Como Vivem Os Anjos
6 Meu Imortal
Nick obrigara Ethan a ficar em casa naquele dia. A doença já tinha quase que completamente se dissipado, mas era bom não subestimá-la. No começo, Ethan não concordara.
— Fique em casa ou eu vou ligar para a Sue Molis e dizer que você me estuprou.
Isso foi suficiente para convencê-lo. Quando Nick adoecia, normalmente a doença vinha em ciclos de diferentes intensidades, em certo momento enganando-o ao fazê-lo pensar que já estava quase curado quando na verdade mal se aguentava em pé. Isso também acontecia com Ethan. Aliás, precisava falar urgentemente com alguém e Ethan não poderia saber disso nunca. Porque Nick estava desesperado.
O desespero começou na noite anterior, quando estavam jantando.
— Eu espero ficar curado até semana que vem — Ethan disse.
— Por quê? — Nick perguntou, enfiando uma garfada na boca.
— Porque a escola vai fazer uma excursão com todo o segundo ano para Castellobranco.
Nesse momento, Nick deixara cair no chão o copo de vidro que segurava, que se estraçalhou completamente, esparramando seu conteúdo no chão de madeira escura.
— O que foi? — indagou Ethan, vendo a expressão petrificada no rosto do irmão.
— “O QUE FOI?! VOCÊ NÃO PODE IR PRA CASTELLOBRANCO, É POR ISSO!” N-Não… não é n-nada. Desculpe pelo copo.
— Tudo bem. Não pise no chão. — Ele estava com uma expressão preocupada no rosto. Levantou-se e foi até a cozinha com a óbvia intenção de pegar um pano para limpar a sujeira feita.
Enquanto isso, Nick estava arfando.
— “Meu Deus, meu Deus, o que eu vou fazer? Não, não posso deixá-lo ir para lá!” Você tem mesmo que ir? — gritou para o irmão na cozinha.
— Tenho — Ethan respondeu, voltando. — Isso vale 30% da nota final de praticamente todas as matérias, exceto as exatas. — Ajoelhou-se no chão frio e pegou os maiores pedaços de vidro quebrado, separando-os do resto. Começou a limpar o líquido borbulhante com um pano branco, levando consigo os pedaços menores. Quando este já estava encharcado, usou outro para absorver o resto. Depois esfregou a área manchada com um terceiro pano. Então olhou para Nick e franziu as sobrancelhas. — Aliás, seria legal visitar a cidade onde vivemos por 14 anos. Por quê?
— Se você tivesse um atestado médico não precisaria ir, não é? Isto é, não precisaria ir e não teria prejuízo na nota, certo?
— Bom, sim… mas se eu não for, vão dar outro jeito de cobrir os 30% restantes com algo bem mais chato que a excursão. E eu realmente quero ir a Castellobranco. — Ethan se levantou e voltou à cozinha, levando os cacos de vidro. — Quero ver a casa onde nós moramos.
— NÃO! — Nick berrou.
— Qual o problema?
— EU NÃO…! — Começou a chorar e a soluçar. — Eu não quero que você vá. Quero que fique comigo. Ethan… por favor.
— Nick… — Ethan se ajoelhou em frente ao menor, colocando as mãos em suas coxas e olhando fundo em seus olhos pretos e encharcados. — Você quer vir comigo?
Ele enxugou as lágrimas que desciam descontroladamente pelo rosto pálido com as costas da mão, parecendo uma criança.
— Mas eu… eu poderia?
— Sim, claro. Bem, nós vamos ficar 3 dias lá, num hotel. Eu posso dar um jeito de você ficar num quarto ao lado do meu. O que você acha?
— Não é exatamente o que eu queria…
— Eu sei, mas eu preciso ir. — E Nick sabia, pela voz de Ethan, que ele estava decidido e que não mudaria de ideia.
Então a não ser que Nick adoecesse horrivelmente, Ethan iria.
— Tudo bem então.
— Ótimo. — Ele pegou os dois pratos vazios e levou-os a cozinha. Nick ficou ainda sentado à mesa, inconformado e frustrado.
— “Não acredito que as lágrimas não funcionaram. Elas convencem qualquer um!”
