Notas iniciais
Penúltimo capítulo da temporada.

A viagem a Castellobranco havia terminado e Ethan e Nick, voltado a Middleland. Depois da noite em que Ethan acordara gritando no quarto do hotel, ele contara a Nick sobre o sonho. O menor ouvira tudo com um silêncio inquietante. Ao final de seu relato, Ethan perguntara-lhe o que ele achava que significavam os constantes pesadelos. Mas Nick não dissera nada. Apenas dera de ombros e dissera que podia ser qualquer coisa, e que passaria logo.

Mas Ethan conhecia o irmão bem demais para acreditar que ele realmente achava isso. Ele não ficou apenas assustado com o fato de estar tendo aquele sonho, ficou abalado. E Ethan desconfiava que não era porque era um pesadelo assustador, mas porque era aquele pesadelo assustador. Havia um turbilhão de pensamentos e sentimentos na cabeça de Nicholas Hentz, Ethan apenas não sabia o que eram, não sabia o que o irmão estava escondendo dele. Porque ele estava. Disso tinha certeza.

Um sentimento de paranoia começou a abordá-lo. Todas as noites, antes de dormir, enquanto se preparava psicologicamente para os horrores que encontraria nas camadas mais profundas e esquecidas de sua mente, olhava para o loiro já adormecido ao seu lado e imaginava o que ele sabia. Imaginava se ele sabia por que estava tendo aqueles pesadelos e se sabia como o afetavam negativamente. A reação dele ao relato de Ethan fora tão suave. Como se não desse a mínima.

E isso era um dilema. A frequente sensação que Ethan tinha de que Nick sabia de algo se interpunha entre outra sensação de que ele não se importava com o que estava acontecendo. “Devo estar realmente ficando louco”, pensou, “jogando a culpa em Nick por algo que ele nem entende.” É claro que a raiva veio, motivada pela ignorância do outro. Mas se dissipou quando Ethan lembrou que preferiu deixar o irmão ignorante em relação ao que andava sentindo há semanas.

Todas as noites, em seu pesadelo, a mesma coisa se repetia.

quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu

quem sou eu

quem sou eu

quem sou eu

Ethan, Ethan.

quem sou eu

E Ethan não sabia. Não sabia quem Ele era. Sentia que a resposta estava lá, enfurnada em sua mente, na ponta de sua língua, mas não a encontrava, estava coberta de milhões de anos de escuridão e reminiscências. E aqueles olhos, aqueles olhos azuis que pareciam arder em chamas quando a pergunta martelava seu crânio com uma violência épica. Queria saber, queria saber quem Ele era. Mas ninguém lhe dizia.

No entanto, a sensação terrível que sentia quando passava pela Porta passou a diminuir quando as Pessoas terminavam seu trabalho, até praticamente se dissipar depois disso, restando nada além daquela criatura loura e translúcida em posição fetal, fitando-o com um olhar que simplesmente não conseguia descrever o que queria passar. Foi num dia em que o menino finalmente Se levantou que descobriu. Tudo. Queriam passar tudo. Queriam dizer tudo a ele e, Ethan percebeu, queriam dar-lhe a resposta da pergunta.

Foi no dia em que o menino ergueu o próprio corpo machucado que Ethan percebeu que era a criatura mais bela que já vira na vida.

Alguém tão perfeito em sua própria existência. Tão magnífico. Pegou-se querendo realmente saber quem ele era. E a pergunta continuava.

Quem sou eu? Quem sou eu?

E continuava.

Quem sou eu?

Ethan, quem sou eu?

quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu

OoO

Era incrível como as pessoas tinham segredos.

Nicholas Hentz imaginava o quanto sabia sobre pessoas que mal conhecia, sentado no chão do Espaço logo após terminar as aulas. Ethan ainda demoraria quase uma hora para sair, de modo que tinha que esperar. E não estava com saco para nenhuma garota, tendo dispensado todas.

Olhou para um canto mais afastado do Espaço um menino e uma menina se beijando apaixonadamente.

“Ela o traiu na própria festa de aniversário com o primo dele e o pai dele sonega impostos.”

No outro extremo do lugar, um menino do terceiro ano dava uma caixinha com brincos de brilhantes para uma menina que aparentava ter a mesma idade.

“Os pais deles estão falidos e vêm desviando fundos da organização caridosa deles para se sustentarem. A mãe dela abortou a segunda filha que teve.”

Um grupo de três meninos conversando noutro lugar.

“Eles já fizeram uma orgia com a Daniella Schultz. Pena que ela foi expulsa.”

“Ela estragou o casamento da mãe dela só porque o cara não era rico.”

“Ele faz strip-tease na webcam.”

“É a garota mais gostosa do segundo ano, mas tem silicone.”

“Fez plástica no nariz.”

