Seu cabelo é fogo de inverno, brasas de janeiro. Meu coração também se queima nele.

(A Coisa

Stephen King)

OoO

Cornelius Goldenschild tinha a fileira de dentes mais brilhante que Winter já vira na vida, ou talvez fosse apenas o reflexo do lustre da sala de jantar. Da primeira vez que a vira, Winter pensara que seus dentes eram feitos de diamantes. Não devia ser muito longe da verdade.

Cornelius Goldenschild era um homem grande e largo, com um rosto prematuramente envelhecido e enrugado, mas ainda extremamente vivo, como se podia constatar quando se fitava seus olhos dourados. O cabelo era curto, reto e grisalho como prata. Um anel de diamante gigantesco descansava em um de seus dedos. Ele não parecia ter acabado de enterrar uma das filhas.

Ao seu lado, seu neto, Benjamin Goldenschild, por algum motivo não tinha quase nada a ver com ele. Os olhos eram azuis e o cabelo era da cor da areia, sem muito brilho. Não devia ser muito mais velho que Winter, mas algo nele o fazia parecer velho e cansado. Talvez por ter perdido uma das tias. Autumn já lhe dissera que ele já tinha um filho, mas não sabia se era bem verdade. Ficara cabisbaixo desde que entrara naquela casa, e só usava a voz quando lhe era pedido. Ah, e ele tinha um nariz quebrado que cicatrizara miseravelmente mal.

Seraphine e Jules du Pont ficaram no canto da mesa. O filho era uma cópia idêntica da mãe, os cabelos das mesmas cores, os mesmos olhos puxados e a mesma tonalidade cinzenta deles. Apesar de estar na geração de seus avós, ela ainda era uma mulher bonita. Seraphine tivera Jules com Lafferty Winter e de alguma forma era prima de Cornelius e cunhada do avô de Winter. Autumn bem que lhe dissera que aquelas famílias antigas eram todas interligadas.

Seus avós estavam praticamente do seu lado. Colin Winter, irmão de Lafferty, e Joanne Amelia, sua esposa, eram ambos morenos e tinham olhos claros. Os cabelos da avó de Winter permaneceram escuros mesmo depois da velhice, mas seu avô não teve a mesma sorte. Agora tudo que lhe restava eram alguns tufos de cabelos cinza e olhos pálidos. Ambos tiveram a mãe de Winter, Ellen, que se casara com Johann Parker e tiveram-no.

Com ele, aquele jantar completava nove pessoas.

Quando aquele risoto de camarão foi tirado da mesa pelos empregados e aquele mignonette à l’ancienne e o tortelloni à amatriciana foram servidos, Winter ficou com água na boca. Diziam que os atuais Goldenschild tinham raízes italianas, mas ninguém sabia bem.

Na verdade, gostaria de estar em qualquer lugar do mundo, menos ali. Winter não dava a mínima para Lafferty, e os adultos só falavam daquilo. Bem, Cornelius falava de negócios, mas todo o resto não. Era engraçado ver quão bem ele se dava com Seraphine. Ambos eram supostamente viúvos e pareciam formar um belo casal, mas eram primos e nos dias de hoje não se fazia mais isso.

Aliás, Ben estava sentado bem em frente de Winter. Há alguns minutos, Winter arriscara esticar a perna inteira por baixo da mesa e tocar entre as pernas dele com o pé direito. O garoto parecera estar tão acostumado com aquilo que nem se mexeu. Nem sequer lhe dirigiu um olhar. Nem sequer ficou duro. E de alguma forma ele não podia ser heterossexual. Não podia.

Acabou ficando de mau-humor até que Cornelius chamou a atenção de cada viva alma ali para o fato de Jules estar trabalhando diretamente para a Anhert. Mesmo sendo convidado, ele exercia uma habilidade natural de monopolizar a conversa inteira daquela mesa. Não era surpresa. De outra forma, não teria se tornado o homem mais rico do mundo.

— Ah, eu faço… bem, tudo para ele — Jules comentou quando a mãe de Winter, Ellen, perguntou-lhe o que ele fazia para Ethan. Aquele sotaque francês era terrivelmente afrodisíaco. — Acho que não há um nome real para o que eu faço. Mas ele é um bom patrão para um capitalista devorador de pequenos negócios.

É claro que é, você é apaixonado pelo irmão mais novo dele, pensou enquanto levava a taça aos lábios. Uma ode ao capitalismo. Seria um bom nome para aquele jantar. Winter desejava desesperadamente algo alcoólico, mas diziam que ficava inconvenientemente sincero quando bebia, então não era uma boa ideia.

— É verdade que o irmão dele é gay? — Ben perguntou. Winter levantou uma sobrancelha, lembrando-se da primeira vez que sentira o pau de Nicholas Hentz dentro de si, no vestiário da St. Nicholas. Reprimiu uma risada.

Jules simplesmente franziu uma sobrancelha e deu de ombros.

— Ele tem que ser, ele transou com um garoto em Lympharia — ele continuou indolentemente, como se ninguém ali estivesse ouvindo. Os avós de Winter pareciam estar prestes a explodir.

— Isso não significa nada — Jules retorquiu num tom de voz manso normalmente usado para tratar crianças e idosos senis. — É a mesma coisa que dizer que todos que leram o livro são gays, porque essa cena está no livro. É a mesma coisa que dizer que o autor é só por ter escrito a cena.

— Ele deve ser. — Ben deu de ombros da forma mais irritante possível. Por algum motivo, Winter fantasiou as lindas mechas louras de Jules du Pont se transformando em serpentes e estrangulando aquele garoto.

— Por quê? — ele indagou com uma doçura venenosa. — Está afim do Melchior?

Provavelmente foi isso que estragou o resto do jantar.

Mais tarde, os adultos estavam lá fora bebericando vinho e apreciando as belas casas de Wintorland; Winter conseguira finalmente surrupiar uma garrafa de champanhe da cozinha. Ben Goldenschild estava do lado de fora, enfezadamente chutando pedrinhas na rua.

Foi até o quintal de casa, onde Jules estava. Quando percebeu que não havia ninguém por perto, deu um selinho pequeno em seus lábios. Ele arrancou a garrafa de suas mãos e deu um gole longo.

— Obrigado — disse devolvendo o champanhe. — Precisava disso, sinto que dissolve todo o chorume que eu sou obrigado a ouvir em todas as nossas reuniões familiares. — Winter sabia que Jules era assumido para a mãe, e provavelmente para o resto da família du Pont também. — Você é tão comportado dentro de casa que sequer parece que gosta de ser enforcado enquanto transa.

Deu de ombros.

— Sou um bom moço apreciador dos velhos costumes em casa e uma vadia na rua. Acho que combina muito bem. Que achou de Ben Goldenschild? — perguntou bebendo do champanhe também. Tinha gosto de Paris. Winter já estivera lá, e fora no mesmo momento que a família Hentz. Lembrava-se de ter visto Ethan Lemnsack de relance no Museu do Louvre enquanto apreciava a Mona Lisa, mas na época ainda não sabia da existência dele. — Eu sinto que preciso desesperadamente fazer sexo com ele. Com Ben.

— É melhor andar logo, Cornelius está a algumas semanas de perder metade dos cabelos, e nenhum dos oitenta bilhões Goldenschild vai ajudar nisso. Você não acha incrível que ele não seja calvo? Ele tem quase oitenta anos.

— Perder os cabelos? O que é, mexerico das famílias que controlam o mundo? — Winter se aproximou de Jules, mordendo o próprio lábio inferior. Ele sorriu indolentemente. Não havia absolutamente nada de Lafferty nele, tudo era de Seraphine. E seus olhos cinzentos sorriam também. Curiosamente, Seraphine era também o nome da mãe biológica de Carmen e Vickie Goldenschild, mas a mãe delas era uma Lady, pertencente à nobreza britânica, assim como as duas.

Eu devia ter olhos cinzentos. Minha avó tem olhos cinzentos. Era um pensamento fútil. Podia desejar ter olhos violeta e quem sabe cabelos prateados. Podia desejar ter um dragão.

— Ethan quer fundar um banco — Jules sussurrou. Winter franziu as sobrancelhas.

— E daí?

Ele quase lhe bateu.

— E daí que ele é a namorada de Cornelius! E os Goldenschild são banqueiros, todos sabemos disso, foram banqueiros durante séculos. O Banco Goldenschild tem quase seiscentos anos de idade, é um dos maiores do mundo, o maior da Califórnia e a Anhert é cliente dele. Mas Ethan não quer mais depender de outras empresas para que a dele exista, quer montar novos pilares de sustentação. Pelo menos é o que me parece. Está recriando o hentizmo.

— Eu sei o que é isso, prestei atenção nas aulas de história. Bem, na verdade foi o Autumn quem me ensinou.

O Banco Hentz, que tal? Parece icônico. — Havia um certo desgosto em sua voz. — Ele é meio louco de fazer isso, seria uma punhalada nas costas de Cornelius, que o ajudou a subir até onde está. E a Goldenschild’s Eletronics é propagandeada pela Lemnsack & Lovegood. Não estou entendo nada do que ele está fazendo. Ou é muito idiota, ou muito inteligente, ou muito arrogante, ou um pouco de tudo.

— Provavelmente há algo mais nas entrelinhas que você não viu.

Ele deu de ombros novamente. Quando lançava aquele olhar sonhador no além, parecia um anjo. Ah, os franceses…

— E como vai a peça? — perguntou sapecamente. Não conseguiu segurar a risada ao vê-lo cuspindo o champanhe. — Fazer uma cena de sexo fictícia com um ator não torna Nicholas gay, mas namorar Spring, sim.

Jules grunhiu, mas então sorriu.

— Estamos na mesma, então? Eu gosto de Nicholas, você gosta… gostava de Spring. Winter, que diabos está acontecendo? Spring e Summer… separados? Separe a lua do céu que é mais fácil, mas aqueles dois…?

— É complicado.

Não era apenas complicado, era repulsivamente revoltante. Autumn tivera que literalmente dar uma surra em Winter (não que ele não tivesse gostado) para impedi-lo de literalmente dar uma surra em Summer. Spring o amava o suficiente para entrar naquela farsa encimada numa suposição sem fundamento algum. Não acreditava que os Hentz pudessem ter assassinado Lafferty, eles não tinham motivo.

Já pensara em falar daquilo com Jules, mas era loucura. Para todos os efeitos, Lafferty ainda era o pai dele. E Summer ainda era um imbecil insensível e egoísta. Mas havia algo pior: Spring estava começando a realmente sentir algo por Nicholas. Não com a mesma intensidade que sentia por Summer, mas ainda assim… não.

Tirou aquele pensamento da cabeça. Spring se apaixonar por Nicholas seria a mesma coisa que Lúcifer e Deus protagonizarem uma união civil homoafetiva ali em Middleland. E eram coisas diferentes, o fogo e o ouro, com naturezas diferentes. Nicholas não o salvara de um estupro.

Spring era o cachorrinho do Summer, como uma vez Lincoln, aquela aberração que Spring chamava de irmão mais novo, dissera.

E Winter realmente gostava de Nicholas. Ele era uma boa pessoa. Confusa e perdida, mas uma boa pessoa. Não merecia aquilo.

— Já que você perguntou da peça… — Jules sussurrou olhando para a lua — ele é um bom ator. Na verdade, acho que apenas se identifica com o personagem. Parece muito fácil ser Nicholas Hentz, não é? Ele já está mundialmente famoso enquanto Ethan constrói o caminho da vida dele sem que perceba. É bonito e carismático. E tão rico quanto podemos pensar em ser algum dia. Il est fait d'or.

— Chega, estou ficando deprimido. — Winter segurou o rosto do outro com as duas mãos e apreciou sua delicadeza por alguns momentos. Esculpido pelos anjos e beijado por Deus. — Vamos tentar roubar uma garrafa de vodka, quero ficar embriagado na frente dos meus avós católicos fervorosos.

