Notas iniciais
Weee, epílogo. :D Preparem-se, que há 3 mortes importantes. :3

No dia 31 de outubro de 2013, o Dia das Bruxas, um terremoto de grau 8,9 na escala de Ritcher atingiu o sul da Califórnia, primariamente o condado de Southeria, sendo sentido também em Westeria, Easteria e Northeria, e até mesmo nos estados americanos de Nevada e Arizona e no México. Os primeiros tremores foram sentidos às 06h42min da noite na cidade de Middleland, tendo durado menos de um minuto.

O terremoto em si durou cerca de oito minutos e foi considerado um dos cinco maiores já registrados na história da humanidade. As causas são bem incertas, mas de certa forma não foi surpresa, já que a Califórnia sempre foi suscetível a sismos. Este, porém, não se originou no mar, como de usual, mas sim debaixo da terra, o que tem intrigado pesquisadores. A falha de San Andreas cresceu substancialmente.

As perdas econômicas da Califórnia foram estimadas em mais de trezentos e oitenta bilhões de dólares, tendo deixado mais de dez mil mortos e dois mil desaparecidos. Mais de um milhão de californianos ficaram sem energia elétrica, e ferrovias e estradas rodoviárias foram destruídas.

O sismo provocou alertas de tsunamis em mais de vinte países, incluindo a América Latina e a costa leste da Ásia e da Oceania. Mais de quarenta e cinco países enviaram suas condolências à Califórnia, além de equipes de busca e resgate para ajudar a procurar os desaparecidos. Países como Japão, Austrália, Nova Zelândia, Coréia do Sul, Estados Unidos, Canadá, Brasil, Argentina e toda a Europa dispuseram-se de esforços humanitários, incluindo doações por parte do povo.

Curiosamente, Middleland foi a cidade menos afetada pelo terremoto, sendo que a única área seriamente destruída consistiu na avenida principal da cidade, a Rua Primeira, até imediações do bairro de Wintorland.

Várias mansões de Wintorland ruíram ou sofreram sérias injúrias graças ao sismo, inclusive o Château de Wintorland. Uma das filhas gêmeas de Cornelius Goldenschild, Carmenia, morreu após ser atingida na cabeça por uma viga que soltou-se do teto do Château. A autopsia mais tarde revelaria que Carmen estaria grávida no momento da morte, informação que foi abafada a pedido do pai.

O recém-construído Edifício Grandes Expectativas desabou como se fosse feito de papel, matando cerca de quarenta pessoas na rua e mais de sessenta moradores do prédio, incluindo Brandon Melnick. A Prefeitura de Middleland prometeu indenizar as famílias de cada injuriado ou morto. A construtora responsável pelo edifício acabou entrando em falência. A construtora menor Grandes Esperanças, pertencente a Ethan Lemnsack, começou a reconstruir a cidade, contratada pelo governo do condado, tornando-se uma das maiores construtoras da Califórnia em pouco tempo.

O prédio da agência de publicidade Lemnsack & Lovegood, também pertencente a Ethan, não sofreu qualquer outra lesão exceto por uma viga de ferro que adornava o teto do salão principal da agência que caiu e matou o único filho de Romney Lovegood, Goldie. Compadecido pela morte do filho de seu sócio, Ethan tornou Romney diretor da subdivisão da Anhert, Inc. que supervisionava as agências de publicidade subordinadas à ela.

O Edifício Dasvalkur, o único arranha-céus da cidade, foi um dos poucos não afetados durante o terremoto. Curiosamente, o edifício pertencia à construtora que faliu com a destruição do Grandes Expectativas, sendo posto à venda quase que imediatamente. Ethan comprou-o por um preço extremamente baixo, tornando-se dono de seus noventa e cinco andares e trezentos metros, renomeando-o como Palácio Real Hentz, planejando torná-lo a sede da Anhert.

Ethan pediu a um jovem artista de rua para desenhar um símbolo para a Anhert, e assim ele o fez, criando um leão dourado virado para a esquerda a rugir sob as duas patas, enquanto mostrava as garras, tudo isso sobre fundo preto com lascas douradas. Ethan o aceitou prontamente, e pouco tempo depois o jovem artista foi chamado como aprendiz para uma academia de artes. O próprio Ethan escolheu o lema da Anhert, curto e direto: Negro ou dourado, um leão é um leão.

A Academia Alphonse Enoi, bem como toda a Rua Symphonia e a maior parte do bairro Dion, permaneceu intacta.

O Primeiro Ministro Clarke Heath fez seu pronunciamento oficial no dia 2 de novembro; logo depois, o príncipe Senn fez a mesma coisa. O povo gostava de Senn por se identificar com o caráter informal e pouco real do príncipe, aproximando-o do povo. A primeira coisa que Senn disse foi que a rainha Henrietta Walker havia falecido há poucas horas enquanto dormia, e que sua mãe Antoniette, condessa de Easteria, havia abdicado formalmente do seu direito de sucessão. A Califórnia entrou num luto oficial de uma semana e o dia da morte da ex-rainha tornou-se feriado.

No dia 15 de novembro de 2013, no palácio real em Sacramento, Senn foi coroado com o título de Sua Sereníssima Majestade, Senn Henrietta Antoniette Jaime Alexander Walker-Fellow, o Primeiro, pela Graça de Deus, Rei da Califórnia e Chefe do Estado Californiano, Conde de Northeria e Southeria e Protetor, Defensor e Guardião do Oeste, o soberano monárquico mais jovem do mundo atual. A coroação foi televisionada para quase duas bilhões de pessoas em todo o mundo, sendo um dos eventos mais vistos de todos os tempos. Vários reis e rainhas estavam presentes, assim como chefes de governo de várias potências mundiais, bem como o Presidente dos Estados Unidos, o Imperador do Japão e toda a família Lemnsack Hentz Barcarolli.

