Notas iniciais
Tem surpresa nesse capítulo. :D

“‘Você é… Tudo?’

‘Assim me chamam.’

‘Por quê?’

‘Porque sou a água. Porque meu ser pode se contrair neste tanque ou se expandir para tocar até a última gota do oceano. Porque posso recobrir num instante toda a região dos Líquidos, por debaixo de nossos frágeis solos de cristal. Por isso sou Tudo. E por isso me chamam de Tudo.’

‘Mas você me olha do rosto de uma pessoa. Você foi alguma vez sólido?’

‘Sim, mas permaneci muito tempo neste lugar e Mudei depressa demais. Virei líquido, misturei-me com a água e já não posso Mudar mais. E por isso, dedico grande parte dos meus esforços para manter os túneis de água.’”

(A Imperatriz dos Etéreos

— Laura Gallego Garcia)

OoO

Sonhou com uma voz doce e rouca, mel derramado sobre trovão. Sonhou com olhos tão azuis quanto pedras de gelo e tão brilhantes quanto o sol incidindo contra a neve mais branca e pura. Sonhou com pele branca e bochechas rosadas, com um riso infantil e um suave sorriso de bebê, tudo num corpo tão crescido quanto o dele próprio.

— Vem, é por aqui — ele sussurrou; nunca sussurrava, mas sua voz era tão rouca que aparentava estar sempre sussurrando.

— Para onde está me levando? — perguntou suspeitosamente. Brincadeiras à parte, não se importava para onde estavam indo. O toque dos dedos dele nos seus já era suficiente.

— Para o céu — ele respondeu.

Subiram por uma escada e finalmente chegaram ao telhado. Respirou fundo o ar gelado da noite. Incrustado de estrelas, a abóbada celeste era pano negro, limpo de nuvens, limpo de tudo. A lua era uma moeda de prata no céu, tão próxima que sentia que podia pegá-la com a mão se quisesse. Os olhos dele brilhavam tanto quanto duas lâmpadas, e a fitavam.

— Atire-se para lá — murmurou, observando o astro no céu. — Se errar o alvo, ainda acertará as estrelas.

— Por que estamos aqui? — indagou. Não importava por que estavam, estava com ele. Queria beijar seus lábios carnudos, mordiscar seu pescoço, deitar-se com ele e amá-lo como tanto ansiava.

— Não gosta daqui?

— Gosto de você — respondeu. — Ollie… meu Ollie.

— Seu Ollie — ele sussurrou antes de se desvanecer num véu de Sombras.

Ethan Lemnsack acordou com o toque do telefone do criado-mudo do lado da cama. Tremendo e suando, levantou-se e levou o objeto até o ouvido, esforçando-se para não parecer tão sonolento quanto estava.

— Sim?

Bom dia, com quem falo?

— Ethan Lemnsack.

Senhor Lemnsack, aqui é da Agência Nacional de Aviação Californiana.

Se é nacional, é óbvio que é californiana, Ethan pensou, mas segurou a língua.

Certamente já deve ter tomado conhecimento de que o avião caído ano passado no Atlântico foi achado.

— Sim.

Gostaria de lhe informar que o corpo de seu pai foi identificado.

Ethan sentiu um nó na garganta maior do que qualquer coisa.

— E de minha mãe?

Infelizmente, não encontramos evidências do corpo dela, mas dos quinhentos e doze passageiros, só restaram pouco menos de duzentos.

Comida pelos peixes, pensou com pesar.

Pergunto-lhe se gostaria que enviássemos o corpo para Middleland para reconhecimento. Certamente deve querer realizar a exumação apropriada. Além disso, os pertencer de ambos os seus pais ficaram intocados, poderíamos enviá-los também.

— Sim, sim, é claro. Faça-o, por favor.

Está certo. Será avisado.

— Obrigado.

Tenha um bom dia, senhor Lemnsack.

— Você também.

Ethan desligou o telefone lentamente. Eram seis horas da manhã, que diabos. Levantou-se da cama nu e jogou os cabelos despenteados para trás. Era dia dois de setembro, conforma indicava o calendário, e com o que ele sonhara? Com Oliver.

Constatou assombrado que aquela era a primeira vez que sonhava com Oliver desde… desde o ano passado, quando teve um colapso nervoso. Durante todo aquele tempo, a existência daquela criatura de cabelos platinados e olhos azuis sumira de seus sonhos como se nunca tivesse existido. E de repente, o quê?

— Meu Ollie — sussurrou, permitindo que lentamente as lágrimas escorressem pelo rosto. Matara as Pessoas uma de cada vez, mas mil mortes ainda não seriam suficientes. — Eu sinto tanto a sua falta. Tanto.

OoO

Nicholas Hentz não estava em sua cama quando foi acordado. Estava sentado e suas costas doíam. Com os cabelos despenteados e os olhos semicerrados, Nick levantou-se para olhar a sala de aula, onde todos o fitavam e a professora acabava de chamar sua atenção.

— Nicholas, sabe que não pode dormir na minha aula.

— Se a senhora fizesse um pouco mais de silêncio, talvez eu pudesse — respondeu desafiadoramente. Alguns alunos riram. Ela não foi na dele.

— Quer ir até o quadro e resolver a questão que eu acabei de escrever?

— Se eu fizer isso, posso voltar a dormir?

Viu as narinas da professora se dilatarem quando metade da sala começou a rir. Parecia pretender falar mais alguma coisa quando Victoria Goldenschild levantou a voz:

— Professora, creio que ele não está se sentindo bem. Deixe-me levá-lo lá pra fora para que ele possa tomar um ar.

— Tanto faz. — Ela jogou os braços para cima dramaticamente.

Carmen também saiu com eles. Quando se encontraram bem em frente ao Campo Verde, onde Melchior iniciara sua revolução bem como Henrietta Walker o fizera há sessenta e três anos, Vickie empurrou Nick, fazendo-o dar de cara com a grama.

— Que é que há com você? — ela gritou irritada. Até assim parecia bonita. Carmen observava-os com curiosidade, como se fossem duas crianças brigando por uma bola.

— Saiu porque quis — Nick respondeu com indiferença, sentando-se na grama macia e abraçando os joelhos. — Foi ali — Apontou para um canto do Campo Verde — onde Melchior iniciou a revolução que depôs Ernst Overgreen. Tenho fortes suposições que aquele garoto é uma representação de Deus na Terra.

— Mas Deus não tem forma, Nigel — Carmen disse com inocência no ouro de seus olhos. Deitou-se o lado de Nick e pôs a cabeça em seu colo, passando a brincar com uma folhinha de grama.

— Claro que não tem. Acharam o corpo do meu pai, sabiam? Vão trazê-lo para cá. Deve estar todo carbonizado, mas pelo menos teremos algo a colocar na cova dele. Minha mãe se evaporou, simplesmente.

Borboletas dançavam em seu estômago.

— Eu nunca conheci minha mãe — Vickie disse. — E nosso pai nos deu a Cornelius quando tínhamos três anos; vemos tanto nosso pai adotivo quanto o biológico de vez em nunca. Você tem mais sorte do que pensa.

— Não tenho, você sabe por quê. — Acariciou os cabelos dourados de Carmen, colocando-os por trás da orelha. Ela criava duas covinhas nas bochechas quando sorria, Nick as adorava.