Se algum de seus amigos o visse naquele momento, Winter enfiaria a cabeça na terra e nunca mais tiraria. Estava com o cabelo empapado de gel e totalmente penteado para trás, com uma camisa de manga comprida branca e, por cima, uma jaqueta de tweed com uma calça cáqui, todas nas cores mais neutras possíveis. Parecia um mauricinho que todo domingo vai ao campo de golfe com um suéter rosa amarrado ao pescoço sem nunca, no entanto, usá-lo.

No dia seguinte, deixou sua casa logo pela manhã, desesperado por algum ar fresco.

O inverno tinha-se finalmente ido, e a primavera finalmente chegara. Por toda Middleland, aquele tristonho céu metálico e prateado era aos poucos substituído por um rigoroso tom azulado salpicado por nuvenzinhas fofas como algodão-doce. Os roseiras desabrochavam e exalavam seu aroma, e o mesmo com as margaridas, que sorriam amarelas aos transeuntes.

Enquanto caminhava pelos tortuosos ladrilhos de Wintorland, Winter, já despido da fantasia da noite anterior, acenava amistosamente para as moças e dizia olá aos meninos, acariciava os cãezinhos que passeavam com suas gordas madames e dava bom dia à idosas tão enrugadas que já deviam estar vivas quando Deus fez a Terra e viu que era bom.

Pelo menos algumas delas sempre lhe davam biscoitos quando jogava futebol com os outros meninos.

Apesar de gostar do frio, o perfume das flores o substituía satisfatoriamente bem. Era difícil não se entusiasmar sem motivo pela doçura do ar, pelo canto dos pássaros, pelo brilho do sol e pelo cheiro das tortas quentes da Sra. Greenwood.

— Ah, Edric! — ela o chamou de sua casa, uma bonita construção branca e rosa de apenas um andar. Seu jardim fora, outrora muito belo, mas a Sra. Greenwood já era velha demais para cuidar dele, por isso Winter aparava sua grama nos fins de semana. Ela era prima de algum grau de sua bisavó, mãe de seu avô Colin, Marcella Greenwood. Também insistia em chamá-lo de Edric.

Winter se aproximou da grande janela, pois era através dela que ela falava.

— Sua mãe já está melhor? — perguntou com os olhinhos castanhos brilhando por cima dos óculos redondos de aro grosso. O cheiro da torta de maçã estava empesteando a casa inteira.

Ela perguntava-lhe aquilo todos os dias há sete meses, desde que fora diagnosticada com Alzheimer. Cozinhar era a última alegria que lhe restava na vida.

— Está sim, senhora — respondeu com suavidade.

— Mesmo assim, leve isto aqui para ela. — Entregou-lhe a torta enrolada em papel de alumínio. A Sra. Greenwood pensava que Winter era filho de sua bisavó, que morrera há quase meio século. Diziam-lhe que tinha os mesmos olhos azul-escuros de Marcella.

— Levarei — disse. — Tenha um bom dia, Sra. Greenwood.

Quando se afastou o suficiente para ficar fora de vista, desembrulhou a torta e meteu um bom pedaço na boca, observando dois times de futebol competindo numa quadra ali perto. Eram tão ruins que sentiu vontade de chorar, mas a torta de maçã fê-lo mudar de ideia.

— Escolhendo seu futuro marido? — uma voz nauseante perguntou por trás dele. Winter olhou para trás e torceu o nariz, enquanto Lincoln Spring se aproximava. Era incrivelmente baixo para um garoto da idade dele, mas parecia ser irmão gêmeo de Spring. No entanto, não havia nada em seus olhos. Ele era um sociopata.

— Que está fazendo aqui? — A súbita aparição daquele ser sinistro já amargara a beleza da primavera. De repente, Winter não queria mais ficar ali. Até a torta perdera o sabor.

— Sugando as almas das crianças. — Começou a desejar que alguém chutasse uma bola na cabeça dele. — E você?

— Eu moro aqui.

— Não, você mora numa casa vermelha e amarela de dois andares há dois quilômetros daqui. Ninguém mora nessa calçada. Eu não sou a pessoa mais pragmática que você já conheceu na vida?

— Você é doente.

— Eu não gosto de ser enforcado enquanto faço sexo.

Winter olhou fundo em seus olhos muito verdes, como uma folha de árvore lavada pela chuva. Os de Spring eram verdes como esmeraldas. O problema é que todas as folhas apodrecem, enquanto as esmeraldas não.

Sentiu uma tontura repentina, como sempre sentia quando olhava fixamente para Lincoln. Não era apenas a tontura, havia algo mais. Toda vez que o fitava, era como se uma lança se enfiasse em seu cérebro e roubasse os segredos de lá de dentro.

Quando olhou na direção oposta, Winter viu um garoto de cabelos cinzentos caminhando despreocupadamente em sua direção. Quase esqueceu como se respirava.

— Meu Deus, é o Melchior.

— Quem?

— Melchior, Melon Chioren. Escritor de Lympharia. Como ele é lindo.

— Ele usa lentes de contato?

Ele se aproximou dos dois e, por incrível que pareça, não seguiu caminho. Na verdade, começou a fitá-los. Isso deu vez a Winter para fazer o mesmo.

Seus olhos eram púrpuras, grandes e adoráveis. Quando a luz do sol reincidia em diferentes ângulos, a cor mudava. Às vezes era violeta, ou roxa, ou púrpura, ou cobalto, ou até mesmo rósea como algodão-doce, e tinham pequenas lascas brancas, como barquinhos num mar de leite de rosas.

Quando ele abriu a boca para falar, um som doce, manso e despreocupado vazou. Sua voz parecia um travesseiro.

— Bom dia. — Então sorriu, revelando as covinhas nos cantos dos lábios. — Vendo os meninos jogarem? Um deles é meu irmão, Samwell. Ele não é muito bom nisso, mas as meninas adoram meninos que jogam futebol, não é mesmo?

Foi nesse momento que Winter se lembrou que Nicholas já lhe dissera que Melchior dormira com Ethan. Teve uma vontade súbita de dividir aquela torta com ele.

— Eu sou Lincoln — ele disse, estendendo a mão. Melchior gentilmente apertou. — Sou irmão mais novo de Spring.

— Eu posso ver. Ah, você é amigo de Spring? — Dirigia-se a Winter.

Não costumava perder o fôlego falando com meninos bonitos, mas aquele… tinha algo especial demais para ser deixado passar. Aquela mistura de cabelos cinzentos e olhos violeta era demasiada exótica.

— Sim — falou quase sussurrando, depois repetiu com mais convicção: — Sim, eu sou. Edric Winter.

— Todos são Edric. — Melchior deu uma risadinha mansa. — Oh, o padre Lafferty Winter era seu tio-avô, não era? Sinto muitíssimo pelo desaparecimento dele.

O corpo de Lincoln se resetou. Havia algo de estranho na sua expressão.

— Obrigado — Winter disse. — A polícia já interrogou todos nós. Tem sido um inferno. Tentaram reconstituir os passos dele após ter saído da igreja, mas ninguém viu aonde ele foi. O que significa que ainda está dentro da escola.

— Está querendo dizer que ele foi… assassinado? — Ele pareceu surpreso, mas Winter foi obrigado a confirmar. — Que horrível. Por que alguém iria querer assassiná-lo?

— Não sei bem, mas ele não se dava bem com o filho dele. Não que eu ache que Jules du Pont faria isso, ele nem estava na escola naquele dia, mas a polícia está meio desesperada. A diretora do St. Nicholas a está pressionando. Não é bom ter um desaparecimento bem dentro da escola e o responsável se safar.

— Por que ele não se dava bem com o filho dele?

— Eu não sei, Jules nunca me contou. Não gosta de falar sobre isso.

Uma luz pareceu se acender em seus olhos, mas então se apagou.

— Não faz uma mínima ideia de quem teria motivos para tal, além do filho dele?

Lincoln tossiu de repente.

Winter olhou para ele, depois de novo para Melchior.

— Não conheço ninguém. Ele era um padre, pelo amor de Deus. Quase nunca saía de casa. Morava lá em Donarchen. — Donarchen era um dos menores bairros de Middleland, quase fazendo fronteira com a periferia. — Aos fins de semana, pregava na Capela de São João, um lugar incrivelmente miserável, e às vezes até servia de treinador para o time de futebol infantil da Escola Antoniette. Ele fazia isso por altruísmo.

Melchior ficou consternado, depois pôs a mão em cima do ombro de Winter. Ele se arrepiou.

— Espero que o encontrem, ou tenham notícias dele. Afinal de contas, apesar de tudo, ele é da sua família. A família é a coisa mais importante das nossas vidas, mesmo que haja divergências. Devemos fazer de tudo para preservá-la, para protegê-la… para defendê-la. — Por fim, Melchior despediu-se dos dois e seguiu seu caminho ao campo de futebol.

Winter gostou dele.

— Não gostei dele — Lincoln disse, e de certa forma não o surpreendeu.

— Não me diga.

— Você não entende, ninguém nunca entenderia. Ele é absurdamente falso. Quando sorria por fora, não sorria por dentro. Não estava feliz e despreocupado, nem realmente pesaroso por Lafferty. Ele estava nervoso, extremamente alerta, bebendo as suas palavras e o seu conhecimento. Parece duas pessoas diferentes, a que sorri e que tenta ser amável e a que é manipuladora e calculista. Viu quando ele pôs a mão no seu ombro?

— Isso significa apenas que ele quer me comer.

— Ah, e as perguntas que ele fez sobre Lafferty? Dizem por aí que o responsável por solucionar o Massacre da Coruja foi ele. Pode estar investigando em paralelo, metendo o nariz onde não deve. Esse garoto é mais do que aparenta. Ele é perverso, cruel, totalmente frio, sem emoções por dentro. Tudo aquilo que ele mostrou é uma fachada. Ponha-se no caminho dele e seja atirado para o lado, e reze para quebrar apenas um braço ou uma perna.

— Do que é que você está falando?

Lincoln olhou-o como se estivesse falando com uma criança débil.

— Você sempre foi a mais burrinha das quatro estações. Até mais.

Observou-o seguir o caminho oposto de Melchior quando notou que ainda tinha metade da torta nas mãos. Aliás, os jogadores começaram a tirar as camisetas. De repente, voltou a ficar feliz.

Na segunda-feira de manhã, voltou à escola. Winter costumava ser uma das primeiras pessoas a chegar, então o lugar parecia um grande internato abandonado. Passou pelo gramado do pátio frontal e pela fonte, onde se debruçou para atirar uma moeda de um dólar no ponto mais longínquo e fundo. Desejou que todos os seus amigos tivessem um bom dia, como fazia todo dia. Eles sempre tinham, portanto a fonte devia funcionar.

Atravessou a tenda de pedra entre a administração e a diretoria e seguiu para o Pátio. Ali, se ajoelhou nos degraus da capela e fez o sinal do cruz, beijou os dois dedos indicadores e os encostou delicadamente nas pesadas portas de bronze.

O dia estava anormalmente quente, mas por algum motivo a escola proibia os alunos de tirarem o paletó dentro da propriedade. A gravata vermelha estava tão apertada que suas veias do pescoço quase saltavam.

Quando entrou no Sul pela Estrada Principal, encontrou um garoto quase no limite que a Casa Verde fazia com o Oeste, sentado no gramado enquanto jogava pedrinhas na terra batida tediosamente. Fumava alguma coisa, parecia maconha. Winter conhecia aquele garoto, era do terceiro ano e os pais deles eram os donos do Baberfield Stadium, o primeiro e único estádio de Middleland.

Lewis Baberfield fez sinal para ele se aproximar.

— Como vai? — Winter perguntou, sentando-se ao lado dele. O paletó estava totalmente aberto, a gravata vermelha estava terrivelmente folgada e a camisa de manga comprida tinha quatro botões desabotoados, deixando a mostra o peito definido. Ele tinha cabelo castanho-claro e olhos azuis.

— Falido — respondeu com um forte sotaque britânico, o que era estranho porque ele não era britânico. — Ethan Lemnsack comprou o Baberfield Stadium dos meus pais. — Ofereceu-lhe o baseado, o qual Winter pegou.

Oh, meu Deus. Agora é o Hentz Stadium, pensou dando uma tragada. De repente, sentiu-se mais leve.

— Se ele comprou, por que eles estão falidos?

