Como Vivem Os Anjos
40 A Hora Das Bruxas
Chamam de a hora das bruxas aquela hora no meio da noite em que nenhum
humano está desperto, quando as criaturas noturnas podem ouvir sua
respiração, sentir o cheiro do seu sangue, ver o desenrolar dos seus sonhos. É a
hora em que o mundo é nosso, quando podemos caçar, matar, proteger.
(Diários De Stefan — Origens
— L. J. Smith)
OoO
Houve um tempo, quando ainda era uma criança triste e solitária, em que frequentemente sonhava em sair pelo mundo com nada mais que uma trouxa de roupas e um punhado de comida, fingindo que era um viajante ou aventureiro a explorar campos desertos e montanhas geladas. Uma vez, quando seu irmão lhe perguntara o que gostaria de ganhar de presente de aniversário, implorou-lhe que o levasse numa volta pela cidade.
Ao invés disso, Brandon Melnick entrou em seu quarto à noite e fez amor com ele.
Houvera tempos em que Gabriel costumava chorar até dormir. Costumava enfiar a cabeça no travesseiro e deixar descer todas as lágrimas quentes que tanto segurara na frente dos pais, das tias… e do irmão. O frio da escuridão lhe proporcionava a melhor hora do dia, onde ninguém iria julgá-lo, nem maltratá-lo.
Como podiam elas dizer algo como Por que você não pode ser como seu irmão? e Por que você não pode ser como o Brandon? achando que aquilo não feriria seus sentimentos? E era ele quem tinha Síndrome de Asperger?
Estavam dando uma festa para comemorar o término do ensino médio de Brandon quando sua tia August perguntara-lhe o que achava de seu vestido e ele respondeu que era horrível, fazendo a velha tia chorar em frente a todos. Seu pai batera-lhe quando ninguém estava vendo, embora certamente escutassem. Mais tarde, aquilo seria o que o enfureceria mais: a omissão.
Brandon não chegava realmente a escapar disso, mas quando se esgueirava na sua cama de noite, limpava suas lágrimas e o abraçava até que dormisse, Gabriel sentia tanto que não poderia deixar de perdoá-lo, quanto não conseguiria sequer sentir raiva. Brandon fazia o papel de bom moço porque alguém precisava fazê-lo. Alguém precisava sanar a chama existente dentro do pai.
— Você sabe que isso vai passar… — ele sussurrava, beijando-lhe a bochecha. Gabriel se perguntava se ele já o desejava àquela época. Achava que sim. — Um dia.
Um dia, realmente, passou. Um ano depois da ida de Brandon ao Canadá, seu pai embebedou-se numa noite em que, graças a Deus, sua mãe não estava em casa. Toda sexta-feira ele gostava de beber algumas doses de uísque antes de ir para a cama, mas aquele era o aniversário de um ano da partida de seu irmão. Merecia algumas doses a mais.
— Por que você não pode ser como seu irmão? — ele indagou assim que Gabriel chegara em casa. Segurava um cartão-postal com uma paisagem nevada ao fundo. O Canadá realmente não oferecia vistas muito diversificadas. — Ele está estudando medicina, medicina, com dezoito anos de idade. Em outro país, ainda por cima.
Já ouvira aquilo antes centenas de vezes de dezenas de pessoas diferentes, inclusive do pai. A ladainha nunca mudava. Brand isso, Brand aquilo… ele era Deus, ou talvez um pouco mais. Àquela altura, Gabriel já conhecia Ethan Lemnsack e iniciava o lento processo de se apaixonar por ele. Parte de sua devoção àquele rapaz calado cujo carismático e louro irmão mais novo era a criatura mais insuportável que já conhecera na vida era causada pela necessidade de suprimir a perda de Brandon.
Planejava ignorar o pai, como sempre fazia quando o encontrava bêbado.
— Eu sei o que você fazia com ele — seu pai disse. Aquilo fez Gabriel interromper seu caminho até o quarto, franzindo as sobrancelhas. O uísque podia estar brincando com a mente de seu pai; a garrafa encontrava-se quase que toda vazia. — Quando ele entrava no seu quarto e você fazia aquelas coisas.
Gabriel sentiu algo inflamando dentro de si. Tinha doze anos naquela época e dez e onze na época de Brandon, mas era impressão sua ou seu pai estava pondo a culpa… nele?
— Sempre soube que você era uma bichinha. — Sua voz estava tão engrolada que era difícil entender o que dizia. — Sempre, tentou até contaminar seu irmão.
Naquele momento, Gabriel com todo o prazer teria matado o pai.
— Eu tinha dez anos quando ele entrou no meu quarto e me molestou, você está dizendo que a culpa é minha? — indagou fazendo força para não gritar. A lembrança da cinta do pai remetendo-se contra suas costelas ainda ardia em sua memória, a dor ainda era latente. Por vezes, podia até sentir a pulsação deixada pelo couro brandido.
— Você não gostava? — ele indagou com um sorrisinho irônico. — Não gostava quando ele subia em cima de você e gozava na sua cara? Eu ouvi os seus gemidos. Oh, Brand. Faça mais. Por favor… mais.
Gabriel sentiu-se repugnado. A imitação do pai feriu-lhe mais que qualquer surra que pudesse ter levado, mais que as palavras humilhantes da família, mais que a sombra de Brandon; a sombra na qual tivera que se esconder por toda a vida. A pior parte era que se lembrava perfeitamente do dia em que gemera daquela forma. Era tão jovem, não era errado ter sentido prazer sem igual?
Fitava os olhos do pai quando os viu se arregalando. O velho escancarou a boca e deixou cair a garrafa de bebida, molhando o chão e empesteando a sala com o cheiro acre do uísque. Caiu no chão num estrondo, completamente imóvel, mas num tremelique estável, como uma estátua em contato com algo que treme… um fino fio de saliva escorria de sua boca e se misturava ao uísque.
— A-A… — ele arquejou — ju-jude-me.
A têmpora de Gabriel latejava. Não sabia dizer por quanto tempo ficara olhando-o imóvel, sem sentir um pingo de piedade. Parte de si sabia que devia ligar para uma ambulância. A outra parte queria enfiar um dos cacos de vidro da garrafa no pescoço do pai e deixá-lo lá.
— Por que não pede ao Brandon? — sussurrou suavemente. Gabriel virou-lhe as costas e fora para a cama, onde dormiu tranquilamente pela primeira vez desde a última em que se deitara com o irmão. Sonhou com ele, aliás. Estavam juntos numa longa praia, cuja areia era fina e branca como açúcar e o mar era de um verde quente como seus olhos sob o sol de verão. Faziam amor sobre a areia, é claro, e a sensação foi maior e mais vívida do que a que experimentara na vida real.
No dia seguinte, quando Gabriel acordou, recebeu a trágica notícia de sua chorosa mãe: seu pai havia tido um derrame na noite anterior e morrido ali mesmo na sala.
Quando o tempo passou, Gabriel Melnick parou de imaginar se tivera algo a ver com aquele derrame e passou a aceitar o fato como realidade. Ele o fizera, sabia disso, apenas não como. Já ouvira falar de pessoas que faziam aquilo, podiam mover objetos apenas com a força da mente… então por que não podia ele ter estourado algumas artérias na cabeça de seu pai apenas com sua raiva? Se era Brandon Melnick Deus, por que Gabriel Melnick não podia ser o Diabo? Fora apenas uma noite, afinal… só uma vez. E nunca mais.
Gabriel jamais contara aquela história a ninguém, nem a Brandon, nem a Ethan.
Seu irmão agora encarava-o com suas olivas verdes, esperando a resposta de uma pergunta já respondida cinquenta vezes.
— Não — tornou a repetir. — Não vou morar com você. Pare de pedir.
Brand não tornou a pedir, mas Gabriel sabia que não desistiria tão cedo. Ao invés disso, puxou o menor pela cintura e beijou seus lábios. Ele o empurrou.
— Parece ter se esquecido do que fizemos esses dias — disse Brand, pressionando a própria ereção contra o irmão. Com esses dias ele se referia há mais de um mês atrás. Já estavam no final de outubro. — Hoje é seu aniversário e é Dia das Bruxas também, isso merece uma comemoração especial. Eu já comprei o apartamento, sabia? Queria te levar até lá para que você me fodesse em todos os cômod…
— Pare com isso — Gabriel insistiu, tentando afastar a própria excitação. A ideia de morar com o irmão e servir-lhe de amante tomara seus sonhos durante anos, mas era isso que era… um sonho, nada mais que isso. Era uma loucura transportar para a realidade. Brandon era seu irmão.
— Não paro. Quero que venha. O apartamento é seu, comprei pra você.
— Não comprou nada.
— Comprei sim. Pus no seu nome.
Gabriel ficou olhando-o, perplexo.
— No meu nome? Por que fez isso?
Brand deu de ombros jovialmente.
— Porque sim. Pode levar quantos garotos quiser para lá, inclusive o Ethan. Pode continuar namorando-o, eu não me importo. Só quero que durmamos na mesma cama, que façamos amor todas as noites. Quero que more comigo, que cresça comigo e que viva sua vida comigo. Quero ser seu amante, seu namorado ou seu marido, não importa. Quero que me ame…
— Eu amo você…
— … como mais que um irmão.
— … mas não mais que a um irmão. Droga, Brandon. Não quero trair Ethan.
— Disse-me que ele já te traiu.
— Isso é diferente. Não foi com o irmão dele.
— E se fosse? Você acha que o perdoaria? Nós dois sabemos que sim, porque o que você sente pelo Ethan não é amor. É submissão pura. Você é o cachorrinho dele, é obcecado por ele porque queria que alguém cuidasse de você. Porque eu não estava aqui. Porque eu estava longe.
— Estava longe porque quis. Me abandonou porque quis. Você me chama de cachorrinho do Ethan, mas durante a vida toda me tratou como se eu fosse o seu cachorrinho. Foi embora pensando que estaria disponível para você quando voltasse. Só que eu não estou.
— Mesmo assim, aceitou me comer de bom grado — Brand disse secamente.
Gabriel deu-lhe um tapa na cara. Estivera segurando-se há quase dois meses para não fazê-lo, mas queria desesperadamente tirar aquele sorriso estúpido do rosto do irmão, aquele sorriso presunçoso que o acompanhara a vida toda.
— Vá embora — pediu-lhe, com vontade de chorar. Agora, o tapa parecera uma coisa estúpida. — Vá embora, não quero mais ver você.
Sabia que ele não o faria. No fundo, sabia. Brandon trancou a porta do quarto e se deitou ao lado de Gabriel na cama, acariciando-lhe o rosto triste. Deu-lhe um beijo na bochecha. No segundo seguinte, beijava sua boca.
— Você quer.
Ele sempre soubera como fazer, sempre soubera do que Gabriel gostava. Brand pôs-se entre suas pernas e pressionou o falo contra o do seu, aprofundando o beijo. Gabriel abraçou-o com as pernas, deslizou as unhas pelas costas largas até chegar às nádegas. Brand gemia baixinho. Em intervalos regulares, mordiscava seu lábio e seu pescoço. Como sabia que Gabriel gostava.
Nunca entendera direito por que sempre preferira os mais velhos; achava que era porque gostava que eles tomassem controle da situação para que Gabriel invertesse os papeis no final, onde acabava penetrando-os. Brandon sabia disso e assim o fazia, mesmo que fosse nove anos mais velho. Apesar de Ethan ser mais velho, ele parecia ser mais novo, mas compensava isso com uma habilidade incrível de dar prazer na cama.
Brand selou-lhe os lábios carinhosamente, beijando a ponta de seu nariz. Estava com o zíper do calção aberto até o final, o membro enorme delineava-se sob o tecido branco da cueca.
— Acho que esse é o melhor aspecto da nossa família — sussurrou Brand com um ar travesso, apertando o próprio pênis sob a cueca e o de Gabriel sob o calção. — Tire as minhas roupas.
Gabriel obedeceu. Deitou Brand na cama e sentou-se em seu colo, bem em cima de seu falo. Inevitavelmente, pressionou as nádegas contra ele, ao passo que o irmão gemeu, se contorcendo. Apertava as coxas de Gabriel, arranhando-as gostosamente.
Tirou-lhe a camisa com lentidão, apreciando o abdômen definido. Deslizou os dedos pelos mamilos claros até que ficassem vermelhos de tesão.
Levantou-se e arrancou-lhe o calção de uma vez. Gabriel segurou o membro por cima da cueca e abocanhou-o com vontade, molhando o tecido branco. Apertava a base com vontade enquanto colocava a glande pulsante na boca.
— Meu Deus — Brandon gemeu. — Tira logo essa merda dessa cueca. Da última vez que eu medi, tinha vinte e dois centímetros.
