Como Vivem Os Anjos
39 Eles O Temem, Eles O Amam
Ethan Lemnsack percebeu que Taylor Mayfair estava com problemas no momento em que entrou na sala. Seus olhos castanhos naturalmente inquisitivos e observadores estavam parados como pedras, fixados num ponto qualquer a sua frente. Parecia esperar que uma solução caísse do céu.
Sentou-se na carteira em frente a dele.
— O que há? — perguntou-lhe. Taylor aproximou-se sobre a mesa e segredou-lhe:
— Você não pode contar a ninguém — pediu. — De verdade, a ninguém.
— Não contarei.
— Bem, eu sou da Comissão da formatura, certo? Certo. Bem, eles me deram a missão de arranjar uma banda pra tocar na formatura; eu encontrei uma de adolescentes chamada Honey Land , já ouviu falar?
— Sim, meu irmão frequentemente coloca o som deles no máximo volume dentro do quarto para me atormentar.
— Certo, mas então. Eu assinei um contrato com eles. Sei que ainda faltam alguns meses, mas eu tive que fazê-lo porque eles são muito concorridos e outras escolas os queriam também. Eles cobraram cinquenta mil dólares.
— Qual o problema?
— O problema? — Taylor ficou subitamente irritado. — O problema é que eles são uns filhos da puta. Eu fiz a besteira de não ler o contrato antes de assinar, e adivinha? Há uma cláusula que os permite aumentar o cachê deles quando eles bem entenderem. Cara, eles aumentaram o preço para cem mil dólares. Cem mil! Você acredita nisso? E o pior é que eu não posso sair do contrato, eles já têm cinquenta mil dólares confirmados, só que a Comissão não pode se dispor de outros cinquenta mil.
Taylor Mayfair terminou seu relato com uma pressa desesperada. Os olhos de Ethan estavam duros feito pedra.
— Quando isso aconteceu?
Taylor franziu as sobrancelhas, confuso.
— Que diferença faz?
— Responda — Ethan o disse com tanta veemência que o louro não teve coragem de responder qualquer outra coisa… muito menos de mentir.
— Há alguns meses…
O punho de Ethan bateu na mesa, fazendo Taylor quase pular da cadeira. Seu sussurro estava tão envenenado de ódio que não foi muito diferente de um berro.
— Foi por isso que você se aproximou de mim? — Taylor subitamente parou de olhá-lo nos olhos. — Foi por isso, não foi? Se aproximou do único idiota rico o suficiente para resolver seu problema. Você nunca quis ser meu amigo, nunca sequer havia se interessado em saber meu nome até que eu e meu irmão aparecemos na mídia.
Ethan se levantou.
— Você vai se arrepender de ter feito isso. — Levantou-se e caminhou para fora de sala. Quando já estava na porta, virou-se e disse: — Mas antes eu resolverei seu problema. Afinal de contas, eu quero me formar.
Saiu da sala dando passos pesados. Ao invés de sair da unidade do terceiro ano, subiu até o telhado, onde felizmente não havia ninguém. Quando percebeu-se sozinho sob o céu de um azul tão claro quanto os olhos de Oliver, apenas sob os olhos dos deuses e de ninguém mais, permitiu-se finalmente chorar. Nunca se arrependera tanto de ter se aproximado de alguém quanto naquele momento. Quer dizer, por qual outro motivo Taylor Mayfair o faria? Era isso que Ethan era, não? Apenas um garoto rico.
— Por que alguém iria querer se aproximar de mim? — indagou a ninguém em especial. Queria ver Oliver ali, ele saberia o que dizer. Eles o temem, eles o amam. Preferem admirar de longe, em segurança, ele diria certamente. Depois o abraçaria e o beijaria, como bem sabia que ele gostava.
Se ao menos aquele desgraçado do Peter Marahana nunca tivesse ido àquela escola… se ele nunca tivesse ido à Saint Emanuelle. Ele poderia estar aqui agora, comigo.
Ainda se lembrava da primeira vez que vira Peter. Tinha dezesseis anos quando Ethan tinha catorze, seu cabelos e seus olhos castanhos não tardaram em conquistar as jovens recatadas da St. Emanuelle, mesmo que fosse duas vezes repetente. Lembrava-se dele em sua mesma sala, a sala que dividia com Oliver, e dos olhares temíveis que lhe mandava.
Um imaturo Ethan de quatro anos atrás encara aqueles olhares como desejo e confrontara o jovem Peter. Ora, Oliver era dele, não era? Os beijos e os abraços e as palavras e os poemas que ele dava e fazia eram todos de Ethan, e de mais ninguém.
Peter limitou-se a encarar Ethan como se ele tivesse ficado louco, depois deu uma gargalhadinha cruel e deu-lhe as costas. Agora vê o que acontece com quem se mete comigo, foi a última coisa que lhe dissera, com o rosto retorcido de prazer enquanto estuprava Oliver, seu Oliver.
Ethan daria tudo para ter visto a bola de fogo em que se transformou o carro que o matou. Daria tudo para vê-lo implorando piedade, queria sentia sua misericórdia sendo pedida. Queria ouvir seu grito de dor da mesma forma que fora obrigado a ouvir o de Oliver, e vê-lo chorar da mesma forma que fizera Ollie chorar. Seu Ollie.
Pensar que levara Taylor para sua própria cama agora enojava Ethan, mas o que podia fazer? Nicholas o olhava com desprezo agora, não dormiam juntos desde que ele descobrira tudo; a sombra da verdade pairava no ar como um veneno insolúvel. Ethan sabia que as coisas nunca mais seriam as mesmas entre ele e seu irmão.
E ainda havia o negócio da banda. Fez uma ligação.
— Romney, não fale, apenas ouça. Quero que marque uma reunião com a banda Honey Land comigo o mais cedo que puder. E certifique-se de que todos os membros aparecerão.
Sem esperar resposta, desligou. Tivera de pensar durante apenas dois segundos para saber onde foi que vira o nome Honey Land antes, mas agora se lembrava. O pôster oficial da banda estava na parede de uma das alas da Lemnsack & Lovegood, assim como o de muitas outras.
— Agora vê o que acontece com quem se mete comigo — repetiu as palavras que ouvira há muitos anos para o nada e para ninguém. E, naquele momento, estes lhe pareciam os seus melhores amigos.
OoO
— Agora o senhor Lemnsack pode nos contar por que diabos você foi até os confins do mundo nesse momento tão inesperado. — A voz de Nick transbordava sarcasmo. Lorenzo estava a seu lado, brincando com uma caixinha de veludo a qual continha os brincos de diamantes.
— Bem — Ethan começou —, bem sabem vocês que John Francis construiu sua fortuna através da mineração de diamantes. — Nick assentiu impacientemente. — A primeira mineradora que ele fundou se chamava Hentz & Filhos. Quando nossa mãe dissolveu a companhia, a Hentz & Filhos foi engolida por um conglomerado maior chamado Hoffmann Gold.
— Você comprou a Hentz & Filhos? — Nick indagou.