No dia 16 de novembro, o Primeiro Ministro anunciou que as maioridades civil e penal da Califórnia seriam abaixadas de dezoito para dezesseis anos. Ou seja, o jovem de dezesseis anos já poderia dirigir, votar, se casar e trabalhar sem necessidade da aprovação dos pais ou de um juiz, assim como ser julgado em casos de crimes como adulto. Porém, questões como prostituição e pornografia ainda seriam exclusivas para maiores de dezoito anos.

Se isso tivesse acontecido há pouco mais de um ano e meio, Ethan Lemnsack jamais teria precisado brigar na justiça para se emancipar e adquirir a guarda do irmão.

No dia 28 de novembro, o Dia de Ação de Graças, Gloria Lamme faleceu subitamente enquanto dormia. Na leitura de seu testamento, foi dito que ela deixava 50% das ações da Lammex para Ethan Lemnsack e que, mais o 1% que ela já havia lhe dado como pagamento dos serviços de sua agência de publicidade, totalizava 51%, transformando Ethan no acionista majoritário de uma das dez maiores indústrias tabagistas da Califórnia.

Os parentes mais próximos de Gloria Lamme alegaram que Ethan manipulara a velha para que ela lhe deixasse a herança, não tendo absolutamente nenhum outro motivo para que ela o fizesse. Alegaram uma suposta demência mental que Gloria tinha, assim como uma dúzia de outros motivos de última hora, todos desmentidos por diversos profissionais das áreas.

Ethan Lemnsack aceitou de bom-grado o legado de Gloria Lamme, comprometendo-se com os outros acionistas a deixá-los na diretoria geral da Lammex, sem interferir com frequência. Porém, obrigou-os a enviar-lhe relatórios mensais sobre o que acontecia na companhia, não querendo ficar para trás, além de que todas as decisões que eles tomassem deveriam passar por sua aprovação. Isso irou os acionistas.

— Oh, quem você pensa que é? Anna Wintour?

Apesar de sua palavra ser realmente a última, Ethan pouco queria se envolver com as indústrias tabagistas.

A essa altura, seu patrimônio líquido, subtraído da herança deixada por seus pais, já estava na casa das dezenas de milhões de dólares.

OoO

Era dia 30 de novembro. Àquela altura do campeonato, só restavam na Academia Alphonse Enoi funcionários e alguns pais de alunos, além dos próprios alunos. Era o dia de recebimento de notas, onde os alunos do terceiro ano descobriam se deveriam ou não se lamentar pelos dois mil dólares investidos na formatura.

Ethan Lemnsack não sabia bem se deveria exatamente não se preocupar com as notas, não com o seu desleixo do segundo semestre do ano. O dia estava chuvoso e nublado e o cheiro de terra molhada subia enquanto caminhava pela grama do Campo Verde em direção à diretoria. O tom triste combinava com as facetas lacrimosas dos que haviam ido para a recuperação final. Ethan gostava de dias como aquele.

O prédio da diretoria erguia-se branco e majestoso, com pais de sobretudos e alunos de casacos pesados saindo e entrando todo o tempo.

As várias salas do térreo haviam sido convertidas em salas de entregas de resultados correspondentes aos anos dos alunos. Nem Lorenzo nem Nicholas haviam ido com ele, preferindo ficar aconchegados em suas grossas colchas naquela manhã chuvosa, com seus lutos. Tanto Carmen Goldenschild quanto Goldie Lovegood haviam morrido no terremoto da Califórnia.

Ethan entrou primeiro na sala do quarto ano, o ano de Lorenzo.

— Qual o nome? — perguntou a coordenadora Katherine Giucolani, a mulher mais esbelta e sensual que Ethan já vira na vida.

— Lorenzo Lemnsack Barcarolli — falou. Ela levantou a cabeça e o fitou com seus perfeitos olhos azuis.

— Oh, você é o Ethan, não é? A diretora Page disse que quer vê-lo na sala dela. Quer entregar as notas dos seus irmãos ela mesma.

Ethan levantou as sobrancelhas, agradeceu e subiu os andares restantes até à sala da diretora, que se encontrava dignamente sentada em sua cadeira por trás da moderna escrivaninha. Naquele dia, Hellen Page estava com os cabelos escuros amarrados para trás num coque, e os olhos estavam escuros e severos.

— Sente-se, Ethan — ela pediu. Ethan o fez, vendo-a tirar da gaveta um envelope de papel-pardo amarelo. — Seu irmão Lorenzo passou de ano. Ele é muitíssimo inteligente, além de ser astuto e de, pela minha perspectiva, ter um futuro brilhante. Ele se adapta muito bem a diferentes ambientes. Ano passado, quando veio para cá, era tímido e introspectivo, mas mudou com rapidez. Já o ouviu tocando piano? O Sr. Fligh me disse que ele é o melhor da turma dele, aprende muito rápido mesmo sendo cego e consegue tirar músicas de ouvido. E ele quer aprender violino, creio que sabe disso.

— Sei.

— Pois bem, eu sugiro que invista nisso. A Orquestra Sinfônica Californiana virá para Middleland ano que vem, eles promoverão uma competição no teatro da Escola Saint Nicholas, tanto para crianças quanto adultos. É difícil que um garoto de dez anos vença uma competição com pianistas e violinistas experientes, mas valerá a experiência para ele.

