Como Vivem Os Anjos
70 Epílogo V — Parte Dois
Notas iniciais
Vincit qui tapitut.
(Do latim, “Quem não sabe sofrer, não sabe vencer”)
OoO
Devido a sua histeria crescente, Melchior foi levado numa ambulância. Semanas mais tarde, saber-se-ia que Melchior havia sido diagnosticado por um psiquiatra com depressão, bipolaridade, ansiedade, transtornos narcisista e obsessivo-compulsivo, dupla personalidade, megalomania e psicopatia. Ele foi instaurado numa instituição psiquiátrica em Middleland e teve todo e qualquer contato com sua família cortado por decisão de seus médicos.
Mas antes de se saber de tudo isso, ainda em 1 de janeiro de 2015, a família Hentz e a família Chioren encontraram-se do lado de fora da instituição. A essa altura, a imprensa já havia sido avisada do reaparecimento de Ethan Lemnsack e estava polvorosa por detalhes. Nicholas havia sido levado em custódia, mas Lauren já providenciava o pagamento de sua fiança, de modo que não apareceu nesse encontro. Só Ethan, Lorenzo, os pais de Melchior e todo o exército que ele chamava de irmãos e primos.
Ethan aproximou-se de Leoh Chioren. Via-se a semelhança do pai nos filhos, o contorno de seu maxilar e o formato dos olhos estavam em Melchior, apesar de os dele serem azuis com leves toques violáceos e de o cabelo ser castanho. Todo o cinza que aparecia, duas mechas surgindo das têmporas, provinha da idade e, talvez, da morte da filha e do irmão. Anyce Chioren era uma mulher baixa, da altura de Nicholas, de compleição bonita e firme. Tinha uma longa leva de cabelos escuros e olhos castanhos e confiantes. Uma mãe de oito filhos até a morte de Julie, mais dos sobrinhos Hugh e Howl, os gêmeos de Lance que moravam com os tios desde que viraram órfãos.
— Olá — disse Ethan com Lorenzo em seu encalço. Por trás dos adultos, as crianças todas pareciam entristecidas e chorosas. Os dois mais novos, Robbet e Tarly, debulhavam-se em lágrimas. Até o menino de três anos, Teo, parecia triste. A única pessoa normal era o bebê nos braços de Any, uma criatura assustadora de cabelos brancos e olhos púrpuras chamada Violett. — Sr. e Sra. Chioren.
Estou sendo formal demais?, perguntou-se. O casal a sua frente já perdera dois filhos, embora este último não estivesse exatamente morto, e um irmão. Não mereciam mais que isso. Não mereciam pagar pelos crimes de Melchior, não importa o que Nicholas pensasse.
— Sinto muito pelo que aconteceu a Melon — disse em sua voz mais deprimida possível. Para falar a verdade, realmente se sentia assim.
— Você estava com ele quando aconteceu — disse Any —, não é?
— Bem, sim. Estávamos no meu escritório. Ele já não parecia bem. Talvez minha aparição o tenha assustado de tal modo que tenha causado o colapso nervoso. Creio que ele achasse que eu estava morto. Ele começou a gritar e então se encolheu no chão. Quando levantou a cabeça, não se lembrava da maior parte do que lhe acontecera.
Em resumo, ele o fiz enlouquecer com meus poderes psíquicos. Mas não era coisa que se dissesse aos pais da pobre vítima.
— Vocês sabem da história, não sabem? — indagou atraindo a atenção de Leoh. — Sobre Samuel e Cistie. Se ainda têm dúvidas disso, eu gostaria de dizer que sim, a história é verdadeira. Eu li alguns documentos antigos do meu avô e ele realmente teve um caso com a sua mãe. Durou dez anos.
É claro que não significa que ele não teve outros casos durante esse tempo. Novamente, não era coisa que se dissesse.
— Isso quer dizer que você é meu sobrinho? — Leoh indagou. Ethan deu de ombros. — Eu não pretendo ir atrás da herança do seu avô, se se pergunta isso. — Engraçado como ele realmente era incapaz de falar em voz alta que Samuel Hentz fora seu pai. Qual era mesmo o nome do marido de Cistie? John Weswalk. Através de uma amante, ele era pai de Any, avô de Robb Thanathos e de London Weswalk, e através de outra era avô de Ritchi Revonne. Cistie e John ficaram casados por trinta e um anos e não tiveram filhos entre si, mas ninguém além de Ethan e Melchior sabia disso.
— Eu não acho isso — Ethan falou gentilmente. — Queria falar sobre outra coisa, na verdade. Eu sei que Marco só estuda na Escola St. Nicholas porque Melon pagava a mensalidade dele com a fortuna que acumulou. Também sei que vocês têm muitos filhos. É por isso que eu gostaria de oferecer a cada um deles, de Violett a Samwell, uma bolsa de estudos na Academia Hentz. É, são as vantagens de se comprar uma escola.
— Fala sério? — perguntou Any.
— Sim, falo. Eu não me esqueceria deles. Afinal de contas… são todos meus primos.
O bebê nos braços de Any começou a fazer barulhos engraçados com a boca. Ethan fitou profundamente os olhos de Violett Chioren à procura de algo. Seria mais fácil se soubesse o que era. Sentiu uma vontade gostosa de rir. Olhar para Violett era como olhar uma versão feminina de Melchior.
— Se eu soubesse que você era meu sobrinho quando seus pais morreram…
— Esqueça isso. O sufoco que eu passei para tomar a guarda de Nicholas fez bem a todos nós. E você não gostaria de ter tido minha mãe como irmã. Ela não era uma pessoa fácil.
— Posso tocar nela? — Lorenzo indagou adoravelmente. A vontade de rir de Ethan aumentou. Era muito agradável ver a expressão das pessoas quando olhavam para Lorenzo e viam que não apenas estava com os cabelos e os olhos claros, mas também estava vivo. De qualquer jeito, ele usava óculos escuros. A visão poderia ser explicado depois. — Em Violett?
Any delicadamente mostrou-lhe o bebê de quase três meses. Sua cabeça era perfeitamente redonda, assim como os olhos. Era possível que os cabelos parecessem ser tão claros porque ela era um bebê e os fios eram finos e ralos como teias de aranha. Escureceria quando ela crescesse. Nenhuma garota de seis ou sete anos teria cabelos tão imensamente brancos como aqueles se mostravam. Simplesmente não era normal.
Lorenzo estendeu a mão e com seus dedos finos e compridos tocou no braço gorducho de Violett. Deu um grito fino e puxou a mão imediatamente, como se ela queimasse. Em seu rosto via-se pavor.
— O que foi? — indagou Ethan.
— Ah, é que… desculpem-me. — Ele sorriu voltando a sua elegância aristocrática, como se fosse um senador romano. — É que nunca toquei num bebê antes. Eles são tão estranhos. Tão frágeis.
A mentira estava impregnada na voz dele. E, meu Deus, só Ethan podia perceber.
Lorenzo foi falar com Marco e os outros meninos depois disso. Diferentemente dos pais, Marco não escondeu o assombro ao ver o garoto que no Jardim de Ouro conhecera como sendo baixo e de cabelos negros com as madeixas claras como a água da fonte da instituição psiquiátrica e alto como ele próprio. Ninguém mencionava os olhos por causa dos óculos. Notava-se dessa forma que Lorenzo nunca parecera ser realmente cego, considerando que agora que não o era ninguém percebia a diferença.
No fim da tarde, enquanto voltavam para casa na limusine Rolls-Royce, Lorenzo estremeceu e se arrepiou.
