou debaixo do chuveiro, tomando um banho quente que deixou sua pele delicada vermelha. Por algum motivo, sentia-se sujo, por isso esfregou-a até deixar quase em carne viva.
Estava triste, mas não sabia por quê.
— Não sou um monstro — disse a si mesmo, também sem saber por quê. Ultimamente andava achando que todos estavam lhe escondendo alguma coisa. Saíra da mesa de jantar na noite anterior com raiva e batera a porta do quarto, chorando infantilmente até adormecer. Já tinha quinze anos. Não devia chorar até dormir como um garotinho.
— Não é — sussurrou de volta uma voz.
Por um momento, Nicholas esqueceu-se de como respirar. O par de olhos muito azuis, frios e brilhantes como estrelas observava-o na escuridão, rasgando a falta de luz como um facão que ia parar bem em seu peito.
Acendeu a luminária, deparando-se com ele sentado na poltrona reclinável de couro cor de creme do canto do quarto, aquela que usava para usar o computador e às vezes tirar fotos do próprio corpo nu e mandar às garotas que gostava. Metade da St. Emanuelle sabia que ele fazia aquilo, e alguns garotos pediam as fotos a ele também. E, bem, por que não?
— Que está fazendo aqui? — indagou rispidamente. — E como entrou nessa casa? — Apesar de ter ido pra cama cedo, para variar dormira depois de todo o resto da casa. Mas não ouvia o som da porta da frente abrindo.
Ele deu de ombros, apático como sempre. O cabelo louro-prateado caía por sobre um dos olhos, deixando apenas o outro visível como um farol azul. Tão azul. Nicholas se perguntava o que Ethan vira nele. E o que ele vira em Ethan. A seguir, amaldiçoou-se por esse pensamento.
Ele tirou o olhar dele e perpassou-o pelo resto do quarto. Havia pôsteres de mulheres seminuas em todas as partes. Algumas delas tinham líquidos viscosos e de cores estranhas caindo sensualmente pelo corpo, outras estavam num ringue de luta.
Às vezes ele fazia aquilo, ficava vários segundos fitando fixamente alguma coisa num ponto vazio como se houvesse algo lá. Ethan dissera que eram apenas coisas da cabeça dele, mas que não se devia falar aquilo muito alto. Aliás, ele sempre lembrava aquilo a Nick. Parecia que não se conheciam já há quatro anos.
Ele se levantou. Era mais alto que Nick, da altura de Ethan, mas tinha o rosto meio redondo e meio oval de um bebê, com bochechas grandes e quase sempre rubras, apesar do resto da pele ser muito pálida. O cabelo não passava do pescoço e era brilhante como um rio de prata, mas o que mais lhe chamava a atenção eram seus olhos. Tão vivos, como se não houvesse nada por trás deles, apenas o azul…
Era impossível fitá-los por tempo demais, e ele parecia saber disso.
— Veja pelo lado bom — ele disse com uma voz rouca. — Pode começar a passar mais tempo com seus pais. Eles tinham uma ONG conjunta, mas agora que vão se separar…
— Cale a boca — disse mais grosseiramente do que gostaria. Não gostava de magoar os outros, mas ouvir alguém falar tão levianamente daquilo após tão poucas horas… o que ele achava, que nunca se acostumara a ser solitário?
— … podem passar mais tempo com você — ele continuou. Nick sentiu vontade de bater em seu rosto, mas era como bater numa criança.
— Não posso passar tempo com meu pai, porque ele não vai passar com Ethan, por sua causa. — Não que Ethan pudesse ter escondido a sexualidade por muito mais tempo, mas naquele momento Nick precisava desesperadamente culpar alguém. — Se eu passasse, deixaria Ethan triste. Você sabe disso, por que veio me sugerir?
Ele suspirou pesadamente. Parecia ter tentado transmitir algo que Nick não entendera, e que pelo visto não entenderia, pois ele desistiu.
— Está bem. Boa noite.
Ele saiu do quarto. Nick observou sua longa relva de cabelos prateados seguirem até o fim do corredor da casa cor de vinho do fim da Rua Boulevard e desaparecerem dentro do quarto de Ethan. De repente, sentiu-se solitário. Oliver podia ser doente mental, mas tinha uma presença poderosa demais para ser esquecida com facilidade.
E a lua ainda brilhava, fina e cortante como a lâmina de uma faca.
Jogou-se na cama novamente, desejando não ter o pesadelo horrível, o pesadelo perverso, que vinha tendo repetidamente há semanas. Não conhecia seu propósito, mas algo lhe dizia que a misteriosa visita de Oliver àquela noite tinha algo a ver. Ele devia saber. Ele parecia saber coisas que ninguém mais poderia saber.
Não voltou a sonhar àquela noite, e quando desceu as escadas na manhã seguinte para tomar café, apenas ele estava lá.
Quando se sentou na cadeira, notou que ele estava com um bigode de chocolate.
Parece uma maldita criança.
— Tive um sonho — ele disse. Nick pensou em dizer que não se importava, mas de repente aquilo pareceu muito cruel. — Com você.
Passou a olhá-lo mais abertamente. Usava uma camisa com gola V azul-clara que combinava com seus olhos da cor do céu, e estava com uma expressão curiosa no rosto, como se esperasse sua reação. Nick não reagiu.
— Sonhei com um grande salão com paredes de mármore rosa-claro e altas colunas gregas por todo o lugar. O chão era de pedra polida e muito limpo e brilhante. Havia uma orquestra tocando num canto, pianos e violinos, e um grande trono no centro de tudo, em cima de um pedestal de ouro. Havia pessoas também, homens com trajes antigos da era elisabetana e mulheres com vestidos gigantescos e muito antiquados.
O suco de laranja estava sem açúcar. Nick pegou algumas colheradas de um pote e observou o pozinho branco se dissipar no laranja.
— E tinha leões — ele continuou incessantemente. — As pessoas eram leões. Tinham cabeças de leões, patas de leões e pés de leões, mas corpos humanoides. Dois dos leões eram muito grandes, os maiores dali, eram machos e tinham longas jubas, mas um deles era dourado e o outro era negro. O leão negro dançava com uma leoa negra, e o leão dourado dançava com uma leoa dourada. Havia outra leoa que dançava com um gatinho verde-acinzentado que usava uma coroa, e ela, a leoa, era tão dourada quanto qualquer um dali. E tinha mais uma, mais uma leoa, mas essa era branca. Não de um cinza-claro ou prata, mas branca como a neve, branca como a luz, do branco mais puro que se pode imaginar, e ela também dançava com um gatinho, mas esse era maior que o outro, quase uma pantera, e ele era cinzento, mas tinha olhos violeta, e algumas partes do corpo dele também eram violeta…
Aquelas torradas estavam queimadas demais, num tom dourado-escuro, e agora um filete de sol urrava da janela do quintal e chocava-se bem contra a testa de Nick. O sol estava a cento e cinquenta milhões de quilômetros de distância, e mesmo assim o acertava.