Vickie resmungou algo.

— As únicas certezas que eu tenho na vida são a morte e de que você é um idiota. — Ela mandou-lhe um olhar neutro. Nick puxou-a delicadamente para si e selou seus lábios nos dela. — E de que eu gosto de você.

— Também gosto — Carmen acrescentou adoravelmente. Nick beijou-lhe a têmpora.

— Tenham cuidado — sussurrou. — Tudo o que eu toco morre.

Mais tarde naquele mesmo dia, bem no final do intervalo, Nick caminhava com as gêmeas de volta para o prédio do nono ano. Não conseguiria se lembrar direito sobre o que falavam, mas parecia ser algo desinteressante o suficiente para fazê-lo virar a cara quando ouviu um garoto chamando Carmen de vadia.

Para falar a verdade, não ia se importar, mas quando viu a mágoa em seus olhos infantis, mudou abruptamente de ideia.

— O que você disse? — Estavam bem em frente ao portão da unidade quando fez-lhe a pergunta de ouro. Todos em volta se calaram para ouvir, com olhares estarrecidos e ansiosos.

— Disse que ela é uma vadia — repetiu um garoto da altura de Nick, louro de olhos azuis cujo nariz era muito comprido para o rosto. — Deixa de ser otário, ela deve ter mais doenças venéreas que…

Sua frase acabou nunca podendo ser terminada. Nick se jogou contra o peito dele, derrubando-o no chão com uma facilidade maior que o normal; também foi fácil quebrar-lhe o nariz. Quando passou a tentar esfregar seu rosto contra o asfalto, alguém o puxou para trás, mas então o garoto se levantou e se jogou em cima dele, aplicando-lhe o primeiro soco no rosto.

Ignorando a dor insuportável, Nick o empurrou para cima com as pernas e meteu o pé entre o meio das dele. Ele gritou de dor, caindo de joelhos, e foi quando conseguiu dar uma joelhada em sua cara. A dor do nariz já quebrado deve ter se intensificado ainda mais, porque ele desmaiou.

— Não me chame de otário — segredou-lhe com o gosto do ferro sanguinolento na boca.

OoO

Aquele dia estava sendo mais deprimente que o normal para Ethan. Assistira às primeiras aulas de antes do intervalo com um desinteresse mútuo, cansado demais para prestar atenção. Acabara-se descobrindo saudoso de seus dias como nerd no ano anterior.

Quando a gente não tem uma vida para cuidar, acabamos priorizando a primeira coisa que aparece, Ethan refletiu, pensando também em quanto tempo faltava para a formatura. Menos de dois meses e estarei fora daqui, graças aos deuses.

Quando sua professora passou um trabalho em grupo, ele não se moveu mesmo quando os outros alunos começaram a reorganizar as mesas para formarem-nos. Desde o ano anterior, nunca realmente aceitou fazer grupos com ninguém mais. A maioria só o queria porque fazia todo o trabalho sozinho. Era mais fácil ficar sozinho do que se magoar pela falsidade alheia.

Foi quando sentiu um toque nas costas.

— Olá, podemos fazer juntos? — o garoto perguntou. Seu nome era Taylor, e da primeira vez que Ethan o vira, pensara que fosse uma menina. Seu nome não ajudava, muito menos seu longo cabelo loiro amarronzado que passava do pescoço. Tinha olhos castanhos e uma expressão eternamente delicada, com maçãs do rosto elevadas e sempre ruborizadas; covinhas e lábios grossos. — Meu nome é Taylor.

Já estamos em setembro e você acha que eu não decorei o nome de todo mundo.

— Eu sei — respondeu. — Se quiser…

Ele sorriu e arrastou a carteira para o lado da de Ethan. Na verdade, sempre fizera sozinho principalmente porque se sentia a pessoa mais estúpida do mundo falando com desconhecidos. Era como se todas as suas palavras fossem erradas e sempre estivesse fazendo algo para irritar alguém, mas descobriu que com Taylor não era assim. Não era só porque ele parecia conhecer seu defeito, mas principalmente porque ele não calou a boca por um segundo sequer. Ethan adorou isso.

Num dado momento, ele lhe falou seu sobrenome.

— Winthrop? — repetiu lentamente. — Taylor Winthrop. Já ouvi esse nome em algum lugar.

— Meu pai tinha o mesmo nome. — Taylor pôs uma mecha de cabelo por trás da orelha delicada. — Taylor Winthrop. Ele morreu no mesmo acidente de avião que os seus pais.

Aquilo realmente o surpreendeu.

— Não uso mais esse sobrenome; uso o da minha mãe, Mayfair. — Ele deu uma pausa até murmurar pesarosamente: — A ANAC não achou o corpo dele. Ou, se achou, minha família ainda não foi contatada. Espero que achem, eu realmente gostaria de vê-lo uma última vez, mesmo que no estado que provavelmente estaria.

Com o passar do tempo, Ethan descobriu-se sentindo cada vez mais pena e interesse por Taylor. Acabaram deixando o trabalho de lado e conversaram sobre tudo e sobre nada; sobre as empresas da família Winthrop e sobre a recém-criada Anhert de Ethan; sobre quando destruíra o vidro do carro de Romney e o porquê de ter feito aquilo (os mexericos rondaram a escola como abelhas, mas ninguém se atreveu a perguntar-lhe. Perguntaram a Nick e a Lorenzo, mas eles os desprezaram); falaram sobre seus falecidos pais e sobre a tentativa de assassinato do príncipe Senn; acabaram por fim chegando ao Massacre da Coruja e sobre a Revolução M. Ethan também descobriu que Taylor fazia parte da Comissão da formatura, o grupo de alunos eleitos pelos próprios que cuidavam do dinheiro arrecadado e etc.

— Ser da Comissão é um inferno — ele segredara-lhe. — Todo mundo nos odeia porque somos os pés-no-saco que correm atrás dos alunos para cobrar o dinheiro todo santo mês. Eu nunca vi gente tão caloteira. — Ethan sentiu-se levemente aliviado de já ter quitado os dois mil dólares da formatura no início do ano. — Sem falar que nós o recebemos na mão, então você deve imaginar a dor-de-cabeça que é cuidar de quase trezentos e sessenta mil dólares até o final do ano. Se se perde um centavo, só falta nos enforcarem.

A conversa seguiu até que Taylor tocou num ponto que parecia ter estado o tempo todo forçando-se a não tocar.

— Eu nunca tive medo de você, sabe — sussurrou. Seus olhos castanhos como amêndoas brilhavam. — As pessoas diziam que você matou Tommy Overgreen e dizem que teve algo a ver com a renúncia do tio dele, mas eu realmente não acredito. Quer dizer… você matou Tommy, Ethan? — Havia um resquício de travessura em seus olhos que o divertiu.

— Matei-o na minha mente milhares de vezes, mas parei por aí. Não, Taylor. Eu não o matei.

O garoto sorriu adoravelmente pouco antes de o toque do intervalo soar.

Quando saiu de sala, Ethan foi chamado à coordenação e informado de que deveria se dirigir imediatamente à coordenação do nono ano. Não precisou realmente perguntar por que, os mexericos zuniam estrondosamente por todo o campus da Academia Alphonse Enoi. Naqueles tempos, informações voavam mais rápido que jatos.