— Porque ele ofereceu pagar parte da oferta com ações de uma empresa de aço e uma mina de ouro e o resto em dinheiro. Ótimo negócio, aço e ouro são rentáveis. Uma semana depois, as empresas faliram. As ações agora valem tanto quanto papel. Meus pais tiveram tanto prejuízo que tiveram de usar o que ele pagou em dinheiro para quitar as dívidas que acumularam.

— Que azar — falou distraidamente enquanto fitava o corpo de jogador de futebol de Lewis. Ele pegou o baseado de volta e tragou.

— Azar? Meus pais não queriam vender o estádio, o Lemnsack praticamente os obrigou a isso. Tem muito espaço livre ao redor do estádio, e ele os ameaçou prejudicar a localização construindo prédios em volta. E é óbvio que sabia que aquela mina de ouro na África do Sul já havia sofrido desmoronamentos antes e que, uma hora ou outra, ela iria falir com os processos que as famílias dos mineradores mortos moveram. Ele também sabia que a empresa de aço americana estava sendo investigada por sonegação fiscal e que seria fechada pelo governo de lá. Ele é o maior filho da puta que você pode conhecer na vida.

Aquilo realmente o surpreendeu. Nicholas falara do irmão com uma paixão tão ardente que Winter jamais pensara que Ethan Lemnsack pudesse ser o que se chamava de um impiedoso homem de negócios. Pegou o baseado de Lewis e fumou de novo.

— Posso fazer algo para te consolar?

Lewis levou o polegar a seus lábios e o desceu devagarzinho até repuxar o de baixo. Sua ereção era tão visível por baixo da calça que não fazia muita diferença estar coberta ou não. Aliás, o olhar que ele lhe deu de cima a baixo já dizia tudo.

— Pode.

— Vamos ao Norte, então.

— Ao coreto.

Continuaram pelo caminho da Estrada Principal até passarem pela Casa Vermelha e pela Casa Azul. O espaço entre o extremo dos dois prédios e a cerca que delimitava a escola era constituído apenas por alguns gramados, bancos de madeira e pelas lajotas do chão, mas havia também um coreto hexagonal da cor da neve numa elevação já no canto da cerca, para lá da Casa Azul, coberto por árvores.

Quando se ignorava o crucifixo enorme preso a uma das colunas gregas, o lugar era perfeito.

Lewis sentou-se na mesa de pedra e desceu o zíper da calça. Winter se ajoelhou em frente a ele e, sem cerimônia, agarrou o pau duro por cima da cueca, colocando-o dentro da boca com o tecido e tudo. Ele gemeu e agarrou seus cabelos, debruçando-se de costas. O peito musculoso ficou totalmente a mostra quando ele abriu a camisa, arrancando o paletó. Seus mamilos estavam tesos e vermelhos.

Winter puxou a cueca para baixo e segurou-o pela base, repuxando os pelos louro-escuros. Devia ter, no mínimo, dezenove centímetros. A glande estava vermelha e pulsava como um organismo vivo, assim como o resto do pênis dele. Sem muitas preliminares, pôs tudo o que conseguiu na boca e apertou-o entre os lábios, sem tocar com a língua, e deslizou-os lentamente para cima, depois de novo para baixo. Foi aí que finalmente lambeu-o.

Lewis gemeu seu nome.

Enquanto tinha a boca entre as pernas dele, Winter deslizou as mãos pelo peito liso e duro, e quando Lewis jogou a cabeça para trás e explodiu numa torrente de gozo, Winter já tinha arrancado a calça dele fora. Suas pernas eram grossas e musculosas, as coxas estavam cheias de arranhões e marcas de dentes. Oscilavam de cima da mesa de pedra hipnoticamente.

Lewis saiu de cima da mesa e arrancou de vez as vestes de cima. Winter ainda estava ajoelhado, apreciando aquele físico escultural emoldurado pelas raízes de rosas que se emaranhavam nas colunas gregas do coreto. O pau dele ainda estava duro.

Começou a pensar em tirar a própria calça quando viu Lewis debruçar-se novamente sobre a mesa, mas de barriga, e empinar o quadril para ele. Sem conseguir evitar, Winter segurou-lhe as nádegas definidas com as duas mãos e lambeu os lábios.

— Mete — Lewis pediu, encostando o rosto na mesa e suspirando. Quando abriu mais as pernas, praticamente rebolou para Winter. — Mete aí, vai, me fode.

Bem, todos sabem como Edric Winter gosta de meninos musculosos.

Decidiu não lhe dar aquele prazer de imediato. Ajoelhou-se, puxou seu quadril para si e afundou o rosto entre suas pernas. O ânus de Lewis estava pedindo por aquilo quando a língua de Winter resvalou pelo calor daquele lugar tão escondido. Enquanto beijava e lambia a abertura, afundou as unhas nas próprias coxas e então puxou-as pela pele. As linhas de dor que imediatamente começaram a arder quase fizeram-no gozar naquele momento.

Winter começou a se estimular quando mordeu a carne de uma das nádegas de Lewis com força, depois encostou a língua lá dentro novamente, sentindo-o piscar.

Levantou-se e limpou o suor da testa. Deslizou pelo próprio membro uma camisinha que ele lhe dera e encostou a glande em seu ânus, passando a empurrá-la para dentro numa velocidade estável. Lewis gemia de dor, remexendo-se o tempo todo. Com a visão que tinha de suas costas largas, Winter sentia vontade de lambê-lo dos pés ao pescoço, mas ali não era ambiente para isso.

Quando já estava totalmente dentro, deixou-o acomodar-se por um tempo, sendo pressionado por todos os lados o tempo todo. Era tão apertado que Winter quase achou que fosse sua primeira vez naquela posição.

Puxou-se para fora e então voltou-se para dentro com tudo e começou a estocar. Lewis jogou os braços para trás e agarrou suas nádegas, puxando-as para si. Winter enterrou-se em sua abertura enquanto sentia-o apertando sua bunda com as duas mãos. Lewis deslizou um dos dedos para seu ânus e enfiou-o lá; foi quando Winter voltou a fodê-lo sem dó.

Lewis gemia de prazer e dor, sendo empurrado pra frente e puxado para trás como um boneco, apesar de ser tão grande. Winter sentia-se tão bem manipulando aquele corpo enorme e cheio de músculos que puxou a própria gravata para baixo, apertando o laço em torno do pescoço. Um, dez, vinte segundos depois, estava com falta de ar. Seu coração palpitava e sentia dificuldade para respirar. As veias de seu pescoço já estavam roxas quando finalmente explodiu dentro da camisinha, unindo seu grito ao de Lewis, que rebolava fortemente, pedindo por mais.

Quando terminaram, vestiram novamente as roupas e passaram a ofegar juntos, sentados lado a lado, quase debaixo da mesa de pedra. Lewis acendera outro baseado e agora os dois o dividiam novamente.

— Estava precisando, hein? — Winter perguntou, deslizando os dedos pelo pescoço dele. Deu-lhe um selinho nos lábios e descansou a cabeça em seu peito. — Nunca ouvi falar de você sendo passivo. Não tenho do que reclamar.

— Você nunca ouviu falar de mim. Quer ouvir mais?

— Seria ótimo.

— Lilith Eisentower vai dar uma festa hoje à noite. Por que não vamos juntos?

Os pais de Winter não o deixariam ir a uma festa numa segunda-feira, mas é claro que ele não contaria aquilo a Lewis.

— Tenho algo para fazer hoje à noite. Aliás, os funcionários logo chegarão. É melhor eu ir à minha sala e você à sua.

Deu-lhe outro beijo e deixou o coreto. Logo entrou na Casa Vermelha e subiu as longas escadas até sua sala, onde finalmente caiu praticamente morto de cansaço na carteira.

Quando voltou a levantar a cabeça e abrir os olhos, Melchior estava ali.

Winter deu um grito fino demais para ser considerado masculino, depois amaldiçoou-se quando ele deu uma risadinha. Estava com o paletó mal colocado, a gravata desamarrada e com o cabelo bagunçado. E Melchior estava ali, elegante, de sobretudo preto e olhos púrpuras. Curiosamente, segurava um notebook pequeno aberto com apenas uma das mãos.

— Desculpe se te assustei — Melchior disse suavemente. — Não sabia que havia alguém nessa sala.

— Tudo bem — apressou-se em dizer, ajeitando o próprio cabelo. — Que está fazendo aqui?

— O diretor do seu teatro me pediu para assistir ao ensaio da peça hoje, vai ser uma cena importante. Eu que a escrevi, se não sabe disso. Provavelmente sabe. Vim à Casa Vermelha porque é a Casa de Nicholas e porque é a maior vencedora da história da St. Nicholas. Não que eu sempre fique do lado que sempre vence. Eu sou o lado que sempre vence, Winter.

Por algum motivo, aquilo arrepiou Winter de cima a baixo.

— Aliás, estava assistindo a algo muito interessante aqui — ele continuou a dizer despreocupadamente, voltando os olhos para o notebook. — Você sabia que eles deixam a sala de segurança destrancada e que os computadores não têm senhas? Isso é absurdamente estúpido. Sabia também que, sem ninguém saber, eles colocaram uma câmera no coreto?

Winter sentiu sua espinha gelar. Era como se sua alma estivesse se separando de seu corpo e adentrando nas nuances brancas dos olhos violeta de Melchior, que o fitavam com ardência e divertimento. Tentou falar algo, mas não conseguiu.

— Engasgado com todo o esperma de Lewis Baberfield? — E de repente, sua voz não era mais suave e inocente, e sim sussurrante e envenenada de cinismo. Pela primeira vez, Winter viu algo mais nos olhos de Melchior, algo sinistro.

Esse garoto é mais do que aparenta, a voz de Lincoln ecoou por sua cabeça. Ele é perverso, cruel, totalmente frio, sem emoções por dentro.

Melchior mostrou-lhe a tela do notebook, que estava pausada exatamente na cena em que Winter havia completamente entrado em Lewis. Era perfeitamente possível ver seu rosto. Impossível não reconhecê-lo como o garoto mais bonito da escola.

Você fez Lewis me levar ao coreto? — sussurrou de volta, sem conseguir acreditar.

— É incrível o que famílias falidas fazem por dinheiro e por um pouco de maconha — ele sussurrou, balançando os cabelos cinzentos. O rosto era muito delicado, como o de um anjo, mas os olhos eram demoníacos e estavam cheios de ódio. — Ethan não queria ser tão cruel com a família Baberfield, mas eu o convenci do contrário. Ele é muito novo. E muito baixo. Se não demonstrar o que realmente quer, jamais será respeitado. Jamais tolere uma desfeita, jamais esqueça um favor, esse é um lema que todos os mártires deviam seguir. Este mundo está cheio de pessoas repulsivas e fracas, vítimas. Um mundo cheio de vítimas não tem lugar para um mártir.

Ele é louco, compreendeu com o coração apertado. Completamente insano, tão narcisista que não consegue ver os próprios erros.

— Eu mal consigo compreender o motivo pelo qual Edric Summer infiltrou sua florzinha na vida da família Hentz — Aquilo parecia sarcasmo —, mas vou te dizer uma coisa, Winter. Ethan Lemnsack controla metade da imprensa dessa cidade, e eu controlo Ethan Lemnsack. Se Summer usar Spring para de alguma forma tirar proveito de qualquer um daqueles três irmãos, os quais estão sob a minha guarda, eu juro por Deus que seus avós católicos serão os primeiros a ver você perdendo a inocência com Lewis Baberfield. — Ele deu o sorriso mais grotesco que Winter já vira na vida. Um sorriso horrendo num rosto perturbado. — E, depois, o quê? O mundo.

Dito aquilo, Melchior deixou a sala, o sobretudo esvoaçando por trás dele.

Quando os outros três chegaram, Winter ainda tremia.

Autumn segurou suas mãos entre as dele e as apertou, transmitindo seu calor. Seus olhos castanhos perguntavam através dos óculos o que acontecera.

Ele apenas conseguiu encostar a cabeça em seu peito e tentar não chorar, mas quando sentiu a mão dele acariciar sua nuca e um arrepio lhe acometeu, a lembrança de Lewis voltou a sua mente repugnantemente vívida.