Gabriel não tirou. Decidiu torturá-lo por alguns minutos antes de finalmente arrancar o pedaço de pano e enfiar o membro do irmão na boca. Brand se contorceu e abafou um gemido. Passou a acariciar os cabelos escuros do menor enquanto este o felava. Gabriel deslizava os lábios para baixo até onde podia, e bem quando sentia a glande dura na garganta quase dando-lhe ânsia, voltava a subir, num vai-e-vem ritmado.
A lentidão enlouquecia o maior, que se contorcia na boca do irmão. Gabriel passou a masturbá-lo enquanto o chupava, pondo toda a força que podia na sucção. Naturalmente, não conseguia pôr tudo na boca, mas engolia o que podia.
Brand ejaculou de repente, num êxtase de frenesia. Gabriel agarrou suas nádegas e engoliu até a última gota, beijando e lambendo suavemente a glande do irmão. Pôs-se a observá-lo ofegar com os olhos fechados e a boca meio aberta enquanto deslizava os dedos pelas pernas musculosas e duras.
— Venha, sua vez. — Brand se virou, pondo-se de bruços. Ergueu o quadril e abriu as pernas para o mais novo, afundando o rosto no travesseiro num suspiro.
Gabriel arrancou o resto das próprias roupas e deitou-se sobre o irmão, pressionando o membro contra a carne macia de suas nádegas. Começou a morder sua nuca com paixão, sentindo o cheiro gostoso de seu cabelo. Brand sussurrava-lhe o quanto o amava e que faria tudo por ele, que não podia viver sem ele. Gabriel mordiscou seu ombro.
Desceu pelas costas largas e musculosas, deixando uma trilha de saliva pela extensão branca e lisa. O sabor salgado da pele de Brand era inebriante, parecia hipnotizar-lhe fazendo-o querer a ele e apenas a ele, e a ninguém mais.
Desceu até as coxas e lhe deu chupões nos músculos duros de uma e mordeu a outra até deixar as marcas dos dentes lá. Mordiscou suas canelas e deslizou a língua pela sola de seu pé, desde o calcanhar até o dedão, beijando e mordendo toda a extensão.
Brand se remexa na cama, pressionando o quadril contra o colchão. Estava aceso de novo. Gabriel se ajoelhou entre suas pernas grossas como pequenos troncos de árvores, abriu sua bunda com as duas mãos e enfiou o rosto entre as nádegas. O maior imediatamente soltou um gemido de tesão, arquejando com impaciência na cama, ao mesmo tempo querendo que ele fizesse tão lentamente quanto possível.
Gabriel rodeou seu ânus e o pressionou com a língua, sentindo os espasmos do irmão. Não importava o que fizesse, ele respondia com uma ação diferente. Quando beijou-o por trás, Brand apertou mais seu cabelo, empurrando Gabriel contra as próprias nádegas, implorando para que ele o comesse.
Puxou as coxas de Brand para si e afundou ainda mais o rosto naquele lugar tão escondido. O cheiro e o sabor do sexo o levava à loucura. Não queria sair nunca dali, queria continuar brincando com o ânus do maior com a boca, bem como fazia Ethan nas noites em que Gabriel passava com ele. Por vezes, passava mais de meia hora ali, enlouquecendo Gabriel de prazer com a língua a tal ponto que o obrigasse a lhe implorar chorando que penetrasse logo. Era uma tortura sádica e humilhante… e certamente excitante.
— Gabriel — Brandon ofegou, com a voz embargada. — Faça de uma vez, por favo… me come. Me foda. Eu sou seu, só faça de uma vez, pelo amor de Deus.
Ordenou-o que ficasse de quatro. Deu-lhe palmadas suficientes para que suas nádegas ficassem escarlates antes de finalmente penetrá-lo de uma só vez, sem lubrificação alguma e sem aviso.
Brandon se contorceu de dor, mas não se permitiu gritar. Gabriel ficou parado dentro dele, sentindo como pulsava. Era tão quente, tão macio… Segurou seus quadris e começou a fodê-lo com toda a força que conseguia, sem se importar com seus gemidos de dor e pedidos para que fosse mais devagar. Gabriel o bombardeava sem piedade alguma.
Em certo ponto, saiu de dentro do irmão. Deitou-se na cama e mandou-lhe que cavalgasse. Brand assim o fez; montou no menor com dificuldade e pôs-se a se movimentar. A cama batia na parede com violência, suas articulações de madeira resmungando enquanto eram postas à prova. Os dois irmãos agora gemiam em sincronia sem se importarem se alguém ouviria ou não. Gabriel suava e ofegava por baixo do corpo enorme de Brand, que pulava e rebolava em seu membro.
Arranhou suas nádegas ensopadas de suor uma última vez antes que finalmente gozasse com força total, num grito simultâneo ao de Brandon Melnick. O gozo do maior atingiu Gabriel no rosto, enquanto este obrigou-o a esperar que saísse de cima de si.
Caíram lado a lado; nus, suados, ofegantes, exaustos, excitados e felizes. Inconscientemente, um entrelaçava os dedos na mão do outro, num laço de carinho impenetrável.
— Eu quero fazer isso todo dia — suspirou Brand. — Todos os dias. Quero chegar em casa e encontrar você fazendo coisas de adolescentes, te jogar na cama e te estuprar até o dia seguinte. Não parece uma ideia maravilhosa?
— Sim — murmurou Gabriel, beijando seu mamilo direito, e depois seus lábios. Fizera-o com paixão e desejo. Odiava-se por desejar tanto assim o próprio irmão. — Num sonho, quem sabe.
— Eu tenho vinte e quatro anos e você tem catorze, e eu te deixo ser ativo em mim. Isso é um sonho.
— Fiz quinze hoje — disse. Brand beijou-o de língua apaixonadamente.
— Feliz aniversário, maninho. Eu te amo tanto, Gabriel… venha comigo. Por favor. Seja meu… só meu. Eu serei só seu.
— Com esse maravilhoso corpinho de jogador de futebol americano, você será só meu?
Brand dirigiu-lhe um olhar surpreso.
— Eu nunca transei com ninguém além de você.
Gabriel olhou-o ceticamente.
— É verdade. Por que acha que eu passava cinco horas por dia na academia aos dezesseis anos? Por que acha que eu tive mais de quinhentas chances de perder a virgindade com uma linda garota ou com um lindo garoto, mas recusei todas? Por que acha que eu nunca dei atenção a quem se interessava por mim? Por que acha que eu escolhi permanecer virgem durante vinte e quatro anos? Era por você, garoto… A nossa primeira vez foi a minha primeira vez também.
Gabriel estava perplexo…
— Eu criei esse corpo porque pensei que você gostaria dele. Eu escolhi fazer Medicina porque eu queria ter uma profissão que perfeitamente te possibilitasse de morar comigo tendo tudo do bom e do melhor. Eu só fui fazer residência no Canadá para, no futuro, ter um salário maior aqui.
… e irritado.
— Você baseou toda a sua vida numa expectativa de que eu aceitaria ter um relacionamento incestuoso com você?
Brand suspirou cansadamente.
— Você não entende, não é? Minha vida não podia ter sido diferente. Eu era infeliz e deprimido até que você nascesse. A mãe nunca te contou isso? Ela esmagava antidepressivos e colocava na minha comida para que eu não me matasse. Quando você nasceu… acho que não sabe, mas a primeira pessoa para quem olhou foi para mim. Eu fui te visitar no berçário e você estava lá, dentro da incubadora, aparentemente dormindo. Tinha nascido de olhos fechados, ainda não olhara para ninguém. Eu me aproximei e sussurrei Gabriel, e no mesmo momento você virou a cabeça e olhou para mim. Com duas horas de vida, você virou a cabeça e abriu os olhos, olhou diretamente pra mim… e riu. Eles não tinham um nome para você ainda, sabia? Eu que escolhi seu nome. Escolhi esse porque tinham acabado de me contar a história do arcanjo Gabriel, de como ele apareceu à Maria e lhe disse que ela teria o Filho de Deus. Escolhi porque eu pensava em você tanto como um anjo, quanto como o Filho de Deus. — Ele deu uma pausa. — Eu não sabia que o pai ia te ver crescer para te desprezar, eu… sabia que ele batia em você, mas não com tanta violência. Juro que quando você me mostrou seus machucados no aeroporto, eu quase o matei. Eu literalmente senti que podia matá-lo naquele momento. Disse-lhe que nunca mais fizesse aquilo, ou eu o denunciaria por maus-tratos e etc.… pensei em ficar, pensei mesmo. Mas eu sabia que se quisesse ter alguma chance com você, eu tinha que ir.
Brandon beijou Gabriel novamente. Um beijo calmo, cálido, repentino e amoroso.
— É, baseei toda a minha vida nisso. Eu devia ter te avisado. Devia ter avisado que eu voltaria para você. Queria ter te contado dos meus planos no dia em que entrei no seu quarto pela primeira vez e arranquei fora minha calça. Ainda se lembra daquele dia? Você estava só de cueca… eu nunca havia me excitado tanto na minha vida. Eu não aguentei não fazer aquilo. Me deitei sobre você e sussurrei o quanto o amava enquanto me masturbava entre as suas pernas. Queria fazer sexo de verdade com você, mas você era muito novo. Me limitei a me deitar nu contigo, garotinho. Eu não teria feito de novo se tivesse visto que você não tinha gostado. Eu amo você tanto. Vê por que quero que venha morar comigo? Não é apenas o sexo, Deus, não é apenas o sexo. É porque você é minha vida. Minha razão de viver. Eu me perco nos seus olhos. Sempre os achei os mais bonitos da família, meu anjo.
Ele abraçava Gabriel com tanta força que era como se fossem só um. Gabriel sentia seu coração bater com o dele, sua respiração em sincronia com a dele, sua excitação crescendo de novo. Imaginou de novo como seria viver com Brandon Melnick. Será como o Paraíso, não seria? Então por que sentia que uma parte de si acreditava que a ideia era terrivelmente errada, como se se fosse àquele apartamento, nunca mais voltaria, e tudo seria o fim…?
— Vem comigo? — ele perguntou, os olhos brilhando de esperança.
— Não vou, Brand. Sendo realista, vejo que você é apenas um pedófilo que quer me comer pelo resto da vida.
— Talvez eu seja, talvez eu queira… mas não é como se você não quisesse também, não é? — Brandon levantou-se, começando a se vestir. — Se não aceitar, Gabriel, me transformarei na maior tormenta da sua vida. Não vou te deixar em paz enquanto nós não treparmos naquele apartamento até o amanhecer. Você vai gostar, prometo. O prédio é um novo que construíram na Rua Primeira. Se chama Grandes Expectativas. — Sorriu. — Assim como as minhas.
OoO
O barulho de metal retinindo contra metal tomava o ambiente numa terrível canção de aço. Tudo era cinza ou focado no cinza, e as pessoas eram letárgicas e mórbidas, como se fizessem parte dos mortos. Ethan Lemnsack observava silenciosamente o ambiente ao seu redor como se pertencesse a outro plano terrestre.
A velha necrologista era uma gorda e baixa mulher já em seus sessenta anos, com um grosso cabelo artificialmente loiro e a pele a cair-lhe sobre os olhos azuis muito claros. Mesmo assim, encontrou um sorriso para lhes dirigir com os lábios volumosos, vermelhos por causa do batom que devia ter passado àquela manhã.
Pelo menos a cada trinta segundos via outra funcionária do necrotério. Também velha, nem sempre gorda, às vezes até bonita. Mas todas muito lentas, como se não houvesse mais ninguém ali além delas e das dezenas de caixões de aço gelado e cruel em que guardavam seus mortos. Ethan nunca gostara de ver cadáveres, ele próprio só não desmaiara ao ver o de Mia para impedir Nicholas de fazê-lo. No momento, estava fazendo a mesma coisa, mas para impedir Nicholas e Lorenzo de verem sua fraqueza.
E se todos tinham seus temores, por que não podia ser o de Ethan Lemnsack um corpo morto apodrecendo em decomposição?
Porque o corpo morto em questão era o de seu pai.
— O pessoal da ANAC também deixou umas coisas — disse a velha mulher a caminhar em passos curtos para outra ala do necrotério. O quarto em questão era amplo e possuía um tom triste de cinza, salpicado com cinza-claro aqui e ali e possuía até uma janela, vedada com película cinza.
Havia todo um armarinho cobrindo uma parede inteira como um grande arquivo. Ethan não queria realmente vê-la puxar uma daquelas gavetonas de dois metros de comprimento para retirar o plástico que cobria os restos de seu pai e forçá-los a vê-los. Era crueldade. Nicholas, porém, estava extasiado. Lorenzo estava curioso. E que medo deveria ter ele, afinal?
