Como Vivem Os Anjos
69 Epílogo V — Parte Um
Notas iniciais
Amor vincit omnia.
(Do latim, “O amor tudo vence”)
OoO
Haviam chegado à suíte presidencial do hotel The Rivaille já há quase duas horas. Era um lindo quarto, espaçoso como uma casa e em estilo vitoriano, com muito branco e dourado espalhado por todos os lados, além das cores georgianas gelo, limão e creme. Muita classe, muito elegante. Percebia-se isso por causa daqueles sofás com estampas floridas e detalhes dourados que por mais bonitos que fossem pareciam imensamente desconfortáveis.
O ar estava climatizado para levemente frio, como aprenderam a gostar no pavoroso Vale das Sombras. Um lustre de cristal branco jazia acima de uma mesa redonda de madeira escura no canto do quarto, onde Nicholas Hentz sentava-se no lado oposto a Lorenzo Barcarolli, ambos em cadeiras confortáveis. Não havia venda cobrindo seus olhos, mas estes permaneciam fechados com força. Os dois meninos estavam em silêncio, Nicholas fitando Lorenzo com os dedos cruzados acima da mesa como se esperasse uma resposta. As mãos de Lorenzo, pousadas em seu colo, estavam invisíveis.
— Abra — disse Nick.
— Dê-me mais um tempo — disse Lorenzo.
As roupas de frio que os dois usaram por quase uma semana haviam ido para o lixo. Um banho de cada vez, como Lorenzo insistiu. Nada de companhias. Não agora, não podiam. Após se refrescarem e limparem o sangue de seus corpos, permaneceram usando apenas a roupa de baixo porque, afinal, não tinham mais nada ali além das roupas de Devon e estas ficavam grandes demais. Nick refletiu sobre aquilo. Não se importava com o fato de serem de Devon, e sim com o fato de serem grandes. Será que significava que estava começando a aceitar o fim da jornada dourada?
Não importava. Vendo seu irmão seminu, Nick percebeu que a brancura de Elluryiel espalhara-se por todo o corpo de Lorenzo, e não foi só a cor da pele que mudara. Não dissera a ele e esperava não precisar dizer por algum tempo, mas Lorenzo Barcarolli atingira a sua altura. Em uma semana, ele crescera o que pareciam ser cinco centímetros ou mais. Seus braços estavam mais longos e os dedos mais compridos — ele adoraria isso quando fosse tocar piano —, as pernas também haviam alongado. O peito liso havia encontrado alguma definição. As costelas não eram mais visíveis, mas os músculos abdominais encontraram espaço para se destacar. Havia uma linha separando o meio de seu peito com o crescimento dos peitorais. Suas coxas e nádegas ganharam um aumento considerável. Nick errara ao achar que a transformação de Lorenzo acabara na clareira. Ela estava acontecendo em ritmo aceleradíssimo literalmente bem na sua frente.
— Abra — repetiu Nick.
— Pare de me pressionar — ele reclamou.
Seus lábios haviam ficado definidamente rosados, bastante bonitos no mar de leite que se tornara sua pele, e mais ou menos da mesma cor que os mamilos. O cabelo, que também crescera em velocidade anormal, finalmente pareceu se firmar num tamanho assustadoramente parecido com o de Oliver. Tornara-se mais espesso com o passar dos dias e, se Nick não estivesse perdendo o juízo, também adquirira um corte próprio. O penteado de Oliver apareceria num piscar de olhos se Nick mexesse nele com um pente. Como gostaria de ter aquela última foto dele com Ethan para poder comparar. Mas Ethan poderia. Sob a luz do lustre, os fios pareciam louro-acinzentados, mas mudariam para amarelo sob a luz do sol e prateados sob a da lua, como ele bem sabia. Os cílios estavam mais compridos que nunca e não eram mais negros, mas sim louro-escuros como suas sobrancelhas perfeitas. Lorenzo ainda estavam passando pelo processo de troca de dentes de leite por permanentes, mas ali eles se mostravam perfeitos, claros e simétricos. Teria a mulher branca cuidado daquilo também? Nick realmente acreditava que nunca mais veria Lorenzo cuspir um dente mole fora.
— Abra seus malditos olhos! — gritou de repente. Não estava irritado, queria assustá-lo para que piscasse e consequentemente abrisse os olhos.
Lorenzo percebeu isso e o xingou.
— Está bem, mas não faça movimentos bruscos.
Ele os abriu com uma lentidão insuportável. Nick deu um suspiro de alívio ao ver que as gemas azuis ainda estavam incrustadas ali, tão azuis e brilhantes quanto estrelas. Quase sentiu-se olhado por Oliver de novo, como se sentiu pela última vez há cinco anos, antes de sua morte. As gemas fitavam-no assustadas e apreensivas, prontas para se fechar a qualquer momento. Suprimir o desejo maroto de estalar os dedos de repente no rosto dele não foi uma coisa fácil.
— Assustador, não é?
Lorenzo se tremeu e não falou nada. O movimento de sua boca, Nicholas. Ande, fale mais. É o melhor que você sabe fazer.
— Vê algo se mexendo? É a minha boca, a que você adora beijar. Por dentro é escuro porque não tem luz. O que a circunda são os lábios. Eles são rosados. Essa é a cor rosa. Ela também está nos seus lábios, só que mais viva. — Lenta e calmamente, levantou suas mãos. — São minhas mãos, vê? E meus braços. Eles descem, vão até o cotovelo e sobem de novo até os ombros. Então tem o meu pescoço e a cabeça. Veja, esse é o nariz, as sobrancelhas, as orelhas, o cabelo e os olhos. Meu cabelo está relativamente longo, mas não do mesmo tamanho que o anterior. Ele é dourado. Esse é o nome da cor. Dourado, da cor de uma barra de ouro. Deus, você tem que aprender os nomes de todas as cores. É como voltar à pré-escola. Eu não fui muito feliz na pré-escola. Os garotos zombavam de mim porque eu era o mais baixo da turma e fui o último a aprender a ler, então quando cresci eu me vinguei roubando as namoradas deles.
Lorenzo continuava a fitá-lo com uma atenção absurda.
— Vê minhas mãos? Estes são os dedos. Dez. Cinco em cada. Eles estão se abrindo e se fechando. Preste atenção nas articulações, que permitem que nossos membros duros façam curvas. É assim que o corpo humano funciona. Quando quiser saber se alguém é bonito, me use como comparação, porque eu sou o ser humano mais bonito que já pisou na Terra.
— Agora você está zombando de mim.
— Você não aprendeu nada com Rowan Pyatt, aprendeu?
Nick se levantou da cadeira sem aviso, provocando-lhe arrepios.
— Eu me levantei. Esse é o meu corpo inteiro. Agora estou andando pelo quarto. Ele é bem espaçoso.
— Como você consegue saber o que é sólido e o que não é?
— Quando algo não é sólido, ele provavelmente é invisível. Se você vê uma coisa grande na sua frente de cor diferenciada ao ambiente, é um objeto sólido. Lembre-se que, se tiver dúvidas, você ainda pode tocá-lo com suas mãos. Mas tome cuidado, nunca se sabe se você está prestes a tocar um fogão ligado. Já parou para pensar que você tem que aprender a ler e a escrever? E pensar que a Academia está pensando em te deixar pular um ano. Vou falar com eles para que você volte à pré-escola. Pelo menos ninguém vai zombar de você por sua altura. Vão zombar de você porque você tem onze anos e gosta de garotos.
— Cale a boca. O que está fazendo?
Nick abriu o frigobar e tirou uma lata de Coca-Cola do congelador, uma garrafa de água e um pacote de M&M’s. Voltou a mesa com tudo isso e mais dois copos de vidro.
— Isso é uma lata de Coca-Cola, acho que agora você pode bebê-la sem temer que um dia ela derreta seus dentes. Ela é vermelha e as letras são brancas. Esse logotipo é escrito em letra cursiva, que é diferente de letra de forma. — Ele abriu a lata, que produziu o som característico, e despejou o conteúdo no copo. — O líquido é preto. Essas coisinhas que se destoam do preto são as bolhas de gás. Tente pegar o copo e beber.
Com o maior cuidado do mundo, Lorenzo aproximou as duas mãos do copo de vidro, segurou-o firmemente e o aproximou dos lábios. Errou o alvo, indo encostar a borda do copo quase em seu queixo. Nick percebeu que ele fechou os olhos ao jogar a cabeça para trás para beber o refrigerante.
— Isso aqui é uma garrafa de água. A garrafa é transparente, diferente da lata, por isso podemos ver o conteúdo. Vê?
— Vejo algo se mexendo. É invisível.
— Não, é transparente.
— Qual a diferença?
— Lorenzo, poucas coisas são invisíveis. O vento é invisível. Água não é invisível. Ela tem silhueta e sua presença é facilmente notada porque ela sempre reflete o fundo do local onde está alojada. Se essa garrafa fosse vermelha, você veria a água vermelha dentro da garrafa, mas então ela perderia a cor quando você a tirasse daqui. A água da praia é verde por causa do sol, mas a do oceano é mais azulada. A da Lagoa das Sombras é negra, mas é porque aquele lugar é inteiramente mal-assombrado. — Abriu a garrafa e despejou seu líquido dentro do outro copo. — Líquidos sempre vão se adequar à forma do recipiente em que estão inseridos. Olhe dentro do copo. Mesmo que a água seja transparente, você consegue perceber que há algo aí dentro, certo?
— Certo. Estou entendendo.
Ele bebeu a água com mais confiança do que a Coca.
— Isso aqui é um pacote de M&M’s. São de diversas cores. Verde, amarelo, vermelho, marrom, azul. Todos os confeitos tem a letra M estampada em cor branca. Você realmente precisa decorar as cores. — Nick pegou um confeito e o esmagou entre os dedos. — A casca se espatifou, e a coisa marrom dentro é o chocolate. Ao leite, graças a Deus. Deus manda ao Inferno aqueles que gostam de chocolate amargo e Ele tem razão. Pegue e coma.
Lorenzo levou algum tempo para conseguir agarrar um confeito sem deixá-lo cair. Usou os dedos como uma pinça, dando a impressão de que seu problema estava nos dedos, e não nos olhos.