— No trono de ouro, coroado e de cetro, um leão negro morto com um leão dourado agonizante aos seus pés. A coroa pendia de sua cabeça, prestes a rolar pelo pedestal, e o mesmo ao diamante do cetro… E a orquestra tocava marcha fúnebre, e os convidados estavam parados e tristes. Sim, havia convidados.
Nick havia mudado sua cadeira de posição para desviar da luz do sol. Mas as torradas ainda estavam queimadas.
— Dois dos convidados eram falcões com penas laranjas e olhos verdes. Voavam em círculos, um exatamente igual ao outro, e as pontas de suas asas pareciam tocar-se. Às vezes, eles pareciam rir de tudo aquilo, e pareciam quererem ir em direção a um leão específico, mas sempre se continham. Havia outros falcões também, mas esses estavam parados, exceto por um ou dois. Havia outros três gatos verde-acinzentados, e eram muito grandes, apesar de não parecerem panteras como aquele outro. Pareciam apenas gatos bem grandes, e dois deles também usavam coroas. Havia outros gatinhos minúsculos e muito brancos de olhos azuis, e quadros gigantescos nas paredes com homens e mulheres de olhos severos.
Um certo tempo após ter engolido o último pedaço de torrada, Nick perguntou:
— Que isso tem a ver comigo?
— Você não percebe? Você é o leão.
— Há muitos leões aí. Qual deles?
— O agonizante, aos pés do negro do trono.
Nick levava o suco aos lábios, mas parou ao ouvir isso. Ficou olhando para o fundo do copo, onde a polpa se acumulava.
— O cetro e a coroa estão prestar a cair e a rolar, e qualquer um dos leões dançando pode pegá-los, mas eles não pegam porque você ainda não morreu. Você é o herdeiro do negro.
Nick lentamente pôs o copo em cima da mesa. Sua mão tremia tanto que fez isso rápido, com medo de que o copo pudesse cair no chão e se espatifar.
Oliver deve ter pressentido que ele lhe daria um tapa no rosto, porque desviou com suavidade.
— Não quero lhe assustar — ele disse com aqueles insuportáveis olhos azuis brilhando. — Mas todo mundo morre. Inclusive eu. Já morri tantas vezes que não sei mais o que é viver. Todas as vezes que vejo uma pessoa com uma silhueta brilhando em azul, eu sinto que eu morro um pouco mais.
De alguma forma, entendeu o que ele quis dizer. Nick só morreria uma vez, e isso teoricamente devia ser um alívio. Mas não amenizou sua raiva.
— Algumas pessoas enxergam a vida de uma maneira diferente — foi a última coisa que ouviu antes de sair de casa por uma grande porta marrom de madeira.
Caminhou pela calçada branca e bege da Rua Boulevard letargicamente, como em câmera lenta, observando os paralelepípedos tão irregulares que fariam uma pessoa com TOC chorar. Passou pela fonte com cupidos rechonchudos que cuspiam água e pelos meninos que improvisaram uma quadra de futebol ali por trás dela, no meio da rua, embora quase nunca passasse carros. A bola voou para Nick em dado momento, que chutou-a de volta com habilidade.
Os meninos agradeceram.
O Sr. Castanelli, pai de Oliver, conversava com seu pai Charles na varanda de sua casa, aquele simpático predinho com seis varandas na frente que fora adaptado para ser uma casa. Ele era diretor da filial da Lemnsack Hentz World Donations de Castellobranco e tinha os cabelos prateados de Oliver, embora fossem curtos. No mais, aquilo era ridículo. Ele teria sido um homem mais bonito se fosse careca.
Sua mãe estava do outro lado da rua, entre duas moitas de bromélias, observando os adolescentes da escola próxima no campo de futebol, com os braços cruzados. Seu cabelo dourado-claro era tão brilhante que espelhava a luz que refletia nele, e tão comprido que quase chegava à cintura. Embora fosse liso, era ondulado em algumas partes, principalmente nas bordas.
Era estranho ver Mary Alice Hentz daquela forma. Sem maquiagem, sem tratamento algum no cabelo (embora ela realmente não precisasse), sem os diamantes Hentz no pescoço, dedos e orelhas, com uma calça jeans cinza-escura e uma blusa branca comum, e não um vestido longo vermelho-sangue ou um curto cinza-pérola feito especialmente para ela por Donatella Versace ou por Domenico Dolce e Stefano Gabbana. Sem glamour algum.
E com quarenta anos, ela continuava sendo uma das mulheres mais bonitas e ricas do mundo.
— Está procurando um novo marido? — indagou sem vontade. Fitava o campo a sua frente com desinteresse. Os jogadores eram tão ruins que pareciam ter sido tirados de uma estadia de um ano em um campo de concentração.
Sua mãe fitou-o com surpresa, os olhos imensamente negros e redondos atravessando sua alma, captando tudo o que ele sentia. Tinha maçãs do rosto acentuadas e um queixo pequeno e delicado, assim como o nariz, e lábios naturalmente grossos.
— Nunca gostei dos mais novos — ela respondeu enlaçando o pescoço do filho com o braço. Beijou o topo de sua cabeça, e de repente Nick se sentiu com nove anos. — Seu pai tem um filho ilegítimo.
A mídia andava especulando aquilo já há vários meses, mas era apenas isso: especulações, fofocas. Ouvir da boca de sua própria mãe era diferente.
— Se chama Lorenzo e mora na Itália. Tem dez anos e é cego. A mãe dele se chama Antonella. Seu pai trabalhava com ela em assuntos do governo. Ela foi a maior responsável pela queda da máfia italiana, era espiã.
— Que admirável… cego?
— Foi o que ouvi falar. Você quer um cigarro?
— Você não devia me oferecer. Mas por favor, sim.
Ela acendeu um cigarro com um isqueiro Zippo com a estampa de um leão negro sobre um fundo negro com lascas douradas. Deu outro a Nicholas e acendeu para ele também.
Os dois tragaram juntos, observando a fumaça subir até o céu ensolarado.
— Vamos nos mudar? — perguntou à mãe. Ela assentiu.
— Para Middleland. Ainda não sei o que será da ONG.
— E o que será de Ollie e Ethan?
— Ethan já é maior de idade, pode decidir sobre sua vida sozinho. Ele pode morar e fazer faculdade aqui, se quiser. Existe uma escola lá da mesma ordem que pertence a St. Emanuelle. Se chama St. Nicholas. Você pode gostar.
— Posso? Só posso. Não quer dizer que vou. O que é poder, mãe?
— Poder?