Ao invés disso, pegou sua mochila e foi à diretoria.

Deu três toques na porta de Hellen Page. A diretora lia calmamente um grosso bloco de papeis em cima de sua escrivaninha por cima de óculos retangulares. Suas linhas de expressão ficavam um pouco mais grosseiras daquele ângulo, mas ela logo levantou o rosto.

— Diretora Page. — Ethan sorriu. Estava com metade do corpo dentro da sala e a outra metade fora. — Posso entrar?

Ela assentiu, parecendo dar pouca importância a ele. Ethan deslizou pelo carpete vermelho-escuro da sala e sentou-se em frente à escrivaninha.

— Então — começou —, ouvi uns boatos por aí que diziam que, perdoe-me se estiver errado, a Academia Alphonse Enoi planeja aumentar sua propaganda por Middleland, está certo? — Ela não respondeu, parecia saber exatamente o que ele queria. Mas Ethan continuou. — Eu sempre admirei essa escola pelo fato de que ela nunca precisou fazer propaganda em outdoors para atrair alunos, como a maioria das outras escolas particulares de Middleland faz. Mas… — Mordeu o lábio — sempre há mudanças, não há? Quer dizer, o terceiro ano do ano passado fez um excelente trabalho, todos os alunos passaram nos vestibulares para os quais prestaram. Acho que não é necessariamente errado que a Academia os exiba por aí, não acha? São os seus troféus. — Page continuava com as sobrancelhas levantadas, esperando que ele chegasse logo ao assunto. — E, como a senhora bem deve saber, adquiri recentemente uma agência de publicidade que, dentre outras empresas, propagandeia a Goldenschild’s Eletronics. E as filhas do velho Cornelius estudam aqui. E elas são namoradas do meu irmão. — Tossiu. — As duas.

Hellen Page continuava neutra, mas uma menção de sorriso nascia em seus lábios. Só uma menção.

— Diretora, se a senhora quiser acertar com a Lemnsack & Lovegood, entre em contato conosco. Teremos prazer em receber a Academia Alphonse Enoi. Por um preço bem baixo. — Levantou-se. — Tenha um bom dia.

Caminhou para fora do prédio da diretoria e caminhou leve como um passarinho através do Campo Verde. Viu, ao longe, na cantina, Lorenzo e Goldie Lovegood, que conversavam animada e felizmente sobre algo. Ninguém em volta deles pareceu se importar quando Lore segurou na mão do outro menino e beijou seus dedos finos.

Chegou ao prédio do nono ano, onde um grupo de curiosos se amontoava em volta da porta da coordenação, no térreo da unidade. Ethan abriu espaço por eles como se fossem folhas secas.

Nicholas Antonella Lemnsack Hentz, o fabuloso e último leão dourado, o mais novo da dinastia Hentz com seu ressecado cabelo louro artificial estava segurando uma pedra de gelo do tamanho de uma maçã contra a bochecha, parecendo enfezado. Sentado numa cadeira recostada à parede, apoiava a cabeça na mesma. Um garoto louro estava ao seu lado, com uma faixa enfiada no nariz, onde pressionava vários talos de algodão. Parecia desconfortável ao sentar. Fora isso, ambos tinham vários hematomas e cortes pelo corpo todo. Estavam deploráveis.

A coordenadora do nono ano se chamava Holga Hillls e era uma criatura baixa e atarracada, magra como um cadáver, com um rosto chupado e olhos tristes e caídos. Tinha o cabelo vermelho, tão artificial quanto o de Nick uma vez fora. Uma mulher também loura estava em pé ao lado do garoto louro. Devia ser mãe dele.

— O que é isso? — ela disse, e só aí Ethan notou que estava muito irritada. — Pensei que falaria com a mãe dele, não com um garoto. — Olhou para Nick. — Onde estão seus pais?

— Mortos — ele respondeu simplesmente. — Mortos, carbonizados no fundo do mar, sendo eternamente comidos pelos tubarões.

— Senhora — Ethan disse afavelmente, ignorando o sarcasmo de seu irmão. — Sou responsável legal pelo meu irmão.

— Mas parece tão irresponsável quanto ele.

O olho de Ethan tremeu. Nick se remexeu desconfortavelmente na cadeira. O garoto louro também. Sua mãe continuava a olhá-lo desafiadoramente e Holga Hillls já ia mediar o caso quando seu telefone tocou e ela atendeu.

— Alô? Sim, diretora Page…? O quê? Oh, sim… entendo. Certo. Sim, claro. Tenha um bom dia. — Hillls olhou para o objeto como se viesse de outro planeta, depois para os presentes ali na sala. — Bem, a diretora Hellen Page decretou suspensão de dois dias para ambos.

Só?, pensou Ethan com surpresa. Mesmo depois do meu suborno, pensei que ele receberia no mínimo uma semana. No mínimo.

Saiu da sala alegremente puxando Nick pela mão e ouvindo a mãe do garoto louro praguejando para quem quisesse ouvir. E como poderia a diretora suspender seu adorado filho, quando ele não fizera nada, e na verdade era Nick quem era um conhecido arruaceiro? Um absurdo, totalmente errado…

— Vá pegar sua mochila e me encontre no portão — disse ao irmão, cujo olho começava lentamente a inchar. — Vou pegar Lorenzo. Vamos para casa tentar salvar o dia.

OoO

— Agora você pode me dizer porque desperdiçou seus lindos punhos naquele estúpido. — Estavam na sala de estar de casa. Ethan, sentado na poltrona. Nick, jogado no sofá.

— Ele chamou Carmen de vadia — ele falou com a voz tremendo de ódio. — Deus, eu odeio isso. Odeio eles, odeio todos eles, todo mundo daquela maldita escola. Não há quem não as xingue pelas costas por minha causa.

— Pare de se culpar.

— Você parece Ellis falando assim. É culpa minha sim. As duas namoram o mesmo garoto. — Ele deu um riso sem alegria. — Tudo o que eu toco morre, Ethan. Você não vê isso? Eu me odeio.

— Anda tomando seus antidepressivos?

— Eles acabaram, esqueci de te contar. Minha memória ainda é ruim, eu ainda tenho déficit de atenção. — Nick enfiou uma almofada do rosto, tentando se asfixiar. Ethan removeu-a delicadamente dali, mas ele virou a cara. — Não queria gostar delas do jeito que eu gosto, mas eu gosto. E isso é incrível se se considerar o modo como as conheci. Vickie me deu um chute e Carmen enfiou na cabeça que meu nome é Nigel. Mas eu gosto delas, por que isso?

Ethan mordeu o lábio inferior, pensando.

— Creio eu que você se atrai pelo modo como uma cuida da outra. Você sempre gostou desse mutualismo entre irmãos, isso te atrai. Não é pela beleza delas, é pela docilidade de Carmen e pela agressividade moderada de Vickie. Mesmo tão diferentes, elas se dão bem. É como se uma completasse a outra. Vickie cuida de Carmen, assim como eu cuido de você. Você se espelha nisso.

Nick ficou um tempo calado, olhando para o teto, sem esboçar nenhuma expressão. Então seus lábios se enrugaram e ele fungou profundamente, engolindo a vontade de chorar.

