Como Vivem Os Anjos
55 Epílogo IV
Notas iniciais
Moon river
Wider than a mile
I'm crossing you
In style some day
Oh, dream maker
You heart breaker
Wherever you're goin'
I'm goin' your way.
Two drifters
Off to see the world
There's such
A lot of world to see
We're after
The same rainbow's end
Waitin' 'round the bend
My huckleberry friend
Moon river
And me.
(Moon River
— Breakfast At Tiffany's)
OoO
A história de Amy.
Há muito tempo, o mundo era um lugar um pouco menos sombrio para Amy Bellafonte.
Nesse tempo, era feito de rosas e grama verde e composto pelo enorme quintal da mansão de seus pais em Higociety. Era uma velha e aconchegante casa de arquitetura alemã que sua mãe Christine Lyanna herdara do pai Augustus, o último Schiffle de uma longa linhagem de condes austro-alemães que governaram ao lado do kaiser na Primeira Guerra Mundial e lutaram em trincheiras contra britânicos.
Em 1918, com o fim da guerra e a vitória dos Aliados, fugiram de navio para os Estados Unidos antes da decadência da Alemanha e da ascensão do Partido Nazista, carregando consigo algum tesouro em ouro e uma valiosíssima adega. Os Schiffle se estabeleceram na Califórnia e seus descendentes americanos infiltraram-se na Casa Branca, onde inclusive lutaram contra a Alemanha na Segunda Guerra.
Em 1950, quando a Califórnia se separou definitivamente dos Estados Unidos, os Schiffle também se dividiram. O ramo dentro da Casa Branca que lutou contra a rebelião permaneceu americano, enquanto o formado por senadores e congressistas californianos que a apoiaram abdicou de seus cargos e ajoelhou-se perante a Rainha Henrietta Walker.
Augustus Schiffle tornou-se Ministro das Relações Exteriores da Califórnia em 1990, aos cinquenta e nove anos, e morreu no dia 7 de agosto de 1998, no Quênia, vítima de um atentado terrorista a uma embaixada. Sua única filha Christine terminou se unindo com um proeminente parlamentar conservador, Redford Bellafonte.
Redford entrou no Parlamento em 1998, reelegeu-se em 2003 e tornou-se Governador de Southeria em 2008. Em 2013, foi reeleito para outro mandato de cinco anos. Loiro de olhos azuis e cativante, era considerado por muitos o nome mais elegível para o posto de Primeiro Ministro em 2018. Tinha cinquenta e nove anos e almejava o cargo desde sempre.
As memórias da maioria das pessoas começam aos cinco, seis anos, mas não as de Amy. Sua vida foi um borrão até os sete anos, e a lembrança mais antiga que tinha era a de acordar num hospital com o braço fraturado e uma dor de cabeça insuportável, e então a de receber a notícia da morte de sua mãe, num acidente de carro em que ela esteve envolvida.
Foi a partir desse momento que sua avó Arianne, viúva de Augustus e mãe de Christine, assumiu o papel da falecida filha. Mesmo velha e cansada, comparecia a todos os recitais de piano e balé da neta até esta atingir os dezessete anos e desistir deles.
Arianne Bailey morreu dormindo em 2011, vítima de um ataque cardíaco. Sua morte fora um choque para Amy, que viu-se afundando cada vez mais numa depressão. Pelo menos até conhecer Ethan Lemnsack e, lentamente e a contragosto, começar a se apaixonar por ele.
A nova Arianne Bailey nasceu quando Amy tinha quatro anos de idade. Estava passando as férias nos Estados Unidos no momento, num chalé confortável da cidade nevada de Aspen, Colorado. Seu pai havia ganho a eleição há pouco tempo, sua mãe e seus avós ainda estavam vivos e ela era uma inocente e meiga garotinha deslumbrada com a neve.
Naquela noite, Redford Bellafonte a pusera na cama, cobrira-a com o lençol e dera-lhe um beijo na testa. Amy perguntou-lhe por que exatamente estava tão feliz. Seu pai simplesmente respondeu que era porque no momento tinha as coisas que mais amava.
Ele apagou a luz e deixou-a ali. No entanto, na mesma noite voltou.
A história de Arianne.
No banco do réu, em frente a dezenas de câmeras, de Liam Stonem e de Lionel Spencer, Arianne Bailey contava sua sórdida história. Stonem não tinha dó alguma em perguntá-la sobre os detalhes mais perturbadores e em fazê-la repetir algo muito repulsivo. Afinal de contas, era nisso que se baseava sua defesa desde que Amy decidira confessar os crimes de Arianne e afirmar insanidade.
A acusação de Spencer especializara-se em dizer que Arianne não existia, que era uma grande mentira e que Amy era provavelmente a melhor atriz do mundo. No entanto, quando o álter tomou controle e aquela meiga garota transformou-se numa sociopata bem em frente aos jurado e às câmeras — e consequentemente a milhares de pessoas assistindo do conforto de suas casas —, Spencer, novamente, viu-se derrotado.
Quando Arianne tocou no nome do governador, o julgamento já estava sendo comentado em todo o continente americano e europeu como um dos mais claros e brutais casos de dupla personalidade de todos os tempos. Middleland assumira todos os ares de uma cidade em festa; os hotéis estavam lotados de pessoas querendo assistir ao julgamento e muitos tiveram até que se alocar nas cidades vizinhas.
— Quantos anos Amy tinha? — Stonem indagou mesmo que ela já tivesse dito.
— Quatro. Ele entrou em seu quarto e deitou-se ao seu lado na cama. Lembro-me que estava nu e ereto. Ele a fez tirar seu vestido, não sei qual a desculpa que usou. Mas não precisava usar desculpa nenhuma, precisava? Ela tinha apenas quatro anos. Ele começou a passar a mão em seu corpo, e eu lembro que dissera que precisava medir sua temperatura, então ela não se importou. Ele a tocou primeiro entre as pernas e disse o quanto ela estava quente. Bem ambíguo, não é? Então subiu as mãos e apertou seus seios. Quer dizer, seja lá o que garotas de quatro anos tenham, porque certamente não eram nada que se pudesse chamar de seios. Mas ficaram doloridos por dias. Sim, ficaram. Eu suportei toda a dor.
— Foi nesse dia que você nasceu?
— Eu não sei. Minhas lembranças só são bastante claras até aí. O resto são borrões até os sete anos, mais ou menos. As lembranças de Amy começam a partir dessa idade. Foi quando ela teve seu grande outro trauma. A morte de sua mãe.
— Os outros adultos perto de Amy jamais suspeitaram que o Sr. Bellafonte fez isso?
Arianne sorriu.
— Em meados de 2001, Amy e Christine estavam voltando para casa de seu primeiro recital de balé. Amy dançara espetacularmente bem para uma criança de sete anos, qualquer um poderia dizer isso. Qualquer adulto a parabenizaria por isso. Mas não Christine Lyanna Schiffle. Sim, Christine sabia desde sempre que Redford preferia a filha a ela. E eu sabia desde sempre disso porque, se não disse antes, eu suportei todos os abusos desde que nasci. Amy sempre estava dormindo dentro de mim quando isso acontecia, e quando acordava, estava tudo bem, o mundo era cor-de-rosa.
— O que houve nessa viagem de carro?
— Era uma noite chuvosa e havia uma leve neblina no ar. O bairro por onde passávamos estava sem energia, de modo que estava tudo escuro como o breu. Amy estava cantando Balada dos Coelhos no banco de trás do carro, ainda com seu tutu de balé. Um coelho para o pão trazer. Dois coelhos para dar de comer. Três coelhos para a água procurar… Sua mãe mandou-a calar a boca e ela calou. Depois de alguns segundos de silêncio, ela perguntou-lhe, entre dentes, o que Amy tinha que ela não tinha. Eu sinceramente não sei se perguntava a Amy ou a si mesma, ou a qualquer outra pessoa. Eu lembro que o carro começou a acelerar perigosamente enquanto Christine começava a chorar. E quanto mais ela chorava, quanto mais descontrolada ficava, mais o carro acelerava. No entanto, chegou um momento em que ela simplesmente tirou o pé do acelerador, jogou a cabeça para trás e fechou os olhos. O carro desacelerou, desacelerou e desacelerou… e chocou-se contra um posto de gasolina. Christine quebrou o pescoço na hora e Amy foi atirada para fora do carro. Foi aí que eu assumi o controle do corpo dela e andei para longe, para bem longe dali, ignorando o latejar no meu braço, eu só queria saber de andar para longe. Não sei por que fiz isso. Talvez fosse instinto. Como muitos de vocês sabem, o choque da batida havia destruído uma bomba de gasolina e o líquido começou a se espalhar. Houve então uma explosão que consumiu o corpo de Christine, mas eu já estava bem longe. Acordei no hospital.
— Então a única pessoa do mundo que sabia o que acontecia com você e que poderia te ajudar pôs a culpa do abuso em Amy.
— Sim. Minha doce mãezinha.
— Sua avó Arianne nunca soube?
— Ela nunca soube porque eu fiz questão que nunca descobrisse. Ela só veio morar conosco depois da morte de Christine e Redford nunca mais tocou Amy depois disso, de modo que foi relativamente fácil.
— Por que você fez isso? Por que escondeu?
— Porque eu sabia que Amy não sabia e eu não queria que ela soubesse. Não queria que sofresse. Nem ela, nem Arianne.
— Por quê?
— Porque… porque eu nasci para protegê-la. Eu nasci para livrá-la da dor. Mesmo que ela já tivesse acabado, por que eu não poderia continuar fazendo a mesma coisa? Por que eu não deveria continuar a fazer a mesma coisa? É por isso que eu existo.
Com a ajuda de Stonem, Arianne estava modificando a opinião dos jurados para voltarem-se a ela. Pareceram até esquecerem que ela era uma assassina para acolher aquela jovem que sofria desde os quatro anos de idade.
— Fale sobe os assassinatos enquanto você era prostituta.
— O primeiro deles foi em fevereiro, alguns dias depois de eu ter matado Lafferty. Eu estava em Wintorland, numa rua deserta e bastante escura, quando a Land Rover se aproximou. Havia dois adolescentes dentro do carro, e o que dirigia me parecia ser novo demais para isso. Me disse que seu nome era Matteo di Fleurs, e o do outro era Raphaello. Pediram-me para entrar no carro e eu entrei. Matteo era arrogante e desprezível, mas Raphaello parecia estar sendo obrigado a estar ali. Ele parou o carro ao lado de uma praça vazia e ambos foram para o banco de trás. Eu comecei com Raphaello. Ele não parecia querer fazer aquilo de forma alguma, mas o irmão o forçava. Quando foi a vez de Matteo, ele quis que aquilo parecesse um estupro. Mas eu não consegui. Lembrei-me de Redford. Aconteceu algo comigo, eu me descontrolei. Eu sempre levava um estilete no bolso detrás do short para casos como esse, então eu o peguei e enfiei no peito de Matteo. Antes que ele pudesse gritar ou Raphaello entender o que acontecia, eu deslizei-o pela garganta dele. Então puxei o outro e acertei-o no peito. Ele desmaiou na hora. Era fraco. Eu castrei Matteo, mas não consegui fazer o mesmo com Raphaello por dois motivos. Primeiro, eu senti pena dele. Depois, pensei que ele estava morto. Mas, pelo visto, não.
Raphaello di Fleurs estava na plateia do tribunal.
— Todas as vítimas que eu fiz depois disso fizeram a mesma coisa que Matteo. George Newman insistiu que fôssemos na área de construção da Avenida Rotary com a Carlton, e quando chegamos lá ele quis forçar-me a fazer algo que eu não queria. Era mais forte que eu, mas não mais que as facadas que eu dei na garganta dele. Eu também o castrei.
“Foi a mesma coisa com Andrew Nelson. Ele parou o carro dele dentro de uma sarjeta escura e foi violento. Eu tentei me livrar sem matá-lo, mas não consegui. Eu retalhei sua garganta, mas não me pareceu o suficiente. Arranquei seus dois mamilos enquanto ele ainda agonizava. Depois de castrá-lo, joguei-o numa caçamba de lixo.
“Pouco menos de duas semanas depois, eu atendi duas pessoas ao mesmo tempo, em Higociety. Michael Phillips e Ian Kubrick. Foi algo parecido com os di Fleurs. Michael queria e Ian não. Michael foi violento e Ian pagou também. Foi uma coisa difícil, matá-lo. Ele continuava se mexendo mesmo após perder tanto sangue. Mas quando finalmente morreu e eu me virei para Ian, o segurei pelo cangote da camisa e o afoguei na piscina. Não foi difícil. Ele era fraco como Raphaello.
“E assim foi com Cristin Martin, Raegan Montgomery e Edward Ignatius. Matei Martin num motel e deixei-o na cama. Matei Raegan num carro e soltei a marcha. O carro desceu a ladeira até se chocar entre dois prédios. Eu fiz o café-da-manhã de Ignatius antes de cortar a garganta dele. Ele foi o último.”
As sentenças dos condenados.
Amy Bellafonte foi absolvida por insanidade e sentenciada a internação no Coalinga State Hospital, na cidade californiana de Coalinga. A decisão do júri fora unânime. Ethan Lemnsack foi inocentado de todas as acusações e o Caso Lafferty, dado como resolvido. A família Winter pediu desculpas publicamente tanto a Nicholas Hentz quanto a todos os meninos que puderam um dia ter sido abusados por Lafferty.
Quando isso aconteceu, dezenas de crianças tanto em Middleland, quanto em Castellobranco, quanto em Candóvia, quanto em outras dezenas de cidades pequenas assumiram-se como vítimas. Aparentemente, toda a cobertura que a mídia dera e o ativismo de Nicholas os encorajaram a isso. Ethan mudou o nome de sua instituição de caridade de Lemnsack Hentz World Donations II para Fundação Nicholas Hentz — o fato de que fora Nick, em seu eterno narcisismo, quem o obrigara a isso podia ser ocultado.
Nicholas passou quase todo o mês de junho visitando os garotos abusados por Lafferty em toda Southeria. Isso forçou a Escola St. Nicholas a adiar a estreia da peça Homesence para o dia primeiro de julho.