— Se há um salão com um rei morto de cetro e coroa e pretendentes ao trono, por que os pretendentes querem apenas o cetro e a coroa para se tornarem reis? Quer dizer, é apenas isso que faz um rei? Seu herdeiro não deveria ser algum descendente seu? Ou alguém que ele houvesse escolhido quando vivo?
Mary Alice passou um longo tempo fitando o céu azul antes de responder.
— Se isso fosse verdade, jamais teria havido guerras em disputa de um trono. A opinião de um rei morto vale tanto quanto a de um plebeu vivo. Cada parte se considera tão merecedora do trono quanto a outra, e do poder também. Afinal de contas, o cetro e a coroa são o centro do poder de um rei.
— O povo sempre é mais numeroso que o governo e, no entanto, obedece ao rei.
— Sim, pois o povo vê o rei de cetro e coroa e o toma como sua suprema figura de autoridade, mas despido disso, ele não é nada. A questão, Nicholas… é que o poder está onde os homens acreditam que ele está. Não importa quem use a coroa ou empunhe o cetro. O que importa é que ela conseguiu conquistá-los. Poder é aquilo que os fortes impõem aos fracos para legitimar sua força.
Um rapaz sem camisa fez o gol e os outros de seu time comemoraram com ele.
— No fim, poder é abstrato — Nick concluiu.
— E só o tem quem teve esperteza suficiente para tê-lo, ou quem esteve cercado de pessoas espertas o suficiente. Mas ele é cruel. Pode envenenar a mente do mais tenaz dos homens, criar megalomaníacos e matar milhões de pessoas. Não difere nobres de camponeses. Poder é uma bênção quando quem o detém sabe usá-lo, e é uma maldição quando não sabe, ou simplesmente não se importa. E, no entanto, ele não existe. É uma sombra na parede, um jogo de luzes e fumaça que engrandece o menor dos homens.
Sua mãe parou de falar após isso. Fumaram em silêncio até o cigarro acabar, e então o ambiente se acentuou. Podiam agora ouvir o canto dos pássaros e o perfume das flores, o riso das crianças e o barulho dos carros lá o longe, além dos gritos dos jogadores. Nick não queria admitir, mas se metade daqueles meninos pedissem para comê-lo ali mesmo, provavelmente aceitaria.
— E quem o detém…
— … é quem merece — ela voltou a falar. — Nós merecemos. É isso que nós, Hentz, fazemos há cento e vinte anos. Nós merecemos.
Nós merecemos, repetiu mentalmente. E então percebeu. Em sua cabeça, visualizava o rosto de uma criança italiana de dez anos de idade, o tal de Lorenzo. Por algum motivo, ele se parecia muito com Ethan quando ele tinha essa idade.
— Estão se separando por causa dele — falou como se há muito soubesse. Sua mãe não disse nada. — Não por causa de Ethan e Oliver.
Mary Alice jogou o cigarro no chão e o apagou com a ponta da sapatilha.
— Eu sei sobre Ethan e Oliver desde que vi os dois juntos pela primeira vez. Eu sei sobre Ethan desde que ele tinha quatro anos de idade e gostava de andar pela casa usando meus saltos. Não sei quanto a Charles, mas… achei que seria uma boa desculpa. Eu não deveria ter te contado, mas chega de segredos nessa família. Você é um Hentz, e Ethan também é. Mas você… — Ela deu um selinho na ponta de seu nariz — é mais Hentz que ele. É impetuoso, orgulhoso, arrogante, confiante e carismático. Como sempre fomos.
Nick jogou o próprio cigarro no chão e o apagou também.
— Ethan também é assim, mas você não sabe — disse com voz cortante. — Nunca parou para prestar atenção nele, no potencial que ele tem. Está tudo adormecido sob aquela casca de timidez, e ficou pior quando você parou de viajar. Acho que o comodismo o sustenta. Não sei explicar de outra forma.
— Eu compreendo — ela disse. — Ele ainda vai desabrochar.
Espero que sim. Acho que ele morreria se perdesse Oliver. E acho que isso não vai tardar. Aquele garoto passa mais tempo sonhando acordado do que realmente vivendo.
Há muito tempo, talvez uns quatro anos, Oliver havia lhe dito que não haveria de viver por muito mais tempo. Que seria retirado à força de perto de Ethan. O Nick de onze anos pensou que tinha algo a ver com os pais dele, mas depois que começou a rever suas companhias, a tensão passou.
— Eu também gosto de garotos — disse sem nem olhar para ela. E então se afastou acrescentando: — Só que prefiro meninas.
Como sabia que preferia levar um tiro a voltar para casa àquele momento, pegou um táxi e foi ao Goldenschild Beach Lake. Já que Castellobranco não tinha praia, havia sido construído um lago artificial que imitava quase que com perfeição uma praia litorânea, como todo bom californiano gosta.
Nicholas ainda se perguntava como eles conseguiram imitar o cheiro da maresia ao caminhar pelo que se podia chamar de orla. Ali, os paralelepípedos eram regulares, coqueiros eram plantados no meio da calçada, vendedores ambulantes ofertavam objetos que só se podia arranjar no mercado negro e crianças sujavam o nariz de sorvete de casquinha.
Observando tudo aquilo, Nick refletia sobre o quanto a vida era ínfima e sem propósito. Todas aquelas pessoas vivendo suas vidas particulares, com segredos, tristezas, perdões, traições e amores. Todas diferentes, e mesmo assim todas completamente iguais. O mundo era uma coisa triste.
O sol abaixou-se até beijar a água, e o céu tinha um profundo tom violáceo de cobalto. Com poucas nuvens no céu, adolescentes de touca andavam de skate, namoravam e saíam com os amigos. Nick se perguntou se alguma vez tivera algo do que se pode chamar de amigo de verdade.
E de repente estava escuro. A água agora negra parou de chocar-se contra a areia do lago e tudo ficou muito quieto e silencioso naquele grande espelho escuro. A lua estava cheia como uma moeda de prata e brilhante como os olhos de Oliver, mas o brilho era prateado como seus cabelos.
Recostado na grade de madeira que o impedia de despencar o um metro e meio que o separava da areia, Nick sentiu-se relaxado. Vestia um moletom cinza e branco que repentinamente tornou-se o travesseiro mais confortável do universo. Os barzinhos e restaurantes já abertos exalavam um cheiro delicioso de petiscos e frutos do mar, e mulheres bonitas em vestidos curtos riam com seus maridos, namorados ou filhos enquanto bebiam seus martinis secos.
Uma pena que estava sem dinheiro. Na verdade, Nick não sabia como ia voltar pra casa. Frequentemente fazia isso, zanzar sem rumo pela cidade até alguém achá-lo.