— Falarei com ele sobre isso.

— Muito bem. Quanto a você, apesar de ter relaxado no segundo semestre, como é bem possível notar, também passou de ano; terminou o ensino médio. Parabéns. — Não havia nenhuma emoção em sua voz, mas Ethan não esperava mais que aquilo. — Espero que tenha boa sorte na Anhert Corporation.

— Terei — disse com um sorriso travesso.

— Agora… — O tom de Hellen Page tornou-se mais sombrio. — Quanto a seu irmão Nicholas. Ele foi reprovado.

Aquilo não o surpreendeu.

— Quer dizer, ele está na recuperação.

— Não, ele foi reprovado. As notas dele foram tão baixas que nem se ele tirasse nota dez em todas as matérias que deve teria chance de passar de ano.

Ethan fitou-a perplexo, sem saber o que falar. Durante toda a vida de Nicholas, ele o ajudara na última oportunidade que tinha, e Nick sempre conseguira. Mas agora? Ele sequer teria uma última chance?

— Ele sequer terá uma última chance? — indagou debilmente.

— Oh, mas ele teve, muitas. Ele deixou as últimas provas todas em branco. Mal assinou o nome dele.

— A namorada dele morreu, pelo amor… ele perdeu duas namoradas e um filho num único ano. Não é como Lorenzo, que tem dez anos. Nick tem quinze, os hormônios dele estão à flor da pele. Acredite, eu sei disso. Moro com ele.

— Infelizmente — disse a diretora num tom neutro —, creio que seja impossível passá-lo de ano.

— Sabe que Nicholas ser reprovado significa mais um ano aqui, não sabe, diretora?

Pensou ter visto as narinas de Page se dilatando, mas foi apenas um vislumbre.

Aí está.

— Diretora Page… — começou Ethan cautelosamente. — Talvez… talvez nós possamos chegar a algum tipo de acordo. E… se eu tirasse Nicholas daqui?

Ela fitou-o com olhos vagos.

— E se eu tirasse ele daqui e o pusesse numa outra escola, para que a senhora nunca mais tivesse que olhar para a cara dele ou lidar com seus problemas e suas notas baixas?

Hellen Page demorou-se tanto tempo fitando-o penetrante e perturbadoramente que Ethan pensou que declinaria sua ideia. O silêncio no escritório era frio e pulsante.

— Posso ficar com Lorenzo? — ela sussurrou.

OoO

Quando chegou em casa, Ethan foi ao quarto de Lorenzo. Ele estava sonolento, enrolado nas grossas cobertas, e mal abriu os olhos quando contou-lhe que passara de ano. Ethan suspirou e beijou sua bochecha pálida. Nick era o próximo.

Nicholas Hentz estava olhando para o teto do quarto com uma frieza sinistra. Deitado completamente nu debaixo das cobertas, parecia um filhote de leão enfezado. Seu corpo dourado refulgia sob a luz do teto. Foi ele a primeira pessoa a falar quando Ethan entrou.

— Passei de ano? — sussurrou roucamente.

— Sim — mentiu Ethan. Não havia necessidade de contar que tivera que subornar Hellen Page (de novo) para que ele passasse. — Mas não vai poder voltar à Academia ano que vem — acrescentou com rapidez. Queria acabar logo com aquela mentira. Nicholas não reagiu. — Você sabe que eles agora só aprovam os melhores, e você passou raspando.

— Sei. — Nick suspirou. — Pra onde eu vou ano que vem?

Ethan pensou um pouco, lembrando-se da conversa que tivera com Hellen Page.

— Escola Saint Nicholas.

Pela primeira vez desde que entrara ali, Nick olhou diretamente para o irmão. Ethan pensou ter vislumbrado a presença do medo em seus orbes muito pretos, mas que, ao contrário dos de Ethan, refletiam a luz e não tinha capacidade de hipnotizar. Uma expressão eternamente sofrida tomava seu lindo rosto Hentz, os cabelos louros agora compridos jogados na frente do rosto adoravelmente.

A morte o transformou num garoto amargo e magoado. Ele nunca vai voltar a ser o que era antes. Viverá infeliz o resto da vida.

— Saint? — repetiu Nicholas Hentz, perplexo, tirando Ethan de seus pensamentos. O súbito aumento de sua voz foi de certa forma reconfortante. Não, Nicholas Hentz não estava morto, estava hibernando. O garoto hiperativo estava trancado numa salinha escura do coração daquele que se encontrava estático em sua frente agora, mas algum dia teria que sair. — Saint Nicholas? Mas aquilo é uma escola militar!

— Não, é uma escola religiosa.

— E qual a diferença?! O governo manda os soldados para serem treinados lá!

— Não é verdade. A St. Nicholas pertence à mesma ordem religiosa que pertence a St. Emanuelle, nossa antiga escola de Castellobranco. — Onde conhecera Oliver. Onde conhecera Peter Marahana. — Não gostaria de se lembrar como é lá? — Ethan talvez não quisesse, mas Nick poderia querer.

— NÃO! Como pode me mandar para uma escola católica? Eu sou um ateu… pagão… satanista… meu Deus.

Ethan suspirou.

— Pois vai ter que gostar, ninguém mandou você ser… quase reprovado. Aliás, Lorenzo fará um concerto lá ano que vem. Nosso irmãozinho vai ser um músico famoso em todo o mundo e eu serei um magnata bilionário. E você pode se tornar Primeiro Ministro, ou rei.

— Cala a boca — Nick rosnou, enfiando a cabeça no travesseiro. — Se me mandar para lá, vou me matar de novo.