Nick se levantou novamente e tirou um pesado espelho da parede.
— Estou pegando um objeto sólido com minhas mãos. Ele não me atravessa, como pode ver, porque nós dois somos sólidos. É grande e pesado, mas nem sempre uma coisa tem a ver com a outra. É um espelho.
Usou sua cadeira para apoiar o espelho na frente de Lorenzo. As gemas azuis se arregalaram e se arregalaram até não poderem mais. Lorenzo levou as mãos ao próprio rosto e começou a passar os dedos delicadamente pela pele, lábios, nariz e orelhas. Pararam em seu cabelo, provavelmente estranhando a textura e tamanho diferenciados, embora alheio ao fato de que a cor mudara. O que Ethan iria pensar quando o visse?
— Meu cabelo era da cor da Coca-Cola?
— É, mais ou menos.
— Como espelhos funcionam?
— Como vou saber? Apenas agradeça que eles existam. Caso contrário não seríamos capazes de ver nossa beleza estonteante.
Caminhou para trás de Lorenzo, fitando-o através do reflexo do espelho. Tocou em seu pescoço com a ponta dos dedos delicadamente, passando-os através das clavículas, depois encostou os lábios na pele macia de suas bochechas. Ele era tão perfeito. Parecia um boneco de porcelana.
— Seus olhos são azuis — sussurrou em seu ouvido. — Os meus são negros. Minha pele é dourada como meu cabelo. A sua é da cor da neve. É assim que funciona.
O cheiro de seus cabelos continuava igual, graças a Deus. Talvez um pouco mais almiscarado. Definitivamente mais excitante.
— Não se excite — Lorenzo disse, separando-se do irmão. Voltou-se para Nick, pela primeira vez sem pavor no rosto, embora ligeiramente tonto pela mudança de ângulo. — Ethan ainda não está aqui. Quando ele estiver, você vai poder me beijar à vontade.
— Eu não vou te beijar quando ele estiver aqui.
— Você vai me beijar, sim. E ele também. Agora estou me lembrando de algo que Lincoln me disse. Sabe quem ganhou o Campeonato das Casas na Escola St. Nicholas? A Casa Vermelha. A sua casa. Como você previu no início desse ano.
— No início desse ano eu não previ que iria passar quatro meses correndo através da Califórnia e dos Estados Unidos e do Canadá fugindo da polícia atrás de um psicopata. Você deveria agradecer de não ter visto a carnificina que aconteceu naquela sala. Eu vi tudo. E também vi sua transformação. Um garoto não devia passar por tudo isso.
— Você não vai enlouquecer por causa disso. Eu acho.
— Você acha? Isso não é suficiente para… O que foi?
As gemas azuis se desfocaram, como se Lorenzo estivesse tendo uma epifania, com a cabeça a milhares de quilômetros dali. Algo parecido acontecera em Nova Orleans, quando Rowan se comunicou com ele por pensamento perto da casa de Marie Laveau.
— Ethan entrou nesse prédio — disse num tom grave e vibrante, embora ainda puro e limpo. Cada vez que Lorenzo falava ele parecia estar cantando de tão melodiosa que sua voz estava. Bem, ele era italiano. Acontecia. — Ele está atravessando o saguão de entrada e… oh, o elevador.
— Não diga. Ele bem que poderia vir voando.
Correu até o belo banheiro de mármore e granito, ignorando o pedido de Lorenzo de não fazer movimentos bruscos, e tirou um roupão oferecido pelo hotel de dentro do armário. Branco e fofo, algodão puro, com o monograma do hotel gravado. Pedira à recepção por telefone há menos de uma hora ao perceber que os únicos roupões no quarto eram os de Devon Lancaster.
Voltou ao quarto carregando um roupão menor, um próprio para um garoto de doze ou treze anos, que era a idade que Lorenzo agora aparentava ter. Nenhuma necessidade de se mencionar a altura dele. Atirou a peça de roupa através do ar sem avisá-lo, ao passo que ele pegou antes que caísse no chão. Por algum motivo, Nick sentiu-se extremamente orgulhoso por aquele ato simples, o que era irônico se você pensasse que Lorenzo tinha capacidade de enlouquecer a mente de qualquer um.
Um pequeno corredor em tons pastel levava à porta. Nick ficou parado no início do corredor, estático, sem saber bem que expressão deveria portar, nem se deveria sair do quarto e esperar o elevador subir. Deveria trancar a porta e esperar que ele batesse? Ou deixá-la aberta? Ou apenas destrancada? E por que se importava tanto com o que Ethan iria pensar? Ele não era ninguém importante… era só seu irmão Ethan.
Então por que não sinto que é só meu irmão Ethan?, pensou entristecido. Ele estaria mudado. Mais velho. Com olhos mais duros. Ninguém sobrevive cento e cinquenta e um dias de cárcere e não muda. Era como voltar de uma guerra. Mas ei, esses dois garotos mais jovens que Ethan também enfrentaram pavores terríveis. De certa forma, todos eles mudaram. A jornada dourada era um período de suas vidas que nunca seriam capazes de esquecer, especialmente pelo fato de que a mídia do planeta inteiro estaria sedenta pelos detalhes que obviamente seriam inventados.
Nicholas não teve tempo de conjecturar mais nada. Houve uma batida na porta. Lentamente, ele respirou fundo, ajeitou-se dentro do roupão, onde sentia-se estranhamente fora de lugar, passou os dedos nos cabelos e se aproximou para girar a maçaneta.
Através de seu tato ainda apurado, Lorenzo descobriu que a coisa enorme, dura e macia era a cama. Vestia o roupão que Nick lhe atirara quando ouviu a batida na porta. Será que deveria tê-lo avisado que percebera que Ethan chegara antes mesmo de ele bater? Não sabia como isso acontecia, mas talvez tivesse algo a ver com a profecia. Talvez significasse que pelo resto da vida Lorenzo estaria ligado aos dois irmãos.
Porque assim que as portas do elevador se abriram, pode ouvir a respiração descompassada e sentir o batimento acelerado do coração de Ethan Lemnsack. O cheiro dele estava em algum lugar no ar, ele podia senti-lo como se estivesse debaixo de seu nariz. Podia sentir cada forma de vida a sua volta. Se pensasse, respirasse ou se mexesse, Lorenzo teria consciência de sua existência, e poxa, Ethan era uma existência e tanto.
E também sentia que era a hora. Com uma lentidão quase hipnótica, retirou o roupão que usava. Deixou-o cair no chão de qualquer jeito, pisando em cima dele para se aproximar de Nick no corredor e de Ethan que acabava de atravessar a porta.
Ele o viu, sim, viu Ethan pela primeira vez em sua vida. Foi um momento emocionante que não pode compartilhar com ninguém, e talvez fosse melhor assim. Notou a diferença dos cabelos dele para os de Nick, como eram negros e espessos, enquanto os de Nick eram claros e finos. Os cheiros também eram diferentes. Conseguia notá-los perfeitamente. Ethan usava roupas escuras de frio, algo que parecia ser uma echarpe e um pesado sobretudo. Sabia que era um sobretudo porque aquele tipo de tecido tinha um cheiro diferente dos demais. Nenhum dos irmãos seria capaz de detectar isso, nem nenhum outro ser humano. Ethan tinha a pele mais clara que a de Nick, mas de um aspecto adoentado, quase cinzenta, como notou ao compará-la com as paredes acinzentadas. Seus narizes e lábios eram praticamente idênticos.
Ethan entrou no quarto sem dizer absolutamente nada, se aproximou de seu irmão e beijou-o com uma paixão e sôfrego que ele nunca demonstrara antes com Lorenzo. Eles não fizeram barulho algum além de alguns gemidos roucos e do barulho inerente a um beijo. Eram familiarizados um com o outro, é verdade, eles eram sim. Lorenzo não precisou de muito mais para saber que durante aquele tempo todo Nick vinha mentindo para ele.
Ethan e Nicholas sempre tiveram um caso! Sempre deslizaram para a cama do outro sob o nariz de Lorenzo, fazendo-o de bobo exatamente do mesmo modo que ele estava fazendo de bobos os dois! Bem feito, Lorenzo. Você mereceu. Deixe que os corações deles explodam de emoção.
Meu Deus, era impressão sua ou, de alguma forma, Lorenzo conseguia visualizar os corações deles batendo? Sim, estavam lá, entre os pulmões e perto dos outros órgãos importantes… espere, ele já sabia. Ele os ouvia funcionar. Não apenas o coração, mas os outros órgãos, os que não faziam barulho audível. Se se concentrasse bastante, como estava agora, podia ouvi-los funcionar dentro dos corpos. Se Lorenzo fosse alguma espécie de telecinético, poderia manipular os corpos por dentro, e se tivesse o conhecimento necessário, meu Deus, talvez pudesse manipular até mesmo as células individuais. Realidade assustadora, mas que podia muito bem torná-lo o maior médico de todos os tempos. Imagine só, alguém capaz de eliminar um câncer de um corpo com a força do pensamento!
O que estou pensando? Não sou um telecinético.
Curvou-se delicadamente para tirar a última peça de roupa que cobria sua nudez. Fechou os olhos no processo, como fez ao beber a Coca-Cola. A mudança de ângulos ainda o deixava tonto, mas não o suficiente para não perceber o que Nicholas claramente não queria que ele percebesse, que os dois estavam da mesma altura, que os membros e dedos de Lorenzo estavam mais compridos. Ele não era estúpido. Suas suspeitas começaram ao perceber como o cabelo mudara de textura e de formato. A cor não lhe dizia nada, para o inferno com a cor. Mas se o cabelo crescera, por que não o resto? Ele conhecia seu próprio corpo o suficiente para perceber o que havia crescido. Felizmente, nada ficou para trás. Ele estava proporcional. Não era nenhuma aberração com membros enormes e mãos e pés minúsculos.
Ah, e seu pênis crescera também. Que vergonha, Nicholas. Deixar seu irmãozinho cinco anos mais novo que você atingir sua altura. Pobre Nick. Ele nunca cresceria muito. Pobre Ethan. Ele não crescia desde os catorze anos. Lorenzo poderia muito bem atingir um metro e oitenta de altura.
