Como Vivem Os Anjos
56 Sexta Temporada — Nada Dura Para Sempre
Notas iniciais
He left no time to regret
Kept his dick wet with his same old safe bet
Me and my head high
And my tears dry, get on without my guy
You went back to what you knew
So far removed from all that we went through
And I tread a troubled track
My odds are stacked, I'll go back to black.
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
I go back to us.
I love you much
It's not enough, you love blow and I love puff
And life is like a pipe
And I'm a tiny penny rolling up the walls inside.
[…]
(Back To Black
— Amy Winehouse)
[…]
Nobody knows where they might end up, nobody knows
Nobody knows when they might wake up, nobody knows.
[…]
(Cosy In The Rocket
— Psapp)
Elas começaram!
Acentuadas as perfeições,
A flor expande coloridas pétalas
Abertas ao sol,
Mas a língua da abelha
Não as acha
E elas pendem para a terra
Chorando
— Poder-se-ia dizer em um grito
Que se esgueira sobre elas, um tremor
Enquanto murcham e desaparecem…
(Paterson
— William Carlos Williams)
OoO
Ethan Lemnsack não sabia se aquela sensação iminente de dor e ansiedade que vinha sentindo no estômago já há um bom tempo era um bom sinal ou não. Aliás, sabia sim que não era, ansiedade nunca era boa. Mas não sabia se devia se preocupar com aquilo ou não. Talvez uma voz do além quisesse lhe informar que morreria mais cedo ou mais tarde, mas isso não fazia sentido. Ninguém conseguiria matá-lo.
Ou pelo menos era essa a sensação que tinha enquanto passeava pelo nonagésimo quinto andar do Palácio Real Hentz, num dos grandes corredores envidraçados que mostravam toda aquela minúscula e medíocre cidade lá em baixo. Uma melodia animada e gritante podia ser ouvida como um sussurro se se parasse para escutar por alguns segundos. Vinha do quarto de Nick. Ethan não errara quando pensara que tê-lo todos os dias em casa escutando música no quarto no volume mais alto era uma péssima ideia.
— Por que exatamente você não fez o quarto dele à prova de som? — Jules du Pont perguntou ao seu lado com seu delicioso sotaque francês atravessando cada sílaba. Caminhavam juntos. Ele tinha um tablet nas mãos e atualizava Ethan da situação atual da Anhert Corporation. Era dia 26 de julho de 2014. Estavam a exatamente um mês do aniversário de um ano da companhia e Ethan pretendia fazer até o Rei Senn aparecer. Como ele tradicionalmente não poderia se envolver com empresas privadas, aproveitaria para fazer alguma espécie de festa beneficente também.
— O quarto dele é à prova de som — respondeu calmamente. — E, pelo visto, seus ouvidos também. Ele diz que gosta de ouvir no volume mais alto depois de terminarem as aulas particulares porque sente o conteúdo escorrendo de seu cérebro.
— Ele diz isso para te irritar.
— Sim, exatamente. Você é bastante inteligente.
Inteligente e bonito. Jules era praticamente andrógino, tinha um rosto de mármore dourado-claro completamente liso e lindos cabelos louro-claros que lhe chegavam aos ombros. Tinha olhos cinzentos e adoráveis e cílios tão compridos que só ajudavam na sua aparência feminina. Os lábios eram compridos e róseos e o nariz era fino, assim como seu queixo. Ethan não sabia muito bem qual era o cargo dele naquela empresa, mas sabia que se ele fosse embora provavelmente iria à falência.
— Como consegue unir trabalho e escola ao mesmo tempo? — perguntou com curiosidade. Jules deu de ombros, observando as pinturas penduradas nas paredes.
— Eu apenas consigo. Faço meus relatórios durante o almoço e mato as duas aulas extracurriculares para me atualizar do que acontece aqui para que depois eu possa fazer isso com você. Você sabia que eu descobri que, tecnicamente, a St. Nicholas não pode me reprovar por faltar às aulas extracurriculares?
Pouco tempo depois de terminar a peça Homesence, Nick implorara a Ethan para que demitisse Jules. Ele não queria nenhum resquício da St. Nicholas naquele prédio, mas infelizmente era impossível. Lorenzo também tinha um troféu quase de seu tamanho que ganhara numa competição na própria escola, então por que ele só se importava com Jules? Por que só com a única coisa com a qual Ethan se importava de verdade? Tiveram uma briga terrível por causa disso, mas Ethan terminou vencendo. Quer dizer, eles ainda estavam sem se falar, mas não era esse o caso.
— Você está andando quase mancando — ele falou franzindo as sobrancelhas. Ethan balançou a cabeça, mas era muito difícil mentir para ele. — Sim, você está mesmo. Está sentindo dor em algum lugar?
— É claro que não. Não seja tolo.
— Acho que quem está sendo tolo é você. Vai me dizer que tem medo de hospital?
Para um funcionário seu, ele era bastante insubordinado. Mas Ethan não conseguia se irritar com isso porque ele era competente demais. E a verdade era essa: estava sentindo dor.
— Não sei do que está falando. Sabe do que mais, vou promovê-lo.
Jules arqueou as sobrancelhas como se pensasse que aquilo era uma brincadeira. Mas a seriedade de Ethan fê-lo mudar de ideia.
— A quê?
— Vou criar um cargo. Bem, na verdade, vou criar noventa e dois cargos. Cada andar terá um Representante que cuidará de informar a cada um dos funcionários de seu andar avisos que sejam relacionados a cada um deles e também poderá recomendar demissões e contratações. Por coincidência, o Representante do andar noventa e dois é o Chefe dos Representantes. Parabéns, você é ele.
— Meu salário vai aumentar?
— É claro, assim que eu decidir para quanto. Você tem dezesseis anos e tem um dos cargos mais importantes daqui. E ele é importante porque eu estou dizendo que é. É por isso que é bom ser o presidente da própria empresa. Eu posso fazer o que eu quero, e se eu quero você como meu Chefe dos Representantes, você será.
— Na verdade, acho que o termo macaquinho de estimação descreveria melhor o que eu faço aqui para você.
— Não seja tolo — disse pela segunda vez.
— Certo. Já que é assim, eu preciso de outro assistente. Não que eu não consiga dar conta, acontece que eu não quero.
— O que houve com seu último?
— Ele morreu. Robb era meu último.
Ethan sentiu uma pontada no coração, um misto de tristeza e raiva de um passado aparentemente muito longínquo.
— Está bem. Faça as entrevistas. Aliás, eu nem deveria mais estar aqui. Faça-me o favor de ir preparar a Mercedes. Preciso ir à Academia Alphonse Enoi.
— Como quiser. Qual a última vez que fez um exame oftalmológico? Seus óculos não servem mais de nada. Eu já notei isso.
— Não tenho tempo para ter visão ruim. — Ethan sentiu vontade de beijá-lo, mas por algum motivo não fez isso. Apenas envolveu sua cintura com as mãos e deu-lhe um beijo na bochecha. — Sou ocupado demais para isso.
— Eu entendi sua estratégia — ele disse sem se alterar. — Beija na bochecha para que eu não possa processá-lo por assédio sexual. Eu tenho namorado, esqueceu?
— Seria assédio quando você fica tão arrepiado quando faço isso? Não, não me esqueci, e também nunca me importei. Está bem, marque a consulta oftalmológica, mas é só. Não estou sentindo dor em lugar nenhum. E o carro, agora.
— Como quiser, Sr. Presidente.
A música estava tão alta que os tímpanos de Nicholas estavam quase estourando, mas ele não se importava com isso porque havia se entupido de doces e café e agora sua adrenalina estava no alto. Poderia ter um ataque cardíaco a qualquer momento, além de um bom e velho aneurisma, mas quem diabos se importava? Se todos os Hentz morreram aos setenta anos de idade, aquilo devia significar alguma coisa.
Pegou a estatueta do Oscar que sua bisavó Doreah Lemnsack havia ganho em 1938 e a admirou contra a luz, dançando com ela. O homem nu, dourado e sem face parecia estar falando com ele, apesar de não haver inscrição alguma em lugar algum. Havia outros prêmios de Doreah também, nem tão importantes quanto aquele e bem menos conservados.
A estante ao lado estava atulhada de livros sobre economia, política e gerenciamentos de empresas que John Francis, John Daniel, Samuel e Mary Alice haviam escrito. Ethan ainda recebia dinheiro pelos direitos deles, mas esse ele doava à caridade. Sugestão de Jules du Pont. O perfeito Jules. Nick não tinha nada contra ele, mas não conseguia olhar para seu rosto sem se lembrar do momento mais traumático da sua vida. Ethan simplesmente não conseguira entender, nem fizera o esforço, e por isso Nick não o perdoaria. Estavam sem se falar desde o dia seguinte à estreia da peça Homesence, quando atirara o abajur de seu escritório contra ele num momento de raiva e então deixara-o sozinho.
Deixou seus devaneios quando sentiu alguém chutá-lo na perna tão forte que quase o cegou de dor. Caiu no chão e gritou, mas a música abafou o barulho. Quando as ondas de agonia finalmente tornaram-se menos que insuportáveis, abriu os olhos lacrimejantes antes de ver Lorenzo desligar calmamente o sistema de home theatre com o controle universal.
— Eu tenho mãos pequenas — ele disse num tom de voz que pareceu ainda mais baixo que o seu normal, mas era porque Nick estava desacostumado. — Pequenas mesmo, minúsculas. Eu sou incrivelmente baixo para a minha idade. Os meninos da Academia fazem questão de me lembrar disso todos os dias, mas veja bem. Eu preciso praticar piano incansavelmente porque eu tenho mãos pequenas e tenho que vencer esse desafio. — Então ele tomou fôlego e gritou: — E eu não posso praticar piano quando a Madonna está berrando como se sentiu virgem a menos de dez metros de mim! Abaixe esse som!
— Sabe, eu deveria te dar umas palmadas por falar comigo desse jeito.
Lorenzo lhe deu outro chute.
— Dói? — ele perguntou com uma inocência maliciosa. — Eu sempre me perguntei por que estrelas do rock usam sapatos com spikes. Ontem descobri que eles são muito bonitos quando uma garota disse que me achava bonito e hoje descobri que eles são muito úteis quando senti vontade de te chutar janela afora até você cair do prédio.
— Eu realmente deveria te dar algumas palmadas.