Olhou para o lado e viu Oliver se aproximando dele. Ele vestia quase as mesmas roupas que Nick, mas o moletom era azul-claro. Era uma das pessoas mais bonitas dali, isso Nick admitia. Se ele não fosse namorado de Ethan…
— Ethan estava preocupado com você — ele disse baixinho. Parecia desconfortável ali, em meio a tanta gente.
— Como sabia que eu estava aqui?
— Você sempre vem aqui.
Às vezes, seu rosto de bebê era adorável, outras vezes era excitante. Nick tentou afastar os pensamentos macabros, mas todas as vezes que os lábios dele se mexiam lembravam-lhe da vez em que fora chupado atrás da igreja da St. Emanuelle.
— Desculpe se te assustei hoje de manhã — ele disse, sinceramente arrependido. Odiava aquilo que ele fazia, aquela incapacidade de ser odiado pelos outros. — Foi só um sonho. Não significava nada, só minha mente perturbada.
— Pare com isso — implorou, agoniado. — Pare com isso, com tudo.
— Com o quê?
— Com ser você. Essa criatura de olhos azuis e cabelos platinados. Essa criatura doce e inocente e meiga e gentil. Eu não aguento mais. Eu quero odiar você, mas não consigo. Eu te amo, amo porque meu irmão te ama, então eu necessariamente te amo também. — Era uma confissão que não esperara fazer, mas estava há muito tempo guardada em seu peito. De repente, tudo se tornou um pouco mais bonito.
Nick deu um passo para a frente, pôs-se na ponta dos pés e encostou seus lábios nos dele, bem de leve, então se separou. Sentia-se melhor. Era como experimentar uma comida muito deliciosa após horas sem comer.
— Não conte a Ethan — falou, voltando a olhar para o lago. — E agradeceria se vocês começassem a transar mais baixo, você parece uma garotinha gemendo, a não ser que esteja disposto a me fazer gozar toda noite depois dele. Bem, se faz com um irmão, por que não com o outro?
Olhou para Oliver. Ele o fitava com a mesma expressão de antes.
— Também te amo — ele disse. — E amo sua mãe, e seu pai também apesar de tudo. E amo seu irmão mais que tudo. Mas sou só dele. E ele é só meu. Somos partes divididas da mesma alma. Você quer ouvir uma história?
Nick deu de ombros. Desejava outro cigarro.
— É sobre mim. Eu nasci no Canadá, num lugar chamado Vale das Sombras, mas que lá chamávamos Vallée des Ombres.
— Você fala francês?
— Sou quase fluente. Eu vivia com meus pais num chalé perto de uma floresta que chamávamos Forêt des Ombres, Floresta das Sombras. Eu era muito sozinho, e apesar de ter babás, elas não gostavam de ficar perto de mim porque eu via pessoas que elas não viam. Meus pais trabalhavam muito e não gostavam disso também. Eles ainda hoje não gostam. Houve uma vez em que eu saí para brincar no quintal de trás do chalé quando minha babá adormeceu. Ele era rodeado de pinheiros, e ninguém esperava que eu pudesse escapar, mas havia uma falha, eu sabia que havia. Os sonhos me contaram que havia. Era assim que eu chamava os azuis quando era criança, os sonhos. Costumavam me chamar de o Caçador de Sonhos na escola, mas era para zombar. Eram homens e mulheres, meninos e meninas, todos muito pálidos, com a pele da cor da neve, e vestiam roupas antigas ou novas, sujas ou limpas, velhas ou não. Eu lembro que havia uma mulher de cabelo louro que gostava que eu a visse dançar sobre a neve, e eu ria tanto com isso… havia um menino que queria desesperadamente brincar com a neve, mas não podia porque suas mãozinhas não conseguiam pegá-la. Eles não usavam luvas, nem gorros, nem cachecóis, e eu me perguntava como não congelavam. Um dia eu perguntei isso à minha babá e ela me deu um tapa na mão. Nunca mais voltei a falar com ela. Eu tinha apenas seis ou sete anos.
“Eu me lembrava de cada história que me era contada, e para não esquecer sussurrava-os antes de dormir ou mesmo quando sonhava. E quando sonhava, eles estavam lá também comigo, me aquecendo no frio, me dando o amor que meus pais não deram. Por isso os chamava de sonhos, apesar de terem uma aura azul envolta deles que era tão brilhante quanto meus olhos. Eu sentia a tristeza e a alegria deles, eu falava com eles e os ouvia falando comigo, com vozes sinistras e distantes, como se estivessem a uma grande distância, apesar de estarem bem na minha frente. Uma certa vez, eu falava com uma menina de cabelos negros e desgrenhados quando ela me perguntou em que ano estávamos. Achei aquilo estranho, mas respondi. Ela me olhou fixamente, sorriu e começou a chorar. Queria acalentá-la, mas sabia que não podia, mas me surpreendi quando notei que ela chorava de alegria. Ela se levantou, me agradeceu e sumiu num fortíssimo brilho branco. Eu nunca mais a vi. O mais engraçado é que eu ficava quente quando os sonhos estavam por perto, e frio quando eles iam embora.
“Mas ouve um dia em que eu conversava com um sonho quando ele entrou na floresta. Sua história era tão interessante que eu fui procurá-lo para que ele me contasse o resto, pois tinha medo que não voltasse. Eu entrei na floresta atrás dele e não o achei. Quando eu penso agora, imagino que ele deve ter entrado naquele brilho branco que a menina entrou. Deve ter sumido para sempre, e eu nem me dei conta disso, apenas continuei adentrando na floresta até que as árvores ficavam espessas demais para deixarem passar a luz do sol. Tentei achar o caminho de volta, mas simplesmente não consegui. Caminhei por horas, e então eu estava exausto. Usava poucos agasalhos e não havia nenhum sonho por perto. Chamei-os, mas não vieram. Eu sabia que iria morrer de frio antes da sede ou da fome. Eu não consegui chorar. Gritei muito e tentei sim chorar, mas as lágrimas haviam congelado dentro de mim. Não queriam sair. Eu sabia que quando a noite chegasse, isso significaria a morte para mim. Aquele momento foi quando eu tive meu primeiro contato com as Sombras.
“Para conservar o calor, me enfiei no tronco oco de uma velha árvore morta e fiquei lá dentro, aquecido por nada além de mim mesmo. Então elas vieram. Entraram pela abertura do tronco tapando a pouca luz do sol que restava. Eram uma coisa viva, um organismo verdadeiramente vivo e pensante, mas maléfico e perverso. Uma névoa densa, violeta-arroxeada, às vezes muito preta e sempre cruel. Ela me envolveu e eu caí em total escuridão dentro daquele tronco, pensava que haviam tapado a abertura. O inverno chegara cruel demais para mim, e as Sombras foram ainda piores. Tentei me levantar e tocar a madeira, pelo menos senti-la entre os dedos, mas não senti nada. Perdi o tato. Não enxergava, nem ouvia nada. Tentei gritar, mas nunca soube se gritei mesmo ou não. Até o gosto da minha boca sumira. Eu estava descarnado, desesperado, praticamente morto, e meus pensamentos também eram confusos e embaralhados. Nada se alinhava, nada estava certo. Eu não devia estar ali, devia estar em casa, ouvindo as histórias dos sonhos, rindo com eles, chorando com eles. Eu os amava e eles me amavam também, e no entanto onde estavam eles? Por que não me aqueciam, por que não me protegiam das Sombras?