— Ethan, mate aquela coisa com fogo.
— O quê?
— Você sabe do que estou falando! Violett! Aquela aberração! Ethan, você se lembra dos três segredos de Samuel, você mesmo me contou! Um grande mal acabou de nascer no mundo. Esse mal deve ser extirpado o quanto antes. Ele tem meu sangue, tem o sangue de todos nós. Seu irmão Lorenzo saberá que mal é esse quando chegar a tocá-lo. Ele também disse que você deve ser implacável.
— Lorenzo, não vou matar um bebê, não me importa o que um fantasma num sonho me disse ou não.
— Tem o sangue de Samuel! Ela é neta de Samuel! Bisneta de John Daniel e trineta de John Francis! O sangue de todos eles. Ethan, você não faz a mínima ideia do que eu senti quando toquei nela. Talvez eu só tenha sentido Sombras tão vívidas assim quando Rowan morava perto de nós e vimos todos aqueles horrores lovecraftianos. Ouça o que eu digo. Violett Chioren vai ser o motivo da derradeira queda dos Hentz.
— Lorenzo, com uma coisa Samuel não contava. Ele não contava que eu fosse acidentalmente matar Melchior. Sem Melchior, e só com o Melon amedrontado e que ama os irmãos por perto, quem vai influenciar Violett a odiar os Hentz? Ela tampouco vai se vingar. Ninguém sabe que eu fiz isso além de você e de Nicholas.
— Você está propositalmente me ignorando. Violett Chioren tem que morrer ou morremos nós.
— Ela não vai morrer. Não quero ouvi-lo dar mais um pio sobre Violett. Ela é minha prima de sangue e eu não a matarei. E não conte isso para Nicholas ou ele vai ficar tão pior quanto já está. Ele foi preso, se não se lembra.
— Ethan…
— Lorenzo, estou falando sério. Esqueça Violett Chioren. A menina vai crescer em paz. E ponto final.
Nicholas Hentz havia voltado ao escritório de Ethan após ser algemado, fichado e preso. Lauren Mayfair fora à delegacia pagar sua fiança. Com alguma dificuldade, os dois voltaram ao carro após se livrarem de centenas de jornalistas com máquinas fotográficas e filmadoras do tamanho de canhões. Ver todos aqueles homens e mulheres atirando perguntas em seu rosto antes de se enfiar de volta em sua amada limusine foi como ver um monte de crianças correndo para pegar os doces caídos de uma pinhata.
Eles seguiram em volta do carro por pelo menos vinte metros antes que o motorista tivesse chance de chegar à avenida e acelerar. Agora atingiam a Rua Primeira para voltar ao Palácio.
— Onde estão Ethan e Lorenzo? — perguntou a Lauren.
Sem esperar resposta, Nicholas tirou um espelho portátil do bolso e começou a ajeitar o próprio cabelo. Em outros tempos, quando seu cabelo era tão comprido quanto o de uma mulher, teria ficado com aparência pior. Agora nem tanto. Mas mesmo assim… era como se se importasse menos. E daí que alguns de seus fios estivessem desalinhados e seu rosto estivesse molhado de suor? Talvez uma das sobrancelhas precisasse ser aparada, mas quem se importava? Já parou por um segundo para se perguntar quem se importava se sua franja estava torta? Ele era um ser humano, tinha defeitos.
Como pude passar tantos anos afundado em tanta futilidade? Por que é mesmo que eu fiquei anoréxico? Queria emagrecer? Quem se importa com meu peso? Eu sei que eu não me importo mais. A mídia, no entanto…
— Estavam com a família Chioren no Hospital Psiquiátrico de Middleland — ela respondeu. — Agora estão voltando para casa.
— Nem dá pra acreditar que vinte e duas horas atrás Ethan ainda estava em cativeiro. Devia ter estado lá em Sacramento, Lauren. Foi um tremendo banho de sangue. Meu amigo Lincoln matou Devon com dois tiros e a cunhada de Melinda a matou estrangulada. Eu vi o rosto da mulher ficando preto. Mesmo assim, os olhos azuis continuaram perfeitamente azuis.
— Não fale isso em voz alta. Você ainda precisa de um tremendo álibi para tudo e a última coisa que quer são jornalistas enxeridos investigando a verdade. Se quer ouvir uma coisa, se alguém procurar saber, eles vão saber.
— Não se preocupe. Cornelius Goldenschild vem aí. Diga-me, Lauren, quando Ethan a contratou como advogada você esperava ter que lidar com situações tão estranhas? Esperava ter que mentir, conspirar, obstruir e manipular em nosso nome?
— Por incrível que pareça, esperava. Estava ansiosa por isso. John Fauntleroy passou por situações muito piores com Samuel.
— Entendo. Diga-me outra coisa. Considerando que você é advogada da família Hentz como um todo, isso significa que eu posso usar de suas habilidades advocatícias sem no entanto pedir permissão a Ethan, não é? Mas como ele a contratou, também significa que qualquer coisa que eu pedir para você fazer por mim terá que ser reportada a ele, certo?
— Sim e sim.
Nick tirou a carteira do bolso e procurou uma nota de um dólar. Difícil achá-la entre tantas notas de cem dólares, devia ter umas quinze, mas por fim conseguiu. Um legítimo dólar californiano, e não um daqueles verdes americanos. Por que nunca colocaram o rosto de Henrietta naquelas notas?
— Pegue isso. Pronto, agora estou oficialmente contratando você independentemente da família Hentz, o que significa que não quero que você conte a Ethan o que pretendo fazer. Eu quero comprar duas casas. Uma delas fica na First Street do Garden District em Nova Orleans, é um casarão colonial francês que pertence a uma organização chamada Chaulwen. Está em nome de um garoto chamado Rowan Pyatt. Ou Rowan Atheneus. Não sei que nome ele usou, tente os dois. Ele disse que me daria a mansão de graça, mas eu não quero simplesmente pegar dele. Faça um cheque de um milhão de dólares. Se quer saber, é imensamente menos do que a casa vale.
— Entendo, você foi à Nova Orleans e gostou de lá. E quanto à segunda casa?
— Eu não sei. Ainda não decidi. Eu quero morar lá.
— Você quer se mudar do Palácio?
— Quero, eu quero me mudar do Palácio. Isso é, de certa forma, um progresso, não é? Seis meses atrás eu queria me mudar para Hollywood. Vou ficar em Middleland, mas apesar de tudo eu não quero mais morar na mesma casa que os meus irmãos. Acha isso estranho? Quer dizer, eu sinto que se eu continuasse morando com Ethan ele me enlouqueceria e vice-e-versa. Nós dois mudamos demais para continuarmos sendo tão grudados. Eu nunca vou me afastar dele como ele se afastou de mim, mas não podemos mais morar juntos. Oh, são as sinas de ser um Hentz. Samuel Hentz não morava numa mansão num condomínio chamado Magellanic? O condomínio ainda existe? Será que a mansão está à venda?
Havia outro batalhão de jornalistas na frente do Palácio Real Hentz. A limusine avançava devagar e com cuidado para dentro do estacionamento subterrâneo antes que Nick perdesse a paciência e abrisse o teto solar do carro. Empurrou-se para fora e ergueu as duas mãos, pedindo silêncio. Foi um momento maravilhoso em que se sentiu poderoso e capaz de tudo. Se declarasse ali seu apoio ao Partido Trabalhista, eles venceriam a maioria das cadeiras no Parlamento. A beleza do bipartidarismo.