— Meu Deus, o que há com você? — Spring perguntou. Seus olhos encobertos pelo cabelo louro-amarronzado estavam cheios de dúvida. Ele não parecia ter dez anos, como Nicholas, parecia apenas ser uma menina.

— Não há nada. — Winter apertou os olhos azuis com força. Summer estava lá atrás, numa das últimas carteiras. Desde que sua briga falsa com Spring devia servir para enganar Nicholas, ele não podia mais se aproximar de Autumn e Winter quando Spring estava por perto. — Estou bem.

Mas o fato de Autumn ter segurado a mão dele durante o resto da aula indicava que ele sabia que nada estava bem.

O dia parecia interminável. As freiras entravam e saíam e Winter sequer fazia ideia do que haviam ensinado, só o que se lembrava era da voz sussurrante de Melchior, do ódio em seu olhos, da profunda desumanidade que eles lhe transmitiam. Concluiu que não conseguia sentir mais nada por aquele psicopata além de pena. Pena e medo.

Ele ainda tinha o vídeo. Tinha certeza absoluta de que ele havia destruído o vídeo do sistema de segurança da St. Nicholas, mas uma cópia ainda estava lá, no notebook dele. E se conseguisse pegá-lo e destruí-lo… não, Melchior não era idiota. E estavam no século XXI.

Como poderia convencer o idiota do Summer que continuar com aquele plano ridículo o estava pondo em perigo? Melchior o havia descoberto, mas Winter sabia que não adiantava contar aquilo a Summer. Afinal, Melchior era apenas mais um garoto rico, não era…? Exatamente como Nicholas…

Ao final daquele dia, Winter levou Autumn para um canto afastado da escola e finalmente o beijou como precisava beijá-lo. Nem lhe passava pela cabeça ir aos vestiários durante as aulas extracurriculares. De repente, todos os garotos tornaram-se seus inimigos.

— Agora você pode me contar o que há com você — ele sussurrou segurando seu rosto com firmeza, como sempre fazia. Seu sotaque dançava pelos ouvidos de Winter. Autumn era um pouco mais alto que ele, e embora fosse algumas semanas mais novo, sempre pareceria mais velho. — Não venha me dizer que não há nada. Não ouse repetir isso.

Sua voz era suave e gentil, no entanto.

— Estou com raiva — decidiu dizer.

— Com raiva? Com raiva de quê?

— De quem. Estou com raiva de Spring por ser tão idiota e apaixonado, por ser tão leal e obcecado pelo Summer, mesmo que nós saibamos o que houve entre eles. Estou com raiva dele por… por… por ele ser o cachorrinho do Summer! — disse estridentemente. Autumn o abraçou com firmeza, fazendo Shhh, com sussurros.

Winter percebeu-se chorando novamente.

— E estou com raiva do Summer por ter relaxado tanto na relação deles, por simplesmente não se importar mais com Spring. Será que ele não se dá conta de que só se dá valor às coisas quando perde? Será que ele não vê que Spring está se apaixonando por Nicholas? Mas que merda. Por que todo mundo que eu conheço é tão fodido assim?

— Porque são todos adolescentes.

— E estou com raiva de mim por… por… — Não podia dizer a ele. Não a Autumn. Não ao Autumn que sempre ignorava o fato de Winter ser a vadia mais rodada da St. Nicholas. Mentira a Nicholas no dia que o conhecera. O relacionamento deles não era aberto. O que Winter fazia era mesmo traição.

Ele não esperou que completasse com algo. Simplesmente voltou a beijá-lo com uma violência tão grande que quase cortou seu lábio. Winter adorou.

— Não importa o motivo. Eu amo você, meu amor de inverno — ele sussurrou.

— Assim é como eu chamo Spring, apenas com algumas alterações — resmungou colocando a cabeça no pescoço de Autumn. Gostava de quando ele acariciava seu cabelo. Simplesmente gostava quando ele lhe tocava. Provavelmente não haveria ninguém na escola que dissesse que Autumn era bonito o suficiente para alguém como Winter. Seu rosto era muito comprido e o nariz era muito grande, mas e daí? Do que adiantava ser bonito como Summer e não ter nada na cabeça? — Eu também amo você, meu outono. Nunca volte à Inglaterra, está ouvindo? Vou morrer se você voltar. Vou matar o seu rei e depois você, seu europeu maldito.

— Combinado, californiano. — Autumn lhe deu um chupão no pescoço, depois um selinho carinhoso nos lábios. — Preciso voltar ao internato, vão dar o toque de recolher. Você vai ficar bem?

— Vou. Vou almoçar com Nicholas, depois matar a aula de francês para assisti-lo ensaiando a peça. E Summer pode muito bem ir se foder. Acho que ele não contou com o fato de não poder mais se aproximar de Nicholas e de ter que evitar todos os lugares que ele vai ou que tenham o nome Hentz. É difícil, porque todos os lugares dessa cidade se chamam Hentz.

— Vem ao Alojamento hoje à noite?

— Vou precisar fugir de casa para isso.

— Você pode fugir de casa. Você sempre foi um menino levado.

Por algum motivo, aquilo o excitou mais que o traseiro de Lewis Baberfield.

— Eu vou.

— Bom garoto. Sempre um bom garoto.

— Não, não nos seus braços.

Winter abraçou-o mais uma vez, e depois de ver se havia alguém por perto e sem conseguir se controlar, prensou Autumn contra uma árvore e desceu o zíper da calça dele. O pau já estava duro há tempos quando ele o meteu na boca e começou a felação sem medo de ser feliz.

Tinha um desejo imenso de berrar para todos que o que Autumn não tinha de beleza, o pênis dele compensava em centímetros de comprimento e circunferência. E que fossem para o inferno as câmeras de segurança.

Quando terminou, despediu-se dele na cerca que delimitava a escola do internato e foi-se encontrar com Nicholas na saída da St. Nicholas. Ele havia arrancado o paletó, que descansava em cima de seu ombro, e agora estava só de camisa e gravata. Era incrível o quanto ele era baixinho. Winter o teria confundido com uma criança da quarta série se não fosse pelo broche de prata e diamantes em formato de leão preso à camisa.

— Onde quer ir hoje? — ele indagou. Sua limusine estava parada na Rua St. Claire, sob um punhado de árvores verdes.

— Estamos só nós dois, então vamos a algum lugar onde você tenha que pagar até pelos guardanapos que usa.

Foram a um restaurante chamado Aquarello que cobria quase todo o térreo de uma torre comercial lá em Higociety. Quase todas as paredes eram revestidas de vidraças gigantescas, e tudo era muito cinza e branco, decorado com extremo bom gosto. Os garçons vestiam smokings e havia um Maître, o que era interessante porque o restaurante não era francês.

— Mesa para dois, por favor — Nicholas disse polidamente.

— Lamento, mas todas as mesas estão… — O Maître ergueu os olhos pequenos para Nicholas e os arregalou levemente, com uma discrição elegante. — Oh, Sr. Hentz, que prazer vê-lo por aqui. Sim, é claro que temos uma mesa.

Seguiram-no até um dos cantos mais afastados e iluminados do restaurante, bem abaixo de um lustre de cristal cinzento, com uma bela vista para a praça que rodeava a torre. Os guardanapos eram de pano e continham as iniciais do restaurante bordadas em dourado, e havia pelo menos mil talheres e copos diferentes na mesa.

— Não faço ideia de como usar tudo isso — confessou.

— Você mora com um francês e não sabe as regras do jantar à francesa? — Ele riu, mostrando os dentes brancos. — Mas não precisa. Felizmente estamos apenas almoçando. Eles vão vir retirar o excesso de talheres logo, logo.

Eles, de fato, vieram. Após pouco tempo de espera, trouxeram uma carne tenra que parecia pato, embora tivesse textura de porco. Não importava, era apetitosa da mesma maneira. E, de alguma forma, Nicholas conseguiu que servissem vinho tinto a Winter, mesmo que ele fosse menor de idade.

— Se alguém perguntar, diga que é suco de uva. — Nicholas lhe sorriu. — Esse restaurante foi fundado há cerca de setenta anos por um italiano chamado Giucolano Aquarello, que faleceu há menos de uma década atrás. Seu último desejo foi ser cremado e que cada grão de cinza que sobrasse fosse depositado em cada refeição que o restaurante serve.

Winter esperou que Nicholas dissesse que aquilo era uma brincadeira, mas suas sobrancelhas arqueadas disseram que não.

— Há um pedaço do Sr. Aquarello em cada um de nós — ele disse humoradamente. — Não sei se isso é legal ou não, mas foi Lorenzo quem me contou. O restaurante nega que façam isso, mas é verdade. Ethan é dono daqui. Não conte a ninguém.

— Não contarei. — De qualquer jeito, Winter empurrou o prato. — Vai ensaiar?

— E vamos encenar uma luta com espadas de verdade. Quer dizer, elas são de madeira, mas ainda assim são espadas. Não cortam um pescoço, mas podem deixar um galo na sua cabeça. E eu finalmente terminei de ler Sereno Azul. Chorei no final.

— Que adorável.

— Chorei porque Incuus morre e porque meu contrato não será renovado — ele resmungou. — É uma pena. Estou começando a gostar das pessoas da HBC. Acho que as convenci de que não peguei o papel porque meu irmão é dono da emissora, pois nepotista é a última coisa que Ethan Lemnsack é, e sim porque Melchior quis.

A menção daquele nome fez sua pele arrepiar, mas graças a Deus Nicholas não percebeu.

O Príncipe Seraphin Alassë observou o corpo de Incuus ser erguido no ar e irromper num brilho cegante. Milhares de estrelinhas brilharam no sereno azul do céu, e por lá ficaram durante toda a eternidade. — Ele recitou numa voz dramática que fez Winter rir. — Já posso ver as cordas me erguendo na frente de uma tela verde enquanto Harry Beauchamp se ajoelha e chora no chão, olhando para um céu imaginário. Dez milhões de dólares não são suficientes para montar um episódio de uma hora inteiro. Vou fazer Ethan estender o orçamento.

— Faça isso. Quando Lympharia vai estrear?

— Em junho. Eu vou estar na première dando autógrafos para as meninas e mandando beijos para os meninos. Sabia que já criaram fã-clubes meus? É tão bom ser famoso que nem posso imaginar por que algumas pessoas detestam.

Winter podia. Enquanto conversava com ele, meia dúzia de pessoas vieram lhe pedir autógrafo e trataram-no como se não existisse.

— Como estão… você e Spring?

Observou Nicholas esvaziar a taça de água silenciosamente.

— Bem. Posso ser sincero com você numa coisa? No começo, tenho quase certeza de que Spring só estava comigo porque queria que Summer sentisse ciúme…

Você não faz ideia.

— … mas agora é diferente. Antes ele era tão tímido e reservado que eu me perguntei se realmente valia a pena. Sabe, eu só amei… sete pessoas na vida, no máximo, mas Spring foi a oitava. Eu não costumo desistir de quem eu amo. Ele me parecia tão deprimido por ter terminado com Summer que eu comecei a fazer de tudo para que ele ficasse feliz. Coisas simples, bobas, ou nem tanto. Eu levava flores e chocolate para ele sem nenhum motivo, numa entrevista de imprensa eu falei sim que estava com alguém e que amava muito tal pessoa. Eu não disse que era ele porque sei que os pais dele não sabem sobre nós. Acho que funcionou. Aos poucos, ele foi lentamente começando a se apaixonar por mim. Agora, quando eu o beijo, sinto que ele realmente gosta. Eu sequer me importo com o fato de ele não fazer sexo comigo.

— Ele se recusa?

— De certa forma, sim. Mas eu o compreendo. Acho que ele nunca esteve com alguém além de Summer.

Winter sentiu o coração apertar.

Era realmente pior do que esperava. Nicholas Hentz não sabia, mas acabava de confirmar todas as teorias que Winter tinha. Cada uma era pior que a outra. A primeira era de que ele estava verdadeiramente apaixonado por Spring. A segunda era de que Spring estava verdadeiramente apaixonado por ele.