Nick não dormiu o resto da noite. Ficou se revirando na cama, os pensamentos cheios de perguntas que nunca seriam respondidas. Não queria dormir, sabia que se o fizesse, sonharia. E se sonhasse, acordaria com o peito queimando pela sensação de culpa. Porque era ele o verdadeiro culpado.
Finalmente adormeceu lá pelas 4 da manhã, acordando uma hora e meia depois. Depois de ter ameaçado Ethan e forçá-lo a ficar em casa, caminhou até a escola. Caminhou não, correu.
Chegou antes de o sinal tocar e correu para a sala de Amy Bellafonte.
— Você já sabe? — indagou arfando, sentando-se numa carteira vazia para recuperar o fôlego. Amy, que estava com a cabeça abaixada, olhou indagativamente para o menor e uma luz de compreensão surgiu em seus olhos.
— Sobre a excursão? Sei sim. Tem algum plano em mente?
— Não sei — disse. — Que tal eu me jogar da escada e quebrar as duas pernas? Ele vai ter que ficar comigo no hospital e ainda vou ficar sem ir à escola. — E o pior era que, pela expressão dele, Amy percebeu que ele estava falando sério.
— Não se ficar paraplégico — ela retorquiu suavemente. — Tenha calma, vamos dar um jeito de contornar isso. Talvez ele não se lembre do que aconteceu lá.
— Mas ele quer ver a casa onde moramos! Ele morou lá por 14 anos, pelo amor de Deus. Ele vai se lembrar de alguma coisa!
— Vocês moraram lá por algum tempo depois do que aconteceu, não moraram? E ele nunca se lembrou de nada.
— É diferente — respondeu. — Ele estava em estado de choque, agora está bem melhor. E se ele quiser ver a nossa antiga escola? E se ele encontrar alguém conhecido? Meu Deus. — Nick estava ficando histérico.
— Nicholas, olha pra mim. Você sabe como ele é cabeça-dura, ele não vai mudar de ideia sobre ir, então convencê-lo a não ir é inútil. Por que não vai com ele?
— Ele disse que eu posso ir.
— Então vá. Vá e cuide para que ele não se lembre de nada.
Nick fungou e deixou a cabeça abaixada. Amy não precisou perguntar para saber que ele estava chorando.
— Eu pensei que isso nunca aconteceria — murmurou com a voz embargada. — Por que Castellobranco? Por que não outra cidade?
Então Amy segurou o delicado rosto do menor com as duas mãos e fez o que ele nunca esperou que ela fizesse. Deu-lhe um selinho nos lábios.
— Porque é assim que tem que ser. Manda isso para o seu irmão — disse.
OoO
Castellobranco era uma cidade a pouco mais de 160 km de Middleland. Era um pouco menor que esta última, sendo uma das cidades mais verdes do país. Não tinha grandes indústrias, mas tinha vários parques naturais. O maior atrativo dela era que quase sempre fazia sol, mas o ar era sempre frio. Nick conseguiu se lembrar de tudo isso enquanto olhava para a janela do quarto 6.002 do vigésimo quarto andar do hotel Mandalay.
— Que espécie de nome é esse? — Nick indagara a Ethan.
— Sei lá. Esse hotel pertencia à Kruger-Vorheel, sabia?
— Não. É estranho olhar para a nossa cidade-natal hoje. Ela parecia bem maior antes de nos mudarmos para Middleland.
— Nick, só faz 2 anos que saímos.
— Mesmo assim.
— Eu gostaria de ter ficado aqui — Ethan disse, se debruçando no parapeito da espaçosa varanda. — É muito mais bonita que Middleland. Nunca entendi direito por que saímos. Quer dizer, um dia nossos pais chegaram e disseram que íamos nos mudar… sem motivo algum.
— Ah, pois é. “Eu só preciso te manter longe daquela casa.”
Nick estava bizarramente calado. Isso não era normal, considerando que ele não conseguia sequer ficar sentado no mesmo local por muito tempo sem começar a ficar agitado. Mas ele estava ali, olhando pela janela calmamente, um olhar estranho estampado no rosto. Como uma mistura de concentração e… medo. Ou talvez não medo, algo como aflição.
— Tem algum problema? — perguntou.
— O quê? — perguntou distraidamente, ainda olhando pela janela.
— Perguntei se há algum problema. Você anda tão calado.