“Roubou dinheiro e joias do cofre dos pais.”

“Engravidou a empregada e a obrigou a abortar.”

“Levou a empresa do padrasto à falência de propósito.”

“É viciado em maconha.”

Fofocas e intrigas. Segredos sussurrados indevidamente na calada na noite, unidos num suspiro, numa súplica, num orgasmo. Nick adquirira um conhecimento monstruosamente grande sobre pequenos fatos que destruiriam a vida de qualquer um se chegassem às mãos erradas, guardados a sete chaves. É, era incrível como as pessoas tinham segredos. O mais irônico era que ele próprio tinha segredos. Sim, tinha. Enfiou a cabeça entre os joelhos, massageando as têmporas.

Ethan estava sofrendo. Mas contar-lhe a verdade só dobraria seu sofrimento. Nick também era acometido por pesadelos todos os dias desde que Amy lhe contara sobre seu irmão, mas pioraram quando o próprio Ethan admitiu.

E só ele e Amy sabiam a verdade. Amy sabia porque Nick havia contado, porque precisava desabafar, liberar a verdade e ver a reação dela. Era sobre algo que ele havia feito, algo tão terrível e egoísta, algo que tinha de esconder de Ethan, que tinha de impedir que ele se lembrasse. Sabia que um dia os sonhos viriam, todos os psicólogos disseram isso. Pensava que conseguiria lidar com eles quando isso acontecesse, mas estava errado. Não estava conseguindo suportar tudo sozinho. Não dava para se deitar à noite e ter uma boa noite de sono sabendo que Ethan seria torturado mentalmente por um velho fantasma que insistia em ressurgir das cinzas como uma fênix.

Sentia pena dele. Sentia pena dele e de si mesmo, e se odiava por isso.

Nick levantou-se do chão sujo e caminhou em direção a Gabriel Melnick. Ele estava sentado no banco em que Ethan costumava sentar, perto do Espaço. Estava com um livro nas mãos e fones de ouvido. Nick se aproximou lenta e sorrateiramente como um gato e jogou-se pesadamente no banco. Sorriu gentilmente.

— Oi, tudo bem? — cumprimentou sorridente.

Gabriel olhou de soslaio para o loiro, levantando as sobrancelhas ao ver aquele garoto baixinho que tanto detestava simplesmente chegar nele e começar a falar, como nunca tivera coragem de fazer com Ethan.

— Sim — disse, voltando o olhar ao livro.

Nick permaneceu alguns segundos olhando fixamente para Gabriel, que o ignorava como se simplesmente não estivesse ali, em silêncio. “Ele não gosta de mim. Por que será?”

— Eu também estou bem — Nick disse incisivo. O garoto continuou ignorando-o. Perdeu a paciência. — Você está me irritando. Eu sei que você gosta do Ethan.

Nick experimentou a deliciosa sensação de ver sua irritação sendo substituída por divertimento e malícia, vendo Gabriel arregalar os olhos, fechar o livro bruscamente e arrancar os fones de ouvido, piscando várias vezes, estupefato demais para encontrar a própria voz.

— O-o quê? — balbuciou.

— É isso mesmo. — Ainda estava sorrindo. — Eu sei que você gosta dele e… — Deu de ombros, se distraindo com uma das roseiras dali de perto — acho que ele também gosta de você.

— Eu… eu não sei do que você está falando. Não sei. — Gabriel começou a guardar o livro dentro da mochila e fez a menção de levantar, mas Nick segurou seu braço e o forçou a se sentar novamente.

— Pois eu acho que sabe sim. — Olhou fixamente para os olhos verdes do menino. Deixou a irritação voltar a tomar conta de si. — E ele também gosta de você, cacete. Não sei se você percebeu, mas eu não tenho nada contra isso. E embora você claramente não goste de mim por um motivo que eu não sei, já que eu nunca falei com você na vida, eu sei que você gosta sinceramente dele. To certo ou errado?

— Eu… eu não…

— Se você disser que eu to errado, vou embora daqui agora mesmo e vou fazer com que ele nunca mais fale com você. Acredite, eu posso fazer isso. — Nick viu a expressão temerosa do maior. Aquilo estava sendo mais divertido do que parecera que seria. — Se você disser que eu estou certo, vou te dizer como fazê-lo gostar muito de você. De novo, acredite, eu posso fazer isso. Eu sou o irmãozinho adorável dele que ele tanto ama. E aí? Escolhe o quê?

Gabriel baixou a cabeça, apertando os punhos distraidamente. Nick imaginou que, naquele momento, ele adoraria o estar estrangulando.

— Você está certo — disse num tom quase inaudível.