— Eu tenho medo de que aconteça com elas o que aconteceu com Mia.

— Não vai. Você sabe que não vai. Eu não deixarei. Se consegui fazer a Page não te expulsar, acho que consigo manter suas namoradas vivas.

— Promete?

— Prometo, meu leão Hentz.

Nick fez um gesto de desgosto, olhando sem rumo para a varanda. Ethan sabia que sua cabeça estava uma confusão; Victoria e Carmenia Goldenschild eram certamente as únicas coisas do mundo que o impedia de surtar novamente. Nick só quisera sair do hospital por causa delas.

Agora que eu penso bem, não deveria ter deixado Nick beber o vinho de Cornelius, pensou tristemente. Tinha que se livrar das bebidas. Não era apenas por Nick, era por si mesmo. Não queria virar alcoólatra, como a mãe de Senn, e esquecer dos irmãos e da vida deles que eram sua também. Jamais faria isso. Quem era Melon Chioren quando se tratava de gostar e cuidar dos irmãos em comparação com Ethan Lemnsack?

OoO

— Tem certeza que é uma boa ideia? — indagou a Gillian, que tivera de forçá-lo a tirar as luvas. Rowan Pyatt quase nunca as tirava, mas as mãos ágeis da irmã arrancaram-nas como se fossem feitas de papel.

— Sim — ela disse. Andava falando bastante ultimamente; seus olhos azuis-acinzentados adquiriram uma tonalidade muito mais viva. — Não há mais ninguém que entenda. Vamos.

— Está bem — disse receosamente. Suspirou e olhou pela varanda de seu apartamento. A tarde daquele sábado estava quente demais para ser outono, mas as folhas secas já começavam a se amontoar no chão. — Estou pensando no número três nesse momento.

Gillian assentiu. Rowan ergueu um dedo e tocou sua têmpora.

Uma coletânea de imagens desconexas encheu seus olhos imediatamente. Sem sentido algum, Rowan deixou que passassem aleatoriamente, respirando profunda e lentamente, bem como Eadwine lhe dissera para fazer. Concentrou-se no número três.

De repente, viu a si mesmo com os cabelos despenteados e os olhos sonolentos. De pernas cruzadas, sentado em cima do sofá, falava: estou pensando no número três nesse momento.

Puxou aquela memória para si, desvanecendo-a nos véus de sua própria mente.

Abriu os olhos e nada viu além de um claro borrão que foi tomando forma aos poucos. Estava tonto e levemente enjoado, assim como Gillian. Endireitou-se no sofá, alisando as roupas.

— Que número eu estava pensando naquele momento? — indagou a ela.

Gillian fitou-o profundamente, franzindo os olhos e dando de ombros depois.

— Deu certo — proclamou levemente orgulhoso de si. — Consegui arrancar e destruir sua memória. Fiz você esquecer de algo que ouviu há cinco segundos.

— Você pode mais do que pensa — ela sussurrou roucamente, sorrindo com os lábios grossos. As raízes escuras de seu cabelo já nasciam. Gillian estremeceu. — Tive uma visão.

— Sobre o quê? — perguntou.

— Na verdade, ando tendo várias visões as quais não consigo decifrar, só acho que elas têm a ver com Ethan e com uma palavra… não sei qual palavra, nem o que nomeia, mas acho que tem a ver com um sentimento.. — Gillian estremeceu. — Também vejo um prédio enorme tremendo e desabando em cima de várias pessoas. Não sei qual o prédio, só sei que será em novembro. Ou outubro. Não sei. Mas isso não foi apenas uma visão, foi um presságio. Vi na TV ontem que seria possível ocorrer um terremoto forte na Califórnia, só que eles não sabem quando.

— Ethan, um sentimento… e novembro. Ou outubro — Rowan repetiu. Eadwine lhe contara que vários desastres naturais ocorriam quando Jhahantar era adormecido novamente, mas ele só deveria fazê-lo em julho de 2014. Que queria dizer aquilo, que alguém o mandaria de volta à terra antes do previsto? Rowan sabia que não seria ninguém da Chaulwen, eles apenas observavam; quase nunca agiam. Então quem o faria?

Gillian parecia ter-lhe lido os pensamentos.

— Talvez um descendente direto daquele que o prendeu pela primeira vez?

Rowan estremeceu.

— Não volto mais ao Porão de Bathory. Ainda tenho pesadelos com aquele lugar, e as Sombras não param de me seguir, estão piores que antes. Percebeu que todos a nossa volta estão infelizes? Nick quase se matou esses dias, e ele mora bem acima de nós.

— Nick exala mais Sombras do que eu e você juntos. E você sabe, Rowan, que não há mais ninguém capaz de entrar naquele lugar além de você.

Estremeceu de novo, mas a irmã o abraçou.

— É disso que eu tenho medo. Posso continuar corajoso tendo tanto medo?

— É a única forma que alguém tem de ser corajoso — ela sussurrou.

OoO

Fazia vários meses que Ethan Lemnsack não via John Fauntleroy. Da última vez que o fizera, fora para acertar a guarda de Lorenzo. Antes disso, fora para ver o próprio Lorenzo pela primeira vez. E antes mesmo disso, foi para herdar a fortuna de seus pais. De fato, em cada encontro acontecia algo diferente, por isso pensou ter todos os motivos para temer quando ele pediu-lhe que fosse ao seu escritório naquela tarde de sábado.

O que será agora, mais um meio-irmão perdido? Sentou-se na poltrona de couro marrom de frente à escrivaninha. Fauntleroy continuava exatamente do mesmo jeito de sempre: imensamente gordo e com cabelos infinitamente brancos, óculos de meia-lua a caírem-lhe pelo nariz pontudo.

— Senhor Lemnsack — ele disse formalmente. — Creio que se pergunta por que o chamei aqui.

— Foi por isso que vim.

— Certamente. Bem, dentre muitas outras posses, investimentos e propriedades que seus pais compartilhavam quando vivos, havia algumas particularidades que um possuía sem a participação do outro, embora não seja de meu conhecimento se ambos sabiam. Charles, por exemplo, possuía uma propriedade em Roma, bem perto do Vaticano.

Amém, Ethan pensou.

— Sua mãe, porém, possuía uma conta num antiquíssimo banco da Suíça, uma instituição bastante antiga que, falando da forma mais simples, disponibilizava cofres a seus clientes. O conteúdo não lhes interessa, seria possível esconder até um cadáver lá.

— Eu não estava sabendo disso.

— Decerto que não. — John Fauntleroy tirou um paninho imaculadamente branco do bolso da camisa e limpou os óculos. — Mary Alice pediu-me que, se estivesse incapaz de fazê-lo, te desse eu mesmo a senha do cofre suíço.

Ethan franziu as sobrancelhas.

— Eu fiz dezoito anos há quase três meses. Por que não me informou disso antes?

— Porque ela pediu para informar-lhe quando fizesse vinte e cinco anos, porém… circunstâncias atenuantes obrigaram-me a fazê-lo mais cedo. — Ele tomou ar. — Senhor Lemnsack, há cerca de uma semana, alguém abriu o cofre.

Levou um tempo para Ethan entender.