— Eu quero um jatinho — ele murmurou olhando para o horizonte, apoiando o rosto entre as duas mãos. — E uma ilha particular em Dubai. E uma cadeia de hotéis. Hotel Hentz, você se hospedaria?

— Certamente. São quase duas da tarde. Vamos voltar?

E há que voltaram. Nicholas não entendeu por que Winter ficou do lado de fora do vestiário naquele dia, mas simplesmente aceitou. Durante a natação, ficou ao lado de Spring, enquanto Winter observava-os a distância sorrirem um para o outro. Summer não se encontrava em lugar nenhum.

Quando a aula terminou e Nicholas seguiu para o teatro, Winter foi com ele.

O teatro da Escola St. Nicholas, alto como uma catedral, era decorado em dourado e escarlate, com um palco imenso de madeira polida e pesadas cortinas vermelho-sangue. O diretor Eli Royce berrava ordens de um dos assentos da plateia, enquanto uma equipe montava o cenário. Parecia ser uma aldeia. Uma imagem campestre era projetada diretamente no fundo do palco por um projetor posicionado na sala administrativa do teatro, lá no meio do primeiro andar.

Jules du Pont estava no centro do palco, sentado no que parecia ser um monte de feno. Ele estava caracterizado como Thelise, o que significava que usava um vestido azul-claro de uma autêntica donzela da era medieval. O mais engraçado é que não dava para confundi-lo com um menino com aqueles espessos cabelos louro-claros a caírem-lhe pelos ombros. Era uma beldade loura.

Enquanto Jules fingia que trançava uma cesta, porque ele certamente não saberia fazer aquilo, um outro garoto caracterizado como um aldeão se aproximou. As luzes diminuíram de intensidade até que apenas o palco estivesse iluminado e tudo ficou silencioso. De repente, a voz do garoto era perfeitamente audível.

— Thelise, cadê Gwarren? — disse o garoto num sotaque camponês incrivelmente fluente. Jules ergueu a cabeça e Winter pode ver que havia grandes bolsas debaixo de seus olhos, violáceas como o céu do crepúsculo, como se ele tivesse estado chorando. O que a maquiagem não fazia?

— Oh, ele foi escolhido para lutar com o Amaldiçoado — ele disse cansada e suavemente, de modo a imitar melhor uma voz feminina.

— Você não parece feliz… — disse o garoto com uma ignorância fingida. — Quem é o Amaldiçoado?

Jules parou de trançar a cesta.

— Nunca ouviu a lenda do Guerreiro Amaldiçoado, que de tempos em tempos tenta queimar nossa vila?

O garoto negou.

— Bom… Há anos e anos atrás, um guerreiro, assim como Gwarren, muito querido e corajoso, foi enviado para lutar contra um feiticeiro que tentava queimar nossa vila, alegando que todos éramos hipócritas e impuros. O guerreiro o derrotou, mas não antes de ser amaldiçoado pelo homem e ter sua essência profanada por um assassinato e ira que não podia ser contida. Ao retornar, os aldeões perceberam a diferença em seu comportamento e o exilaram. E desde então ele tomou o lugar do feiticeiro, alegando ter sido injustamente expulso e separado de sua amada.

Havia tanta emoção na voz dele que Winter por um segundo chegou a ser transportado para aquele mundo fantasioso.

— Não acho que você deva se preocupar. O guerreiro não era um feiticeiro, era?

— Não… — Jules mordeu o lábio. Era uma mania que ele tinha. — Mas algo nessa história me deixa preocupada. Sinto que algo de ruim acontecerá a Gwarren… — Ele fungou. Winter pegou-se com vontade de saber se algo realmente aconteceria a Gwarren, mas então se lembrou que Melchior havia escrito tudo aquilo.

— Oh… Não fique triste, Thelise. Tenho certeza de que ele conseguirá voltar. — E o abraçou.

— Assim espero…

E Jules devolveu o abraço.

A cena terminou aí. Dez minutos mais tarde, Jules du Pont estava sentado ao lado de Winter, reclamando da quantidade absurda de laquê que tivera de pôr no cabelo.

— Se eu começar a perder meus lindos fios louros, vou processar essa escola. Soube que teremos uma batalha hoje? Graças a Deus já terminei de ensaiar, não aguento mais usar aquele vestido. Eu tenho que usar um espartilho por baixo tão apertado que eu quase expeli meus órgãos. E tem ideia de como pinica?

— Não me admira que as moças medievais fossem tão castas. Até tirarem todas as roupas, já haviam perdido o tesão.

— Você me entende tão bem.

O cenário agora era outro. O que antes fora uma alegre aldeiazinha, era agora uma floresta sombria, no tom mais clichê da palavra. Árvores falsas sem folhas com galhos afiados erguiam-se por toda a extensão do palco e até o chão foi customizado para parecer terra batida cheia de mato. As luzes eram baixas e sombrias, enquanto uma melodia sinistra era transmitida pelas caixas de som. Na extrema esquerda, havia uma espécie de trono de pedra, onde o tal Guerreiro Amaldiçoado prostrava-se.

Winter conhecia aquele garoto. Chamava-se Shane Spencer, tinha cabelos e olhos pretos, pele muito branca e ou Winter não se lembrava bem, ou ele era mais ou menos da altura de Nicholas. Vestia apenas trapos de roupas escuras e remendadas umas nas outras, e em seus braços estavam amarradas cordas que deviam ser cipós.

— Ele ficou sentado naquele trono durante tanto tempo que as raízes das árvores cresceram através do corpo dele — Jules disse sonhadoramente. — No conto, elas atravessavam inclusive um de seus olhos. Também havia uma aura violeta brilhando ao redor dele, e os corvos frequentemente pousavam em seu ombro para alimentarem-se dos fungos que cresciam no cipó que atravessava seu olho.

De repente, o som do grasnar de corvos surgiu no teatro. Uma máquina de fumaça produzia uma neblina rarefeita, e uma luz azul-escura iluminava Shane no trono. Ele estava de olhos fechados quando Nicholas Hentz surgiu no palco.

Ele foi iluminado por uma luz dourada, enquanto a azul ainda iluminava Shane. Luzinhas violetas iluminavam o resto do palco. E o granar dos corvos ainda continuava, alto e terrível.

Nicholas era aço dos pés a cabeça, ou seja lá qual fosse aquele material metálico. A armadura era couraçada sobre cota de malha e um sólido gorjal lhe rodeava a garganta. O capacete tinha uma viseira apertada demais pelo julgamento de Winter, mas protegia o nariz.

— É você o Guerreiro Amaldiçoado? — ele perguntou.

— Não, sou a fada do dente — Winter sussurrou reprimindo um riso. — Não, sou a Sininho. Melhor, o Peter Pan.

— Pare de rir — Jules sussurrou enfezadamente.

— Não, sou aquela sua tia de cento e oitenta quilos que aparece de vez em nunca para apertar sua bochecha e perguntar como andam as namoradas.

Sentiu um beliscão no ombro, mas não se importou.

E Shane Spencer riu. Era uma risada amarga, cínica e insegura, uma risada de alguém que não tinha medo de morrer, assim como sua voz.

— Imagino que seja um pobre garoto ingênuo que os aldeões enviaram para fazer o trabalho sujo. — Shane se ajeitou no trono, balançando a cabeça. Tinha os cabelos sujos e desgrenhados caindo por cima dos olhos, como um louco, e mostrava os dentes pontiagudos para Nicholas. Eram próteses caninas, mas mesmo assim… — Esses vermes nunca aprendem.

— Não ouse insultá-los quando suas intenções são tão impuras. — Ele disse aquilo tão bobamente que Winter não conseguiu descobrir se era boa atuação ou apenas Nicholas sendo Nicholas. Os olhos cinzentos de Jules estavam arregalados, admirando-o. — Não vejo o motivo para seu ódio, mas não vou deixa-lo queimar minha aldeia.

Shane empinou-se no trono como uma víbora, apontando um dedo ossudo para Nicholas, que empunhava a espada de madeira.

— Impuras? Minhas intenções? — gritou quase descontrolado, praticamente babando nas roupas. Shane tinha dado tantos tiques nervosos ao Guerreiro Amaldiçoado que parecia um retrato real dele. — Estes aldeões arruinaram minha vida! Você não sabe o que fala, menino, ainda é uma criança! Fui expulso injustamente e obrigado a abdicar do direito de ver minha amada porque obedeci a tudo o que aqueles sanguessugas pediram.

Nicholas hesitou. Era evidente que tencionava atacar, mas também finalmente começara a pôr o cérebro pra funcionar.

— É o que diz a lenda, que você alega ter sido injustiçado.

Shane deu uma risada amarga, os cabelos compridos e sujos voltando a cair no rosto.

— Ah, garoto, você realmente não sabe… A lenda idiota não é sobre mim. É sobre um pobre coitado que foi enfrentar um feiticeiro, gerações e gerações antes de você e de mim. Não sou o primeiro Guerreiro Amaldiçoado e provavelmente não serei o último. Tenho pena de terem-no enviado, você não parece ser do tipo que foge à luta.

— Não quero sua pena, quero honrar meu compromisso.

Shane deu de ombros.

— Como queira.

Foi aí que o duelo começou.

Jules disse que, no conto, o Guerreiro Amaldiçoado tira uma espada violeta da própria aura enquanto Gwarren usa uma de aço, mas no âmbito da peça as duas eram de madeira. No entanto, sua canção era tão deliciosa de ouvir quanto qualquer outra.

As luzes se foram para dar lugar a um espetáculo de sete cores diferentes. Arcos-íris dançavam pelo palco enquanto aqueles dois se aproximavam. Shane, com seus trapos negros deslizando pelo chão atrás de si, deixando à mostra partes estratégicas do corpo magro (na verdade, era puro apelo sexual), e Nicholas, de armadura até os cabelos.

Nicholas virou-se para enfrentá-lo. As espadas ergueram-se no ar uma, duas, três vezes, sempre parando a outra em baques surdos. A produção do teatro estava prendendo a respiração. Eli Royce estava quase tendo um orgasmo.

Shane avançou para Nicholas, sem medo de ser acertado. Tentou um golpe, mas ele pulou em cima de um pedregulho no mesmo momento, fazendo sua madeira chocar-se contra a pedra praticamente entre seus pés. Mergulhou a espada no ombro de Shane, mas este jogou-se para trás a tempo.

Nicholas rodeou-o pela esquerda. Shane virou-se, sempre com a espada levantada na altura do peito. O louro avançou pela esquerda e atacou pela direita, mas Shane já previra esse golpe e o parara com outra estocada. Daquela vez, ele conseguira empurrar Nicholas para trás com o pé e um sorriso nos lábios.

Shane atacou, cortando o ar com a madeira, mas Nicholas desviou-se, saltando para fora de seu alcance, para cima de um tronco coberto de musgo. Winter quis gritar que aquilo era uma ideia estúpida, que ele poderia escorregar e cair, mas então Nicholas subiu para uma pequena elevação montada para ser um amontoado de pedras cheias de musgo também. Shane desceu a espada onde ele estava há apenas um segundo e raspou o musgo dali. Nicholas desviou e pulou para cima de Shane, que obviamente se esquivou a tempo.

O louro caiu de volta no palco do teatro com a respiração pesada, chocando a ponta da espada contra o chão num baque altíssimo. Uma música de suspensa era soada a todas as alturas.

Deram-se tempo para respirar, um sempre rodeando o outro, sem tirar os olhos das espadas inimigas.

— Me diga — bradou Shane, que parecia estar se divertindo com tudo aquilo —, você a beijou antes de partir?

— Como? — perguntou Nicholas, arfando.

— Perguntei se você disse adeus àquela que ama.

— Cale a boca!

Agora ele flanqueava Shane pela direita, metendo a espada bem onde ele o bloqueava, esperando acertar alguma das partes de seu corpo que estavam descobertas, como se aquele tecido velho fosse mágico. Mas ora… talvez fosse.

Nicholas tentou uma estocada entre suas pernas, mas estava muito longe. Shane dançou para a direita, sempre se desviando.

O próprio Nicholas estava claramente tão cansado que Winter sentiu pena dele. E então percebeu.