— Ótimo. — Sorriu, sentando-se preguiçosamente no banco, cruzando os braços atrás da cabeça. — Então. O negócio é o seguinte: a questão é que o Ethan morre de medo de ter algo com qualquer pessoa porque ele nunca passou por isso antes. O que eu vou fazer é forçá-lo a isso.

— Como? — indagou.

— Vou pedir a umas duas meninas aleatórias para virem falar com ele. Antes de elas chegaram, eu vou dizer ele que elas querem conversar com porque gostam dele. Ele vai querer me matar e vai ficar nervoso. Então eu vou sair e você entra. — Nick começou a falar num tom mais baixo com excitação, seus olhos pretos tremeluzindo. — Como ele obviamente vai aparentar estar nervoso, você vai perguntar o que ele tem. Ele vai responder, se não responder, faça-o responder. A partir daí, vou fazer as meninas começaram a caminhar em direção a este banco, que é aonde ele vai se sentar. Você vai sugerir uma ideia para fazer com elas mudem de ideia. A esse ponto, ele vai estar tão desesperado que vai aceitar sem nem perguntar o que é. Então você vai beijá-lo.

A reação dele foi melhor do que Nick esperava. Simplesmente sorriu debochadamente como se não pudesse acreditar no que estava ouvindo, passou a mão pelo cabelo e disse:

— Que foi que você disse?

— Isso mesmo, você vai beijá-lo onde mais lhe convém. Isso vai depender de para onde o rosto dele estiver virado, mas pode ser na bochecha ou na boca. — Deu de ombros. — Essa será a deixa para as garotas irem embora, indicando que sua fabulosa sugestão deu certo — disse sarcasticamente.

Gabriel deu uma risadinha de escárnio.

— Você é louco.

— Sou sim. — Nick praticamente jogou o corpo contra o do maior, prensando-o contra o banco, falando num tom baixo e duro. — E você vai fazer exatamente o que eu disse para você fazer. Porque se não fizer, pode se esquecer de ter alguma chance de ter algo com ele algum dia. Você não faz nem ideia do poder de influência que eu tenho sobre o Ethan. — Voltou a sentar-se normalmente, sorrindo. — Eu to te dando uma chance de ouro, o Ethan é a pessoa mais rica da Alphonse Enoi e é a única que não vai perguntar seu sobrenome antes do seu nome, Melnick. — Levantou-se no exato momento em que o sinal tocou, indicando que a última aula de Ethan havia acabado, dizendo severamente: — Faça o que eu disse ou vai se arrepender. Um dia, você vai me agradecer.

E partiu dali, deixando Gabriel no mesmo lugar.

“Ah, pelo amor de Deus, ele é louco”, pensou. Não podia simplesmente chegar numa pessoa com quem conversara apenas uma vez e beijá-la. Ethan iria… não, a verdade é que não sabia como Ethan reagiria. E tinha que admitir que Nicholas o conhecia melhor do que ninguém, provavelmente tudo o que ele dissera que Ethan faria, ele faria. Se seu plano desse certo mesmo, isso seria ótimo. Mas e se desse errado?

Não tinha mais tempo de pensar. Ethan estava vindo em direção ao banco. Gabriel pegou sua mochila e levantou-se dali rapidamente, escondendo-se numa brecha que havia perto do Espaço, onde Ethan não o veria. Aquilo tudo era loucura, não sabia por que estava seguindo as ordens de Nicholas. Não, sabia sim. Ou fazia aquilo ou Ethan nunca mais falaria com ele.

Viu Nick se aproximando de Ethan e beijando-lhe a bochecha.

— Como vai? — o menor perguntou. Viu as olheiras no rosto do irmão, a resposta da pergunta era evidente.

— Vou bem — Ethan respondeu, beijando a bochecha de Nick. — E você?

— Também. Sabia que eu conheço duas meninas que gostam de você? — indagou alegremente.

— Aham, sei.

— Não, é sério, elas gostam. Aliás, estão vindo falar isso pra você agora mesmo.

Ethan demorou cerca de três segundos para processar o que Nick havia dito, fitando os olhos idênticos aos seus à procura de alguma centelha de brincadeira. Quando não encontrou, quase apertou o pescoço do menor.

— O QUÊ?!

— É isso mesmo. Que legal, não é?

— LEGAL?! — Baixou o tom de voz para um sussurro áspero. — Como é que você pode dizer que isso é legal?! O que você espera que eu faça?!

— Sei lá. — Deu de ombros. — Vou deixar você sozinho, elas estão vindo. — Fez menção de se levantar, mas, como esperava, foi puxado bruscamente de volta. — Vai com calma.

— Nicholas! Pelo amor de…! Como é que você pode fazer isso comigo?!

— Mas como assim? — indagou ingenuamente. — Pensei que estivesse te fazendo um favor.

— Um favor?! UM FAVOR?!