— É claro que qualquer um que tivesse a combinação e a chave do cofre poderia tê-lo feito, mas, pelo meu saber, existem apenas duas cópias da chave. Uma está comigo e a outra… deve estar a mil metros abaixo do mar.

Enterrada com a única e última leoa dourada numa tumba gelada e azul.

— Ela pode ter feito outras cópia — disse.

— Certamente, mas não consigo pensar em ninguém a quem possa ter confiado uma cópia da chave. Bem, a questão é que ele foi aberto, por isso decidi que seria mais sensato te contar cerca de sete anos antes do previsto.

— O que há no cofre?

— O senhor bem deve saber que a antiga empresa de sua família, Kruger-Vorheel, foi criada quando John Francis Hentz achou um diamante na África do Sul.

Levou um pouco mais de tempo para Ethan entender, e ele se odiou por isso.

— O Diamante Hentz estava dentro do cofre? — perguntou incrédulo. Boatos diziam que John Francis, já milionário, comprara o diamante de volta e o presenteara a sua esposa, Ondromeda Olrwen. A grande falha desse boato é que ela nunca foi vista usando-o. Porém, depois de ler o último relato de John Francis em vida no Livro Hentz e o primeiro de John Daniel, começou a ter uma leve ideia de por que sua trisavó desprezou o último presente que ganhou do marido.

— Depois de tê-lo ganhado de John Francis, Ondromeda Olrwen o deu a seu primeiro filho, Olannis, e ele permaneceria com a família Olrwen até que seu avô Samuel o comprasse de volta. Ele morreu pouco tempo depois, então sua mãe o adquiriu, embora nunca o tenha usado. Antes de ser lapidado, o diamante original pesava cerca de setecentos e vinte e dois gramas. O maior diamante já achado na história.

Quarenta milhões de dólares em formato de pedra, Ethan pensou amargamente.

— É impossível saber se a pessoa que abriu o cofre retirou o Diamante Hentz de lá — John Fauntleroy começou cautelosamente. — A não ser que…

— A não ser que alguém viaje alguns milhares de quilômetros para ir lá ver — completou sem alegria. Não sentia vontade alguma de ir à Suíça.

— O banco fica em Zurique — informou-lhe. — Se desejar ir, posso te passar o endereço. E é minha obrigação dar-lhe a chave e a senha.

Ele tirou uma caixa dourada aparentemente feita de metal de debaixo da escrivaninha. Tinha aproximadamente o tamanho de uma caixa de sapatos. Ethan pegou-a nas mãos, vendo como era pesada, e pediu para Fauntleroy escrever o endereço do banco.

Esperou até chegar em casa para abri-la.

Sob a luz do lustre, contemplou o interior almofadado da caixa dourada. Uma chave monstruosamente grande, quase do tamanho da caixa de sapatos, descansava intocada. Era dourada e pesada, com várias pedrinhas vermelhas incrustradas em sua extensão. De um lado, tinha formato de um sinal de mais, com as três extremidades de tamanhos iguais com minúsculos furinhos perfurando-as. Do outro lado, terminava numa chapa redonda do tamanho de uma moeda, onde uma grande pedra vermelha adornava-a. Era a chave mais feia que Ethan já vira na vida.

Também havia uma combinação de letras e números escrita apressadamente numa folha de papel enfiada no canto da caixa. Não tinha sentido nenhum para Ethan, mas devia ter tido para Mary Alice Hentz. E que outros segredos aquela mulher tão poderosa poderia ter guardado num banco suíço além de um diamante de quarenta milhões de dólares?

Achou Nick e Lorenzo jogando videogame no quarto deste primeiro. Nick perdia sempre.

— Adivinhem — disse-lhes com um sorriso cansado. — Nós vamos para a Suíça.

OoO

Gabriel Melnick estava cansado, tão cansado como jamais pensara que estaria. Nem quando Ernst Overgreen começou a corroer lentamente a estrutura da Academia Alphonse Enoi ao aumentar o peso dos deveres sobre os alunos se sentira tão acabado.

A recepção da Lemnsack & Lovegood era um cômodo alto com pilares de mogno servindo de adorno, com várias salas que davam para todos os lugares. Podia ver a Sala de Conferências dali, com suas portas duplas de madeira, o escritório de Romney Lovegood, seu adorável chefe e, bem do lado do dele, o antigo de Stevie Martell que agora pertencia a Ethan, mas que estava sempre fechado. O acúmulo de trabalho que caiu em cima de Romney com a morte de Stevie foi grande, é verdade, e Ethan encarou isso como uma punição, mas ele provavelmente se esqueceu de que Gabriel era estagiário de Romney.

Se Overgreen ainda estivesse no poder, pensara que não aguentaria, mas é claro que Melchior acabara com ele, graças a Deus.

Porém, Gabriel estremeceu. Não gostava realmente de pensar em Melchior. Não é que não gostasse dele; muito pelo contrário. Era impossível não gostar de Melon Chioren sem odiá-lo, mas as vezes em que ficaram juntos na festa que Nicholas deu no início do ano em Jardim de Ouro embaralhavam-se em sua mente como um redemoinho de recordações vergonhosas que apertavam seu coração. Nunca contara isso a Ethan, sobre eles dois, mas imaginava que Melchior o tivesse feito.

Queria nunca ter sequer beijado Melchior, para início de conversa, mas foi difícil evitar. Àquela época, ainda estava irritado e magoado com Ethan; usara-o apenas como uma válvula de escape, e isso era ainda pior, o sentimento de ter usado alguém para seu bel-prazer. Melchior jamais parecera se importar com isso, muito menos Ethan.

Olhou as horas; já era quase oito da noite. Levantou-se da escrivaninha e espreguiçou-se longamente, pegando o casaco de debaixo da mesa. Suas costas doíam desde a base até o pescoço e sentia uma leve menção de torcicolo. O dia seguinte seria adorável.

Gabriel seguia para a porta de saída quando deparou-se com Romney Lovegood, que ia entrar e parecia cerca de dez anos mais velho. Ethan tinha razão, nunca se devia brincar com um leão Lemnsack Hentz. Ele o estava matando aos poucos.

— Sente medo? — Romney indagou com sincera curiosidade. Por um momento, seus olhos azuis tomaram um brilho estranho.

Gabriel franziu as sobrancelhas.

— De quê?

— De ele se tornar um grande magnata e te esquecer. — Aquilo apertou seu coração de novo; um nó em sua garganta nascia. É claro que aquela perspectiva o apavorava, mas estava decidido a não demonstrar fraqueza.

— Não, nem um pouco — respondeu da forma mais tranquila que pode.

Mas não foi suficiente.

— Oh, não? — Uma menção de sorriso irônico nasceu nos lábios de Romney. — Ethan já é legalmente um adulto, acabou de adquirir uma empresa e decerto o fará de novo, de novo e de novo até torrar toda a herança e perceber que não consegue mais ter milhares de empresas divididas, que não consegue mais ver o dinheiro entrar sem fazer nada, sem ter uma mínima participação nisso. Isso deixa um homem louco; Ethan é inteligente e ambicioso, ele é um leão Hentz. Já imaginou por que os homens Hentz são todos conhecidos, mas suas esposas não? Já ouviu alguém que conhecesse o nome de Joselia Jasperin ou de Letricia Ovanosi? Ou até Ondromeda Olrwen, a Dama Prateada, que tanto fez, mas, da mesma forma, foi ofuscada pelo marido? — Passou a falar mais baixo, quase que um sussurro. — Ninguém as conhece. O povo conhece John Francis Hentz, conhece John Daniel Hentz, conhece Samuel Hentz e Mary Alice Hentz. E conhecerá Ethan Lemnsack Hentz. — Então sibilou venenosamente: — Não Gabriel Melnick.