— Fique a vontade, querido. Tem uma navalha no meu banheiro, e se procurar pela casa encontrará vários venenos.

Deixou o quarto, observando o vazio corredor onde antes estivera um enorme relógio de pêndulo comprado na Ultimum Temporum, agora apodrecendo em algum lixão. Ethan perguntou-se por que Nick estivera nu, mas descobriu-se com vontade de ficar também. Perguntou-se também se algum dia voltaria a fazer amor com ele, se algum dia… se algum dia Nicholas Hentz voltaria a ser feliz.

OoO

E, bem, o que podia fazer? Contar a ele era uma ideia absurda, totalmente sem lógica e só deixaria a relação dos dois pior do que já estava. E não contar era uma ideia totalmente idiota e egoísta. Maldita fosse Mary Alice Hentz.

O Château de Wintorland encontrava-se por toda a sua volta, magnânimo e intocado, exceto por uma parte dentro dele, uma parte do teto sem viga, e uma parte do piso sem porcelana, pois a anterior havia sido manchada de sangue.

Victoria Goldenschild estava seu lado, completamente nua, deslumbrante como quando veio ao mundo. Os seios pequenos e perfeitos encontravam-se inchados e com marcas de chupões, assim como todo o pescoço. As coxas guardavam a fileira única de pelos escuros perfeitamente aparados de entre as suas pernas esguias e compridas. O cabelo loiro artificial estava amarrotado em vários nós por trás da cabeça, como Nick gostava. Seus olhos estavam dourados-escuro e tristes.

— Houve uma vez… — Vickie sussurrou — que eu estava dormindo aqui nesse quarto… e ela veio até mim, deitou-se ao meu lado e me abraçou. Eu acordei e quando eu perguntei por que ela estava ali, me abraçando, ela disse que é porque eu estava tendo um pesadelo. Eu estava tendo um pesadelo. Eu nunca entendi como ela soube…

Vickie parou de falar, engolindo o nó da garganta. Seus olhos brilhavam com as lágrimas, como dois espelhos de ouro.

— Eu estava no topo da escadaria quando o terremoto começou. Me agarrei ao batente, mas Vickie estava no meio do salão, não tinha onde se segurar… eu vi a viga se soltando, sempre achei uma idiotice elas estarem ali… Eu tentei gritar seu nome, implorando que ela se segurasse em algo. Acho que ela ia se segurar na porta, não sei, a casa sacudia demais, eu só dava graças a Deus que Romeo estivesse com Ben. Depois disso… a viga se soltou e se arrebentou na nuca dela. Eu fiquei vendo tudo.

Vickie começou a chorar. Nick apertou seu corpo contra o próprio, sentindo o calor dos seios macios esquentar a cicatriz do tiro que levara no ano anterior.

— Só pude descer quando o terremoto parou, e a essa altura ela já estava morta. Seus olhos estavam revirados, e ela não parecia nada além de magoada, como se estivesse triste que a morte tenha vindo tão cedo. Oh, como eu sinto falta dela.

Nick chorava também, mas silenciosamente. Deixava que escorressem as lágrimas de mágoa, da tristeza que morava em sua alma e que não parecia que ia deixá-la tão cedo. Amara Carmen tanto quanto amara os irmãos, mas no momento seu coração não tinha mais espaço para o amor, para a alegria ou júbilo. Era tristeza que o enchia agora, era… desesperança.

Isso dói tanto. Por que, por que eu mereço isso? O que foi que eu fiz de tão terrível para ver tantas mortes? Oliver, meus pais, Mia, Charlie, Carmen… Oh, por favor, faça com que pare, faça com que pare de doer…

— Meu pai vai me mandar para um colégio interno na Suíça — Vickie sussurrou, mal escondendo a voz embargada. — Quer que eu me afaste daqui.

Nick não aguentou mais. Virou Vickie contra a cama e penetrou-a repentinamente, sem proteção. Os minutos seguintes foram prazerosos e tristes; Vickie por baixo de si, agarrado a ele, arranhando-o e gemendo, e Nick por cima dela, sem expressão alguma enquanto a penetrava.

Ejaculou dentro de Vickie, num orgasmo pálido.

Não posso contar a ela que vou para a Saint Nicholas. Ela já tem tristezas demais. Não tenho com quem desabafar. Não tenho ninguém. Todos que eu tinha foram arrancados da minha vida.

— Eu nunca vou esquecer você — disse à Vickie com sinceridade. — Eu te amo, e também amei sua irmã. — Beijou-a com vontade e paixão, ao passo que ela correspondeu abraçando-o com as pernas e passando as mãos em suas costas e em suas nádegas, apertando-as com força.

— E você é o louro mais delicioso com quem eu já transei — Vickie lhe sussurrou de volta, dando um tapa em sua bunda macia. — Também nunca esquecerei você. Nigel. Meu Nigel.

— Seu Nigel.

Nicholas encostou a mão no calor que ela tinha entre as pernas, massageando-o com delicadeza. Vickie gemeu. Voltou a penetrá-la com vontade, ternura, carinho, tristeza, fúria e uma poderosa e profunda lamentação. Perguntou-se se algum dia seria feliz de novo, se teria capacidade de sorrir com sinceridade, se aquele garoto feliz e despreocupado que era antes voltaria à tona.

Tudo o que eu toco morre. Inclusive eu.

OoO

Rowan Pyatt caminhava a passos suaves através do tapete vermelho do corredor antecedente ao apartamento dos Lemnsack Hentz Barcarolli. Deslizava os dedos nus pela parede de mármore branco e polido, sem ver uma única imagem de quem a tocara pela última vez.