— Aham. Vai fundo, garotão. Olha, elas estão bem ali. Tchauzinho. — Pulou do banco e correu dali antes que Ethan o pegasse de novo. Nick sabia que ele não se levantaria para ir embora porque não o faria sem ele.

O resto agora era com Gabriel Melnick.

Na brecha de onde Gabriel assistira a teatral encenação de Nicholas, ele estava num dilema violento. O desespero estava estampado no rosto de Ethan. Era fácil, bastava ir lá e fazer o que devia ser feito. Se não o fizesse, perderia o garoto para sempre, Nicholas deixara isso bem claro. E Gabriel realmente duvidava de que ele estivesse mentindo.

“Você fez isso uma vez, você pode fazer de novo. Vai lá, caramba, faz o que você tem que fazer. Elas estão vindo, tenho que andar rápido.” Respirou fundo e aproximou-se do banco, sentando-se ao lado de Ethan.

— Oi, como vai? — perguntou, sorrindo.

— Ah, oi, Gabriel. Eu… vou bem.

— Tem certeza? Você parece estar… não sei, desesperado. — As meninas estavam cada vez mais próximas.

— Ah, não é nada, deixa isso pra lá. — “Não é nada o cacete.”

— É sim, eu to vendo isso. — Começou a se sentir aflito, se não se apressasse, não daria tempo. — Vai, me fala o porquê desse desespero.

— Eu não quero te incomodar com isso. — “Você me incomoda só existindo.”

— Eu não me importo, Ethan. Anda, fala. — Elas estavam a apenas uns dez metros do banco. — Anda, pelo amor de Deus, fala logo!

— Ah… é que… meu irmão me disse que aquelas meninas ali perto gostam de mim e agora elas estão vindo aqui me dizer isso e eu estou desesperado porque não sei lidar com essa situação. — Ele estava arfando. “Vai, é agora.”

— Bem… eu tenho uma solução pra isso, mas…

— Tem? Ok, eu aceito qualquer coisa para…

Foi muito rápido. Antes de Ethan terminar a frase, ainda com o rosto virado para Gabriel, este se impulsionou para frente e tocou seus lábios recém-umedecidos nos de Ethan levemente. Não sabia quando tempo durou, mas pareceu um ano. Uma corrente de excitação atravessou-lhe o corpo como eletricidade, ele se sentiu estremecendo. Parecia estar tendo um orgasmo. Não, era melhor que um orgasmo. Estava beijando Ethan Lemnsack e a sensação era indescritivelmente melhor.

As meninas entenderam a deixa e deram meia-volta, dirigindo-se ao Espaço.

Gabriel se separou de Ethan. Ambos arfavam suavemente e estavam com os rostos ruborizados. Um sorriso bobo se formara nos lábios dos dois, ainda que nenhum deles percebesse isso.

— Acho… — Gabriel sussurrou — que funcionou.

Ethan se virou para o outro lado e viu que as meninas haviam desaparecido. Quando virou o rosto de volta, viu que ele sorria envergonhado, mas certamente agradecido.

Nicholas estava certo. “Ponto para ele.”

— Sim… — Ethan murmurou — funcionou sim. Ainda que não do jeito que eu esperava. — Deu uma risadinha. Nesse momento, Nicholas surgiu do Espaço e com uma grande cara de inocência e disse a Ethan, ignorando Gabriel:

— E então, como foi?

Ethan apenas sorriu e disse:

— Foi ótimo.

Nick deu um ingênuo sorriso e falou:

— Maravilhoso. Olha, eu não vou pra casa agora, vou ter que ficar aqui pela tarde. Depois eu prometo que pego um táxi, tá bom? — O olhar dele era tão cínico, mas tão bem disfarçado. “Ele seria um ótimo ator”, Gabriel pensou.

— Tudo bem então — Ethan disse levantando-se. Deu um beijo na bochecha do irmão e dirigiu-se ao portão de saída, mas não sem antes dar uma última virada e piscar um olho para Gabriel que só conseguiu sorrir e corar em resposta.

— E então — Nicholas disse assim que Ethan saiu de vista, sentando-se no banco —, deu certo?

— Deu — murmurou Gabriel em resposta —, deu sim.

— É claro que deu — Nick sorriu. — Foi ideia minha, tinha que dar certo. Agora vocês dois vão iniciar um relacionamento e serão felizes para sempre.

— Ei, vai com calma.

— Meu filho, você o beijou. Você nem sabe o que um beijo pode acarretar. Quem sabe um dia eu até te conte sobre o Oliver — Nick disse sombriamente. Por um segundo, Gabriel percebeu, por um décimo de segundo, seus olhos pretos encheram-se de pânico, como se tivesse dito algo que não deveria. Mas sua expressão logo voltou a ser radiante e ele se levantou, dirigindo-se ao Espaço. — Já vou agora.