— O Guerreiro Amaldiçoado quer cansá-lo com o peso da própria armadura. — Olhou para Jules, que apenas lhe deu um sorrisinho sarcástico.

O som estridente da madeira trouxe a atenção de Winter de volta ao palco. Nicholas atacava Shane com força, caindo em cima dele com a espada, que afinal era mais longa e mais nova que a dele. Shane apenas parava os golpes quase que com gentileza, afastando-se dele e então empurrando-o de volta contra as pedras ou um lugar que não pudesse escapar, mas pelo visto Gwarren não era tão idiota assim.

Ele pulou para a frente da única árvore naquele palco que parecia ser de verdade: um tronco morto de carvalho que jazia gentilmente dentro de um vaso gigantesco. Enquanto as outras eram apenas réplicas, aquela não, e Winter logo entendeu por quê.

Jules lhe dissera que, no conto, quando a espada mágica do Guerreiro Amaldiçoado atingiu aquela árvore, esta se espatifou num clarão que cegou até mesmo ele, mas na peça, com tudo o que Shane tinha sendo uma espada de madeira, o máximo que ele pode fazer foi derrubá-la do vaso com o estrondo, enquanto Nicholas pulava desesperadamente para o lado.

Cansado demais para se levantar com todo o peso da armadura, aquele parecia ser o fim de Gwarren, mas pelo visto não. O tal clarão cegante foi produzido por um holofote branco ligado no máximo e um estratégico som de explosão.

Shane gritou, cobrindo os olhos com as mãos. Os trapos de seus braços foram arrancados, e onde antes estava coberto e agora estava nu apresentava queimaduras feitas com maquiagem. Ele também havia propositalmente rasgado os trapos do peito durante o clarão: este também tinha queimaduras falsas.

— A luz machuca o Guerreiro Amaldiçoado — Jules sussurrou. — Por isso o cobriram de trapos, para que Shane pudesse rasgá-los com facilidade na hora certa e mostrar as queimaduras que escondia desde o início da cena. Eli Royce é genial, não é?

Mesmo assim, ele não desistira. Cego pela dor, agora atacava Nicholas, que aproveitara a deixa para se levantar, por todos os lados. Mas Nicholas bloqueava todas as estocadas até que desferiu-lhe um golpe de raspão pouco acima do umbigo, de onde começou a jorrar sangue.

— É o mesmo tipo de maquiagem que a HBC usa para simular personagens que têm as gargantas cortadas — Jules disse com uma leve ponta de orgulho. — Eu sugeri a Ethan que permitisse a Royce usar isso aqui gratuitamente, porque a tecnologia é patente da HBC.

Nicholas fez cair a espada com ambas as mãos, acertando Shane nos ombros onde o trapo cobria. Ele certamente tinha algo ali para proteger a pele da estocada da madeira que ele precisaria levar, mas gritou mesmo assim, e da mesma forma começou a jorrar sangue.

As espadas voaram novamente uma contra a outra, e a canção da luta encheu o teatro, onde reinava o silêncio absoluto além do palco.

Shane começou a ficar mais lento; os bloqueios, mais fracos; as estocadas, mais hesitantes. Nicholas deslizou para cima dele, rápido como um gato, flanqueando-o pelo lado onde o ombro fora machucado.

E há de ser dito em honra do Guerreiro Amaldiçoado que ele lutou até o fim. Num momento cambaleava para trás, meio tonto de dor, e no seguinte avançava sem pensar direito. O súbito ímpeto apanhou Nicholas desequilibrado. Shane empurrou-o com espada e tudo em direção a um tronco jogado no chão. Nicholas quase, quase, perdeu o apoio… cambaleou para trás, tropeçou no dito tronco e agarrou-se à pedra ao lado para manter o equilíbrio. A pedra antes tinha musgo, mas Shane o havia raspado no ataque anterior.

O último golpe desesperado de Shane teria cortado Nicholas do pescoço ao umbigo… se ele tivesse ficado para recebê-lo. Ao invés disso, saltou para trás, enquanto Shane caía com toda a força que podia com a espada no tronco de madeira, num ploft inacreditavelmente alto.

No conto, a espada explodira o tronco em outro clarão que fora a desgraça derradeira do Guerreiro Amaldiçoado, que com suas novas queimaduras fora incapaz de se levantar novamente. Mas já que Eli Royce não pretendia explodir um tronco de madeira na cara de dois adolescentes, na peça a madeira da espada apenas se espatifou em mil pedaços quando se chocou contra o tronco falso. Winter se perguntou o que seria da cena se Shane não tivesse força suficiente para fazer aquilo, se a madeira da espada simplesmente se recusasse a quebrar.

Num instante, Nicholas estava sobre ele, que havia caído de joelhos e então para trás. Desistira.

— Anda… — sussurrou para o cavaleiro de pé, o peito completamente exposto brilhando de suor e daquela substância que eles usaram para imitar sangue. — Dê o golpe de misericórdia e acabe com esta vida miserável para mim.

Nicholas hesitou.

— Você não parece tão malévolo.

Winter ouviu o gemido de Shane quando Nicholas enfiou a espada de madeira em sua axila esquerda, onde a plateia não poderia ver. Do ângulo que estava, parecia que o louro o apunhalava de verdade. A melhor parte é que a ponta da espada molhou-se com o sangue falso, então realmente parecia um golpe de misericórdia.

Shane disse com uma voz engasgada:

— Eu nunca fui.

Tossiu, estremeceu, e morreu.

As luzes do palco desligaram-se enquanto as do teatro se acendiam e as cortinas vermelhas cobriam a carnificina que acontecera.

A cena fora assustadoramente real, mas algo assustadoramente irreal que descia pelas escadas do teatro para se aproximar do diretor da peça era um garoto alto, magro, de cabelos cinzentos e olhos violeta. Winter se arrepiou com a ideia de que ele o observara lá de cima durante todo aquele tempo.

Voltou o olhar para Jules du Pont.

— Preciso fazer sexo com Shane Spencer agora — notou-se sussurrando. Se corresse, talvez pudesse pegá-lo enquanto ainda estivesse suado.

Dito e feito, uma hora e meia depois, estava no portão de saída da St. Nicholas com um grande sorriso no rosto.

Foi encontrar-se com Nicholas pouco tempo depois, que vinha desacompanhado e assobiando.

— Aquilo foi incrível! Você foi incrível — disse a ele com sinceridade. — Você e Shane. Os dois são incríveis. Quero-os ver ensaiando de novo. Na noite de estreia da peça, vou estar na primeira fila.

— Aquilo não foi nada — ele disse modesto. — Na HBC, as lutas são mil vezes mais épicas. Tem dragões. E não mate mais aulas de francês para me ver ensaiar. Não pode deixar Jules du Pont passar na sua frente, afinal. — Ele suspirou. — Sinto falta de beijar Thelise. Ah, olha, minha limusine chegou.

Nicholas deu um beijo na bochecha de Winter, que o abraçou de volta. Observou-o entrar na limusine cuja porta fora aberta pelo motorista e dar-lhe tchau, logo desaparecendo no final da rua.

Jules enlouqueceria se ouvisse aquilo. Sinto falta de beijar Thelise.

Winter foi para casa pouco tempo depois. Jules não estava lá, mas sua mãe, sim. Seraphine du Pont visitava o filho todos os anos por uma ou duas semanas, sempre ficando na casa dos pais de Winter a pedido dos próprios. Sentada na poltrona clara da sala de estar com óculos discretos lendo um clássico da literatura, era uma beldade loura assim como o filho. Fora Miss Universo em 1974, aos vinte anos, e ainda conservava aquela beleza francesa clássica. Era difícil acreditar que já tivesse sessenta anos de idade, ainda mais com um filho de dezesseis.

Era meio óbvio que ela só se envolvera com Lafferty porque queria desesperadamente ter um filho, e naquela época já tinha quarenta e quatro anos. Apesar de tudo, os dois se davam bem, embora ela não houvesse demonstrado tristeza com o desaparecimento dele. Tal mãe, tal filho.

Já ia subir as escadas quando ouviu-a chamar seu nome.

— Sim? — Virou-se para ela, que olhava-o de modo estranho, como se visse algo através dele. Seraphine fez sinal pedindo que ele se aproximasse, por isso Winter sentou-se no sofá.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

— Talvez não goste de ouvir isso — ela falou quase sussurrando. Seu sotaque era menos acentuado que o de Jules. — Mas você me lembra Lafferty de tantas maneiras que nem imagina.

Winter franziu as sobrancelhas.

— Por que eu não gostaria de ouvir isso?

Um sorrisinho enigmático desenhou-se em seus lábios.

— Ah, quem sabe? Mas você parece estar cansado e querendo dormir, e no entanto estou aqui te segurando como uma velha tola.

— Você não é velha — disse de imediato. — Desde quando sessenta anos é velhice? Está apenas no começo da vida.

— Se estou começo, então como será o fim?

— Você deitada numa nuvem sob um céu violeta e azul, com a névoa nos olhos e o sol nos cabelos. Sonhando. Então tudo se escurece e você atinge o êxtase.

— E morre — Seraphine completou com um certo desgosto. — Quando Jules me pediu para se mudar para a Califórnia, a primeira coisa que eu pensei foi simplesmente não. E que nada poderia me fazer mudar de ideia. E, no entanto, veja onde ele está. Onde eu estou. É incrível como podemos mudar de opinião tão rapidamente.

— O que a fez mudar de opinião?

— Ele me disse que se não o deixasse ir embora naquele momento, ele iria embora em outro e não voltaria mais. Me acha tola por acreditar na ameaça de uma criança de dez anos?

— Não, porque se ele sentiu que precisava ameaçá-la para isso, é porque realmente queria.

— Ele queria ir embora, e por que não iria querer? O que ele tinha lá em Paris? Uma socialite falida.

— Está se culpando de novo.

— Eu sei, querido, eu sei. Obrigada por ter me ouvido. Há algo que eu possa fazer por você?

— Preciso sair escondido hoje à noite, pode me cobrir?

— É claro. Eu praticamente só durmo quatro horas por dia desde que Jules nasceu.

Às onze horas da noite, quando praticamente todo mundo já estava na cama, Winter deixou seu quarto. Enfiara um punhado de travesseiros debaixo do lençol e vestira uma jeans preta com um suéter preto por cima, além de estar levando um cachecol preto e uma touca da mesma cor. Só por precaução, também levava óculos escuros. Parecia um ladrão de joias.

Despediu-se de Seraphine, que ainda lia Shakespeare sob a luz dourada da sala, caminhou algumas dezenas de metros para longe de casa e entrou no táxi a sua espera na esquina da rua.

O trajeto até a Escola St. Nicholas foi perfeitamente tranquilo. Winter chegou lá exatamente às 11h34min, ou seja, faltando apenas um minuto para a troca de turno.

Quando viu o guarda que ficava na porta de entrada da escola se afastar, Winter tirou o molho de chaves que há muito roubara do zelador e abriu o portão pequeno. Se jogou entre os arbustos do estacionamento antes que alguém pudesse vê-lo e esperou até que o novo guarda viesse.

O Alojamento Vermelho ficava bem em frente. Winter deslizou viscosamente até seus arbustos e seguiu por lá até pegar a Estrada Única e se enfiar nos gramados. Teria que ir engatinhando até o outro extremo do prédio, pois havia câmeras por toda parte.

E há que fez isso. Os postes de iluminação estavam ligados e, para seu horror, viu, ao longe, sob um deles, a diretora Mary Sandy. Estava na área aberta que os internistas chamavam de Campo com dois homens altos e parecia furiosa. Winter não conseguiu distinguir o que ela dizia, mas viu seu hábito esvoaçar até as casas de scanner na cerca, com os dois homens em seu encalço.

Quando ela sumiu, Winter voltou a respirar. Um passo em falso e poderia ser expulso.

Rodeou o prédio inteiro até chegar do outro lado. Lá em cima, num dos últimos andares, uma janela jazia aberta. Abaixo dela, uma grade de roseiras que ia até o chão.