— Por que Ethan fez nossos quartos lado a lado?
— Ele queria ter a certeza de que eu socorreria você se você tivesse algum problema de garotos cegos e que você me socorreria se eu tivesse algum problema de garotos depressivos e potencialmente suicidas.
— Se você não abaixar o som, não vou socorrê-lo.
Lorenzo fez menção de deixar o quarto, mas Nicholas o seguiu. Apesar de ir na ponta dos pés e sem fazer barulho, tinha plena certeza de que ele sabia que estava sendo seguido. Entrou no suntuoso quarto e observou-o sentar-se no banquinho do gigantesco piano de cauda negro e dourado que ficava de frente para uma miríade de janelas de corpo inteiro que demonstravam a linda e poluída cidade de Middleland lá ao fundo.
Ele começou a tocar uma melodia que Nick conhecia muito bem.
— Você só sabe tocar isso? Não aguento mais ouvir essa música.
— Foi você que a escreveu. Só não gostei do título. Como Vivem Os Anjos? Que espécie de título estúpido é esse?
— É bastante importante para mim — respondeu lembrando-se de um papel encardido de mais de dez anos de idade com um bilhete para si mesmo. Há quanto tempo não o lia? Não, não podia cair na tentação no momento. Estava sem falar com Ethan há duas semanas e não seria ele quem vacilaria.
Ligou a gigantesca televisão que servia basicamente para nada e colocou num canal de celebridades. Estavam passando pela enésima vez a reprise da première de Lympharia. Nicholas estava no tapete vermelho junto a todos os outros atores, tinha acabado de sair de uma limusine e usava um terno tão caro que faria os episódios de dez milhões de dólares da série parecerem trabalhos de escola do ensino fundamental. Ainda não conseguia acreditar que Incuus havia morrido e que agora, para todos os gostos, Nick estava desempregado.
— Eu sou tão lindo — comentou com os olhos brilhando. Lorenzo parou de brincar com as teclas. — Tão absurda e estonteantemente lindo. Eu deveria ser proibido de ser tão bonito. Meu rosto é a prova de que Deus existe. Não só meu rosto, meu corpo inteiro.
— Você já fez cirurgia plástica. Ethan me disse.
— Não foi uma cirurgia plástica. Aquele maluco do Enzo Granelli me deu um tiro no peito e eu basicamente não queria ter uma cicatriz lá pelo resto da vida.
— Cirurgia plástica.
— A culpa de ele ter atirado em mim foi sua. Você é um psicopata desde os nove anos.
— Continua sendo cirurgia plástica.
— Meu rosto continua intocado pelos homens.
— É verdade. Você prefere que os homens toquem as suas outras partes.
— Cale essa boca.
Após obrigar Jules du Pont a ir preparar-lhe o carro, Ethan voltara ao escritório para limpar sua agenda de compromissos antes de partir para a Academia Alphonse Enoi. Olhou-se no espelho de corpo inteiro e ajeitou o cabelo até que decidiu que estava grande demais. Suas poucas espinhas estavam desaparecendo. Nick passara pela adolescência inteira sem nunca ter uma mancha sequer na pele. Em compensação, ele tinha uma cicatriz pequena no peito e linhas retas nos pulsos.
Estava se preparando para sair quando o telefone tocou. Pensou em ignorar a ligação quando se lembrou de que era o presidente daquela corporação e de que um presidente nunca está atrasado, apenas todo o resto do mundo chegara cedo demais. Então notou que não era seu telefone fixo, e sim o pessoal. Ninguém tinha aquele número, a não ser algumas poucas pessoas. Quando olhou, viu que o número era desconhecido.
— Sr. Goldberg? — a voz do outro lado perguntou. Ethan sentiu como se tivessem derramado um balde de gelo em sua espinha. Aquele era um pseudônimo que apenas uma companhia no mundo inteiro tinha conhecimento.
— O Sr. Goldberg está em viagem à Indonésia — falou calmamente. Aquilo era um código. Era tudo um código. Pensara que havia esquecido, mas aquela voz robótica feminina abriu sua mente de repente. Estava tudo lá. Não podia negar o que havia feito com apenas dezesseis anos. — Mas posso anotar o recado, se desejar.
— Seria ótimo. Gostaria que perguntasse ao Sr. Goldberg se ele se lembra da editora White Castle que planejava comprar há alguns anos, mais especificamente em 2012.
Sim, no primeiro semestre de 2012, quando os tempos eram mais inocentes e felizes. White Castle, a versão inglesa do nome da cidade de Castellobranco, havia sido uma ideia de Ethan para a editora de fachada.
— Ele provavelmente se lembra. Lembra também que desistiu do negócio após oito ofertas recusadas e concluídas.
— Sim, de fato, todos os oito proprietários da editora ficaram desapontados… o Sr. Marahana, Sr. Watanabe, Sr. Scalamonti… — Ethan hesitou. Ouvir aqueles nome depois de tanto tempo… doía tanto, a lembrança… — No entanto, como o senhor frisou, o Sr. Goldberg analisou e recusou todas as propostas. Elas foram…
— Elas foram concluídas. O Sr. Goldberg compensou todo o tempo que gastaram com ele em forma de pagamento. Se me lembro bem… com doze milhões de dólares. Depositados em oito contas diferentes na Suíça, Liechtenstein, Mônaco, Luxemburgo, Ilhas Cayman e Ilhas Bermudas.
— O senhor se lembra bem. Porém, gostaria que avisasse ao Sr. Goldberg que minha companhia tem informações que possam interessar a ele sobre a editora, se ainda estiver interessado em adquiri-la… informações relevantes a um nono comprador.
Ethan caiu em sua poltrona presidencial. Suas mãos tremiam, a respiração estava ofegante e aquele dor abdominal estava se tornando insuportável. Se estava entendendo bem…
— Um nono comprador? — indagou. — Um nono comprador com uma oferta ainda não recusada? Um nono comprador além de todos aqueles oito?
— Isso mesmo, com uma oferta nem recusada e nem concluída. Há alguns meses ele comprou todas as oito partes da editora e agora quer vendê-la. Pede quatro milhões de dólares. Se o Sr. Goldberg desejar, poderemos mandar todo o dossiê sobre a oferta em formato digital pelo correio. A senha será enviada encriptada ao e-mail particular usado na última transação do Sr. Goldberg com a nossa companhia, junto a todas as informações de pagamento se ele decidir efetuar a compra.
Ethan ficou um longo tempo calado, sentindo o suor descer por seu corpo e a dor explodir. Estava quase vendo estrelas.
— Senhor?
— O Sr. Goldberg ficaria muito contente se mandassem — falou de uma vez. — Ele analisará os fatos.
— Agradecemos muito. Uma boa tarde para o senhor.
A ligação foi encerrada. Ethan olhou para o próprio telefone, respirou fundo e o jogou contra a parede. Tomou cuidado de estraçalhar as sobras com seus sapatos Louis Vuitton de milhares de dólares. A seguir recolheu os destroços e os jogou na lata de lixo. Cuidado sempre, apagar todos os rastros. Foi o que aprendera há dois anos.
Não era alucinação. Foi tudo absolutamente real, o telefonema, os códigos… ele entendera muito bem. Houvera uma nona pessoa participando do assassinato de Oliver Castanelli, uma nona pessoa ainda viva, e por quatro milhões de dólares Ethan poderia apagar seu rastro da Terra para sempre.
O escritório da Diretora Hellen Page estava aberto e vazio quando Ethan entrou. Apreciando a decoração regada em negro e vinho, perguntou-se quanto tempo fazia que aquelas cortinas não eram abertas. Tudo era montado com extremo bom-gosto e até os livros na estante pareciam escolhidos a dedo e enfileirados de modo que melhor se equilibrassem no ambiente. Pelo menos era o que Ethan achava, não entendia nada sobre decoração.
Sentou-se em sua confortável poltrona, notando que fora ali que ela sentara há dois anos, quando dera a ele e a Nicholas a notícia sobra a morte de seus pais. O grito de Nick que servira de alarme para toda a escola estava inteiro e audível em sua mente. Ethan nunca o esqueceria.
A porta do escritório abriu-se. Hellen Page não parecia ter mudado nem um pouco nesses anos. Continuava com as mesmas rugas, com as mesmas madeixas grisalhas e o mesmo porte e olhar imponentes e autoritários que punham medo em todos os alunos da Academia. Vestia uma saia estéril e cinza que chegava aos joelhos e um blazer social da mesma cor, como sempre. Era aquilo que estivera vestindo no dia em que deu a notícia.
— O que está fazendo aqui? — ela indagou a Ethan sem sequer fitá-lo com atenção. Pôs-se a retirar os brincos virada de costas para ele. — Tenho uma reunião em poucos minutos nesta sala. Algum endinheirado quer comprar a minha escola e o Conselho não responde às minhas ligações.
Ethan não falou nada, apenas ficou brincando com o Pêndulo de Newton giratório de cima da escrivaninha. Hellen Page demorou apenas dois segundos para perceber o que estava acontecendo ali. Virou-se para ele e levantou as sobrancelhas.
— Sirva-nos duas taças do seu melhor vinho, Hellen — Ethan disse distraidamente. Então deu um sorriso pequeno. — Vamos comemorar a ruína do Conselho.
Graças a seu maravilhoso Jules — se dava o direito de chamá-lo de seu porque ele ganhava mais que qualquer um no Palácio Real Hentz com salário fixo e seu cargo era medíocre —, Ethan conseguira destronar os últimos membros do Conselho que ainda não estavam falidos. As irmãs Mondaine tinham contatos no ramo petroleiro que foram todos aniquilados quando Ethan demonstrou-se um melhor investidor. As usinas e fazendas de Grace Pree e de Stefani Price-Pree já haviam sido compradas e, se Deus quisesse, em breve seriam dizimadas para dar lugar ao delírio que era Hentzland. O casal Caument havia declarado falência há poucos meses, mas a culpa não era realmente de Ethan. Era só uma questão de tempo. Assim como há meses pedira a Lauren Mayfair, os hospitais decadentes de John Christian Medley haviam sido comprados e rebatizados de Centro Médico Hentz e agora passavam por uma delicada transição do privado para o público. Os jornais e a emissora de TV dos irmãos Welch, Wright-Welch & I, já haviam sido comprados por Ethan. A WiW fora naturalmente rebatizada de Hentz Broadcasting Corporation, HBC. As lojas de departamentos dos primos Isaac Delaney e Castiel Bones foram vendidas quando Ethan acidentalmente deixou-lhes notar que era ciente do caso amoroso dos dois. E Gloria Lamme estava morta. Seu fabuloso império tabagista agora era parte da Anhert.