Gabriel saiu dali com vontade de gritar e de chorar. Não se atrevera a esbofetear o rosto galanteador de Romney Lovegood, embora ele parecesse estar pedindo por isso. Afinal, ele era cunhado de Lorenzo Barcarolli, não era? E continuava sendo seu chefe.

Chegou em casa após ter pego um táxi. Sem prestar muita atenção, acabou dando dinheiro demais ao motorista e não pediu o troco. Ele foi embora sem uma palavra.

Havia malas encostadas na sala; grandes malas de viagem do tamanho de geladeiras pequenas, assim como outras de mão também. Gabriel suspirou pesadamente. Não esperava que ele chegasse tão cedo. Não estava mentalmente preparado.

Quantos anos fazia que não encarava seus grandes olhos cor de oliva? Foi essa a pergunta que fez a ele.

— Uns quatro anos — disse, levantando-se do sofá em que estivera sentado. — Não sabe como é bom sentir o calor da Califórnia de novo, o Canadá é um inferno gelado na Terra.

— Então teve azar de chegar bem no outono. E ele só deveria chegar no dia vinte e um; o clima de Middleland é louco.

— Ele é.

Gabriel Melnick ainda se lembrava de como aquela casa era quando Brandon estava ali, há quatro anos. Não sabia bem por que nunca contara a Ethan sobre ele… talvez pelo medo de que ele pensasse que seu irmão mais velho era superior a ele. Todos de sua família pensavam isso, estava implícito em todos os olhares, em todos os sussurros e vozes. Seu pai pensava.

Contaria de qualquer forma, não havia mais como esconder.

Parado ali na sala, fitando-o profundamente, Gabriel notara o quanto ele mudara naqueles quatro anos que passou fora. Brand tinha os mesmos olhos verdes dos Melnick, mas os seus eram mais escuros, embora seu cabelo fosse preto e desgrenhado como o dele e suas feições tivessem endurecido um pouco. Era apenas um pouco mais alto que o irmão menor e tinha, se não se enganava, agora já seus vinte e quatro anos. Quem mais podia se gabar de ter terminado a escola aos dezessete anos, afinal? E ingressado em Medicina no ano seguinte? E feito residência em outro país?

Ora, Brandon Melnick, é lógico.

Naquele dia há quatro anos, quando Gabriel tinha apenas onze anos e lutara contra todos os seus demônios para conseguir acordar às quatro da manhã e levar o irmão ao aeroporto, sabendo que devia ser a última vez que o veria em vários anos, ele chorou. De tristeza, de dor, de desolação… e de alegria. Isso era o que mais doía, era o que não se atrevia a pensar muito, era o que jamais contara a ninguém.

— Algum dia você estará no meu lugar, garotinho — Brand lhe sussurrara, beijando sua bochecha antes de abraçá-lo. Gabriel era muito mais novo, mas eram quase da mesma altura, e mesmo assim, por que se sentia sempre tão inferior…?

Seu último beijo foi realmente na bochecha, bem perto dos lábios para que seus pais não os vissem. Brand pegara sua mão e o fitara por um momento, tão penetrantemente que era como se estivesse vendo sua alma. Aquele olhar fazia-o sentir-se despido, era o mesmo olhar que recebia nas noites em que via a luz do corredor acender-se. Gabriel costumava esperava ansiosamente debaixo das cobertas subidas até o queixo. O coração palpitava quando Brand entrava sorrateiramente em seu quarto e se enfiava por baixo das cobertas e se deitava em cima dele e fazia tudo aquilo que Gabriel sonhava em fazer, mas jamais tivera coragem de comentar com ninguém. Se lembrava até das obscenidades que ele lhe sussurrava, claras como água, mas escuras como a oliva de seus olhos. Tudo acabava sempre com a mesma frase.

— Amo você, meu garotinho… — E normalmente ele lhe beijava nos lábios, ou na bochecha, ou na testa, ou então pressionava-lhe o falo duro e lubrificado, gemendo descontroladamente, e começava tudo de novo. Ou então… dizia outra frase: — E lembre-se de não contar a ninguém.

Gabriel nunca contou a ninguém. Jamais contou a Ethan e jamais contaria porque a vergonha era insuportavelmente grande; não a do que fizera com Brand quando tinha seus dez, onze anos, mas do que sentia quando fazia com ele. Gabriel gostava. E por vezes ainda se acariciava pensando naquilo, e outras vezes fazia ainda pior: quando estava com Ethan, imaginava-o sendo o irmão mais velho, e tudo o que passaram na infância voltava de súbito. Tinha que se segurar para não gritar Brandon ao invés de Ethan.

Parado na sala de estar de casa, Brandon o abraçou suavemente. Gabriel sentia falta do calor e do peso de seu corpo forte em cima de si, da sensação de seus lábios… então por que parecia tão errado? Por que sentia tanto nojo e, ao mesmo tempo, tanto desejo? Perguntava-se se em algum dia da vida de Ethan ele já sentira desejo por Nicholas. E por que não sentiria? Ele era louro, delicado e bonito…

Separara-se dele quando sentiu sua mão descer sorrateiramente por sua camisa. Conhecia o irmão bem demais para não desconfiar dele.

— Desconfia de mim, garotinho? — ele indagou com um sorriso brincalhão. Sempre fora daquele jeito, completamente incapaz de ver o errado das coisas. — Sei que você arrumou outro jovem rapaz para brincar enquanto eu estava fora.

— A diferença é que, com ele, eu posso brincar — respondeu mal-humorado. Virou-se e seguiu para seu quarto, com a consciência de que Brand estava em seu encalço.

— Só me diz — ele começou. — O que você acha que o pai pensaria dele, seja lá quem for? Dependendo da sua resposta, posso até te autorizar a me tomar como amante.

O sorriso não sumia de seus lábios, tão travesso, tão despreocupado, tão tranquilo. Ele nunca sentira medo de ser pego? Brand tinha vinte anos quando Gabriel tinha onze.

— Ele é Ethan Lemnsack, acho que todo o ódio do pai sumiria quando visse o verde das notas de dinheiro dele. — O pai de Brandon e Gabriel morrera um ano após a partida desse primeiro; Gabriel gostava de pensar que fora por causa da ausência de seu filho mais velho, embora soubesse que não. Sabia Deus o quanto seu pai o desprezara.

No dia em que Brandon fora embora, Gabriel suplicara-lhe baixinho que não fosse. Segurara-se semanas a fio para não fazê-lo, mas no fim não resistiu. Lembrava-se perfeitamente dos dedos delicados, mas firmes, de seu irmão limpando-lhe as lágrimas no aeroporto.

— Não quero que você vá — sussurrara. Brand estava ajoelhado a sua frente, mesmo que não destoassem muito de tamanho.