— Se vocês saírem da frente da limusine, eu prometo que em algumas horas eu descerei em pessoa e darei uma declaração oficial. Quantos canais de TV estão aqui, quinze? Saiam da frente antes que eu os atropele.
O carro avançou para o subterrâneo, envolvendo-se em escuridão e quietude. No entanto, antes disso, um dos jornalistas gritou algo que Nick não entendeu, por isso ignorou e não respondeu, mas era relacionado a um vídeo chamado Misery Loves Company.
Nick pegou o elevador para o nonagésimo quinto andar, pondo seu dedão no mostrador digital para que analisasse as digitais. Em breve eles teriam que atualizar aquele sistema de segurança. Talvez usassem também análise ocular, mas isso significava que quem tentasse invadir iria obrigatoriamente arrancar o olho deles para tal.
Cornelius Goldenschild já estava no escritório de Ethan. As poças de ouro derretido que eram seus olhos dourados estavam límpidas e alegres, como se ele não tivesse presenciado um genocídio há menos de um dia. Quem sabe já tivesse presenciado muitos. Vickie e Carmen lhe contaram as histórias a seu respeito, as sucessivas vezes em que Cornelius se viu obrigado a punir sua família. Por isso tinha olhos límpidos. Sem culpa, pois há um momento em que não há mais lugar. Já Nick vira seus próprios olhos no espelho. Eram os olhos de alguém que vira demais em pouco tempo de vida.
Ethan estava sentado na cabeceira da mesa de reuniões, no lado oposto ao em que Melchior sentara apenas há algumas horas. Lorenzo estava a sua direita, de modo que o espaço vago para Nicholas estava a sua esquerda. Cornelius sentava-se na cabeceira oposta.
— Boa noite, senhores — disse ao se sentar na confortável cadeira de madeira. Cadeira de madeira numa mesa de vidro. É, de fato, ele precisaria redecorar aquela sala urgentemente. — Desculpem-me o atraso. Eu estava muito ocupado sendo preso.
Ethan segurou sua mão com carinho, embora os dois não fizessem contato visual. Não precisavam.
— Que mentira vamos contar ao público? — ele indagou a Cornelius.
— Nós tínhamos toda uma trama de mentiras para contar ao público. Ela era perfeita, verossímil e completamente sem falhas. Não haveria jornalista no mundo que duvidasse. Mas, infelizmente, tivemos que descartá-la.
— Por quê? — Nick indagou.
Cornelius estendeu um tablet para eles, mas como a mesa era muito comprida Nick teve que se levantar para pegar. Engraçado ver aquele cavalheiro claramente do século XX com um aparelho eletrônico moderno. Ei, era impressão sua ou Cornelius não usara uma bengala em Sacramento? Por que usava agora? Bem, ele tem noventa anos. Dê um descanso ao homem.
O tablet carregava um vídeo hospedado num website. Quando o sinal de carregamento sumiu, a tela preta deu lugar ao fabuloso rosto de Nicholas Hentz com o cabelo mais curto e talvez mais tristeza no olhar. O ângulo da câmera indicava claramente que a filmagem fora feita de modo que ele não visse o aparelho que o filmava.
— Quem estava lhe perseguindo? — indagou uma voz feminina que, mesmo que negasse internamente, Nick reconhecia bastante bem. — Foram… foram as mesmas pessoas que sequestraram seu irmão?
— É, foi, sim — Nick respondeu. Era assim que sua voz soava para os outros? Meu Deus, que coisa ridícula. Tão estridente. — E, só para vocês saberem, eu não sequestrei meu irmão menor.
— Não — disse Nick, o Nick de fora da tela do tablet. — Não, não, não! Não pode ser, eu não acredito nisso. Eles não podem ter filmado aquilo, simplesmente não podem ter filmado tudo o que eu disse.
— Nicholas, você gostaria de explicar isso? — Ethan indagou.
Foi aí que o título Misery Loves Company trouxe algum sentido. Com alguma dificuldade, porque afinal ainda estava com vontade de estrangular alguém, Nicholas começou a narrar sua pequena aventura numa cafeteria ao lado do Central Park em Nova York e eu como revelara os maiores segredos de sua família a três estranhos porque estava deprimido e assustado demais para voltar para casa.
Ethan não disse nada. Simplesmente colocou o vídeo para continuar. Durante cinquenta e seis minutos, os três olharam para a tela do tablet e assistiram ao rosto de Nicholas se contorcer de um garoto vívido e corajoso para um cordeirinho triste e de volta a um garoto vívido e corajoso, só que ainda triste. Nick não conseguia saber se era narcisismo seu ou não quando ficou com vontade de chorar ao se ver chorando na tela.
— Essa é a minha vida que eu vivo em tons de cinza, e não em preto e branco — terminou dizendo. A frase não era nem completamente sua. A vira em algum lugar, provavelmente na TV, e a readaptara.
— Bem, pelo menos eu realmente posso dizer que sou fotogênico.
— Nicholas — pronunciou Ethan com lentidão ao massagear as próprias têmporas. Nick pensou que ele fosse gritar com ele. Todos os seus segredos com Oliver foram expostos, esmiuçados e detalhados para completos estranhos e agora estavam a vista de todo o mundo. — Venha cá.
Ele o abraçou com força, depositou um beijo em seu pescoço e passou os dedos em seus cabelos. Nick o abraçou de volta, aspirando o cheiro de sua pele. E deu-lhe uma mordidinha no pescoço, por que não?
— Tudo vai ficar bem — ele disse. — Vamos fazer isso sair da internet. Dizer que fere direitos de imagem, de privacidade, que o seu cabelo está bagunçado, o que for, eu não me importo. Mas é lindo. Mesmo.
— Obrigado, Ethan. Por isso espero que me perdoe por dizer que esse vídeo já tem cinco milhões de visualizações.
— E por causa disso — disse Cornelius — tivemos que reinventar toda a história para coincidir com o que Nicholas disse no vídeo. Eis o que aconteceu. Você foi sequestrado no dia 27 de agosto por um homem chamado Richard Smith, que acontece de ter sido um dos homens que estuprou Oliver. Os motivos de nunca ter sido condenado podem ficar encobertos, uma vez que nem os nomes dos verdadeiros estupradores são conhecidos.
— Isso porque eu matei todos eles.
— Continuando… Smith infiltrou-se no Palácio Real Hentz como membro de sua equipe de segurança e trabalhou aqui durante meses até que chegasse o dia da festa de um ano da empresa. Nesse dia, ele o neutralizou com uma arma de choque e o levou daqui com seu helicóptero, porque acontece que ele sabia pilotar helicópteros. Seus motivos são desconhecidos, mas espero que você entenda que você vai precisar confirmar a história de Oliver publicamente.
— Eu… não posso fazer isso.
— Mas você precisa — disse Lorenzo, segurando sua mão também. — Uma informação compartilhada de uma fonte confiável se propaga pela sociedade como uma praga e faz todos cantarem e dançarem igualmente para a mesma música mesmo que a ouçam em ritmos diferentes. — Nick e Ethan olharam para ele espantados. — Não sei de onde eu tirei essa metáfora. Mas o que quero dizer é que se você confirmar a veracidade da história de Oliver, as pessoas vão começar a imaginar por que o tal de Richard Smith fez o que fez. Vão preencher as lacunas vazias da história. E quer saber? Elas nunca vão descobrir porque ele não existe e esse mistério vai acompanhar nossa família para sempre. Cornelius, continue.