— Para onde? — perguntou.

— Você acha que aquelas meninas fizeram esse favor pra mim de graça? — Já estava quase saindo de vista. — Eu tive que vender meu corpo a elas. — Entrou no Espaço.

Gabriel ficou sentado no banco, pensando. Nick realmente gostava do irmão, e sabia que não fazia nem ideia do quanto. Praticamente se prostituiu para fazer com que ele tivesse um bom momento com Ethan, e não parecia arrependido. Talvez em baixo de tanta arrogância e infantilidade, Nicholas realmente fosse uma pessoa boa. Quem sabe Ethan não fosse tão ignorante quanto a real personalidade do irmão, pelo contrário, talvez soubesse até demais sobre ela. Sim, tudo dera certo e estava feliz com aquilo. Só uma coisa o inquietava. Uma pergunta, ardente e agressiva presa em sua mente como um felino enjaulado.

Quem era Oliver?

OoO

Foi como um choque. Uma sensação eletrizante que percorrera-lhe todo o corpo e fundira-se à sua alma. Foi incrível. Sentir os lábios recém-umedecidos de Gabriel colados aos seus e ao mesmo tempo seus corpos quentes e pulsantes ligados havia sido indescritível. Ethan nunca sentira nada assim antes. Nem quando fazia amor com Nick. Foi algo diferente. Foi quente, selvagem, elétrico. E diria que, pelas feições de Gabriel, ele realmente quase tivera um orgasmo.

Ethan não sabia por que, mas o caminho de volta pra casa parecia relativamente mais bonito.

Os dias que se seguiram ao beijo dos dois foram interessantes. Ethan e Gabriel começaram a conversar quase todo dia e, mesmo que sem o conhecimento do primeiro, foram ajudados por Nick. Ele estava bancando o cupido para alguém que amava mais que a própria vida. Ethan parara de falar sobre os sonhos, embora Nick tivesse a certeza de que ela ainda os tinha. Mas dava-lhe gosto ver o irmão e Gabriel conversando tão amigavelmente todo dia, ao final das aulas.

Um dia, sem aviso prévio nenhum, Ethan chegou à escola e quando Gabriel estendeu a mão para cumprimentá-lo, ele o beijou.

O boato de que a pessoa mais rica da Academia Alphonse Enoi estava namorando um garoto, e pior, um garoto que não era nada mais que filho de uma professora, alastrou-se como cacos de vidro se estraçalhando. Como não podia deixar de ser, ninguém nunca falava na cara nem de Ethan nem de Gabriel por medo do mais velho, mas Nick agora era mais assediado do que nunca. Era obrigado a ouvir comentários monstruosamente ofensivos praticamente todo dia. Não conseguia mais dar em cima de quem quisesse a hora que quisesse, seus antigos amigos começaram a se afastar de si. Até Esther Muffin parecia estar pior com ele, assim como alguns outros professores. Aqueles que nutriam um ódio enraizado sem sentido e que não podiam expressá-lo na frente de Ethan acabavam por descontá-lo no irmão dele.

Mas Nick aguentava tudo como uma penitência. Achava que, depois do que fizera a Ethan há cerca de dois anos, quando ainda moravam em Castellobranco, o que estava sofrendo agora não era nada comparado ao quanto Ethan sofrera e ainda sofria. Os sonhos estavam lá, machucando, violentando sua mente com perguntas sem resposta, enchendo-a de imagens horrendas sobre um passado que não deveria se lembrar. Sobre uma pessoa morta que deveria continuar morta para sempre em sua consciência, mas que ressurgira dos mortos e agora amaldiçoava Ethan eternamente.

Nick sabia que só juntou Ethan e Gabriel para que o irmão parasse de sofrer tanto e que assim, talvez, seus sonhos cessassem e não fosse obrigado a contar a verdade, porque isso destruiria seu relacionamento com o irmão e talvez o dele com Gabriel também. E Nick não queria isso. Todo o seu egoísmo tinha um motivo e uma consequência, todas as suas ações, por mais estúpidas que fossem. Não podia deixar Ethan descobrir a verdade por si só, fechar-se ao mundo com ódio de tudo o que o mesmo aprontara-lhe, e deixar Gabriel sem uma mínima ideia do que acontecera. Porque sabia que seria exatamente isso que aconteceria.

Foi assim então que Nicholas Hentz decidiu contar a Gabriel Melnick sobre Oliver.

OoO

Era um dia normal, mas também não era por causa do que Nicholas decidira fazer. As coisas correram bem até o início da tarde, quando, ainda na escola, pediu a Gabriel que fosse a casa dele e de Ethan mais tarde. Seu coração palpitou até o segundo em que ele passou pela porta e se sentou no confortável sofá marrom.

Só se sentira nervoso assim quando contara aquela mesma coisa à Amy.