“Mas então veio a Luz, azulada e linda. Foi aí que passei a chamá-los de azuis, em homenagem àquela Luz que expulsou as Sombras. Eu as ouvi gritar de agonia, e soube que minha audição havia voltado. Pensei estar permanentemente cego, mas então percebi que meus olhos estavam apenas fechados. Senti a frieza da neve sobre mim e a dureza da casca de árvore, o aroma gostoso daquela podridão, o gosto sem gosto da neve. O sol estava lá em cima, brilhando como uma moeda de fogo, iluminando tudo. A existência das Sombras parecia completamente impossível diante de tanta beleza. Eu quase chorei, mas as lágrimas ainda estavam congeladas dentro de mim.
“A partir daí, os azuis voltaram a me aquecer, e todo o frio fora embora. Todo ele, desde o incrustado no fundo da minha alma até o superficial, todos sumiam, e era maravilhoso. Sentia-me vivo, mas estava fraco demais para levantar. Não sei por quanto tempo fiquei ali naquela árvore, aquecido pelos azuis, alimentado por seu amor e sua misericórdia. Meu cabelo cresceu muito, eu sei disso, e ele me parecia mais claro que antes, quase da cor da neve. Tudo me parecia muito bom, nos trincos, nos eixos. Eu pensei que se morresse ali, morreria feliz, e eu sabia que morreria. Nenhum ser humano sobrevivia tanto tempo sem comida ou água, mesmo com a ajuda dos azuis. Mas eu não me importei. Havia um sorrisinho incrustado nos meus lábios o tempo todo após a ida das Sombras. Eu havia aceitado meu destino. Mas foi antes de ouvir a canção.
“Se Deus fez o universo cantando, aquela fora a canção que Ele usara. Era a coisa mais bela que já havia ouvido, e eu nunca agradecera tanto a devolução de minha audição. Minha língua e minhas mãos formigavam com aquela música, como se eu pudesse devorar as notas sendo lançadas no ar, como se eu pudesse simplesmente pegá-las. No meu desejo mais egoísta, gostaria de guardar a canção para sempre dentro de uma caixa, para que ninguém além de mim pudesse ouvir. Ah, como eu teria gostado! Mas ela continuava sendo cantada, e estava cada vez mais alta. Eu tentei acompanhar, mas era numa língua que eu não conhecia, e tão melodiosa que era como se estivesse sendo interpretada por milhares de instrumentos diferentes ao mesmo tempo, todos na mais absoluta e perfeita sincronia. Chamei-a Canção da Neve.
“Eu fui erguido da toca da árvore e juro por tudo que acredito que contemplei a face de Deus. Ou talvez não fosse Deus, porque na verdade era uma mulher. Tinha o rosto mais pálido que eu já vira na vida, cabelos da cor da neve tão macios quanto um travesseiro, olhos cheios de luz. Não simplesmente da luz, mas da Luz, azul. Os olhos dela eram azuis, e seu sorriso irradiava mais a luz do sol que a própria neve. Seus dedos eram compridos e gentis, e ela era tão quente. Seu calor envolvia todo o meu corpo, e quando ela me pressionou contra seu peito, pensei que fosse derreter ali mesmo. Eu não ouvi nenhum batimento cardíaco, mas ouvia a Canção da Neve. Quando a mulher a cantava, ela começava lá de dentro para então sair. Eu a ouvia sendo… como dizer? Produzida. Por seu âmago, por sua alma, por tudo que ela era. Era como se eu ouvisse a própria Criação.
“Quando os azuis deixaram-me apenas com ela, finalmente percebi o quão cansado eu estava. Mal conseguia levantar minha pequena cabeça de seus braços para voltar a fitá-la quando ela voltou a andar. Tinha uma fome insaciável por sua beleza, por sua brancura, por seus olhos de água, por sua Canção da Neve. Queria vê-la, tocá-la para saber se era real mesmo ou se eu ainda estava naquele tronco, delirando até a morte. Dizem que na hipotermia, pouco antes da morte, todo o frio se esvai e você se sente mergulhando num mar de leite, e então o alívio é instantâneo… mas eu via as árvores cobertas de neve enquanto ela me levava, eu via as bordas de seu vestido fino esvoaçando, e me perguntei como ela podia sobreviver naquele frio com aquilo. Eu também não via suas pegadas na neve, então parei de temer os ursos e lobos que viviam naquela região. Até hoje não sei como nenhum deles me encontrou ali, na árvore. Talvez as Sombras e os azuis tivessem mascarado o cheiro do meu sangue, e então a mulher continuou o trabalho. Eu não sei. Não raciocinava direito naquele momento. Queria apenas o calor, a canção e minha casa.
“Ela me levou a uma cabana belíssima, tão bela quanto qualquer cabana que você pode imaginar. Lá dentro, era perfeitamente quente, não havia frio, não existia frio, mas sempre havia um fogo crepitante na lareira e uma cama macia ao lado de uma grande janela. Além da janela, um lago pequeno de água azul-cobalto imóvel com uma fina crosta de gelo por cima. Eu gostava de olhar para ele, imaginando que um peixe gigantesco iria surgir de repente e quebrar a crosta. Gostava de me imaginar pegando o peixe e levando para a mulher, como se eu mesmo o tivesse pescado. Então ela me beijaria na testa com seus lábios azuis, e seus cabelos brancos roçariam em meu nariz. Tão jovem, mas com cabelos já brancos. Eu não compreendia aquilo, na época. O engraçado é que até hoje não compreendo.
“De novo, não faço a mínima ideia de quanto tempo passou. Não me lembro de ter dormido, acordado, comido ou bebido. Apenas ouvia sua Canção da Neve e seus suaves beijos. Não me lembro de ter feito qualquer outra coisa. Não me lembro de qualquer outra pessoa entrando naquela cabana, mas me lembro que houve uma vez que ela se deitou nua ao meu lado, na cama, e eu não conseguia tirar os olhos de seu corpo. Não era um corpo comum, eu nem lembro como era, mas não era comum. Lembro-me de ela ter dito algo no meu ouvido, e então senti o maior prazer da minha vida enquanto ela se movimentava sobre mim, nua. Eu segurava seus seios quentes com as mãos e apertava os mamilos entre os dedos, e ouvia seus gemidos. Como uma mulher, eu a desejava. Penso que ela me desejava também. Mas é tudo um borrão na minha memória, e eu posso apenas estar imaginando tudo.