— Por quê? — ele indagou, com um olhar acalentador. Sempre tivera aquele olhar e sempre soubera quando usá-lo.

— Ele me bate quando você está longe — disse, e foi aí que começou a chorar, embora não fizesse um único ruído. Antes que seu irmão pudesse perguntar por que, Gabriel respondeu: — Ele me bate porque eu não sou você.

Brand lhe beijara em todo o rosto antes de finalmente ir. Por um segundo, pensara em não fazê-lo, mas Gabriel já havia recobrado a consciência e o mandado embora.

Agora, quatro anos depois, Brandon Melnick mostrava-se surpreso.

— Virou a namorada de um bilionário? — indagou. — Que bom pra ele. — Aproximou-se sorrateiro. Nunca fazia barulho ao caminhar, nem o fez quando sentou-se na beirada de sua cama. Levantou o rosto de Gabriel segurando-o suavemente pelo queixo. — Você cresceu, garotinho. Deus, como cresceu.

— Fiquei velho demais para você? — indagou em tom de desafio, se odiando um pouco mais por aquilo. Não tinha a menor intenção de fazer aquilo de novo, e mesmo assim lá estava ele. — Pense que preferisse os… garotinhos — sibilou aquela palavra com a qual ele insistia em chamá-lo.

Você é meu garotinho. — Brand aproximou-se do irmão, mas lhe fitava os olhos diretamente. Gabriel sabia que, por aquilo, ele não lhe beijaria nos lábios.

De fato, beijou-o na bochecha, levantando-se logo depois.

— Acho que você virou realmente uma mocinha fiel. Bem, se não quer reviver os velhos tempos, vou ao meu antigo quarto me acariciar pensando em você.

— Faça isso, faça isso. Grite meu nome, se quiser. Meu namorado está na Suíça e quando ele voltar, vou fazer sexo com ele o dia inteiro, ao contrário de você.

Brandon Melnick sorriu.

— Você realmente cresceu, garotinho.

OoO

A Sala Quarenta e Um era confortável e espaçosa. Havia uma larga mesa quadrada de madeira pesada com pés curvos e oito cadeiras, dois sofás de couro vermelho-escuro e um grande lustre para iluminar tudo. Algumas estantes com livros antigos decoravam o ambiente, tapeçarias escuras cobriam o chão e Ethan Lemnsack fez questão de notar a garrafa de champanhe posta para gelar num balde de alumínio cheio de gelo. Havia apenas uma taça, é claro que havia.

Apesar disso, Nicholas Hentz e Lorenzo Barcarolli esperavam pacientemente no sofá enquanto o gerente-sênior do banco falava animadamente com Ethan num forte sotaque suíço. Era grisalho e possuía claros olhos azuis, além de parecer não conseguir parar de mexer as mãos.

— Me lembro bem da primeira visita da sua mãe ao nosso banco, senhor Hentz. — Ethan não conseguira fazê-lo chamá-lo de Lemnsack. — Foi um enorme prazer receber tão prestigiada celebridade em nossa humilde instituição. — Ethan deu uma leve olhadela pelos tapetes persas de milhares de dólares que enegreciam o chão. Aquele lugar podia ser tudo, mas um banco não sobrevivia por quase quatrocentos anos sendo exatamente humilde. — Ali, veja o painel.

Acoplado a uma parede, um painel touch screen piscava azul, exigindo uma senha. Ao seu lado, uma curta esteira prateada ligava-se à parece por uma portinhola metálica fechada.

— Basta pôr a senha, então seguir as instruções do painel quanto à chave. Certamente que a tem, senhor Hentz.

A caixa dourada estava no sofá, embalada pelos braços de Lorenzo.

— Sim, a tenho.

— Acho que deveria avisá-lo que o sistema só aceita dois erros da senha — ele começou cautelosamente. — Se errar duas vezes, o conteúdo do cofre é incinerado. — Boa sorte em tentar queimar um diamante de mais de cento e vinte anos, pensou geladamente. O gerente deu seu melhor sorriso: — E não se preocupe, as instruções estão em inglês. Os deixarei a sós agora; se precisarem de qualquer coisa…

— Haverei de chamá-lo. — Ethan deu seu melhor sorriso cortês antes de despachá-lo, suspirando fundo.

Aproximou-se do painel e tirou o papel amassado do bolso. Que Deus quisesse que Mary Alice Hentz não tivesse mudado a senha, muito menos a pessoa que mexeu no cofre há algumas semanas.

Digitou a senha de quarenta dígitos cuidadosamente na tela que mostrava instruções em alemão, francês, italiano, romanche e inglês. Quando apertou enter, pensou que se passara mais de uma hora antes de o sistema aceitar a senha.

— Graças a Deus — sussurrou antes de perceber que suava.

— Graças aos Hentz — Nick disse teimosamente, tirando a chave da caixa. — Olha.

Agora que Ethan notava melhor, havia uma espécie de protuberância partindo da máquina com uma fissura retangular.

Insira a cruz, a tela dizia impacientemente.

— Isso não é uma cruz — murmurou estupidamente. Sem saber direito de qual lado deveria inserir, Ethan optou por deixar a pedra vermelha virada para cima.

Gire quatro vezes para a direita e três para a esquerda.

Ethan girou-a quatro vezes para a direita e três para a esquerda. A tela aceitou o comando, depois pediu que fizesse exatamente o oposto, quatro vezes para a esquerda e três para a direita. Ethan Lemnsack assim o fez.

Insira o rubi.

— Isso não é um rubi — disse antes que Nick mandasse-o calar a boca e inserisse ele mesmo a extremidade com a pedra, que coube perfeitamente bem na fissura retangular.

Aceito.

Um ruído metálico encheu a sala por alguns segundos. De repente, a portinhola dividiu-se em duas, permitindo Ethan ver como era grossa, pelo menos trinta centímetros de puro aço.

Uma caixa do mesmo material veio rolando pela esteira antes de parar bem a sua frente. Era pequena e perfeitamente quadrada, do tamanho de uma bola de basquete. Em seu topo, podia-se ver também uma fissura retangular. A tela dizia para que se inserisse novamente a cruz, sem fazer nenhum movimento.

Ethan o fez, e a abertura da caixa destrancou-se.

Quando a abriu, a primeira coisa que viu foi uma folha de papel. Não era velho, não parecia ter ficado mais de um ano ali. Parecia ter sido posto recentemente.

— O que diz aí? — Nick perguntou. Cuidadosamente, Ethan pegou a folha e começou a ler a caligrafia que de tão desajeitada parecia ter sido escrita por uma criança de cinco anos, ou por alguém com a mão quebrada.

— “‘Você é… Tudo?’ ‘Assim me chamam.’ ‘Por quê?’ ‘Porque sou a água. Porque meu ser pode se contrair neste tanque ou se expandir para tocar até a última gota do oceano. Porque posso recobrir num instante toda a região dos Líquidos, por debaixo de nossos frágeis solos de cristal. Por isso sou Tudo. E por isso me chamam de Tudo.’ ‘Mas você me olha do rosto de uma pessoa. Você foi alguma vez sólido?’ ‘Sim, mas permaneci muito tempo neste lugar e Mudei depressa demais. Virei líquido, misturei-me com a água e já não posso Mudar mais. E por isso, dedico grande parte dos meus esforços para manter os túneis de água.’” — Terminou a leitura e a sala caiu em silêncio. Já havia lido aquilo, era o trecho de um livro… que diabos queria dizer?