— E então — disse Gabriel —, por que pediu que eu viesse aqui? Aliás, onde está Ethan?

— Está tirando uma soneca. E ele não sabe que você está aqui. — Nick respondeu. Estalava os dedos freneticamente, a língua presa. “Não vou conseguir, não vou. Não, eu vou sim. Ele não vai me julgar. Ou melhor, vai sim, mas não vai fazer nada quanto a isso.” — Vou te contar uma coisa, Gabriel, mas antes deixe-me deixar uma coisa bem clara a você. Tudo o que eu disser aqui, vai ficar aqui. Só há duas pessoas no mundo que sabem disso e quando eu terminar de contar a você, espero que haja e permaneça três pessoas. Está bem?

— Está bem… — Nicholas estava estranhamente nervoso. — Quem é a outra pessoa?

— É a Amy. Mas isso não importa. Então… — “Por onde começar, meu Deus?” — você sabe que eu e Ethan morávamos em Castellobranco há dois anos, certo?

— Certo, sei sim.

— Então. Há um motivo pelo qual nós nos mudamos. — A partir daí, deixou sua língua se soltar e não a segurou mais. — Há cerca de dois anos, quando eu tinha onze anos e Ethan tinha catorze, antes de nós nos mudarmos para Middleland, Ethan conheceu uma pessoa. Um garoto. O nome dele era Oliver.

— Então esse é o Oliver? E como assim “era”? — indagou Gabriel. Nick ignorou as duas perguntas.

— Oliver Castanelli. Conhece essa família? — Estava começando a falar mais rápido, como se quisesse acabar logo com aquilo.

— Não.

— É claro que não. Ela não é famosa ou importante. Assim como a sua. — Gabriel ignorou o último comentário. — Mas enfim. Ethan teve um relacionamento de três meses com Oliver. — Assim como esperava, Gabriel piscou várias vezes, estupefato.

— Como assim? Ethan me disse que nunca teve nada com ninguém antes de mim.

— É porque ele acha que não teve — respondeu Nick enigmaticamente. — Veja bem… Ethan amava Oliver. Acho que… ele o amava até mais do que a mim. E vice-e-versa. Eles nunca se preocuparam em esconder o relacionamento deles, assim como é com você. Conheceram-se na escola. É incrível a semelhança dele com você, a mãe dele também era professora de lá. Durou três meses… apenas.

— O que aconteceu? Eles terminaram?

— Não. Um dia… — Nick engoliu em seco — eles saíram. Tiveram um encontro, nada demais. E voltaram a pé para casa, à noite. Antes de eles chegarem à rua em que morávamos… eles foram… encurralados. Skinheads. Você deve imaginar. A questão é que… era um grupo de oito pessoas. E eles… eles estupraram e mataram Oliver na frente de Ethan.

Silêncio na sala. Gabriel continuava com a mesma expressão que antes, como que não soubesse o que sentir. Como não falasse nada, Nick continuou.

— Foi isso mesmo que você ouviu. Depois eles o espancaram até que perdesse a consciência. — Um pouco mais de silêncio até que Gabriel falou:

— Por que ele nunca me contou isso?

Nick lambeu os lábios secos e respondeu:

— Por que ele não sabe disso. Ethan ficou em coma durante quase três semanas depois disso e quando acordou… não se lembrava de nada. Isto é, nada relacionado a Oliver. Todas as lembranças que Ethan tinha sobre ele desapareceram como se nunca tivesse existido.

— Ele não… — Gabriel massageava as têmporas, ainda cético, mas no fundo sabendo que tudo aquilo era verdade — ele nunca reparou que há um rombo de três meses na memória dele?

— Não — Nick respondeu. — Porque não há. Não foram três meses que sumiram da memória dele. Foi o Oliver que sumiu. Ethan acordou sem saber da existência dele. Era como se nunca o tivesse conhecido. Nesses três meses, apenas o tempo que eles passaram juntos sumiu. Ele estava com o que chamaram de amnésia psicológica. Ele não se lembrava porque não queria se lembrar.

— Por que você está me contando isso? — perguntou finalmente.

— Há cerca de um mês, Ethan começou a sonhar com isso. Ele sonhava com um garoto louro de olhos azuis sendo machucado por pessoas até que morresse. É a mente dele forçando-o a se lembrar de algo que sua força de vontade não quer. Olha só, acho que essa é a única foto que ainda existe do Oliver. — Nick foi até a estante da sala atulhada de livros, abriu um que se revelou sendo na verdade uma caixa em formato de livro e tirou uma foto retangular amassada e desbotada. Gabriel pegou-a e viu um Ethan dois anos mais novo ao lado de um garoto do exato modo que Nick descreveu, loiro, muito branco e com olhos azuis lindos.