Na verdade, ao ver que suas nádegas e coxas também aumentaram consideravelmente de tamanho lhe admirou que Nick não tivesse se deitado com ele desde então, nem feito nenhuma tentativa. Não que Lorenzo tivesse deixado, mas aumentava sua autoestima. Ele tinha um grande controle do próprio apetite sexual, o que só indicava que dormir com Lorenzo no Palácio Real Hentz não foi uma decisão precipitada. Nem dormir com Ethan.
Ethan e Nick finalmente pararam de se beijar, mas ainda não falavam nada. Só olhavam para si, sentindo a respiração do outro em seus rostos, esperando que os corações parassem de pular. Como podia ver de longe, os olhos de Ethan eram negros também, mas não como os de Nick. Eram infinitamente mais escuros e penetrantes, e não tinham aquele minúsculo ponto claro que todos os olhos tem, pois não refletiam a luz. Agora entendia o que isso significava. Sentiu-se ligeiramente hipnotizado ao olhar para ele, e quando ele olhou de volta quase caiu de joelhos.
Bem, irmão, faz quatro meses. Estou loirinho. O que acha de mim?
Realmente não teve tempo de dizer absolutamente nada. Ethan andou em direção a Lorenzo e o agarrou pela cintura, virou sua cabeça e enfiou a língua em sua boca. Ethan, Nicholas está bem ali! Oh, eu não me importo, por favor, me beije mais. Olhe para mim, veja o que eu sou.
Ele o carregou nos braços até chegarem à cama, onde o deitou sem nunca separar os lábios. Passou suas mãos, suas lindas mãos, pelo corpo do menino abaixo de si, pelos ombros, pelo peito e pela barriga lisa e reta, até chegar ao membro ereto, onde o estimulou com a habilidade habitual. A pele de Lorenzo era ainda mais clara que a dele, era assustador.
Ethan deu mordidinhas em seu pescoço e em toda aquela parte do torso, deixando marcas vermelhas de dentes. Arrancou a camisa que usava, expondo o peito liso e levemente musculoso. Deus, como amava aquele corpo delicioso, como amava colocar seus mamilos entre os lábios e chupá-los enquanto ouvia o gemido grave e masculino dele, e seu nome sendo sussurrado de seus ouvidos. Nick não era nada comparado a Ethan.
Ele havia se ajoelhado na cama. Lorenzo tateou o cós de sua calça, usando o tato para saber o que era o que, e puxou o zíper para baixo. O pau estava duro por dentro da cueca, ele não perdeu tempo. Meteu-o na boca de uma vez, aproveitando para enfiar o nariz nos pelos pubianos que ele mantinha. O membro pulsava em sua boca, quase um objeto vivo, fazendo Lorenzo chupar com agonia e sofreguidão. Queria sentir a semente dele em sua boca, meu Deus, como queria.
Mas Ethan não deixou, empurrando-o contra a cama com seu autoritarismo de sempre. Lorenzo desceu as unhas nas costas dele e as deslizou até as nádegas, enfiando o nariz em seu pescoço e cabelos enquanto as apertava. Adorava o cheiro natural dele, que agora parecia mil vezes mais forte e almiscarado. Simplesmente irresistível. Oh, sim, deite-se em cima de mim e finja que me foda, como você gosta de fazer. Mas ele não fingia agora. Na verdade, estava tateando o criado-mudo à procura de algo.
Sentiu uma coisa gelatinosa e gelada entre suas pernas. Sim, era lubrificante. Nicholas havia achado aquela coisa dentro da gaveta e deixado em ciam do criado-mudo por razões que só o destino conhecia. Ethan enfiou-lhe um dedo, depois outro e um terceiro, fazendo movimentos giratórios e os clássicos de vai-e-vem. Enquanto isso, continuava beijando e mordendo seu pescocinho delicado.
Está na hora. Minha virgindade é sua, Ethan. Sempre foi.
Sentiu-o encostando em sua entrada e sendo pressionado para dentro. O hálito de Ethan estava batendo contra seu rosto, mas Lorenzo tinha os olhos fechados, com medo de abri-los e ser engolido pelos olhos que sabia que o fitavam. Ele foi empurrando, empurrando e empurrando até que encontrou o anel que marcava sua virgindade. Lorenzo agarrou suas nádegas com voracidade e abriu os olhos. Como pensava, os dele o fitavam, e não apenas fitavam, mas o sugavam para seu universo imenso e maravilhoso.
Leve-me daqui. Leve-me com você. Ensine-me a voar.
Com um último empurrão, Ethan rompeu aquilo que chamava-se virgindade. Lorenzo gritou de dor e prazer, fincando os dentes no ombro dele sem piedade. Queria pedir para que ele o fodesse, mas a dor seria insuportável demais. Não, espere, espere e verá.
Ethan virou-se e olhou para trás, para o corredor do quarto, o que levava à porta, onde Nick estava paralisado, olhando a excitante cena que se desenvolvia a sua frente já há alguns bons minutos. Foi Ethan quem proferiu a primeira frase do encontro dos três irmãos.
— Você vem ou não?
Nicholas Hentz deixou cair o roupão, revelando seu corpo magro e atlético que Ethan Lemnsack achava tão maravilhoso. A pele dourada reluzia sob as luzes amarelas do quarto, despida de pelos do pescoço para baixo. O rosto de Nick era uma máscara de pedra sem emoções, todo tomado por seus olhos lindos e pelos lábios entreabertos.
Ethan o viu se aproximar e subir na cama, por cima dos dois irmãos. Ele encostou o lubrificante em sua entrada e começou a pressionar os dedos. Com os dentes, mordiscava suas costas e arranhava o peito, enquanto Lorenzo mordiscava o peito e arranhava suas costas. Ethan gemia entre os dois garotos. O interior de Lorenzo apertava seu órgão por todos os lados e era tão quente que parecia que ia explodir a qualquer momento, mas foi quando Nick deslizou-se para dentro dele com seu pau duro e lubrificado que esse pensamento tornou-se possibilidade.
Nick começou a estocar Ethan por cima com um desespero notável, agarrando-se às suas costas largas e fincando os dentes em seus ombros. Os únicos ruídos que emitia eram de seu corpo batendo contra o de Ethan. Lorenzo, por outro lado, não conseguia parar de gemer desde que Ethan começara a se movimentar por cima, tentando com delírio sincronizar seus movimentos ao do outro irmão. A sensação era maravilhosa, a de ter um homem na sua frente e outro por trás. Principalmente quando amava os dois.
Nick o beijou em sua desconfortável posição, enfiando sua língua na boca dele como fizera quando se encontraram no corredor. Lorenzo arfava e tremia por baixo dos dois. Recebia os respingos de suor dos dois garotos e claramente os adorava, adorava seus sabores e seus cheiros. Ethan o estocava com cuidado e habilidade, sincronizado com Nick por trás, que teve que suprimir seus desejos libidinosos para padronizar a velocidade.
Lorenzo puxou Ethan pelo pescoço com uma das mãos e Nick com a outra. Beijou primeiro o irmão mais velho com desespero, então o irmão do meio com amor, e depois os dois ao mesmo tempo. Foi diferente, sensual, definitivamente delicioso, ter duas língua na boca ao mesmo tempo que não seguiam nenhum padrão, apenas faziam o que lhes parecia ser melhor.
— Eu quero os dois — Lorenzo sussurrou aos irmãos.
Nick saiu de dentro de Ethan. Ethan sentou-se na beirada da cama e puxou o irmão para seu colo, pondo-o em cima de seu pau duro e já lubrificado. Ele se agachou, lentamente encaixando-o dentro de si. Foi melhor dessa vez, Ethan podia mordiscar seus ombros e seu pescoço, sem falar que, Deus, era como fazer amor com Nick pela primeira vez de novo, quando ele tinha treze anos e uma habilidade incrível para rebolar.
Deitou-se na cama, puxando Lorenzo com ele. Nicholas levantou-se e se pôs entre as pernas dos dois, pressionando seu membro contra a entrada do menor que já aguentava Ethan. Demorou para que ele se acostumasse aos dois órgãos dentro de si. Ethan estava a pouco tempo de ejacular, mas então Nick começou a estocá-lo devagar, puxando as pernas de Ethan para apertá-lo, que também estocava Lorenzo. O menino gritou de dor e prazer, em delírio pelo tesão. Os três irmãos, que se mexiam em movimentos sincronizados, explodiram em torrentes quase intermináveis de gozo, afundando num prazer indescritível e delicioso.
Eles caíram na cama, suados e exaustos. Ethan estava no meio, com Nicholas a sua direita e Lorenzo a sua esquerda. Simultaneamente, os dois irmãos menores abraçavam o mais velho. O único som presente era uma vibração constante das respirações descompassadas dos três, já que Lorenzo decidira ignorar qualquer outro som normalmente inaudível.
Nicholas levantou a cabeça amarela e fitou Ethan com seus olhos negros de leão que eram menos negros que os dele. Lorenzo percebeu que o amor que Ethan sentia por ele era tão grande que seu coração poderia muito bem explodir.
— Tem algo que eu sempre quis perguntar — Nick disse graciosamente em sua voz rouca e estridente. — Já que você passou cento e cinquenta e um dias algemado a uma cama, como exatamente você ia ao banheiro?
O amor de Ethan levou meio segundo para acabar.
— Oh, Deus, isso é tão típico de você. Sempre acaba com os melhores momentos em nome do seu humor sarcástico. Você sempre foi egoísta.
— Diz isso de mim após passar quatro meses atrás de você?
— Não é como se você não tivesse sido obrigado.
— Como ousa? Seu cínico maldito.
Os dois irmãos mais velhos de Lorenzo começaram a discutir animadamente, como nos velhos tempos. Lorenzo ouviu-os falar por minutos o suficiente para saber que a despeito dos quatro meses, tudo ficaria bem porque tudo estava bem. Era como se nada tivesse acontecido, eles eram Ethan e Nick novamente, amando-se e brigando o tempo todo.