— Você não ouviu? Ela foi engolida por um conglomerado, se tornou parte dele. Eu não comprei a Hentz & Filhos. — Ethan sorriu, dando uma pausa dramática. — Comprei a Hoffmann Gold. E o renomeei para Lemnsack & Hentz.
Um silêncio tomou a sala. Lorenzo foi o primeiro a falar.
— Como?
— O velho senhor Anselm Hoffmann, Jr. estava nas últimas, era o filho do Hoffmann original. A empresa do pai dele competiu com a de John Francis, e logo tornou-se uma das maiores mineradoras da África do Sul. Bem, o atual Anselm Hoffmann tem apenas uma filha que não tem muito interesse pela companhia, de modo que ele sabia que uma fusão seria inevitável. Ele pôs 62% das ações da Hoffmann Gold à venda e tinha dezenas de ofertadores… mas ele vendeu a mim.
— Por quê? — Nick indagou.
— Creio que ele gostou de mim. Isso é, realmente gostou de mim. — Ethan sentiu um arrepio. — Aliás, eu afugentei alguns dos maiores acionistas da companhia quando dobrei o salário dos trabalhadores e fechei propositalmente três minas de manganês. Poucas horas depois, reabri as minas, mas deixei os salários como estavam. Vocês deviam a ver a merreca que lhes davam. Creio que o velho Anselm vai morrer mais feliz sabendo que sua mineradora está em boas mãos.
— Mãos que não sabem absolutamente nada sobre mineração — Nick sugeriu. Ethan deu de ombros.
— Que há para saber? Dirigir uma empresa é mais fácil do que eu pensava… mais divertido também. Agora, a Lemnsack & Hentz tem sete subsidiárias, sendo que cada uma explora uma coisa diferente: diamante, ouro, platina, carvão, manganês, minérios de ferro e urânio, e todas são subordinadas a ela. Pus Hoffmann como presidente da subsidiária principal, que é a Lemnsack & Hentz. Ele já se aposentou, mas acho que vai se divertir mais assim. E assim como a Lemnsack & Lovegood, a Lemnsack & Hentz é subordinada à Anhert… Inc. É tipo uma hierarquia.
— E você está no topo — comentou Nick animadamente. — Você sabia que não estamos em 1887? Que já existe telefone, internet, teleconferência? Por que diabos você teve mesmo que ir em pessoa lá?
— Porque eu sabia que Anselm Hoffmann não me venderia se eu não fosse pessoalmente.
O desgraçado tem faro para os negócios, pensou Nick, assim como um maldito Hentz. Vai se tornar um John Francis moderno. Ou um Samuel. Quando ele nasceu, os deuses jogaram uma moeda para cima para ver se a loucura o perseguiria. Em breve veremos ver qual foi o resultado.
— Eu me lembro como se fosse ontem de você falando que deveríamos viver discretamente — disse Nick, pondo as mãos atrás da cabeça e os pés em cima da mesinha de centro. — Pouco tempo depois, nos mudamos para uma mansão de quatro andares. Depois que saímos dela, você comprou uma Mercedes de quatrocentos e vinte mil dólares.
— Quatrocentos e vinte e três mil dólares — Ethan resmungou. — As coisas mudam. Eu tinha dezesseis anos.
— Agora você tem dezoito, não quer dizer que tenha de deixar o poder subir a cabeça.
— Eu não estou… — Ethan suspirou. — Lorenzo, vá para o seu quarto por um momento.
— Mas eu queria ouvir a briga — ele resmungou, pegando a bengala recostada no sofá. — Por que vocês não fazem algo interessante que eu possa ouvir…
Quando o menino sumiu nas escadas, Nick viu Ethan fitando-o com uma sobrancelha levantada.
— Que é que há? — o maior indagou. Nick deu de ombros.
— Acontece que agora você é um grande empresário e vai nos abandonar.
— Não seja dramático.
— Você acha que vai ser muito diferente dos seus antepassados? — indagou angustiado. — John Francis viveu para preparar John Daniel para assumir a Kruger-Vorheel; o coração de John Daniel batia pela empresa e o de Samuel também, e aquele cara era megalomaníaco. Por que foi mesmo que nossa mãe desmantelou a companhia?
— Ela era fraca.
Os lábios de Nick se comprimiram. Havia uma frieza gelada nos olhos de seu irmão, que não parecia mais ser seu irmão, e sim um jovem magnata.
Eu que comecei isso fazendo-o comprar a agência de publicidade. Não posso mudar as coisas. É o destino de Ethan.
— Então espero que você não seja. — Nicholas Hentz se levantou do sofá. — Talvez você tenha razão, nossa mãe era fraca. Ela só não voltava para casa porque sentia medo e ódio do Oliver. — Viu com um prazer latente a expressão surpresa no rosto de Ethan. — Eu sabia disso, mas não me importava porque Oliver te fazia feliz. Por muito tempo, eu me perguntei quem eu deveria odiar, Mary Alice Hentz ou Oliver Castanelli.
Nick subiu as escadas, deslizando os dedos pela madeira. Antes de sumir de vista, olhou para a sala lá em baixo, observando como estava bem-decorada, e disse:
— Agora eu sei.
OoO
A poeira nunca parecia deixar aquele lugar infernal. Deslizando os pés nus pelo chão da loja de antiguidades, espanando aqui e ali, Bathory observava seu próprio reflexo no vidro do lampião a azeite de 1854 que tencionava vender. Por séculos andara recolhendo objetos aparentemente sem valor que todos tinham e os vendia cem, duzentos ou até mesmo trezentos anos depois.
Por quase vinte séculos, acumulou fortunas quase imensuráveis e desconhecidas no mundo atual. O tempo não tardava para ela. Um dia e uma noite, um verão e uma primavera, um ano ou outro eram quase a mesma coisa, todos os períodos de tempos fundiam-se uns nos outros. Bathory marcava sua vida pelas ressurreições de Jhahantar. A cada cinquenta anos, fazia seu trabalho por um ano e então ele se ia, assim como Bathory.
Nunca ficava sempre no mesmo lugar. Na metade do ano seguinte, planejava deixar Middleland, até mesmo a Califórnia, e ir para outro país. Outro continente, se possível, onde pudesse recomeçar tudo de novo como sempre fizera.
Olhou-se no espelho. Estava alta e magra, com uma cascata de cabelos negros como as Sombras caindo por seus ombros. Alguns podiam descrevê-la como estonteantemente linda; outros poderiam achá-la muito pálida. Queria Bathory saber como reagiriam se soubessem que durante um ano alimentava-se apenas com o doce néctar que era o sangue de crianças. Achava engraçado.
Desde que aquele doce menino que lhe escapara entrara em seu Porão, o Mal andava mais furioso do que nunca. Começou com o roubo do milenar punhal de prata que usava para os sacrifícios, muito embora Bathory tivesse outro idêntico. Jhahantar começara a exigir mais sangue, quase não deixava nada para Bathory.
Sabia que, quando ele a tocara, sugara suas lembranças enevoadas. A esse ponto, as Sombras já deviam ter contaminado sua mente. Já tentaram tocá-la antes, aqueles sugadores de lembranças; nenhum durava muito tempo. Acabavam enlouquecendo antes pelos frequentes pesadelos e visões. Era prazeroso.