— Ele o levou de helicóptero até o hotel onde ele foi achado na madrugada do dia 27 e desceu com você até o estacionamento, onde o pôs num carro e seguiu para fora de Middleland. No Palácio, as coisas aconteceram do jeito que aconteceram. Nicholas deduziu que Ethan havia sido sequestrado, mas isso foi porque Smith deixou um bilhete com o número de série do GPS que usava. Nicholas levou Lorenzo consigo pelos mesmos motivos que explicou no vídeo. Porque não queria que ele fosse levado para a Sicília.
— Mas e quanto ao trunfo que eu disse que ele tinha contra Ethan?
— Não há trunfo nenhum. Ele simplesmente informou no bilhete que se você comunicasse isso à polícia, mataria Ethan imediatamente. Você foi obrigado a ir. Se quiser, diga que esse é o trunfo e deixe as pessoas acharem que você exagerou um pouco naquele relato.
— Mas isso me torna bem menos heroico.
Uma das coisas que mais magoava Nicholas naquele vídeo era que ele fora editado para que todas as vezes que os nomes dos outros três fossem citados, um sinal de censura aparecesse. Ninguém poderia saber disso agora, mas em cerca de um ano o vídeo Misery Loves Company computaria mais de quinhentas milhões de visualizações.
— Nicholas — continuou Cornelius —, você seguiu Smith pela Califórnia, passando longe de Harmount, e pelos Estados Unidos durante cento e cinquenta e um dias. Qualquer coisa que tenha feito nesse meio tempo, além das que foram citadas no vídeo, podem continuar em segredo. As pessoas vão apenas presumir quando você chegou em Nova York. Não precisamos deixar nada muito claro.
— E o que exatamente me fez vencer Richard Smith?
— Minha equipe de segurança. Você finalmente o confrontou em 31 de dezembro na nossa propriedade em Seattle, no estado de Washington. Durante todo esse tempo, ele viajou com um caminhão de mudanças equipado com um container onde mantinha Ethan preso. Eu estava lá em reunião com alguns membros da minha família quando ele invadiu o local com o caminhão, aparentemente bastante alterado, e atirou em alguns homens com uma pistola. Meus agentes o alvejaram. Haverá um relatório policial acerca disso e documentos de autópsia. A polícia californiana vai ficar satisfeita.
— Eu realmente passei por Seattle antes de ir ao Canadá.
— Você nunca foi ao Canadá. Não se esqueça disso. O Vale das Sombras ficará em segredo para todos.
Era exatamente o que deveria acontecer, pois quem mais suportaria a perspectiva de uma comunidade secreta escondida nas profundezas de uma floresta milenar cujos carvalhos tinham troncos da altura de dois homens e folhas tão espessas que em alguns pontos o dia parecia noite? Mas havia algumas clareiras também, clareiras tão grandes que eram capazes de esconder árvores cinquenta vezes maiores que a maior árvore que um ser humano era capaz de ver na vida, árvores que personificavam deuses brancas.
Não, pare com isso. Não pense nessas bobagens. Acabou. Ficou para trás. Junto com o Vale das Sombras e o sombrio ano de 2014.
— E quanto a Lorenzo, eu tenho minha própria versão — disse em tom animado e teatral. — Em Nova Orleans eu encontrei um velho amigo, Rowan Pyatt. Rowan por acaso é membro de uma organização tão secreta e misteriosa que ninguém sabe muito bem o que eles fazem. Chama-se Chaulwen. Já ouviu falar, Cornelius?
Ele franziu as sobrancelhas e pensou por alguns segundos.
— São… estudiosos, historiadores? Colecionam antiguidades e propriedades e têm sede de conhecimento? São muito ricos.
— Isso aí. Como na ocasião da produção do vídeo eu já tinha passado por Nova Orleans e ainda estava com Lorenzo, vou ter que modificar minha separação de Lorenzo para um ponto depois de Nova York, mas isso é o de menos. Eu pedi que a organização de Rowan levasse Lorenzo para um tratamento experimental do câncer de cérebro, algo nunca testado antes e que poderia muito bem matá-lo. Ele estava tão mal, como foi explicado no vídeo, que aceitou ir. O experimento estava sendo realizado em Cingapura, onde Lorenzo foi discretamente levado e medicado e sofreu cirurgia. Ele ficou lá durante todo esse período e foi trazido para cá no momento que eu e Ethan voltamos, nessa madrugada, porque, pasmem, o experimento funcionou. É claro que não daremos detalhes a ninguém, mas isso vai explicar porque ele foi curado do câncer e também vai explicar porque ele voltou a ver.
Era uma pena que nem eles soubessem por que Lorenzo voltou a ver. Mas Ethan contatara Rowan Pyatt há algumas horas. Ele prometeu que pularia dentro do próximo avião em direção de Sacramento a Middleland.
— Quer dizer que, por algum tempo, eu vou precisar ficar trancado dentro de casa — deduziu Lorenzo irritadamente. — Porque estou em recuperação. Também quer dizer que posso ter que faltar à escola.
— Você quer ir à escola? — Nick indagou.
— Eu fiquei quatro meses sem ir! Estou tão farto de estar perto de você que se eu tiver que ficar preso nessa casa, vou me jogar pela janela, a não ser que jogue você antes.
— Por que é que o experimento teve que funcionar? Talvez estivéssemos mais felizes se você houvesse morrido e ido direto ao Inferno.
— Eu ficaria, porque estaria longe de você.
Estando entre os dois irmãos que não paravam de brigar, Ethan ficou sem opções. Beijou Nicholas na bochecha e Lorenzo na outra. E em seus olhos a mensagem era bastante clara. Vão para o quarto. Porque eu vou me juntar a vocês em breve.
Ethan e Nicholas desceram ao térreo do Palácio Real Hentz menos de uma hora depois, onde um palanque havia sido montado no gramado, para falar com os jornalistas e paparazzi que queriam desesperadamente uma história. Em pouco menos de trinta minutos, cada irmão falou um pouco o seu lado da história, conscientes de que seus discursos estavam sendo transmitidos ao vivo para todo o país. Ethan foi direto e sério como era intrínseco a ele, enquanto Nick objetivou cada uma de suas aventuras, jorrando sarcasmo para os jornalistas. Arrancara várias risadas, isso era importante.
— Sabem, quando eu era uma criança narcisista e egocêntrica eu sempre sonhei em subir num desses palanques com vários microfones montados e falar em frente às câmeras e jornalistas o que eles queriam ouvir, mas agora eu me pego numa situação em que qualquer coisa que eu falar será de bom proveito para vocês. Por isso fiz um teaser e coloquei na internet antes.
Risos.
— Foi uma piada. Eu não fiz aquele vídeo nem o pus na internet. Aquilo foi gravado sem a minha autorização durante um momento bastante íntimo em que eu expurguei tudo o que sentia. Eu estava fugindo da polícia há meses, é verdade, com apenas meu irmão menor com câncer como companhia. Não foi uma coisa fácil de lidar. Por isso o conteúdo do vídeo. Me senti um pouco melhor depois dele. Afinal, miséria ama companhia.
Com mais rapidez, narrou sua aventura ao longo do continente norte-americano, fazendo o favor de chamá-la de jornada dourada, do modo que Cornelius lhe instruiu. Esse Richard Smith que não existia seria o homem mais procurado do mundo por algumas semanas — mesmo que estivesse morto —, e depois todos se esqueceriam dele.
Ethan também declarou que voltou oficialmente à presidência da Anhert Corporation e que lamentava muito pelo colapso nervoso que seu primo, Melon Chioren, sofrera há algumas horas. Todas as suas melhoras a ele. Nick tinha certeza de que ele estava sendo sincero. Afinal, era Ethan quem estava pagando a estada de Melchior no hospital psiquiátrico.