O Governador de Southeria Redford Bellafonte teve o mandato cassado após o testemunho de Arianne e foi condenado a nove anos de prisão na Penitenciária Estadual de San Quentin. Seu suplente assumiu o resto de seu mandato.
A essa altura, todas as estações já haviam ido embora de Middleland e suas pequenas histórias estavam finalizadas.
O início da história de Summer.
Muito antes, ainda naquele dia 3 de junho, no primeiro intervalo do julgamento, Edric Summer encontrara Edric Spring fora do tribunal, do outro lado da rua, numa praça, sentado num banco de madeira. Completamente sozinho. Algo o fez atravessar a rua e se sentar no mesmo banco que ele.
Percebeu então que era a primeira vez que encarava seus lindos olhos esverdeados em muitos, muitos meses. O cabelo louro mais comprido na frente que atrás formava aquela adorável franja em sua testa que chegava até o queixo.
— Olá — disse sem pensar muito. Spring parecia deprimido. — O que está fazendo aqui, sozinho?
Ele usava aquele casaco branco e roxo que pertencera a Summer, e nem parecia se dar conta disso.
— Nicholas está na frente das câmeras, dando entrevistas e falando com os fãs. Não quero ter que suportar nada disso.
— Você o chamou de Nicholas. — Spring não o olhava diretamente. Parecia bem mais entretido em seus sapatos brancos. — De Nicholas, e não de Nick.
— Bem, e daí? Será que agora que eu o chamei de Nicholas, e não de Nick, você vai querer desfazer os socos que deu em mim?
Summer não se alterou. Não admitia que as pessoas tentassem humilhá-lo. Gostava de pagar por seus erros a sua maneira, e achava que já pagara demais.
— Me desculpe. Eu sinto muito por isso. Não posso desfazer o que eu fiz, nem posso te convencer a entender como eu me senti. Você não sabe pelo inferno que eu passei para sair de Minnle e chegar aqui, sozinho, com doze anos.
— Minnle? Você veio de lá?
Summer sorriu e olhou para o céu já muito azul e sem nuvens.
— Você não sabe nada sobre mim, Spring. Você foi o único motivo para eu ter ficado em Middleland ao invés de tentar atingir meu objetivo.
— Que objetivo?
— Chegar em Castellobranco. Eu queria muito ver uma pessoa, na época, e hoje em dia não sei se quero mais, porque eu amava essa pessoa. Na época. Hoje, acho que tudo que sinto por ela é uma grande gratidão, e uma vontade muito grande de saber por quê. Não me pergunte por que o quê, porque eu também não sei. Mas eu recentemente descobri que após o incêndio da minha casa em Minnle, minha família, os Summer da Califórnia, se estabeleceram em Castellobranco. Os Castanelli do Canadá os ajudaram a reestruturarem-se financeiramente.
— Eu não faço ideia do que você está falando.
— Eu sei. E a única pessoa que faz matou Lafferty Winter, será presa e eu nunca mais a verei. É isso que eu vim te dizer. Que eu estou indo embora. Vou para Castellobranco.
Spring olhou lentamente para ele. Não conseguia disfarçar a dor no olhar. Ele nunca foi muito bom nisso.
— Quer dizer que você nunca mais vai voltar?
— Por que eu voltaria? Eu não tenho nada aqui. Pelo menos… nada que eu quero. — Levantou-se. — Vou voltar para o tribunal e assistir ao resto do julgamento, mas essa é a última vez que nos falaremos. Espero que não se arrependa de tudo o que passamos juntos, pois significou muito para mim. Toda a minha segunda vida. Mas agora eu quero começar a terceira. Adeus, Spring.
Afastou-se dali a passos curtos, com as mãos nos bolsos. Subiu as poucas escadas do tribunal e entrou em seu grande hall. Estava prestes a subir as escadas para o primeiro andar quando sentiu sua mão sendo puxada. Não se virou; sabia quem era.
— Não vá — ele sussurrou. — Pelo amor de Deus, não vá embora. Eu… eu amo você. Eu amo você mais que qualquer coisa. Não vá. Fique.
Summer virou-se e fitou Spring profundamente.
— Spring — sussurrou. Sem falar mais nada, puxou-o pela cintura e beijou-o como nunca beijara ninguém antes. Os dois colaram os lábios, os corpos, as línguas e as almas. Beijaram-se como dois amigos, como dois amantes, entregando-se totalmente ao outro, sem medo e sem hesitação, como era nos velhos tempos. — Oh, Spring.
Mordiscou seu pescoço e voltou a beijar os lábios, então beijou-lhe as bochechas, as têmporas, o nariz, todo seu rosto lindo de primavera, toda sua pele perfeita. Usou as mãos também; agarrou sua cintura; subiu-as pelas costas, por baixo do casaco e da camisa; agarrou suas nádegas com força e envolveu-lhe a nuca e o pescoço, beijando-o novamente. Queria saber que ele estava ali, tanto física quanto espiritualmente.
— Por favor — ele implorou como um cachorrinho. — Venha para a minha casa. É muito perto daqui, e eu preciso de você. Preciso de nós dois na cama, agora.
— E quanto a Lincoln?
— Summer, Lincoln que vá para o inferno.
Ele devia estar na aula de violino.
— Está bem.
Os dois foram e fizeram amor pelo resto da tarde, ansiosos e agressivos como há muito não eram. Spring pareceu se esquecer da própria doença e entregou-se ao prazer absoluto. Quando faziam sexo, ele reprimia-se tanto sob o medo de infectá-lo que nunca aproveitava o que Summer lhe oferecia. Praticamente precisou lembrá-lo que precisava usar camisinha.
Despediram-se com beijos molhados e frequentes. Não conseguiam parar, e também não queriam.
— Você vai contar isso a Nicholas? — indagou a ele.
— Eu não vou contar que fizemos isso hoje — respondeu. — Mas eu vou terminar com ele. Eu gosto muito dele e ele é uma pessoa ótima, mas… você é o meu verão. Oh, Deus, beije-me de novo, por favor.
Summer atendeu ao seu pedido e foi embora antes que Lincoln aparecesse. A ameaça dele ainda pairava no ar como uma peste.
Foi nas horas seguintes que deduziu a verdade sobre Amy e Arianne, que invadiu a sala onde ela estava com Nicholas, Ethan, Melchior e o Dr. Patterson e contou-lhes sua verdadeira história. Não fora difícil. Amy passara pela mesma coisa que Oliver, mas enquanto a própria mente dela a protegeu do que lhe causava dor criando um personagem imaginário, a de Oliver criou centenas de personagens imaginários para protegê-lo.
Perguntou-se como ele estava. Esperava que bem, feliz e tomando remédios regularmente, e não internado num hospital psiquiátrico como Amy teria que ficar.
Naquela noite, após ter contado o que pensava que acontecera com Amy e Arianne confirmar, antes de ir embora para o novo prédio em que dormia e roubava para sobreviver, Ethan Lemnsack, o próprio, em carne e osso, veio falar-lhe em particular.
Por um momento, pensou que ele soubera de seu caso com Spring e sentiu uma pontada de medo.
— Preciso dizer algo a você — ele sussurrou com uma voz levemente autoritária, ainda que gentil. — Mas não aqui. No meu escritório. No entanto, Nicholas não pode saber. Você se importa de entrar na Mercedes de um completo estranho e ser levado ao topo do prédio mais alto do condado?
Summer balançou a cabeça. Qualquer coisa para evitar a tristeza melancólica de ficar sozinho no sótão de um prédio com dois pensamentos na cabeça: devia ir embora e devia ficar com Spring.
Aquele carro era a coisa mais luxuosa que Summer já vira na vira, ou pelo menos era até ser enfim levado ao escritório principal do Palácio Real Hentz. Aquele local poderia acoplar toda a sua Grande Família. Grande mentira, mas ainda assim era aberrante que um simples escritório contivesse ouro o suficiente para sustentar todo o seu ramo norte-americano.
Ethan chegou pouco tempo depois de Summer ter sido levado para lá por Jules du Pont. Quase esquecera que Jules havia sido abusado por Lafferty também e prestara-lhe suas condolências. Ele sorriu e agradeceu enquanto o conduzia através do hall.
Sem falar uma palavra, o dono do prédio atravessou o escritório e tirou o belíssimo Rembrandt da parede, revelando um cofre-forte prateado. Após alguns complicados códigos, ele relevou seu interior: a parte que não estava coberta de dinheiro era composta por dezenas de gavetinhas acolchoadas. Provavelmente estavam cheias de joias.
Ethan abriu uma delas e tirou uma caixinha de veludo azul de dentro, então tirou um maço de notas e fechou o cofre. Pôs a caixinha em cima da escrivaninha, entre os dois, e se sentou confortavelmente em sua poltrona presidencial.
— Gostou da decoração? — ele indagou. Summer não viu motivo para mentir.
— É bonita e de bom-gosto, mas é muita ostentação para mim. Quer dizer, qual a necessidade de ter uma estátua italiana do século XIV se você nunca vai parar para admirá-la?
— Existem outras dezenas de estátuas espalhadas pelo prédio, tão antigas e valiosas quanto esta. Eu as tirei de museus, onde todos podiam vê-las, e as coloquei aqui, para empoeirarem para toda a eternidade. No entanto, eu gosto disso. Acho que vou fundar um museu. Você iria? Eu exporei o Diamante Hentz lá.
— Meu Deus, o Diamante Hentz existe mesmo?
— Existe, e parte dele adorna o dedo do meu maravilhoso irmão Nicholas. Outra parte está aqui. — Ele mostrou o polegar, onde uma magnífica pedra azul-clara estava incrustada num anel de aço negro cheio de pedrinhas brilhantes. Os antepassados daquele adolescente usaram aquele anel enquanto controlavam o mundo.
Ethan empurrou a caixinha para Summer e fez sinal para que abrisse. Dentro, havia dois anéis idênticos, prateados e esplendidamente desenhados. Em cima, adornando-os, uma pedra verdíssima como os olhos de Spring.
— Obrigado, mas eu já sou compromissado.
— Não faça gracinhas. Pegue. São seus para fazer o que quiser com eles. E quando eu digo o que quiser, quero dizer o que eu quero que você faça. E você sabe o que é. E creio que você quer também.
Olhou-o atônito.
— Mas… por quê?
— Você quer seu namorado de volta. Eu quero meu irmão de volta.
Summer sentiu medo de Ethan. E também uma vontade irreprimível de agradecê-lo e pegar as pedras, mas tinha uma sensação de que eram absurdamente caras para dois garotos de dezesseis anos usarem.
— Eu não posso aceitar isso. Que garoto de dezesseis anos usaria um anel de milhares de dólares no dedo?
— Eu e Nicholas. Nossos anéis valem milhões, e ninguém sabe dizer quantos. Eu diria que são inestimáveis. E você não faz ideia de quanto todo esse cofre vale. Mais do que 99% da população da Terra verá durante toda a vida. Você o ama, não ama? Então acha que um simples anel de esmeralda é demais para Edric Spring?
— Ora, não. — Sentia-se frustrado. Todos os seus ideais estavam indo para o lixo. Ethan Lemnsack representava tudo o que Summer mais odiava. Ostentação, riqueza, conservadorismo, mesquinhez e desinteresse para com o próximo. Talvez estivesse sendo preconceituoso, mas era essa a imagem que ele passava.
— Nicholas me disse que você pretende deixar a cidade. Para onde vai?
— Castellobranco. — Ficou tentado a perguntar-lhe sobre Oliver, sobre aquela foto que achara em seu apartamento, mas algo o impediu. Queria que sua primeira impressão sobre o Oliver de dezoito ou dezenove anos fosse completamente surpreendente. Só havia uma pergunta em sua cabeça que não parava de latejar… por que alguém o abandonaria?
Ethan empurrou o maço para ele. Havia uma etiqueta de dez mil dólares.
— Se você se pergunta, esse dinheiro é legal. Usem isso para passarem algum tempo. Divirtam-se como uma lady socialite britânica de vinte e seis anos. Como eu e Nicholas. Vá em frente, Summer. Caia de cabeça nessa vida por alguns dias.
Alguns dias? Nesses quatro anos que passei em Middleland eu não devo ter gasto nem metade disso comigo mesmo.
Lentamente pegou o maço e a caixinha. Aquele podia ser seu passaporte para a felicidade suprema, sua entrada para sua terceira vida, a resposta para seu dilema. Estaria fazendo a mesma coisa que Autumn, o bom Autumn.
Levantou-se e caminhou para fora do escritório sem uma palavra. Se dissesse ou ouvisse mais alguma coisa, mudaria de ideia. O maço estava enfiado em seu bolso e a caixinha estava entre seus dedos.
Summer pediu Spring em casamento na mesma noite. Ele aceitou.
A história de Spring.
Ele estava tão feliz. Tão imensa, intrínseca, absoluta e irremediavelmente feliz. Toda a nuvem cinzenta que pairava sobre a cabeça das estações desde o início do ano sumira. Tudo era como antes. Pelo menos, a maioria das coisas.
Decidiu dar a notícia a Nicholas no dia 9 de junho, uma segunda-feira. O último dia de aula do semestre. Estava tudo bonito e ensolarado naquele dia de primavera, as pessoas estavam ainda extasiadas com o Caso Lafferty e meninos, sempre sendo meninos, começaram a zombar uns dos outros chamando-se de namoradas de Lafferty.
Winter, que sempre fora admirado e invejado, estava sendo o mais zombado de todos eles. Depois de passar tanto tempo sendo amado, ele não conseguiu lidar com a rejeição e agora insistia a Autumn que os dois deviam se casar e ir embora para a Inglaterra tão cedo quanto possível. Spring achava aquilo engraçado.
Ninguém zombava de Jules porque eles realmente foi uma namorada de Lafferty. Um garoto tentara fazer isso e acabara com o joelho dele entre as pernas e com o sapato de Shane Spencer na barriga. Shane parecia estar apaixonado por Jules, e vice-e-versa. Apesar de ter as cores diferentes de Nicholas, os dois tinham a mesma altura. Bom para os dois.
E ninguém zombava de Nicholas porque todos tinham medo dele. Spring só conseguiu achar tempo para falar com ele no final das aulas, quando todos os alunos corriam para fora dos portões para o primeiro dia de férias. Ele estava dentro do coreto, sozinho, já que todos já tinham ido para a frente da escola.