O Conselho estava morto, bem como Ethan previra um ano atrás.
E agora saboreava uma bela taça de vinho tinto com Hellen Page em seu escritório. A vitória era doce e absolutamente deliciosa, foi isso que disse quando fez seu brinde. E se parasse para perceber, algo parecido com um sorriso apoderara-se do rosto da diretora.
— Você agora é meu patrão — ela declarou, e de repente isso se tornou muito mais verdade do que antes. — O que pretende fazer com essa escola?
— Minha primeira providência será mudar seu nome. Sei que é viúva de Fayonir Enoi, o bisneto do velho Alphonse Enoi, mas é um costume meu espalhar meu sobrenome em tudo o que compro. Portanto, de agora em diante, esta instituição será conhecida como Academia Hentz.
— Compreendo.
— Ela continuará sendo particular e provavelmente aumentaremos o valor das mensalidades, mas será diferente das outras. De agora em diante, a Academia começará a se modernizar para aceitar alunos excepcionalmente inteligentes. O que quero dizer é que a maioria das crianças e adolescentes superdotados saem da escola cedo por não se sentirem desafiados, e é nisso que a Academia começará a se especializar. Não apenas nisso, também começaremos a aceitar com mais frequência alunos deficientes, principalmente visuais. Você tem todo o orçamento do mundo para fazer com que esse lugar no futuro se chame Academia Hentz, para alunos excepcionais. Eu quero uma escola de superdotados supermoderna. Quero que doutores implorem para dar aula aqui. Quero a escola mais procurada da Califórnia.
— Então eu continuarei com o mesmo cargo? E quanto a algum Conselho?
— Sem Conselho. Chega de democracia. Não funcionou com os gregos e não funcionará conosco. O diretor terá poderes supremos e inalienáveis. Sua palavra será a última e você terá o poder de demitir qualquer funcionário e expulsar qualquer aluno sem necessitar da permissão de ninguém. Poderá efetuar cortes e aumentos nos orçamentos e será a única com o poder de autorizar mudanças na escola. O único cargo acima do de diretor será o dono da escola, e esse cargo coincidentemente será tradicionalmente dado ao Presidente da Anhert Corporation. No momento, serei eu. O dono da escola é o único com poder para derrubar um diretor e desfazer suas ordens. Basicamente, eu sou a única pessoa para quem você terá que prestar contas. Eu gosto muito de hierarquia e totalitarismo, se não percebeu.
— Eu percebi.
— Considerando que eu não tenho conhecimentos pedagógicos, deixarei você fazer o que quiser com a Academia Hentz, mas quero relatórios semanais de tudo o que acontece durante a semana, inclusive fofocas de alunos. Sei que todas chegam aos seus ouvidos, de qualquer jeito. Ah, mais uma coisa. Isso é para daqui a algumas décadas, quando a minha família crescer um pouco. Membros de sangue da família Hentz poderão estudar de graça aqui, desde que passem pelos dificílimos testes de admissão que eu e você criaremos. Lorenzo também pode, já que não faz sentido eu pagar a mim mesmo.
— Me parece maravilhoso. Espero que eu não tenha que me sentar nessa cadeira e contar aos seus filhos que você morreu num acidente de avião, como tive de fazer com você e Nicholas.
— Eu não morreria por algo tão estúpido quanto um acidente de avião. Eu provavelmente vou morrer assassinado com ricina. Vamos fazer mais um brinde. Por um longo e brilhante futuro. À sua saúde.
— À sua saúde.
Nicholas Hentz recebia pelo menos uma proposta de trabalho por dia. Por carta, por e-mail, até pessoalmente. Uma coisa que descobrira em sua rápida ascensão como ator era que as produtoras pouco respeitavam os contratos de exclusividade. Sua participação em Lympharia havia acabado, mas o contrato de Nick com a HBC exigia que ele entregasse sua pessoa e identidade a eles pelo período de um ano, o que significava que só estava liberado para trabalhar para outras empresas em 2015. Faltavam apenas cinco meses, mas pareciam cinco eternidades.
Apesar de Ethan tentar a todo custo espantar os abutres que insistiam em levar seu lindo rosto dourado para o outro lado das produções cinematográficas e televisivas, era realmente impossível conter todo o fluxo de corrupção, uma vez que Nick não era vigiado vinte e quatro horas por dia. Se decidisse romper com seu contrato de exclusividade seria obrigado a pagar uma lindíssima multa de dez milhões de dólares, mas descobrira também que as produtoras preferiam pagar a multa dele para tê-lo para si. Era muito tentador, mas seria um golpe absurdo em Ethan… era tentador dar o golpe, mas Lorenzo vivia fazendo-o sentir-se culpado.
Falando em Lorenzo, ambos tomavam café-da-manhã juntos antes de ele ir à escola. Nick se oferecera para levá-lo naquela Bugatti gigantesca que brilhava e tremia como uma espaçonave, e após muita insistência ele aceitou. Nick ainda não batera o carro nem matara ninguém nenhuma vez desde que tirara carteira de motorista. Doía lembrar que fora Victoria Goldenschild quem o ensinou a dirigir, mas doía também lembrar que fora Ethan quem comprou o carro, assim como doía lembrar que se ele houvesse continuado a ter aquele namorado estúpido que fora brutalmente assassinado as vidas de todos poderiam ser melhores, mas nem tudo são flores e nem todas as coisas são o que deveriam ser.
As gigantescas janelas iluminavam o aposento calmo e vazio que continha apenas aquela mesa redonda e algumas margaridas no vaso de cristal e estampadas na toalha da mesa. Nick se perguntava por que havia um café-da-manhã suficiente para alimentar toda uma família feudal apenas para aqueles dois, considerando que ele próprio ainda era levemente anoréxico e Lorenzo tinha o estômago do tamanho da cabeça de uma boneca.
— Por que Ethan nos proibiu de tomar café? — o menor perguntou limpando a boca com um pano elegantemente. Nick estava olhando no tablet mansões à venda em Hollywood.
— Uma xícara de café está para mim assim como uma garrafa inteira de vodka está para qualquer pessoa — respondeu calmamente. — E você é muito novo para isso. Aproveite a infância antes de destruir seu horário biológico com café.
— Sou muito novo para café, mas posso namorar garotos e garotas?
— A família Hentz tem suas prioridades. — Olhou no relógio, ou melhor, no Rolex, e percebeu duas coisas: estavam atrasados e Ethan havia lhe dado aquilo. — Vamos lá, você não vai querer se atrasar.
— Na verdade, vou sim. Sou um pré-adolescente. Escola é entediante.
— Leve seu violino e toque para as crianças no intervalo. Vai te agradar e todos vão te achar um deus. Ah, e quando terminar não se esqueça de abrir os olhos e olhar para a luz. Seus olhos brilham quando você faz isso e é lindo.
— Eu não me importo se fico lindo ou não, nem com aquelas crianças estúpidas. Eu quero impressionar mestres em música, e não meninos que riem da palavra sexo. Desde que Ethan comprou a maldita Academia, todos me chamam de o filho do diretor. Isso não faz sentido algum! Ethan não é o diretor e eu não sou filho dele.
— Eu acho que já assisti a um filme pornográfico com esse nome.
Nick na verdade estava com pena de Lorenzo. Ele tinha um QI de 135 e memória fotográfica. Aquela era a grande sina das crianças superdotadas: entediavam-se com facilidade de tudo que as rodeava porque o mundo não conseguia acompanhá-las. Pessoas de sua idade não lhe interessavam e os mais velhos tratavam-no com desprezo e o subestimavam. Aliás, Lorenzo bem tinha uma grande capacidade de desenvolver bipolaridade, TDAH, TOC, ansiedade ou mesmo sua velha depressão. Ele já a tivera. O que impedia uma nova recaída? Aquele menino precisava pular de ano. Poderia entrar numa faculdade com quinze ou dezesseis anos. Em alguns anos, Nick tinha plena certeza de que Lorenzo estaria na frente de um palco com seu Stradivarius tocando como um deus.
— Estamos atrasados — declarou. O uniforme da Academia agora Hentz mudou, tornando-se consideravelmente parecido com o da Escola St. Nicholas. Calça e paletó, todos azul-escuros, e uma camisa branca com uma gravata vermelha de detalhes negros. Lorenzo parecia muito pequeno naquela roupa, embora tenha sido feita sob medida. No paletó, no lugar onde devia estar o bolso, havia o brasão de um leão dourado virado para a esquerda rugindo estampado.
Desceram pelo elevador particular diretamente à garagem. Apesar de Nick pretender dirigir, havia um motorista para abrir as portas do carro, o que era ridículo. Acomodaram-se bem dentro daquelas deliciosas toneladas de ferro e metal quando Nick ligou o carro. Era tão silencioso que mal notou. Seu rodar também era tão macio que era como se estivessem flutuando. Se Ethan pretendia mudar o mundo de alguma forma com a Anhert, fabricar carros voadores seria uma ótima ideia.
— Tem uma coisa estranha acontecendo — Lorenzo falou quando pararam num sinal vermelho. — Eu sempre consegui sentir a presença das pessoas perto de mim, mesmo quando não tinha consciência dos meus poderes. Ultimamente, isso tem sumido. Às vezes eu me distraio e me esqueço de onde estou e quando tento lembrar, esqueço que você está aqui. Isso acabou de acontecer. Eu literalmente não consegui sentir sua presença.
— Talvez seus poderes estejam se esvaindo. Acho que a magia está deixando o mundo porque esse mundo é muito medíocre. Pode ser melhor assim. Eu realmente detesto quando você chega perto de mim e diz que estou me sentindo mal. Não ajuda muito, sabe. Você fica parecendo um daqueles videntes falsos da TV.
— Você precisa arrumar um namorado para parar de ser tão irritante.
— Não, me cansei de garotos. Eles são todos idiotas.
— Eu não me cansei. Eles são idiotas, mas são bonitos.
— Eu nunca senti tanto orgulho de você na minha vida. Estamos chegando na Academia. Quer que eu entre pelos portões com esse carro de milhões de dólares ou prefere ser deixado nos portões para achar sua sala a esmo?