— Ethan — Nick sussurrou, com os olhos postos atrás dele. — O Diamante Hentz.

O Diamante Hentz original, a pedra bruta encontrada por John Francis Hentz há mais de um século, pesava setecentos gramas e tinha mais de quinhentos quilates, sendo do tamanho de uma manga pequena. A pedra de dentro da caixa estava apoiada numa caixinha de veludo sem tampa; era transparente e brilhava mais que tudo naquela sala. Com cinquenta e oito facetas, o diamante estava preso num pesado broche escuro, pendendo por um finíssimo fio de ouro. Ethan conseguia agora perceber por que as mulheres Olrwen, a esposa de Samuel Hentz e sua mãe jamais haviam se incomodado em usar a pedra: tinha o tamanho de uma maçã. Aliás, o colar em si era terrivelmente feio.

Olhando o resto da caixa, percebeu outras pedras, e então a obviedade da coisa veio à tona. O Diamante Hentz original não existia mais; fora dividido na enorme pedra do colar, em duas pedras gêmeas separadas em brincos, numa pedra oval do tamanho de um ovo de codorna que adornava um anel dourado e em milhares de outras pedrinhas que brilhavam num fio de prata, fino e gelado como a verdade.

— Posso segurar? — Lorenzo indagou ansioso. Ethan deu-lhe a pedra maior nas mãos, observando-o manuseá-la cegamente. — É tão… duro.

Nick deu uma risadinha estúpida. Ethan deu um tapa discreto na cabeça dele antes de vê-lo pegar um dos brincos.

— Que tal eu sair na rua usando isso? — indagou seriamente. — Aliás, que vai fazer com essas pedras? Deixar aqui até que sejam esquecidas?

Ethan não sabia dizer. Deus sabia há quanto tempo aquelas pedras estavam ali, e por quanto tempo mais ficariam. E aquele papel? Se a pessoa que acessara o cofre há não muito tempo tivera toda a liberdade do mundo para pegar as pedras, por que não o fizera? Por que deixara aquela mensagem ali? E se por acaso…

— Vou levar o papel a Rowan — sussurrou. — Ele o tocará e verá quem o deixou aqui.

— Boa ideia — Nick disse com um leve resquício de impaciência na voz. — Mas e as malditas pedras?

— Vou levar os brincos, o anel e o colar — disse, depois de respirar fundo. — Vou dar os brincos a Amy. Bem, e por que não? Eu só apareço para ela para pedir favores, isso é terrível. Vou guardar as outras joias e deixarei o Diamante Hentz. Ele é muito valioso.

— Vamos vender a pedra maior para Henrietta e Senn — o louro comentou cansadamente. — Talvez a coroa da rainha necessite de mais brilho.

A rainha está morrendo, a voz de Senn ecoou em sua cabeça, baixa e terrível. Não importava o quanto ele a odiasse, não importava nem se os americanos a chamavam de terrorista. Ethan estava triste.

— Henrietta não usa coroa.

— Eu sei. Exatamente.

— Por que não a vendem para, sei lá, um museu de história? — Lorenzo indagou. — Essa pedra sozinha consegue valer uns trinta milhões de dólares; então você, Ethan, doa metade para algum lugar qualquer e todo mundo vai te amar e esquecer que você desmantelou a ONG dos seus pais e até mesmo que agrediu um paparazzo.

Ethan refletiu sobre a habilidade de seu pequeno irmão em torná-lo infeliz quando bem entendesse.

— Eu tinha dezesseis anos — disse teimosamente. — Não queria cuidar de uma ONG.

— John Francis tinha vinte quando fundou a maior empresa de mineração da história… — Lore disse e deixou a frase pairar, estendendo a pedra maior de volta com uma sugestão de sorriso nos lábios. — Só uma sugestão.

Cansado daquilo, Ethan repôs a joia cuidadosamente na caixa de aço, mandando Nick abrir aquela garrafa de champanhe. Tirou os brincos e observou bem as pedras lapidadas, tão brilhantes quanto estrelas. Amy era tão linda, e nunca gostara de chamar atenção. Tirou também o anel e o pesado colar.

Bem, agora ela vai ter que aprender a gostar.

Antes de mandar a caixa de volta, Ethan deu mais uma olhada no Diamante Hentz. John Francis construíra um império em cima daqueles diamantes, John Daniel o desenvolvera e Samuel o consolidara. Mary Alice o destruíra. Eles estavam ali, os diamantes da família Hentz, descobertos há mais de cento e vinte anos por um jovem de vinte anos que se arriscara na inóspita África do Sul com o sonho de fazer fortuna.

Diamantes… África do Sul… onde tudo começou, Ethan pensou.

Voltou a trancar a caixa de aço.

Nick já tinha sorvido metade do champanhe diretamente da garrafa quando Ethan a arrancou dele e bebeu quase todo o resto, despejando os dois dedos restantes na taça intocada e dando-a a Lorenzo. Não importava se era o pior irmão do mundo; precisava fazer uma pergunta para o gerente-sênior antes.

Esperou os irmãos chegarem à recepção do banco para perguntá-lo.

— Quem veio checar o cofre há algumas semanas? — indagou baixinho, passando pelos cinzentos corredores.

— Oh, as ações de nossos clientes não são de nossa conta, senhor Lemnsack — o gerente disse com um sorrisinho afetado. Ethan sorriu também.

— Esse banco é uma instituição privada, não é?

— Sim, senhor.

— Quer dizer que pode ser comprado e desmantelado…

— Sim, senh… — Ele se interrompeu.

O resto fora fácil como roubar doce de criança.

De acordo com o gerente-sênior, uma mulher baixa e pequena viera ter com o banco há algumas poucas semanas. Vestia um pesado sobretudo preto e óculos escuros enormes e sua pele era morena e o cabelo era negro, tão negro que só podia ser artificial. Sua voz era um grasno terrível; ela parecia fazer força para falar, como se tivesse a garganta cortada, e tinha um leve sotaque espanhol. Andava muito rapidamente, como se estivesse com pressa. Entrara e saíra dali menos de dez minutos depois; sequer tocara no champanhe.

O Aeroporto de Zurique localizava-se doze quilômetros ao norte da cidade homônima. Entre tantas pessoas falando tantas línguas diferentes e grosseiras ao mesmo tempo dentro de oitocentos hectares de terreno, Ethan Lemnsack comprou apenas duas passagens de volta. Já estavam no terminal B quando Nicholas se deu conta disso.

— Vai me deixar aqui para se livrar de uma vez de mim? — ele indagou despreocupadamente, com uma curiosidade crescente nos olhos.

— Fiquei tentado a isso, mas não. Você vai voltar à Califórnia com Lorenzo. Voltarei dentro de poucos dias.

— O que pretende fazer? Comprar a Europa?

Ethan sorriu.

— Não. Vou para a África do Sul.

Doze horas depois, Ethan Lemnsack aterrissava no Aeroporto Internacional da Cidade do Cabo.

Notas finais
Yooo, Gabriel também teve um relacionamento incestuoso? SIM, HAHAHAHA