— Por que está aqui? — indagou a ele, que deu de ombros.
— É fresco. Silencioso. Gosto do cheiro das plantas. E não quero ir para casa.
Spring aproximou-se dele e o abraçou. Nicholas segurou-o com delicadeza pelos pulsos.
— O que você quer me contar? — perguntou suavemente. Seus olhos eram extremamente negros, mas não eram buracos-negros como os do irmão mais velho, nem assustadores como os do irmão mais novo. Era uma escuridão que confortava e cativava quem a encarasse. De repente, lembrou-se por que gostava tanto daquele garoto louro. Mas havia um ruivo de quem gostava um pouco mais.
— Me desculpe por ter sido tão negligente a você na semana passada. Ter perdido seu aniversário… não ter dado apoio a você quando seu irmão foi preso… e ter acreditado em Winter. Ele é estúpido, mas não é porque quer. Ele não é uma má pessoa.
— Eu sei, eu sei, Spring. Ele já me pediu desculpas. Agora o que você realmente quer me contar?
Spring ignorou o pedido dele. Tinha muito a falar.
— Você me tratou como poucas pessoas haviam me tratado antes. Quando alguém costumava me ver saindo da ala do hospital em que eu fazia testes, costumava evitar tocar em mim, como se eu pudesse passar a doença pelo toque. Winter agiu assim comigo também por um tempo, mas então ele parou. Acho que Autumn deu uma surra nele, ou algo parecido. É por isso que eu realmente agradeço muito por você não ter feito tanto caso disso, mesmo que sua condição te imunize, não são todas as pessoas que teriam coragem de se unir a mim do jeito que nós fizemos.
Nicholas não disse nada. Ainda esperava pacientemente.
— Eu te amo, Nicholas. Você é muito importante para mim, e eu provavelmente nunca me esquecerei que um dia fui namorado da supercelebridade Nicholas Hentz. Mas… a verdade é que eu nunca deixei de gostar de Summer. Desculpe-me, mas nunca consegui. Eu e Summer temos uma história muito grande e muito ligada para que eu o esqueça. O que nós dois temos não é o que eu e Summer tivemos. Eu ainda o amo. Eu amo Summer. E não acho isso justo com você. É por isso que nós precisamos terminar.
Ele demorou um pouco para responder.
— Está bem.
Spring suspirou. As pessoas reagiam de modos diferentes.
— Você é meu primeiro namorado que termina comigo de forma intencional, então eu acho que nunca te esquecerei também. Mia e Carmen morreram e Vickie foi mandada à Suíça. Parabéns por ter sobrevivido a Nicholas Hentz, então.
Spring se inclinou para a frente e lhe deu um selinho nos lábios. Separou-se dele quando ouviu uma grande expressão de nojo bem atrás de si.
Olhou quem era e sentiu vontade de vomitar. Um garoto de doze anos de olhos verdes como folhas e com ridículas orelhas de coelho cor-de-rosa e puídas. Apesar de cobrirem seu cabelo, Spring sabia que ele era amarelo e marrom como o seu.
— E tudo está como devia ser — ele disse dramaticamente, fazendo uma grande reverência aos dois e afastando-se após dizer: — Vamos, papai está esperando.
Olhou para Nicholas. Ele estava atônito.
— Você o conhece? — Nick perguntou-lhe.
— Ele é meu irmão — Spring respondeu a contragosto. — Lincoln Spring. Ele tem Síndrome de Asperger, é uma espécie de autismo. Por isso que a escola não se importa que ele use aquelas orelhas de coelho. Quer saber um segredo? A Síndrome de Asperger não tem nada a ver com as orelhas, mas ele não vai para a escola se estiver sem elas. Eu não entendo por quê. Talvez porque o nome do meio dele seja Bunny. — Suspirou. — Adeus, Nicholas.
— Adeus, Spring.
Afastou-se a passos largos até chegar ao início da escola e entrar no banco de trás do Porsche. Lincoln estava ao seu lado. Tirara as orelhas e agora massageava seu cabelo.
— Você sabe — ele sussurrou —, leões não vivem em campos floridos, onde há fartura e tudo é delicado e colorido. Eles vivem nas savanas, com outros animais selvagens, onde a natureza é agressiva e precária. Eles tem que caçar para sobreviver. Nicholas é um leão por excelência, tanto no nome quanto na alma. Acho que ele se daria melhor com Summer do que com você. Isso é, se Summer não fosse pobre. Aliás, eu amei o anel no seu dedo. Espero que ele não tenha visto. Pode ser que mande matá-lo como mandou matar Lafferty.
— Cale a boca — resmungou. Então empertigou-se e elevou a voz para que Marius Spring e Mirabella Odds pudessem ouvi-lo. — Mamãe, papai. Eu vou me casar.
A história de Winter.
Winter estaria imensamente feliz se Summer não estivesse ali.
Quando ouviu de Spring que ele terminara com Nicholas, reatara com Summer e agora casar-se-ia com ele, quase bateu nele como quando Summer o fizera meses atrás. A primaverinha podia ser um amor de pessoa, mas não era muito inteligente. Mas bem, quem era Winter para falar sobre relacionamentos abusivos quando todas as noites implorava para Autumn bater nele?
Esperava que Nicholas não se ofendesse que os quatro estivessem se casando ao mesmo tempo no dia do aniversário do irmão dele. A peça Homesence devia estrear naquele dia, mas os acontecimentos mirabolantes do início do mês forçaram a escola a adiá-la, e por isso nenhum dos quatro, infelizmente, poderia assisti-la. Winter e Autumn estariam na linda Londres e só Deus sabia onde aqueles outros dois estariam.
Spring fora expulso de casa no dia anterior e fora embora alegremente, deixando seu odioso irmão para trás e carregando todos os seus pertences em duas grandes malas. Passara a noite na casa de Winter e os dois agora estavam no cartório, usando seus lindos anéis.
Faltavam duas horas para Winter e Autumn pegarem o avião e ele estava atrasado. Pensava que todos os ingleses fossem pontuais, mas pelo visto não. Winter também carregava suas malas. Reclamara todo o dinheiro que sua finada bisavó Marcella Greenwood deixara para ele e agora estava um pouquinho mais rico.
— Como é bom viver num país em que dois homens podem se casar — Spring disse animadamente. Aquilo também era legalizado na Inglaterra. Maravilhoso.
Sua saída de casa naquela manhã fora realmente adorável. Fora incrível vestir suas roupas mais formais, com o cabelo bastante rebelde e carregado de maquiagem e juntar toda a sua família. Ellen e Colin Winter, mãe e avô; Johann Parker e Joanne Amelia; pai e avó; além de Seraphine e Jules du Pont.
— Mãe, pai, vovó, vovô, primo em segundo grau e mãe dele, cujo grau de parentesco eu desconheço. Eu vou me casar. Com Autumn. E depois vamos nos mudar para a Inglaterra. Adeus a todos, se Deus quiser nunca mais os verei.
Virou-se para ir embora nesse momento, mas é claro que eles não deixaram. Seguraram-no no lugar durante vários e longos minutos, cobrando explicações e tentando convencê-lo do contrário, dizendo que ele era jovem demais para se casar e que, como todo adolescente, logo mudaria de ideia e se arrependeria, e então o que faria, se estava na Inglaterra, longe de todo mundo? E a escola? Ora, para o inferno com o ACEM. E se algo ocorresse com ele, em outro país? E se o dinheiro acabasse? E como ele viveria no país se não nascera nele, ah, mas é verdade, Autumn era inglês e por isso a cidadania seria dada a Winter, mas que importava? Que importava também se ele era relativamente fluente em francês e pudesse muito bem trabalhar num hotel como tradutor, sendo que o salário era realmente alto? E que sua beleza fosse estonteante e lhe desse um trabalho em qualquer parte do mundo? Que importava se tinha como se sustentar, afinal? Era errado e ponto final! Ele não iria!
Winter saiu de casa para nunca mais voltar. Talvez voltasse a ver Jules de novo, mas tinha uma estranha certeza de que nunca mais voltaria à bela e ensolarada Califórnia. Sentiu uma pontada de saudades, embora ainda estivesse na linda e rica Wintorland.
Spring estava na calçada, adorável com sua roupa formal, com suas malas no chão. O táxi havia acabado de chegar. Eles tinham que ir.
A porta de sua casa se abriu. Jules surgiu de lá.
— Eu quero ver o casamento de vocês. Eu pegarei um táxi daqui a pouco, assim que as coisas se acalmarem por aqui. E você não poderia ter sido um pouco mais sutil? Sua avó está quase morrendo por pressão alta, pelo amor de Deus.
Agora, meia hora depois, Jules du Pont chegava ao cartório. Estava lindo. Winter sentiria saudades de fazer sexo com ele.
— Muito bem — ele declarou. — As noivas estão aqui. Onde estão os noivos?
Autumn chegou pouco tempo depois, assim como Summer. Summer não tinha nenhuma roupa formal, mas Winter fora obrigado a admitir que estava realmente bonito. Mas era só por causa do cabelo vermelho que combinava com os olhos castanhos.
Spring o abraçou com vontade. Winter sentiu uma pontada de ciúmes, mas logo que viu Autumn, esqueceu-se daqueles dois e o abraçou com vontade também. Os braços dele o envolveram pela cintura e o fizeram rodopiar no ar por um momento antes que seus lábios o beijassem.
— Você está estonteantemente lindo, Edric Winter.
— Vai bater em mim se eu o chamar de Edric Autumn?
— Vou.
— Você também está estonteantemente lindo, Edric Autumn.
A história de Autumn.
Summer e Spring foram primeiro. Autumn esperara anos para ver aqueles dois se unindo matrimonialmente, e agora estava finalmente acontecendo. Era tão maravilhoso que sentia vontade de chorar. Falando em chorar, Winter estava derramando lágrimas desde que o funcionário do cartório começou a falar.
— Deveríamos ter sido os primeiros — ele resmungou. — Assim eu poderia chorar a vontade. Estou borrando minha maquiagem.
— Você não precisa de maquiagem. Você é lindo do jeito que você é, meu amor. — Autumn segurou seu rosto perfeito por alguns segundos e beijou a pontinha do seu nariz. O garoto mais bonito da Escola St. Nicholas. O garoto mais bonito do mundo todo. — Com todas as suas imperfeições, eu amo você. Eu amo você para sempre.
Winter o abraçou, enterrando o rosto em sua camisa. Não disse nada porque não conseguia parar de chorar.
— Você, Edric Summer, aceita Edric Odds Spring em matrimônio?
— Aceito.
— Você, Edric Odds Spring, aceita Edric Summer em matrimônio?
— Aceito.
Jules também estava chorando, mas estava mais elegante que Winter.
Quando chegou a vez deles, os dois forçaram-no a calar a boca e a limpar o rosto.
— Você, Edric Tudor Autumn, aceita Edric Parker Winter em matrimônio?
— Aceito.
— Você, Edric Parker Winter, aceita Edric Tudor Autumn em matrimônio?
— Sim. Quer dizer, aceito.
Autumn se inclinou para a frente e deu um selinho nos lábios dele, mas Winter puxou-o com força e aprofundou o beijo. Extravagante, como era típico dele.
Os cinco saíram do cartório e pegaram um táxi. Estava quase na hora do voo.
— Não acredito que tudo isso esteja acontecendo — disse Jules. — Quem diria, não é? Vocês quatro, separados, mas juntos para sempre. Não me digam que nunca mais vão se ver, por favor. Não suportaria essa ideia.
— Se vocês forem à Inglaterra — Winter disse —, procurem por mim. Eu vou estar no Palácio de Buckingham, no trono do rei.
— É realmente um belo anel, Spring, Summer. — Jules passou os olhos cinzentos pelas pedras com algo a mais no olhar. Fitou Summer. Pareceu haver um entendimento implícito entre os dois, além de um aviso para ficarem de boca fechada. Era realmente um belo anel, extremamente caro também. Mas o que o impedia de ser uma herança da família Summer?
Os cinco entraram no aeroporto juntos. Antes de entrar no terminal com Winter, finalmente puxou Summer para falar a sós com ele.
— O que vai acontecer com vocês?
— Vamos para Castellobranco. É para onde os Summer se mudaram após o incêndio em Minnle. Eu perguntei se Spring gostaria de morar conosco e ele disse que sim. Temos dinheiro o suficiente, sabe. E minha mãe sempre gostou de ter a família por perto.
— Summer, como vocês vão arrumar os remédios de Spring?
Ele colocou uma mexa de cabelo ruivo atrás da orelha.
— A Fundação Nicholas Hentz os proveu. Assim, de repente. Um porta-voz da organização simplesmente entrou em contato com ele, não foi nem com a família, foi com ele. Disseram-lhe que proveriam os remédios pelo resto da vida de Spring. Talvez Nicholas não seja tão egoísta e mesquinho quanto o irmão dele, afinal.
— Entendo. Foi melhor assim. Quer dizer, depois do que eu fiz a família dele passar… mas já acabou. Como acha que sua mãe vai reagir quando vir você após tantos anos? Após a destruição do legado, da sua fuga?
— Eu não sei como ela vai reagir. A grande Katherine Summer sempre foi uma incógnita. Após muito pensar, Autumn, eu percebi que a Grande Família nunca foi formada pelo legado. Como aqueles registros velhos do que desconhecidos fizeram há centenas de anos poderiam formar uma família hoje, no presente? A Grande Família não é formada pelo legado. É formada por cada família de cada país com cada sobrenome, todas únicas e todas ligadas. A Grande Família é uma árvore genealógica com milhares de galhos indestrutíveis e imortais. É cada reunião que promovemos, cada novo casal que formamos, cada conjunto de sobrenomes que unimos, é todo o sangue de mesma origem que circula em nós, todos os primos de segundo, terceiro, quarto ou vigésimo grau que temos. Não são registros empoeirados.
Autumn deu um sorriso pequeno.
— Sua mãe te ensinou bem, Summer. Você seria um grande líder para essa família. Fez-me sentir orgulho de fazer parte dela. Agora vá. Abandone esse sobrenome, porque o seu nome é Edric e você deve voltar a sê-lo. Nos veremos novamente nas reuniões da família. Não sei se Winter irá comigo, mas eu vou.