— Você não me deixa escolha, então vamos lá. Vamos ser a verdadeira família reinante em Middleland.
Nick pegou na mão de Lorenzo e o guiou pelas calçadas verdíssimas da Academia. Haviam plantado árvores durante a semana para diminuir a quantidade de área aberta e fazê-la parecer um campus de universidade. As unidades estavam sendo remodeladas, assim como o sistema de ensino, e a grama sendo substituída por grama sintética, que era mais verde e não atraía formigas. Ethan em breve começaria a encher aquela escola de leões para doutrinar todos aqueles pobres alunos.
— Olá, você é Nicholas Hentz? — duas garotas chegaram perto dos irmãos e perguntaram em uníssono a Nick. Ele levantou uma sobrancelha e sem ter tempo de responder, uma delas disse: — Poderia nos dar um autógrafo?
— Não, não poderia — respondeu com simplicidade. — Porque eu não sou Nicholas Hentz, a supercelebridade adolescente. Sou Nicholas, um adolescente que está levando o irmão menor à sua sala de aula porque ele é cego e não pode ir sozinho. Isso é tudo o que sou, no momento. Tenham um bom dia.
Quando se afastaram o suficiente, Lorenzo disse:
— Até eu consigo perceber o quanto as pessoas olham para nós quando passamos. Você tem que parar de achar que pode ser normal e agir normalmente. Você não é e nunca mais será porque gosta muito da atenção.
— O que quer dizer?
— Você entrou nessa escola numa espaçonave e está vestindo roupas mais caras que as mudanças que Ethan está fazendo aqui. Não pode esperar passar como um ninguém. Nós não somos ninguéns e você devia agradecer por isso. Somos deuses, estamos acima de todos eles em quase todos os aspectos. Não podemos falar isso para todos porque é arrogante e prepotente, mas é a verdade que todos sabem. Eu toco piano e violino melhor que qualquer um aqui, você atua melhor e é mais carismático que qualquer um aqui e Ethan tem habilidade de liderar e fazer dinheiro melhor que qualquer um aqui! Essa é a verdade. Não tente mascará-la só porque você quer ser normal num momento e famoso em outro.
— Entendi, obrigado. Tenha um bom dia, Lore.
Ele revirou os olhos e entrou no prédio de sua série. Poderia chegar até a sala sozinho a partir dali. Nick podia não ter ouvido metade do que ele dissera, mas Lorenzo estava certo numa coisa: suas roupas chamavam muita atenção. Estava em traje formal. Parecia Ethan tentando se tornar amigo daqueles parlamentares conservadores. Diabos, ele poderia se casar com aquela roupa e ninguém reclamaria!
Alguém tocou seu ombro. Pensou que era mais uma garota pedindo autógrafos, mas era um menino. Tinha um sorriso bonito, olhos muito azuis e cabelo muito escuro e a altura de Ethan. Nick já o tinha visto em algum lugar.
— Olá, Nicholas — ele disse alegremente. — Como vai você? — Sim, Nick definitivamente já o tinha visto em algum lugar. Não respondeu, ficou com as sobrancelhas franzidas olhando fixamente para ele esperando pacientemente a resposta vir à sua cabeça. — Não faz ideia de quem eu seja, não é?
Nick balançou a cabeça.
— Harry. — O nome não ajudou. Nick sempre fora péssimo em decorar nomes. Harry franziu as sobrancelhas. — Harry Beauchamp. — Ainda nada. — Nós convivemos juntos todos os dias durante cinco meses esse ano. — Uma reminiscência, talvez… — Pelo amor de Deus, você me fez ter uma ereção em frente a toda uma equipe de filmagem!
— Ah! — Nick sorriu. — Você é o Príncipe Seraphin. Desculpe-me, mas eu não me tornei parte da grande equipe de Lympharia. Não percebeu que eu nunca desejei feliz aniversário a nenhum dos atores? Não decorei o nome deles, afinal. Mas eu sempre me lembro daqueles que eu fiz ter ereções. Que faz aqui, em meus domínios? Quer um autógrafo?
Harry parecia realmente furioso e envergonhado de ter levantado aquele assunto à tona. Ele insistia ser heterossexual, mas metade dos atores de Lympharia estava bastante longe da linha da heterossexualidade e ninguém sabia de nada porque no show-business as coisas funcionavam daquele jeito. Ethan havia dado dois milhões e meio de dólares àquele adolescente e ele certamente iria querer deslanchar a carreira de ator. E pensar que tinha apenas dezesseis anos.
— Meu irmão menor estuda nessa escola — Harry respondeu. — Por que você tem sempre que agir como se fosse superior a todo mundo?
— Ora, porque eu sou — respondeu alegremente. — Sou o segundo garoto mais rico da cidade. Meu irmão é o primeiro e é o patrão de todos vocês. Meu outro irmão menor é o melhor violinista do mundo e é um gênio precoce. Sou o garoto mais bonito, amado e famoso do país. E agora que atingi a idade de consentimento sexual todos os adultos querem me levar para a cama também.
— Isso não quer dizer nada.
— Quer sim, assim como sua ereção quis dizer alguma coisa.
Ele ficou vermelho e irritado de novo.
— Eu não tive culpa. Nós estávamos despidos e você estava em cima de mim e… — Harry se perdeu a partir daí porque Nick se aproximou bastante dele e deixou seus rostos a três ou quatro centímetros de distância. — Acho até que aquilo foi ilegal.
— Eu ainda espero ansiosamente o dia em que você vai se assumir. Isso não vai impedir sua carreira promissora, seu imbecil. Olhe para mim. Recebo mais ofertas do que posso contar.
Nick não o deixou falar nada porque segurou um punhado de seus cabelos negros da nuca com uma mão e puxou sua cintura com a outra, selando seus lábios antes de enfiar a língua na boca dele. Harry tentou se afastar, ele realmente tentou se afastar com violência, mas Nick era como um carrapato quando queria beijar alguém. Estava acostumado a fazer aquilo com Ethan e Harry e ele tinham o mesmo porte.
Quando finalmente o permitiu se separar, observou-o dramaticamente cuspir no chão e olhar se não havia ninguém em volta. Estavam no meio de um monte de árvores que até semana passada não estavam ali. Era como se a influência dos Hentz estivesse brotando do chão. Seria uma boa analogia.
— Harry, eu vou voltar para o meu carro agora — Nick disse tranquilamente. — Então vou dirigir até o Palácio Real Hentz, vou subir pelo elevador privativo, vou atravessar aqueles corredores vazios e gigantes até o meu quarto vazio e gigante à prova de som e me jogar na minha cama king-size. Você tem cinco minutos para decidir se quer vir comigo ou não. Meu carro é o mais caro que você vai encontrar no estacionamento. Procure aquele que parece ter saído de um filme de Star Wars.
Nick enfiou as mãos nos bolsos e caminhou de volta para o estacionamento, ignorando os olhares dos outros sobre si. Provavelmente seu diálogo com suas fãs estaria na internet em poucas horas e diriam que fora grosseiro com elas. Até que fora. Mas quem se importava quando se estava prestes a dormir com Harry Beauchamp?
Acomodou-se em seu confortável carro por alguns minutos, jogou a cabeça para trás e fechou os olhos. Abriu-os novamente quando ouviu a porta do passageiro sendo aberta.
— Não acredito que estou fazendo isso — Harry murmurou mais para si mesmo que para Nick. — Acelere esse maldito carro de uma vez.
Ethan o havia proibido de ultrapassar o limite de velocidade das ruas, fossem elas quais fossem. Dissera que se Nick ultrapassasse, ficaria sem poder usar o carro o tanto de dias equivalentes ao número de quilômetros por hora que havia ultrapassado. Nick não era muito bom em contas e não havia entendido direito, mas sabia que seria ruim, por isso cumpriria.
— Eu só estou indo porque quero ver as obras de arte da sua casa. Só por isso.
— Harry, cale essa boca. Minha casa é um museu, você pode ver as obras de arte enquanto caminhamos até o meu quarto.
— Ninguém nos verá?
— Só os fantasmas do meu passado.
— Que passado? Você tem dezesseis anos.
— E já passei por mais coisa que a maioria dos adultos comuns e medíocres.
Ele provavelmente achava que estava sendo arrogante de novo, mas não era verdade. Nick estava sendo absolutamente sincero. A maioria das pessoas não passava por tantos traumas como os quais passou e continuava sã. Não ia mais à psicóloga porque seu tempo obrigatório acabara, uma vez que deixara de ser considerado potencialmente suicida, e também quase nunca mais bebia, tanto porque Ethan o proibia quanto porque Nick perdia o controle quando isso acontecia. Além disso, disseram-no que tinha uma grande possibilidade de se tornar alcoólatra. Provavelmente devia voltar à sua psicóloga Ellis. A única coisa sobre ele que ela não sabia era que tinha um caso com Ethan e que Ethan matara Lafferty, embora isso tenha acontecido após o término das sessões. De resto, sabia tudo, inclusive a triste verdade que Louis Stuart insistira em trazer de volta semanas atrás. Devia ser terrível saber tudo aquilo sobre alguém tão famoso e ser eticamente proibida de contar a alguém.
— Você me parece ter muito mais no seu interior do que no seu exterior. Gostaria de saber o que você pensa quando fica todo esse tempo calado.
— Eu penso que você deveria ficar calado ou vou entrar no estacionamento normal do Palácio e todos vão ver que você está comigo. Vou aproveitar e perguntar bem alto quando entrarmos no prédio se você quer ou não quer usar camisi…
— Oh, está bem, está bem! Agora entendo por que nunca conversava com ninguém no set de filmagens. Você é insuportável.
— É isso aí. Meus irmãos só me suportam porque são obrigados. E porque eu sou obscenamente bonito e o único louro da família Hentz.
Harry aparentemente desistiu de argumentar com ele depois disso, pois finalmente se calou. Dentro seus muitos defeitos e qualidades, Nick conseguia irritar qualquer pessoa o suficiente para fazê-la parar de tentar conversar com ele, mas não o suficiente que pudesse odiá-lo ou impedi-lo de tentar uma reaproximação mais tarde.