“Chegou o dia em que eu tive que ir. Ela não me disse isso, mas eu soube. Ela encostou os lábios nos meus e contou à minha alma, e eu soube. Meus cabelos já estavam prateados a essa altura, e meus olhos nunca foram tão azuis. A mulher havia sumido, mas não sem antes eu me arrepiar de cima a baixo. Saí da cabana com as mesmas roupas que usara desde que saí de casa e segui até a estrada. Eu não sabia o caminho, a mulher que me guiou. Mesmo que eu não a visse, eu podia senti-la dentro de mim. Eu a desejava de novo, desejava o calor de seu corpo nu sobre o meu, e sua voz gelada em meu ouvido, falando naquela língua estranha e identificável, arrepiando-me todo, sugando os pedacinhos de minha alma. Queria seus lábios e o calor deles, eu a amava mais que tudo. Era apenas uma criança, mas na minha cabeça eu cresceria e me tornaria seu esposo, se era isso que ela queria, e então teríamos um filho que teria cabelos brancos e olhos azuis. Era loucura, mas eu me senta incompleto sem ela.
“Quando cheguei na estrada, não demorou dois minutos para um carro passar por ali e me encontrar. Levaram-me para casa. Descobri que passara mais de um mês perdido na neve e que de forma alguma me encontraram. Me perguntaram onde eu estivera. Eu falei da cabana, mas não da mulher. Levei-os até a cabana novamente, mas esta se revelou em ruínas. Não havia nenhum resquício da cabana anterior, bela e quente. Era apenas um amontoado de telhas e paredes. Nem a cama estava lá, onde a mulher me amara. Disseram-me que a cabana estava abandonada já há meio século eu senti vontade de gritar. Era como se enfiassem uma estaca no meu coração. Tudo perdido, tudo aquilo, todo aquele prazer, tudo perdido. Eu já não me lembrava mais da Canção da Neve, ela sumira da minha cabeça. Roubada. Assim como a minha inocência.
“Meu pai me bateu quando eu disse o que aconteceu, detalhe por detalhe. A imprensa descobriu que eu sobrevivi um mês numa floresta de neve e começou a atazanar a minha família. Nos mudamos para os Estados Unidos, depois para a Califórnia. Piazzavuota.”
A voz de Nicholas Hentz demorou um pouco para se formar. Mas lá do fundo de sua alma, ela veio.
— Piazzavuota? — Então se lembrou. — Oh…
— Onde as Sombras se deitam. — Oliver deu uma risada sem alegria, então olhou fixamente para Nick. Seus olhos eram brilhantes demais, azuis demais, e aquele cabelo prateado… — Você pensa que a mulher vive em mim. Talvez. Meu cabelo era simplesmente louro-claro quando eu era criança e meus olhos eram mais escuros.
— Ela dormiu com você — falou cuidadosamente.
— Dormiu. — Ele assentiu. — Consigo me lembrar que ela tirou minhas roupas, montou em mim e cavalgou. E também de cada detalhe dos seios dela. Ela gemia meu nome e me forçava a tocá-la e a beijá-la, tanto em cima… quanto em baixo. Nunca me interessei por nenhuma outra mulher depois dela, e por nenhum outro homem depois de Ethan. Às vezes, quando me deito com Ethan, penso nela.
— Ela não era humana.
— Não era. Não sei o que ela era. Talvez fosse Deus. Gostaria de poder ter-lhe dado um filho, como ela queria. Quando percebeu que eu não conseguiria, mandou-me embora. A história é bem menos poética quando contada dessa maneira, mas é a verdade. Ninguém nunca acreditou em mim. Você acredita?
— Acredito — falou antes que pudesse se controlar. — Mas… os sonhos… ou os azuis…
— Eram pessoas mortas. Tentaram me fazer acreditar que não existiam, que eram pessoas da minha mente que eu recriava porque era muito solitário, porque eu era esquizofrênico, mas não. Ainda hoje vejo pessoas mortas, com uma aura azul em volta da silhueta delas. Quando estou sozinho, falo com elas, mas nunca por muito tempo. Aquele brilho branco que levou a menina embora era ela tomando consciência de que estava morta e fazendo a travessia. Ela teve sorte, poucos conseguem. Não acreditam que estão mortos, e quando acreditam simplesmente não querem deixar esse mundo porque têm medo do que há no próximo.
— O que você acha que há?
— Não consigo imaginar. Não sei se existe realmente um Todo-poderoso para receber aquelas almas, se existe uma força maior que vá nos acolher como seus filhos, mas eu quero que exista. Eu quero acreditar. Em qualquer religião, em qualquer crença, não importa. Eu só quero acreditar para que se torne real. O inexistente nada mais é que aquilo que não desejamos o suficiente.
— Você precisou acreditar.
— Precisei. Depois de Piazzavuota, aquilo só parou em Passodepedra porque eu tinha um amigo que denunciou meu tio-avô. A essa altura, o mundo já não era mais o mundo pra mim. Eu criei meu próprio mundo, um dentro da minha mente, onde eu era o deus e podia fazer o que quisesse. Mas eu não era onipotente. Comecei a ter dificuldades de voltar à realidade depois de sair do meu mundo. Eu confundia as coisas, não conseguia mais diferenciar o real do imaginário porque eu havia criado cópias das pessoas reais no imaginário. Eu não sabia mais o que existia e o que não. É como dois irmãos gêmeos tão parecidos que constantemente trocam de lugar um com o outro. Chega uma hora em que eles não se lembram mais quem é quem. Precisam escolher. E eu escolhi este mundo, este que nós estamos.
Nick foi tomado pelo maior pavor que já sentiu em sua vida. Um arrepio o tomou de cima a baixo enquanto fitava o rosto macio de Oliver, seus lábios grossos se movendo em sincronia. O riso das pessoas pareceu ficar mais baixo.
— Está dizendo que você não sabe se está no mundo real ou não?
Ele balançou a cabeça.
— É assustador pensar dessa maneira — continuou. — Você pode ser um produto da minha mente, e Ethan também. Eu posso estar num mundo imaginário, posso estar em coma no mundo real, apenas a espera de que alguém desligue os aparelhos e tudo isso suma. — Deu uma risadinha. — Se eu estivesse mesmo no mundo que criei, poderia fazer qualquer coisa, e eu não posso. Então devo estar no real. Não é?
— Não sei. Tudo parece perfeito demais para você?