— Eles deixaram duas malas grandes de couro marrom e uma bolsa de mão da Louis Vuitton e uma bolsa feminina Dolce & Gabbana. Sua mãe tinha muito bom gosto, se me permite dizer. — Ela lhe dirigiu um sorrisinho afetado. Ethan imaginou como a velha encontrara força de vontade para sorrir num momento como aqueles, ainda mais falando sobre algo tão fútil quanto a marca de uma bolsa, mas procurou ser razoável. Devia ser um de seus poucos prazeres, futricar os pertences dos mortos. Talvez fossem todas muito velhas, aquelas mulheres. — Lamento não terem achado o corpo de sua mãe. Além de seu pai, houve apenas um outro corpo mandado à Middleland, o de Taylor Winthrop. A família já veio enterrá-lo.
Pois que apodreça até o fim dos tempos, Ethan pensou, se amaldiçoando logo depois. A maledicência era para Taylor Winthrop, Jr., não para o Sênior.
Pois que ela o fez. Ethan descobriu-se fechando os olhos estupidamente quando o barulho de engrenagens funcionando fez a gaveta deslizar suavemente bem a sua frente. Era isso, bastava abrir os olhos e contemplar o que foi durante toda a sua vida conhecido como o marido da mulher mais poderosa do mundo, aquele que a traíra com Antonella Barcarolli e que pretendia divorciar-se dela assim que voltasse à Califórnia.
Bem, o que ele estava esperando? Abra os olhos, seu idiota.
— Posso tocar? — indagou Lorenzo inocentemente. Ultimamente, ele andava tendo cada vez menos momentos como aquele, inocentes e puros como toda criança devia ter… Nick o estava envenenando lentamente. Ele nunca mais seria o mesmo, não depois do que descobrira. Aquilo assombrou sua mente: Nicholas nunca mais será o mesmo.
Quando viu, estava de olhos abertos.
Por um momento de puro terror, Ethan Lemnsack esqueceu-se de respirar, pensando depois em como aquilo era uma grande idiotice. Ele era Ethan Lemnsack, não podia assustar-se com um cadáver decomposto. Era um jovem magnata, dono de uma mineradora sul-africana, de uma agência de publicidade e de uma construtora com grande futuro californianas. Decidira seguir o conselho de Gillian; apenas perguntava-se se a construtora Grandes Esperanças valeria a pena. Também negociava a compra de um pequeno império midiático chamado Wright-Welch & I que, desde a recente morte de seus fundadores, era administrado por Greyson e Edward Wright Welch, que tanto eram irmãos quanto membros do Conselho da Academia Alphonse Enoi. A Wright-Welch & I, também chamada de WiW, era detentora de vários jornais e de uma emissora de televisão de Middleland. Ethan sabia que seria aquela emissora que patrocinaria a série de televisão baseada nos livros de Melchior. Achava que aquilo seria interessante.
— Ethan? — murmurou Nicholas, trazendo-o de volta à realidade.
O cadáver estava a sua frente, imóvel, duro e escuro como carvão. O que não havia sido queimado, fora comido pelos peixes, mas o gelado oceano Atlântico preservara o resto. Na verdade, um fenômeno interessante ocorrera: quando o avião explodira, carbonizou a carne de tal forma que esta se tornou dura demais para os peixes comerem, o que acabou inevitavelmente preservando-a. Pequenos trapos de roupa ainda agarrava-se ao osso enegrecido, derretido junto com ele. O rosto era uma ruína; a caveira quebradiça ainda tinha alguns pedaços de carne agarrados a ela como a esperança. Os olhos eram dois poços fundos e negros, sem absolutamente nada. O esqueleto encontrava-se decomposto e carcomido. Teve a impressão de que ele estava lhe sorrindo. Bom trabalho, filho. Domine o mundo, mas antes arrume uma boa moça para casar.
Seria impossível reconhecer aquele corpo como sendo de Charles Lemnsack. Seria impossível reconhecê-lo como sendo de qualquer um. Ethan perguntava-se se não era aquilo uma grande e cruel brincadeira. A coleira de Charlie agitava-se o tempo todo na mão de Nick, o pequeno animal estava enlouquecido com o fedor da morte. Ethan vislumbrou a terrível situação de que se ele estivesse com fome, de bom grado comeria os cadáveres.
Quando percebeu, estava no banheiro do necrotério, humilhantemente de joelhos, vomitando tudo o que podia dentro da privada.
— Você me causa vergonha — Nick desdenhou. E pensar que Lorenzo quisera tocar no maldito corpo…
— Tudo bem, querido — disse a doce velhinha. — Não é o primeiro. Devia ter visto como estava Taylor Winthrop. O pai, não o filho. Ham, comparado com aquele ali, o senhor poderia perfeitamente colocar um terno em Charles Lemnsack e levá-lo para dar uma volta pelo parque que ninguém notaria!
Aquilo fez Ethan vomitar ainda mais.
OoO
Gillian Pyatt dissera-lhe para não comprar o prédio da Rua Primeira, Grandes Expectativas. Bem, talvez ela tivesse razão. Ethan descobrira que o prédio era parte residencial e parte comercial. Não queria aquilo, queria algo só para ele, assim como fizera com a Lemnsack & Hentz, afastando alguns investidores ao realizar algumas peripécias e desfazendo-as quase todas logo depois.
Criara uma regra mental de jamais comprar uma empresa se não fosse para se tornar seu acionista majoritário. Isso evitaria futurar complicações. A questão é que, invariavelmente, gostava de mandar, de exercer o controle, de ter o poder. Poder, aquilo era uma coisa fantástica quando se o tinha. Sentiu um pouco de inveja de Melchior, que tinha conseguido todo o poder que tinha com não mais que a lábia e a beleza. Ethan também conseguira sozinho… e com a pequena ajuda de um bilhão de dólares. Melchior se tornara milionário por conta própria aos doze anos.
Depois de tanto tempo sendo desprezado e esquecido na escola, de ser manipulado, subjugado, subestimado, humilhado e jogado para lá como se fosse um boneco, lá estava ele, Ethan Barcarolli Lemnsack Hentz, um dos jovens mais promissores do mundo atual, que ostentava um sobrenome que valia ouro e dinheiro que valia mais ainda.
Preciso de um símbolo e de um lema para a Anhert, pensou, sentado na confortável poltrona de couro de seu escritório da Lemnsack & Lovegood, o antigo de Stevie Martell. Para um tirano cruel e exigente, ele tinha um excelente gosto.
Uma movimentação do lado de fora da porta chamou sua atenção. Ouvia um batalhão de vozes surpresas e consternados, e quando as portas de mogno se abriram, ouviu a voz da antiga secretária de Stevie, Karen, ao mesmo tempo que lágrimas viam-lhe aos olhos com o súbito fedor de cigarro que tomava o ambiente.
— Senhora Lamme, por favor, ele não gosta de ser interrompido… Senhora Lamme… Por favor…! — A voz de Karen sumiu quando a porta foi fechada.
Parada a poucos metros de Ethan, envolta num grosso casaco de pele de raposa certamente verdadeira, quase da estatura de Lorenzo, uma velha tão velha quanto a antiga Senhora da Língua de Aço, Olenna Olrwen… mas essa exalava uma aura tão magistral que era como se tivesse três vezes o seu tamanho, e muito mais vezes seu poder. Usava uma bengala escura e suntuosa com um punho dourado.
— Gloria Lamme — sussurrou Ethan. A velha pareceu ouvir. Caminhou com seus sapatos de novecentos dólares através da sala, a bengala chocando no assoalho com baques surdos, e se sentou mesmo sem ser convidada. Possuía olhos pretos muito pequenos e observadores, uma boca murcha e escancarada com dentes amarelados de onde fumaça de cigarro saía sempre. Seu cabelo era de um profundo tom de branco, surpreendentemente bonito e brilhante. Fumava um charuto.
— Ethan Lemnsack — repetiu a velha numa voz desagradável como uma lixa. — Lembro-me de você, estava com a nossa nova celebridade, Melon Chioren, bem no meio do meu Conselho, exigindo a saída daquele imbecil do Ernst Overgreen. — Havia um diamante do tamanho de um ovo de codorna adornando um dos dedos finos como gravetos de sua mão.
— Ernst acabou renunciando por ele mesmo — Ethan disse com uma alegria cáustica. Gloria Lamme possuía um império tabagista espalhado por todo o país que agora enfrentava vários processos de esposas cujos maridos morreram de câncer.
— Isso é. Se não fosse pelo doce Melchior, acabaria saindo uma hora ou outra. Gostaria de ter-lhe sugado a juventude antes que ele se tornasse um escritor famoso. — Ela passou o olho pelo recinto, pelas paredes de madeira polida marrom apinhada de pôsteres e antigas propagandas, pelas confortáveis poltronas marrons e pretas, pelas estantes cheias de livros antigos e novos. — Esse é o escritório mais feio que já vi na vida.
— Concordo — ouviu-se dizendo.
— Mentiroso — disse a velha com um sorriso cínico.
— Que está fazendo aqui, afinal? — indagou impacientemente.
Gloria Lamme levantou uma sobrancelha, fingindo perplexidade.
— Por que uma dona-de-casa vai a um supermercado? Por que um futebolista vai a um campo de futebol? Porque um carteiro vai de casa em casa? Por que uma maldita prostituta diz que o programa é cinquenta, cem ou mil dólares? Porque esta é sua natureza, meu querido Ethan. Quero que você propagandeie a Lammex.
Lammex era um nome incrivelmente estúpido para uma grande indústria tabagista como a de Gloria Lamme.
— Concordo — ela disse secamente. Ethan se assustou. Estava ficando louco ou aquela velha assustadoramente pequena acabara de ler seu pensamento?
— Não quero ter nada a ver com as indústrias tabagistas, os danos que elas causam…
— Poupe-me da sua hipocrisia — disse Gloria com impaciência. — Consigo reconhecer qualquer um que tenha usado um único cigarro Lamme uma vez na vida. Você os adora. Compra desde que era menor de idade e fuma quando se estressa. Posso ver agora mesmo. Seus dedos inquietos, seus olhos que não param num único lugar, sua voz rouca e a respiração rapidamente descompassada. — Ela estendeu os braços muito finos envoltos em pele de animal. — Ora, você acha mesmo que o mundo precisa de mais pessoas? Eu não faço nada além do que a Mãe-natureza vem fazendo desde sempre, controlar a espécie…
— A senhora é repugnante.
— Creio que essa é a melhor coisa que ouço desde o início da década.
— Quantos filhotes de raposa morreram para fazer esse casaco que usa agora?
A velha ignorou a pergunta.
— Se quer saber, as indústrias tabagistas são o melhor investimento. O mundo pode estar a um dia de acabar, mas sempre haverá um velho senhor que quererá uma última tragada… e que tragada melhor que a dos meus cigarros Lamme?
Ethan ficou em silêncio.
— Aliás, nos últimos anos viemos avançando no cultivo de maconha.
Aquilo o pegou desprevenido.
— Maconha?
— Sim, não tardará até que ela seja liberada na Califórnia, é apenas questão de tempo. Não dou mais que sete anos, talvez uma década, no máximo. Quem sabe eu já esteja morta até lá. Mas, quando acontecer, a maconha será o futuro. Ela pode ser desde fumada até aplicada em alimentos.
— Por que veio até mim? — indagou finalmente. — A Lemnsack & Lovegood não é nem uma agência tão grande.
Gloria Lamme de repente pareceu velha, magra, cansada, sem um único resquício de seu ar imperial de momentos atrás.
— Estou com oitenta e três anos. Às vezes, alguém tem que me lembrar onde eu estou ou o que estou fazendo, todos insistem que eu devo me aposentar, mas não me sinto com oitenta e três anos. É como se eu fosse uma garotinha no corpo de uma velha. Tenho medo de morrer, meu querido Ethan. Todos os que se opuseram contra mim no início da Lammex estão mortos, naturalmente ou não, e em breve eu estarei também. Pode imaginar como foi para uma mulher criar uma indústria de cigarros no ano de 1950? A nossa velha rainha ajudou bastante, certamente, mas ainda assim… Oh, eu posso, Ethan. Eu posso imaginar. Eu sei como é a dificuldade. Minha família era rica, e mesmo assim eu sofria dificuldades. Como deve ser para você? Um jovem tão incompreendido, tão ambicioso e ansioso, tão… jovem.
Foi então que Ethan percebeu.
— Está aqui porque sou jovem como a senhora já foi um dia. Está investindo em mim porque acredita que eu posso fazer tanto quanto a senhora fez.
— Eu acredito e eu sei. Nunca tive filhos, Ethan. Gosto de pensar nos jovens empreendedores como meus netos. — Gloria deu uma pausa. Sentada quieta ali, com os olhos baixos e coberta de peles até o pescoço, parecia um filhote de urso preparando-se para a hibernação. — Farei com a Lemnsack & Lovegood um contrato anual habitual, mais comissão. Também lhe darei 1% das ações da Lammex.
Ethan não entendeu bem a última parte. Como se percebesse, Gloria Lamme repetiu pausadamente.