Porém, sabia que de alguma forma, ele era diferente, aquela criança de feições delicadas e cabelos compridos. Parecera poderoso demais ao tocá-la. Pessoas normais teriam morrido ou entrado em coma na hora, mas ele apenas desmaiara. Levou pouco tempo para notar que ele era Rowan Pyatt.
Ainda se lembrava de como provocara aquele acidente que deveria tê-lo matado, mas matou sei pai adotivo. Já se livrara de sua mãe, aquela poderosa maldita Atheneus. Agora precisava fazer o mesmo com o filho. Quando o fizesse… a dinastia bimilenar oriunda de Murrough Atheneus acabaria para sempre, e Bathory poderia acabar seu trabalho em paz durante toda a eternidade.
Imaginava onde podia encontrar Rowan Pyatt enquanto levava o lixo para fora da Ultimum Temporum e um papel de jornal velho chegou voando dos céus como um sinal divino. Bathory o pegou com dedos longos e brancos. Aprendera a não ignorar sinais, por mais sutis e irrisórios que fossem.
Na capa, um jovem rapaz de cabelos negros e óculos do qual Bathory se lembrava muito bem estava ao lado de um garoto louro do qual se lembrava melhor ainda. Tinha acabado de abrir uma empresa, o rapaz. E vejamos só que conveniente. Tinha até seu endereço.
OoO
Carmenia Goldenschild não sonhou àquela noite, graças a Deus, mas acordou com uma terrível dor na coluna e com uma outra pior ainda na cabeça. Gemendo baixinho, se levantou do tapete no qual estava deitada e pôs-se a olhar em volta.
Havia comida espalhada pelo bonito papel-de-parede vitoriano, assim como pelos móveis e até grudada no teto. Por todo o espaço daquela sala, pessoas dormiam jogadas em qualquer lugar que fosse mais confortável que uma cama de pregos. Dois garotos estavam deitados nus sobre uma caixa de som. Carmen achou aquela cena estranhamente adorável até notar que estava sem sutiã.
Todos anda dormiam, mas mesmo assim cobriu os seios. Nigel estava com as pernas jogadas no sofá e o resto do corpo no chão. Não sabia bem como seu sutiã fora parar dentro da camisa dele, mas o pegou gentilmente e o pôs de volta. Vickie estava jogada no chão ao seu lado, profundamente adormecida. Seu cabelo amassava-se por baixo da cabeça, e ela meio que abraçava Nigel com um dos braços.
Andou pelos incontáveis cômodos da mansão. Havia comida e bebida atirada em todas as paredes, copinhos de plástico e garrafas de vodka adornavam o ambiente, móveis antigos virados de cabeça para baixo serviam de cama para incontáveis adolescentes. Carmen desceu as escadas à procura de seus sapatos. Encontrou-os nos pés de um garoto que dormia com a língua para fora.
Lembrou de resquícios da conversa que tivera na noite anterior com Vickie. Ela e Carmen tinham uma amiga de sua antiga escola chamada Noelle Treffout que daria uma festa àquela noite em sua casa, no condomínio Jardim de Ouro. Fora difícil convencer Nigel a ir, mas Vickie acabou conseguindo.
Noelle estava atirada em cima do sofá com uma garrafa de vodka na mão que ainda tinha um resto de líquido. Carmen se ajoelhou e pôs-se a sacudi-la. Noelle tinha longos cabelos da cor do mel, e balbuciou alguma coisa, incomodada.
— Noelle, ei, Noelle — disse. — Você não disse que sua mãe volta às dez da manhã? São quase dez.
Noelle abriu alguns milímetros de seus olhos, sorveu o resto da garrafa e virou a cara, voltando a dormir.
Carmen levantou e dirigiu-se para fora de casa, respirando o ar feito de ouro daquele lugar.
Havia um Audi azul estacionado em frente à grande mansão. Uma mulher baixa e gorda, loura de olhos azuis e já na casa de seus cinquenta anos mandava um jovem rapaz de vinte e poucos anos tirar as malas do porta-malas. Vickie sempre dizia que Louise Treffout era uma notória caçadora de homens e que já casara doze vezes. Ela devia estar voltando de lua-de-mel e aquele era seu décimo terceiro marido.
Quando viu Carmen, abriu um grande sorriso no rosto porcino.
— Olá, Carmenia — disse polidamente. Carmen a cumprimentou alegremente. — Como vai seu pai?
— Muito bem de saúde, obrigada.
— Noelle me disse que faria uma reunião com alguns amigos. Como foi?
Carmen não se lembrava de absolutamente nada que acontecera naquela noite.
— Muito boa — disse cautelosamente.
A senhora Treffout sorriu e continuou observando o rapaz descarregar as malas. Carmen atravessou a rua e ficou prostrada em frente a casa, perto de uma praça, observando-a atentamente.
Um garoto de cabelo cinza e olhos violetas se aproximou sorrateiramente.
— Olá — ele disse. — Você é Carmen Goldenschild?
— Sim — Carmen disse com um sorriso. — E você?
— Pode me chamar de Melchior. — Havia um brilho adorável em seus olhos. Ele tinha olhos travessos de criança. — Você é a namorada de Nicholas, não é?
— Não, sou a namorada do Nigel.
Ele olhou-a profundamente antes de assentir.
— Semestre passado, a ex-namorada dele foi assassinada naquele banco ali, junto com o filho dele.
Carmen sentiu um arrepio.
— Melhor eu me manter longe daquele banco.
— Certamente. Vim aqui para ver o término da festa.
— O término? — indagou surpresa.
— Sim. Os términos são sempre mais divertidos que os começos.
Os dois observaram a senhora Treffout entrar na casa pela porta dos fundos com seu novo marido. Melchior contou até dez em voz alta antes de um berro estridente ser ouvido aos quatro ventos.
Dois segundos depois, dezenas e dezenas de adolescentes começaram a correr pelas janelas enquanto a senhora Louise Treffout berrava algo incompreensível.
— Noelle está em apuros — comentou Melchior animadamente.
Nigel e Vickie surgiram da janela da frente. Vickie estava sem blusa, apenas de sutiã, e Nigel tinha os cabelos louros desgrenhados e o rosto vermelho.
— Que é que você está fazendo aqui? — ele indagou rispidamente a Melchior, que se limitou a sorrir; arfava.
— Eu é que pergunto. Eu moro aqui, esqueceu?
— Por que não me acordou? — Vickie gritou para irmã, olhando em volta. — Vamos embora daqui antes que algum fotógrafo surja.
Puxou Carmen pela mão e Nigel seguiu os dois. Carmen ainda teve tempo de virar e gritar um adeus a Melchior, que assentiu com um aceno de mão.
Tomaram um táxi de volta à Wintorland. Quando a paisagem suburbana de Middleland foi substituída por grandes gramados perfeitamente aparados e cercas de dois metros de altura, Vickie se permitiu voltar a respirar. Nigel contemplava o horizonte com uma expressão neutra.