— Mande minhas lembranças a Jesse.
— De qual Jesse você fala? Minha mãe ou meu primeiro amor de infância?
— Dos dois. Sou parente de ambos, afinal.
Abraçaram-se com força por longos e deliciosos segundos. Autumn vira Summer pela primeira vez quando tinha apenas nove anos, na primeira reunião da Grande Família que fora com a família Tudor, em Minnle. Sua mãe Jesse e seu primo Jesse foram com ele. Foi aí que Autumn começou a sentir algo por Jesse. Foi aí que recebeu seu primeiro Bem-vindo à Grande Família de Summer. Mais tarde, quando se reencontraram, ele não o reconheceu, mas Autumn, sim. Guardou o segredo durante muito tempo.
— Mande minhas lembranças a Katherine e Elizabeth. Boa sorte, Edric Summer.
— Boa sorte. Primo de décimo segundo grau.
Summer se afastou e ficou parado num canto quando Spring veio se despedir de Autumn. Ele chorava copiosamente, mal se contendo.
— Não acredito que tudo isso esteja acontecendo — ele murmurou abraçando-o. Autumn era uns bons vinte centímetros mais alto que Spring, de modo que eles pareciam o caçula e o irmão mais velho. — Parece que foi ontem que nós tínhamos doze anos e eu te vi sentado na cama da esquerda, de sobretudo. De sobretudo na Califórnia. Seu maldito inglês. Eu o amo.
— Eu também o amo, primaverinha.
Acariciou seus cabelos louros e deu-lhe um beijo caloroso na testa. Em seguida passou os polegares carinhosamente pelas marcas que as lágrimas deixaram em suas bochechas, apagando-as. Divertiu-o imaginar o quanto seus respectivos parceiros estavam com ciúmes daquela cena de afeição.
— Tome cuidado — ele sussurrou.
— Tome cuidado você. Eu estarei em casa.
— Não é com você que você deve tomar cuidado.
Spring sorriu e Autumn lhe beijou as duas bochechas. Uma voz feminina e mecânica soou no aeroporto, anunciando a última chamada para aquele voo.
— Autumn — Winter chamou-o. Autumn se separou de Spring e foi em direção a ele, e quando chegou perto seu querido inverno tentou puxá-lo pela mão para que se apressassem. Mas Autumn não se moveu. Completamente imóvel, observou com divertimento o modo como Winter subitamente compreendeu a situação. — Autumn, vamos logo. Você quer perder o voo? Tenho certeza que essa companhia não vai nos reembolsar. Pelo amor de Deus, se mexa. Jesus. Estou casado com você a menos de uma hora e já começo a me arrepender. Edric Tudor Autumn, mexa-se!
Autumn continuou completamente imóvel, com o rosto impassível como uma máscara.
Winter suspirou irritado, provavelmente odiando-o com todas as forças.
Então, dando-se por vencido, ele largou a mala no chão e foi em direção a Summer, pisando forte. Começou a falar tudo de uma vez:
— Bem, eu sei que nossa relação nunca foi das melhores, muito menos terminou na melhor maneira. Foi da pior. É… isso aí. Mas acho que eu tenho que te agradecer por fazer Spring feliz todos esses anos. E por ter salvo a vida dele. Acho que é isso. — Winter olhou para trás, para Autumn, esperando provavelmente uma confirmação de que fora satisfatório. Autumn balançou a mão no ar, como quem diz que poderia ter sido melhor, mas tudo bem. — Adeus. Se Deus quiser nunca mais os verei. Sentirei saudades. Acho.
Era o melhor que Winter poderia fazer. Ele pegou sua mala e puxou Autumn pela mão em direção ao terminal, que dessa vez deixou-se ir. Antes de sumir da vista dos dois amigos, olhou mais uma vez para trás e admirou aquele adorável casal. Fez um sinal de adeus. E por fim Autumn continuou andando, ciente de que talvez nunca mais os visse.
O fim da história de Summer.
Castellobranco era uma cidade fria, mas nem por isso o sol era menos quente. Havia realmente algo naquela cidade florestal que a diferenciava de Middleland. Talvez por ser menor e com menos gente apressada e estressada, ou pelas praças públicas serem mais bem cuidadas, ou pela menor quantidade de mendigos nas ruas.
O táxi trafegava calmamente pelas ruas limpas, quase uma antítese daquelas rodovias esburacadas de Middleland. Não havia bairros marginalizados. O sol sorria da mesma forma para todos. Era dia 21 de junho. O início do verão.
— Onde é a casa de seus pais? — Spring indagou com curiosidade. Estavam passando por uma linda rua com casas grandes e famílias felizes. Houve um momento em que o táxi entrou a esquerda e começou a seguir mais lentamente, pois havia crianças demais na rua.
— No fim dessa rua — ele disse. Ela se chamava Rua Boulevard, e não tinha saída, ao invés disso havia uma fonte gigantesca com cupidos esculpidos no final. — Meus pais se mudaram da cidade de Minnle para uma casa aqui há quatro anos, então há uns dois anos eles vieram para essa rua. Ela costumava ser de classe média alta, mas desvalorizou muito.
— Por quê? E como descobriu tudo isso?
— Eu não sei por que, mas a casa dos meus pais tornou-se um elefante branco. Estava vazia sem conseguir ser comprada há muito tempo, por isso ficou tão barata. Eles também tiveram a ajuda de parentes distantes chamados Castanelli. Autumn me ajudou a descobrir isso. Eu não te disse que somos parentes? Ele ainda tem contato com minha família.
— Mas eles não sabiam que ele tinha contato com você.
— É. É isso mesmo. Spring, eu juro que ainda contarei toda a história. Tenha paciência.
Passaram por um simpático predinho de três andares com seis varandas na frente. Havia uma placa enferrujada de Vende-se pendurada no portão. De relance, Summer notou seu jardim mal cuidado. Trepadeiras que cresceram descontroladamente e ervas daninhas sufocando flores. Aquela casa nunca seria vendida assim. E não era um prédio, afinal?
Finalmente chegaram ao final da rua. A casa era alta e vermelha, com uma enorme porta de madeira bem no meio. O jardim era lindo, verde e molhado de orvalho. Summer respirou profundamente aquele aroma natural antes de atravessar a calçada e parar no segundo dos três degraus que levavam à porta.
Olhou para trás. Spring estava parado na calçada. As malas dos dois amontoavam-se ao seu lado, quase do tamanho dele.
— Venha comigo — disse. Spring balançou a cabeça e fez um sinal para que ele tocasse a campainha.
Olhou para frente. O sol de fim de tarde ainda ardia em suas costas. Summer sentia-o abraçando-o. De alguma forma, sua sombra contra a porta era sinistra. Ele só percebeu o quanto seu coração batia descontroladamente quando finalmente ouviu o som agudo. Cinco segundos. Dez. Trinta. Um minuto inteiro antes que ele tocasse de novo. Nessa segunda vez, a porta se abriu quase que imediatamente.
Quem se estendia em sua frente era uma moça aparentemente de sua idade, com olhos castanho-avermelhados e um cabelo da cor do cobre, rubro sob a luz do sol e alaranjado na sombra, ondulado por toda sua extensão, terminando na metade das costas da dona. Sua pele era quase dourada, seu nariz e lábios eram finos. As sobrancelhas vermelhas franziram-se quando fitaram Summer.
Elizabeth Summer era uma cópia da mãe. Apesar de ter catorze anos, tinha a altura do irmão mais velho.
Ela não me reconhece, pensou divertido enquanto sorria sutilmente.
— Sim? — perguntou. De repente, alguma coisa mudou em seus olhos vermelhos, que se tornaram arregalados e incrédulos. — Edric?
— Ora, o que é, Lizzie? Não sabe reconhecer o verão quando ele bate na sua porta?
Seus olhos se estreitaram e, como em câmera lenta, sua boca entreabriu-se até que soltasse um gritinho fino do qual certamente se arrependeria mais tarde.
Ela o abraçou. Jogou-se em seus braços violentamente, na verdade.
— Meu Deus, eu… é você mesmo. — Estava apertando seus braços com tanta força que quase machucava-o. — É você. Pensamos que tivesse morrido no incêndio. Nós perdemos a guarda do legado, ou o que sobrou do legado, depois dele. Agora é dos americanos.
Summer viu de relance uma mulher alta e ruiva aproximar-se por trás de Lizzie. Provavelmente queria perguntar à filha quem era na porta. Eram de Katherine Summer os olhos e cabelos vermelhos e a pele dourada que seus dois filhos herdaram.
— Feliz solstício de verão — disse à mãe. — Mãe, lembra-se dos Castanelli do Canadá? Sabe por onde anda o garoto, Oliver? — Talvez a sombra que passou em seus olhos tenha sido porque ela pensava que ele era o fantasma de seu glorioso filho, há muito morto num incêndio. É, era exatamente isso. Ela logo lhe responderia.
Mas antes de tudo, antes de se dar ao direito de começar sua terceira vida, teria uma conversinha com seu pai sobre uma certa caixa de fotos.
A história de Lorenzo.
Apesar de não enxergar, Lorenzo sabia que mais de mil pessoas o assistiam.
Sabia e sentia. Havia uma vibração constante e interminável na madeira do palco do teatro, nas cordas de seu violino, nas teclas de seu piano. Sentia-a nos pés, subindo pelas pernas e se chocando contra seu coração, bombeando-lhe sensações de prazer e adrenalina. Estava nervoso, mas excitado. Usava um sobretudo de tecido negro e grosso que chegava-lhe aos pés. Seus irmãos disseram que seus olhos brilhavam como faróis, cinzentos como pérolas marítimas. Em suma, estava lindo. Como sempre.
— E agora, o último competidor… Lorenzo Lemnsack Barcarolli.
Alguns aplausos, espaçados e cansados, quase hesitantes. Lorenzo era o último competidor, o último de vinte e cinco. A maioria dos adversários tomaram cinco, seis, sete minutos em suas apresentações e a plateia estava exausta e enfadada. Certamente fora um grande azar Lorenzo ter sido escalado exatamente para o último lugar numa competição em que a atenção dos jurados era crucial.
Mas é claro que fora ele próprio quem pedira para ser colocado em último lugar. Qualquer que fosse a exaustão dos espectadores, ele os forçaria a recobrá-la. Era um desafio, e Lorenzo não tinha medo de desafios. Conquistaria aquela vaga na Orquestra Sinfônica Californiana, e logo depois a recusaria porque não poderia se mudar para Sacramento.
Mas que importava? Seu objetivo era vencer. Era isso que os Hentz faziam há quase cento e trinta anos. Venciam. Conquistavam. Lorenzo não era um Hentz, mas vivia com dois deles. Bom, pelo menos com um, embora Nick também tivesse características de um.
Parado em frente àquele palco, vestido de negro e cinza, em frente a quase mil pessoas ansiosas por ver o que aquela criança cega poderia oferecer, mas cansadas de tantas ofertas e já com vontade de ir embora, e de um júri completamente exausto. De repente Lorenzo percebeu que aquelas três pessoas já tinham um vencedor em mente, já que certamente não acreditavam que aquela criança podia fazer grande coisa. Não os culpava. Os competidores mais novos foram vergonhosos.
Aquilo seria imensamente divertido.
Sabia que seus dois irmãos estavam na fileira da frente, inclusive ouvira os gritos e aplausos histéricos de Nick quando seu nome fora proclamado. Ele provavelmente tomara café para aguentar o tédio e segurar a vontade de rir dos piores.
Um pouco mais cedo, antes mesmo de o espetáculo começar, Ethan ajoelhara-se na sua frente e deslizara uma corrente gelada por seu pescoço delicado.
— Esse é o colar feito do Diamante Hentz — ele lhe sussurrou. — Reza a lenda que Ondromeda Olrwen o usava quando morreu. Quero não apenas que você o use, mas que o sinta em volta do seu pescoço. Imagine que quanto mais nervoso ficar, mais apertado ele ficará. E se você errar alguma nota… acho que pode imaginar. — Então deu-lhe um beijo na testa.
Ethan Lemnsack tinha modos estranhos de encorajar as pessoas. Mas tudo bem. Lorenzo se sentia ótimo usando aquele colar de milhões de dólares.
Finalmente sentou-se no banquinho do piano. O teatro afundou num silêncio sepulcral e cheio de expectativas. As respirações interromperam-se por vários segundos. As Sombras em volta de Lorenzo deslizaram através de seus dedos, envolveram-se neles e pousaram nas teclas frias do piano. Eram aquelas que ele devia tocar. Saber a partitura de cor ajudava, mas não havia nada como um bom toque sobrenatural.
Entre o palco e a plateia havia uma área funda onde a banda se escondia. Lorenzo não precisava de muito apoio enquanto estivesse tocando, precisava quando se levantasse para tocar o Stradivarius, que, como sabia, estava posicionado bem no meio do palco, sobre um banquinho. O melhor violino do mundo para o melhor tocador do mundo.
Que pensamento arrogante. Ethan e Nick se orgulhariam de mim.
Pôs o colar para fora da camisa para que seu brilho fosse refletido pelos holofotes, esticou os dedos sobre os dentes do piano e finalmente começou a tocar. Começava lento, devagar, quase monótono, com a banda lhe acompanhando, quando começou a aumentar o ritmo para algo quase alucinante. E por que havia um microfone bem a sua frente? Porque ele não obrigara Nick a escrever uma música por nada. Ninguém esperava que Lorenzo fosse cantar, nem se preocuparam em tirar o microfone. Tolos.
Numa voz pura, rouca e infantil, sem um único resquício de sotaque, ele entoou:
Com a alma entregue a este destino
De anjos que te amam sem escolher
Sem pensar nas consequências
Desfruta do céu.
Mas o mundo está em mudanças
E sempre que a tempestade vem
É mais forte
Impiedosa.
Anos se passam e
Oh, meu anjo, onde fomos parar?
Tão longe, apesar de tão perto
Com mil pecados a nos marcar.
Aquela era a parte que Nick havia escrito e Lorenzo musicalizado naquela noite. Em sua parte, preferiu dar àquilo um tom monótono e leve, sem muita variância. Seus dedos dançavam pelas teclas do piano como se tivessem sido formados ainda no útero de Antonella Barcarolli fazendo aquilo, especialmente para fazer aquilo. Lorenzo acreditava em Deus, e também acreditava que algumas pessoas tinham dons muito especiais que os outros não tinham.