Desde a execração de Jhahantar, Eadwine havia lhe ensinado a controlar seu poder psicométrico de forma que sequer precisava mais das luvas para não enlouquecer. Ainda sentia a felicidade de poder andar sem elas dentro de si; sentia-se livre pela primeira vez desde os dez anos de idade.

A Chaulwen o acolhera tanto como um membro quanto como uma espécie de divindade, ao passo que Rowan podia apenas dar de ombros mentalmente e se perguntar: Bem, eu salvei o mundo. Fazer o quê?

Eles aceitaram Gillian também, que afinal era de fato o maior exemplo em mediunidade e clarividência que a organização dispunha, tornando-se público o fato de que provavelmente salvara a vida de Ethan Lemnsack ao declinar sua intenção de comprar o Edifício Grandes Expectativas.

Sua mãe Maya aceitara resignada o fato de que ambos eram aberrações paranormais, assim como ela. O poder de Maya nunca voltou e nunca voltaria, como a Chaulwen bem havia avisado. Sua mãe não se reaproximaria dos Pyatt nunca mais, Rowan sabia disso, e aceitara relutantemente. Talvez estivessem todos melhor assim, ou pelo menos era o que pensara quando uma mulher chamada Beatrice Pyatt, descendente da tia-bisavó de Rowan e Gillian, Maslynn, que era uma paranormal, contatou a família perguntando se poderiam almoçar juntos qualquer dia desses. Claro que sim, por que não?

Rowan apertou a campainha, esperando por um minuto até que a porta foi aberta.

Ethan estava bem a sua frente, tão magnânimo quanto possível. Beijou o menor na testa quando este entrou.

— Que bom que veio — ele disse. — Precisava mesmo falar com você.

— Certo, mas me deixe falar primeiro — Rowan pediu, sentando-se no sofá. Ethan sentou-se na poltrona e pôs-se a observá-lo. O garoto continuou cautelosamente: — Como está Nicholas?

— Mal. Péssimo. Abominavelmente deprimido. Sem expectativa de vida. Odeia a mim e a todos. Pode escolher.

— E você?

— A construtora que sua irmã me mandou comprar está crescendo fervorosamente com as obras feitas no estrago que o terremoto causou. Também estou reconstruindo ferrovias e trilhos. Agradeça a ela. Estou bem feliz que a Anhert esteja prosperando, mas infeliz que meus irmãos estejam infelizes.

Rowan comprimiu os lábios.

— Vê que estou sem luvas?

— Vejo.

— Sabe, Ethan, eu sei que Nicholas está terrivelmente consternado com tudo e… acho que tudo isso começou quando ele descobriu que não era seu irmão de sangue. — Ethan deu de ombros. — Desde que entrei na Chaulwen, tenho desenvolvido minhas habilidades psicométricas de uma forma que eu nunca pensei ser possível. Sabia que posso implantar um pensamento na mente de alguém e torcer para que ele germine? Ficaria espantado ao saber os nomes das pessoas que têm habilidades paranormais, tipo a rainha. Quer dizer… a nossa ex-rainha.

— Aonde quer chegar?

— Eu quero te ajudar — Rowan respondeu. — Eu quero fazer uma coisa eticamente errada sem o consentimento da pessoa, uma coisa que a Chaulwen certamente me proibiria de fazer, embora eles não possam realmente me proibir de fazer nada. Eu quero… eu quero ajudar Nicholas a voltar a ser o que era. E talvez Lucas Fontanelle também. Por que ignora seu irmão verdadeiro?

Ethan virou a cara, sem vontade de fitá-lo.

— Sei do que está falando — ele sussurrou.

— Quantas pessoas sabem da verdade?

— Nós dois, Lorenzo, Gabriel… talvez a psicóloga de Nick. Acho que só. E ele e Lucas, é claro.

— Então não teremos problemas.

Quando Ethan virou-se para fitá-lo, Rowan soube que ele estava de acordo.

Menos de uma hora depois, estava novamente na sala de estar do vigésimo terceiro andar, com um recém-chegado e infeliz Nicholas Hentz e um assustadíssimo Lucas Fontanelle. Rowan o encontrara no hall do prédio, tocara nele e passara-lhe as informações que precisava, do que podia fazer com suas mãos, do seu poder. Ficara mais meia hora convencendo-o de que não estava louco.

— Pensem bem assim — disse Rowan aos dois. — Vocês não viveram a vida do outro, como devia ser. Não gostariam de poder viver esses sentimentos e emoções? De saber como seriam suas vidas se não tivessem sido trocados? Eu posso transferir as lembranças de um para o outro, de modo que seria como se nunca tivessem sido trocados. Talvez isso suavize um pouco as coisas.

Nicholas não parecia se importar. Lucas ainda estava receoso. Possuía olhos negros, tão negros.

— Quero que vocês fiquem em pé, um de frente para o outro. Isso, agora usem a mão esquerda para segurar no braço esquerdo do outro e a mão direita para segurar no braço direito. Isso, apertem com força. Não tentem interromper o fluxo de informações, deixem que ele passe livremente por seus olhos. Podem sentir uma pequena tontura, mas não deixem isso os abalar.

Rowan se levantou, fitando os dois garotos a sua frente. Respirou fundo e segurou firmemente na parte de trás do pescoço de cada um. Fechou os olhos e deixou a magia fluir.

Viu Nicholas Hentz, ainda ruivo, parado em cima da parede de proteção do topo do prédio, fumando um cigarro a um passo da morte. Sentia medo por ele e um latejar latente na perna.