— Sabe dirigir? — Vickie indagou a ele sem nem dirigi-lo um olhar.
— Meu irmão nunca me permitiu aprender — ele respondeu sonolentamente. — Tem medo de que se eu aprender, vou roubar a Mercedes e batê-la no primeiro poste que encontrar.
— Quer aprender? — ela perguntou sorrindo. — Acho que não há ninguém em casa hoje. Ben foi com Romeo para Los Angeles, que é onde Hélène vive. Ela pôs na cabeça que algum dia será uma grande atriz. — Vickie fez um som de asco. — Acho que teria sido melhor para Ben se ele tivesse crescido com os pais por perto.
Quando o táxi parou em frente ao Château de Wintorland, Vickie deu a volta ao prédio com Nigel. Carmen foi atrás, perguntando-se onde tudo aquilo daria.
Havia um campo gramado por trás do Château onde um exército poderia ser alocado. Era menor que um campo de futebol, mas não tanto. Vickie desceu até a garagem enquanto Nigel e Carmen esperavam pacientemente. Ela voltou a subir dirigindo uma Ferrari Enzo vermelha.
Nigel quase pulou para trás; tanto de susto quanto pelo fato de que ela quase o atropelou.
— Você quer me ensinar a dirigir nisso? — ele indagou perplexo.
— Você prefere o Porsche? Eu teria trazido a Lamborghini, mas ela está lavando.
— Eu posso ser a pessoa mais irresponsável do mundo, mas até eu sei que não é uma boa ideia aprender a dirigir numa Ferrari de um milhão de dólares e duas toneladas.
— Não seja bobo — disse Carmen. — São apenas setecentos mil dólares e mil trezentos e sessenta e cinco quilos.
— É isso aí — disse Vickie, passando para o banco de passageiros. — Entra aí antes que eu realmente te atropele.
Como o carro tinha apenas dois lugares, Carmen sentou-se na grama enquanto observava-os zanzando pelo gramado. Vickie era a última pessoa que ela indicaria para ensinar alguém a dirigir; não se passava um minuto sem que ela berrasse com Nigel por ele estar fazendo algo errado.
No final daquela tarde, ele conseguia chegar de zero a cem quilômetros por hora em menos de quatro segundos.
— Ethan vai me matar quando descobrir que eu quase bati a Ferrari do pai de vocês — comentou animadamente. — Quatro vezes. Quem teve a ideia de colocar aquelas árvores ali?
Estavam no quarto de Carmen, os três completamente nus, deitados na cama king-size. O ar estava enevoado com a lembrança do que acabaram de fazer. Carmen gostava de fazer aquilo com Nigel. Ele era carinhoso e gentil e acariciava seu cabelo.
Dormiu com seu sussurro, baixinho e afetuoso como uma névoa fria.
Eu amo vocês…
OoO
A banda Honey Land possuía três integrantes que só poderiam ter surpreendido mais Ethan Lemnsack se tivessem três olhos cada. Não sabia se era o preconceito por serem uma banda de rock, mas dos dois homens, um tinha um moicano de sete pontas em que cada uma era de uma cor diferente e diversos piercings no rosto, o outro tinha mais gel no cabelo do que Ethan julgara ser possível e vestia-se exatamente para parecer um nerd bobo. A garota era uma patricinha no sentido mais estereotipado da palavra; o cabelo era artificialmente louro-prateado e vestia-se de cima abaixo de rosa.
Ethan sentou-se na cabeceira da mesa de reuniões da Sala de Conferências e observou-os por um momento. Depois sorriu.
— Senhores. E senhora. Devem se perguntar por que os chamei aqui. — Descobrira recentemente que a coisa mais divertida numa reunião de negócio era falar com extrema formalidade, mesmo que eles provavelmente não passassem da casa dos vinte anos. — Chegou ao meu conhecimento que iriam tocar na festa de formatura da Academia Alphonse Enoi em novembro, certo?
— Certo — disse o do moicano, cujo nome era Chris. O outro chamava-se Teddy e a garota chamava-se Ashley. Ethan não tinha certeza se eram seus nomes verdadeiros. — A gente assinou o contrato com um garoto chamado Taylor Mayfair. O com a cláusula.
Aquilo acendeu uma luz na cabeça de Ethan. Eles tanto não sabiam que Ethan estudava na Academia Alphonse Enoi quanto pensavam que ele apoiava a cláusula.
— Isso aí… — murmurou. — Me digam, meus queridos, há quanto tempo têm contrato feito com essa agência?
— Há uns dois anos. A gente assinou com Stevie Martell. Foi ele quem sugeriu que, vez ou outra, a gente utilizasse da cláusula.
O velho desprezível realmente não perdia uma. Não é a toa que Eric e Sylvia Martell estavam a ponto de celebrar a morte do pai.
— Não têm medo de que as casas de show parem de fechar com vocês? — indagou suavemente, com uma sugestão de sorriso no rosto.
— Não, não fazemos sempre — disse Ashley. Usava uma saia tão curta que era quase possível ver seu útero. — Só com quem não tem experiência nisso, assim ninguém fica sabendo.
— Interessante. Quer dizer então que aproveitam para roubar quando descobrem adolescentes inocentes e extasiados.
O ar da sala ficou tenso. Ethan sorriu um pouco mais.
— Eu não sou Stevie Martell, apesar de que aumentar o cachê em quanto e quando bem entenderem não é ilegal dado o contrato abusivo que fazem as pessoas assinarem. Vocês vão fazer o seguinte: vão retirar o pedido de aumento da Academia Alphonse Enoi e vão tocar na festa de formatura deles como uma boa banda de rock, está certo?
— E se a gente não quiser? — indagou Teddy efusivamente.
— Então terão que procurar outra agência de publicidade e outra cidade para tocar, uma cidade em que os meus sussurros que dizem o que vocês fazem não cheguem, num país em que eu não tenha influência. Que tal… hm, não sei, Coréia do Norte?
Dois minutos depois, saindo da Sala de Conferências, Ethan Lemnsack sentia o coração palpitar no peito. Não de nervosismo, de excitação. Exercer poder para manipular e massacrar pessoas desagradáveis era mais extasiante do que parecia. Agora entendia Melchior.
Um pouco depois de ter comprado a agência, Ethan descobriu que ela não era apenas um dos destinos mais escolhidos por jovens publicitários para começarem a carreira, mas também uma das que tinham os profissionais mais requisitados do país. Também descobriu que Stevie Martell era um tirano e que quase todos os funcionários odiavam-no. Romney Lovegood era um caso a parte; essencialmente neutro.
Quando Stevie morreu e Ethan entrou, o mundo dentro da agência prendeu a respiração e esperou que viesse o que viesse. Porém, ao contrário de Stevie, que frequentemente ordenava a seus melhores publicitários que refizessem uma mesma propaganda cinquenta vezes dentro de um prazo de dois dias, Ethan era gentil e desde sempre demonstrou um grande desejo de ouvir conselhos, estando sempre aberto a uma opinião alheia, desde a do mais alto executivo até o mais baixo funcionário.