Winter pôs as luvas de lã e puxou o corpo para cima da grade, empurrando-se com os pés. Aquela era a parte mais perigosa de ir à St. Nicholas à noite. A qualquer momento, aquela grade poderia desprender-se da parede e ir ao chão.

O ar da noite estava gelado quando Winter olhou quinze metros abaixo de si e pulou para dentro da janela do quarto 11-E do Alojamento Vermelho.

Spring deu um grito de susto, mas quando Winter tirou o capuz e os óculos e expôs os cabelos louro-acinzentados e os olhos azuis, ele suspirou de alívio.

— Jesus Cristo, você quase me matou do coração, tem ideia disso? — ele exclamou. Quando ficava irritado, suas bochechas ficavam rubras. Winter deu-lhe um abraço forte e seguiu para o cômodo anterior ao quarto. Abriu o frigobar e tirou uma garrafa de vodka de lá.

Quando deu o primeiro gole ardente, seus sentidos se desanuviaram. Todos os problemas do dia sumiram, até mesmo o perigo de estar ali no quarto àquela hora.

— Autumn está no banheiro — Spring disse sentado na beira da cama. Vestia apenas um short e um suéter listrado branco e roxo. — E Summer também está vindo.

Winter se aproximou dele e o fez encostar o corpo em si. Começou a acariciar seu cabelo comprido, sentindo o cheiro de morango que vinha dele.

— Vai fazer o que tem que fazer? — perguntou com suavidade.

Spring olhou-o com surpresa.

— Fazer o quê?

— Você sabe. Todos sabemos. No fundo do seu coração, você sabe. No fundo da minha garrafa de vodka, eu sei.

Ele se levantou com os olhos irritados e a boca temerosa. Parecia uma menina japonesa. E sua voz foi mas estridente do que a de uma.

— Não, você não sabe! Pare com isso, está bem? Pare, você não sabe como eu me sinto. Ninguém sabe como eu me sinto.

— Confuso, revoltado, usado, sem auto respeito. Amado. — Nesse momento, Winter desviou-se de um travesseiro que ele jogou em sua direção. Puxou Spring para si e o abraçou à força, o que não era difícil porque ele era fraco como uma criança. — Eu te amo, meu pequeno.

— Vá se foder — Spring devolveu, empurrando-o.

— Por que não manda Summer se foder? Foi ele quem o pôs nessa, não eu. Ele quem bagunçou seus sentimentos, não eu. — Você quem bagunçou os meus.

— Não fale dele. Summer é melhor que você. Ele nunca me traiu.

— Não, você quem o traiu.

Spring ia gritar alguma coisa, mas a saída de Autumn do banheiro emudeceu os dois. Winter não era do tipo que toleraria ouvir algo daquele tipo de alguém e levar o desaforo para casa, mas era Spring. Doce como uma primavera.

— Vocês estão brigando de novo — Autumn declarou cansadamente. — Odeio a briga dos dois. Parecem o cravo e a rosa.

— Quem é a rosa? — Winter indagou. Spring bufou e se enfiou na cama, puxando a cortina que a separava do resto do quarto.

Autumn se aproximou do outro e deu-lhe um selinho nos lábios, então empurrou-o para a cama e fechou a cortina também. Ali, sozinhos, ele suspirou novamente. Winter tirou seus óculos e os pôs na beirada, depois puxou-o para beijá-lo com mais vontade.

— Não exija tanto dele — Autumn sussurrou, abafado pelos lábios experientes de Winter. — É apenas uma criança. Bom, não é uma criança, mas está terrivelmente confuso como uma. Summer o está puxando de um lado e Nicholas de outro. Imagine os princípios morais que ele tem. Deve estar sentindo que trai o Nicholas quando Summer o obriga a deitar-se com ele e que está traindo Summer quando beija Nicholas.

— Eu sei.

— E você sabe que não deve estressá-lo. Não pode.

— Eu sei…

De repente, amaldiçoou-se. Quase esquecera aquele detalhe. Aquele segredo miserável que era um dos motivos pelo qual Spring odiava Lincoln e que o fizera ir à St. Nicholas, que ele dividia assumidamente com Summer e apenas com ele. Estar fazendo-o corroer-se por dentro fez Winter se sentir absurdamente culpado… mas os olhos castanho-claros de Autumn o entendiam e estavam cheios de piedade.

— Vou pedir desculpas a ele.

— Você vai — ele falou suavemente. — Mas não agora. Meu inverno.

— Isso, não agora… não agora.

Autumn fê-lo virar-se de bruços e puxou sua calça com tudo para baixo. Winter afundou o rosto no travesseiro quando viu que seus pés estavam sendo atados às quinas da cama com o lençol. Os braços ainda estavam livres, mas quando o maior puxou sua camisa para cima, atou-os também.

Agora estava completamente nu, excitado e amarrado na cama. E Autumn estava em cima dele, também nu, com o membro ereto bem entre suas nádegas.

Ele começou a beijar suas costas com carinho. Cada marca de mordida e chupão e cicatriz de arranhão era coberta por seus lábios. Quando chegou aos ombros, beijou os dois e então o pescoço, sempre pressionando o falo contra sua abertura piscante.

Autumn beijou Winter novamente; chupou sua língua e deslizou a própria pelo pescoço dele novamente, sentindo o cheiro gostoso de seu cabelo louro que combinava tão bem com a pele bronzeada.

Então ele ergueu a mão e desferiu um tapa contra uma de suas nádegas. Não doeu tanto, mas depois do segundo, do terceiro, do décimo e do décimo quinto, Winter já lacrimejava de dor. A pele estava vermelha e machucada na nádega esquerda, enquanto a direita ficava do mesmo jeito.

Winter mordeu a fronha do travesseiro para não gritar. A ardência era quase insuportável, mas quanto sentiu a umidade da língua de Autumn tocar em seu ânus foi que gritou de verdade.

Ele beijou-o e mordiscou lá, resvalando a língua pela abertura que abria e fechava. Winter contorcia as pernas, mas Autumn segurava-as num aperto tão forte que logo, logo elas ficariam dormentes. Para aumentar o prazer, pressionava o próprio pênis contra o colchão.

Autumn gemeu, afundando mais o rosto entre duas nádegas. Winter quase gritou de agonia, de dor e de prazer.

De repente, ele se levantou, sentando-se com todo o peso em cima de suas coxas. Tirou uma camisinha de algum lugar e o pôs no próprio membro vermelho e pulsante. Winter devia ter sabido que ele não o deixaria chupá-lo por nada nesse mundo.

Sentiu a glande invadir-lhe aos poucos. Autumn não parava para que ele se acostumasse, não se importava com seus gritos de dor, apenas continuava empurrando numa lentidão constante até estar todo dentro do namorado. O corpo de Winter tremia em baixo dele, machucado e mordido. Suas nádegas ainda ardiam, mas estava com o traseiro empinado mesmo assim, implorando por aquilo.

Autumn deitou o corpo em cima do dele, colando o peito às suas costas. Deslizou a língua lentamente por sua orelha e sussurrou nela:

— Quem é o garoto mais bonito da Escola St. Nicholas?

— Eu sou… — respondeu de volta, quase delirando de prazer. Cada um de seus poros estava aberto. Sentia-se engolindo o pau dele. — Eu sou o garoto mais bonito da Escola St. Nicholas.

— E a quem ele pertence?

— A você.

— A quem?

— A Autumn. Edric Autumn.

— Já te disse que odeio ser chamado de Edric.

Quando Winter percebeu, ele havia envolvido seu pescoço com seu próprio cachecol e agora apertava-o com força. Winter engasgou, arranhando o pescoço para tirá-lo, mas foi violentamente pressionado na cama pelo maior.

Autumn agora cavalgava em cima dele sem piedade, fodendo-o por trás e puxando o cachecol para trás com força. Isso forçava Winter a levantar a cabeça enquanto tinha que empinar o quadril, o que consequentemente forçava a coluna ao máximo. Era um método de tortura bastante comum que Autumn adorava.

Winter delirava com ele montado em cima de si, metendo como um animal. O oxigênio começava a lhe faltar. A tontura já lhe chegara. Sentia que podia desmaiar a qualquer momento, mas então tudo cessou. O apertou fora afrouxado e o pau de Autumn sumira de dentro de si. Seus pés foram desatados, assim como as mãos.

O maior deitou-se a seu lado na cama e puxou-o com amor.

— Machuquei demais? — indagou antes de beijá-lo com tanta força que quase cortou seu lábio.

— Nunca machuca — Winter desafiou. — Por que não fodeu mais? Eu estava aguentando.

— Você estava roxo. Ia desmaiar a qualquer momento.

— Prometa que se algum dia isso acontecer, você vai continuar metendo até gozar.

— Não, não prometo.

Winter adorava aquilo nele. Como ele era um amante sádico perfeito, mas ao mesmo tempo consciente de seu limite. Por isso não praticava aquilo com mais ninguém. Podia acaba se matando.

— Faça de novo — pediu. — Sem camisinha.

Uniram-se noutro beijo cálido e molhado. Autumn envolveu a cintura de Winter com as mãos e puxou-o para sentar-se em seu colo. Os membros tocaram-se, duros como pedra, enquanto as línguas dançavam na boca do outro. Winter envolveu o pescoço do namorado com os braços e colou o corpo no dele.

Quando estava com Autumn, todos os problemas do mundo sumiam. Desde Melchior até a traição com Lewis Baberfield e Shane Spencer daquele dia, todo sumia enquanto sentia um dos dedos compridos dele invadir-lhe por trás, depois outro e mais um.

Quando Winter o montou, Autumn já estava deitado com as mãos atrás da cabeça, apenas observando seu corpo sexy adolescente subir e descer lentamente. Ele parou de cavalgar e começou a apenas rebolar, mexendo o quadril com o membro do maior ainda dentro dele, atingindo-o bem na próstata.

Senti-lo na carne era muito melhor que com a camisinha.

— Pare — Autumn disse. Winter parou de rebolar e ficou ali, parado, fitando-o profundamente, azul no castanho. Havia um fino fio de gozo escorrendo de seu membro quando Autumn passou os dedos ali e levou à própria boca.

— Faça, por favor — implorou, sem mal conseguir se aguentar. Queria voltar a cavalgar, mas ele não o deixava. Apenas fitava-o silenciosamente ali, naquela posição deliciosa de se estar. — Vamos, segure meu quadril e se enfie dentro de mim. Sou seu namorado e estou ordenando que você me estupre.

— Quietinho. Venha aqui, me beije.

Winter se debruçou sobre o corpo de Autumn e o beijou apaixonadamente, agarrando seu pescoço com ferocidade. Antes mesmo de ver o brilho da lâmina, sentiu sua mordida na base de suas costas, fria e rubra, ao mesmo tempo em que ele faria o que antes lhe fora implorado: segurar suas coxas e se enfiar dentro de Winter.

O menor gritou de êxtase. A faca deslizava por suas costas, e por onde ela passava o sangue escorria quente, enquanto o pau de Autumn continuava a fodê-lo sem piedade.

Mudaram de posição. Autumn deslizou o dedo pela ferida aberta nas costas de Winter e levou-o a boca, depois à boca do outro, que provou do próprio sangue com vontade. A seguir, sentiu o maior tocá-lo por trás novamente com os dedos molhados.

— Isso — gemeu, pondo-se de lado. Autumn o abraçou por trás, lambendo seu pescoço. Por onde sua língua passava, o sangue ficava. — Me lubrifique com meu sangue. Ah.

Ele voltou a fodê-lo, dessa vez com mais força. A cama rangia e batia na parede enquanto Winter rebolava, tão alucinado que quase via cores. Era tão excitante quanto deveria ser. Aquele fetiche por sangue era algo incrivelmente secreto, e por algum motivo todo mundo sabia.

Chegou ao apogeu quase ao mesmo tempo em que Autumn explodia dentro dele, sem parar de estocá-lo. Levou a mão ao pau de Winter e então à boca dele, forçando-o a engolir todo a semente.

Foi nesse momento que a cortina se abriu e Summer deu um grito. Não era para menos. O que devia estar vendo era dois garotos colados um no outro e cobertos de sangue e gozo, com uma faca ensanguentada jogada ao lado da cama. Quando Winter viu melhor, o lençol inteiro estava encharcado. Começou a se sentir tonto.