— Ah… não, não há nenhum problema. “É só não irmos lá, só não irmos lá e tudo ficará bem.”
— Que bom, porque amanhã eu vou à nossa antiga casa. Pode ir comigo, se quiser.
OoO
Ele estava nervoso.
Não, nervoso era eufemismo. Nick acordou aquela manhã tão trêmulo que mal conseguia se sustentar com as próprias pernas, tanto que não sabia como não caíra de joelhos quando pulou da cama. Não tomou café-da-manhã e um ronco incômodo começava a se apossar de seu estômago.
Por outro lado, o caminho do hotel Mandalay até a casa antiga da família Lemnsack Hentz foi deveras agradável. Nick ainda se lembrava de cada esquina, de cada caixa de correio e gramado bem aparado de seu antigo bairro. Como não podia deixar de ser, era de classe média alta, embora a impressão fosse de ser bem mais abastado. Uma rua pequena com casas de um e dois andares de boa aparência e árvores verdes como a grama depois da chuva, tão verdes que pareciam brilhar, que apossavam os dois lados da rua, enchendo as calçadas de folhas caídas e frutos minúsculos e alaranjados que Nick nunca descobrira o que eram. Não reconheceu quase ninguém que viu nas calçadas pela janela do táxi.
“Depois do que aconteceu, todo mundo deve ter se mudado. É incrível que esse bairro continue tão valorizado.”
Passaram por uma simpática casa de três andares feita quase que inteiramente de tijolos amarelos com 6 varandas na frente e Nick sentiu um calafrio. Não era originalmente uma casa, era um prédio adaptado para ser uma casa, mas exalava um ar de agradabilidade. Um bonito jardim florido ocupava sua fachada, assim como uma placa de “À Venda”. Certificou-se de que Ethan não a veria e ele não viu. Estava olhando para o lado oposto da rua.
A rua em si se chamava Boulevard e era sem saída. A antiga casa onde os irmãos nasceram e moraram por 14 e 11 anos ficava logo em seu fim, que era de formato circular, permitindo aos casos fazerem a volta. Uma fonte d’água com cupidos gordinhos cuspindo água estava prostrada bem em seu meio.
Então eles a viram. Uma construção cor de vinho, com dois andares e o térreo. Um gramado agressivamente verde com uma calçada revestida de lajotas quadradas e amarelas dava as boas-vindas aos visitantes. Não era possível ver, mas, como Ethan e Nick sabiam, havia uma piscina nos fundos da casa. A porta da frente, uma grossa tábua de madeira entalhada de quase dois metros, erguia-se imponente.
Ethan lembrou-se da Porta. Da Porta de seu sonho e teve uma profunda sensação de desconforto.
Uma placa de “À Venda” estava fixada no gramado.
— Não entendo porque nunca conseguiram vender essa casa — Ethan disse. — Ela é tão bonita.
— “Eu entendo. Eu também não compraria.” Talvez ela seja muito cara.
— Pelo menos poderemos entrar. Vamos?
— Ah… vá você primeiro… eu vou ficar aqui… por enquanto — Nick disse, observando fixamente as redondezas do bairro, principalmente a fonte d’água de pedra.
— Tudo bem — Ethan disse, e entrou.
Ele sentia saudades dali. Apesar de não poder ir à escola andando, sentia saudades daquele clima tão estranhamente agradável, daquela aura de paz e tranquilidade que parecia estar sempre tomando Castellobranco. Sentia falta daquele contraste agressivamente grande de sair de um bairro nobre e já ir direto a periferia, para depois entrar numa rua em cada esquina tinha um hotel de luxo.
Não era uma coisa boa, mas sentia falta disso.
— Melhor eu entrar — murmurou.
Vazio. Foi essa a sensação que Nick sentiu ao entrar na casa. Abandonada, sem alma, nem essência. Parecia até obsceno estar ali, observando as paredes de pedra nuas, a lareira de tijolos vermelhos, a escada que já lhe proporcionou tantos acidentes. Possuía uma pequena cicatriz no joelho esquerdo, originada numa queda, e irremediavelmente levou sua mão até lá.