— As ações da minha empresa são para você, Ethan Lemnsack. Não parece muito, mas uma única ação da Lammex pode valer dez mil dólares. Isso não te tornará acionista majoritário, como você gosta, mas quem sabe um dia… — De repente, sua voz estava de novo velha e cansada, tão extenuada, frágil e exausta. — Quem sabe um dia…
A porta se abriu novamente num estrondo. A última pessoa do mundo que Ethan esperava estava bem ali, com bochechas rubras e cabelo castanho despenteado. Parecia ter corrido uma maratona. Por trás dele, Karen atrapalhava-se novamente.
— Bem, acho que vou indo — disse Gloria Lamme. Ethan tencionou ajudá-la a levantar, mas ela recusou com um aceno. — Ainda não sou inválida. Ainda ouvirá falar de mim algum dia, Ethan Lemnsack.
Quando Gloria foi embora, Rowan Pyatt agarrou o pulso de Ethan bruscamente com as mãos nuas, jogando uma torrente de imagens desconexas em frente a seus olhos. Entontecido, Ethan caiu de joelhos, mas Rowan berrou para que deixasse de interromper o fluxo como se sua vida dependesse daquilo.
Quando terminou, Ethan tremia levemente, a mente raciocinando rápido.
— É hoje, você tem que fazer hoje — murmurou, ainda meio tonto. Na verdade, nunca tivera tanta certeza de algo na vida. Logo hoje, pensou ele, no Dia das Bruxas.
— Eadwine uma vez me disse que os poderes paranormais de quem tem poderes paranormais ficam mais fortes hoje, ninguém sabe por quê. — Após uma pausa, ele disse: — Hoje também não é aniversário do seu namorado? E você não deu folga a ele?
— Nós iríamos sair juntos mais tarde antes que eu soubesse que o mundo poderia ser destruído.
Rowan piscou.
— Como assim?
— Você acabou de me dizer que as pessoas com poderes ficam mais poderosas hoje. Você não acha que tanto Bathory quanto Jhahantar também estarão mais fortes?
— Sim… quer dizer, não! Eu não sei. Eles não são bruxos ou paranormais. São abominações. — Ele parecia desesperado. Ethan teve uma súbita vontade de abraçá-lo e acalentá-lo, depois de apertar suas bochechas e beijar aqueles lábios carnudos. — Eles estão fracos porque alguma coisa errada aconteceu ontem. Gillian sentiu isso enquanto dormia. Ela acordou histérica, como eu bem te mostrei. Mas… eles também estão fortes porque hoje é Halloween. Então é a mesma coisa?
— Creio que não. — Rowan era tão jovem para entender aquilo, tão novo, e mesmo assim tão poderoso, com uma responsabilidade tão grande nas costas.
— A propósito, a mulher que estava aqui agora há pouco era uma bruxa até os ossos, certamente descendente nem tão distante assim de Atheneus. Ela consegue ler mentes, percebi no momento em que entrei aqui porque acho que ela me disse boa sorte.
— Imaginei.
— E… — Ele hesitou. — Não tenho bem certeza, mas quando eu passei pelo Gabriel, tive a mesma impressão, só que mais fraca. Tão fraca que era quase ínfima. Não quer dizer que ele tenha poderes… pode ter tido e os suprimiu. Isso acontece com muita gente e eles nem sabem. Não sei. Não estou sabendo de nada ultimamente. Estou com medo de entrar no Porão de Bathory.
Ethan notou por um momento que os olhos de Rowan eram alguns dos maiores olhos que já vira na vida, estavam cheios de tristeza e agonia.
— Oh, Rowie. — Ethan segurou o menino pela nuca e o beijou com vontade. Consternado de surpresa, Rowan se retraiu, mas então relaxou e deixou que Ethan fizesse o que queria… estavam começando a se excitar com o calor do corpo alheio quando Rowan recobrou a consciência e se separou.
— Não, não posso fazer isso. Eu tenho treze anos, você tem dezoito.
— Meu irmão tinha treze anos quando eu o comi pela primeira vez — Ethan sussurrou pouco antes de mordiscar os lábios de Rowan. Ele gemeu dolorosamente. Era tudo tão novo para ele, tão maravilhosamente novo e excitante, um mundo de ideias a ser explorado.
Ethan puxou-o pela cintura fina para aprofundar o beijo. Desejava tanto aquela criança assustada e vulnerável àquele momento, desejava possuí-lo carinhosamente, morder seu pescoço e sua nuca… passou as mãos para as nádegas, deslizou-as para baixo da cueca e as apertou com força.
Rowan o empurrou de novo.
— Não, não posso. Sou o último remanescente do ramo principal de Atheneus, tenho que continuar a família, não posso ser uma bicha como você. — Ethan percebia que cada palavra era como uma navalha para Rowan. Doía-o por dentro. Ele queria beijá-lo novamente, queria despir-se e deixá-lo sorver da juventude que apenas um garoto no início da puberdade podia oferecer. — Eu quero você. — Sua voz o traiu, e ele sacudiu a cabeça. — Desculpe, estou confuso. Não posso fazer isso agora. Preciso salvar o mundo.
Ethan lhe deu um selinho, compadecido.
— Eu sei que você consegue, meu doce e jovem Rowan. E quando conseguir, volte até mim, porque eu o farei gritar mais que qualquer criança que Bathory matou.
A relação das coisas fez suas bochechas enrubesceram, assim como fazia as de Oliver. A diferença é que os olhos de Oliver eram gigantemente gelados, enquanto os de Rowan eram quentes e assustados.
— Preciso ir até a loja de Bathory… — ele sussurrou, hipnotizado por seus olhos pretos, tão escuros, tão profundos.
— Use a Mercedes. Pedirei a meu motorista para levá-lo até onde quiser.
— E preciso de alguém que distraia Bathory… ahn, Ethan… ela já conhece a mim, a Gillian, a Lorenzo, a Nicholas, a você…
Ethan sorriu meigamente.
— Eu tenho uma ideia.
Um minuto depois, Rowan Pyatt tocou, sem luvas, em Gabriel Melnick.
OoO
O motorista abriu a porta da limusine no momento em que Gloria Lamme saiu do prédio da Lemnsack & Lovegood. Já no banco de trás do carro, tirou o pesado casaco de pele e fez uma ligação para seu advogado.
— Chrétien, marque uma reunião comigo agora. Não me importa se está ocupado, sabe quantos anos eu tenho? Posso morrer a qualquer momento. Quero mudar meu testamento. — Após uma pausa, Gloria Lamme sorriu pela primeira vez naquele dia. — Encontrei um herdeiro.
OoO
Parado ali em frente à lápide, Nicholas Hentz tinha uma estranha sensação de que algo estava errado. O Cemitério Santa Rosa era o maior de Middleland, e ele se sentia estranhamente bem ao caminhar por entre as lajes de pedra que formavam caminhos tortuosos por cima de colinas, por debaixo de árvores e por entre tumbas antigas.
Havia famílias ali remetentes aos anos de 1800, inclusive a família Hentz. Uma pequena área no nordeste do cemitério fora reservada para guardar os restos mortais de John Francis, John Daniel, Samuel e agora Mary Alice Hentz. Quatro tumbas marcadas com pesadíssimos caixões de pedra com inscrições em vários idiomas assinalavam os lugares. Mary Alice ordenara a criação daquele espaço, dando voluptuosas doações em dinheiro ao cemitério todos os anos. Não fora muito fácil negociar com os EUA o transporte do corpo de John Francis para lá; ele morrera em Nova Iorque quando a Califórnia ainda era estado.
Nicholas caminhava por entre as sinistras tumbas, observando as datas de nascimento e morte dos antepassados de Ethan. John Francis Hentz, 4 de janeiro de 1867 a 28 de novembro de 1937. John Daniel Hentz, 22 de julho de 1909 a 15 de novembro de 1979. Samuel Nikolo Hentz, 8 de maio de 1930 a 4 de junho de 2000. Mary Alice Hentz, 21 de julho de 1973 a 7 de fevereiro de 2012.
A exceção de Mary Alice, todos morreram com setenta anos de idade.
— Tem uns Goldenschild por aqui também — Victoria Goldenschild, que o acompanhava, disse-lhe após um tempo. Carmen estava com eles, mas ela tinha medo de tumbas, então estava apenas calada com os olhos dourados a espreita como uma gata. — Sabia que nós somos descendentes diretos de algum papa? Isso é um segredo da família porque, em teoria, os papas deviam ser celibatários. O Vaticano nos odeia.
Olhando o túmulo ainda vazio da mãe, Nick soltou um gemido. O pesadíssimo caixão de pedra não tinha nada inscrito, enquanto os dos outros Hentz possuíam citações famosas deles próprios em inglês, francês e latim. Perguntou-se quando a família perdera suas raízes francesas. Joselia Jasperin, esposa de Samuel, era francesa, original de Paris. Isso devia significar que Ethan tinha direito à cidadania do país.
E Mary Alice Hentz não estava ali, num daqueles gavetões de pedra, como devia ser.
Foram até outra parte do cemitério, não muito afastada da área dos Hentz, onde Ethan futuramente estaria enterrado. O pensamento o incomodava levemente, mas procurou não se deixar abater.
Sob um enorme carvalho centenário cujas folhas sépia caíam dada a presença iminente do outono, havia apenas uma lápide em meio a tantas outras. Charles Henry Lemnsack, 17 de outubro de 1973 a 7 de fevereiro de 2012.
A parte de baixo das folhas já estava podre e úmida em contato com a terra recentemente lavada pela chuva. O cheiro da grama era inebriantemente bom; Nick pensou que poderia ficar ali por muito tempo. Era quieto e silencioso. Sentiu que aquilo estava errado. A morte não devia ser agradável.
— Vamos embora — falou.
Deixaram o Cemitério Santa Rosa pouco tempo depois. O motorista de Vickie e Carmen esperava pacientemente dentro da limusine negra como a noite. Já dentro do carro, Nick apoiou a cabeça no ombro de Carmen, com a visão distante e pensativa.
— Obrigado por terem vindo comigo — disse-lhes. — Acho que eu não teria aguentado sozinho. É estranho conhecer o lugar em que você vai depois que morrer.
Não queria dizer a elas que pediria a Ethan para ser enterrado em outro lugar, se morresse primeiro. Nicholas se sentira um intruso pisando na grama perfeitamente verde e aparada da área dos Hentz, deslizando os dedos pela pedra fria e úmida que guardavam ossos tão antigos e valiosos quanto sua própria vida. Não queria ser enterrado ali. Esperava que Ethan entendesse.
— Bem… — começou Vickie, olhando de soslaio para a irmã. — Não sei se você está com cabeça para isso, mas a gente tem que te contar algo.
— Desde que não estejam grávidas, está tudo bem pra mim. — Não que a ideia fosse necessariamente ruim, mas depois de Mia, Nick não queria pensar naquilo.
— Não é isso — Carmen apressou-se em dizer. — É que… bem… meio que arde quando a gente urina.
Naquele momento, Nicholas Hentz percebeu que aquele dia seria tremendamente miserável.
Três horas depois, estava sentado numa maca num quarto perfeitamente branco e limpo. Lorenzo estava com eles, assim como um furiosíssimo Ethan.
— Por que tivemos que vir de táxi mesmo? — indagou a ele jovialmente.
— Porque eu emprestei a Mercedes a alguém.
— Qual é a dificuldade de dizer o carro?
— Pelo preço que ela custou, eu tenho todo o direito de ser arrogante.
— Quietos, vocês dois — Lorenzo bradou numa voz que não admitia contestações. Parecia muito mais maduro que qualquer um dos dois irmãos. E pensar que, ainda naquela manhã, eles estavam checando o corpo de Charles Lemnsack no necrotério. Parecia ter ocorrido há mil anos. — Você vai ficar bem, não precisa ficar nervoso — disse a Nick.
— Não preciso ficar nervoso? A médica enfiou um cotonete no meu pênis e diz para eu não ficar nervoso?
— Não, é sério, não fique nervoso, ou eu fico também. Não consigo controlar essa percepção de sentimento que eu tenho. Tudo que as pessoas sentem perto de mim, eu sinto também.
A médica entrou de volta na sala no mesmo momento, lendo alguns papeis. Era uma bonita mulher na casa dos trinta anos, uma loura com olhos acinzentados meio puxados chamada Dra. Hope.
— Bem, Nicholas, você realmente não precisa de preocupar — ela disse. — Você tem uma infecção por cândida, chamada candidíase. Não é necessariamente uma DST, mas também pode ser transmitida sexualmente. É isso que causa a vermelhidão e o inchaço do prepúcio, além da ardência ao urinar.
Pois imagine se os paparazzi chegarem a saber disso, Nick pensou. O enterro do pai foi há algumas horas e as fotos já estão na internet.
— É muito grave? — Ethan indagou suavemente, deixando Nick a imaginar que ele gostaria que fosse.