— Você é um bruxo — falou em voz alta. Os irmãos o fitaram. — Ethan, você é um bruxo. Assim como eu, assim como Rowan. Você é diferente de uma forma que vocês não percebem. Sabem, bruxos como nós exibem um brilho suavíssimo através dos olhos. Nossas peles são mais quentes. Há uma melodia intrínseca à nossa voz. E há um ruído dentro de nossos corpos que é diferente de qualquer outro ruído no mundo, é um som que nossos órgãos fazem enquanto trabalham, ou algo assim. Sim, é verdade, você é um bruxo tão puro quanto Rowan. As Sombras estão ao seu redor. Eu nunca havia percebido antes porque você queimou seus poderes durante sua infância, assim como Rowan, e assim como Rowan sua experiência de pós-morte os acordou. Você é um bruxo.
— Mas e quanto a mim? — perguntou Nick.
Houve um segundo terrível de silêncio após essa pergunta. Deus, Lorenzo, como você pode ser tão estúpido de dizer isso na frente de Nicholas? Nicholas, que não sabia que não era filho de quem pensava ser. Nicholas, que era tão normal quanto o resto do mundo inteiro, que não emitia brilho pelos olhos e cujos órgãos não faziam ruído.
— Você queimou seus poderes durante sua infância também — explicou em tom quase condescendente. Esperava que a raiva que ele desenvolvesse por esse tom o impedisse de continuar pensando direito. — E nunca morreu.
— Mas e durante o Halloween de Nova Orleans? Eu não deveria ter ficado mais poderoso? Assim como funciona com Gabriel?
Lorenzo pegou sua mão e a apertou.
— Nick, às vezes sua habilidade especial não é nada mirabolante ou visível. Algumas pessoas simplesmente estão destinadas a serem grandiosas. Veja a Rainha Elizabeth, uma mulher que governou a Inglaterra durante quarenta e quatro anos durante o século XVI em meio a guerras e batalhas sem nunca ter se casado ou tido filhos, a predecessora do Império Britânico.
— Mas ela era uma clarividente também.
— Oh, mas isso foi pura sorte. Nick, você é grande com ou sem poderes. Você salvou minha vida. Você foi minha ferramenta e cumpriu a profecia. Você cuidou de três crianças durante quatro meses, você, que nunca aprendeu a amarrar os cadarços e só mede um metro e sessenta.
— Cale a boca, sou sensível quanto a isso.
— O que vocês estão dizendo? — indagou Ethan.
Lorenzo e Nicholas se olharam. Quase se esqueceram de que ele não sabia de absolutamente nada.
O relógio em cima do criado-mudo começou a apitar. Um digital, provavelmente, já que ninguém usava relógios analógicos como despertadores. Os três irmãos olharam para a tela preta que exibia uma série de riscos brancos os quais Lorenzo acreditou serem números.
— É meia-noite — disse Ethan, ignorando a própria pergunta. Ouvia-se fogos de artifício lá fora, centenas e centenas dele, além de gritos de alegria e comemoração. — É 1 de janeiro de 2015. Feliz Ano Novo, Lorenzo. Feliz Ano Novo, Nicholas. Será que Devon guardava uma garrafa de champanhe por aqui? Oh, deixem isso para lá. Vamos ver a propriedade dos Lancaster. Cornelius disse-me que olhássemos para ela quando desse meia-noite.
Aproximaram-se da janela do quarto. Estranho pensar que dessa vez Lorenzo não precisaria pular em cima de um andaime. Meu Deus, eles estavam completamente nus. Não iam conversar sobre isso? Ah, provavelmente Ethan e Nick tampouco conversaram. Eles faziam o que queriam.
No céu que deveria ser totalmente negro, uma profusão de cores explodia e sumia em questão de segundos. Lorenzo identificou um complexo lá em baixo todo iluminado que aparentava ser uma residência, seja lá com o que uma residência devesse se parecer. De repente, sem ser esperado, um barulho monstruoso sufocou os estalos dos fogos de artifício e um brilho ainda maior que os do céu engoliu o complexo lá em baixo. Os gritos de alegria tornaram-se de pavor.
— Irônico pensar que Lorenzo queria ser cremado — comentou Nick tranquilamente. — Sendo que agora Melinda e Devon estão sendo cremados por ele. Talvez Lincoln tivesse razão em matar Devon. Teríamos que arrumar um bom motivo para ele ter sobrevivido à explosão quando todos os convidados o viram entrar no gabinete de Melinda. Ethan, vamos nos sentar à mesa. Temos muito o que conversar.
Lauren Mayfair estava a um passo de ser demitida de seu emprego. Na verdade, não a um passo, mas a dez horas e meia, para ser exato. Aquele monstrinho psicótico chamado Melon Chioren estava sentado no topo do Palácio Real Hentz com sua pavorosa irmã de cabelos brancos e olhos cor-de-rosa comemorando o Ano Novo na poltrona presidencial de Ethan, esperando a reunião marcada para o dia seguinte com os diretores dos departamentos da Anhert Corporation que lhe cederiam a presidência da empresa e o controle total dos bens da família Hentz. Ele seria um bom vilão de novela.
Quanto a Lauren, decidira que passar o Ano Novo sozinha em sua cobertura em Higociety com uma garrafa de um vinho de trezentos dólares era mais que o suficiente. Seu filho, Taylor Mayfair, estava com os parentes de seu falecido pai. Se Lauren fosse perguntada em fevereiro de 2012 se, um ano e meio depois, achava que começaria a trabalhar com um dos filhos de um dos casais que morreu no mesmo acidente de avião que seu marido, riria. Se ouvisse que o casal era o lendário casal de filantropos Lemnsack Hentz, riria um pouco mais.
Uma e meia da manhã. Os fogos de artifício haviam acabado, mas ainda havia famílias nas ruas comemorando o novo ano que vinha. Depois de ser desvinculada da família Hentz, precisaria procurar reerguer a Mayfair & Stonem. Provavelmente ela e Liam procurariam outro sócio, o que não era fácil. John Fauntleroy fora um gênio de sua época. Lecionara não apenas na Universidade de Harvard, mas na Universidade da Califórnia e na Goldenschild. Boatos diziam que seu nome fora inclusive cogitado para se tornar reitor da Universidade da Califórnia. Não acontecera, é claro.
Seu celular tocou. Olhando o número com olhos desfocados devido à garrafa de vinho que tomara, identificou-o como vindo do Condado de Northeria. Desconhecido.
— Lauren Mayfair — falou em voz cansada.
— Para que esse marasmo, Lauren? É 2015. Feliz Ano Novo.
Aquela voz, aquela voz impossível de não ser identificada, tão jovem e ao mesmo tempo tão poderosa. Lauren pensou que nunca mais a ouviria.
— Ethan? — indagou cuidadosamente, ignorando que ele era seu chefe.
— Sim, sou eu. Acabou, Lauren. Melinda e Devon estão mortos. Você verá na TV em pouco tempo.
— Oh, isso é ótimo. Isso é… fantástico! — Ela nem conseguia expressar todo o seu contentamento. — Onde você está?
— Estou em Sacramento. Chegarei ao Palácio Real Hentz pela manhã. Encontre-me em meu escritório e leve Liam com você.
— Não temos mais permissão para entrar no Palácio.
— Bem, isso é um problema.
— Ethan, a presidência será dada a Melchior a uma hora da tarde.
— Isso é outro problema. Eu vou sair daqui no jatinho de Cornelius Goldenschild. Vou levar uma hora e meia para chegar a Middleland, mas acho que podemos dar um show e chegar mais ou menos durante a reunião. Eu gostaria de ver a cara de Melchior.
— Seus irmãos estão com você? Lorenzo ainda vive?
— Vive, e vai viver por muito mais tempo que esperávamos. Vou chegar em Middleland pouco antes de uma da tarde e seguir direto ao Palácio. Não fale sobre mim para absolutamente ninguém. A imprensa não vai levar muito tempo para descobrir, vão cercar todo o térreo do Palácio. Quero que me encontre no aeroporto com Liam. Vamos chegar lá de helicóptero.
— Está bem. Ethan… fico feliz que esteja vivo.
— Eu também, Lauren. Eu também.
Ethan Lemnsack desligou o telefone e olhou para os dois irmãos.
— Vamos voltar para Middleland, pessoal.
— Vocês dois vão para Middleland para livrar a Anhert das garras de Melchior — disse Nick com firmeza. Ele não teria aquela dedicação na voz há quatro meses. — Eu tenho que voltar para o Canadá.
— O que você quer fazer no Canadá? — indagou Ethan.
— Eu tenho que voltar ao Vale das Sombras. Vou levar Pan comigo. A jornada dourada acabou para ele também. O Vale é o único lugar do mundo onde ele pode ficar, sabem. Mademoiselle Claudette pode muito bem cuidar dele por tempo suficiente. Pan tem dezenove anos, afinal.
— Mas ele vai viver empobrecido — disse Lorenzo.
— Não, não vai — disse Nick. — Porque somos ricos de novo. Isso é tão bom. Ah, e falando nisso, Ethan, depois do Vale nós vamos ter que dar uma passadinha em Las Vegas. E depois de Vegas precisaremos ir a uma cidadezinha no Kansas chamada Baudelaire.
— Por que você quer voltar à Vegas? E Baudelaire?
— Bem, tenho que voltar à Vegas porque dei uma de Anne Frank num momento de fraqueza e escrevi um diário que não pode chegar a público, e tenho que voltar à Baudelaire porque deixei uma coisa lá que eu tenho certeza que você vai querer rever. Sabe, numa loja de penhores.
Ethan estava prestes a perguntar o que era quando descobriu porque a aparência de seu irmão o incomodava desde que o vira. Não eram os cabelos curtos ou o sofrimento no olhar. Era o Anel da Matriarca. O anel que sempre estivera presente em seu dedo simplesmente sumira.
— Nicholas Hentz!
— Eu precisei alimentar quatro pessoas, está bem? Pense nisso antes de me amaldiçoar. Você pode me amaldiçoar por outras coisas, como por exemplo por ter perdido oitocentos mil dólares em Las Vegas. Talvez tenhamos que voltar à Nova York também. Tenho quase certeza de que deixei as luzes do banheiro de casa ligadas.
— Eu vou tentar não estrangular você agora. Agentes de Cornelius estão subindo para nos trazer roupas e nos levar a Middleland, mas por motivos extenuantes vamos ter que fazer paradas no meio.