— Que bom que veio. Temos muito o que conversar.

Puxou aquela informação da mente de Lucas Fontanelle e a destruiu. Procurou a lembrança em que conversava com ele e a destruiu também.

A seguir, viu-se dentro daquela mesma sala, sentado no sofá e segurando um relatório médico nas mãos, checando informações destruidoras. Não se sentia triste, mas apenas enganado, humilhado, desprezado.

Extraiu aquela lembrança da mente de Nicholas, desvanecendo-a nos véus da própria mente.

Rowan deixou-se levar pela maré de lembranças desconexas, deparando-se então com uma noite estrelada, num beco escuro, com vários rapazes grandes em cima de uma prostituta que guinchava de agonia.

— Não, saiu para jantar com Ollie no restaurante Jagger’s Voice. Disse que chegaria em casa perto de meia-noite.

Ethan não lhe dera permissão para aquilo, mas Rowan pensava que acabaria entendendo que fizera aquilo por Nicholas. Assim como já fizera duas vezes, destruiu aquela memória inútil e desgraçadamente lamentadora, mas sua falta deixaria um rombo enorme na mente de Nicholas.

— Não, saiu para… não, desculpa, Peter, não sei onde ele está.

— Não precisa dizer, eu sei. Saiu para jantar com Ollie no restaurante Jagger’s Voice. Chegará em casa perto da meia-noite. Vamos encontrá-lo.

Quando Rowan Pyatt deu por si, estava caído no chão da sala, com os dois garotos desmaiados a sua frente. Levantou-se respirando profundamente.

Ethan apareceu no topo da escada.

— E então? — perguntou ele.

— Já era — disse-lhe. — Eles não vão se lembrar de nada quando acordarem. Lucas voltará a ser um legítimo Fontanelle e Nicholas voltará a pertencer à dinastia Hentz. Acho que você tem consciência de que esses dois não podem mais morar um perto do outro, Lucas é parecido demais com você. E terá que conversar com Lorenzo. Não minta para ele, ele saberá se mentir. Vai ter que pedir que guarde o segredo. Pelo bem dos dois. Faça o mesmo com a psicóloga de Nick e com Gabriel. Minta para ela, mas não minta para ele. E o trate melhor; ele ainda está abalado pela morte do irmão.

— Compreendo. Darei um jeito nisso — Ethan disse descendo até a sala. — A mãe de Lucas trabalha com artes. Desenhos, pinturas, essas coisas… acho que ela pode ser contratada pelo departamento criativo de uma agência de publicidade de Los Angeles que eu recentemente adquiri. Isso quitará os problemas financeiros dela e os mandará para longe daqui. — Quando ficaram frente a frente, Rowan obrigou-se a olhá-los nos olhos.

— Tem mais uma coisa — disse ao maior. — Eu destruí da mente de Nicholas a culpa que ele tinha na morte de Oliver.

— Você o quê? — Ethan sussurrou baixinho, de uma forma que fora mais terrível do que seria se ele tivesse gritado.

— Fiz isso por Nicholas. Não por você, não pela memória de Oliver, nem por ninguém. Por ele. Eu entrei na mente dele, você não imagina como ela estava corrompida por essa culpa, uma culpa que não se desanuviaria nunca. Bem, estou bem certo de que você não é louco de lhe contar a verdade.

O rosto de Ethan estava duro. Decididamente, ele não gostava de ser desafiado nem desobedecido.

Vai ser um empresário poderoso, esse daí, pensou Rowan Pyatt.

— O que ele exatamente sabe?

— Peter Marahana perguntou a ele se ele sabia onde você e Oliver estavam. Ele disse que não sabia. Peter disse que não tinha problema, porque ele sabia, e assim eles foram. Nicholas não tinha como pará-los.

Ethan suspirou austeramente.

— Está certo. Lorenzo sabe de Oliver, mas nunca soube que a culpa foi de Nick. Melchior e Amy sabem, mas falarei com eles… Talvez tenha sido melhor.

— Foi melhor. — Olhou para os dois garotos desmaiados no chão. — Coloque Nicholas na cama, e quanto a Lucas… eu o encontrei no hall, deite-o no sofá de lá. Nenhum dos dois vai se lembrar sequer que veio aqui. Lucas não vai lembrar que eu falei com ele.

— Certo. — Com cuidado, Ethan pegou o irmão verdadeiro nos braços e o ergueu, contemplando seu rosto tão parecido com o seu, o corpo que continha o sangue de John Francis Hentz e que jamais saberia disso. Mas bem, Melon Chioren também tinha. A diferença é que ele fora ardiloso o suficiente para descobrir isso sozinho e inteligente o suficiente para manter a boca fechada sobre. — Aliás, minha formatura é amanhã. Tem dois ingressos em cima da mesa, pegue para Gillian e você.

Quando Ethan desceu com Lucas nos braços, Rowan deixou-se respirar. Uma grande quantidade de Sombras estava se reunindo em Sacramento, Northeria, e seguidores do Mal se preparavam para serem os próximos escolhidos para tomar o lugar deixado por Bathory. Jhahantar estava ferido, não morto. Não queria dizer a Ethan que teria que ir embora, se mudar para a Casa da Chaulwen em Sacramento.

Mas ora, ele era um Atheneus. E ainda tinha sessenta e oito gerações entre ele e Murrough para aprender sobre.

OoO

Na loja de Bathory, estava tudo silencioso.