Com Sombras ou sem Sombras para lhe ajudar, era aquilo ele que faria, era daquilo que ele era feito. Da música.
Aliás, seus dois irmãos deviam estar pasmos ao ouvirem-no falar sem sotaque. Lorenzo gostava dele, na verdade, do modo como carregava nos erres e insistia em falar suave e sempre com uma leve melodia por trás. Lhe dava personalidade.
Eu oro ao fantasma de nossos passados
Que me dê respostas para estes impasses
Pois de amável que eras
Nunca o vi tão vazio de si.
Se entregou a este inferno
E me abandonou com toda a sujeira
Mesmo sabendo, lá no fundo
Que não nos podia deixar sós.
Os violinos começaram a aumentar o volume, bem como ele havia instruído ao maestro. O homem devia ter ficado furioso ao receber ordens de um arrogante garoto de onze anos, mas era isso que ele devia fazer. Seus dedos também estavam tocando com mais rapidez, mais habilidade, quase marionetes das Sombras que apertavam suas mãozinhas e as jogavam para lá e para cá pelo piano.
Ele tinha o dom, mas por que não aceitar aquela ajuda extra?
Anos se passam e
As marcas estão onde sempre estiveram
Costuramos as novas feridas, mas
Há sempre o espectro a nos rondar.
As Sombras de uma pergunta
Jamais feita, mas sempre pensada
“Se até você, ser celestial, se perdeu
O que será de mim, de nós?”
Ele parou de tocar. Enquanto os violinos diminuíam devagar e ele se levantava do banquinho do piano em direção ao violino, sentiu a massa tensa que se erguia sobre a plateia. Eles estavam prestes a pularem das cadeiras de ansiedade. A música estava fazendo aquilo com eles, tocando seus corações, vibrando cada vaso sanguíneo, forçando as sinapses dos neurônios a acelerarem. Eram dele, todas as mil pessoas. Lorenzo seguraria suas almas com as mãos e as esmagaria em milhões de pedacinhos.
Ele pegou o violino e quando ajustou-o corretamente entre o pescoço e o ombro foi quando os violinos aumentaram de intensidade. A tensão estava quase insuportável, cada pessoa naquele teatro querendo saber o que aquela criança horripilante sabia. Perguntou-se se sua voz era bonita. Às vezes parecia muito rouca, ou então muito suave.
Perguntou-se se alguém sabia sobre o que diabos a música falava.
O que me mantém acordado
Nestas noites de sossego
É lembrar de um passado
Cheio de Sombras, negro.
Pois do céu ao inferno decaímos
E você quase não me perdoou
Lembranças lacradas, tão lindas
Tão doídas, e você lembrou.
A voz era de Lorenzo, mas as palavras eram de Nicholas, todas de Nicholas. Nicholas, cuja mente trancava um segredo horrendo que podia arruinar as vidas de todos se se soltasse, contaminando novamente suas faculdades mentais até lançá-lo novamente por um prédio. Se algum dia ele descobrisse o que Rowan Pyatt fizera a ele, enlouqueceria.
Ethan também tinha um segredo, um segredo chamado Oliver o qual nunca revelara totalmente a Lore. De alguma forma, o tal menino não poderia ser apenas um ex-namorado assassinado. Não fazia sentido. Se era só isso, por que ele continuava perto daquela família, vigiando-os? Às vezes Lorenzo sentia sua presença. Sentia-a agora, na verdade.
Mas em suma, Lore conseguira apenas perceber que as estrofes falavam da paz em que Nick e Ethan viviam antes da morte dos pais, do inferno pelo qual passaram para conseguir a guarda. Não sabia o que significavam as lembranças. Nick era muito confuso.
Mas a culpa não foi minha
A culpa não é de ninguém
Que gente ruim e mesquinha
Goze com a dor dos outros também.
A vingança foi merecida
E no fim ficamos juntos
E antes da recaída
Pudemos desfrutar do conjunto.
Qual culpa? Qual vingança? Novamente, havia algo ali que Lorenzo não sabia, e a despeito da frustração que sentia pelos irmãos guardarem aqueles segredos dele, não se deu ao trabalho de reclamar. Nick havia escrito aquilo, e sabia ser tão cabeça-dura quanto Ethan se quisesse.
Pois dois orbes cinzas abalaram
Todas as estruturas que caíam
Aqueles animais famintos rugiam
E mesmo assim, a nós temiam.
Para uma família inteira
Não houve salvação
Pois a cegueira era tanta
Que não souberam usar o perdão.
Mas de mal não era o único
Que estava a nos rondar
Pois aquele homem estúpido
Queria uma criança matar.
A primeira era obviamente sobre Lorenzo, mas é claro. Não podia ser qualquer outro. Ninguém mais teria olhos cinzentos e belos como os dele. Os animais famintos eram os paparazzi que os atormentaram durante todo o ano de 2012, após terem descoberto de quem eles eram filhos.
Depois é claro que Nick estava falando dos Nevarnost. Um passado tão distante e negro que parecia ter sido em outra vida, embora tenha sido há apenas dois anos.
Olha a sorte nos salvando
Pela segunda vez
Mesmo com desgraça desabando
No teto, sem nenhuma mesquinhez.
Ainda sentia vergonha quando se lembrava de como chorara como um cordeirinho quando aquele avião raspou o teto do antigo apartamento. Ethan o segurara e apertara em seus braços nus e encostara seu rosto cheio de fuligem em seu peito, dizendo que tudo ficaria bem. Aquele coração disparado e forte como um tambor conquistou o seu para sempre naquele momento.
Mudanças foram necessárias
Incluindo um novo lar
E que companhias ordinárias
Que fomos por lá encontrar.
Violetas que enganam
E olhos rubros que queimavam
Músculos que não funcionam
E inocentes que matavam.
Pois não havia dúvida de que Owl era inocente, ainda que fosse tão culpado quanto Ethan. Lore pensava que se se encontrasse com o garotinho que fora aos nove anos de idade, daria um tapa na cara dele para que deixasse de ser tão estúpido. Também tinha vontade de bater nos irmãos por não terem acreditado nele desde o início e não evitado tantas mortes.
Um, dois, três casos
Não dá pra perceber
Três, quatro, cinco casos
E no sexto, foi mais fácil morrer.
Sim. Fora mais fácil para Olenna Olrwen matar Owl. Mas quem matara Olenna?
Não vê que eu
Tão sujo e insano
Sou a ruína, o breu
Da vida de quem amo?
É verdade, estive lá
Naquele lugar para loucos
Maior prova não há
De que estou mesmo quebrado.
Talvez fosse uma menção à depressão de Nick, aos seus momentos mais sombrios, a sua estadia no hospital, a sua tentativa de suicídio, e também provavelmente ao fato de que todos os seus amantes tiveram destinos trágicos. O de Mia e Carmen fora a morte, o de Vickie fora a reclusão e a perda da irmã gêmea e o de Spring… fora ficar com Summer.
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Porque magoa e magoa e magoa
Numa compulsão de enojar.
Por isso feriu a mim
E a outro, ainda menos vil
Pois assim que tudo teve fim
Para longe ele partiu.
Era Ethan. Ethan puro, desnudo, cru. Totalmente ele. E quem partira foi Gabriel. Pobre Gabriel. Não merecia as constantes traições de Ethan. Ele agira como Samuel Hentz nesse aspecto. E ninguém parecia lembrar que fora Gabriel quem salvara a vida de Rowan Pyatt quando matou Bathory na loja de antiguidades. Às vezes ser sucinto era melhor que falar muito e não dizer nada.
Lorenzo arranhava o arco no violino, arrancando seus sons e jogando-os ao mundo. Tocava tão rápido que a orquestra mal conseguia acompanhá-lo, uma melodia rápida, eletrizante, extravagante e com a dose certa de exagero, uma melodia que ele mesmo criara na escuridão de seu quarto e de seus olhos.
Foi sofrido e negro
Uma época de assombrar
Havia Sombras e pesadelos
Que não queriam se afastar.
Houve perdas, houve luto
Mas quanta sorte não temos?
O que me deixa muito puto
É essa pergunta: “Mas o que não temos?”
Esperava sinceramente que ninguém reclamasse daquele palavrão inocente. Lorenzo não encontrara nenhuma outra forma melhor de rimar os versos de Nick. E aqueles eram indispensáveis. Era verdade, não era…? O que eles não tinham? E, mesmo assim, por que deixavam de ter tanta coisa?
Mas também não tinha tempo de pensar nisso. Seu coração batia tão rápido que parecia que ia pular pela boca. E ele ainda tinha que cantar, além do complicado violino.
Afinal, agora tão grande
Já não lembra mais de nós
Sempre sério e irritante
Mas não me dá saudade atroz.
Afinal, as estações
Me fazem companhia
Dia ou noite, os corações
De todos em sincronia.
O último verso da primeira foi uma ironia. Nick sentia saudades do antigo Ethan, que prezava seu bem-estar mais que tudo, mais que qualquer coisa no mundo. Talvez fosse um tanto quanto egoísta e mesquinho, mas Ethan não deixaria de perceber aquilo.
E a segunda estrofe era um grande tentativa de enciumá-lo, é claro.
Pena mesmo seja
Que você tenha cometido um erro
Pois não queremos que ninguém veja
A cruz sob concreto enterro.
O desenrolar durou
E aposto que perdemos um aliado
Um que quase se vingou
Pois não gosta de ser desafiado.
Talvez Ethan fosse querer seu coração servido numa bandeja com sal e pimenta por dizer aquilo de uma forma tão desimportante, como se ninguém pudesse suspeitar da verdade por trás daquelas palavras, mas não importava mais. Tudo aquilo acabara, e aquela música era o último montinho de terra por cima da cova de Lafferty.
Nick também aproveitara para exprimir seus complicados sentimentos em relação a Melchior na segunda estrofe. Ele sem dúvida perceberia.
Era uma ode a Ethan, aquela música, ao estúpido e gênio Ethan, que a ninguém poderia ter se comparado, por ser maior e mais magnânimo que todos eles. Eu o amo e o odeio, Nicholas dizia através de suas palavras, com a voz de Lorenzo sussurrada e gritada, tudo por cima do som agudo e aterrorizante do violino mais precioso do mundo.
E as nossas perdas apenas constroem
Nosso império impressionante
Com as pessoas que se unem…
Lorenzo pulou do banquinho e soltou o violino. A orquestra parara de tocar, estava tudo silencioso como uma tumba cheia de gente. Encostou a boca no microfone e sussurrou em sotaque italiano, ofegante, excitado, extasiado, com o peso do colar de diamante no pescoço:
… A você e sua mente brilhante.
E então tudo acabou. Num último e derradeiro som único e prolongado de dezenas de violinos, Lorenzo levantou os olhos e deixou que seus orbes cinzentos brilhassem com a luz dos holofotes como duas estrelas, como as verdadeiras janelas para sua alma vil.
Os aplausos vieram de uma só vez, num estrondo ensurdecedor, em berros e urros de viva e bravo, de pessoas cansadas que se forçavam a aplaudir aquele número simplesmente porque era muito lindo e porque era merecido.
Lorenzo abriu os braços e fez uma reverência, entregando-se totalmente à febre do sucesso, ao merecido vinho de depois da batalha. Tirou o microfone do tripé e sussurrou, de volta em seu adorável sotaque italiano:
— Essa música se chama Como Vivem Os Anjos. Meu irmão Nicholas a escreveu.
A história de Ethan.
Ethan observou seu irmãozinho receber todas as glórias cabíveis a um vencedor. Gostaria que ele pudesse enxergar, e não para aproveitar tudo aquilo melhor, mas para poder ver as expressões de inveja e ódio no rosto dos outros competidores. Os pescoços enlaçados com medalhas vermelhos de raiva quando os olhos viam o enorme troféu banhado a ouro sendo segurado e erguido por Lorenzo em frente às câmeras. O primeiro de muitos, sim, com toda a certeza. Aquilo ainda era pouco. Lore era jovem.
E algumas almas cruéis diziam que ele era jovem demais para ter tudo aquilo. Tolice. Quanto mais jovem ele experimentasse a sensação de ser um vencedor, melhor ele se acostumaria a ela. A Orquestra Sinfônica Californiana voltaria para a capital sem nenhum membro novo, pois não era de seu feitio pescar segundos e terceiros lugares. Aliás, fora adorável como Lorenzo recusara a vaga diretamente para o presidente da orquestra, em frente a tantas câmeras e filmadoras:
— Eu agradeço pela vaga, mas não posso aceitá-la. Quer saber por quê? Porque se eu fosse parte da orquestra, eu estaria ali. — Com um movimento da cabeça, ele indicou a parte rebaixada do teatro em que a orquestra de violinos se reunira. — E meu lugar é ali. — E então indicou o palco.
No momento, Nicholas estava aproveitando para incrementar os quinze minutos de fama de seu irmão com sua presença loura tirando fotos com ele. Por incrível que parecesse, havia pessoas que não haviam notado que Lorenzo era cego.
Sentiu uma vibração no bolso da calça. Provavelmente tinha algo a ver com o trabalho, mas Ethan o ignorou. No entanto, ficou sentindo o aparelho vibrar e vibrar sem nunca parar, feliz com o fato de que ele podia ignorar. Feliz por não ter que responder a ninguém. Era disso que gostava, Não eram dos bilhões de dólares, não era da ostentação, do luxo, das mansões e jatinhos e viagens internacionais, dos objetos materiais dourados e suntuosos, dos palacetes nos quais vivia e se hospedava, das pessoas que conhecia. Era do poder. Do poder puro e cru. Apenas, e nada mais. Era isso que descobrira ao ler o Livro Hentz, que o poder foi tudo o que importou a seus antepassados. Era o poder que movia o mundo.
A peça Homesence estreou alguns dias mais tarde, no dia 1 de julho, quase um mês de distância de sua data de estreia original, mas antes disso Ethan Lemnsack visitou o Coalinga State Hospital, em Coalinga.