— Uau — ele sussurrou enquanto a torre mais alta de Southeria se erguia bem a sua frente. Sem contar com a antena de transmissão, o Palácio Real Hentz tinha cerca de trezentos metros de altura, com noventa e cinco andares, sendo que a casa de Nicholas e o escritório de Ethan ocupavam os três mais altos. Foi isso o que Nick informou a Harry, como se fosse um guia turístico. Ele não percebeu que estava tirando com sua cara. — É incrível.
Desceu com o carro pelas entranhas da terra até o estacionamento subterrâneo e foi em direção ao elevador particular. Harry observou com fascínio Nicholas colocar seu polegar no scanner vermelho que então tornou-se verde-claro. O elevador começou a subir vagarosamente, o que não era para menos uma vez que ele tinha o tamanho de um quarto.
— Como ele precisou levar móveis valiosos lá para cima, na reforma, mandou fazer esse elevador o maior possível — comentou com o garoto de olhos azuis que o fitava. — Se você se pergunta, esse prédio custou-lhe trezentos milhões de dólares e a reforma e os reparos custaram mais vinte e cinco milhões.
— Eu na verdade estava admirando seu brinco.
Nick instintivamente tocou no brinco de ouro e safira que adornava sua orelha esquerda, o último resquício de seu tempo de rebeldia dos quinze anos. Era uma pena que havia tirado os piercings do lábio e da narina. As aberturas já haviam se fechado.
As portas do nonagésimo quarto andar abriram-se numa sala de descanso dourada e bem-decorada. Harry ficou de olhos arregalados com cada móvel folheado a ouro que havia ali, de modo que Nick teve que puxá-lo pela mão pelo labirinto de quartos vazios e inúteis que tinha de passar para chegar a seu fabuloso quarto. Após muitos corredores, finalmente chegaram. O piso de mármore estava tão encerado que era possível ver seus reflexos nele. Todos os equipamentos eletrônicos estavam na mais perfeita ordem, assim como a estante de prêmios de Doreah Lemnsack e dos livros escritos pelos homens Hentz. A cama estava forrada e arrumada com lençóis e colchas de seda egípcia.
Nick pegou um pequeno controle de cima de uma mesa de centro — sim, tinha uma mesa de centro no próprio quarto, assim como sofás e poltronas —, e apertou alguns comandos. Todas as cortinas das janelas e das portas da varanda se fecharam sozinhas, escurecendo o ambiente, e no mesmo instante luzes douradas acenderam-se por toda parte. A lareira de mármore branco falsa começou a produzir fogo falso — era apenas uma projeção holográfica com aquele gostoso som de crepitar — e a soltar calor artificial, e uma música suave ecoou das caixas de som presas em lugares estratégicos do teto. A temperatura estava regulada para um clima frio e agradável. Ethan realmente sabia contratar empregados: a equipe de limpeza daquele prédio era praticamente invisível e extremamente eficiente. Nick se dirigiu a um canto do quarto, onde havia um belíssimo armário de bebidas de madeira onde só havia algumas poucas garrafas.
— Ethan só me deixa beber champanhe, e mesmo assim checa as garrafas todos os dias para analisar o quanto eu bebi. Se julga que é demais, ele leva as garrafas embora. Todas as janelas são construídas de modo que possamos ver o que acontece lá fora, mas que seja impossível ver o que acontece aqui dentro, mas isso não é bem necessário porque estamos a quase trezentos metros do chão. De qualquer forma, elas também são à prova de artilharia pesada como lança-foguetes, assim como a porta de entrada e as da varanda. Não se preocupe, entretanto. Não acho que ninguém iria se esforçar tanto para explodir o pobre Nicholas Hentz. Esse quarto é um cofre-forte. Vamos, tire a roupa.
— Dê-me a champanhe primeiro.
Nick encheu duas taças e entregou uma para ele. Bebeu a sua de uma vez sem nem sentir o gosto, depois guardou a garrafa novamente. Era uma champanhe cara, mas achava que valia a pena.
— Harry.
— Espera… eu ainda estou bebendo.
— Não está. Não lembro os nomes das pessoas, mas eu adoro fofocas e quase nunca as esqueço. Eu sei que você tem diabetes. Você não vai beber isso, está procrastinando.
— Também não posso deixar você beber. Você disse…
— Então jogue no vaso de plantas, eu não me importo. Não me faça perder meu tempo ansiando por algo que não vai acontecer. Tire a roupa ou caia fora da minha casa.
— Sabe, por baixo dessa carranca, sarcasmo e mau-humor eu tenho certeza que existe um garoto adorável e amoroso esperando para sair.
— Uma vez existiu, mas o coração desse garoto adorável e amoroso foi arrancado do peito dele e esmagado no chão, e então pisoteado tantas vezes que não sobrou mais nada para contar história. Esse garoto não está esperando para sair. Ele está escondido em seu quarto, sob lençóis e com a luz apagada, com medo dos monstros de debaixo da cama que vão devorá-lo. Ele não quer sair, Harry Beauchamp, e se algum dia chegar a fazer isso não vai ser por sua causa. Você quer ser ator ou psicólogo? Agora tire a roupa.
A piedade e condescendência presentes na expressão dele eram quase insuportáveis. Nick sentiu vontade de lhe dar um soco, mas não conseguia culpá-lo realmente. Qualquer pessoa de fora que o ouvisse falar por cinco minutos o classificaria com sérios problemas emocionais. Não deixava de ser verdade, mas aquela não era a forma certa de lidar com aquilo.
— Aliás — Nick continuou — estou mais perto de ter vinte anos do que de ter dez. Isso não está certo. Estou completamente ultrapassado. A indústria do entretenimento vai logo me jogar no lixo. Já sei. Vou fazer meu irmão comprar Hollywood.
Antes que Harry pudesse falar alguma coisa, Nicholas segurou-lhe pelos ombros e o beijou calmamente. Ele hesitou, mas acabou aceitando enfiar a língua em sua boca. Era da exata altura de Ethan, de modo que naturalmente envolveu sua cintura com os braços, assim como Ethan fazia. Nick envolveu seu pescoço e ronronou suavemente. Ethan se excitava com aquelas coisas, então Harry poderia se excitar também. Quem lá sabia o que garotos de cabelos pretos pensavam?
Pelo visto deu certo. Harry lentamente desceu suas mãos até as nádegas de Nick e as apertou. O loiro gemeu, desviando-se de seus lábios para seu pescoço, tomando cuidado para chupar a pele sem deixar marcas. Ser uma vadia há tanto tempo tinha lá suas vantagens, afinal. Aprendera a fazer aquilo estando num cargo onde garotos não assumidos que precisavam ser discretos não eram uma anormalidade.
Mas Harry ainda estava claramente hesitante em continuar. Nick separou-se dele alguns centímetros e então fitou seus lindos olhos azuis. Sorriu.
— Harry, depois que eu e você terminarmos, eu prometo chamar pelo menos duas garotas para fazerem você feliz, está bem?
Voltou a beijá-lo com vontade, e dessa vez quando tentou empurrá-lo contra a cama ele se deixou levar. Nick mordeu e beijou a carne tenra de seu pescoço branco enquanto ele tirava a camisa, mostrando o peito levemente definido e completamente liso.
— Viu só, eu não sou uma pessoa tão ruim — comentou engatinhando na cama para perto dele. Beijou-o novamente. — Pelo menos não tão ruim quanto você é estúpido. Parou de hesitar quando eu prometi lhe conseguir prostitutas. Eu sei que é bastante comum que nesse ramo em que nós dois estamos as pessoas façam favores sexuais às outras, mas o mais comum é que as duas partes saibam disso. Ser heterossexual e tentar dormir com o irmão do seu patrão para ter seu contrato estendido é uma péssima ideia. Tentar enganar Nicholas Hentz é uma péssima ideia. Tentar enganar um Hentz é uma péssima ideia. Não se preocupe, meu irmão vai com certeza ficar sabendo disso. É melhor começar a procurar algumas ofertas em produtoras concorrentes, Harry. Agora se vista e suma da minha vista antes que eu mesmo mande expulsá-lo daqui.
Ethan Lemnsack estava lidando com uma situação extremamente séria. Uma situação extremamente séria e uma terrível dor que sentia pouco acima da cintura. Acreditava que essa dor estava ligada com a falta de apetite e com a febre baixa que andava tendo, e talvez com o episódio de vômito da noite anterior. Preferia acreditar que havia sido causado pelo uísque que tomara, mas foram apenas alguns poucos goles. E como não estava tendo nenhum sonho perturbador com uma criatura pálida de olhos azuis perguntando-lhe quem era, também não era psicossomático. Não havia como ser, de qualquer jeito.
Nada disso importava, é claro, pois Ethan havia acabado de assistir à cena mais horrenda que já vira em toda a sua vida. O pacote que recebera pelo correio após o telefonema de uma semana atrás continha um DVD com um único arquivo em formato de vídeo, tudo encriptado. A senha fora enviada para seu e-mail particular. O vídeo era em preto e branco e tinha números e datas rolando pelos cantos da tela. Era de uma câmera de segurança, é claro.
A clareza com a qual a câmera filmara tudo era cruel. Estava posicionada no exato ponto da rua em que… em que tudo acontecera. A algumas centenas de metros do restaurante Jagger’s Voice, quando aquelas oito pessoas violentaram e assassinaram Oliver Castanelli e puseram Ethan num coma de três semanas. Nicholas não aparecia ali. Devia estar muito atrás, longe de seu alcance.
Ali, naquele dia 3 de agosto de 2014, no topo de seu escritório do Palácio Real Hentz, a vinte e três dias do aniversário de um ano do que viria a um dia ser a maior corporação da Terra, Ethan foi forçado a assistir a tudo novamente. As lembranças que tinha em mente eram apagadas, confusas e embaralhadas, cheias de furos e falta de informações. Lembrava-se com clareza apenas de um belíssimo par de olhos anil, enormes, molhados e cheios de tristeza. Sabia qual havia sido a última palavra que Oliver lançara para ele quando, exausto e estuprado, com lesões em todo o seu rosto de mármore perfeito, foi forçado a olhá-lo uma última vez antes de Peter Marahana ter lhe entregado aquela faca e ordenado-lhe que cortasse a garganta, ou ele atiraria na cabeça de Ethan. Aquela era a coisa mais revoltante. Ollie havia se matado para que Ethan não morresse.