O prédio estava lacrado com faixas da polícia, alegando que estava condenado. A estrutura estava a ponto de ruir, mas assim estava a maior parte da periferia de Middleland. Dentro da loja, raios de luz fraca iluminavam a poeira do ar. Prateleiras amontoavam-se sobre antiguidades mais valiosas do que as pessoas pensavam, eletrodomésticos quebrados e taças estraçalhadas.

Havia uma mancha negra gigantesca no chão quando a criança mendiga lá entrou. Atravessar as portas fora fácil, a fechadura praticamente não existia mais. Dentro de trapos milenares, a criança passou os olhos pela antiga loja de Bathory, desdenhando-se ao ver como estava decrépita. De seu Porão, nada mais restava além de um buraco vazio na terra. Jhahantar a abandonara e partira para Sacramento; provavelmente iria escolher seu próximo servo em breve, rejuvenescê-lo-ia no Ritual de Purificação e então adormeceria por mais cinquenta anos, descansando do ferimento que Rowan Atheneus lhe causara.

Não importava. O Mal já sofrera mais que aquilo, e sempre passava por cima. Não importava se levasse cinquenta, cem ou mil anos. A criança mendiga era mais velha que tudo aquilo. Ainda podia se lembrar de quando, na França, delatara o plano de Petyr Atheneus a Bathory, matando centenas de Atheneus de uma só vez.

No centro da loja, os imortais ossos enegrecidos de Bathory.

— Minha velha amiga — disse a criança a si mesma. — Um ritual simples a trará de volta. Ninguém mais tem a sua capacidade de controlar a fúria de Jhahantar. E você matará Rowan Atheneus, agora sabe onde ele mora.

De todas as pessoas que, com sua magia, a criança mendiga mandara à loja para a morte, Rowan Atheneus era a que mais se arrependia de ter escapado. Vislumbrara de longe Gillian Pyatt acordá-lo do transe, assim como a Lorenzo. Naquele dia, Jhahantar não fora alimentado, e Bathory ficara velha.

A criança mendiga manuseou um dos pesados ossos entre os dedos, perguntando-se se algum seguidor do Mal ficara em Middleland. Há muito que não era mais humana; precisaria dos humanos para trazê-la de volta, como Bathory precisava deles também para manter Jhahantar vivo.

Ergueu o pesado fêmur para vê-lo melhor na luz do sol. Olhou de relance para o espelho quebrado do outro lado da loja, observado que não estava sozinha. Antes de cair morta, a criança mendiga pensou ter vislumbrando alguém descendo um machado em sua cabeça. E veja só, ela sequer usava capuz.

OoO

Ethan Lemnsack formou-se no ensino médio no dia 1 de dezembro de 2013. Gillian Pyatt deixava os gritos de comemoração deslizarem por seus ouvidos, ecoando nas paredes do grande salão em que se encontrava. A Academia Alphonse Enoi não tinha estrutura para uma formatura, de modo que a Comissão dos alunos alugou a metade do centro de convenções de Middleland. Porém, não pareceram saber que aquele lugar se chamava Centro Hentz de Convenções.

Gillian sabia que ele pertencia à Ethan. Fora o último ato dele de vingança contra Taylor Mayfair, pegar os últimos trinta mil dólares de aluguel de espaço e ficar para ele. Agira perfeitamente bem; ninguém desconfiava nem podia fazer nada.

No palco, um anel de luz azul iluminava a diretora Hellen Page. O espaço destinado ao público estava dividido em dois, uma parte para os formandos, de smoking e vestidos, e a outra parte para os adultos. Não havia mais de cento e sessenta alunos se formando àquela noite, mas a multidão era maior. Devia haver mais de duas mil e quinhentas pessoas no auditório.

Rowan estava a seu lado, adoravelmente feliz. Lorenzo Barcarolli estava ao lado de Rowan, com seus cinzentos olhos cegos observando tudo como binóculos. Ele parecia um pequeno príncipe com o cabelo preto brilhando sobre a luz dos holofotes, as bochechas rubras e o terno preto. Gillian conseguia sentir a tristeza e a raiva que emanavam dele pela morte de Goldie Lovegood, exatamente como acontecera com Nicholas no semestre passado. Perguntava-se se ficariam sequelas. Esperava que não. E a seu lado…

Gillian se sentia como se nunca tivesse visto Nicholas Hentz antes. Quando o vira pela primeira vez, com o cabelo curto e ruivo, ainda assim vira em seu rosto uma delicadeza e feminilidade latentes, tudo misturado a um sarcasmo e cinismo poderosos e uma amargura incomensurável. O Nicholas que via sentado ao lado de Lorenzo parecia outra pessoa. Havia uma doçura e meiguice gigantescas em sua expressão, uma total falta de desgosto, angústia e tristeza, como o antigo Nicholas tinha, como se nunca tivesse experimentado infelicidade na vida. Seu olhos estavam brilhando com um grande sorriso incrustado em seus lábios.

Sabia que Rowan tinha feito algo nele, só não sabia o quê. De qualquer maneira, o Nicholas de agora parecia muito mais feliz que o de antes. Havia uma linda jovem loura de olhos azuis ao seu lado usando brincos com diamantes do tamanho de ovos de codorna nas orelhas. Rowan lhe dissera que seu nome era Amy. Ao lado dela, Gabriel Melnick estava com um semblante terrivelmente confuso, uma mistura de tristeza, raiva e felicidade.

Terminado o cansativo discurso para os pais, professores, alunos e ausentes, Hellen Page passou a chamar os nomes.

— Abby Artemis… Abigail Collins… Abigail Dawking… — Em ordem alfabética, como qualquer formatura da Terra. — Ethan Lemnsack.