— Isso aí. Primeiro Kamloops, depois Las Vegas, depois Baudelaire e por fim a fabulosa Middleland. Oh, Ethan, é tão bom ter dinheiro novamente. É tão bom, tão bom, tão bom!
Eles levaram exatamente duas horas e dez minutos para chegarem à cidade de Kamloops no luxuoso jatinho de Cornelius. De lá, Ethan alugou um carro com tração nas quatro rodas para seguirem até a Floresta das Sombras. Foi por um golpe de sorte que encontraram a entrada, que misteriosamente se movera do lugar onde Nick se lembrava de tê-la pego.
Ethan seguiu pela estradinha até o interior do Vale das Sombras, onde finalmente chegaram à conhecida entrada de madeira. Dentro do carro, com Lorenzo, Pan e Lincoln, Nick virou-se para Ethan.
— Você quer entrar no Vale?
Ele meditou a questão durante um bom tempo.
— Não preciso. Vá você. Use seu charme.
Nick seguiu Vale adentro com todos os meninos, a exceção de Lorenzo, que afinal revelara não suportar todas as Sombras daquele lugar. Elas eram idiotas e agressivas, dissera a Nick. Mais ou menos como crianças hiperativas. Ficariam loucas se ele entrasse ali.
Lincoln só foi com eles porque tinha vergonha de ficar no mesmo carro que Ethan sozinho. Lorenzo passava tanto tempo absorto em pensamentos que seria a mesma coisa que ficar sozinho. E, afinal, Nick já namorara seu irmão mais velho, por quem Ethan nunca simpatizara. Ei, esperem, caras, eu vou com vocês.
Nick foi segurando a mão dele por todo o caminho. O ambiente estava mais ou menos como sempre esteve, mas de qualquer forma algo estava mudado. Os pinheiros negros agora não pareciam tão assustadores, suas folhas ainda eram imensamente largas, mas não mais negras como petróleo, e sim simplesmente da cor do musgo. Não nevava mais, pois o céu estava limpo de nuvens. A Lagoa das Sombras tornara-se uma poça de água resplandecente, libertando-se da escuridão opressora e mística, agora estando escura simplesmente porque o céu também estava.
Deixou que Lincoln levasse Pan para ver Mademoiselle Claudette novamente. Ao invés de ir com eles, Nick seguiu até a prefeitura, onde entrou no saguão e apertou a campainha. O prefeito surgiu pouco tempo depois com um belo e falso sorriso, pois ninguém é capaz de sorrir ao ser acordado às três e meia da manhã, que desfez-se em horror ao vê-lo.
— Boa noite, Sr. Prefeito — disse afetadamente. — Perdão por acordá-lo de seu cochilo. Admito que não acreditei que pudesse estar trabalhando a essa hora. O senhor não mora num casarão lá ao norte do Vale? Acho que sim. O que estava fazendo acordado, contanto as pilhas de dinheiro que recebeu ao vender a mim e meus amigos?
O velho agora parecia ainda mais velho. A evasão de Elluryiel de alguma forma retirara a beleza delicada dos cantos mais ínfimos do Vale das Sombras, tornando-o simplesmente uma colônia francesa bastante atrasada e decididamente preconceituosa. Também apagara a capacidade de seus moradores de esquecerem-se de tudo que não dizia respeito ao Vale. O prefeito devia estar se remoendo em culpa desde então.
— Não quero me vingar do senhor de forma alguma, Sr. Prefeito. Na verdade, não vou ficar. Vim apenas trazer um amigo. Lembra-se do rapaz alto, de cabelos escuros e enrolados? O nome verdadeiro dele é Pamius Cargill, filho de Étienne Cargill e Gabrielle Gauthier. Ele morou aqui durante muitos anos. Seus pais morreram, mas agora Mademoiselle Claudette, a velha que fuma cigarros caseiros, vai cuidar dele. Está bem claro?
— Sim — ele disse em tom respeitoso e grave. — Está claro.
— Que bom. Outra coisa. Sei que eles não têm muito patrimônio, por isso gostaria de deixar uma pequena doação à nova família Cargill. — Nick tirou um pedaço de papel do bolso. Um cheque, no valor de cinco milhões de dólares. — Sei que parece ser muito, mas para mim isso é trocado. Gostaria que se lembrasse disso quando for ao banco descontar esse dinheiro. Ele pertence a Pamius Cargill e a ninguém mais. Eu vou tomar cuidado para que ele receba cada centavo desse dinheiro. E se um deles estiver faltando, Sr. Prefeito, eu juro que seu corpo vai amanhecer boiando naquela lagoa. Eu tenho poder suficiente para isso. Convenhamos, eu poderia assassinar cada alma desse Vale das Sombras que ninguém nunca saberia.
O prefeito deu uma tossida nervosa ao ver o valor do cheque. Pegou-o e dobrou-o, enfiando-o no bolso da camisa.
— Sabe aquela velha casa dos Castanelli na extrema direita do Vale? Pamius e Mademoiselle Claudette vão morar lá de agora em diante. É uma bela casa, embora esteja em decomposição. Depois que o senhor descontar esse cheque, você vai usar o dinheiro com bom-senso para restaurar aquela casa. Vai deixar claro a Pamius que ele só precisará trabalhar se ele quiser e se algum dia ele demonstrar interesse em se comunicar comigo, o senhor vai fazer o possível para que isso aconteça, uma vez que meu telefone na Califórnia está atrás desse cheque. O senhor é o prefeito. Deve satisfazer as exigências de seus cidadãos, certo? Principalmente dos ricos. Pamius é provavelmente um dos mais ricos agora. Oh, e me faça um favor. Desconte o cheque apenas semana que vem.
Ele ainda teria que esperar que sua conta bancária fosse descongelada.
Nick deu meia-volta, decidido a sair da prefeitura e deixar aquele Vale para sempre, mas algo o fez parar e se virar.
— Oliver Castanelli morreu em 2009 — sussurrou para o homem. — Seu pai cometeu suicídio em 2010. A mãe vive, mas não por muito tempo mais. Acho que deveria anotar isso naquele seu grande livro dourado. Algum dia eu voltarei ao Vale para ver como Pamius está. Espero que rico e feliz.
Nick e Lincoln despediram-se de Pan na entrada do Vale das Sombras. Quase não reconheciam o garoto-criança que haviam retirado das ruínas de Lionville, com a pele suja de terra e os cabelos duros e embolados de sujeira. Ele agora era adorável e lindo, de uma beleza exótica estonteante. A inocência em seu rosto só o tornava mais atraente. Era impossível não se apaixonar por aqueles olhos castanhos e molhados.
Primeiro ele abraçou Lincoln, sendo que os dois trocaram palavras breves. Lincoln provavelmente não queria irromper em lágrimas, por isso se afastou rápido. Depois abraçou Nick, mais forte e por mais tempo. O cheiro de chocolate de seu cabelo sobreviveria para ele por muito, muito tempo.
— Eu vou sentir a sua falta — Nick disse com sinceridade. Os lábios volumosos sorriram para ele. Gostaria de ter tido a chance de lhe dar um selinho. Talvez ele nunca tivesse dado um antes. — De verdade, Pan, vou sentir. Você foi uma parte importante da minha vida. Nem faz ideia do quanto me ajudou a superar todas as minhas fraquezas. Talvez eu não tivesse suportado os quatro meses de perseguição sem você chiando como um gato todas as vezes que alguém ligava a TV sem avisar.
— Também vou sentir sua falta, Nick. Nunca vou te esquecer. Obrigado por me trazer de volta ao Vale das Sombras.
— Não há de quê. Ah, por favor, prometa para mim que nunca vai entrar na Floresta das Sombras. Espero que seja feliz na antiga casa de Oliver. Ele sempre vai estar vivo em nossos corações.
— Sim, em nossos corações. E em Lorenzo também.
Aquela foi a coisa mais perspicaz que Nicholas já ouviu Pan dizer em sua vida. Ele não fizera perguntas sobre a transformação de Lorenzo, embora claramente tenha demonstrado surpresa. Nick simplesmente pensou que Pan era como Lincoln, que tivesse negado tudo o que aconteceu por não ser capaz de compreender.
Viu-o se afastar em direção à casa de Mademoiselle Claudette, a última imagem que guardaria dele, uma figura alta de cabelos escuros se afastado numa imensidão branca de neve. O prefeito daria início à reforma da casa dos Castanelli na semana seguinte, como Nick o obrigara a prometer que faria. Pan estava seguro e seria feliz. Tudo estava bem.
Do lado de fora do Vale das Sombras, dentro do carro, Ethan e Lorenzo trocavam beijos em silêncio. Em meio à quietude devastadora da Floresta, estavam seguros o suficiente para que Lorenzo sentasse-se em seu colo e metesse a língua em sua boca.
— Eu queria ter ido ao Alasca — disse o menor.
— Alasca? Por quê?
— Porque, dos quarenta e nove estados americanos, esse é o único em que eu não pisei, a exceção do Havaí, mas o Havaí é uma ilha a um milhão de quilômetros daqui. O que acha, Ethan? Que tal umas férias no Havaí?
— Eu tenho ideias melhores que o Havaí.
— Há algo que eu ainda não entendo em relação a você ser um descendente de Atheneus. — Ethan havia lhe contado há algum tempo, em segredo, sobre seu sonho com Samuel e os três segredos. Nicholas não poderia saber sobre aquilo por causa de um dos três segredos. — Eu menti quando disse que Nick queimou os poderes, na verdade ele não tem ascendência bruxa de forma alguma, mas se ele é descendente de John Daniel, bem, de onde vem a sua?
— Eu pensei nisso — respondeu dando-lhe selinhos. — Obviamente não pode vir nem de Samuel nem de Mary Alice. Meu pai também está descartado, já que a sua descendência vem de sua mãe, como Rowan contou para nós. Os Barcarolli sempre foram bruxos desde o século XIX. Usando essa lógica, ela só pode vir de minha avó Joselia. Creio que ela era uma bruxa, deu cria à minha mãe e depois a mim. Acho que minha mãe queimou seus poderes, ou talvez não, ela sempre foi considerada uma mulher muito persuasiva. Lucas Fontanelle definitivamente queimou seus poderes. E eu também. Até que morri, é claro.