Foi levado através de seus corredores neutros e estéreis para uma aconchegante sala de visitar particular feita de madeira que parecia um pequeno chalé. Havia uma réplica de uma lareira de pedra, além de sofás de madeira retorcida e uma cama gigantesca. Era tudo muito exagerado, mas, afinal, aquilo era um hospital psiquiátrico.
Amy chegou um tempo depois. Possuía arranhões já meio sarados nos braços nus, o cabelo estava quebradiço e havia perdido a cor e os olhos haviam perdido o brilho que sempre tiveram. A mulher que a trouxe tirou as algemas, revelando os pulsos vermelhos.
— O que são os arranhões? — perguntou-lhe.
— São de Arianne. Descobrimos que ela não gosta de ficar presa.
Ethan descobriu-se com pena dela. Abraçou-a fortemente, puxando-a pela cintura. Sentiu-a relaxar as tensões acumuladas por aquelas semanas em que não fizera nada além de se acostumar.
— Eu consigo conversar com ela agora, sabia? Ela vem, fala alguma coisa, depois vai embora e eu consigo lembrar o que ela disse, e conversamos assim. Mas só funciona quando estou sob hipnose.
— O que você conversa com ela?
— Ah, sobre o óbvio. Sobre coisas de garotas. Sobre… ela ter medo de deixar de existir.
— Ela é uma pessoa, afinal, não é?
— Sim, ela é.
— Como estão te tratando aqui?
Ela deu de ombros.
— Como tratam todo mundo. Arianne passa os dias tocando piano na sala comunal. Às vezes eu volto e me lembro disso. Sabe o que é engraçado? Eu não sei mais tocar piano.
Amy parecia mais confortável agora, por estar conversando com um amigo antigo, antes de toda a sua vida mudar de repente. Ethan então se lembrou que ele fora um dos causadores disso, dependendo do ponto de vista. No entanto, não se deu ao trabalho de agradecer, uma vez que sabia que ela diria que ele não precisava fazer aquilo.
— Quer saber se uma coisa? — ela perguntou, mas não era mais Amy, e sim Arianne, como bem conseguia vislumbrar na súbita expressão que tomara conta de seu rosto. — Eu apenas tenho medo de morrer porque eu não sei quando e como isso aconteceria. Pode ser de repente, numa daquelas sessões de hipnose. Eu estou semiadormecida, ouvindo Amy falar, e de repente tudo se fecha em volta de mim e a escuridão me toma. E aí?
— E aí que você estará para sempre no coração dela. E será o centro do ódio das pessoas que você matou. As pessoas não morrem quando deixam de viver, elas morrem quando ninguém mais se lembra delas. E você será lembrada para sempre, Arianne.
Ela sorriu.
— É, eu sei.
Ela se aproximou de Ethan. Não que tivesse sido muito rápido, ele simplesmente não quis se afastar. Beijou seus lábios com carinho e então envolveu sua cintura com os braços. Era uma cena quase cômica, na verdade. Arianne, que era bem mais alta que Ethan, segurando-lhe pela cintura e impondo aquele beijo.
Separou-se dela quando sentiu suas línguas se tocarem.
— Não, pare com isso. Não vou continuar. Não posso fazer isso com…
— Com quem? — E quando percebeu, era com Amy quem falava, eram seus os lindos olhos azuis que fitava, era seu o belíssimo cabelo louro que caía por suas costas. Eram dela os lábios que voltaram a beijá-lo, e eram dele os que beijaram de volta.
— Está bem. Mas tire os braços da minha cintura.
Ethan a apertou contra si, aprofundando aquele beijo, enfiando a língua na boca dela. O volume dos seios pressionava seu tórax. Ele sentia os mamilos excitados por aquilo. Estava começando a ficar ereto quando se separaram novamente, mas a essa altura ele queria continuar.
Os dois deitaram-se na cama em acordo mútuo e silencioso. Despiram suas roupas com delicadeza, ainda que com um pouco de pressa, e abraçaram-se novamente em pura nudez por baixo dos lençóis. Ethan sentiu os dedos dela agarrarem seu sexo e o estimularem enquanto passava a língua por seus seios inchados de tesão. Amy gemeu quando fechou os lábios nele, ou talvez fosse Arianne. Não importava. Era muito bom.
Ela deitou-se na cama e então foi a vez dele de fazer o caminho até embaixo. Voltou a beijar seus lábios, então os seios novamente, que lhe atraiam tanto por algum motivo, um motivo bem maior que o sexual. Desceu pelo abdômen liso até chegar ao centro de seu ser. Segurou-lhe as coxas com firmeza e encostou a boca ali. O resto veio por instinto.
Amy se contraiu de prazer, pressionando-o contra si. Ethan gemia enquanto a chupava, empurrava o quadril contra a cama, mordia delicadamente a parte interna de suas coxas, descia até seu ânus e então voltava a subir.
Arianne forçou-o a ficar de quatro. Ele sabia que era Arianne porque por algum motivo Amy não teria como fazer aquilo. Ela segurou seu membro duro e chupou-o, subindo então aos testículos. Colocou os dois na boca, então subiu mais, chegando à abertura que piscava. Ethan gemeu quando ela tocou-o ali com a língua, e depois com os lábios, e depois com o dedo.
Amy deitou-se novamente, e dessa vez Ethan deitou-se em cima dela. Viu em seus olhos o profundo receio que tinha de fazer aquilo, então notou que ela era virgem. Talvez não fisicamente, mas nunca experimentara aquilo. Quem o fizera fora Arianne.
Ele a penetrou com moderada facilidade, deliciando-se com as unhas dela fincadas em suas costas e na carne macia das nádegas. Começou o vai-e-vem com delicadeza, então acelerou-o até que a cama começasse a bater na parede. Atacou seus lábios novamente. Ela abraçou-o pelo pescoço e prendeu a cintura com as pernas num abraço de aço.
— Oh, meu Deus — Ethan gemeu quando ejaculou dentro dela, sem no entanto parar com os movimentos pélvicos. Sabia que Amy tinha chegado ao orgasmo, podia ver isso em seu olhar. — Eu a amo.
— Eu também o amo — ela sussurrou, puxando-o para beijá-lo de novo.
Ainda por mais algum tempo Ethan a penetrou, mas então finalmente se separou. Ficaram em baixo dos lençóis, unidos como dois amantes pelo tempo que lhe pareceu apropriado. Deixou que Arianne ainda fizesse o que fosse consigo, visto que aparentemente era a primeira vez que transava com alguém que a amasse. Porque sim, Ethan a amava de todo o coração, e não apenas quando ela mapeava seu corpo com a língua.
Ele prometeu voltar novamente. Todos os meses, se fosse possível.
Alguns dias depois, estava no teatro da St. Nicholas, na fileira da frente. Lorenzo estava a sua esquerda e Melchior a sua direita.
O cenário era o mesmo que aquele em que Jules atuara com Thelise, um campo. Nicholas surgiu ali como Gwarren, com apenas pedaços da armadura. Sua cena da luta com o Guerreiro Amaldiçoado acontecera há pouco e fora absolutamente brilhante, perfeita em todos os sentidos da coisa. Tanto ele como Shane Spencer foram magníficos.
Os cabelos de Nick estavam desgrenhados, seu rosto sujo de maquiagem para simular poeira e terra, e seus olhos estavam completamente escuros de sombra. Havia manchas avermelhadas do sangue do Amaldiçoado impregnadas em metade de seu corpo. Ele também cambaleava e mancava enquanto se aproximava dos limites do campo, saindo da floresta.
O holofote que iluminava Nick jorrava um brilho purpúreo, enquanto todo o resto estava claro e dourado como o dia. Um menino vestido com pedaços antigos de armadura estava prostrado na cerca que limitava os dois cenários, como que guardando-a. Foi ele quem barrou Nick.
— O que foi? — indagou ao guarda cansadamente.
— Parado, forasteiro — ele disse rudemente. — Aqui só entram moradores.
— Mas eu morei aqui minha vida inteira. — Ele tentou passar, mas foi novamente barrado. Era engraçado porque Nick estava trajado com uma armadura completa e era teoricamente o guerreiro mais forte dali, enquanto o guarda não tinha nenhuma arma nas mãos. — Você pode falar com o Conselho. Eles vão me reconhecer!
— Desculpe, garoto, mas não posso deixar. São ordens do Conselho não deixar nenhum estrangeiro entrar na aldeia.
— Mas eu estou dizendo que… — Nick parou de falar abruptamente e atravessou a cerca, correndo não muito mais que alguns metros, já que o palco não era tão grande assim. Já dentro da aldeia, deparou-se com uma trupe de uns seis meninos, todos ricamente trajados. O guarda veio correndo atrás dele.
— Ei! Não pode invadir a aldeia! — ele gritou até que ambos parassem dentro da aldeia, em frente ao Conselho.
— Senhor presidente — disse Gwarren referindo-se ao menino mais alto. A luz roxa do holofote o seguia, apenas a ele. Então Ethan percebeu o porquê daquela maquiagem negra em volta dos olhos. Era a mesma coisa que o Guerreiro Amaldiçoado usava. — Por favor, diga a este guarda que vocês me conhecem, que eu moro aqui, ele não está me deixando passar! Por favor, diga a eles que eu cresci aqui, que saí em missão.
O Presidente do Conselho fez uma expressão de repugnância.
— Você está corrompido agora, Gwarren. — A luz purpúrea tremeluziu, misturando-se de leve com a dourada. — Não é mais bem vindo nesta aldeia. Se permanecer aqui, vai amaldiçoar todos nós, assim como amaldiçoou a si mesmo sujando suas mãos com sangue ruim.
Nick ficou em choque.
— Mas senhor… Eu… Eu fiz como vocês pediram… Eu sujei as mãos para proteger a aldeia… — De alguma forma maravilhosa, lágrimas surgiram em seus lindos olhos negros e começaram a descer por suas bochechas. — Eu prometi… Eu prometi à Thelise que nos casaríamos se eu voltasse vivo…
— Não me interessa — disse o presidente, frio e sem condolência alguma. — Não podemos abrigar um Amaldiçoado dentro de nossas terras. Você não é mais bem vindo aqui. Guardas, arrastem-no para fora. E tenham certeza de que ele não voltará mais.
Um outro guarda surgiu para ajudar o primeiro e cada um agarrou um dos braços de Nick, praticamente erguendo-o no ar — o que devia ser uma coisa fácil, porque dificilmente Nicholas teria mais que cinquenta quilos —, e começaram a arrastá-lo lentamente para fora da aldeia.
— Não! — Nick gritou. — Deixem-me ver Thelise! Deixem que eu me despeça dela! Eu preciso pedir desculpas, eu preciso me despedir, por favor! — Ele começou a chorar. — Por favor, presidente, por favor, deixe-me falar com ela! Por favor…
— Levem-no logo — disse o presidente —, antes que ele chame mais atenção!
— Vá embora, Amaldiçoado! — gritaram os outros membros do Conselho — Leve suas mãos imundas de sangue para longe desta aldeia!
Repentinamente, outros meninos entraram em cena, trajando roupas campesinas.
— Expulsem o Amaldiçoado! — gritaram os aldeões. — Expulsem! Expulsem-no daqui!
Nick começou se debater nos braços dos guardas, e então gritou. Não foi um grito normal, não foi simplesmente um Ahhh extremamente alto, gritado com compostura para não machucar os ouvidos dos atores que o seguravam. Foi um grito de ódio, de desprezo, de frustração, um grito dado com toda a força que seus pulmões o permitiam, um grito que transmitia não apenas seu ressentimento, mas o ressentimento de centenas, milhares de garotos inocentes mandados para matar o Amaldiçoado e expulsos depois.
— Ele estava certo! — Nicholas berrou. — Vocês são todos uns hipócritas, uns mentirosos! O Guerreiro Amaldiçoado estava certo! Eu devia ter acreditado nele, devia ter enfrentado vocês e não ele! Vocês que são os culpados! Vocês que mentem e corrompem guerreiros de bom coração! Vocês vão pagar por isso! Juro por minha vida que vão pagar!
Os dois guardas o empurraram cerca afora, empunhando lanças de madeira para afugentá-lo.
— Vocês vão pagar — Nick falou antes de correr de volta para a floresta.
As cortinas se fecharam.
— É isso que acontece sempre — Melchior sussurrou a seu lado. — Eles mandam um guerreiro de bom coração para matar o Guerreiro Amaldiçoado, ele o mata, é corrompido, expulso e então se torna o novo Amaldiçoado, e assim por diante. É um ciclo vicioso que nunca acaba. É uma metáfora para a estupidez e ingenuidade humanas.
Ethan não disse nada.
Uma nova cena surgiu. Era novamente o cenário de luta entre Gwarren e o Amaldiçoado, mas o Amaldiçoado estava morto, de modo que, no momento, Nick era o único no palco. Sentado em seu trono de pedra, era iluminado pela clássica luz purpúrea, mas todo o resto do cenário também era. Havia uma neblina circundando o chão, certamente feita de gelo seco, além de algo que eles usaram para simular arbustos, pedras e troncos de madeira.
Nick estava usando o trono como se fosse uma cama, totalmente jogado e desleixado. Seus cabelos estavam sem cor, desgrenhados e sujos, jogados na cara de qualquer modo. Havia cipós atando seus braços como cordas; sua armadura se fora, havia sido substituída por trapos negros iguais aos que Shane Spencer usara quando morrera. Sua expressão era de puro rancor, uma máscara sombria feita de puro ódio.
Um garoto entrou em cena, com uma espada de madeira, uma armadura reluzente e iluminado por uma luz dourada. Ethan teve uma sensação de déjà vu. Era uma reprodução da cena de alguns momentos atrás, onde era Nick no lugar do garoto e Shane no lugar de Nick.
Nicholas sorriu de forma meio tresloucada.
— O nome do personagem é Gwen — Melchior sussurrou antes que Nick falasse:
— Enviaram um guerreiro mais rápido do que eu imaginava… Quanto tempo demorou? Cinco anos?
Já se passaram cinco anos de uma cena para outra?
— Vejo que suas noções de tempo estão distorcidas, demônio — disse Gwen com uma voz igual a um calouro no primeiro dia da faculdade enfrentando um veterano que o atormentava. Era louro e jovial, mais alto que Nick, e tinha lindos olhos claros. — Já tenho dezessete anos e sou treinado desde muito pequeno para combatê-lo.