— Meu Deus, o que vocês têm na cabeça? — Summer gritou. Spring cobria a boca e o nariz com as mãos em forma de concha por trás dele. — Vocês querem se matar? De novo?

— Quieto — disse Autumn, levantando-se da cama e puxando Winter com ele. Quando chegaram ao banheiro, deu-se conta de que estava completamente nu. — Vire-se. Tenho que fechar esse ferimento.

Winter sentou-se na tampa do sanitário e esperou que ele encharcasse um pedaço de algodão com água oxigenada e pressionasse contra suas costas. Ardeu tanto que, quando percebeu, estava com outra ereção.

Depois disso entraram juntos no chuveiro, agarrando cada centímetro do corpo do outro debaixo da água quente. Winter estava quase delirando com o corpo dele colado ao seu.

— Deus, eu te amo tanto — Autumn sussurrou, fitando-o nos olhos e agarrando sua bunda com as duas mãos. — Cada parte de você. Você me fez gostar de sangue. Quero me casar com você, Winter.

— Então vamos casar — sussurrou de volta com os braços em volta de seu pescoço. — Eu vou de véu e grinalda.

— Combinado.

Quando saíram do banheiro, Winter sentia-se imensamente feliz. Os lençóis da cama estavam embolados num canto, mas o colchão apresentava uma leve mancha vermelha, e a faca ainda estava pingando sangue no chão. Spring estava furioso com aquilo.

— Diga às faxineiras para bebê-lo — disse a ele travessamente. — Quem sabe assim herdem um pouco da minha beleza. Um décimo já será suficiente.

Summer também estava furioso, mas Winter tinha uma certeza sombria de que não era por causa do sangue.

Enquanto sentava-se no sofá do cômodo anterior com Autumn para descansar e acabar com o que restara daquele vodka, sentia uma apreensão cada vez maior. Quer dizer então que o momento chegara? Spring iria falar ou simplesmente deixar como está? A lembrança de Melchior veio repentinamente a sua cabeça. Tinha que contar a alguém.

— Vamos, eu preciso voltar para casa cedo — Summer disse a Spring, fazendo-o deitar-se na cama, mas Spring sentou-se de novo.

— Summie, eu preciso falar com você. Sobre uma coisa. É importante.

— Você não pode falar depois? — Summer parecia querer engoli-lo, mas o olhar magoado de Spring fê-lo mudar de ideia. — Está bem, o que é? — Ele arregalou levemente os olhos. — É sobre Nicholas?

Provavelmente foi aquilo que mais doeu nos três garotos mais tarde… o olhar de esperança que Summer deu a Spring.

— Sim — ele murmurou olhando para baixo. Winter sentiu que a mão de Autumn segurara a sua. — É sobre ele.

— Descobriu algo? Eu disse que ele tinha algo a ver com Lafferty, não disse? — Summer riu mostrando os dentes brancos. Ele tinha um sorriso lindo que ficava mais lindo ainda emoldurado pelos cabelos ruivos.

— Summer — Spring disse. — Escute-me. Você sabe que eu amo você. Deus, eu sempre amei. Demais. Desde a primeira vez que te vi. Você ainda lembra? Quando você quis fazer amor comigo mesmo depois de tudo eu me senti a melhor pessoa do mundo, e senti que você também era a melhor pessoa do mundo. Eu adorava quando você subia em cima de mim e fazia aquilo. Eu só gostava com você. Eu só gostava do seu toque, do seu beijo. De você. Eu era você, Summer.

Summer ouviu tudo aquilo com a expressão vazia, mas então levantou a sobrancelha.

Era? — repetiu suavemente.

Spring estava terrivelmente irritado.

— Você me obrigou a participar daquela farsa, e eu só fiz isso por sua causa. Você me obrigou a fingir que eu gostava dele daquele jeito, a enganá-lo, sendo que ele não merece nada disso. Você me obrigou a fazer toda essa merda por nada! Acha que eu descobri algo? Eu não descobri, e sabe por quê? Por que não há nada para descobrir sobre o Nick!

Spring estava tão irado que parecia até um garoto.

Mas tudo o que Summer disse foi:

Nick? Está chamando ele de Nick? O que foi, se apaixonou por ele?

A questão é que, depois disso, Spring jamais pode responder a essa pergunta, embora estivesse bem óbvia a resposta. A mão de Summer atingiu seu rosto tão rapidamente que os garotos só perceberam após, talvez, o terceiro tapa que ele lhe dera.

Quando Autumn o arrancou de perto de Spring, ele já tinha lhe dado dois murros na bochecha e no nariz.

Toda a cena fora absurdamente borrada. Summer gritou alguma coisa para Spring e então saiu do quarto pela porta mesmo, e quando Winter finalmente conseguiu visualizar o rosto adorável de Spring roxo e inchado, com ele jogado no chão, alguma coisa explodiu em seu peito.

Ele só não deixou o quarto atrás de Summer porque Autumn o impediu.

— Me solte! — berrou para ele, mas Autumn o jogou na cama com uma violência assustadora. Quando Winter se levantou de novo, Autumn fez a mesma coisa, e de sobra lhe deu um tapa no rosto. Na terceira tentativa, o tapa foi mais forte.

Você fica — Autumn gritou, apontando o dedo na sua cara. Sua voz era um trovão. — Eu vou falar com ele. Não se atreva a sair desse quarto. Não me desobedeça, Winter.

Autumn se foi, e de repente Spring estava no colo de Winter, que pressionava um algodão contra seu lábio inchado.

Quando Spring viu seu próprio sangue, deu um berro e tentou se afastar de Winter, mas ele já esperava por aquilo e o segurou pelos pulsos.

— N-Não, por favor! — Spring gritou, as lágrimas se misturando com as palavras. — Você não entende, você não pode… por favor, se afaste de mim.

— Shh. Não seja tão dramático. Vê algum corte nas minhas mãos? Relaxe, minha primavera. Eu vou cuidar de você.

Pegou uma pedra de gelo no frigobar, trazendo a caixa de remédios e uma garrafa d’água também. Spring olhou para tudo aquilo com ar magoado enquanto esfregava a pedra de gelo sobre um pano sobre o inchaço da bochecha.

— Você sabe? — ele perguntou baixinho. — Você e Autumn?

— Sempre soubemos. Faz diferença a ordem que você toma os comprimidos?

Spring balançou a cabeça. Quinze comprimidos e uma garrafa d’água depois, ele deitava-se na própria cama, abraçado a Winter, que acariciava seu cabelo.

— Tem que contar a ele — sussurrou-lhe. — A Nicholas. Conte a ele.

— Sim — Spring murmurou de volta, pressionando o rosto contra a camisa de Winter. — Eu acho que nunca te disse isso, mas eu amo você, Winter.

— Eu também amo você, meu doce de primavera.

Meia hora depois, ele dormiu. Meia hora depois, Autumn voltou. Parecia cansado, e falou com Winter do lado de fora do quarto, no corredor. Também estava irritado.

— Eu pedi para ele se afastar de Spring por alguns dias — disse a Winter, e antes que ele pudesse protestar, completou: — Ele está tão mal quanto Spring. Cale a boca, me deixe terminar. Você tem que compreender como ele se sentiu ao ter Spring aos seus pés durante tantos anos e depois vê-lo se apaixonar por outro garoto. Consegue imaginar isso? Não, e Summer também não conseguiu.

— Não importa.

— Winter, cale a porra dessa boca. Eu já disse a você como é a vida do Summer? Nunca achei que precisaria, porque você sabe. Ele não tem pai, não tem mãe, não tem casa, faz Deus sabe o que para pagar a mensalidade dessa escola, e por quê? Porque ele quer ficar ao lado da primavera dele. Dele, não sua. Spring é dele, não é seu, nunca foi e nunca será. Você sabe por quê.

As palavras dele doíam tanto, como uma chicotada. Cada palavra era uma chicotada.

— As pessoas são diferentes. Elas não são como eu e você, que temos vidas maravilhosas. Elas têm problemas, têm tristezas, têm desilusões, elas são cinzas, são boas e más. Maldição. Não vou dizer que você não tem motivos para odiar Summer, porque dizer isso é a mesma coisa que dizer que não tem motivo para amar Spring, mas que maldição, Winter. Pensei que você fosse mais inteligente que isso. Vou mesmo precisar manter você longe dele? Vou precisar impedi-lo de agir de forma mais idiota que ele? Vou, Edric Winter?

Às vezes, palavras doem como pedras, e são frias e gélidas como a verdade.

— Não — falou a contragosto. — Mas ele bateu em Spring.

Autumn suspirou. Daquele ângulo, parecia ser muito mais velho do que apenas seus dezesseis anos. Ele sempre parecera o mais velho, o mais maduro.

— Se eu aparecesse aqui com outro namorado, Winter, você quebraria minhas duas pernas.

Winter arqueou as sobrancelhas, pensando.

— É verdade. — Aproximou-se dele e o abraçou pela cintura, encostando o rosto em seu peito. As batidas de seus corações estavam sincronizadas. — Me desculpe.

— Te desculpo. Você quer causar um problema internacional? — Autumn indagou mais calmamente num elegante sotaque britânico.

— Do que você está falando? — A resposta veio quando Autumn se ajoelhou a frente dele com apenas um joelho, segurando sua mão esquerda e fitando-o nos olhos. Winter esqueceu-se de como se respirava. — Meu Deus, o que você está fazendo? Autumn!

— Eu estava falando sério quando disse que queria me casar com você. Se não percebeu, nós já somos maiores de idade, graças ao seu rei. Eu esperei até hoje, mas depois de ver Spring e Summer, simplesmente não posso mais esperar. Não posso mais esperar por você. — Autumn tirou uma caixinha de veludo azul do bolso e a abriu, revelando o brilho prateado de dentro. — Não são o Diamante Hentz, mas um dia serão, porque um dia eu te darei o maior diamante da Terra, mas no momento só posso te dar meu amor incondicional. É isso que estou te dando a agora. Ajoelhado, é isso que estou tentando te transmitir em palavras. Que eu amo você. Que eu sempre vou te amar. Que eu prometo te amar para todo e todo sempre, e só a você, meu amor de inverno. Você quer se casar comigo, Edric Winter?

Winter sabia o que aquilo significava. Chega de vestiários, chega de fazer boquetes no meio das florestas da St. Nicholas, chega de receber boquetes e de transar com Jules às vezes na cama dele. Chega de coretos, de festas de fraternidades, de orgias com o time de futebol e de tirar a virgindade de garotos enrustidos de treze anos a pedido das amigas deles. Chega de ser a vadia mais rodada da escola.

Era isso que ele era, no entanto. Era isso que fazia Winter ser Winter.

Mas… que atire a primeira pedra quem nunca mudou por quem ama. Que eu tenha Nosso Senhor como testemunha de que me comprometi a mudar.

Winter não conseguiu mais resistir em segurar as lágrimas quando sentiu a prata gelada deslizando por seu dedo anelar. Deslizou a outra pelo dedo de Autumn também, olhou lacrimejantemente em seus olhos dourados como uma folha de outono, encostou a testa na dele, fechou os olhos e sussurrou com a voz embargada:

— Eu aceito.

Notas finais
Eu já fiz uma árvore genealógica explicando todo o parentesco dos personagens da fic, ficou com umas 150 pessoas. Eu não mostro porque ela revela algumas coisas que só vou revelar depois. :3Sabe, não vou fazer o clássico pedido de reviews. Ao invés disso, vou complementar: deixem reviews que tenham mais de 3 linhas. Sério, gente, eu não me importo. Eu escrevo capítulos de 10 mil palavras, eu com certeza não me importo em receber reviews também absurdamente grandes.É que é muito desgastante escrever um capítulo desse tamanho e receber comentários tão pequenos que não dizem praticamente nada.Faz quase um mês que eu postei o último capítulo, e sabem por que eu demorei tanto assim para postar esse? Por motivo nenhum. Ele já estava totalmente escrito quando eu postei o anterior. Só faltou motivação mesmo.