Com o passar dos dias, isso criou uma admiração especial por parte dos funcionários a Ethan, transformando-o num patrão amável e respeitável, mesmo que fosse exigente principalmente nas questões que envolviam a Goldenschild's Eletronics e a Academia Alphonse Enoi. Frequentemente dava bônus aos empregados que achava competentes ou que apresentavam boas ideias, mesmo que ele as não exercesse.
Houve uma certa vez em que, num momento de tédio e talvez de loucura, Ethan abriu a caixa de força do seu escritório e destruiu o interruptor que ligava os telefones que eram usados para se comunicar dentro do próprio prédio da Lemnsack & Lovegood. Ethan pôs a culpa nos ratos.
Os eletricistas levaram mais de seis horas para consertar o problema, visto que os ratos também roeram os fios elétricos por trás do interruptor e depois tiveram a inteligência e o cuidado de encaixá-lo de volta. O resultado fora que, sempre que alguém queria se comunicar com alguém do outro lado de uma grande sala, tinha que berrar. E a Lemnsack & Lovegood tinha grandes salas.
Aquele dia fora totalmente improdutivo, mas os funcionários passaram a amar Ethan um pouco mais por causa daquilo, principalmente porque Romney quase tivera um colapso nervoso de tanto estresse.
Na África do Sul, Anselm Hoffmann frequentemente se comunicava com Ethan, que afinal descobrira que precisava de alguém para lidar com tantos papeis de licitações e outras burocracias, tanto da Lemnsack & Hentz quanto da Lemnsack & Lovegood.
É esse o início da Anhert, Inc., pensou ele, observando seus mais de cem funcionários fazerem aquela empresa girar. Mas não posso mais levar trabalho para casa. Preciso de outro lugar, outro… prédio, onde eu possa administrar tanto a mineradora quanto a agência. E tenho que escolher direito. Esse prédio pode ser no futuro a sede da Anhert Corporation.
OoO
Quando chegou em casa, despencou no sofá. O trabalho era bom, mas a escola sugava sua vitalidade. Pela primeira vez, Ethan Lemnsack compreendia como o ensino médio era surpreendentemente inútil. Esperava que aquele ano acabasse de uma vez.
Alguém bateu a porta. Arrastando-se, Ethan abriu-a. Sob a luz fraca do corredor, encontrou Rowan e Gillian Pyatt. Ambos pareciam ansiosos.
— O que há? — indagou. Rowan entrou bruscamente no apartamento junto com a irmã, fechando a porta por trás de si.
— Bathory esteve aqui — ele sussurrou. — Bathory, a atendente da Ultimum Temporum. Não tenho tempo para te deixar a par de tudo. Aqui. — Rowan arrancou a luva preta da mão e agarrou o pulso de Ethan, que sentiu uma súbita vertigem e uma vontade repentina de vomitar. Imagens complexas lhe atravessavam os olhos. — Pare de repelir as imagens, deixe-as fluir.
A contragosto, Ethan o fez. A loja de antiguidades surgiu em seus olhos. Viu-se entrando numa antessala e descendo por um longo Porão, onde as Sombras reinavam. Depois a imagem pulou para uma enorme mansão e então para um labirinto de quadros e mais quadros…
— Vê? Agora vê? — Rowan indagou ansioso. — Bathory esteve aqui, eu sinto isso. Não sei como ela descobriu esse endereço, mas conseguiu. Gillian quase teve um colapso nervoso com a quantidade de Sombras que ela exalava. Você não viu que a luz do seu corredor está fraca? Acha que é porque a lâmpada está a ponto de queimar?
Cada palavra era uma chicotada na mente de Ethan. As informações ainda embaralhavam-se em sua mente desordenadamente.
— Acalme-se — ele pediu, empertigando-se novamente, tentando não vomitar. — O que pretende fazer?
Rowan quase explodiu.
— Por que é que eu que tenho que fazer algo? Eu sou uma criança. — Emburrado, ele se jogou no sofá. — Precisei te avisar que ela veio. Ela roubou o punhal.
Ethan tentou se lembrar do tal punhal… sim, de prata com o cabo preto e com o símbolo amarelo encrustado.
— Então… — começou cautelosamente — ela roubou o punhal que você havia roubado e que pertencia a ela?
Rowan lançou-lhe um olhar venenoso.
— Não é hora para brincadeiras. Ela está matando crianças, você não vê?
— Vejo. Também vejo que acionar a polícia não adiantaria de nada. No momento em que eles abrissem a porta do Porão, não veriam nada além de uma parede. As Sombras o encobriria com ilusão.
— Isso… — disse Rowan. — Eu acho que sim. Mas estamos todos em perigo. Bathory nos descobriu.
— Vou perguntar de novo — disse Ethan — porque você parece ser a única pessoa que conhece a resposta. O que você acha que se deveria fazer?
Rowan apertou os lábios, olhando enfezadamente para o chão. Ethan achou que ele se parecia muito com Lorenzo naquele aspecto.
— Acho que eu devo descer até o Porão de Bathory de novo… e não parar na porta de madeira. Só me prometa uma coisa, Ethan.
— O quê?
— Você vai chorar no meu enterro.
— Não seja bobo. Jhahantar não devolveria seu corpo. Ele lhe comeria vivo.
Rowan ia dizer alguma coisa, mas Gillian interrompeu-o, segurando entre os dedos um folheto com a figura de um prédio que tirara de cima da mesinha de centro.
— O que é isso? — ela indagou. Ethan ficou tentado a lhe dizer que era um folheto, mas Gillian falava tão pouco que mudou de ideia.
— É um folheto… de um prédio chamado Grandes Expectativas à venda na Rua Primeira. — A Rua Primeira era a avenida principal de Middleland, onde o metro quadrado era o mais caro. Era um centro comercial que juntava negócios de grandes e gigantes empresas. — Eu pretendo… comprá-lo. Falando em folhetos, eu devia ter te trazido um papel que achei num cofre da minha mãe, mas fui estúpido o suficiente para trancá-lo de volta no cofre sem perceber.
— Não — ela disse com veemência, quebrando o clima. — Não deve comprá-lo.
Ethan franziu as sobrancelhas.
— Por que não?
— Porque não. Porque ele vai desabar e matar você e todos dentro dele. — Ethan ficou sem palavras. — Tive vários sonhos com um prédio desabando.
— Existem muitos prédios por aí — insistiu. — Pode não ser esse. E a maioria dos seus sonhos não são proféticos.
Gillian fitou-o sem expressão.
— Você não vai comprá-lo. — Ela virou o folheto, cujo verso exibia o logotipo de várias construtoras e empreiteiras. — Aqui. — Apontou-lhe uma cujo nome era Grandes Esperanças. — Você deve comprar essa construtora. Não discuta comigo, sou uma maldita clarividente.
— Mas ela é minúscula e sequer está à venda.
— Então faça uma oferta que eles não possam recusar. Temos que ir agora. — Gillian puxou Rowan pela mão em direção à porta. — Temos uma loja para invadir e você tem um mundo a ganhar.
OoO
Amo você, meu garotinho.