Ethan estava em frente à lareira, sentado de pernas cruzadas, observando-a avidamente. Suas sobrancelhas estavam franzidas. Nick se lembrou de que da última vez que o vira lá, naquela posição, ele estava com um olhar vago e com um braço enfaixado, observando não a lareira em si, mas o fogo crepitando.
Sentou-se ao lado dele, cruzando as pernas.
— Esse lugar me dá uma sensação estranha — Ethan disse.
— Em mim também… é como se aqui tivesse deixado de ser nosso lar e passado a ser só uma casa.
— Acho que é algo assim… ou não. Não sei como explicar, eu sinto como se eu tivesse que voltar aqui, mas no fundo não quisesse.
Ethan se levantou e caminhou aos fundos da casa. Passou por um corredor e abriu uma porta, revelando o jardim. A grama verde e bem aparada assim como o gramado da frente estendia-se por cerca de 18 metros de comprimento. Uma trilha de pedras levava a cerca de madeira marrom clara. Havia arbustos floridos por toda parte, uma pesada mesa de jardim de pedra com quatro cadeiras. A piscina estava vazia, podendo-se ver o buraco retangular revestido de lajotas azuis claras. Não era possível ver nas atuais condições, mas ela tinha hidromassagem e luzes subaquáticas.
Ethan sentou-se numa das cadeias da mesa de pedra. Nick percebeu que estava começando a tremer.
— Ethan, vamos embora. Não me sinto bem aqui.
Ethan sabia como ele se sentia, ou pensava que sabia. Reminiscências atazanavam-lhe a mente, tomando-a como as rédeas de um cavalo. As últimas lembranças que tinha da casa estavam apagadas e opacas, como se ele não tivesse estado ali, e sim sabido delas por outra pessoa. Era estranho.
E aquela sensação. Não havia como descrevê-la, simplesmente. Mas sabia que era a mesma sensação que sentia no sonho. Naquele plano branco, pouco antes de atravessar a Porta. A diferença é que, naquele momento, ele já a havia atravessado.
— Certo, vamos embora.
Nick deu um sutil suspiro de alívio. Se Ethan percebeu, não demonstrou.
OoO
Ele estava com medo.
Há muito ele havia passado pela Porta e as Pessoas haviam sumido, deixando apenas Ele ali, o corpo machucado e agonizando pela morte. E ele era obrigado a assisti-Lo sofrendo, sem, no entanto, poder fazer nada. Estava atado por cordas invisíveis que o machucavam. O medo o dominava, o desespero, cenas desconexas e horríveis povoando-lhe a mente como abelhas numa colmeia.
Então aconteceu uma coisa que nunca acontecera antes. Ele falou.
Não falou com a voz, falou com a mente. Ele podia ouvi-Lo dentro de sua cabeça, falando coisas impronunciáveis que não entendia. Então, como um acaso, todas tomaram forma e a pergunta agressiva e ardente surgiu.
Quem sou eu?
Ele piscou os olhos, olhando o corpo inerte em sua frente, Ele havia aberto os olhos, os olhos azuis e perfeitos.
Quem sou eu?
E ele não sabia responder. A pergunta martelava violentamente sua mente, ansiando uma resposta.
Quem sou eu? Ethan, quem sou eu? Quem sou eu?
E ele gritou. Gritou, gritou e gritou até não poder mais. E não ouviu sua voz porque ela não existia.
quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu
Ethan acordou e percebeu que realmente estava gritando. O pensamento inicial foi de que estava acordado, o segundo foi questionar-se se isso realmente era um alívio. O terceiro foi agradecer a si mesmo por estar no quarto de Nick. O quarto foi estranhar o porquê de ele não estar assustado com o fato de ter acordado gritando.
— Teve um pesadelo? — perguntou, quase que suavemente.
Ethan tentou responder, até que percebeu que sua garganta estava demasiadamente seca. Nick deu-lhe um copo com água já morna, mas que ele bebeu sofregamente.
— S-Sim. — E Nicholas não pediu para ele explicar o que era, não perguntou se foi assustador, porque obviamente foi, mas seria de praxe. Não pediu para ele ter calma, porque não ficaria calmo. Sequer pediu para ele voltar a dormir.
Apenas recostou sua cabeça em seu peito e acariciou seu cabelo negro. Ficaram assim por alguns minutos e então Ethan soltou o choro do peito.
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