— Esse é o Oliver? — Nick assentiu. — Ele… é a pessoa mais bonita que eu já vi na vida.

— Idem — murmurou. — Enfim… eu queria te contar isso para que você tomasse cuidado em não deixar que ele não se lembrasse de nada e…

— Espera aí — interrompeu Gabriel, desviando o olhar da foto e olhando fixamente para Nick. Ele sabia o que estava por vir. — Como você sabe exatamente do que aconteceu àquela noite?

Gabriel perguntou isso, mas sabia a resposta antes mesmo que Nick abrisse a boca.

— Porque eu estava lá.

— Na gangue — complementou e o menor percebeu um tom acusativo.

— Olha — disse lenta e pausadamente. — Você tem que entender uma coisa. Eu tinha onze anos, eu não tinha merda nenhuma na cabeça. Não tinha uma única opinião própria. Então… quando eu arrumei companhias que começaram a colocar ideias nazistas na minha cabeça, eu não me opus. É, eles sabia onde Ethan estava porque eu contei a eles, mas não sabia o que eles pretendiam fazer! — Percebeu que estava gritando. Forçou-se a baixar o tom de voz para um sussurro sibilante. — Eu estava lá. Com eles. Era só um pirralho que os observava espancarem prostituas e mendigos sem realmente entender por que eles estavam fazendo isso, mas achando divertido. Então eles foram em direção a Ethan e Oliver. Estava escuro, eu estava com eles, mas estava um passo atrás. Foi quando percebi quem eram as duas pessoas que estavam lá… foi só aí que percebi o que eles estavam fazendo. O que eles estavam fazendo com o meu irmão. — Limpou a lágrima que insistia em descer com as costas da mão. — Pelo amor de Deus, quando eu percebi que eram Ethan e Oliver, eu corri dali. — Então disse suavemente: — Mas só depois que vi Oliver caindo morto. Eles o obrigaram a se matar, sabia? Colocaram uma faca na mão dele e apontaram uma arma para o Ethan, e disseram que se ele não fizesse isso, eles o fariam no Ethan. Então… Oliver cortou sua garganta com a faca, de orelha a orelha, sem dar um único grito de dor. Eu corri dali quando reencontrei forças nas pernas. Fui para minha casa. Você não imagina o estado em que eu estava. Um misto de desespero e vontade de me matar. Porque eu sabia que a culpa daquilo tudo era minha. Eu liguei para a polícia e disse o endereço do galpão abandonado que eu sabia que eles se reuniam. Mas eles eram filhos de juízes e policiais, eles não seriam presos porque não havia nenhuma prova concreta de que o que aconteceu era culpa deles, Ethan estava em coma e eu não poderia testemunhar porque eu provavelmente seria morto antes. Então eles saíram livres, apenas foram mandados a outros estados para abafar o caso. Gabriel. — Olhou para o maior, uma súplica nos olhos. — Estou te contando isso porque desde que soube que Ethan vem tendo esse sonho que ele não deve se lembrar, tenho estado um caco. Por saber que a culpa do sonho é minha, por ser tão egoísta a ponto de não contar a verdade a ele porque ele provavelmente vai sentir ódio de mim pelo resto da vida. E não vai ser só de mim. De você e da Amy também. Ele não pode se lembrar disso.

— Então… — Gabriel sorriu cinicamente — está me contando isso para me tornar seu refém.

Nick enxugou o rosto molhado, fitou o rosto de Gabriel e sorriu suavemente, mas os olhos pretos continham puro ódio.

— Estou te contando isso porque você o ama. E se você por acaso contar a ele, ou negar que sabe, eu vou matar você. — Disse entre dentes: — E vou cuidar para que sofra tanto quando ele sofreu àquela noite. Ele tem demônios que precisa exorcizar. Mas não agora. Não dessa forma.

Assistiu com satisfação, a expressão cínica dele tomar um ar mais calmo.

— Então está certo.

Foi nesse momento que eles ouviram um grito aterrador. Do quarto de Ethan.

OoO

Um pouco antes, Ethan estava dormindo. E sonhando.

Estava lá. Estava quase lá, podia sentir isso. Ele havia se levantado, o garoto louro havia se levantado e agora o encarava com aqueles olhos azuis lindos a menos de um metro dEle. Sua boca não se mexia, sequer um músculo de Seu corpo fazia qualquer coisa, mas a pergunta estava lá, em sua mente.

Quem sou eu? Quem sou eu?