Ele estava num largo corredor que não tinha fim nem começo. A voz ecoava pelas paredes de pedra branca e lisa, sinistras quando o vento gelado lhes batia, fazendo ressoar seu rugido como um presságio macabro. O teto era alto demais para ser olhado, tão alto que nuvens azul-claras cobriam toda sua extensão com estrelas como pontinhos brilhantes.
Amo você, meu garotinho…
Ele lhe machucava. Primeiro as costelas, como sempre, depois as costas e então descia até o dorso. Sempre soubera o que ele fazia, como gostava de dizer enquanto chicoteava-o com uma língua de fogo, então por que punia apenas a ele? Por que não… por que… por que não?
… você, meu garotinho…
O fogo consumia-lhe a carne muito depois de a tortura parar. O corredor agora era uma agourenta tormenta, com rios de água cinzenta a correr pelas colunas, quase as derrubando. As estrelas sumiram. O frio imperava. Os trovões tremiam desde a base até o invisível teto.
… meu garotinho…
Levantou-se num ímpeto, seu coração ardendo por algo que não conhecia ou não queria conhecer. Os cortes sangravam como fogo líquido, mas ele se arrastou até o fim do corredor, onde uma porta tão grande quanto um navio esperava para ser aberta. Parecia ser muito pesada, mas ele não desistiu, enfiando as unhas nas rachaduras do chão para se arrastar.
… garotinho…
As línguas de fogo voltaram. Agarraram-se a seus tornozelos e agora puxavam-no de volta. Não podia deixar, a porta estava tão perto! A chuva não parecia afetá-las, e quando as empurrava tudo o que conseguia era queimaduras nas mãos. Quando deu por si, já estava lá, bem no batente da porta. Empurrou-a para frente e entrou na claridade branca e pura.
— Gabriel?
Gabriel Melnick se remexeu na cama. Vendo, a princípio, apenas pontos brilhantes acima de si, deu-se por si fitando os olhos verdes de Brandon. Ele estava vestido apenas com uma camisa sem mangas e com uma cueca. Por baixo dos lençóis, Gabriel tremia e suava. Sentia uma vontade incontrolável de chorar, mas aquelas olivas escuras confortaram-no.
— Está bem? — Brand indagou, deitando-se a seu lado. A pergunta fora cortesia. Era óbvio que não estava.
— Não — murmurou, chutando o lençol para longe. Sentia calor demais e as roupas pesavam. — Tive um pesadelo. Só isso.
Brand ficou em silêncio por longos segundos fitando-o. Gabriel parecia cansado e assustado com algo, como se lhe atormentasse até hoje. Puxou o irmão para si, abraçando-o carinhosamente e dando-lhe um beijo na têmpora.
— Quando você tinha pesadelos, costumava vir ao meu quarto, se lembra? — ele indagou roucamente. Gabriel gostava de sua companhia, mas não conseguia deixar de ignorar sua ereção crescente. — Eu te deitava do meu lado e te fazia falar do pesadelo até que adormecesse… e quando estava assustado demais para falar… — Ele pressionou o quadril contra o de Gabriel, que se remexeu incomodado, mas não se levantou.
— Eu… — gemeu. Não conseguia mais aguentar aquilo. Sentia o calor de Brand ultrapassando sua camisa ensopada e a ereção dele entre suas pernas. — Eu estou assustado demais para falar.
Brandon fez Gabriel tirar a camisa, fazendo o mesmo depois, e gentilmente desceu o calção, até que ambos ficassem só de roupa íntima. Seu membro delineava-se sob o tecido branco da cueca enquanto ele o pressionava contra as nádegas do irmão.
O pôs de costas, deitando-se de bruços em cima dele. Os rostos ficaram a centímetros de distância; Gabriel sentia a respiração de Brand em seu rosto. Ele ficara mais pesado.
Sem desviar os olhos dos do menor, Brandon começou a descer sua cueca lentamente. Gabriel observou o físico escultural do irmão antes de ele enfiar o membro entre suas coxas e começar a estimulá-lo assim.
— Isso me lembra tanta coisa… — Brand arquejou, aumentando o ritmo da masturbação. Gabriel aumentou o aperto entre suas coxas, pressionando mais o pênis. — Oh, Deus. É a melhor coisa que existe.
Gabriel puxou-o para beijá-lo nos lábios, sentindo uma onda elétrica lhe atravessar. Deslizou uma das mãos pelas costas musculosas do irmão até chegar em suas nádegas, onde as apertou com força. Brand estocava-o com delicadeza, como gostava de fazer. Enfiou o rosto em seu pescoço e sentiu seu cheiro.
Sentiu um jato quente molhar suas coxas no mesmo momento em que Brandon tremeu dos pés à cabeça, gemendo baixinho em seu ouvido. Chamava-o de meu garotinho todo o tempo, continuando a se masturbar mesmo depois do orgasmo.
Virou-se para o lado e pôs-se a ofegar, com os olhos fechados e a boca levemente aberta.
— Quando eu fui embora — Brand disse —, me perguntei se você cresceria com sequelas. Parece que o fato de que eu tinha vinte anos e você tinha onze só me veio quando eu estava no avião.
— Você começou com isso quando eu tinha dez anos.
— Sim, mas eu já tinha vinte. Eu tentei resistir, mas não consegui. Você era a pessoa que eu mais amava no mundo… e ainda é. — Brand deu-lhe um selinho, depois outro e mais outro, sempre com a maior vontade do mundo. — Era a única pessoa que me excitava. Eu queria você pela perspectiva de te fazer sentir prazer. Não por qualquer outra coisa. Eu amo você, garotinho.
Seus olhos transbordavam sinceridade.
— Quero que você venha comigo — Brand sussurrou. Gabriel levantou as sobrancelhas.
— Para onde?
— Quero que venha morar comigo. Eu já termine a residência e vou passar a ganhar razoavelmente bem, vou comprar um apartamento em algum bairro afastado de Middleland e quero que você venha morar comigo.
Gabriel não disse nada.
— Você não gosta de morar aqui, eu sei disso — continuou. — Se vier morar comigo, teremos um espaço só para nós. Podemos fazer o que quisermos, foder aonde quisermos. Você não entende que esse é o único motivo pelo qual voltei? Porque eu queria ficar com você.
Brandon voltou a beijá-lo. Gabriel não saberia dizer quanto tempo ficaram debaixo dos cobertores se dando prazer, mas sabia que não fora pouco. Pela primeira vez em suas vidas, exploraram o que cada um tinha de oferecer em relação ao sexo. Brand gemeu como nunca gemera quando Gabriel afundou o rosto entre suas nádegas e posteriormente o penetrou.
— Oh, Gabriel — ele gemeu. Estava de bruços com as pernas abertas; Gabriel investia contra ele com uma vontade que nunca tivera com ninguém. Mordiscava seu ombro e seu pescoço. — Vai. Isso. Com força. Oh, me mostra que você não é mais um garotinho.
Gabriel ejaculou no irmão, controlando-se para não gritar.
— Pensa na minha proposta — Brand suplicou, beijando-o com força. — Eu vou te dar tudo o que você sempre quis. Até te deixo ser ativo.