No entanto, nem sempre as coisas são o que deviam ser. Ethan fora obrigado a fazer justiça com as próprias mãos quando descobriu através de Nick que as Pessoas estavam vivas e livres para estuprar e matar quem quisessem. Acabara com isso dois anos atrás e pensara que as coisas já estavam bem do jeito que estavam, pensara que sabia de tudo e que tudo estava acabado. Mas não… Ethan recebera uma ligação de uma companhia de assassinos disfarçada de investidora dizendo que havia outro serviço.
E a verdade era que havia. Uma vez que Ollie cortou suas carótidas num terrível sorriso sangrento, os oito fizeram o resto do trabalho em Ethan enquanto ele sangrava como uma fonte, jorrando sangue escuro e espesso descontroladamente. Totalmente imóvel, parecia uma estátua. As Pessoas então se afastaram cuspindo e chutando em Ethan.
Quando pensara que toda a cena de horror finalmente acabara e que só restava a polícia chegar e mandar um corpo ao hospital e outro ao necrotério, houve uma súbita mudança no monotonismo preto e branco da câmera, animalesca e insensível. Uma pessoa se aproximou. Um rapaz, jovem, talvez não mais que dezoito anos na época, o que significava que tinha vinte e dois ou vinte e três no presente momento. O rapaz caminhou calmamente para o meio daquela larga e vazia rua, para o meio dos corpos adolescentes molestados e sanguinolentos. Tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu um. Tornou-se óbvio que estivera assistindo ao espetáculo bestial durante todo o momento.
Ele se ajoelhou para Oliver e falou-lhe alguma coisa. Foi então que o corpo inerte dele se mexeu fracamente e agarrou a própria garganta numa tentativa de estancar o sangue. Ethan tinha poucos conhecimentos de anatomia, mas a poça já estava tão grande que acreditava ser impossível que ele ainda estivesse vivendo, se mexendo ou respondendo ao rapaz. Mas estava. Ollie estava ali, deitado, agarrando a garganta fracamente, mas o mais forte que conseguia. Ele não conseguia falar, mas pareceu gesticular em resposta ao rapaz.
Nesse momento, o rapaz, ignorando todos os cinco litros de sangue jorrados no chão, em Oliver, sua garganta mutilada e seus olhos azuis e lindos e cheios de morte, deitou-se em cima dele e fez a mesma coisa que as Pessoas. Ethan não conseguiu olhá-lo estuprando aquele corpo semimorto, mas cerca de cinco minutos depois tudo acabou quando, com a faca, o rapaz terminou o trabalho que ele havia começado em sua garganta. Foi aí então, e só aí, que Oliver Castanelli finalmente deu o seu último suspiro.
O rapaz levantou-se e caminhou para longe dali.
Ethan não acreditava que um ser humano pudesse ser tão monstruoso, tão imensamente repleto de crueldade, insensibilidade, psicopatia e mesquinhez. Levantou-se e olhou a si mesmo no espelho de moldura antiga que mantinha pendurado ali no escritório. Estava muito pálido e com uma camada fina de suor na testa, mas não importava. Porque sabia sim que havia um ser humano que saberia ser tão cruel quanto o rapaz se quisesse.
Naturalmente, poderia muito bem confirmar que o Sr. Goldberg gostaria de analisar a proposta de venda da editora White Castle, mas havia um problema… o problema é que o rapaz se chamava Devon Lancaster. Sua mãe, Melinda Lancaster, era Governadora de Northeria, o mais rico e poderoso condado do país e, como se não bastasse, era também herdeira de uma fortuna multimilionária montada encima de indústrias de armamentos e provinha de uma proeminente família de políticos. Constava entre as primeiras quinze pessoas mais poderosas do mundo. Havia pelo menos dois Lancaster nos ministérios da Califórnia e três no Parlamento, além de senadores e congressistas americanos. Em outras palavras, matar Devon Lancaster seria tão fácil quanto matar o Presidente dos Estados Unidos. Um assassinato a sangue-frio resultaria numa investigação de anos e anos a fio que jamais pararia até que encontrassem o culpado. E, uma hora ou outra, chegariam a Ethan.
O telefone tocou. Uma voz feminina e robótica falou do outro lado:
— Sr. Goldberg?
— O Sr. Goldberg não se encontra, mas ele gostaria de mais detalhes sobre como seria efetuada a compra da White Castle. Me parece ser algo extremamente delicado.
— Com toda a certeza, senhor. Informe ao Sr. Goldberg que a compra seria feita com a máxima discrição, de forma que nenhum dos concorrentes da White Castle tomem medidas preventivas exageradas e extraordinárias para se protegerem da empresa sob nova direção. De forma similar, os clientes atuais da White Castle continuariam fiéis e sutis, tomando apenas as medidas formais em relação à sua nova direção.
Em outras palavras, estavam prometendo que fariam parecer um acidente.
— Quatro milhões de dólares, você disse?
— Lamentamos informar que o ofertador subiu a proposta, o Sr. Goldberg certamente entenderá. É um raro achado.
— O Sr. Goldberg está realmente interessado na White Castle. Pede para avisar-lhes que têm um cheque em branco para comprarem o que têm que comprar. Podem enviar a conta mais tarde. Ele confia, entretanto e obviamente, que não terá que lidar com nenhuma despesa exorbitante e extravagante. Tudo dentro do necessário. Digamos… cerca de vinte e cinco milhões de dólares?
— É perfeitamente compreensível, senhor. A compra será efetuada. O avisaremos dos procedimentos legais quando chegar a hora. Tenha um bom dia.
Ethan desligou o telefone suando e então o estraçalhou na parede, exatamente como na última vez, com o último telefone. Porém, quando se inclinou para recolher os restos, deu um grito. A dor em seu ventre havia explodido numa cegueira insuportável, em ondas espasmódicas de pura agonia. Jules du Pont logo, logo apareceu no escritório. Ethan esquecera-se que ele estivera esperando do lado de fora enquanto terminava aquele telefonema.
— Agora chega — ele falou autoritariamente, sem nenhum resquício da submissão que Ethan amava. — Você vai ao hospital.
Já que o Presidente do Mundo não podia aparecer no jogo de futebol de seu irmãozinho de onze anos, Nicholas Hentz salvaria o dia e faria isso. Parecia absurdo que Lorenzo estivesse jogando futebol sendo cego, mas ele era o goleiro. Não surpreendentemente, conseguia saber exatamente de onde a bola vinha e, quase sempre, pegá-la. Não acertava todas porque era muito pequeno, mas o que fazia era suficiente. Lore dizia às pessoas que sabia de onde a bola vinha porque ouvia o som do ar se movendo ao redor dela, o que era uma grande mentira. Ele sabia porque as Sombras o ajudavam, como sempre.
Mas naquele dia em especial parecia estar tendo dificuldades. O placar estava quase igual para os dois times; Lore deixava escapar bolas fáceis e só pegava as mais difíceis, que era quando estava mais concentrado e excitado; ficava esfregando os olhos o tempo todo e então os apertava, como se estivesse tentando enxergar melhor; e além disso parecia se incomodar com os aplausos e gritos da arquibancada.
Michael Forbes, do time adversário, correu de onde estava com a bola nos pés em direção à outra metade do campo. Aquele merdinha corria como o vento e só havia uma pessoa em todo o quinto ano que conseguia pegá-lo, que era justamente Henry Beauchamp, melhor amigo de Lorenzo e coincidente e infelizmente irmão menor de Harry Beauchamp. Harry também estava ali, do outro lado da arquibancada, torcendo pelo irmão.
Os placares estavam idênticos e faltava poucos segundos para o jogo acabar. Henry se jogou em cima de Michael e não foi para pará-lo. Admirado, Nick observou os dois meninos se chocarem violentamente. Era uma técnica que já havia usado várias vezes e que sempre dera certo. Observou então ela funcionar lá em baixo com aqueles meninos de onze anos. Irritado demais com a petulância de Henry, Michael se voltou para agredi-lo, ao passo que Henry retribuiu. Os dois receberam cartões vermelhos. Sim, a técnica de fazer o melhor jogador do time adversário ser expulso sacrificando sua própria participação havia funcionado. Nick só a usava quando perdia o interesse pelo jogo e sentia vontade de ir embora. Era bem simples.
Mas Henry ficou ali para observar os últimos segundos. A bola surgiu de um lado e foi para o outro, então de novo para sua origem e novamente para o campo oposto. Austin Gedders, do time adversário, estava com ela nos pés, deslizando como uma cobra pelos outros meninos já fatigados. Finalmente encontrou-se em frente à trave, protegida apenas pelas mãos vacilantes de um garoto pálido e cego. Nick se levantou, preocupado com o espaço mínimo de dois metros entre Austin e Lorenzo. Era difícil de acreditar, mas Austin era mais alto que Ethan, enquanto Lore era mais baixo que Nick.
— Lorenzo! — Nick berrou. Algo explodiu dentro de sua cabeça, um medo repentino, um pavor inominável. Deixar aquele troglodita chutar uma bola na cara de Lorenzo de alguma forma não parecia ser boa coisa. — Não! Deixe a bola passar! Pelo amor de Deus!
Mas faltavam apenas cinco segundos para o final do jogo. Se Lore segurasse aquela, terminaria em empate. Se deixasse passar, perderiam por culpa dele. Mas é claro que ele não podia desistir, mesmo que isso significasse receber uma bala de canhão no corpo. Lorenzo mal teve tempo de colocar as mãos na frente do rosto quando a bola o acertou na cabeça. As leis da física funcionaram ali: a bola quicou de volta e Lore foi atirado para trás.
Nick pensou que seu coração deixaria de bater. O jogo acabara. Terminaram empatados.
Sem se importar com futilidades, pulou da arquibancada para o chão como um relâmpago e invadiu o campo de futebol. Os meninos do time de Lore se amontoavam em volta dele, de modo que Nick teve que berrar para que abrissem espaço para ele. Lorenzo estava deitado no chão, desacordado, miúdo como um bebê. Delicadamente, Nicholas procurou sangue em alguma parte de seu corpo, de preferência na cabeça. Não havia nada. Estava tudo seco. Não que fosse muito melhor. Ele ainda estava desacordado.