— Na verdade, não — disse a Dra. Hope. — Vou receitar-lhe uma pomada antimicótica, você deve passá-la na extremidade do pênis diariamente. O tratamento pode durar de uma semana a dez dias, e deve evitar comer alimentos doces e ricos em carboidratos, assim como ter relações sexuais. E seria bom que mantivesse uma alimentação rica em vitamina C. No mais, ela sumirá sem consequências.
Nick olhou para o próprio braço, onde um pedaço de algodão estancava o sangue que retirara. Só então percebeu que aquilo não fora realmente necessário para que ela diagnosticasse a doença. Ethan que o pedira para fazê-lo.
Mas que maldito desgraçado.
— Mas… — disse a Dra. Hope, virando as páginas do bloco de folhas que lia. — Descobrimos algo interessante no seu exame de sangue.
Ethan deve esperar que seja leucemia.
— O que é?
— Bem, deixe-me explicar uma coisa sobre o HIV. Você deve saber que ele ataca diretamente os leucócitos, os glóbulos brancos, do organismo, comprometendo o sistema imunológico. O vírus só pode se ligar a eles porque ambos têm afinidade bioquímica. Em outras palavras, o HIV liga-se aos leucócitos através de uma proteína dos leucócitos chamada CD4. Sem essa proteína, eles não poderiam ligar-se e logo morreriam. Acontece que há 1% de pessoas no mundo que, naturalmente, não produzem CD4. Isso não as afeta em absolutamente nada e elas podem viver uma vida normal como qualquer outra, mas isso também as torna…
— Imunes ao HIV — Nick completou, as peças lentamente se juntando em sua mente. — Está dizendo que… eu não produzo CD4?
— Isso mesmo — disse a Dra. Hope com um sorriso. — Você não tem capacidade de portar ou transmitir o HIV, muito menos de desenvolver a AIDS. É completamente imune a ela. Foi através da medula espinhal de pessoas que não produzem CD4 que cerca de dois portadores da AIDS, um deles também leucêmico, foram dados como curados da doença, nos EUA. Se você encontrasse um portador cuja medula fosse compatível com a sua, o que já é uma chance em centenas de milhões, a sua medula poderia ser a cura dele. Mas, em resumo, é isso. Você poderia perfeitamente manter relações sexuais sem proteção com uma portadora do HIV que não haveria problema algum… isto é, de contrair o HIV. Obviamente, você ainda é suscetível a qualquer outra doença sexualmente transmissível, além de que sua parceira poderia perfeitamente engravidar.
— Não seria possível — começou Lorenzo —, não sei, arrumar um modo de destruir o CD4 das pessoas para que se tornassem imunes?
A Dra. Hope sorriu complacentemente.
— É incrível como absolutamente todo mundo pergunta isso. Infelizmente, não. É impossível.
— Mas não devia ser — Lore resmungou teimosamente.
— Dra. Hope — disse Ethan com a voz poderosamente controlada. — Creio que há uma relação de confidencialidade entre médico e paciente, não há?
Nick saiu da clínica com a sensação de que pisara e esmagara Ethan Lemnsack como se ele fosse feito de papel, embora ainda sentisse um ódio profundamente enraizado no fundo da alma.
A única coisa com a qual você se importou fora com a publicidade negativa, não é, seu maldito canalha? O que pensaria a mídia se soubesse que seu irmão de quinze anos está com uma DST?
— Eu sou imune à AIDS e você não é… — cantarolou provocativamente, o cinismo escorrendo pelos lábios. Observava como o céu estava claro como a felicidade. — Não está um dia lindo?
— Gostaria de andar até em casa? — Ethan indagou emburradamente. Nick sorriu, fazendo sinal a um táxi qualquer. Quando entraram, disse ao motorista:
— À farmácia mais próxima, por favor. Oh, e você sabia que eu sou imune à AIDS?
OoO
Rowan pedira ao motorista de Ethan que o levasse até em casa primeiro, que afinal era no mesmo prédio que a de seu patrão. Precisava de Gillian para fazer o que tinha que fazer, não conseguiria sem ela.
Atravessou o hall apressadamente, esperando sem paciência que o elevador subisse todos os malditos vinte e dois andares. Parecera levar duas eternidades e mais alguns quartos até que as portas de aço abrissem-se num longo e comprido corredor que se abria em dois em seu final, um dos lados levando ao seu apartamento e o outro levando ao de Lucas Fontanelle.
Abriu a porta de casa estrondosamente. Sua mãe, Maya Pyatt, estava regando os vasos de planta da varanda como se não houvesse absolutamente nada de errado no mundo. Rowan não a contara que sabia da verdade. Não contara que sabia quem era e o que estava destinado a fazer.
— Por que está assim? — Maya indagou. Tinha os olhos azuis-acinzentados dos Pyatt, grandes como bolas de gude, e o cabelo era de um profundo tom de violeta-claro, branco quando a luz do sol refugia sobre ele. Era artificial assim como o de Gillian, mas Rowan não via a mãe de outro modo. Não conseguia.
Aproximou-se sorrateiramente, sem tirar os olhos dela.
— Acho que deveria se reaproximar da família — disse.
O rosto da mãe endureceu. Da última vez que falara com qualquer parente seu, eles disseram que só voltariam a se ver quando internasse Gillian.
— Sente? — sussurrou. — Sente o que está acontecendo nesse Dia das Bruxas? Toda a força sobrenatural e todo o poder fluindo no ar? Eu sei da verdade. — A dureza do rosto de Maya derreteu para dar lugar à pura confusão salpicada com algumas rodelas de medo. — Sei que sou um Atheneus. A Chaulwen me procurou.
Maya Pyatt derrubou o regador, jorrando água para todos os lados, molhando a barra de seu vestido e da calça de Rowan. Nenhum dos dois se importou com isso.
— Não deviam tê-lo feito — disse com os lábios crispados. — Era nosso trato, eu lhe contaria quando fizesse dezoito anos…
— Contaria? — perguntou suavemente. — Nós dois sabemos que não contaria. E nós dois sabemos por quê.
— Rowan…
— Não queria que eu soubesse quem eu era porque não queria que eu me envolvesse com a Chaulwen. Foi por causa dela que tantos Atheneus foram mortos, afinal. A ordem garantiu que todos soubessem, durante setenta gerações, quem eles eram, o que eles eram. E por causa disso foram morrendo à medida que Bathory os encontrava.
A boca de sua mãe se retorceu de nojo ao ouvir o nome da mulher.
— Bathory mora na periferia de Middleland, numa loja de antiguidades chamada Ultimum Temporum. Estava a seis quilômetros de nós durante todo esse tempo. Sei que ela tentou me matar há três anos, e sei que ela tentou me matar quando Althea e Seth morreram. Eu vi o retrato da minha mãe que ele pintou. Ela era bonita. O poder dela persiste até hoje.
Maya ouvia tudo com angústia nos olhos.
— Eu entrei no Porão de Bathory.
— Você… fez o quê?
— Foi entranho estar num lugar em que tanto sangue foi derramado. Me deitei no chão e me aproximei daquele buraco no fundo daquela lareira. Ouvi a respiração de Jhahantar com meus próprios ouvidos, ouvi-o dormindo, esperando a próxima hora em que seria alimentado. Bem, ontem ele estava sendo, mas então alguma coisa aconteceu. Gillian acordou histérica e me disse que algo havia dado errado no ritual. Você sabia que ela é uma das não-Atheneus mais poderosas que existem? É clarividente e ao mesmo tempo é médium e vê as Sombras com perfeição. Você sempre soube disso. Nunca acreditou que ela fosse louca. Graças a Deus.
— Você compreende o perigo em que se expôs se aproximando daquela mulher? Sequer compreende? Ela é louca para pôr as mãos em você. Oh, o último remanescente dessa maldita família — disse com desdém na voz. Rowan pegou suas mãos nas suas enluvadas.
— Você também é descendente dele, você sabe disso. Pelos cálculos que eu fiz, nós somos primos de décimo sétimo grau. Isso é tão distante que nem é mais percebido pelo DNA. Mesmo que eu saiba da existência de Althea… você é minha mãe. Eu amo você. Não deve negar suas origens. Não como fizeram todos os Pyatt após um tempo. Eram a família mais próxima dos Atheneus. Mas eles se dispersaram. A Chaulwen perdeu contato com muitos Atheneus e eles acabaram sendo inevitavelmente mortos pelos seguidores do Mal. O Mal que se esconde debaixo dessa cidade e que tem que ser mandado para longe daqui. E que melhor dia para fazer isso senão no Dia das Bruxas?
— Não. Você não vai lá. Não pode ir lá. Pelo amor de Deus, você tem treze anos. É apenas uma criança. Milhares de Atheneus mais velhos, mais experientes e com poderes mais fortes que os seus morreram lutando contra Bathory, e enquanto seus corpos permanecem debaixo da terra, ela está viva.
— Não é a questão dos poderes, você não entende? Não são os poderes. Atheneus não tinha poder algum. Ele tinha apenas fé. Ele tinha fé de que o Mal seria derrotado, seria mandado a algum lugar bem longe onde não pudesse fazer mal a ninguém. É claro que ele contornou isso. Mas você compreende? Eu tenho fé.
— Compreendo.
— Tenho fé de que se eu me meter nas Sombras do Porão de Bathory, elas não poderão fazer nada contra mim, porque elas não são uma causa. São uma consequência do mal humano, e o mal humano é causado por nada mais que o livre-arbítrio.
— Elas não poderão, mas o Mal poderá.
— E quem sabe o que é a maldade em si? Eu tenho maldade no meu coração. Mas também tenho bondade. Tenho amor. Jhahantar não sabe o que é isso. Ele não pode lutar contra isso. O sangue de Atheneus corre nas minhas veias, e se há dois mil anos ele não pode lutar contra isso, também não poderá lutar agora. Eu não estou me enganando, sei que não vou simplesmente destruí-lo. Vou mandá-lo embora. Vou mandá-lo embora para que só volte daqui a cinquenta anos, e então vou mandá-lo embora de novo. E até lá, espero ter aumentado os Atheneus, porque enquanto nós vivermos, o Mal não regressará. Aliás, Bathory está matando crianças. Não vou permitir isso.
— Mesmo assim, você não faz a mínima ideia do que pode encontrar lá. Pode morrer.
— Não posso morrer. Não posso morrer porque Jhahantar em si não pode me matar. Ele mata através de Bathory, e ela não vai me matar porque eu não vou deixar. É tudo muito simples assim. Ela também está fraca, está velha e sem forças. E quando eu estiver lá, sinto que saberei o que fazer. Talvez os azuis me ajudem. Os fantasmas, digo eu, talvez eles me ajudem como ajudavam Oliver Castanelli até ele fingir que eles não existiam. Compreende isso, mãe? Eu sempre estive destinado a isso.
— Se Althea estivesse viva, o que pensa que ela teria feito?
— Penso que ela teria ela mesma dado um tiro na cabeça de Bathory. Ou tentado dar, Bathory é muito rápida, acabaria desviando até mesmo de uma bala. A Chaulwen deve saber disso, mas minha mãe parecia muito impetuosa para se importar. Então as duas acabariam lutando e minha mãe acabaria morta, tenho certeza disso. Eu não sou tolo. Não vou tentar lutar com Bathory. Ela não é mais humana, mas não quer dizer que não possa ser morta.
— Seu poder é inútil contra ela. E ela não poderá ser abalada com fé.
— É, mas eu pensei que depois de ter visto tantos bruxos sendo mortos na Era das Trevas, ela pode temer o fogo. Fogo arde, queima a carne, rasga a pele. Acho que nem ela o aguentaria. Não sei se pretendo colocar fogo na loja dela, mas creio que algo assim a segurará tempo suficiente para eu entrar em seu Porão e execrar Jhahantar para outro lugar. Você já teve algum poder?
Maya olhou para o horizonte, visando um passado muito remoto que queria esquecer.
— Quando eu era menor, podia fazer se mexer alguns objetos pequenos, mas minhas tias suprimiram meus poderes dizendo que eram maluquice. Não consigo fazer mais nada hoje em dia.
— Não? Olhe.
Rowan indicou a água de seus pés, a que havia caído do regador. Estava borbulhando como se estivesse numa panela ao fogo, mas sequer estava quente. Maya Pyatt fitou-a sobressaltada.
— Hoje é Dia das Bruxas — Rowan sussurrou. — Quando os paranormais tornam-se mais poderosos e a magia impera no mundo. Você é uma bruxa, mãe, eu e Gillian também somos. Está na nossa hora. Eu tenho que ir. Voltarei quando salvar o universo.
Gillian estava parada na porta do corredor, completamente imóvel, com seus olhos já grandes maiores ainda. Rowan tocou em sua têmpora com a mão sem luva, e então o viu. Estivera atrás de si todo o tempo em que conversara com a mãe, silencioso, com o rosto duro como porcelana.