— E quanto ao que você falou sobre Lorenzo e Enzo Granelli? — um jornalista da plateia perguntou a Nicholas. — É verdade?
— Tudo o que é dito no vídeo é verdade.
— Então seu irmão de nove anos de idade atirou em um homem?
— Foi defesa pessoal. Granelli queria nos matar. E Lorenzo não tinha muita noção que fazia. Como você disse, ele tinha nove anos. E era cego, então basicamente não veria toda a sujeira que faria se atirasse.
Depois perguntaram sobre Olenna Olrwen.
— Então você acha que a polícia de Middleland cometeu um erro?
— Não, não acho, eu tenho certeza. Mas quem se importa? Todos os culpados estão mortos. Deixem as vítimas do Massacre da Coruja em paz.
Tudo acontecia tão rápido. Nem parecia que haviam feito sexo selvagem com Lorenzo quinze minutos atrás.
Em breve estavam no elevador, de volta ao topo do Palácio. Ethan parou um momento para aceitar uma ligação pessoal do Rei Senn e outra do Primeiro Ministro. Sabia-se lá Deus como eles tinham seu número.
— Quem é Honey? — Nick indagou ao atingirem o hall.
— O quê? — ele disse, mesmo que Nick soubesse que tinha ouvido.
— Antes de Cornelius ir embora você perguntou a ele como Honey estava e ele disse que ele ficaria bem, que cuidaria de Honey enquanto pudesse e que depois disso ele seria adotado por outro membro da família Goldenschild e receberia o tratamento psicológico adequado.
— Oh, Honey… Bem, ele era um garoto à serviço de Devon que levava comida para mim enquanto eu estava em cativeiro. Também servia de enfermeiro e me administrava alguns soros.
— Entendo. Ele foi sua única companhia durante quatro meses.
— Eu não disse isso.
— Não sou Lorenzo, mas sei quando você mente e omite. Te conheço bem demais, metade do que eu sou vem de você. Também posso dizer que você dormiu com ele. Quantos anos ele tinha?
Ethan relutou em dizer.
— Doze. Ele tinha doze anos.
— Entendo de novo. Pode me fazer um favor? Quando for transar com alguém, será que você pode escolher alguém que, sei lá, já tenha trocado todos os dentes de leite? Alguém que já alcance os pedais de um carro? Alguém que já tenha decorado todo o alfabeto?
— Cale a boca. Eu gostava dele.
— Entendo mais uma vez. Você teve Síndrome de Estocolmo.
— Por que você gosta tanto de me incomodar?
— A despeito do fato de eu e você fazermos sexo há três anos, eu ainda sou seu irmão menor. E irmãos menores adoram incomodar os mais velhos. Vamos, Ethan, me maltrate também, mesmo que no fundo você me ame.
— Você é a criatura mais impossível que eu já conheci, Nicholas Hentz. Quase não estou feliz de tê-lo de novo. Agora me beije, vamos voltar para a cama com Lorenzo.
Eles não tiveram chance de ter uma boa noite de sono. Rowan Pyatt chegou por volta das dez horas da noite e arrastou Lorenzo consigo para uma clínica médica particular. A Chaulwen havia alugado todo o local e mandado seus próprios médicos e estudiosos especializados para realizarem uma bateria de eletroencefalogramas, eletrocardiogramas, ecodopplercardiogramas, espirometrias, tomografias, ressonâncias, angiografias e mais uma porção de exames com nomes horrorosamente compridos e complicados, e também exames de sangue, de DNA e de tecido epitelial, sanguíneo, ósseo e mais alguns outros. Os olhos de Lorenzo foram estudados em máquinas gigantescas com milhares de lentes até seu limite. Tudo em salas brancas esterilizadas e com cheiro de álcool. Durou a madrugada inteira.
Ethan e Lorenzo voltaram para casa às cinco horas da manhã e dormiram até as duas da tarde, mas Nick dormira e acordara muito mais cedo. A Avaliação de Complemento do Ensino Médio começaria exatamente a uma hora da tarde do dia 2 de janeiro e duraria cinco horas. Nick precisava de pontos suficientes para conseguir um diploma de Ensino Médio, e se conseguisse ficaria livre da escola para sempre.
Ele não acordara os irmãos antes de sair da limusine e entrar como um deus na unidade de ensino em que fora designado para fazer a prova. Ninguém falou com ele, mas alguns olhavam para seus cabelos louros e hidratados e sussurravam uns com os outros. Todos fofocavam sobre sua jornada dourada. Foi uma sensação um tanto agradável e ao mesmo tempo não. É, Nicholas Hentz voltou. Mas seria o mesmo Nicholas Hentz que se fora?
Às três horas da tarde, Ethan e Lorenzo reencontraram-se com Rowan na sede da Chaulwen em Middleland, um lindo castelo nos limites da cidade que, como Ethan sabia, pertencia à família Goldenschild.
A sala de reuniões era linda, convidativa e vitoriana, decorada em marrom e vermelho. Foram-lhes servidos chá e café. Rowan sentou-se numa poltrona de couro de frente para eles. Ao seu lado, num criado-mudo, havia uma porção de livros antigos e cópias modernas de papiros e pergaminhos.
— Obrigado aos dois por virem — ele disse em tom grave e maduro, quase como se não tivesse catorze anos. — Ethan, Lorenzo, os especialistas que examinaram suas amostras corporais trabalharam durante horas seguidas nelas por toda a madrugada. Ainda as estão estudando, mas eu já posso dar a vocês os resultados preliminares de suas descobertas, apesar de que no campo da medicina tudo se demora para resolver.
“Ethan, olhe para o braço de Lorenzo, na parte oposta ao cotovelo. Foi onde enfiaram a agulha para retirar o sangue. Vê algo? Pois é. A verdade é que quando os exames terminaram, a cicatriz já tinha desaparecido completamente porque, como foi descoberto ao analisar o seu sangue, as suas células estão, simplesmente… loucas. Lorenzo, as plaquetas do seu sangue, os fragmentos que promovem a cicatrização, estão superpotencializadas. Em testes feitos, descobriram que elas agem de forma dez vezes mais rápida que plaquetas normais e não há nenhuma explicação para isso. É como se cada uma tivesse um pequeno cérebro dentro de si, e todos fossem unidos e trabalhassem como só um. Explica essa regeneração admirável.
“Os seus glóbulos brancos são pequenas máquinas de guerra. Eles foram colocados em contato com diversas cepas de fungos, vírus e bactérias de doenças diferentes e, como vocês já podem imaginar, agiram de forma totalmente inesperada. Seus leucócitos dilaceraram todos os tipos de doenças que foram colocadas em contato com eles. Até mesmo o HIV. Deixem-me dizer que o HIV é um vírus perfeito. É ultra veloz, quase indestrutível e é programado para atacar exatamente os leucócitos, o que torna a doença tão perigosa e até hoje sem cura. No entanto, Lorenzo, os seus leucócitos fizeram o que os de ninguém mais fez. Eles destruíram o vírus da imunodeficiência humana tão facilmente quanto se fosse uma gripe. Vocês deviam ter visto o que eu vi no microscópio. Foi uma coisa linda e assustadora. Os cientistas da Chaulwen estão com os cabelos em pé.