Lentamente, seu corpo pequeno foi endurecendo e ele abriu os olhos cinzentos e assustadores. A princípio, perguntou-se onde estava. Nick tentou responder-lhe com voz calma, mas esta saiu estridente e emotiva. Ethan poderia fazer aquilo melhor. Ethan poderia segurar-lhe nos braços, dizer-lhe que tudo ficaria bem e que não precisaria se preocupar com nada com aquela sua voz sedosa e maravilhosa que encantava qualquer um, que os fazia acreditar nele. Era dele que Lorenzo precisava… não de Nicholas.
— Por que você está chorando? — Lore perguntou. Nick notou que era para ele porque sim, estava realmente chorando. Balançou a cabeça e encostou um copo d’água em seus lábios. Lorenzo bebeu um pouco e tentou se levantar, ainda zonzo. Naquele momento, Nick soube que não deveria deixá-lo fazer aquilo. — Nós empatamos?
— Sim, empataram. Você vai ficar aqui — sussurrou para que não parecesse tão desesperado quanto estava. — Eu vou ligar para a emergência e pedir uma ambulância. Então ligarei para Ethan e falarei o que aconteceu. É assim que eu tenho que fazer. É assim que Ethan faria. Ele tem medo de hospital, mas adora mandar todo mundo pra lá.
— Não quero ir ao hospital. Da última vez que você foi ficou meses lá.
— Mas é porque eu tentei me matar, como todo adolescente. Não importa, tudo ficará bem. Só quero ter a certeza disso.
Poucos minutos antes de a ambulância chegar, Nick recebeu uma ligação de um número desconhecido. A pessoa do outro lado acabou por se revelar tendo um enjoado sotaque francês. Em honra aos velhos tempos de St. Nicholas em que gostava de Jules du Pont e até o beijava, tentou manter-se elegante.
— O que é?
— Olá, queria te informar que seu irmão está no hospital.
— Ethan é realmente incrível. Como ele ficou sabendo sobre Lorenzo?
— Sobre… Lorenzo?
Nick notou que ele estava confuso. A ficha caiu aos poucos.
— Espera, Ethan está no hospital? — Levantou-se de onde estava, subitamente alarmado, desesperado, ofegante. — Por quê? O que houve?
— Ele está com apendicite. Sabe, inflamação do apêndice. Tem que retirá-lo.
— Ah… bom, não é tão ruim, não é? — Pensou ter soado levemente histérico. Sentia-se sozinho, completamente isolado numa ilha do tamanho de uma moeda no meio de um oceano de angústias. — Lorenzo levou um tombo no jogo de futebol. Está um pouco zonzo. Vou levá-lo ao hospital também.
— Grandes notícias, não é? — Jules parecia abalado. Nick parou para pensar que talvez ele sentisse algo mais por Ethan além de admiração e desejo sexual, como seria de praxe. Era isso que mais temia. Por isso tentara se livrar dele. Não era justo. Nick se livrara de Spring. Por que Ethan não podia se livrar de Jules? — Estamos no Grace Land Hospital. Esse é o nome antigo porque esse hospital foi engolido pelo Centro Médico Hentz, então agora é Middleland Hentz Hospital, mas se você falar esse nome ninguém vai reconhecer. Venha logo. Está meio insuportável aqui. Estão tratando Ethan como um deus.
Como sempre, pensou desligando o telefone. Deus, como sou idiota. Qual era seu problema? Por que se dava o direito de estar tão desesperado num momento, temendo pela vida do irmão, e no segundo xingá-lo mentalmente? Ethan não tinha culpa de ser ocupado. Ele só queria alguma coisa para fazer da vida, algo para ocupá-lo e, futuramente, ocupar seus descendentes. E não é como se nunca desse atenção aos irmãos… e quando viajaram os três ao leste da Ásia mês passado, mesmo que ele e Nick não estivessem se falando? Nick ficara traumatizado com o que os japoneses chamavam de pornografia, mas isso não vinha ao caso. O problema era que estava dando razão demais ao próprio orgulho e egoísmo e esquecendo que não havia mais meio de manipular Ethan através de seus sentimentos porque ele amadurecera, crescera e deixara de ser um adolescente. Era agora um homem. Um adulto.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Aliás, estava prestes a fazer uma cirurgia… e Deus sabia o quanto ele detestava hospitais. A última vez que estivera internado em um foi quando tivera um colapso nervoso, muitas e muitas vidas atrás.
— O que costumaria ser a cirurgia mais comum e rotineira do mundo não será mais, uma vez que você protelou sua ida ao hospital e seu apêndice simplesmente explodiu.
Ethan gostava do jeito que sua médica falava. Tentara dissuadi-la da ideia de operá-lo, uma vez que a Dra. Lindsay Carmell era a Chefe de Cirurgia daquele hospital e deveria ocupar-se com pacientes piores que ele, que tinha, como ela bem dissera, o problema mais comum do mundo. Mas não adiantara. Era estranho pensar que, tecnicamente, era chefe supremo dela e de todos os funcionários daquele hospital. Não devia usar a palavra supremo, mas descobrira há um tempo que a amava.
A Dra. Carmell tinha pouco menos de sessenta anos, mas era energética e pouco enrugada. Tinha uma grande massa de cabelos ruivo-alaranjados amarrada por trás da cabeça num coque e um daqueles famosos jalecos brancos de hospital com milhares de bolsos. Dera analgésicos a Ethan para suportar a dor e dissera que a cirurgia seria marcada para aquele mesmo dia, no final da tarde.
Jules estava com ele, bem ao seu lado, o tempo todo, inclusive na ambulância. Segurara sua mão para suportar a dor até que os analgésicos chegassem e enxugara o suor de sua testa com delicadeza quando Ethan pensou que fosse morrer. Queria beijá-lo, queria agarrar seus cabelos louros apaixonadamente e colar seus lábios nos dele. Queria fazer amor com aquele garoto e pedir-lhe que acariciasse seu cabelo todas as noites. Não importava a situação em que se encontrassem, Jules du Pont mexia com as emoções de Ethan em todos os momentos e sentidos. Era por isso que decidira que, após a cirurgia, deixaria os flertes de lado e começaria a jogar sério com ele. Começaria como foi com Robb. Namorando.
Nick surgiu no quarto nesse momento, em lindas roupas europeias, descabelado e meio histérico. Seus olhos moviam-se rapidamente, seus movimentos eram energéticos e frustrantes. Ele não conseguiu ouvir nada do que Ethan dissera até que bebesse água com açúcar e se sentasse ao lado da cama dele, segurando sua mão firmemente. Olhou para Jules com olhos negros e furiosos.
— Saia. Quero ficar sozinho com ele.
Jules olhou calmamente para Ethan, que assentiu. Quando ficaram os dois a sós, Nick lançou-se num beijo molhado e irritadiço, quase violento. Ethan passou as mãos por seu delicioso corpo adolescente, de cima até em baixo, desejando poder deitar-se com ele naquele momento. Mas era impossível, é claro.
— Seu idiota — Nick choramingou, tentando não lacrimejar. — Por que não foi ao hospital quando sabia que deveria ter ido? Agora a cirurgia será mais perigosa e demorada. A recuperação também. Se ousar trabalhar quando deveria estar descansando, juro por Deus que vou jogar minha parte das ações da Anhert na Bolsa de Valores.
— Pelo amor de Deus, não faça isso. — Ethan beijou-lhe apaixonadamente de novo, mas então se afastou. Ultimamente vinha tendo muito mais facilidade em fazer isso. Quando os irmãos começaram seu relacionamento secreto e incestuoso, Nicholas era tudo em que Ethan conseguia pensar. Fosse fazer amor ou apenas conversar com ele, tudo parecia bem. Mas as coisas mudavam e nada durava para sempre. — Quero conversar com você sobre uma coisa. Sobre Jules.
— Ah, sim. Por que ele está aqui?
— Nicholas, estou falando com você não como seu amante ou como seu chefe, mas sim como seu irmão mais velho. Você deve parar com isso. Pare de pôr a culpa em Jules du Pont. Pare de ver seu passado nele. Ou melhor, sei que você não tem como, então simplesmente pare de se incomodar com isso. Foi o que eu fiz. Eu quero que você pare de fazer isso porque eu estou apaixonado por Jules e não vou admitir que você de alguma forma o ofenda ou o insulte porque não consegue arrumar coragem o suficiente para amadurecer.
Nick ficou ouvindo tudo com absolutamente nenhuma expressão.
— Assim como sempre protegi e protejo você e Lorenzo, eu vou protegê-lo também. Você bem deve saber que a mãe dele está falida. Quando a cirurgia acabar e eu me recuperar, vou perguntar a Jules du Pont se ele quer ser meu namorado. Ele naturalmente dirá que sim, e quando isso acontecer se tornará parte da nossa família, você queira ou não. E eu também vou precisar do Anel da Matriarca.
Instintivamente, ele manuseou o inestimável diamante em seu dedo anelar.
— Quando você vai pedi-lo em casamento? — perguntou com uma suavidade que Ethan sabia ser venenosa e perigosa. Ele chegara ao ponto mais rápido do que teria gostado.
— Em breve, creio que em até um ano eu farei isso. É uma boa forma de juntar duas famílias antigas e ricas. Hentz e du Pont. De trazer os laços franceses perdidos dos Hentz e de aproximar Jules e Seraphine do ramo principal dos du Pont, aquele mesmo ramo dono de uma empresa que vale trinta bilhões de dólares. É um contrato de negócios e também amoroso. Não há motivo pelo qual eu não faça isso. E… quando eu fizer vinte anos de idade, eu pretendo contratar uma barriga de aluguel. Terei um filho.
— Não!
Nicholas se levantou da cadeira, cobrindo os ouvidos com as mãos. Ethan sentiu pena dele. Era muita coisa para se engolir de uma vez, mas era o único jeito de prepará-lo para aquilo. Eram seus planos de vida e eram maravilhosos. Mas, aos ouvidos de Nick, só se ouvia cunhado e sobrinho.
— Nicholas, pense bem no que você pode fazer com todo o dinheiro que dispõe. Você pode ir para Hollywood e se tornar um grande astro. Você é tão jovem e maravilhoso.
— E você ficará aqui em Hentzland? — ele indagou, de volta à histeria. — Mandará Lorenzo para alguma escola de artes na Itália e ficará aqui na maior mansão da Terra com seu marido e seu filho recém-nascido? Quer mesmo se livrar de mim de forma tão descarada?
— Venha cá.
Ele se aproximou relutantemente. Com dores, Ethan segurou seu rosto lindo com as duas mãos e sussurrou firmemente, olhando-o nos olhos.