— Sua avó, a bruxa — disse Lorenzo espirituosamente. — Faz sentido. O que você consegue fazer, Ethan? Nunca me contou.
— Eu consigo hipnotizar as pessoas enquanto mantiver contato visual. Minha voz e meus olhos também conseguem convencer qualquer um a fazer praticamente qualquer coisa, e eu acho que isso é uma mistura tanto da bruxaria quanto da própria família Hentz.
— Sabe, talvez você deva tentar comprar a Apple durante o Halloween.
— Sim, vou pensar nisso. Você se lembra de alguma coisa de quando esteve morto? Eu sei que não me lembro, embora tenha certeza absoluta de que falei com Oliver. E tenho meia certeza de que foi sobre Elluryiel.
— Eu lembro… de pouco. Acho que me lembro da minha mãe. Não sei se a vi ou a senti ou se ela falou comigo. Mas sei que ela estava lá. Também me lembro do calor de Elluryiel e da Luz dela chegando aos meus olhos. Eu os abri para ver o rosto de Nicholas. E tem uma coisa que ela disse, três frases as quais nunca vou esquecer. O Paraíso não existe, nem o Inferno, nem o Purgatório. Deus e os anjos estão mortos há muito tempo. O que existe é a Luz, a Vida e o Poder.
Esperou que Ethan digerisse aquilo. Ele era tão agradável de se ver, principalmente quando pensava. Lorenzo beijou-o de novo.
— Deus está morto — ele disse em tom grave. — Se isso for verdade, quer dizer que Ele já viveu? E por que Elluryiel saberia disso, afinal? Ela vive na Terra há milênios, desde que o Canadá era habitado por tribos indígenas.
— Nick acha que não passa de tolices. Ele nunca acreditou e nunca vai acreditar que um dia houve um Criador. Mas eu acredito, Ethan. E acredito que esteja onde Ele estiver, Ele ainda vive e olha por nós. Não consigo viver sem acreditar nisso.
— A escolha é sua. A Luz, a Vida e o Poder de fato existem. Não se pode negar isso, por mais cético que você seja. Paraíso, Inferno e Purgatório estão na mente humana, e é lá que a consciência humana permanece até que desapareça ou que seja acordada novamente, como foi com sua mãe.
— É. Sabe, eu acho que precisamos falar com Rowan Pyatt novamente. Ligue para ele e peça que nos encontre em Middleland. Eu preciso saber o que eu sou. O que Elluryiel me tornou. Ela existe, mesmo que Deus não. Mas anjos são tolices de verdade. Eles não existem mesmo.
Chegaram em Las Vegas às seis e meia da manhã, após mais duas horas e meia de voo. Ethan, Nicholas, Lorenzo e Lincoln aproveitaram o tempo para dormir, uma vez que o primeiro dia do ano que vinha pela frente prometia ser tão cansativo quanto aquelas viagens estavam sendo.
Nick decidiu ir sozinho ao The Lancaster, mesmo com os protestos de Lincoln. Alugou uma limusine para trafegar pelas ruas tranquilas da cidade, onde o povo ainda acordava sonolento. Chegou a Las Vegas Boulevard em grande estilo, feliz por finalmente ter alguém para abrir a porta do carro por ele. Como era boa aquela sensação.
A suntuosa recepção estava quase vazia, com apenas alguns poucos dos que estavam hospedados acordados para caminhadas matinais. O café-da-manhã só abriria dali a uma hora.
— Bom dia — disse alegremente ao recepcionista, que forçou-se a sorrir àquela hora da manhã. — Eu gostaria de alugar um quarto. De preferência que fosse no trigésimo terceiro andar.
— Deixe-me ver. — Ele olhou na tela do computador por alguns segundos e digitou algo no teclado. — Sim, temos um quarto vago. De número 3.302. Está bom para o senhor?
— Está ótimo.
— Quanto tempo deseja ficar?
— Importa-se se eu der uma olhada no quarto antes? — Para facilitar as coisas, Nicholas estendeu um cartão de crédito internacional.
Minutos depois, estava acompanhando um dos funcionários do hotel pelo elevador. Conseguia perceber perfeitamente que ele estava começando a identificá-lo como Nicholas Hentz, mas isso não importava mais.
Ele abriu a porta do quarto 3.302, uma coisa enorme de madeira branca, com um cartão magnético muito moderno. Aquela porta parecia ser capaz de aguentar uma explosão de dinamite, e talvez fosse.
— Fique à vontade.
— Obrigado. Com licença.
Entrou no quarto e fechou a porta por trás de si. Andou em direção à enorme cama de casal e a arrastou de seu lugar habitual com alguma dificuldade. Depois pôs-se de quatro no chão e tateou a falha no carpete, levantando-a para mostrar o assoalho. Removeu a madeira quebrada e olhou lá dentro. O pacote estava intacto e empoeirado.
Nick o pegou, abriu-o e folheou o diário, reconhecendo suas próprias palavras. A nota de cinquenta dólares estava lá, graças a Deus. Se alguém tivesse encontrado aquilo, mesmo que não tivesse lido, teria levado a nota. Esse foi um dos maiores motivos para Nicholas deixá-la ali dentro.
Enfiou metade do pacote dentro de sua calça e cobriu-o com a camisa. Boa ideia a que Lincoln deu de ir até o hotel usando o sobretudo de Ethan.
Às seis horas e cinquenta minutos, o jatinho decolava de Las Vegas em direção ao Kansas.
— Por que você precisava escrever essa barbaridade? — indagou Ethan ao acabar de ler o relato de vinte e cinco páginas. — Você mencionou nosso caso no final de forma implícita. Se essa coisa fosse à mídia, alguém iria acabar desvendando isso.
— Ora, não importa por quê. — Nicholas estava com a cabeça enfiada na janela do jato, olhando a região desértica de Nevada se transformar em grandes campos de centeio. — Como conseguimos entrar em dois países diferentes sem nem mesmo mostrar os passaportes?
— Cornelius está usando a influência dele. Não vai durar muito. Só poderemos parar mais uma vez no Kansas e depois voar de volta para Middleland, onde finalmente teremos que derrotar Melchior antes que ele se apodere da Anhert e da fortuna.
— Matar.
— O quê?
— Matar Melchior. Nós vamos ter que matar Melchior. Você entende isso, não entende? Se não destruirmos aquela aberração psicótica, ele nunca vai descansar. Melchior nunca vai parar de tentar nos destruir, e eu sinceramente não aguento mais sofrer atentados contra minha vida, Ethan. Por isso não use eufemismos. Eu salvei sua vida e a do nosso irmão durante quatro meses. Eu penhorei nossa joia mais valiosa e inestimável. Eu mereço isso. Eu mereço a morte de Melchior. Dê-me a morte dele, Ethan.
Ethan fitou-o com seriedade durante muito tempo.
— Está bem, Nicholas. Eu vou matar Melchior. Eu, não você. Você não vai ver acontecer. Nem vai saber o que vou fazer com ele. Você não vai ver a expressão de sofrimento dele. Você já matou pessoas demais. — Ele apertou sua mão, talvez para demonstrar que se lembrava de Harmount. — Ele vai morrer rápido. Afinal de tudo, Melchior é nosso primo. A família dele merece mais que isso, já aguentaram a morte de Julie e de Lance. A de Melchior vai ser um tremendo baque. Vamos fingir que ele cometeu suicídio.
— Que seja. Desde que ele morra. Você acha que eu escrevo bem?
— Sim, você escreve muito bem.
— Que bom, porque depois de eu vou escrever um roteiro disso. Eu quero transformar a história de Pan num filme. Você vai me contratar através da HBC como produtor e eu vou escolher o diretor e os atores que vão transformar o roteiro no meu filme do jeito que eu quero. E você vai pagar. Depois que eu ganhar meu Emmy, quero o Oscar. Vou esmagar Hollywood com minha aparência andrógina e meus dezesseis anos. Ah, se vou.
O jato aportou em Kansas City às nove horas e quinze minutos da manhã. De lá, Ethan alugou um carro de luxo para seguirem à cidade interiorana de Baudelaire, onde acompanhou Nicholas até a humilde loja de penhores onde descansava o diamante mais valioso do mundo.
Nicholas tocou a campainha de cima do balcão e esperou pacientemente. Ethan batia o pé com a cara fechada, irritado e de braços cruzados. Os outros meninos ficaram esperando no carro.
— Seiscentos e cinquenta mil dólares — ele resmungou pela milésima vez. — Seiscentos e cinquenta mil dólares, pelo amor de Deus. Ele vale pelo menos vinte milhões de dólares. Sabe o que colecionadores fariam para pôr as mãos naquele diamante? Um membro da família Goldenschild já me ofereceu dez milhões e um castelo na Noruega de quatro séculos de idade por todas as joias vindas do Diamante Hentz.
— Então você é o grande culpado por não morarmos na Noruega?
O homem com quem Nicholas fizera a troca apareceu dos fundos da loja. Ele demorou exatos quatro segundos para reconhecer Nick, não como o famoso Nicholas Hentz, mas sim como aquele que lhe vendera um diamante do tamanho da cabeça de uma boneca.
— Bom dia — disse animadamente. — Lembra-se de mim? Eu te dei um diamante gigante em troca de seiscentos e cinquenta mil dólares. Aqui está o canhoto. — Estendeu o ticket que o homem lhe deu em garantia. — Meu irmão vai fazer-lhe um cheque de seiscentos e cinquenta mil dólares.
— Oh, você tem certeza que não quer vendê-lo em definitivo? Posso arrumar mais dinheiro.
— Senhor — disse Ethan numa voz muito mais séria e controladora. O homem automaticamente olhou para ele. Sua expressão paralisou-se ligeiramente. — Traga-nos o diamante. Agora.
Ele deu meia-volta. O poder de um bruxo era o poder de um bruxo.
Quando voltou, tinha o fabuloso Anel da Matriarca em mãos. Ethan o segurou contra a luz do recinto para ver se era o original, então delicadamente o pôs no chão e pisou com força em cima. A pedra ficou intacta. Nada de zircônia cúbica, maninho.