— Não me referia à sua idade, imbecil — Nick disse distraidamente, como se falasse do tempo, uma ação que assemelhou-o ligeiramente a… si próprio. Ethan segurou a vontade de rir. — Estou apenas tentando entender como funciona a cabeça daqueles porcos trapaceiros. — Com alguma dificuldade, ele levantou-se do trono de pedra. — Não acha muito estranho que nenhum dos guerreiros mandados anteriormente tenham retornado à aldeia? Hein?
— Estou mais bem preparado que qualquer um deles, posso garantir.
Nick revirou os olhos.
— Criança tola. Tolo como eu fui. — E então com mais ressentimento, numa voz sussurrante: — Tolo como todos fomos.
— Como você foi? — Gwen indagou confusamente. — Está querendo me enganar? Porque não vai funcionar. — Ele apontou-lhe a espada, mas ela tremia.
Nick fitou-o cansadamente, sem se importar com a espada teoricamente afiada apontada bem para seu peito. Ignorava sua presença como se fosse inútil, e de certa forma era.
— Sim, como eu, seu idiota. Eu não fui sempre um Guerreiro Amaldiçoado tentando atacar a aldeia. Eu já fui como você. Jovem, ingênuo, inocente, puro; um guerreiro treinado para proteger a aldeia com toda a dedicação, sem questionar ou hesitar em confiar no Conselho.
Gwen hesitou um pouco, mas então gritou:
— Você mente! Ninguém puro em nossa aldeia tem olhos como os seus, tão vazios, nem arrogância ou sarcasmo na boca.
Então Nicholas Hentz não poderia morar nessa aldeia nunca, Ethan pensou divertidamente. Olhos vazios, sarcasmo e arrogância são o que ele é. O que nós somos.
Nicholas pareceu explodir por dentro. Avançou para Gwen, que recuou um passo, e empurrou sua espada de madeira para o lado, atirando-a longe. Ele agora estava desarmado.
— Porque fui corrompido! — gritou-lhe a poucos passos de distância. Abaixou a voz e continuou: — E fui traído pelo meu próprio povo. Como você será. — Sorriu amargamente. — Eles contaram que não existe um único Guerreiro Amaldiçoado? Que na verdade é uma maldição passada adiante, enquanto houverem guerreiros puros como você, e como eu o era, para matá-los? — Voltou a levantar a voz, gritando quase enlouquecido, os cabelos desgrenhados agitando-se como uma versão masculina e contemporânea da Medusa. — Que o ato de matar algo tão vil e amargo como eu, e como os outros antes de mim, suja suas mãos com nosso sangue imundo e você assume nosso lugar?! Que você é expulso da aldeia onde viveu sua vida inteira e se vê isolado de tudo e todos, tratado como uma praga?!
Gwen estava assustado, movendo-se lentamente para trás. Era engraçado porque ele era uns quinze centímetros mais alto que Nick. Pobre Nick baixo e anoréxico.
— Isso… — Gwen balançava a cabeça negativamente. — Isso não pode…
Nick riu de escárnio, uma risada que o assemelhou horrivelmente a Arianne Bailey.
— O quê? Vai dizer que não é verdade? — Aproximou-se de novo. — Eu tinha uma noiva. Você deve conhecê-la ao menos de vista. — Sorriu tristemente, um último relapso de humanidade atravessando seu rosto. — Era a donzela mais meiga da aldeia — Jules, uma donzela? Acho que não, Gwarren —, a companheira que todo homem deseja, a pessoa que mais amei na vida. Íamos nos casar se eu voltasse vivo, e eu voltei. Mas não me deixaram vê-la. Não me deixaram sequer me despedir. Me jogaram para fora da aldeia como se fosse matá-los apenas por estar ali dentro, como se já fosse tão cruel e louco quanto o Guerreiro Amaldiçoado que eu acabara de matar. E você sabe o que é pior? — Então Nick pôs a mão no ombro de Gwen. A luz purpúrea que o iluminava se misturou com a dourada que iluminava o outro. — Ele me avisou. Ele me contou como fora injustiçado, como fora separado de sua amada e como não havia sido o primeiro, nem seria o último. Criança, ele me contou tudo que acabei de contar a você e mesmo assim fui estúpido, confiei cegamente naqueles seres nojentos que compõem o Conselho.
— Mas… — Gwen balbuciou. — Se é verdade tudo o que você me diz, e não estou dizendo que acredito… — A espada jogada estava já seus pés. Ele se abaixou rapidamente e a empunhou novamente, afastando Nick de si. — Então você seria…
Nick sorriu cansado novamente.
— Gwarren. Sim, criança, eu sou Gwarren. E minha noiva era Thelise. Diga-me… Ela casou-se com outro? Cansou-se de me esperar? Alguém do Conselho teve ao menos a decência de contar uma mentira, de como eu morrera bravamente defendendo a aldeia ou de como nunca havia retornado? — Havia raiva em sua voz, mas também saudade.
Gwen abaixou a espada lentamente, e então soltou-a.
— Não… Ela… Ela ainda tem esperanças de que você um dia voltará. Minha mãe… Minha mãe vai todas noites à casa dela, consolá-la e tentar convencê-la a casar. Ela já está começando a passar da idade de casar e as pessoas da aldeia comentam.
Nick gritou de raiva. As luzes tremeram, o cenário por trás também, como se ele controlasse todo aquele ambiente. Mas afinal, o Guerreiro Amaldiçoado controlava, não é?
— Não bastou destruírem minha vida, tinham que destruir a dela também! — Olhou para Gwen. — Você ama alguém?
Ele hesitou, mas assentiu.
— Você a beijou antes de partir? — perguntou-lhe de novo. — Fez promessas como eu?
Seu olhar era uma pitada de pena, uma pitada de desespero.
— Fiz promessas… Mas ela é tímida, então não a beijei… — Gwen pareceu arrependido. — Eu devia… Devia ter…
— Não me venha com devia ter feito ou se ao menos eu soubesse, menino. Deixe o trabalho sujo para as mãos de alguém desonrado. Você não merece um destino como o meu, nem como o de todos os outros desafortunados que não deram ouvidos antes de mim. Nenhum dos meninos treinados para serem guerreiros puros merecem.
Nick voltou a sentar-se na pedra, imergindo em pensamentos.
Após um tempo, Gwen, hesitante, falou:
— Posso contar a ela a verdade. Dizer aos aldeões que não o encontrei, que você fugiu quando me aproximei, e contar a ela a verdade.
Ele não pareceu convencido, então simplesmente perguntou:
— Faria isto? Mas como sabe que não estou mentindo e que não vou apunhalá-lo quando virar as costas com alguma espada mística que eu tirarei das sombras?
— Minha mãe sempre me disse que ninguém consegue mentir para mim. Além do mais… Se fosse me matar, teria feito quando larguei a arma no chão. — Ele pegou a arma de volta. — Sinto muito por tudo que lhe aconteceu, Gwarren.
Ele se foi, saindo de cena. Nick suspirou, toda a atenção se voltando para ele.
— Gostaria de ter sido esperto assim.
As cortinas se fecharam.
Quando abriram-se novamente, estavam novamente na aldeia, mas num cenário diferente, separado pelo lado exterior e por uma casa simples de palha. As luzes estavam baixas, o que indicava que era noite. Gwen e Thelise eram os únicos em cena.
— Thelise, está aí? — ele perguntou do lado de fora.
Jules levantou-se de uma cama imaginária, espreguiçando aquele corpo adorável.
— Gwen? — gritou de volta em voz fina, levantando-se com uma roupa que parecia uma camisola. Eli Royce era tão bom diretor que conseguia até esconder a única coisa que fazia Jules du Pont ser um menino. — O que faz aqui, tão tarde da noite? — Ele abriu a porta.
— Tenho notícias — Gwen disse entrando na casa.
— Derrotou o Amaldiçoado? — perguntou curiosamente.
— Não… — Ele se entristeceu. — Mas ele me contou coisas que jurei contar a você.
— A mim? — Ele ficou genuinamente confuso. — Mas por que a mim…?
Gwen hesitou.
— É sobre Gwarren.
Jules agitou-se, arrumando sem dificuldade algumas boas e velhas lágrimas para pôr naqueles olhos cinzentos e enevoados.
— Gwarren? Ele o matou, não foi? Por favor, não me diga que ele está morto, eu… — Jules começou a chorar. — Eu ainda o quero de volta, ele prometeu que nos casaríamos, prometeu que tentaria viver por mim… Eu não quero, não posso aceitar que ele esteja morto!
Cobriu a boca inutilmente para abafar o grito já dado.
— Ele não está morto, Thelise — disse Gwen —, mas receio que algo pior tenha acontecido. — Ele também ficou com os olhos molhados. — Quando ele matou o Amaldiçoado, suas mãos ficaram sujas e a maldição passou a ele. Ele disse que voltou à aldeia para casar-se com você, mas os aldeões e o Conselho covardemente o expulsaram como se estivesse trazendo uma praga para dentro da aldeia e nem ao menos deixaram que ele se despedisse de você. E desde então ele está lá fora, querendo se vingar porque mentiram. Ele disse que a maldição passa sempre ao guerreiro que mata o Amaldiçoado, e que nunca vai terminar. Não me deixou ser amaldiçoado e para sempre serei grato a ele… Mas não achei justo que ele ficasse para sempre em exílio e você aqui, a esperá-lo, sem saber da verdade…
Jules caiu de joelhos, tremendo, soluçando, chorando desesperadamente.
— Gwarren…. Gwarren! — Ele cobriu o rosto. — Por que o tiraram de mim…?
As cortinas se fecharam.
Quando Ethan percebeu, a peça tinha acabado. Olhou para Melchior.
— Sim, ela termina assim. Eu nunca fiz um final. E sabe por que não? — Ele deu de ombros. — Eu sei lá. Não achei necessário dizer se Thelise casa-se com Gwarren ou não. Não foi essa a minha intenção. Acostume-se com o fato de que algumas histórias têm um fim e outras não, e que às vezes não fazer um fim é melhor que dizer algo meloso e clichê como Eles se casaram e viveram felizes para sempre. É estúpido. Minha única intenção com esse conto que virou peça foi explicar porque toda a área em que ela ocorre é terrivelmente amaldiçoada. É ambíguo, porque nos meus livros eu deixo claro que um coração partido pode ser pior que qualquer maldição. Então você se pergunta se a maldição provém de Gwarren, que livrou-se dela e casou-se com Thelise, ou da decepção de Thelise, que nunca achou Gwarren. É ambíguo. Não há resposta. Simplesmente… não há.
Os atores apareceram todos juntos quando as cortinas subiram novamente, todos os quinze meninos. Nicholas estava no meio de todos eles, a sua direita, com trapos ensanguentados, estava Shane e a esquerda, ainda com a camisola, Jules. Ouviu dizer que Jules e Shane estavam namorando. Aquilo o incomodava profundamente, não sabia bem por quê.
Mas não importava. Nick estava sendo ovacionado. Elegantemente, ele fez uma reverência extremamente educada, sorrindo de pura e genuína felicidade. Aquilo fez todo o amor que Ethan sentia por ele expandir em seu coração como se estivesse sendo fermentado. Aquela fase de suas vidas estava acabada. Estava na hora de fazer as pazes com o irmão e começarem a amadurecer mais uma vez.
Mas antes faltava uma coisa.
Ethan saiu da área principal do teatro e foi para o corredor paralelo, onde havia a saída e, mais ao fim, a passagem para a área administrativa e para os camarins.
Pensou em fumar um cigarro, mas não queria sair do prédio, então ficou olhando os murais de pedra pendurados nas paredes, com fotografias ampliadas dos vários elencos de peças que já foram encenadas naquele teatro. Havia inclusive peças dos anos 70, como The Rocky Horror Picture Show e Evita. Para uma escola católica, a St. Nicholas eram bem permissiva.
Estava notando que em breve uma fotografia gigante emoldurada com a foto do elenco de Homesence estaria pendurada ali naquele mural da fama quando sentiu a presença dele. Sabia que ele viria, mas mesmo assim mal notara seus passos silenciosos.
— Em breve Nicholas estará aqui, com os maiores — Melchior disse em sua costumeira voz sussurrante e meiga.
— Sim, estará. — Ethan percebeu que estavam sozinhos. Sorriu. — Acho que você agora é uma celebridade ainda maior do que antes. Quer me dar um autógrafo antes que fique famoso demais?
Melchior riu jovialmente, como se estivessem jogando conversa fora. Tirou um caderninho do bolso que devia usar especialmente para aquele fim e escreveu seu nome, então arrancou a folha e deu a Ethan.
Ethan tirou o celular do bolso e abriu uma imagem. Então olhou para a folha.
— É, como eu pensei — declarou. — É exatamente a mesma letra.
Ele mostrou o celular, onde havia a foto do bilhete que Jules tirara.
O celular caiu da mochila de Nicholas.
Você o guardou até que pudesse devolver.
E então achou isto.
Que azar!
— Você provavelmente está se remoendo de raiva de Autumn por ele não ter queimado isso antes, não é? — indagou sutilmente. — Se quiser matá-lo como matou Robb, fique à vontade. Ele provavelmente está em Furness, agora. Ou então já foi para Londres. Aproveite e mate Winter também. Bem devagar.
O rosto de Melchior estava completamente liso, desprovido de qualquer emoção. Parecia uma estátua de cera de um rapaz extraordinariamente bonito, com belíssimos cabelos cinzentos e olhos púrpuras sobrenaturais.
— Você realmente não consegue descer de seu pedestal, não é, Ethan? Não pode admitir que está errado em me acusar de ter matado Robb. — Lágrimas apareceram em seus olhos. — Ele era meu primo. Ele era minha família. Ache o que quiser, mas você sabe muito bem que família é uma das coisas que eu mais prezo.
Ethan estava balançando a cabeça.
— Robb não era sua família. Ele era um Thanathos, e não um Chioren. O nome é a única coisa que te importa. Seu canalha estúpido, seu monstro sem juízo. Eu sou seu primo, esqueceu? Esqueceu-se que Samuel Hentz é seu avô? Esqueceu-se que ele fodeu sua querida avó em cima da escrivaninha dele?