Ethan ergueu-se majestoso como só ele podia. Caminhou através do tapete vermelho, subiu as escadas e seguiu andando triunfante em direção à diretora. Gillian pensou ter vislumbrado Hellen Page sorrir e murmurar um parabéns quando lhe deu aquele tubinho com o diploma, ou talvez houvesse sido apenas um pressentimento.

Ele realmente era baixo para a idade, mas quando virou-se para a plateia e sorriu, o holofote jorrou sua sombra na parede, e por um momento Ethan Lemnsack ergueu-se alto como um rei.

Naquela noite, a maior salva de palmas foi para ele… e para Alecus Northist e Mistrees Heaven.

Quando os nomes acabaram, Hellen Page fez mais um discurso sobre a faculdade, sobre como fora prazeroso aquele ano que passara com aquele terceiro ano e todas as falsas lisonjas que uma diretora era obrigada a mostrar aos pais. O Conselho da Academia tinha lugar de honra na primeira fileira, mas dois assentos estavam vagos. Um pertencia a Ernst Overgreen, que pedira formalmente para deixar o Conselho, e o outro era de Gloria Lamme, falecida havia dez dias. Aqueles lugares vazios eram macabramente deprimentes, mas não a John Christian Medley, o homem mais gordo que Gillian já vira e que parecera aceitar de bom grado um lugar a mais para sentar.

Olhou para seu lado direito, onde o banco estava aparentemente vazio, exceto por um ser azul feito de pura Sombra e Luz.

Se sente feliz?, perguntou a ele, que em tanto ajudara seu irmão a derrotar o Mal.

Eu não me sinto infeliz, ele respondeu, desaparecendo lentamente até sumir na imensidão do cosmos. Gillian imaginou para onde ele fora e quanto tempo levaria até que pudesse descansar em paz.

— … então sorriam, meus queridos alunos — disse a diretora Hellen Page, terminando o discurso. — Vocês se formaram.

Um estrondoso urro de comemoração ergueu-se no ar quando cento e cinquenta e seis alunos congratularam a si próprios. E sob todos aqueles gritos, aquela felicidade, aquele êxtase adolescente, Gillian Pyatt finalmente compreendeu o que há tanto sentia, aquele sentimento que por semanas assombrara seus pesadelos mais terríveis e sonhos mais aprazíveis. Finalmente entendeu o que fizera Rowan conseguir sozinho execrar Jhahantar e Gabriel matar Bathory, o que ainda mantinha Oliver preso no plano terrestre mesmo depois de todo aquele tempo, a única coisa capaz de afastar as Sombras; sim, ela compreendia. E, dando-lhe a certeza de que tudo ia acabar bem para todos, não importava pelo que passassem, ou quanto tempo demorasse, era aquele sentimento que agora apoderava-se de seu corpo e espantava as Sombras.

Esperança.

Notas finais
Fim da quarta temporada. :DAcho que a morte da Carmen foi a morte mais difícil que eu já tive que escrever na vida, mesmo que eu não tenha exatamente descrito isso, mas me entristece saber que nunca mais escreverei com ela. Ela era um amor. :3 E Lore tem só dez anos, ele vai arrumar outro alguém. qq Mas admito que foi crueldade matar o Brandon. xDE não sei se ficou claro, mas sim, Ethan dormiu com Rowan. qq Só que eu não tive espaço pra escrever isso.E como vocês podem ver, Nick mudou, e muito. Depois daquelas duas lembranças perturbadoras, a mente dele deu uma reconfigurada. Ele vai ficar diferente na próxima temporada.E hoje a fic faz um ano. oooo/ Queria agradecer a quem a acompanha desde o início e quem a pegou depois do início e mesmo assim lê sempre. Acho que vocês já notaram que minha escrita melhorou e muito desde o capítulo Piloto.Aliás, quando eu comecei a escrever essa fic, não fazia ideia de que a dividiria em dez temporadas (sim, haverá dez), de como seriam as tramas da segunda, terceira, quarta... não sabia que Oliver existiria, nem Lorenzo, nem nenhum dos outros personagens, importantes ou não, que já apareceram. Planejar demais me incomoda, eu gosto de ver as coisas surgindo de repente. É claro que eu tenho uma ideia central para a temporada, mas todos os conflitos paralelos são repentinos.E nessa temporada, tudo, TUDO o que eu sabia dela é que teria um teor fantástico, paranormal, que eu fugiria um pouco da realidade. Sério, isso era tudo. Bathory e Jhahantar vieram mais tarde. Eu lembro que quando eu terminei o capítulo seis, eu acho, não fazia ideia do que viria depois, sabia apenas que a temporada devia ter, no mínimo, onze capítulos.E eu comecei com seis mil palavras, e agora ela tem mais de trezentas e trinta mil. :D Não fazia ideia de que poderia ser tão grande, durar tanto tempo (embora ainda haja muito pela frente) e acoplar um universo tão complexo.No mais, espero que tenham gostado dessa temporada. A quinta voltará a ser realista (embora Lorenzo tenha algumas habilidades sobrenaturais), com mistérios e segredos. Na verdade, ela será parecida com a terceira. Eu já escrevi o primeiro capítulo. E Melchior voltará a ser personagem principal. :3Porém, não sei bem quando vou postá-lo, porque eu pretendo adiantar pelo menos três. Talvez eu só volte a postar em junho, ou no final desse mês de maio.De novo, obrigado quem lê a fic até aqui, eu não teria escrito tanto se não fosse por vocês, por seus quase 250 reviews e 10 recomendações. :DDBeijoss e até a quinta temporada. ♥