— Está bem — ele disse deslizando o anel no dedo anelar da mão direita de Nicholas, de onde nunca deveria ter saído. Tirou um cheque já pronto de dentro do sobretudo e entregou-lhe. — Sei que vai querer descontar isso. Vamos esperar aqui, mas só se você for ao banco agora.
Quando ele foi embora, Nick perguntou a Ethan:
— Como você está extravagando tanto se nossas contas estão congeladas?
— Cornelius me fez alguns empréstimos. Ele me fez esse cheque quando eu percebi que precisaria pagar pelo anel. Agora vamos voltar à Middleland e ir até o Palácio Real Hentz de helicóptero, resolver as coisas com Melchior e então…
— Avisar a imprensa — falou. — E eu serei preso.
— Apenas por alguns minutos. Eu pagarei a fiança antes mesmo que você ponha os pés na delegacia. Mas… você vai enfrentar o tribunal. Eles ainda vão te indiciar pelo sequestro de Lorenzo. De qualquer forma, você não poderia tê-lo levado consigo, mesmo que isso tenha salvo a vida dele.
— Como explicaremos isso? Como explicar a mudança da cor do cabelo e dos olhos dele?
— Não precisamos explicar coisa nenhuma. Michael Jackson nunca explicou. Além do mais, não tem problema em trazermos alguns mistérios e polêmicas para nossa família. Quanto a sua condenação, Nicholas, acredito que você será condenado a prestar serviços comunitários.
— Está falando que vou me tornar uma daquelas pessoas que vestem roupas laranjas de dia e recolhem lixo de debaixo de pontes? Bem, eu sempre fiquei bem de laranja. Engraçado pensar que ao mesmo tempo estarei produzindo um filme na HBC. Catador de lixo condenado de dia, celebridade multibilionária de noite. Posso viver com isso.
— Tem outra coisa também. A sua escola.
— Ethan, o ACEM é amanhã. Se eu fizer o teste e passar, recebo o diploma de Ensino Médio. Se não passar, paciência. Ainda posso estudar em casa. E sim, eu vou estudar enquanto cumpro minha pena e produzo um filme. Se você pode fazer tanta coisa, por que eu não posso?
Ethan envolveu a cintura do irmão com os braços e puxou-o para beijá-lo carinhosamente. Como era maravilhosa a sensação de ser protegido por alguém maior, mais alto e mais poderoso. Suas feições mudaram, os olhos estavam mais agressivos e insensíveis, mas sua voz e sorriso continuavam tão amorosos e apaixonados quanto antes. Sim, Nick era apaixonado por Ethan, e agora que tudo acabara podia finalmente exercer seu amor.
A sensação era de ser promovido ao Paraíso após uma boa temporada no Inferno. Se Nick acreditasse nessas coisas, poderia de fato falar essa metáfora em voz alta, mas até lá que ficasse bem enterrada em sua mente, junto com seus distúrbios e tristezas.
O voo de Kansas City para Middleland levou três cansativas horas. Faltavam quinze minutos para uma hora da tarde, onde Melchior religiosamente exigiria seu direito divino aos bens e fortuna da família Hentz.
Eles encontraram Lauren Mayfair e Liam Stonem numa área reservada do aeroporto, onde podiam ficar longe de olhares curiosos. Cornelius realmente pensara em tudo. Lauren deu um abraço em Ethan, Liam deu-lhe um aperto de mão caloroso. Os três mais Nicholas, Lorenzo e Lincoln seguiram ao heliporto, onde o helicóptero de Cornelius os esperava.
— Ethan — disse Lauren —, há algo que precisa saber. Melchior tentou fazer lobby com a maioria dos diretores dos departamentos para antecipar o máximo possível a transferência da empresa para ele. Conseguiu que Carlisle Knowles e Celine Colby lhe dessem apoio.
— Oh, mas isso é bastante ruim — comentou tranquilamente. Knowles era diretor do departamento de contabilidade e Colby controlava praticamente todos os transportes de cargas pesadas que a Anhert fazia. Nada relacionado a mineração ou a petróleo, mas já era alguma coisa. — Vamos ter que cuidar disso, não vamos? Que horas são?
— Uma hora da tarde — respondeu Nicholas.
Eles sobrevoavam Wintorland. A torre do Palácio Real Hentz era visível ao longe, alta, magnífica e suprema. Indestrutível e imortal assim como eles.
— O que eles estão dizendo sobre a explosão da casa em Sacramento? — Nicholas indagou.
Lauren e Liam olharam para si. A mensagem era clara. Mea culpa.
— Estão investigando — respondeu Liam. — Acreditam ter sido causada por uma falha nas tubulações de gás da propriedade. O Palácio do Governo está polvoroso. O Primeiro Ministro se prepara para dar uma declaração formal em relação à morte da governadora e desejar boa sorte ao seu suplente, que vai assumir o cargo. Os ministros já foram substituídos. Em breve os suplentes dos parlamentares e da senadora também assumirão.
— Bom saber — disse Ethan. — A primeira coisa que farei após retomar a presidência será emitir um comunicado sobre meus pêsames em relação a essa terrível tragédia. Pobre Melinda. Uma mulher tão… cheia de inimigos.
Para Nicholas Hentz, voltar àquele grandioso prédio em forma de lança, o maior do sul da Califórnia, após quatro meses de ausência e risco de vida era um tanto quanto incômodo. Sentia-se um rei voltando de uma caçada sem nenhuma carcaça de javali para mostrar como prêmio, um derrotado, mesmo que estivesse a ponto de derrotar o vilão da história. Por que sentia-se assim? Ethan dizia que era a culpa de ter fugido caindo sobre ele.
Da última vez que estivera ali foi para fugir com Lorenzo na calada da noite, com Jules ajudando-o a abrir o cofre e a retirar o dinheiro. Foi para ver toda a sua magnífica vida ruir em pedaços bem a sua frente sem poder fazer nada. Foi para agir sem pensar, como é intrínseco a ele. Quando a imprensa soubesse de seu retorno, teria as digitais tiradas e em breve iria parar em um tribunal. Julgado pelo sequestro de Lorenzo. Ironias da vida.
Após aportarem no heliporto do Palácio Real Hentz, Nick, Ethan, Lorenzo, Lincoln, Lauren e Liam pegaram o enorme elevador para descer ao nonagésimo quinto andar. As portas de metal se abriram no confortável hall. Anteriormente destruída por Devon Lancaster, a bela porta de madeira que permitia entrada para o escritório de Ethan havia sido reconstruída. O símbolo e o lema da Anhert estavam gravados como antes, poderosos e poéticos. Um leão dourado erguido em duas patas a rugir para o lado esquerdo num fundo preto com lascas douradas. E circundando-o, duas frases numa linda fonte, primeiro o nome Anhert Corporation e depois o lema: Negro ou dourado, um leão é um leão.
Não havia verdade maior ou mais maravilhosa.
Foi Ethan quem girou a maçaneta da porta e a empurrou para dentro. Nick teve a súbita impressão de que aquele escritório era maior da última vez que estivera ali. Talvez fosse outra metáfora para seu crescimento emocional durante a jornada dourada. Sempre achamos que os lugares onde estivemos quando pequenos eram maiores.
Um cheiro forte de nicotina e café pairava no ar abafado do escritório. Janelas fechadas, todas elas, e eram muitas. Os móveis haviam sido reorganizados, quebrando a delicada sincronia que anteriormente faziam com o ambiente. Havia um espaço zen ali perto, não havia? Onde fora parar? As poucas luzes ligadas transformavam o escritório numa caverna mais ou menos parecida com a que fora o de John Fauntleroy.
Diversos homens de terno e mulheres em trajes elegantes estavam sentados em volta da mesa de reuniões de vidro. Olhavam para o jovem rapaz sentado à cabeceira. Melchior era o único sentado de costas para a porta, de forma que só notou que alguém entrara quando todos os diretores e diretoras arregalaram os olhos, cuspiram seus goles de água e se levantaram de imediato como se estivessem na presença do Rei Senn ou do Primeiro Ministro.
Melhor, de Deus, pensou marotamente Nick.
— Senhores e senhoras. — A voz alta de Ethan por algum motivo pareceu ressoar ainda mais alta naquela caverna terrível. Melchior mexeu-se com lentidão, retraindo o corpo com dificuldade por dentro de um sobretudo marrom. Por Deus, tomara que aquela mancha nas costas não fosse de café, e sim pertencente ao vestuário. Foi surpreendente que não houvesse gritado. Quem não gritaria ao ver um fantasma por trás de si? — Que bom vê-los novamente. Creio que não sentiram minha falta.
Melchior era uma sombra do que um dia fora. Seus cabelos cinzentos, antes cheios e macios, estavam amarrotados e despenteados, sem o brilho que sempre tiveram. Grisalhos. Pareciam os cabelos grisalhos de um idoso. Os olhos exóticos cor violeta estavam foscos sobre enormes olheiras violáceas. Um pavor crescente os tomava, mesmo que o resto da pele do rosto, acinzentada e doentia, nem chegasse perto de se enrugar. Aquilo era algo que Nick sempre invejara em Melchior, ele tinha a pele macia e lisa de um bebê. Era possível que na velhice parecesse tão jovem quanto Samuel Hentz parecera. Mas os lábios secos e rachados dificultavam essa percepção. Nick não duvidava nada que seus dentes estivessem amarelados pelo café. Melchior parecia ter sido ele a vítima de cativeiro, e não Ethan.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Uma situação divertida se formava ali. A pedido, ou insistência, chame como quiser, de Nick, Ethan deixara que ele o desarrumasse propositalmente. O cabelo negro bem penteado fora charmosamente amarrotado. A gravata nem sequer tinha um nó, era só um laço dando volta em seu pescoço. Sua camisa de manga comprida possuía vários botões abertos no peito e um ou dois nas mangas. O sobretudo preto caía elegante sobre suas costas, mais ou menos como a capa de um juiz do Supremo. Ah, e era bom vê-lo de óculos novamente, não aquelas coisas finas e retangulares, mas mais modernos e grossos, escolhidos por Nick. É, ele ficava lindo assim. Sexy. Bem diferente de Melchior. Melchior nascera para ser esfregado com uma flanela até estar limpo como uma janela de vidro.