Vai me ajudar?, perguntou mentalmente. Através dos olhos de Gillian, observou-o olhá-lo com uma curiosidade infantil antes de assentir com suavidade e desaparecer numa nuvem de Sombras.
— Está na hora de irmos — disse à irmã. — Mas antes tenho que conversar com mais uma pessoa.
OoO
— Não, você absolutamente não deve ir — disse Eadwine, com uma voz dura que não admitia contestações. Mesmo assim, Rowan conseguiu perceber que havia um profundo tom de cautela. Quando andara através da Casa da Chaulwen e vira todos os olhares respeitosos postos em si, notou quão respeitada era sua família. — É perigoso demais. Bathory pode matá-lo sem o menor esforço.
Andavam por um campo coberto de grama por trás da mansão que pertencia à família Goldenschild. A casa oficial da família ficava em Wintorland e era ainda maior que àquela, embora não tivesse a magia de Althea para aumentá-la por dentro.
— Eu devo ir. Não vê todos os sinais?
A água azul-esverdeada do lago de trás da mansão ondulava suavemente, mesmo que não houvesse nenhuma perturbação. As árvores balançavam seus galhos quase nus, mesmo que não houvesse um ínfimo sopro de vento. O tempo estava ligeiramente frio, mesmo que um sol gigantesco ardesse no céu. Até os pássaros pareciam cantar com violência.
— Hoje é Dia das Bruxas — disse Eadwine. — A magia de quem não sabe possuir magia se acentua de tal modo que afeta o ambiente a sua volta sem que a pessoa perceba. Isso acontece todos os anos. Não são sinais, não passam de coincidências.
— Não, não, são sinais — Rowan insistiu com suavidade. — Sei que sentiu aquilo ontem. Alguma coisa aconteceu a Bathory.
— A questão é que não sabemos o que é. Há Sombras por todos os lados, Rowan. Ela pode estar mais fraca, pode estar mais forte, é impossível saber. O mundo inteiro está instável nesse momento.
Rowan inspirou profundamente.
— Depois de tantos anos aplicando rituais sem a mínima interferência, Bathory fortaleceu Jhahantar o suficiente para que ele mais uma vez se levantasse — falou a Eadwine. — E hoje é um Halloween excepcionalmente especial. Se o ritual de ontem não tivesse sido quebrado, Jhahantar estaria se levantando hoje. Acho que nem Bathory sabia disso.
Rowan sabia que tanto Eadwine quanto a Chaulwen sabiam daquilo. Era uma verdade silenciosa da qual ninguém falava.
— E então, o quê? — insistiu. — Acha que teriam alguma chance contra o Mal quando ele estivesse de novo livre?
— Não nos sobrou muita opção. Deixe-me contar-lhe uma história, Rowan. No ano de 1656, um holandês chamado Petyr era o patriarca da família Atheneus. Naquela época, vocês eram bastante numerosos, e praticavam magia com mais frequência do que hoje. Petyr foi um dos Atheneus mais poderosos que já existiu.
“Por ordem dele, a família inteira se reuniu numa pequena vila da França controlada por um conde. Eram quase cem pessoas, todos primos distantes uns dos outros, todos bruxos poderosos. A sociedade da época não sabia o que eram. Estavam no meio da caça às bruxas.
“Ao mesmo tempo, Bathory se instalara no castelo do conde. Disfarçada de criada da velha condessa, a esposa do conde, escondera Jhahantar nas catacumbas abandonadas do castelo, onde ninguém mais ia. É claro que aquele era o ano em que os rituais deviam acontecer, e de fato aconteceram. Mas foi na mesma época da reunião da família Atheneus. Foi nessa época que ela adotou esse nome que usa até hoje.
“Petyr sugeriu que os Atheneus mais fortes impedissem Bathory de realizar os sacrifícios, sendo prontamente atendido. Veja bem, Rowan. Eram mais de cem pessoas poderosas reunidas num único lugar contra ela. Mais de cem.
“Mas Bathory é ardilosa. Ela sempre foi. Sempre teve olheiros, criaturas das trevas que se entregavam a ela como escravas, assim como aquela criança mendiga. Ela descobriu o plano de Petyr e denunciou todos os Atheneus por bruxaria. O próprio rei da França sancionou a execução.
“Durante vários dias, dezenas e dezenas de Atheneus arderam nas fogueiras do vilarejo enquanto o povo assistia. Alguns poucos fugiram, trocaram de sobrenome e fundaram famílias que podem ou não existir até hoje, mas Petyr ficou. Petyr Atheneus era um dos poucos da família que estudou as artes da magia negra, e embora tivesse jurado à Chaulwen, que foi quem forneceu a ele todo o material que precisava, que nunca a usaria, ele estava desesperado. Via todos os seus parentes serem mortos enquanto estava na cadeia, sem nada poder fazer a não ser esperar pela morte.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!“Petyr conjurou um espírito sem nome, entregando-se a ele. Pagou um preço muito caro por isso, mas o espírito quebrou-lhe as algemas, e de lá ele seguiu até o castelo do conde, onde Bathory morava. Tinha a tola ideia de matá-la com as próprias mãos. Ela, com mais de mil e quatrocentos anos de idade.
“O espírito de Petyr deveria ajudá-lo, mas a maioria deles é irresponsável e traiçoeira, não importa com o que foram pagos. Bathory fez o espírito se voltar contra Petyr e pôr fogo no castelo, onde o trancou e o matou e a família do conde. Ela ouviu Petyr morrer em agonia enquanto o fogo lhe açoitava a pele. Ele fora o sacrifício daquela noite, e seu sangue foi dado a Jhahantar como alimento.
“Depois daquilo, a família Atheneus parecia acabada se não fosse por uma jovem criada chamada Charlotte. Carregando toda a fortuna da família, levou o jovem neto de Petyr, Rémy, para além do mar, em Port-au-Prince, no Haiti. Bathory os deixou em paz então. Rémy era o último descendente direto vivo da família, e ele, seu filho e seu neto foram criados sem saber que eram bruxos, pois Charlotte nunca os contou.
“A Chaulwen encontrou o bisneto de Rémy vivendo em Nova Orleans, na Louisiana, nos EUA, e contou-lhe a história. Deixá-lo sabendo como seu tetravô, Petyr Atheneus, fora morto pelas mãos de Bathory foi o maior erro que a ordem já cometeu. Ele nunca quis se envolver conosco, e assim foi com alguns de seus descendentes até que uma de suas antepassadas, Marmalade, cuja irmã mais nova fundou a família Pyatt, quebrou a corrente.
“Agora você vê o que aconteceu à última pessoa que tentou interferir nos planos de Bathory? Agora vê o que aquela monstruosidade pode fazer? Ela não é uma simples mulher corrompida pelas Sombras, é o Diabo em pessoa.”
Após uma leve pausa, Rowan Pyatt indagou:
— Eu tenho uma fortuna?
Eadwine suspirou.
— Tem, e está na casa das centenas de milhões de dólares. Sua mãe a deixou para que herdasse quando fosse maior de idade.
— Que bom — disse. — Também gostei da história de Petyr. Mas vou entrar no Porão de Bathory mesmo assim.
— Rowan, apenas pense por um momento que você pode morrer. A sua família pode acabar. A dinastia bruxa mais antiga de todos os tempos pode simplesmente acabar porque você é um garoto que não pensa antes de agir.
— Está brincando? Tenho pensado nisso há meses. Vou entrar lá ou vou perder o juízo. Vou entrar lá ou Jhahantar vai se levantar mais uma vez. Vou entrar lá porque sou simplesmente o único ser humano com capacidade para isso, o último Atheneus. Eu sou um bruxo, querendo ou não. Eu só vim aqui para pedir que, se eu morrer, vocês cremem meu corpo e joguem as cinzas na fachada da loja de Bathory.
Rowan Pyatt puxou Gillian pela mão e se afastou dali, sabendo como Eadwine estava consternado e possivelmente temeroso. Não podia culpá-lo. A Chaulwen vinha protegendo os Atheneus desde tempos remetentes a Jesus Cristo; falhara em 1656 e não queria falhar agora.
Como poderia Rowan fazê-los entender? A coisa toda parecia ser muito simples. Nenhum Atheneus jamais conseguira encarar Jhahantar cara a cara, por isso ninguém sabia o que aconteceria. Por isso Bathory ficou tão histérica quando viu que Rowan havia entrado na antessala da loja.
Na verdade, um Atheneus conseguiu. Murrough. O primeiro. O grande.
Enquanto atravessavam novamente a grande mansão para irem embora, Rowan viu um garoto se colocar a sua frente, reconhecendo-o imediatamente. Era o mesmo garoto que vira da primeira vez que fora ali, o de cabelos completamente brancos que via fantasmas.
— Você é Rowan Atheneus? — ele indagou com curiosidade. Rowan apenas fez que sim. Não sabia bem se adotaria aquele nome. — Eles disseram que vão te ajudar. Eles. Os azuis. Não apenas esse que está bem atrás de você, mas todos. Todos mesmo. Eu te admiro muito.
Rowan saiu do castelo com a mente em frangalhos.
OoO
Marcara de se encontrar com Gabriel Melnick no final da estreita rua que abrigava a Ultimum Temporum. A pequena loja estava com as luzes ligadas, funcionando na maior cara-de-pau possível. Do ângulo que estava, Rowan Pyatt não conseguia ver o balcão através das vidraças, mas esperava que Bathory estivesse realmente velha e fraca.
Eadwine lhe ensinara como camuflar as Sombras em volta de si. Gillian disse que ela agora aparecia apenas como uma névoa rala e atarantada, como se não soubesse bem em quem se ligar. Se Bathory a sentisse, a confundiria com as Sombras que tomavam a cidade num típico Dia das Bruxas. Tanto Rowan quanto Gillian estavam seguros.
No mais, a cidade estava enfeitada. A cada casa que passavam, abóboras com os olhos e bocas jorrando luz dourada adornavam as soleiras das casas; recortes de bruxas de pele verde e rosto verruguento eram pendurados nas árvores; anões de jardim haviam sido substituídos por caveiras e luzes pisca-pisca enfeitavam os telhados.
Pais acompanhavam crianças fantasiadas de fantasmas, vampiras, bruxas, franksteins e múmias de porta em porta, de onde saíam carregadas de doces. Outras maiores e mais travessas ganhavam de velhos rabugentos nada mais que uma porta na cara e devolviam rolos de papel higiênico atirado por cima das casas, ovos estalados nas portas da frente e pedrinhas nas janelas mais altas.
O Halloween sempre fora o feriado preferido de Rowan. Agora sabia por quê.
Havia festas à fantasia grandes em algumas casas, e inclusive a Academia Alphonse Enoi estava dando uma para os alunos do ensino médio. Mesmo que não tivesse que entrar no Porão de Bathory, Rowan não iria porque ainda estava no nono ano, embora tivesse uma certeza estranha de que Nicholas estaria lá com suas duas namoradas.
Quando tocou em Gillian para saber seus pensamentos, sentiu que o fluxo de informações viera mais suave e mais claro, como se algo o tivesse desembaralhado, um poder primitivo que a humanidade não mais conhecia. A Era das Trevas acabara junto com a exposição de magia do mundo.
Antes de chegar à rua da loja, a Mercedes de Ethan parara num sinal onde, na calçada, cinco crianças olhavam fixamente para a mão de uma mais velha. Rowan olhara através da película escura do carro a criança mais velha derramar uma gota d’água na própria mão, concentrando-se nela então. A gota parecera entrar em ebulição, chacoalhando-se violentamente no ar por alguns segundos antes de se transformar em vapor. As crianças menores gritaram deliciadas.
— Feliz Halloween — Rowan desejara baixinho de dentro do carro.
Sentiu um toque no ombro. Gabriel Melnick estava ali, com olhos muito duros e terrivelmente estagnados. Rowan sabia perfeitamente o que ele estava pensando. Quando o tocara na Lemnsack & Lovegood, passara apenas as informações que ele devia saber, mas inevitavelmente puxara algumas também. O corpo no chão, os olhos revirados, o cheiro de uísque no ar.
— Fui eu, não foi? — ele indagou baixinho. — Eu o matei. Fiquei com tanta raiva dele que estourei a artéria de sua cabeça. Eu que criei aquele AVC.
Rowan dirigiu-lhe um olhar complacente. Tocou-o para que tomasse conhecimento das conversas que teve com a mãe e com Eadwine.
— Você não pode mais fazer isso — disse, separando-se. — Suprimiu seu poder com tanta força que ele simplesmente sumiu… sim, hoje você pode fazer isso, mas só hoje. Não foi culpa inteiramente sua, você não tinha controle sobre esse poder. Sabe, ele é bem raro, o poder de matar uma pessoa quando se bem entende.