E a resposta também. Ethan agora conseguia ver Seu rosto perfeitamente. Sabia que já o tinha visto antes. Todo aquele ser, toda Sua alma e essência tomaram forma. E então tudo virou um só. Ele, as Pessoas, a Porta marrom, o Branco, a dor e o desespero, a tristeza e a culpa, tudo se tornou um só, uma monstruosidade que ainda perguntava uma pergunta que latejava violentamente em sua mente.

quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu quem sou eu

Ethan sentiu-se caindo. Mas estava tudo lá, Ele, as Pessoas e a Porta, o Branco e as Sensações Ruins. Tudo lhe perguntava, tudo exigia-lhe uma resposta. Penetraram dentro de si. Seus machucados abriram-se, as feridas cicatrizadas também e a dor em seu peito aumentou como se fosse toda a dor do mundo. Só que não era toda a dor do mundo. Era a dor dEle. A dor que Ele sentiu por causa das Pessoas. Ethan reconheceu aquela dor. Reconheceu porque já a tivera antes, quando O assistira morrer pela primeira vez em sua vida.

A amnésia foi esmagada pela saudade.

E de repente, ele tinha a resposta.

Quem sou eu? Quem sou eu? Quem sou eu?

Ethan fechou os olhos e deixou-se afogar num mar de lágrimas que ele mesmo estava chorando, entregando-se à resposta de corpo e alma:

Oliver.

As lágrimas o sugaram para seu centro e Ethan sentiu-se sendo comprimido como um líquido compresso, uma agonia excruciante o atravessando como uma faca, as paredes de sua mente o sufocando, lembranças e reminiscências tomando forma, reerguendo-se, tomando seus lugares no universo em que se encontravam, preenchendo o Branco com a alegria e a tristeza dEle e de si próprio. Lembrou-se do pouco tempo em que O conheceu, mas que pareceu ter sido toda uma vida. Lembrou-se da risada dEle e dos dentes brancos perfeitamente alinhados. Lembrou-se do cheiro do cabelo dEle que de tão amarelo quase era branco. Sentiu em seu âmago a sensação do corpo dEle estremecendo sobre si quando os dois tornaram-se um só pela primeira vez. Lembrou-se da eterna alegria que sentiu quando O beijou pela primeira vez. E lembrou-se de como, a partir daí, foi apenas alegria até… até aquela noite. Então a tristeza também surgiu para reivindicar seus direitos. Viu o rosto das Pessoas. Viu também o rosto de Nick, porque sabia que ele estava lá. Lembrou-se daquela sarjeta em que Ele havia sido violentado e assassinado. Lembrou-se daquela noite, da noite de facas e estrelas, de como o céu negro pontilhado de branco ameaçava chover. Lembrou-se de segurar fortemente a mão dEle enquanto voltavam para casa, porque O amava mais do que já amara tudo em sua vida. E depois do medo o tomando quando foram encurralados pelas Pessoas, não por si mesmo, mas por Ele, porque era Ele quem eles queriam. E em como não pode ajudá-Lo. De como teve que observá-Lo sendo forçado a cometer suicídio para que ele próprio não morresse. Lembrou-se da culpa e de seus motivos, da tristeza e do porquê dela, da alegria também, da excitação, do medo, e júbilo, pavor, agonia, ansiedade, humildade, saudade, paixão, amor. Felicidade. Tudo tomou lugar em suas faculdades mentais e se aquietou lá, como deve ser.

Ethan lembrou-se. Lembrou-se de tudo.

Quem sou eu?

Oliver.

Quem sou eu?

Oliver. Você é Oliver.

E então Ele disse:

Por que você não respondeu antes?

E Ethan respondeu:

Porque eu havia me esquecido.

E tudo cessou. Ethan abriu os olhos e percebeu que estava acordado, ou quase isso. Não sabia mais o que era sonho e o que realidade. O que era verdade e o que era mentira. Mas sabia que Nick havia mentido. Seus pais também. Todos haviam mentido. Todos haviam escondido a existência dEle por egoísmo. Não estava melhor sem Ele. Nunca estivera. O vazio em seu peito que constantemente sentia estava finalmente preenchido com a lembrança e havia algo com ela. O ódio surgiu em seu coração como uma semente germinando, e depois a tristeza, os dois lutando como uma quimera, querendo tomar o controle.

— Você é Oliver Castanelli. — E chorou.

O limiar de consciência em que se encontrava explodiu como fogos de artifício e Ethan gritou. Gritou tanto que sua voz se extinguiu. Gritou tanto que sentiu sua alma vibrando. Gritou tanto que pôde jurar que Oliver podia escutar. A última coisa que viu turvamente foi Nick e Gabriel (seriam eles mesmos ou apenas produto de sua mente perturbada?) entrando pela porta que não era a já não mais existente Porta marrom, mas não conseguiu distinguir suas expressões.

E a última coisa que sentiu antes da realidade se desanuviar por completo e entregar-se novamente ao coma foi o ódio nascido há pouco dentro dele tornando-se uma coisa viva e o tomando por completo, expulsando a tristeza e a compaixão.

E depois, nada.