— Eu já assinei o contrato — ele grunhiu, não em sua voz macia e amaneirada de habitual, a que todo mundo gostava de ouvir mesmo que só esteja a dizer besteiras, mas num ruído desagradável, grave e até mesmo meio primitivo. — Já assinei, e todos eles também. Não há mais nada que você possa fazer. A Anhert Corporation é minha.
Se Ethan não estivesse ali, Nick poderia ter ficado preocupado.
Mas uma coisa estranha aconteceu com uma das diretoras que estavam sentadas ao lado de Melchior, uma linda mulher de pele e cabelos escuros que Nick reconheceu como sendo Marguerite du Bois, a diretora-geral da HBC e mentora de todos os filmes e séries de TV que a indústria produzia, inclusive a série Lympharia. Ela arrancou o contrato das mãos de Melchior e, sem hesitar, rasgou-o em pedaços na frente de todos.
Ele olhou para ela como se houvesse acabado de receber uma proposta indecente em alto e bom tom. A expressão em sua face era bem legível. Não acredito que ela fez isso e não acredito que isso aconteceu comigo.
Isso é bom, pensou Nick exultante. Vou passar muito tempo com essa mulher bolando planos para chantagear Ethan para que ele aumente o orçamento do filme que vou produzir.
— Eu creio que nenhum de nós vai testemunhar que esse contrato foi uma vez assinado — disse Marguerite du Bois em tom autoritário. Olhava ameaçadoramente para os outros diretores. Seus lábios estavam pintados num tom escuro de vermelho que Nick achava muito bonito. Ela tinha cabelos escuros artificialmente lisos que chegavam até a cintura e usava um terninho feminino em tons de cinza e verde-escuro que ficava lindo em seu corpo. Não tinha muito mais que quarenta e poucos anos.
— Agradeço por isso, Marguerite — disse Ethan com seu olhar de pedra fixo em Melchior e apenas em Melchior. — Senhores e senhoras, agradeceria também se me deixassem a sós com o Sr. Chioren. Voltem para seus departamentos e façam o que vocês foram contratados para fazer.
Os diretores não discutiram, ninguém disse absolutamente nada. Começaram a passar silenciosamente em multidão ao redor de Ethan em direção ao hall. Nick olhava a expressão de todos. Felicidade, surpresa, pesar, havia de tudo. Reconheceu Carlisle Knowles e Celine Colby quando Ethan parou-os com uma delicadeza notável e sussurrou algo sem ousar interromper o contato visual com Melchior.
— Vou esperar as cartas de demissão de vocês dois amanhã cedo na minha mesa.
Lincoln havia saído a pedido de Nick, Liam e Lauren a pedido de Ethan. A porta do escritório se fechou num baque, deixando os irmãos sozinhos com Melchior. Melchior fitava Ethan com um terror desvairado no olhar. Lorenzo apertou a mão de Nick e deu um passo para trás, evidentemente com a intenção de empurrar o irmão do meio para longe.
— O que houve com você? — Ethan indagou num tom baixo e sombrio, um tom perigoso, e aproximou-se lentamente dele. — Você perdeu seu juízo perfeito? A noção do perigo? Ou mesmo sua habilidade de manipular as pessoas? O Melchior que eu conhecia teria feito lobby facilmente com pelo menos metade dos diretores num piscar de olhos, mas Carlisle e Celine? Aqueles dois insignificantes? Isso é tudo o que você conseguiu? O Melchior que eu conhecia teria explodido aquele elevador no momento em que entrei nele apenas para não me deixar chegar nem perto de reassumir a presidência. Você sabia que os Lancaster haviam feito isso, você viu a morte deles na TV. Você sabia que eu estava vindo para cá. E nem mesmo pensou em tomar precauções? Mover o local da reunião para outro lugar? Você deveria ter pensado nisso! Deus, o que houve com você? Seu cabelo, sua pele, seus olhos? Ficou assim depois de matar John? E onde está seu sobretudo?
— Ethan, p-por favor, espere um momento, deixe-me explicar…
Ethan não deixou-o se explicar porque estava muito ocupado fechando a mão num punho e acertando-a em seu olho direito. Arrancou-lhe um grito fino e ridículo. Melchior caiu no chão sem nem tentar lutar, ao passo que Ethan ergueu-o pela camisa e empurrou-o violentamente contra a parede. Eram da mesma altura, da mesma compleição física, então por que um parecia agigantado em relação ao outro? Ou era o outro que se apequenara?
— Eu já te perdoei por fazer muitas coisas horríveis, Melchior, inclusive matar Robb, porque se não tivesse perdoado eu não teria apenas te colocado no ostracismo, como fiz. Eu teria matado você no teatro da St. Nicholas. Mas você matou John e nada me impede de achar que você pôs Jules em coma. Você tentou roubar minha empresa e a fortuna da minha família. Não se importou nem um pouco com a perspectiva de meus irmãos morrerem de fome ao se recusar a passar o um milhão de dólares para Nicholas. E ainda ousa usar o Anel do Patriarca. Eu quero me vingar de você, Melchior.
— E-eu sou seu primo, Ethan — ele choramingou pondo as mãos fracamente na frente do peito como se fosse adiantar de algo. Se fosse outra pessoa, Nick poderia ter sentindo pena. — P-por favor, pare com isso…
— Lembra-se da última coisa que você fez com seu outro primo, Robb? Talvez eu siga seu exemplo. Você está completamente louco, não vê isso?
Ethan arrancou o Anel do Patriarca com violência de sua mão. Melchior não respondeu a isso nem corporal nem verbalmente, o que foi estranho, porque deveria ter doído como o diabo.
Nick suspirou de tédio. Olhou em volta do escritório, procurando mentalizar uma decoração georgiana naquele grande retângulo. Se até o Vale das Sombras, que era um retângulo, tinha sua beleza, por que o escritório de Ethan não poderia ter? Sim, ele o redecoraria, e iria começar se livrando daquela mesa horrorosa de vidro. Os quadros dos antepassados voltariam à parede e o Rembrandt permaneceria. Esses eram valiosos demais para irem.
Melchior voltou a gritar quando olhou para Lorenzo, o que foi engraçado e triste ao mesmo tempo. Nick quase se esquecera de que ele conhecera Oliver na infância. Bem, havia alguém que nunca conhecera Oliver?
Já Lorenzo, esse tinha uma expressão de repugnância no rosto. Mas não era de Melchior. Era da humilhação que Ethan o estava fazendo sofrer.
— Você deveria ter previsto que eu o mataria, Melchior.
Melchior olhou para Ethan, e no mesmo instante deixou de olhar, embora seus olhos continuassem virados para os dele. Nick notou que ele usava seu poder. As gemas violetas se desfocalizaram, tornando-se perturbadoras de se ver porque davam a impressão de serem preciosas ametistas costuradas num rosto humano. Seus membros simplesmente pararam de funcionar, ficando bambos e fracos, e de seus lábios saiu um barulho extremamente baixo e grave. Ethan o segurou em pé com a gola da camisa.
— Meu Deus — Lorenzo balbuciou. Seus olhos azuis nunca estiveram tão arregalados quanto agora. — Ethan, não, pare com isso! Sua raiva vai matá-lo, você vai matá-lo! Suas Sombras o estão sufocando!
— Ele sabe que vai matá-lo — Nick sussurrou. Preparava-se para deixar roxo o outro olho, era o que esperava.
— Você não entende! — Lorenzo gritou verdadeiramente irritado. — Tem duas pessoas dentro dele!
O transe de Melchior sumiu tão rápido quanto apareceu. Ele agarrou os cabelos cinzentos, espremendo-os entre os dedos, e começou a gritar, não de pavor ou de dor, mas de uma coisa que nenhum dos três tinha conhecimento. Talvez Lorenzo tivesse, uma vez que ele cobriu os olhos e virou-se para a parede. Melchior caiu de joelhos, ainda gritando, e pôs-se em posição fetal. Agora chorava como um bebê recém-nascido, seu rosto uma vez bonito contorcido em sofrimento.
Ethan estava espantado. Fora pego completamente desprevenido. Lorenzo estava ao mesmo tempo irritado e temeroso. Nick não sabia o que era mais desagradável, ver uma pessoa tão grande ruir pateticamente bem na sua frente ou o fato de que ele acabara de soltar a própria bexiga.
— Melchior? — indagou Ethan com quietude. A preocupação maternal em sua voz, aquela que ele só reservava aos irmãos, fez o olhar de Nick cair sobre ele como um corvo num cadáver. — Você está bem? Como você está se sentindo? Melchior?
Melchior levantou a cabeça. Olhos marejados e pedintes, quase meigos, fitaram Ethan de baixo. O violeta havia retornado bastante brilhante e claro.
— Meu nome é… Melon.
— Melon — ele repetiu com lentidão. Ignorando a poça do líquido repulsivo que escorrera de dentro de sua calça e agora se acumulava no carpete, Ethan ajoelhou-se e com cuidado ajudou-o a se sentar contra a parede. Passou os dedos calmamente no machucado de seu olho, limpando as lágrimas. Tirou uma mecha da testa suada. — Desculpe-me por machucá-lo.
Nesse momento, Nick sentiu o que pensava ter sido a mesma coisa que Lincoln sentira ao ouvi-lo dizer que deixaria Devon viver. Se tivesse uma arma ali, a teria levantado e atirado na testa de Melchior duas vezes, mesmo que soubesse que Ethan nunca o perdoaria por isso.
— O que você está fazendo?! — gritou meio descontrolado. — Esqueceu-se de quem ele é? Esqueceu-se do que ele fez? Você me prometeu! Você me prometeu matar Melchior! Eu salvei a sua vida, agora dê-me a dele!
Ethan se levantou. Aproximou-se de Nick com lentidão, apenas cinco centímetros mais alto que ele, mas mesmo assim terrivelmente maior. Exibia uma compleição infinitamente paciente e cheia de sabedoria, de sofrimento e de absoluta pena. Era difícil não sentir pena pela coisa em que se tornara aquele garoto que agora, pelo amor de Deus, chupava o dedão.
— Mas Nicholas, você não entende? — Olharam para ele de volta. Encolhido na parede, com olhos grandes e molhados, quase cor-de-rosa, e meio idiotizados. Um garoto-criança. Como Pan. — Melchior está morto. Eu acabei de matá-lo.
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