— Com certeza não, mas há alguns anos pareceu. Há quatro anos, um inglês que se apresentou para mim como Eadwine veio falar comigo, disse-me que sabia que eu podia ver fantasmas. Eu neguei e disse que eu tinha esquizofrenia, mas ele me garantiu que eu não tinha. Ele me disse que outras pessoas podiam fazer o que eu podia, e que ele também tinha poderes excepcionais. Ele tocou em mim e me contou a história da minha infância detalhe por detalhe, com cada sentimento que eu senti. Foi estranho, ouvir um desconhecido falando de sua própria vida como se você nunca a tivesse vivido. Ele também falou do meu cabelo e meus olhos. Foi estranho porque ele era cego. Ficamos mais de seis horas conversando, e no fim eu percebia que eles não eram imaginação, os azuis. Se falasse com eles de vez em quando, podia suportá-los. Não me importunariam mais. E no fim eu voltei a apreciar a companhia deles.
Nicholas sabia o que ele estava fazendo, estava contando-lhe um segredo que guardava há quatro anos. Sabia que jamais havia contado aquilo a ninguém.
— Eu nunca disse a ninguém que não tinha esquizofrenia. Deixei que eles acreditassem. Quando me dão remédios, finjo que engulo, mas depois cuspo fora. Nunca me senti tão bem na vida, mas ainda viro a cara quando vejo um azul na rua para que ele não perceba que eu posso vê-lo. Já vi outros fazerem a travessia, e isso me deixa feliz. Não ser doente me deixa feliz. Saber que as pessoas acham que eu sou e que vou morrer logo também me deixa feliz, mas de uma forma meio sadomasoquista.
A pele de Oliver não era pálida como a de um cadáver, Nick finalmente notou. Era simplesmente muito branca. Sob a luz da lua, brilhava. Possuía um olhar tão etéreo quando o de um fantasma, ou era mais como uma superpresença, uma criatura de brancura e perfeição impossíveis que estava ligada a cada forma de vida a sua volta. A Nicholas, à mulher do bar com o vestido curto, aos motoristas dos carros e até à luz da lua, que a sua maneira era sim uma forma de vida.
Ele parou de falar por um momento, permanecendo completamente imóvel, com a expressão neutra. Daquela forma, era quase possível confundi-lo com uma estátua absurdamente real. Os ângulos do rosto eram desenhados com uma habilidade perfeita; os lábios eram grossos e imperfeitamente naturais, levemente enrugados, sorrindo mesmo quando não sorriam, numa tonalidade rosada.
Cada cílio louro preso no lugar certo. Cada fio cinzento de suas sobrancelhas com uma curva suave e natural demais para ser perfeita, mas perfeita demais para ser natural. Os olhos redondos e azuis eram reais e vivos demais para serem falsos. Não podia ser falso aquilo que olhava através de sua alma… era algo diferente, algo superior…
Nunca um ser parecera tão inanimado quando Nicholas roçou os dedos em sua bochecha, lembrando-se de que era sim um ser vivo, um ser vivo idôneo de infinita complexidade, um deus contemporâneo na Terra.
— O que aconteceu com seu mundo? — indagou curioso. — Ou… o outro mundo?
— Morreu — ele sussurrou. Aqueles lábios pareciam estar sempre tentando ser sensuais apesar da expressão eternamente infantil. — Nunca mais o procurei, mas também não tenho curiosidade. Real ou imaginário, ele ainda está lá, apodrecendo.
— Por que você ama Ethan? — Não era por que achava impossível alguém amá-lo, mas era algo que sempre quisera perguntar, e nunca tivera coragem. Agora, tinha.
— Porque Ethan é a parte que faltava em mim. É a mãe e o pai que eu nunca tive e o amante que eu sempre quis. É por isso que você o ama também. Ele supriu a falta que seus pais fizeram na infância. Ele lhe deu seu amor incondicional. Quando você faz isso, você põe toda a sua estrutura e expectativa de vida naquela pessoa. É perigoso. Se você perde a pessoa, você perde seu motivo de viver. Ele fez isso comigo e eu sou muito grato pelo amor e confiança que ele me deu.
— Me admira que você tenha conquistado um pedaço do amor que antes ele destinava apenas a mim. E se não conseguisse?
— Amor é como tentar alcançar a lua — ele lhe sussurrou. — Se você erra o alvo, ainda alcança as estrelas. Hoje, eu tenho medo da Luz. Você não faz ideia do que ela pode fazer sair da escuridão. Eu posso tê-la criado. Se sente como uma criação minha, Nicholas? Se sente num mundo que eu criei?
Nick deu de ombros, passando a mão pelos ombros de Oliver e começando a andar para longe dali.
— Me sinto com fome. Vamos para casa.
— Vamos para casa.
Ele falou aquela última frase como se fosse a chave de uma corrente que o prendera a vida toda, com todo o alívio que aquela mente tão complexa podia oferecer através de um rosto de bebê e de uma alma cinzenta, nem boa, nem má. Oliver era daquele jeito. As pessoas eram daquele jeito. Nicholas jamais gostou do dualismo do ser unicamente bom e do unicamente mal.
Quando chegou em casa, comeu algo e sentou-se em sua escrivaninha, no seu quarto. Empurrou o computador para o lado e abriu um caderno em branco. Não pensou bem no que fazia, apenas começou a escrever com aquela caneta de quarenta dólares que imitava uma pena:
“E será que não estou dentro da mente dele? Que esse quarto, essa caneta, esse papel em que escrevo são tudo obras da mente de Oliver, do mundo morto de Oliver? Será que não estivemos dentro da mente de um garoto esquizofrênico de dezoito anos esse tempo todo?
“Será que todas as catástrofes que assolam o mundo desde o início de sua existência, dos antigos impérios egípcios às potências de primeiro mundo, não foram vagamente baseadas no que é real, no mundo de fora dessa mente?
“Será que há um mundo lá fora em que tudo é diferente? Que as pessoas não tenham duas pernas e dois braços, que o céu não seja ora azul, ora preto, que as crianças não sejam inocentes e que a maldade não se sobreponha a bondade?
“E se existir? Seria Oliver uma espécie de deus deste mundo que preferiu ficar aqui? Ele não poderia ter sido abusado sexualmente no mundo real e transplantado esse fato para cá para que tudo se tornasse mais convincente para as pessoas?
“Seria como se nós, as pessoas, o machucássemos se descobríssemos a verdade, que não passássemos de um pensamento de Oliver, que somos os seus sonhos, os seus azuis.
“Pode ter havido um garoto louro chamado Nicholas Hentz no mundo verdadeiro, e este garoto Oliver transportou para cá. Ele pode ter morrido e Oliver simplesmente quis reavivá-lo. Pode ter sido seu irmão. E Ethan pode ter sido seu amigo que também morreu de alguma forma, ou simplesmente foi embora.