— Eu nunca vou me livrar de você, Nicholas Hentz. Nós nunca vamos nos separar. Ir a Hollywood foi só uma sugestão. Se você quiser morar em Hentzland conosco, more em Hentzland conosco. Podemos ficar lado a lado pelo resto de nossas vidas. Mas a verdade é que você terá um cunhado e um sobrinho na sua vida. Nicholas, o que nós dois tivemos nesses últimos dois anos foi absolutamente lindo e perfeito, mas a verdade é que não podemos continuar assim. Nosso incesto deve parar. Nosso caso deve acabar. Eu tenho que continuar minha vida, continuar a família Hentz, e você tem que crescer. Você tem que se casar com uma mulher ou com um homem e ter lindos filhos loiros, tem que ser uma celebridade mundialmente famosa e aproveitar o que você pode se oferecer. É isso que você quer. É quem você é, meu anjo loiro de olhos negros.
— Está terminando comigo?
— Eu o amo muito, Nick. O amo mais que a mim mesmo. Você é a razão da minha vida, de toda a minha existência, de tudo o que eu sou e o que eu faço. É por isso que sim. Estou terminando com você. Oh, não, não comece a chorar. Não haja como se o estivesse mandando embora. Nós ainda viveremos juntos para sempre. Nada vai nos separar. Assim como viemos, iremos embora… juntos. Só que juntos de outra forma. Nada dura para sempre, Nick. A verdade é que temos que aproveitar enquanto está ali, bem na nossa frente, porque uma vez que se vai não volta mais.
Nicholas chorava copiosamente na roupa de hospital de Ethan, em seus braços. Ethan não ousava soltá-lo ou falar mais nada. Acariciava seus cabelos lindos e loiros, tão dourados quanto o ouro, tão macios quanto seda, brilhantes como prata polida. Era a primeira vez em muitos anos que o abraçava e não sentia vontade de fazer amor com ele, o que devia ser um bom sinal. Realmente precisava crescer e iniciar uma nova fase, e Nick também. Uma vez que passasse no ACEM, estaria livre de todas as responsabilidades da vida, livre como seu espírito fora criado para ser, livre como assim tinha que ser.
Pausadamente e baixinho, começou a cantar:
Um leão para o pão trazer.
Dois leões para dar de comer.
Três leões para a água procurar.
Quatro leões para a sede saciar.
Cinco leões para os sonhos trazer.
Seis leões para viver e viver.
Sete leões para da alegria ressurgir.
Oito leões para teu amor sentir.
Nove leões para você amar.
Dez leões que amar-te-á.
— E eu te amarei para sempre. Você é meu eterno leão, Nick Hentz. É você. Só você.
Havia uma coisa interessante sobre a obstetra Vivienne King: ela tinha um caso raro de memória fotográfica. Seu caso era raro porque ela conseguia se lembrar de cada parto que um dia fizera, dos nomes dos bebês e dos nomes dos pais. Conseguia lembrar o hospital em que foram nascidos, as cidades e as datas exatas. Lembrava-se de quanto tempo as mães ficaram em trabalho de parto e de quanto gelo cada uma mastigou. Lembrava-se das enfermeiras que lhe atenderam, dos pais nervosos e preocupados perguntando-lhe se o parto saíra bem. Em milhares de partos, a maioria saía bem, mas alguns casos tristes resultavam na morte da mãe, do bebê ou dos dois. Algumas anomalias genéticas, Síndrome de Down, má-formação de membros e órgãos, encefalopatia. Abortos naturais ou não.
Mesmo com sua poderosa memória que funcionava como uma enciclopédia de mais de trinta anos de carreira, a Dra. Vivienne não precisara dela para lembrar-se de que fizera o parto de Ethan Barcarolli Lemnsack Hentz em Castellobranco, no dia 10 de junho de 1995. Ethan nascera às seis horas e quarenta e cinco minutos da noite após um difícil trabalho de parto de nove horas aguentado bravamente por Mary Alice Hentz, que mastigou dezenove pedras de gelo durante todo o processo. O hospital fora o Mercy Castle Hospital, a enfermeira chamava-se Victoria McBree. Charles Henry Lemnsack chegou apenas vinte e oito minutos antes de Ethan finalmente decidir sair do útero de sua mãe. Ethan nascera chorando, tinha três quilos e quatrocentas e setenta e cinco gramas e quarenta e sete centímetros. Seus olhos extremamente negros abriram-se logo. Já viera com um tufo de cabelos negros e lisos. Ethan tinha tipo sanguíneo B negativo e todo o peso do mundo nos ombros.
Antes de chegar o dia do parto de Nicholas Antonella Lemnsack Hentz, a Dra. King recebera um telefonema de Mary Alice Hentz em pessoa pedindo que estivesse presente na hora do parto. Às cinco horas e trinta e quatro minutos da manhã do dia 3 de junho de 1998, o Hospital Saint Roese deu as boas-vindas a um bebê de três quilos e trezentas e cinquenta e cinco gramas e quarenta e cinco centímetros. Dessa vez, o trabalho de parto durara apenas uma hora e meia e Mary Alice mastigara apenas sete pedras de gelo, assistida pela enfermeira Annie Bean. Nicholas demorou um pouco para começar a chorar, mas enfim isso aconteceu. Seus olhos também eram extremamente negros e penetrantes, o que é sinistro considerando-se que ele era um recém-nascido. Não possuía cabelo algum e seu sangue também era B negativo. Charles Lemnsack só chegou trinta e um minutos depois de ele nascer.
Foi por isso que quando entrou no Middleland Hentz Hospital para assistir da galeria a cirurgia extremamente simples de Ethan Lemnsack e fitou o garoto loiro e adorável que dizia ser Nicholas Hentz, notou que havia algo errado. Seus olhos eram magoados e bondosos, e apesar de serem escuros não eram iguais aos de Ethan. Não eram iguais aos do bebê que trouxera à luz dezesseis anos atrás. Fosse quem fosse, aquele Nicholas Hentz não era o que Mary Alice havia parido no Saint Roese.
Mas é claro que isso não era de sua conta. Só Deus sabia o que os ricos faziam, e agora a Sra. Hentz estava infelizmente falecida. Se a Dra. King fosse perguntada se imaginava que aquele bebê um dia viria a possuir uma das maiores corporações da Califórnia com apenas dezenove anos, riria. Mas era verdade. Aquele hospital inteiro pertencia a ele, todos os seus quarenta mil metros quadrados e tecnologia de ponta. Era por isso que Lindsay Carmell havia decidido fazer ela mesmo a cirurgia. Poderia ser sua passagem só de ida à direção do hospital.
A galeria era uma área retangular e envidraçada com vista para a sala de cirurgia, sendo que ficava no andar acima ao da sala. Os médicos assistiam às cirurgias de cima e havia um monitor de alta definição que mostrava de perto exatamente o que o cirurgião em questão estava fazendo no paciente. Vivienne observou atentamente Lindsay Carmell usar o bisturi para dilacerar a carne daquele que ela havia trazido à luz dezenove anos antes.
— Dra. King?
Ela virou-se para a porta da galeria e observou um interno aproximar-se. Ele estava pálido como um cadáver.
— É o resultado da tomografia realizada em Lorenzo Barcarolli. A Dra. Carmell pediu-me que pedisse que a doutora analisasse, se saíssem antes de ela terminar a cirurgia.
Apesar de ser obstetra, a Dra. King tinha um fraco por pediatria. Lorenzo tinha onze anos de idade e fazia aniversário no mesmo dia que Nicholas, era meio-irmão por parte de pai de Ethan… era só isso que sabia. Era frustrante. Seguiu até a sala de tomografia, que era dividida em duas partes, uma com a máquina em si e outra com os maravilhosos computadores que mostravam o resultado.
Se houve uma coisa que teve certeza quando olhou para aquele cérebro infantil foi que ninguém precisava ser uma cirurgiã com trinta anos de experiência para notar o absurdo. Até o técnico ficara perturbado.
— Que Deus tenha piedade do menino — murmurou consternada. — Isso tem o tamanho de uma bola de tênis. Está pressionando o córtex pré-motor, o córtex motor, o visual… Se ele não fosse cego de nascença, estaria cego. Me admira que tenha conseguido se levantar da cama de manhã. Me admira que ainda esteja andando.
— É operável? — perguntou o interno com olhos brilhando. Havia acabado de chegar.
— Se você quiser protagonizar uma lobotomia no paciente, claro que sim. No entanto, se não quiser, infelizmente não há o que fazer. Isso não é um tumor, é uma sentença de morte. O tombo que levou não foi tão ruim, afinal. Sem ele, nunca veríamos isso até que fosse tarde demais. Eu diria que, com alguma sorte, ele viverá até o final do ano. Pobre Lorenzo. Como dizer a uma criança de onze anos que ela vai morrer?
— Vai ser ainda pior para o tal Nicholas perder os dois irmãos.
— Os… dois?
— Acabei de voltar da galeria — o interno confirmou. — O coração de Ethan Lemnsack havia parado e a Dra. Carmell estava lutando contra Deus e o mundo para trazê-lo de volta…
A Dra. Vivienne King não ouviu o resto. Correu de volta para a galeria a tempo de ver as máquinas que transmitiam os sinais vitais de Ethan Lemnsack resmungarem um som constante, fino e irritante. Lindsay Carmell ainda estava de máscara e segurava os desfibriladores no ar, completamente imóvel, completamente chocada, observando sua passagem para a direção do hospital se esvair no garoto morto na mesa.
A cirurgia mais rotineira e simples do mundo realizada por uma das melhores cirurgiãs do país haviam acabado de resultar na morte do menino mais rico que aquele mundo jamais vira. Era impossível de acreditar. Vivienne King não conseguia falar porque saíra correndo da galeria em direção à sala de cirurgia.
Não conseguiu muito menos ouvir a última frase da incrédula Dra. Lindsay Carmell, dita baixinho, quase inaudível como uma sentença, como algo que não deve ser dito, mas precisa ser porque é aquilo que todo mundo espera:
— Hora da morte. — O relógio da parede servia para isso. Era só para isso que servia. Todas as vezes que entrava numa sala de cirurgia, a Dra. Carmell esperava não precisar olhar para aquele relógio. — Seis horas… e quarenta e cinco minutos.
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