Gabriel sorriu, acariciando seu cabelo.
— Eu tenho namorado.
— Se gostasse realmente dele, teria falado que eu existo. Por que nunca falou?
— Ethan Lemnsack também tem segredos que não me conta. Eu queria ter o mesmo. Ou algo que chegasse aos seus pés.
Brandon Melnick fitou-o longa e profundamente antes de beijá-lo de novo.
— Acho que me enganei. Você continua a ser um garotinho.
OoO
Nicholas não o ensinara exatamente como fazê-lo, dissera apenas para seguir seus instintos. E foi isso que Lorenzo fizera.
Às vezes, em momentos que julgava serem de pura loucura, desejava que as pessoas fossem cegas como ele. Assim, poderiam apreciar um pouco mais o mundo que as cercava e senti-lo como realmente era, sentir o poder que ele exercia. Poderiam ver mais do que seus olhos mostravam. Lorenzo já aprendera que olhos podiam ser surpreendentemente enganosos se não se soubesse dosar o que mostravam.
Goldie mordiscou seu pescoço. Lorenzo sentiu uma corrente elétrica ultrapassar seu corpo. Estava sobre ele, sentindo a maciez de sua pele quente e o calor do suspiro de seus beijos. O cheiro de seu cabelo loiro estava impregnado em seu nariz.
— Eu gosto tanto de você… — murmurou Lorenzo, com uma ânsia súbita a apertar-lhe o coração. Não contara a Goldie porque sabia que ele não compreenderia, mas desde que o conhecera o via envolto por Sombras negras como a noite. Vivia com a possibilidade de que ele não fosse à escola no dia seguinte por causa de algum problema sério. Aquelas Sombras não surgiam do nada daquele jeito.
— O que há? — Goldie indagou. A voz dele era tão doce, quase feminina. — Você parecia feliz… agora está triste.
Lorenzo fitou-o com piedade. Estou com a sensação de que algo muito ruim vai acontecer logo. As palavras vieram à boca e quase as disse, mas no final se controlou. Acho que finalmente estou me tornando um Lemnsack.
— Não é nada — respondeu. — Não fico triste quando estou com você. — Beijou-o nos lábios com vontade e paixão. Goldie retribuiu timidamente, apertando o pescoço de Lorenzo com os braços. — Eu te amo.
— Eu também te amo.
E assim ficaram, por muito tempo, abraçados. Nada mais existia, apenas os dois.
OoO
Bathory ofegava. A juventude estava se esvaindo, sentia isso enquanto deslizava pelas Sombras da escadaria de seu Porão. Quando parou em frente à porta de madeira, sentiu-se tentada a descer, mas sabia que lá se encontrava sua destruição. Jhahantar estava cobrando seu preço; veias azuis se delineavam pela pele cada vez mais fina de seu braço, a fadiga voltava agora como uma velha mancomunada e a negritude de seu cabelo acinzentava. Ainda faltava tanto tempo para o que chamava de Ritual de Purificação, o último ritual antes de Jhahantar adormecer novamente.
Ainda se lembrava do último; fora ali mesmo, naquela loja. Antes de se transportarem para a Califórnia, porém, estavam em Cuba. O país começava a sofrer pelo embargo comercial dos Estados Unidos de 1962 e ainda se recuperava da Revolução Cubana. Bathory ainda se recuperava do terremoto do Irã.
Instalara-se numa fazenda da cidade de Havana, o mais longe possível afim de repelir olhares curiosos, mas foi realmente impossível. Uma jovem e linda mulher mudando-se sozinha para uma grande fazenda era demais para as fofoqueiras e mexeriqueiras da época. O único alívio de Bathory era que enquanto aquelas velhas estivessem debaixo da terra sendo comidas pelos vermes, ela respiraria eternamente.
De algum modo, porém, a Chaulwen a descobriu, obrigando-a a partir para a Califórnia, que na época já era um país. Aliás, as autoridades de Havana já começavam a suspeitar do desaparecimento de crianças por aquela área. O furação que Jhahantar deixou-lhes de presente de despedida foi adorável de se ver.
Em Middleland, já em 1963, Bathory realizou o Ritual de Purificação, o último, e então pôs-se a descansar, enquanto sua juventude deteriorava-se impiedosamente. Aquele rito era cruel, o mais desgastante, e já o repetira dezenas de vezes.
Sentiu a respiração ruidosa do Mal puxá-la lá para baixo, pedindo sua carne e seu sangue. Ele lhe avisara, Bathory sabia disso. A septuagésima geração haveria de causar mais problemas do que ela poderia suportar. Fazia centenas de anos que o último Atheneus, um holandês chamado Petyr, tentara interferir nos rituais, e este morrera em suas mãos artríticas, berrando de agonia enquanto o fogo quente como o inferno lhe açoitava a pele. Fora num vilarejo da França, onde vários outros parentes de Petyr, também da família Atheneus, foram acusados de bruxaria e queimados na fogueira pelo juiz de bruxas. Petyr também foi queimado, mas não na fogueira, muito menos pelo juiz de bruxas.
Se a criada da família não houvesse fugido com o último descendente direto de Atheneus embalado em seus braços para Port-au-Prince, no Haiti, a família teria sido encerrada. O filho de Petyr cresceu como filho da criada, sem conhecimento algum de quem era ou do que podia fazer, e assim foi com seu filho, com seu neto e com o filho deste. Apenas quando a Chaulwen conseguiu localizá-los foi que revelaram toda essa história, e a essa altura os Atheneus estavam assustados demais para interferirem.
Rowan Pyatt era a septuagésima geração, e Bathory precisava matá-lo. Esperava encontrá-lo em casa no dia em que a invadiu, há quase dois meses, esperava enfiar o punhal em sua garganta e depois em seu peito, tomando cuidado para nunca deixar de fitar seus olhos, pois queria que a escuridão das Sombras fosse a última coisa que ele visse.
E pensar que quase conseguira fazê-lo num tempo em que sequer sabia quem ele era.
Finalmente abriu a porta de madeira e adentrou no frio gelado do Porão. Gostava de um pouco de rusticidade, daquele ar primitivo, assim como era o ar do mundo quando Jhahantar se levantou das Sombras criadas pelos homens. Velas vermelhas automaticamente acenderam uma suave luz alaranjada que refletia nas tapeçarias, criando sombras sem forma que repousavam no assoalho de pedra.
Bathory andou através das fissuras do chão. O sangue das últimas crianças ainda estava fresco. Tudo se inclinava à lareira de tijolos vermelhos, derramando-se no buraco do chão. Todo aquele recinto era uma ilusão; aquele Porão não passava de um porão comum, revestido de cimento e sem lareira nenhuma. Talvez um pouco frio pela falta de aquecimento, mas nada que fosse comparável àquele frio sepulcral. A escadaria antecedente não descia mais que aquilo e não estava coberta de Sombras, mas o Mal se escondia em seu fundo, alimentando-se do sangue dos inocentes, como há muito fazia e como sempre faria, mesmo quando o mundo deixasse de ser mundo e o último resquício de vida estivesse morto. E apenas aí ele imperaria, e nunca antes. Não quando o sangue de Atheneus corresse pelas veias de qualquer humano.