“Nos testes ergométricos que você fez, foi visto um funcionamento exemplar do coração e dos pulmões. Você tem o coração de um touro. Ou dois. Poderia correr uma maratona sem beber um gole de água, se quisesse, e não desmaiar. Acredita-se que você possa viver três vezes mais tempo sem água e sem comida que as pessoas normais. Seus ossos tornaram-se praticamente titânio, você dificilmente quebrará um braço ou uma perna na vida. Por isso caiu de sete metros de altura e ficou perfeitamente bem. O seu cérebro também aumentou de tamanho. Como você sabe, até antes do Natal havia um tumor gigantesco pressionando-o, mas nas ressonâncias magnéticas foi visto que esse tumor simplesmente desapareceu. Eu diria que seu corpo o absorveu e começou a combatê-lo. A área correspondente ao lobo frontal, que processa ações, movimentos e o pensamento abstrato foi também superpotencializada, assim como a das memórias e a da visão. Em suma, seu cérebro vale pelo cérebro de duas, três ou mil pessoas. Não temos como saber. Eu diria até que você tem o dobro de neurônios trabalhando, talvez uns duzentos bilhões, e por que não pensar em meio trilhão, mas também não se tem como saber isso.
“Quem sabe essa supercapacidade cerebral tenha a ver com a superpotencialização do seu corpo e vice-e-versa. A questão aqui, Lorenzo, é que você demonstra características de um super-humano, de algo talvez um passo à frente do Homo sapiens sapiens, mais capacitado e mais poderoso. Você pode se tornar um gênio da música, da física, da química ou da medicina, se quiser. Características como as suas são inimagináveis até para os cientistas mais sonhadores e idealistas de hoje. 100% do seu cérebro está operante e funcional, você é claramente imune a todas as doenças conhecidas pelo homem e apresenta uma capacidade de regeneração espantosa. Talvez pudesse crescer outro braço se perdesse um. Não sei bem.”
Isso é irônico, pensou Ethan, considerando que Lorenzo não pode nem cortar o cabelo.
Por fim, Rowan perguntou se Lorenzo sabia por que fora cego.
— Sei — ele respondeu. — Eu tive retinopatia da prematuridade. É uma doença que compromete a vascularização da retina nos bebês, podendo deformá-las. Basicamente, eu era cego porque nasci com uma anomalia que fez minhas retinas terem o formato de uma montanha-russa.
— É, exatamente. Suas novas células, essas coisas maravilhosas e esquisitas, no entanto, decidiram que isso não estava bom. Elas reconstruíram toda a sua retina, as dos dois olhos, do zero. É visto que os tecidos dos seus olhos são extremamente novos, como se tivessem vindo de um recém-nascido. Com novas retinas, nada te impedia de ver, é por isso que você voltou a enxergar e talvez seja por isso que a área visual do seu cérebro esteja tão forte, porque nunca fora usada antes. Sua visão é perfeita. Nada da hipermetropia que seu pai apresentava e que Ethan herdou. Mas não sei o que dizer quanto à mudança de cor deles. Não há explicação científica para isso. Também não há explicação científica para todas essas mudanças terem acontecido em questão de segundos. Sabe, seu DNA também está mudado. Se outros cientistas analisassem suas amostras, diriam se tratar de uma aberração da natureza que não é sequer humana. O seu número de cromossomos quase dobrou. Eu não entendo o suficiente sobre o DNA para explicar direito.
— É uma pena que você não possa tocar em Nick para ver com seus olhos o que aconteceu naquela clareira — disse Lorenzo. É claro que Rowan não poderia nunca tocar em Nicholas. Se assim fosse, poderia bagunçar a delicada rede de tramoias que montara em sua mente para apagar duas memórias importantíssimas.
— Não preciso, Lorenzo. Eu sei o que aconteceu com você. Eu sei o que aconteceu com Oliver. E eu sei o que Elluryiel era. Não era um simples espírito da floresta. Era um fantasma muito poderoso de algo muito poderoso que já pisou na Terra, mas que agora está aparentemente extinto. Elluryiel era um Alteri.
Ele tirou um dos livros antigos de cima do criado-mudo e abriu-o numa página específica, depois entregou a Ethan. Via-se a imagem desenhada à mão de uma criatura extremamente parecida com um humano num campo vazio. Seu físico era musculoso e delineado e sua compleição era de infinita sabedoria. Seria humana se os olhos não brilhassem e se claramente não tivesse alguns músculos a mais e a menos, e se eles não tivessem formatos ligeiramente diferentes dos das pessoas normais. O desenho, no entanto, era esplêndido, lindo e detalhado manualmente. Seu reino por uma lupa.
— Não há mais membros da Chaulwen que acreditem nos Alteri quanto há pessoas normais no mundo que acreditem em reptilianos. Eu mesmo não achava que pudessem existir. A Chaulwen tem todo um acervo sobre criaturas fantásticas e histórias mirabolantes demais para serem verdadeiras, coisas sobre as quais nunca foram encontradas provas. Portais para outras dimensões, alienígenas, a pedra filosofal, um homem que transformava tudo o que tocava em ouro, projeções astrais fortes o suficiente para promoverem viagens no tempo. Essas são as nossas versões de contos-de-fadas. Os Alteri fazem parte disso. O que se conta é que há milênios, talvez antes mesmo do surgimento do Homo sapiens, havia outra raça humanoide na Terra, uma raça não conhecida pelos cientistas que chamamos de Alteri. Ao longo das eras, poucos dos estudiosos que acreditaram em sua existência também acreditaram que eles foram diretamente responsáveis tanto pela sua própria destruição quanto pelo surgimento do Homo sapiens. Podemos todos descender deles, por assim dizer. Há não muito tempo foi achado um esqueleto de Neanderthal que os cientistas acreditaram não ser capaz de ser um deles por causa de sua estrutura óssea diferente. Ele parecia ser um Homo sapiens, embora tivesse quase trinta mil anos.
Rowan estendeu uma das cópias. No papiro original, via-se uma caligrafia pequena e apertada em latim e em outra cópia via-se outra caligrafia ininteligível, dessa vez em gaélico. Duas línguas que não mais existiam. Numa terceira cópia, via-se o desenho de um humanoide quase idêntico ao humano comum se não fosse pela óbvia tentativa de colorir seus cabelos e olhos e pelos já falados músculos construídos de forma diferente.
— Descrições e desenhos feitos por monges beneditinos e cistercienses. De acordo com esses documentos, os Alteri foram seres humanoides extremamente fortes e resistentes, sempre de aparência muitíssimo jovem, e que não sofriam com as ações do tempo. Suas cores dependiam muito do local onde viviam. Aqueles que viviam em locais gelados tinham como cores primárias o azul, por causa do céu, e o branco, por causa da neve. Os que viviam em regiões desérticas tinham peles alaranjadas e cabelos e olhos da cor da areia; os que viviam em florestas tinham a pele e o cabelo da cor da terra e os olhos da cor das árvores ou das folhas delas; os que viviam em ilhas ao mar tinham os olhos azuis e a pele acinzentada ou da cor da areia. Eu não sei por quê. Não sei se eles podiam escolher as próprias cores. Realmente não faço ideia. Mas se vocês pararem para pensar, se for verdade que os Alteri são ascendentes de todos os Homo sapiens, isso explicaria perfeitamente a existência de diferentes etnias na Terra.