Se a Chaulwen tivesse consciência de que os Melnick eram descendentes de Atheneus e que Gabriel pudera fazer uma coisa daquelas sem intenção, teriam entrado em contato com ele antes que matasse mais alguém, mas não foi necessário. Sua própria culpa e vergonha culminaram na supressão de seu poder.
— Também matei Tommy Overgreen, eu sei disso — Gabriel insistiu. — Eu estava junto à multidão que o assistia discutir com Ethan. Era tão apaixonado por ele àquela época, e odiava tanto Tommy. Senti uma raiva incomensurável dele naquele momento, e então ele simplesmente caiu morto. Olhos arregalados, boca escancarada. Não importa que os Overgreen já tivessem tido casos de AVC. Eu fiz aquilo. Eu sei que fiz. Senti uma pequena pontada na têmpora, assim como com o meu pai, mas essa virou uma enxaqueca, eu quase morri de tanta dor naquele dia. — Ele deu uma pausa. — E era Halloween. 31 de outubro de 2011, Dia das Bruxas, dia da morte de Thomas Overgreen e meu aniversário. Eu poderia fazer isso com ela? Hoje, eu poderia fazer isso com Bathory?
— Não sei — Rowan admitiu. — Bathory não tem as necessidades que os humanos têm; ela não se alimenta, por exemplo. Não sei bem se necessita do sangue que corre no corpo, se é que ainda corre. Estourar uma artéria de nada adiantaria, eu acho.
Gabriel olhou-o consternado.
— Não é disso que estou falando. O poder que eu tinha não era telecinético, eu não segurei a artéria do meu pai mentalmente e a rasguei, meu poder não consistia nisso. Consistia em matar. Não importa o meio, simplesmente… matar.
Rowan engoliu em seco sutilmente.
— De qualquer forma, não tente fazer nada com Bathory. Ela é inteligente demais para isso, entende? Demais. Também é muito rápida e tem a força de um homem grande. Não importa se parece velha. Ela não seria facilmente morta. Não tente fazer nada heroico.
— Deixarei o heroísmo com você, então — ele disse secamente.
Por um momento de puro terror, Rowan perguntou-se se ele havia visto o beijo que Ethan lhe dera quando tocou-lhe ainda na agência. Esperava que não. Era Dia das Bruxas e aquele garoto possuía o poder de matar quem bem entendesse. E sequer podia controlá-lo.
OoO
Gabriel entrou na Ultimum Temporum e imediatamente sentiu uma tontura estranha. Piscou com força, respirando fundo, focalizando o ambiente a seu redor. Nunca vira uma loja tão decrépita; as paredes marrons e amarelas descascavam horrorosamente, havia um calor tão presente no ar que era como se fosse uma coisa viva, uma aura pulsante. A madeira das prateleiras estava tão descascada que só de olhar já se sentia a dor das farpas. Viu arte em ferro e em cobre, vasos, garrafas antigas, dinheiro antigo em papel e moeda, adagas, estatuetas, porta-retratos, eletrodomésticos, ferramentas elétricas ou não, baús de madeira, cristaleiras e prataria, telefones Kellogg e um grande armário com várias taças de vidro.
E no balcão, bem por trás dele, serena e pequena, uma velha tão velha que devia estar viva quando a maioria daquelas antiguidades foi produzida. Era ainda menor que Lorenzo, com o cabelo crespo e completamente sem cor preso num coque apertado por trás da cabeça. O rosto era o mais enrugado que já vira na vida, eternizado numa expressão severa e infeliz.
— O que deseja? — Bathory indagou numa voz incrivelmente desagradável, um zumbido desgraçadamente grave.
Havia um lampião à óleo iluminando a loja. Gabriel não sabia bem se aquilo chegava a ser legalmente permitido; se aquele lampião por acaso caísse na madeira velha das prateleiras, a loja inteira arderia em chamas.
— Eu estava pensando que a senhora poderia me ajudar numa coisa — disse, aproximando-se de Bathory. Ela o olhou de cima a baixo com olhos tão negros quanto os de Ethan. — Eu venho de uma agência de publicidade e eles estão procurando uma máquina de escrever para uma campanha sobre tecnologia, mas máquinas de escrever não são mais fabricadas. A senhora teria alguma por aqui?
Havia um exemplar numa das prateleiras mais altas dos fundos da loja.
— Sim — Bathory disse cautelosamente. — Disse que vem de uma agência de publicidade. Tem algum cartão?
— É claro. — Entregou-lhe um pequeno cartão corporativo. Era um antigo e dizia Lovegood & Martell, remetente aos tempos em que o velho Stevie Martell estava vivo. Gabriel sabia que Bathory conhecia Ethan, e assim conheceria seu sobrenome também.
O cartão pareceu satisfazê-la.
— Tenho um único exemplar nos fundos da loja. Deixe-me pegar uma escada.
Bathory foi à antessala e voltou um tempo depois com uma pesada escada de metal. Era surpreendentemente forte para a idade que tinha, mesmo assim Gabriel perguntou-lhe se gostaria de ajuda, ao passo que ela recusou. Quando a escada estava montada e ela já estava no topo, Rowan Pyatt entrou na loja. Caminhava tão sorrateiramente que seus passos sequer eram ouvidos, como um gato na calada da noite.
Quando estava a ponto de pular o balcão para entrar na antessala, Bathory virou-se.
Gabriel ouviu seu grito estridentemente raivoso, uma raiva pura e magnífica, em sua forma mais crua e sublime. Como se fosse dois mil anos mais jovem, Bathory pulou do topo da escada, caindo pesadamente no chão. Conseguia sentir sua força e seu ódio. Rowan estava com os olhos arregalados, encostado no balcão, completamente paralisado de medo.
Sentia o iminente cheiro da morte cobrindo o fedor do mofo e da velharia. Bathory exalava Sombras tão densas que Gabriel quase as conseguia ver com seus olhos mortais. Eram como cobras mortas feitas de névoa pesada e escura, com dentes tão afiados quando a verdade. E Rowan ainda estava paralisado.
Precisava fazer alguma coisa. Gostaria de ter controle sobre seu poder de matar, embora não tivesse certeza de que ele conseguiria matar Bathory… aquela tontura de novo. Um pensamento aleatório surgiu em seus lábios, onde o pronunciou baixinho: Depois de ter visto tantos bruxos sendo mortos na Era das Trevas, ela pode temer o fogo. Fogo arde, queima a carne, rasga a pele…
O lampião ardia ao seu lado.
Gabriel Melnick arremessou a luminária na velha monstruosa que se aproximava de Rowan como um animal enjaulado procurando por comida. O azeite encharcou-a antes que o fogo se espalhasse.
Que arda. Pelo amor de Deus, que arda.
O grito que Bathory deu não se assemelhou a nada humano.
— CORRA! — berrou a Rowan, tirando-o de seu transe. Bathory cambaleava e chocava-se contra as prateleiras, um montante de carne e roupas derretidas rugindo um berro animalesco como uma besta demoníaca, uma fogueira humana agitando-se de agonia.
Quando Gabriel ergueu novamente os olhos, Rowan Pyatt não estava mais ali.
— Muito bem — sussurrou olhando para a massa pulsante de Sombras que pegava fogo bem a sua frente. — Vamos ver se você sobrevive ao meu poder da morte.
OoO
O coração de Rowan estava negro.
E bem como estava seu coração, estava tudo a sua volta. Parado na escada antecedente ao verdadeiro Porão de Bathory, sua mão direita tocava cegamente na porta do Porão. A madeira parecia quente e convidativa aos seus dedos cheios de Sombras geladas ao toque, mas Rowan sabia que não era aquele o caminho.
A sua volta, nada existia. As Sombras roubavam-lhe os sentidos; não conseguia ver, ouvir, seu paladar e seu olfato não serviam mais para nada. O toque contra a pedra da parede fria e gelada era a única coisa que o matinha conectado com o mundo, e até isso desaparecia à medida que Rowan descia mais.
E o ar estava mais gelado. Um frio tão nítido e sepulcral que quase podia vê-lo, embora estivesse praticamente cego. Por vezes, Rowan pensava visualizar as Sombras dançando bem a sua frente, formas humanas animalescas gritando de dor e agonia, mas era tudo uma ilusão para pará-lo.
As Sombras não são uma causa. São uma consequência.
Seus pensamentos pareciam se extraviar de sua mente. Rowan não sabia bem, mas aquelas Sombras pareciam estar mais densas que as que enfrentou da última vez que entrara ali. Descia quase que com dificuldade, como se tivesse que atravessar uma espessa parede de gelatina.
Agora estava descendo há tanto tempo que nem mais sabia. Já ultrapassara o Porão de Bathory, estava tão abaixo da terra quanto pensou ser possível, mais abaixo que os fundamentos de um prédio. O frio devia arrepiar seus poros, mas Rowan não sentia mais sua pele.
De repente, sentiu-se descendo no ar. Não sentia mais as articulações da perna se movendo, não sentia mais os pensamentos em sua cabeça. Tentou levantar os braços, mas se realmente o fizera, não soube dizer. Estava completamente descarnado num mar negro de Sombras tão antigas quanto o próprio mundo.
Era muito escuro, e finalmente só lhe restou o medo. Não sabia mais falar, não sabia mais pensar, e no fundo a última partícula de vida que se agarrava desesperadamente à sua alma sabia que não adiantava voltar, porque ele não saberia o caminho de volta. Podia se chocar contra uma parede que não saberia, andando inutilmente contra ela por toda a eternidade.
Só lhe restava descer.
Rowan Pyatt sentiu-se chocando contra alguma coisa. Resfolegou rapidamente, os sentidos lentamente sendo recobrados. Conseguia tatear o ferro gelado e desgastado de uma pesada porta a sua frente, conseguia sentir a pedra que formava a câmara subterrânea, até mesmo a elevação da escada. As Sombras pareceram dissipar-se, ele parecia estar agora apenas num quarto sem luz despido de toda a maldade do mundo, estranhamente aconchegante. Podia subir se quisesse, sair do Porão. Ou podia continuar.
Rowan empurrou a porta de ferro.
Enxergando, a princípio, apenas pontos luminosos, cerrou os olhos para a claridade que via. Rowan viu a sua frente uma belíssima praia costeira, com a água verde e espumosa refulgindo na areia absurdamente fina e branca como um espelho, num gostoso e monótono som marítimo. Um mundo quente e assombroso se derramava sob o sol de ouro. Podia sentir perfeitamente o cheiro da maresia no ar.
Rowan Pyatt olhou para trás. A luz iluminava a câmara num tom azulado. Podia ver perfeitamente os tijolos e a escadaria que levava para cima. Era uma câmara de pedra perfeitamente normal; muito funda, mas normal.
Adentrou na praia e fechou a porta atrás de si.
O céu tinha um profundo tom de púrpura com ouro reluzindo em seu horizonte, um sol que se ia. Rowan olhou para trás e viu uma longe fileira de coqueirais se estendendo até o fim de uma rua compridíssima. Uma casa de praia com paredes de um tom branco-neve e uma sacada quase preservada erguia-se majestosa.
— Estou em Huntington Beach — pensou com lágrimas nos olhos. — Na casa de minha mãe e de meu pai, antes que eu o matasse.
Seus pés roçavam na areia da praia; só então Rowan percebeu que estava descalço. O vento balançava os longos galhos dos coqueiros, um dos cocos até caiu na areia, chocando-se num baque suave.
E onde estava ele?
Caminhou alguns passos em direção à porta vermelha da casa de praia. Por vezes sonhara com aquela porta vermelha como um portal para a felicidade, o êxtase que sua vida tanto tencionara.
— Estou sem as luvas — sussurrou, olhando para as próprias mãos nuas. Agachando-se, pegou um punhado de areia entre os dedos e a deixou escorrer, esperando ver as últimas pessoas que pisaram ali. Não aconteceu nada. Sua maldição sumira. Agora, ele era apenas Rowan Pyatt, um garoto de treze anos normal.
Uma gaivota pousou no batente da sacada, bicando a tinta já um pouco descascada. Rowan subiu nos degraus de madeira, sentindo-a ranger por baixo de seus pés. Deslizou os dedos pela grade da varanda, pelas cadeiras de ferro. Nada. Nenhuma visão. Ninguém se sentando ali, nenhum trabalhador retorcendo o ferro numa fábrica para criar aquela cadeira.
Olhou novamente para a gaivota. Tinha pequenos olhos pretos, um pescoço branco e longas asas cinzentas, além de um comprido bico amarelado.
— Sente medo? — ela indagou. Rowan ficou parado um tempo fitando a ave antes de fazer que sim. — Garoto tolo. Está tudo sereno.
O barulho das ondas do mar batendo contra a areia era tão relaxante e monocórdio que Rowan começou a sentir sono. Sentou-se na cadeira, recostando-se confortavelmente.
— Está? — indagou à gaivota.