Como sempre, os encapuzados vestiam túnicas pretas e tinham uma criança nas mãos, segurando-as pelos ombros. Formavam um círculo, liberando o espaço do meio. Quando pegava a jarra cheia de sal, normalmente era tomada por uma entidade desconhecida que ditava as palavras por ela. Eram palavras desconhecidas por qualquer humano, incompreensível por qualquer criatura viva. Sequer os encapuzados chegavam a ouvi-la, pensavam que a mulher estivesse apenas movendo os lábios sem exercer nenhum som.
Quando terminou o círculo de sal, Bathory cobriu-o com outra roda de sal e então fez um círculo menor dentro deste. Os encapuzados puseram as cadeiras no espaço entre os dois círculos e lá sentaram suas crianças, enclausurando-se no círculo menor, de onde não podiam sair até o fim do ritual.
Bathory caminhou até a lareira e sentou-se no chão de pedra, de costas para o buraco sem fundo, de frente para os círculos. O velho zumbido apossou-se do aposento, como várias abelhas presas dentro de uma colmeia, quando ela começou a cantar numa voz rasgada como uma lixa, um cântico terrível e enigmático.
— Jhahantar — Bathory sussurrou. O zumbido parou, e do contrário o fez o silêncio das velas. As sombras nas paredes começaram a dançar ruidosamente, deslizando seus dedos pelos corpos infantis que arfavam ansiosos. Tomaram formas humanas e riram, gargalharam em silêncio, um silêncio denso e impossível de ser quebrado. A sala tornou-se quente como o inferno, e as sombras se erguiam esplendorosas, mas cruéis. Quando o rugido primitivo do Mal subiu do buraco da lareira, os encapuzados passaram a despir as crianças, sem deixar o círculo de sal, é claro. Converteram as cadeiras em macas, deitando os jovens sacrifícios.
As crianças estavam deitadas, nuas, em transe.
As meninas que deram suas moedas à criança mendiga entraram no Porão. Eram magras e pálidas, vestidas em velhas camisolas de renda. Caminhavam inconscientemente, com os olhos fechados, ainda presas no mundo dos sonhos. Uma tinha um laço rosa prendendo o cabelo louro num rabo de cavalo. Sentaram-se nas duas cadeiras vazias do espaço entre os círculos antes que Bathory murmurasse mais algumas palavras e Jhahantar desse ordem para começarem.
Um dos encapuzados torceu os pequenos seios de uma das meninas até que ficassem vermelhos. Sem tirar os pés do círculo menor, penetrou-a violentamente. Toda vez que a menina gemia, ele lhe esbofeteava a cara. Resfolegava e suava como um animal no cio, e assim agiu quando chegou ao ápice. Puxou-lhe um tufo de cabelo ruivo até que o arrancasse, depois o usou para apertar seu pescoço.
As mulheres usavam as unhas para arranhar e tirar lascas de pele de suas crianças. Algumas enfiavam agulhas debaixo das unhas dos meninos, depois circundavam seus mamilos com as mesmas, tudo numa torrente de sangue ininterrupta. Usavam a boca para dar prazer aos mais velhos por um instante, então apertavam seus membros com tanta força que ficavam vermelhos.
Um encapuzado pôs um dos meninos de quatro em cima da maca e montou-o como um cão monta uma cadela. Estocava com tanta força que Bathory temeu que a maca fosse cair, mas isso não aconteceu. Um outro encapuzado parecia ter acabado de fazer dezoito anos. Gemia alto, animalesco, enquanto estocava um jovem rapaz de doze anos ou um pouco menos. Estava totalmente fora de si quando virou-o e fincou os dentes com força em seu pescoço, quase arrancando fora a carne.
Outro homem violentava uma jovem garota que já havia ido ali. Ela aguentava tudo com uma força de vontade estridente. Ele lhe deu um soco no rosto.
As meninas da moeda continuavam intocadas.
Tudo durou quase uma hora. Quando todos os encapuzados já estavam novamente vestidos dentro do círculo menor e as crianças sentadas nas cadeiras, Bathory se levantou, erguendo o punhal de prata tão alto como se fosse um prêmio. Era o mesmo que pegara de volta de Rowan Pyatt, com a lâmina tão clara quanto uma manhã nevada. Uma das sombras deslizou seus dedos negros pela jovem menina quando Bathory cortou-lhe superficialmente o pescoço, sem que ela desse um único grito de dor. Quando conseguiu arrancar-lhe a cabeça, o corpo caiu no chão. Pouco depois, sua irmã teve o mesmo destino.
O sangue deslizou pelas protuberâncias do piso até o buraco da lareira, de onde um urro primordial surgiu, raivoso.
Bathory pretendia caminhar até a lareira e encostar a cabeça em frente ao buraco em total devoção, ela pretendia… mas uma voz doce a impediu.
— Ahn… — Quando virou-se para ver, era uma das crianças da cadeira. A hipnose devia estar acabando. Tinha que acabar com aquilo logo. — Onde eu estou?
Não havia nada que a impedisse de ir lá e hipnotizar a criança novamente para que voltasse a dormir, não havia motivo para que qualquer um dos encapuzados tomasse qualquer atitude… porém, para seu horror, para seu total e completo horror, Bathory percebeu-se assistindo uma rara cena inédita, notou-se vendo algo que jamais havia visto em toda sua vida.
Um dos encapuzados deixou o círculo.
OoO
Bastante longe dali, Gillian Pyatt acordou de um longo sono. Arfava e sentia-se sufocada, e também levemente claustrofóbica. Quando abriu a janela, uma lufada de ar quente atravessou seu corpo. Entontecida, ela caiu no chão, tateando-o à procura de algo que não compreendia o que era.
Se arrastou ao quarto de Rowan em pânico. Teve de sacudi-lo para que acordasse.
— O que aconteceu? — ele indagou no momento em que abriu os olhos.
— N-Não… — Gillian murmurou. Sentia um desespero tão grande, e ao mesmo tempo tão sem propósito, sem origem… — Alguma coisa aconteceu.
— Que coisa? Onde?
— Não sei, com Bathory! Com quem mais? Ela está fraca. Alguma coisa que nunca havia acontecido antes aconteceu. Ela está mais fraca e mais vulnerável que nunca. Não está jovem. Jhahantar não foi alimentado como deveria. Alguma coisa aconteceu, Rowan.
Gillian estava a ponto de ter um colapso nervoso, mas forçou-se a se controlar. Seus cabelos cor-de-rosa desgrenhados grudavam-se à testa suada, e seus redondos olhos azul-acinzentados, grandes e observadores.
— Sabe o que isso significa? — indagou suavemente para o irmão. Rowan franziu as sobrancelhas, certamente sem querer que ela continuasse. — Significa que hoje é Dia das Bruxas, o Halloween. Significa que a nossa magia está um pouco mais forte. Significa… — Sua voz não era mais que um sussurro — que está na hora. Na hora das bruxas.
Fale com o autor