“Algumas outras fontes citam os Alteri como seres que não apenas não envelhecem, mas que são praticamente imortais. Se eles conseguiram entrar em contato com humanos antes do próprio desaparecimento, foi antes mesmo da criação da escrita cuneiforme. Já foram encontradas pinturas rupestres com mais de vinte mil anos de idade em paredes de cavernas com desenhos de humanos muito fortes e cheios de cores diferentes, e de certa forma endeusados. Não dá para saber se eram imortais mesmo ou se viviam muito e escolhiam não se reproduzir. Ou se tinham órgãos genitais. Se não tinham, o que diferenciava os sexos? Entendem por que não se acredita neles? Não há nada concreto que prove sua existência. Eu estar aqui falando de provas de existência dos Alteri é a mesma coisa que eu começar a balbuciar sobre elfos e anões usando um texto de J. R. R. Tolkien.
“Mas então acontece que Gillian fez aquela profecia que, sim, eu escondi de Nicholas propositalmente. A mulher branca e a Floresta das Sombras, tudo de novo. Eu não pensava nos Alteri até há algum tempo, quando mexendo nos antigos registros da Chaulwen eu encontrei textos sobre essas criaturas. A verdade é que eu acredito fielmente que Elluryiel era o fantasma de um Alteri, a sombra do que um dia viveu, que permaneceu na Terra e através das orações que recebia das tribos indígenas fortaleceu-se o suficiente para adquirir forma física quando quisesse e enfeitiçar aquela Floresta e aquele Vale das Sombras. Todas as estranhezas físicas do Vale, como sua semeadura sempre fértil ou sua neve que não para de cair são obra da magia de Elluryiel. O silêncio na clareira e a árvore-totem colossal também eram ilusão dela, embora isso não signifique que não eram reais.
“Mas algumas coisas me impedem de acreditar nisso totalmente. Se Elluryiel era um fantasma, isso significa que ela tinha alma? E se ela tinha alma, quer dizer que os Alteri também tinham? Eles eram como os humanos, quando morriam podiam escolher entre ficar na Terra e ir para o além? Será que eram tão inteligentes quanto nós? E, se eram, onde estão os sinais de toda a sua civilização? Onde estão os monumentos imortais que deveriam ter construído, as marcas que deveriam ter deixado na Terra? E se todos morreram, porque é óbvio que todos morreram, quer dizer que não eram imortais? Ou não eram necessariamente imortais, mas sim apenas viviam muito e não envelheciam, até que morressem ao chegarem ao seu limite, com milhares de anos de idade, mas mesmo assim ainda jovens.
“Talvez a obsessão de Elluryiel em engravidar, como dizem centenas de registros que temos sobre tribos indígenas antigas daquela área do Canadá, prove o fato de que o Homo sapiens descende dos Alteri. Ela tomava forma humana e atraía os indígenas que viviam na Floresta das Sombras mentalmente para sua clareira, onde podiam encontrar diversas coisas. Podiam ver desde a árvore-totem até uma caverna ou uma cabana, que foi exatamente o que Oliver viu. Tudo dependia da vontade da deusa. No entanto, sendo apenas um fantasma poderoso o suficiente para se tornar corpórea por algum tempo, ela obviamente não conseguia engravidar de nenhum homem.
“Então eis que encontra um menino à beira da morte por ter entrado na Floresta das Sombras à procura de outros fantasmas fracos e insignificantes. Ela o leva a sua clareira, onde materializa uma cabana, e o seduz durante um mês, tentando desesperadamente extrair dele algo que a fizesse engravidar, que a fizesse esquecer que estava morta, que a fizesse achar que era carne novamente. Ela não consegue. Ao longo desse tempo, o menino definha. Ao ver que ele vai morrer, ela faz uma coisa que, tanto quanto sabemos, nunca aconteceu antes na história. Ela se une à alma dele, mudando a cor de seus cabelos e olhos para as cores que tivera quando Alteri, quando viva, pois essas são as cores do ambiente em que ela vivia. Assim ela pode ser carne novamente. E eu me pergunto para onde foram os outros Alteri.
“Mas Oliver morreu sete anos depois, como todos sabemos, e deixem-me chamar a atenção de vocês para o fato de que ele levou um tempo absurdo para morrer. Quando isso aconteceu, sua alma deixou o corpo e desprendeu-se de Elluryiel, que decidiu voltar à Floresta das Sombras. Talvez isso tenha forçado a alma de Oliver a ficar na Terra, mas isso já é outro assunto. Então veio aquela profecia e uma criança foi citada, uma criança que é Lorenzo, que foi atraído à clareira de Elluryiel e protagonizou o mesmo ritual uma segunda vez porque uma força superior assim quis.
“Gostaria de deixar claro a vocês que essa situação foi inteiramente nova em todos os parâmetros históricos que dizem respeito aos registros da Chaulwen. Nós não temos nenhum exemplo de algo tão mágico e místico acontecendo nem mesmo quando bruxas eram perseguidas na Europa. Profecias não são feitas facilmente e a todo o tempo, na verdade temos poucos exemplos de profecias verdadeiras, e a que Nick me contou, a que a Rainha Elizabeth proferiu, era desconhecida até então. Vocês sabem como ele soube dessa primeira profecia? Oh, ele só diz que teve a ajuda de alguém. Suspeitávamos que houvesse sangue bruxo na linhagem Bolena, mas não que fosse parar logo na membro mais famosa e poderosa dessa linhagem. Espero que fiquem felizes por serem parentes distantes de Elizabeth I. Eu estou.”
— O que você quer dizer — disse Ethan — é que o que aconteceu com Lorenzo e conosco, pois estamos na profecia, jamais poderá ser dividido com ninguém porque até mesmo você encontra dificuldades em acreditar.
— Ethan, nós não vivemos num mundo em que Sombras, Luz, fantasmas e espíritos aparecem e se unem em danças frenéticas em rituais sagrados em clareiras mais sagradas ainda sob a tutela de uma deusa-fantasma com frequência! Eu encontrei evidências científicas para as mudanças que ocorreram a Lorenzo e posso encontrar as mesmas para as suas habilidades. Posso dizer quais áreas do seu cérebro ficam mais ativas quando você hipnotiza alguém. Bruxaria é uma mistura de ciência e ocultismo que é plenamente aceita aqui. Por Deus, pode-se usar a ciência até para explicar as Sombras e como os Alteri deram origem aos Homo sapiens. Se for verdade. Mas não o que aconteceu a vocês. Simplesmente é tenebroso demais.
— Você está com inveja por não ter visto — disse Lorenzo.
— Isso não vem ao caso. E, afinal, como Nicholas conseguiu ver a Luz?
— Isso não vem ao caso.
Para falar a verdade, nenhum deles sabia. Nem sobre a profecia de Elizabeth, nem sobre a proferia de Gillian, nem como ele vira a Luz. Nicholas e aquela clareira seriam um segredo eterno que seria mantido apenas com ele. Bem, respeite isso. Não é nada demais um garoto ter segredos.
Quando saíram da sala para irem embora, Rowan chamou Ethan em particular e lhe confidenciou algumas coisas.
— Quando fizeram os testes com as células de Lorenzo, a estranheza não veio só das plaquetas que demonstraram grande poder de cicatrização ou dos glóbulos brancos que matariam qualquer coisa que quisesse fazer mal ao corpo dele. Veio em todas as células do corpo, das da pele às dos ossos. Elas tem uma capacidade absurda de regeneração, Ethan. De regenerarem a si próprias infinitamente, não importando o que as mate ou machuque. Elas simplesmente não envelhecem. Podem ressuscitar umas as outras para sempre. O que eu quero dizer é que Lorenzo nunca envelhecerá mais do que Elluryiel permita. Pense em Oliver. O fato de ele ter um rosto infantil não veio da genética. Ele se uniu a Elluryiel aos sete anos de idade e sua aparência permaneceu basicamente a mesma desde então. O corpo cresceu, mas não se desenvolveu, e a cara de criança permaneceu nele.