A mão de Melchior ergueu-se para dar-lhe um tapa, mas Ethan tanto o repeliu quanto o empurrou para trás violentamente.
— Só se importa quando eu insultei sua avó. Uma Chioren. Vê? Melchior? — O rosto dele estava cheio de uma fúria cega. — Eu sou sua família. Nicholas é sua família. Somos seus primos legítimos, e no entanto você não se importou quando ele caiu em depressão, ficou anoréxico e tentou se matar, nem quando suas namoradas morreram. E por quê? Porque ele não é um Chioren. Esse seu complexo de Deus me dá nojo.
Ele pareceu que ia dizer algo, mas Ethan levantou a voz. Possuía uma voz que podia se tornar tão aterrorizante quanto um trovão, e era esta voz que usava agora.
— Então não me venha com essa conversa imbecil de que você não mataria Robb porque ele era da sua família. Você podia matar Lance, e no entanto nunca o fez, por quê? Porque Lance era um Chioren. Você matou Robb porque ele saiu do seu controle. Você o matou porque é um lunático paranoico que pensou que eu o havia transformado num espião. Você o matou porque ele não era nada para você. Simplesmente uma mosca irritante zunindo na sua cabeça, era isso que ele era para você. Matá-lo foi fácil. Foi você o tempo inteiro. Foi você quem conduziu Autumn para me entregar sem te entregar. Foi você quem tirou aquelas fotos, roubou o meu celular, as pôs nele e então o entregou a ele com esse bilhete. Foi você quem matou Mary Bernadette. Estava lá em Castellobranco nesse dia. A polícia não sabe o que você é, mas eu sei. Não tenho como provar que você fez essas coisas, mas eu não preciso de provas para puni-lo da minha forma. Sabe a ponte que você estava tentando criar entre os Hentz e os Chioren? Ela caiu.
Os olhos de Melchior estavam esbugalhados, seus lábios estavam crispados e as narinas dilatadas. Ele respirava com dificuldade.
— Tudo que eu e você tínhamos acabou. Todas as nossas relações acabaram. Nunca mais aproxime-se de qualquer membro da minha família de novo, nem ponha seus passarinhos na nossa ronda, porque sabe o que eu vou fazer com você? Se você me desobedecer? Se você me desobedecer, eu vou amarrá-lo numa cadeira e forçá-lo a assistir cada um de seus irmãos e primos serem estuprados e assassinados, como Oliver.
— Você não faria isso.
— Não faria? Vou conduzir os estupros eu mesmo. Vou cobri-lo com o sangue infantil deles. Vou forçá-lo a olhar, como eu fui forçado a olhar. Vou esfaquear a barriga grávida da sua mãe antes de dar um tiro nela. E quando toda a sua família estiver dizimada, eu vou arrancar cada membro do seu corpo, um por um. E te deixar para morrer de hemorragia. É isso que eu vou fazer, Melchior. E nunca serei pego. Porque não haverá nenhum você para cuidar disso.
Ethan se afastou, sentindo as ondas negativas que emanavam daquela criatura.
— Aproxime-se de novo de nós — falou sem olhar para trás. — E os Chioren morrem.
A história de Nicholas.
Talvez o texto que Nick obrigara Ethan a decorar houvesse sido um pouco exagerado, mas e daí? Ninguém nunca dissera que Melchior era um dragão fácil de se mexer. Se Ethan tinha que ameaçá-lo, teria que fazer isso direito. Um simples Eu vou te matar com aquela voz sexy e autoritária não surtiria efeito algum. Melchior era mais esperto que isso. Ele sabia que Ethan não anunciava quando matava, Lafferty também sabia.
Havia deixado todas as glórias da peça para Jules e Shane, uma vez que acreditava que aquilo fortaleceria a relação dos dois e enfraqueceria a paixão sórdida que Jules estava criando por Ethan, e talvez vice-e-versa. Podia estar sendo ciumento, mas já que estava solteiro, era perdoável.
Caminhava sozinho pelo terreno cimentado da Escola St. Nicholas, em direção à capela. Subiu seus imponentes degraus e fitou as portas de cobre avermelhadas entreabertas. A igreja, grande como uma catedral, parecia muito maior sem ninguém, com um gigante com a bocarra dourada e vermelha aberta.
Atravessou o lugar, seus passos ecoando cegamente naquela imensidão, devorando cada pedra e laje com os olhos. O gigantesco crucifixo, o altar e o púlpito, onde há alguns poucos meses Lafferty pregara para jovens adolescentes. Tinham se safado daquilo. Tinham conseguido, como Ethan prometera que conseguiria. O que pensariam seus antepassados?
Eles se orgulhariam, refletiu Nicholas Hentz.
Um muxoxo chamou sua atenção, e então notou que de fato havia alguém na igreja, mas tão diminuto que era quase desprezível. Era uma freira, extremamente pequena, envolta em seu volumoso hábito, sentada no primeiro banco da primeira fileira. Mesmo sem ver seu rosto, Nicholas reconhecia a Irmã Mary Nicholas. Seu coração foi enchido por uma curiosa ternura, que logo se dissipou ao ver as mãos nodosas da velha pousadas em seus joelhos.
— Mesmo depois de saber o que ele fez… — balbuciou para ela, quase sem conseguir não gritar — você ainda reza para ele?
A mulher olhou-o com olhos úmidos e cheios de uma profunda sabedoria, tudo encoberto por uma poça extremamente negra que se fundia às pupilas. Ela, de fato, tinha cem anos de idade. Exatamente cem anos, na verdade.
— Os pecadores também têm alma, Nicholas.
Ele não se satisfez. Sentou-se ao lado da freira e olhou para o púlpito. No semestre seguinte, provavelmente, haveria outro padre ali, mandado pela Ordem. Era como se nada houvesse mudado.
— Eu vou embora — ele disse. — Daqui. Dessa escola. E nunca mais vou voltar.
— Onde você estiver, eu rezarei para você.
— Oh, é verdade? — Havia um certo tom de acidez em sua voz.
Ela colocou uma das mãos sobre a sua. Era seca como uma folha de outono.
— É verdade. Por toda a minha vida, as pessoas comentavam da minha capacidade de notar quando alguém era especial, e eu sinto isso em você. Eu sei que, dentre todos esses garotos dessa escola, você é especial. Único. Você é único, Nicholas.
A mão dela apertou-o um pouco, e então afrouxou-se de leve, e depois mais um pouco, até que se soltou completamente. A Irmã Mary Nicholas estava de olhos fechados, com a cabeça levemente inclinada para o lado, pequena como um camundongo. Nick não tinha como saber, mas se Lorenzo estivesse ali, perceberia que ela havia acabado de falecer.
Nick separou-se gentilmente e deixou a igreja sem dizer uma única palavra. Havia algo… algo em sua cabeça que insistia em imergir, algo como uma reminiscência afogada à força. Algo vindo de seus nove anos. Algo que simplesmente surgiu de detrás da igreja enquanto Nick tirava um cigarro do bolso e o acendia com o isqueiro.
— Ora, ora — disse a voz por trás de si. Nick olhou para confirmar o que imaginava. Havia visto aquele garoto na plateia do teatro, mas sinceramente não acreditava que pudesse sê-lo. Eram parecidos. O garoto tinha cabelos louros e olhos negros, como ele. Eram quase da mesma altura, tinham o mesmo corpo, quase as mesmas feições, e eram da mesma idade. — Lembra-se de mim?
— Mais ou menos. Qual é mesmo seu nome?
— Louis.
— Ah, é verdade. Louis Stuart. Certo? Agora eu me lembro.
— Lembra-se então que você é um mentiroso?
— Desculpe?
Nick realmente estava se lembrando. Havia beijado aquele menino, uma vez.
— Você sabe do que estou falando.
— Acho que não sei.
— Sobre Lafferty ter estuprado você. Ele nunca fez isso. — Os lábios de Louis se crisparam e suas sobrancelhas se franziram. Ele sentia ódio, e isso não surpreendia Nick. — Afinal, é estupro se você gostava tanto daquilo?
Então ele se lembrou, se lembrou de tudo. Lembrou-se de quando Lafferty o deitou pela primeira vez, e de como deitou-se em cima dele então. Nick lembrou como adorava a sensação da barba áspera e loura contra seu pescoço infantil, como gostava da língua dele descendo por seu corpo, e como gemia quando ele chegava lá. O rosto de Louis também estava lá, deitado ao seu lado, também nu, como ele. Às vezes os dois meninos se beijavam porque Lafferty pedia, ou faziam algo a mais. Mas na maioria das vezes ficavam apenas de mãos dadas enquanto ele trabalhava em seus corpos.
— Ah — Nick exclamou sorrindo. — Louis. Meu parceiro de estupro. Agora sim eu lembro quem é você.
Louis parecia querer dar um soco na sua cara.
— Do que diabos você está falando? Nós dois pedíamos para Lafferty para ir para trás da igreja. Nós implorávamos, você mais que eu, mais que todo mundo. Você o amava, e ele amava você. Você não se lembra ou está apenas ignorando?
— Eu acho que quem está ignorando tudo é você. — Nick suspirou profundamente. — Nós éramos crianças. Lafferty nos manipulou para que nos apaixonássemos por ele, e ele conseguiu. Você não se lembra de como ele frequentemente nos fazia sentir ciúmes dele? Quando ele dava mais atenção a mim na sua frente, e vice-e-versa? De como se ausentava por longos períodos para nos forçar a ter saudades dele? Será que você não compreende que ele nos usou como marionetes? Éramos crianças, meu querido Louis. Eu não tenho culpa se pensava que o amava.
— Você contou a sua mãe que ele o estuprou depois que ele arrumou outro garoto.
— É verdade. Quem era esse garoto? Eu não lembro o nome. Só sei que o odiei naquele momento. Eu preferia que minha mãe tivesse mandado o garoto embora da escola, ao invés de Lafferty. Na época. Eu me livrei da prisão mental em que Lafferty me impusera quando contei isso à minha psicóloga e ela explicou que, seis anos depois, eu continuava manipulado por ele. Mas você… você ainda o ama. Você ainda ama Lafferty. Você nunca conseguiu perceber o que foi que ele fez. Não só conosco… mas com todos os outros garotos que ele abusou. Nem todos eles foram tão felizardos quanto nós.
Louis balançava a cabeça negativamente.
— Você está errado. Destruir a idoneidade de uma pessoa depois de morta é algo horrendo. Foi por sua causa que Lafferty morreu. Foi culpa sua.
— Sim, foi sim culpa minha. E daí? Acha o que, que ele ainda iria querer você? Crescido desse jeito? Pare de ser estúpido. Vá a uma terapeuta e procure se tratar. Eu já fiz isso.
Havia uma expressão de horror tão grande no rosto dele que Nick sentiu pena.
— Você não entende mesmo, não é? — Nick sussurrou. — Lafferty estuprou a nós dois. Isso é algo inalienável. Nós não tínhamos capacidade de concordar com aquele sexo. Não sei por que você nega tanto, Louis. E quer saber de uma coisa? Acho melhor que você não abra a boca sobre o que aconteceu para ninguém. Eu sou uma celebridade e você é um ninguém. Eu posso fazer você desaparecer tão facilmente quanto fiz com Lafferty. Adeus, Louis.
Quando se afastou, Nicholas percebeu que quando a Irmã Mary Nicholas dissera que os pecadores também tinham alma, ela não se referia a Lafferty. Ela continua rezando por ele em todos os lugares que iria, assim como estivera rezando na igreja, naquele momento.
Encontrou-se com Ethan na saída do teatro. Lorenzo estava com ele, lindo e horripilante, como sempre.
— Vamos embora — disse aos dois, puxando cada um pela mão. Estava saindo da St. Nicholas pela última vez, sabia disso.
— O semestre que vem será melhor — disse Ethan. — Eu prometo.
— Não voltarei semestre que vem.
Haviam chegado à Mercedes. Ethan, que estava abrindo a porta do motorista e havia acabado de colocar Lorenzo no banco de trás, estancou no mesmo lugar, olhando o irmão fixamente até que deu um suspiro.
— Está bem — ele disse. — Você pode ir a outra escola. Ainda deve haver alguma nessa cidade. Se você quiser, pode até ir a uma pública. Será a única pessoa chegando de limusine, mas mesmo assim…
— Você não entendeu? — Nick entrou no carro. — Eu não voltarei semestre que vem. Eu não vou voltar à escola nunca. A nenhuma escola. Eu nunca mais vou pisar em nenhuma escola pelo resto da minha vida. Estou sendo redundante de propósito.
— Nicholas, você precisa do diploma do ensino médio.
— Por isso eu farei a Avaliação de Complemento do Ensino Médio no final do ano. Se eu passar, ganho o diploma. Se eu não passar, paciência. A gente vê o que vamos fazer. Mas não vou voltar à escola. Nunca mais.
Ethan franziu as sobrancelhas, suspirando profundamente. Estava insatisfeito. A perspectiva de ter Nick em casa todos os dias, o dia inteiro, tocando rock no último volume em seu quarto, que ficava bem abaixo de seu escritório, pelos próximos seis meses, parecia terrível e infindável.
— Está bem — ele falou. — Mas você não ficará sem fazer nada. Você terá professores particulares para prepará-lo para o ACEM. Todos os dias, de segunda a sexta. Como se fosse uma escola em casa. Só aceitarei se for assim. Se você quer mesmo deixar a escola para fazer esse teste, eu vou esperar que passe de primeira. Se não vou enforcar você.
— Então que assim seja.
O carro deu a partida. Nicholas sentia todos os horrores que vivenciara naquela escola se desprendendo de sua alma enegrecida. Toda a sua glória ficava lá, toda a sua felicidade e tristezas, todas as pessoas que conhecera, que amara e odiara, todas as tardes maravilhosas nos vestiários e nos camarins do teatro, ensaiando exaustivamente sem parar. O portão da escola se erguia como as portas do céu, com São Pedro do lado, girando o molho de chaves.
Adeus, St. Nicholas, pensou sonhadoramente, e então perguntou-se o que a vida lhe reservara.
— Ethan, ligue a rádio. Já assistiu à Bonequinha de Luxo? Estou com vontade de ouvir Moon River.
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