“Pode ser tudo um sonho. Neste mesmo segundo, Oliver pode acordar de um coma no mundo real e tudo o que ele criou vai se destrinchar, vai sumir, evaporar, obliterar como se jamais tivesse existido. Eu, meu irmão, você que está lendo isso, todos sumiremos quando nosso deus acordar de seu descanso para nos julgar.
“‘No sétimo dia, Deus terminou todo o seu trabalho; e no sétimo dia, Ele descansou de todo o seu trabalho.’ Talvez ainda estejamos no sétimo dia.
“Eu absolutamente não acredito nisso.
“Sei que Oliver acredita. Por tudo que ele passou, ele acredita. Não sei que força sobrenatural salvou a vida dele na Floresta das Sombras durante um mês em que tentava tirar daquela criança uma masculinidade que ela não tinha, mas salvou.
“Não sei se existem mesmo forças sobrenaturais regendo esse mundo, coisas que não podemos ver, que não entendemos e jamais entenderemos, mas de uma coisa eu sei: não consigo pensar que esse mundo nada mais é que um sonho de Deus, e que tudo o que fazemos é baseado num sistema de viver-e-morrer, e que devemos repetidamente fazer isso até o fim dos tempos.
“Porque se Deus é infinitamente benevolente, Ele jamais obrigaria suas únicas criações dotadas de alma e livre-arbítrio a viver apenas para morrer. Isso é tirania.
“É um sistema tirânico, repetitivo, infindável e cansativo.
“Há um motivo para viver? Não consigo sequer pensar se há. Se Oliver, que verdadeiramente pensa que é o deus deste mundo, não conseguiu criar um motivo, deveria eu pensar em um? Um pobre mortal?
“Oliver é uma criatura de cabelos prateados e olhos azuis meio louca, meio sã, meio apaixonada pelo mundo, pela vida, pela morte e pelos azuis. Por que a deusa que clareou suas cores não tirou dele um filho? Se ele é o deus daqui, como eu sei que acredita nisso, mesmo tendo me negado? Se ele queria, por que não a permitiu?
“Não era por ser apenas uma criança. Se ele fosse deus, ele poderia ter permitido isso. Não faz sentido.
“Gostaria que ele compreendesse isso, mas sua mente é fechada demais ao que é real. Desde que compreendeu que os azuis são na verdade pessoas que já se foram, mas não sabem disso, pensa que tudo que é irreal pode se tornar real como um passe de mágica. Ele não consegue compreender.
“Ele enlouquecerá com isso algum dia. Tentando descobrir o significado de sua vida. Por que você está vivo, Oliver? Por que você foi abusado duas vezes, Oliver? Por que você não morreu em nenhuma das chances que teve, Oliver?
“Eu sei que essas perguntas o importunarão até o fim de seus dias.
“Seja o que a pessoa que há quatro anos conversou com ele queria, não conseguiu. Queria que ele compreendesse, mas apenas embaralhou mais sua cabeça. Se Oliver não morreu há quatro anos, morrerá nos próximo quatro ou pode estar morrendo agora mesmo. A morte pode ser prorrogada, mas não evitada. Porque todos os homens têm que morrer, mas primeiro nós vivemos.
“Afinal, Oliver Castanelli é tão mortal quanto eu ou você.
“Não sei se os espíritos existem, se vamos a algum lugar específico após a morte ficar ao lado do Todo-poderoso pela eternidade ou arder ao lado de Satanás, ou simplesmente nos evaporar na imensidão do cosmos, mas, novamente, de uma coisa eu sei: o Deus cristão jamais permitiria isso.
“Quando me pergunto o porquê de Ele impedir os azuis de fazerem a travessia para importunar as pessoas que conseguem vê-los, penso em duas coisas: livre-arbítrio e provas.
“Mortos ou não, já foram humanos, tiveram almas, são almas. Eles podem escolher fazer a travessia ou ficar aqui, pois foi assim que Ele nos fez, com a habilidade de escolher. É por isso que começa guerra, acaba guerra, inocentes morrem e Deus nada faz: porque ele nos deu a habilidade de escolher, e consequentemente de arcar com os custos que isso causa.
“Mas e se Ele não permitiu a passagem de propósito para provar aos humanos vivos que veem os mortos que as almas existem, e consequentemente Deus? E se foi tudo um truque de manipulação? Onisciente, onipotente e onipresente, você diz? Então algo assim pareceria truque de criança, não é?
“Nós, humanos, somos as únicas criaturas com moral e ética do mundo físico, e devemos ser tão perfeitos e poderosos quanto os deuses que criamos há milênios para nos orientar e sanar nossos medos.
“É nossa a glória dos deuses. Seus feitos foram criados por nós. Nós, seres humanos, as criaturas mais maravilhosas, complexas e idiotas do universo.
“É esse o meu credo.
“É essa minha religião.
“E não importa a sua. Se seu deus prega o amor, respeito ao próximo e o alívio da alma, ele é um deus bom. Ele te merece.”
Poderia ter escrito mais duzentas páginas daquilo, mas deu-se por satisfeito. Era uma boa teoria, pena que Nick não acreditava nela.
Quando terminou, Nicholas Hentz fechou o caderno e deitou-se na cama. As piores dores e os melhores alívios passavam por seu corpo como ondas de calor, e o sono lhe pesava sobre os olhos. Teve medo de dormir, porque pensava que não iria mais acordar.
Mas dormiu. E quando acordou, estava em Middleland.
Do seu lado, Spring se espreguiçava. Era manhã, e os raios de sol estavam pálidos.
— Bom dia — ele disse sonolento. Deu-lhe um beijo na testa. — Você estava falando enquanto dormia. Sonhou com algo?
— Sonhei com alguém — respondeu Nick. Sentou-se na cama e olhou pelo quarto ao seu redor. Estava no Palácio Real Hentz. A enorme varanda de tijolos vermelho-claros dava uma vista magnífica para a cidade pequena bem abaixo de si, para o grande império de Ethan Lemnsack. Ninguém estava acima deles. Eram deuses.
Oliver estava morto. A mãe estava morta. E Ethan estava estranhamente solteiro.
Sentiu as lágrimas descerem.
Se você era deus, Oliver, e deus está morto, por que estou vivo? Por que você me deixou viver? E por que você não fez a travessia? Por que entrou no meu sonho e me narrou aquela visão da dança dos leões? O que ela significa?
— Por que chora? — perguntou Spring, seus olhos muito verdes ardiam. Nick deu um beijinho em seus lábios.
— Por que um anjo morreu.
Saudades era uma dor que feria nos dois mundos, no dos espíritos e no dos leões. Em toda sua essência e em todo seu sangue, ele estava morto, e nada repararia isso. Sangue de leão ou sangue de leoa, sangue negro ou sangue dourado, ele ainda era vermelho, espesso e viscoso. E, da mesma maneira, se derramava, derramava e derramava…
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