— Jhahantar está morto — ela disse. — Ou nunca viveu.
— Então o que Bathory alimenta durante um ano a cada cinquenta anos?
— Ela própria, garoto tolo, através de rituais pagãos que nada mais lhe dão além de imortalidade. Uma parte do sangue dos inocentes é para ela, a outra parte é para seus deuses sem nome. Quem é você?
— Rowan Pyatt.
— Não. Quem é você?
Rowan suspirou.
— Rowan Atheneus.
— Não, você é Atheneus. Há dois milênios ele soube que seu septuagésimo descendente direto teria condições de combater Jhahantar frente a frente, e nenhum outro antes. Você, Rowan Pyatt ou Atheneus, é a própria reencarnação de Murrough Atheneus, que lutou inutilmente contra as Sombras num tempo em que a humanidade estava à beira do colapso, um tempo onde por toda parte surgiram Salvadores. Vejo que aprendeu com o erro de seu antepassado. As Sombras são uma consequência, não uma causa.
— O que está dizendo sobre Murrough?
— Ele não era um guerreiro poderoso e mágico como os tolos da sua organização, fundada pelo filho de Atheneus, acreditam. Faz tempo demais para que qualquer um se lembre, até mesmo Bathory. O primeiro Atheneus não fez rituais para acabar com um ser maligno que jogava Sombras no mundo com outros seis bruxos poderosos, não. Isso é uma metáfora. As Sombras são e sempre foram causadas pelos homens, existem desde o início dos tempos e existirão até que o último ser humano de sangue mágico caia morto no chão. Como você uma vez disse, Atheneus não tinha nenhum poder, tinha fé. E ele tentou passá-la aos outros, ao passo que esses não entenderam…
— Me parece muito com a história de Jesus Cristo.
— E se foi Murrough Atheneus Jesus Cristo, e ninguém mais se lembre disso? Já disse que você é sua reencarnação. Se sente como o Filho de Deus?
— Sinto-me com sono.
— Pois durma. Mas antes, abra a porta.
A gaivota alçou voo, erguendo o corpo coberto de penas brancas e cinza para os céus que cada vez mais escureciam. Rowan levantou-se e fitou a porta vermelha, lembrando-se de como pensava nela como o portal para a felicidade.
— Mentirosa — sussurrou, entrando na casa.
Quando percebeu, estava fora do Porão de Bathory. Agora ele nada mais era que uma escadaria vazia, sem um resquício sequer de Sombras. Rowan estava na antessala da loja, fitando o ventilador de teto girar lentamente. Tudo parecia muito letárgico, como se o mundo estivesse em câmera lenta.
Voltou à loja, observando o estrago. As prateleiras não eram nada mais que carvão enegrecido no chão; antiguidades valiosíssimas estavam estraçalhadas, seus cacos espalhando-se por todo lado.
Do corpo de Bathory, nada mais restava além de cinzas que o vento logo levaria.
Antes de sair da Ultimum Temporum, Rowan teve o cuidado de virar a placa da loja para Fechado.
Gabriel Melnick estava do lado de fora, encostado na parede de um prédio acabado, com uma expressão eternamente sofrida no rosto.
— Que aconteceu quando eu entrei no Porão? — indagou a ele.
— Bathory queimou até a morte — Gabriel respondeu taciturnamente. — Por sorte, a loja não foi junto. Achei que você não conseguiria voltar das Sombras se ela tivesse desabado.
— Onde está Gillian?
Gillian Pyatt apareceu de algum lugar que Rowan não viu qual. Exalava Sombras, mas aquilo era normal. Com a morte de Bathory, ela não mais teria necessidade de camuflar-se.
— Você conseguiu — ela lhe disse. — Mandou Jhahantar embora. Como só você poderia fazer.
Rowan fitou profundamente seus olhos antes que suspirasse.
— Vamos para casa. A Mercedes de Ethan ainda está por aqui?
Gabriel disse que preferia pegar um táxi, de modo que Rowan deixou-o ali e seguiu para casa com Gillian. Nunca estivera tão triste na vida, sentia como se uma parte de si tivesse sido simplesmente arrancada de seu coração. E onde estava ele? O garoto da Casa da Chaulwen disse-lhe que os azuis iriam ajudá-lo.
Quase que no mesmo momento, Rowan vislumbrou dois espíritos do outro lado da rua, olhando-o fixamente. Um era de uma jovem garota, e o outro era de um homem idoso. Havia uma aura azul em volta deles.
Hm, o mais interessante é que eu sequer preciso tocar Gillian para vê-los. Porque… afinal, eu não sou um médium.
Não viu mais nenhum outro espírito depois disso. As crianças pareciam ter sumido, assim como a decoração de Halloween, mas foi só por um tempo. Logo, a cidade estava festeira como sempre, muito embora não conseguisse ouvir nenhum som de risadas. No mesmo momento, ouviu uma criança do outro lado da rua rindo.
Sua casa estava sombria quando entrou, e mesmo quando ligou a luz, esta parecia fraca e sem força. Gritou por sua mãe, pensando que ela devia estar fora. De fato, ninguém respondeu.
Eu gostaria de ficar sozinho, pensou sorrateiramente. Gillian sorriu-lhe e foi para seu quarto. Rowan lambeu os lábios, pensando rápido. Havia um punhal de prata de cabo branco em cima da mesa, disposto em perfeita ordem com as linhas da mesa. A lâmina afiadíssima brilhava em azul, assim como a aura de um espírito.
Seguiu para o quarto da irmã com o punhal das costas.
— Gillian — falou-lhe. — Deixe-me tocá-la para mostrar o que eu vi no Porão de Bathory.
Ela assentiu. Só então Rowan percebeu que estivera aquele tempo todo sem luvas, e nenhuma imagem lhe fora absorvida. Porém, quando tocou na têmpora da irmã, viu imagens felizes e alegres, campos de grama verdíssima e flores coloridas sob um sol de verão. Ao mesmo tempo, Rowan pensava que Gillian só tinha pensamentos felizes. Aquilo fora a gota d’água.
Grande erro, Jhahantar. A mente de Gillian é inteiramente sombria, cheia de sangue e morte, sem um respingo de felicidade. Devia aprender a descobrir quando eu minto para mim mesmo.
A seguir, Rowan enfiou o punhal de prata no estômago de Gillian Pyatt.
A fera que se derivou do corpo da falsa-irmã era animalescamente grotesca. Tinha um corpo crocodiliano, escamoso e duro, parecendo um grande lagarto, e uma cabeça achatada como a de um pato, com olhos minúsculos e muito vermelhos. A criatura berrou de dor, e todo o quarto a sua volta derreteu num véu de Sombras, jogando-o num plano de escuridão eterna. A última imagem que vislumbrara da criatura fora sua língua comprida como a de um camaleão acesa como um archote açoitando a escuridão.
Rowan encontrou-se novamente no fundo do Porão de Bathory, de onde jamais saíra. Um brilho azulado vinha de sua mão. Quando percebeu, segurava o punhal branco que brilhava em azul, o punhal que ele lhe dera com a ajuda dos outros azuis. O garoto da Chaulwen tinha razão. Nunca estivera novamente em Huntington Beach e nunca conversara com aquela gaivota, nunca saíra do Porão, nem conversara com Gabriel ou Gillian. Estivera ali o tempo todo, preso numa ilusão criada pelo Mal.
O que tocava, então, não era sequer a porta de ferro. Era gelado sim, duro sim, mas tremia e resmungava num resfolego impaciente. Rowan passou os dedos pelas escamas verde-escuras que via com o brilho azul do punhal, a movimentação dos tentáculos monstruosos que vomitavam Sombras a todo instante, o calor vivo que pulsava do corpo da besta.
Estive encostado na fera durante todo esse tempo.
— Volta para o inferno de onde você veio — gritou antes de afundar o punhal na pele dura. A criatura berrou de dor, tremendo violenta como um terremoto. Rowan foi jogado para trás; o punhal, firme em sua mão, brilhava mais forte que nunca. Conseguia vislumbrar agora um de seus tentáculos sedentos por sangue tateando inutilmente o ar sem encostar em nada.
Até agarrar-lhe pelo tornozelo.
Sentiu-se caindo, caindo, caindo… com uma voz excruciante como uma lixa sussurrando viscosamente em seu ouvido.
Você matou seu pai, não matou? A culpa foi sua. Se não tivesse se deixado levar pela linha do anzol, se nunca tivesse insistido em pescar em alto mar, se nunca tivesse sido adotado, se nunca tivesse provocado a morte de Althea e Seth, se nunca tivesse nascido… matou dois pais e uma mãe. Quem é o próximo? Maya? Gillian?
Sem se deixar abater, Rowan meteu o punhal no tentáculo que agarrava seu tornozelo. Ergueu-se e se aproximou de Jhahantar e o apunhalou de novo, de novo, de novo e mais uma vez. A criatura jorrava Sombras como deveria jorrar sangue, e o brilho estava cada vez mais azul e mais poderoso. Sentiu uma ventosa grudar em seu tornozelo, mas se afastou com mais uma punhalada antes que pudesse ouvir algo.
— Sabe quem eu sou? — berrou-lhe com ardência, um fogo magnânimo crescendo em seu interior, seu poder sobrenatural tomando conta de si. — Sou a reencarnação viva de Murrough Atheneus, aquele que uma vez te derrubou, sua abominação desgraçada.
Apunhalou-o novamente, dessa vez deslizando a lâmina para baixo, abrindo uma ferida grande como uma porta. A carne rasgava como manteiga.
— E VOCÊ NÃO VAI SUBIR!
Não pode continuar. Algo o puxava para cima, algo mais forte e mais poderoso que o próprio Mal. A ilusão que alongava a escadaria do Porão estava se desfazendo; Jhahantar estava ferido, sem poder algum. Rowan nunca se sentira tão bem na vida, tão sem medo, tão sem um pingo de medo.
Entrou num vórtice de Sombras pretas e Luz azul que o chacoalhou para todos os lados antes de se fechar e jogá-lo num quarto cinzento e razoavelmente grande, completamente vazio. Era o porão. Não o Porão, mas um simples porão, construído por mãos humanas. O porão da loja de Bathory, completamente sem Sombras para iludi-lo.
O punhal sumira. Suas luvas estavam de volta. Lentamente, Rowan Pyatt tirou a da mão direita e tocou no chão, observando trabalhadores sedimentarem o piso com cimento. Recolocou-a satisfeito.
A escadaria não passava de uma simples escadaria em espiral. Ao invés de descer mais, havia uma parede sólida de cimento que limitava aquilo como o mais fundo, como se dissesse que não, não havia nenhuma criatura das trevas ali.
Rowan subiu os degraus fracamente iluminados pela luz da antessala de Bathory. A loja estava quase como vira em sua ilusão, exceto pelo fato de que não havia quase nada queimado, exceto pelo conjunto de ossos do chão. Gabriel Melnick estava ajoelhado ao lado deles, quase sem notar que Rowan voltara.
— E então? — indagou o maior. Parecia que fazia um milhão de anos que Rowan falara com um ser humano de verdade pela última vez.
— Está feito. Acabou. Essa aí é Bathory? Como conseguiu? Foi só o fogo?
— Mais ou menos — ele disse com um sorriso sem alegria. — Toquei fogo nela, mas isso não pareceu convencê-la a parar. Então eu senti uma pontada na têmpora, da mesma forma que senti quando matei meu pai. Não sabia bem o que fazer, então simplesmente me concentrei nela. Bathory começou a se contorcer de dor no chão, e eu não acho que foi o fogo que fez isso. E não é interessante que nada mais esteja queimado? Quer dizer, é como se ela atraísse o fogo para si.
Gillian entrou na loja nesse momento, parecendo assustada e apreensiva. Fitou o irmão nos olhos por um longo momento e compreendeu. Sorriu de alívio, indo abraçá-lo.
— Vi um turbilhão de Sombras surgindo da loja para o céu como um furacão invertido — ela disse —, mas ele se perdeu numa nuvem e deixou-nos. Nunca senti essa cidade tão livre, tão leve, tão pura.
Rowan tirou a luva e a tocou.
— Isso — murmurou ele, soltando as lágrimas que há tanto prendia. — Só vejo morte, destruição, dor, tristeza, Sombras. Como deve ser. Como eu senti falta disso.
Voltou a abraçá-la com força, deixando passar sua energia a ela. Era tão gostoso.
De repente, o chão tremeu embaixo de seus pés. Rowan desequilibrou-se e caiu no chão. Gillian segurou-se no balcão, tremendo dos pés à cabeça. O prédio inteiro tremia violentamente, as janelas estraçalhando-se, o asfalto da rua se quebrando.
— O que é isso?! — Gabriel indagou aos gritos, agarrado a uma das estantes de Bathory.
Foi Rowan quem respondeu, com uma estranha certeza.
— O terremoto.
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