— Está dizendo que pelo resto da vida Lorenzo se parecerá com uma criança de onze anos?
— Estou dizendo que ele pode crescer normalmente até os quinze, vinte ou vinte e cinco anos e então simplesmente parar. Ethan, estou dizendo que eu tenho suspeitas extremamente grandes de que Lorenzo nunca será capaz de morrer. Ele talvez atinja a idade que um Alteri aparentava, a de um jovem adulto, e então simplesmente vai parar, e suas células mágicas superpoderosas vão se renovar e renovar através do poder de Elluryiel para sempre. Oliver só morreu porque estava praticamente decapitado.
— Está dizendo que se algum dia Lorenzo quiser morrer ele terá que fazer algo parecido e não menos letal que engolir uma granada?
— Não estou brincando, Ethan. Sim. Exatamente isso. Para que ele morra, seu corpo vai ter que estar tão despedaçado, destruído e estraçalhado que nem Elluryiel será capaz de revivê-lo. Vamos encarar a realidade. Lorenzo é um híbrido entre Alteri e humano. Não sei sequer se há algo que os diferencie. Acho que não. Gostaria de saber o que os devastou da Terra.
— Há uma coisa que me incomoda nisso tudo. Seus cientistas.
— Eu tomei todas as precauções. Os médicos que retiraram as amostras de Lorenzo não são os mesmos que as analisarem. Os que as analisarem fizeram isso em laboratórios separados ao redor do mundo. Eles não tinham conhecimento nenhum de que outros cientistas estavam fazendo a mesma coisa. Receberam tudo em ar de sigilo oficial e absoluto. Só eu recebi os relatórios, as descobertas, as fascinações deles. Tenho que admitir que não é fácil lidar com isso. Metade desses médicos acredita ter em mãos a cura para a AIDS, para o câncer, para o Alzheimer, uma espécie viva de super-humano com uma mutação genética inigualável e nunca antes vista. Muitos deles dariam tudo para ter um espécime como esse por inteiro.
— Não chame Lorenzo de espécime.
— Desculpe. Como eu dizia, eles só tem amostras. Eles jamais saberão de onde ou de quem essas amostras vieram ou quem as mandou. Ficarão em eterna dúvida. Lorenzo estará seguro para sempre em relação a isso.
— Então se você não pretende contar a sua organização que os Alteri existiram de verdade, quer dizer que teme o que possam fazer?
— Eu não temo nada que a organização possa fazer. Eu controlo a organização e seus dogmas os obrigam a seguir minhas ordens porque eu sou a septuagésima geração depois de Atheneus. Mas nós sempre acolhemos jovens com capacidades tanto bruxas quanto mentais extraordinárias, jovens impetuosos e curiosos que não hesitariam em desobedecer a organização para irem atrás do último espécime vivo de Alteri existente no mundo.
— Não o chame de…
— Espécime, eu sei, sinto muito. Eu posso controlar o conselho de diretores da organização, mas não seus membros um por um. Alguns perseguiriam Lorenzo até o fim do mundo para terem-no para si. Talvez seja verdade o que eu disse, que ele pode ser a cura para as doenças mais terríveis que existem, mas no mundo da medicina não se pode deixar nada implícito ou omitido, de modo que mesmo que conseguíssemos extrair isso dele, teríamos que explicar de onde veio. Como explicar os Alteri? Nem seus fósseis existem mais. Ou nunca foram achados.
— Talvez vocês estejam procurando nos lugares errados. Elluryiel criou uma floresta assombrada com milênios de idade que jamais será derrubada porque sua magia impede. Criou uma neve que nunca para de cair, que nunca acumula, mas que nunca deixa o chão vazio. Talvez o solo sagrado da Floresta das Sombras esconda alguma coisa.
— Mas é claro que não vamos procurar. Ela bem que pode parar o coração de Lorenzo se fizéssemos algo assim.
— Não pretende obrigar a Chaulwen a pesquisar mais sobre os Alteri?
— Talvez um dia eu faça isso, sabe, fazê-lo pensar que é apenas uma excentricidade minha. Mas eu jamais irei contar para qualquer outro ser humano o que Lorenzo é. O que aconteceu a ele. Ninguém tem nem certeza do que aconteceu a Oliver Castanelli. Preferem pensar que ele simplesmente foi salvo por um fantasma na Floresta das Sombras. Só isso. Sem união no final. Você foi a única pessoa para a qual ele falou sobre o que aconteceu com ele e Elluryiel, não foi? Tudo bem, Nicholas, Lorenzo e eu sabemos. Mas não, não se preocupe. Alteri continuarão a ser uma lenda e Lorenzo continuará a ser só um garoto. Ele nunca será trancafiado como um rato de laboratório e estudado até a exaustão. Mas você tem que tomar precauções.
— Tipo quais?
— Nunca, jamais, em hipótese alguma deixe que se façam testes médicos em Lorenzo. Nunca deixe que lhe tirem o sangue, que lhe meçam a pressão, a glicose ou o colesterol. Mantenha-o longe de radiografias, raios-X, tomografias ou qualquer uma daquelas máquinas que checam o interior. Quando as médicas dele começarem a questionar sobre o tratamento em Cingapura, desconverse. Nunca dê detalhes. Alegue querer privacidade para a família. Nunca deixe nem que lhe arranquem um fio de cabelo. Um teste de DNA facilmente vai revelar que Lorenzo não é humano. Porque essa é a verdade. Ele não é mais humano. Mas tampouco é Alteri. Ele está sob domínio da mulher branca. Lorenzo nunca mais vai engordar ou ganhar massa muscular. Ele vai crescer à medida que Elluryiel desejar. Se ela quiser que ele tenha um metro e oitenta de altura aos quinze anos de idade, ele vai ter. Se quiser que ele miraculosamente ganhe músculos de um dia para o outro, isso vai acontecer. Não se questiona a vontade de uma deusa-fantasma.
— Pare de falar assim. Parece um fanático. Oliver nunca teve mudanças corporais absurdas. — É claro que mesmo assim o corpo dele sempre fora delicioso para Ethan, nas medidas certas.
— É porque Elluryiel sabe o que faz. E rezemos para que continue assim, pois pelos seus próximos intermináveis anos de vida Lorenzo estará nos braços da deusa e não há possibilidade de escapar.
— Eu entendi isso. Só estou preocupado com Nicholas. Não sei como ele vê tudo isso que aconteceu. O fato de eu ter aceitado foi uma grande surpresa, apesar dos olhos e do cabelo de Lorenzo.
— Uma surpresa boa. Se Lorenzo algum dia se machucar de modo quase fatal, não o leve a um hospital. Ligue para nós. Nossos médicos vão cuidar dele sem fazer perguntas. Deus, o sangue de Lorenzo transplantado numa pessoa normal poderia curar uma hepatite. Seu líquido cefalorraquidiano, a medula espinhal, uma leucemia. Só quem sabe.
— A estupidez humana a impede de ter seus próprios avanços.
— Isso é mais comum do que você pensa. E quanto a…? Você sabe.
— Quem?
— Você sabe.
— Não, por favor, não fale o que eu sei que você quer falar.
— Ethan, não falar de Jules não vai fazê-lo acordar.
— Acha que eu não sei disso? Meu Deus, eu penso nisso o tempo todo. Penso nele deitado naquela cama de hospital com dez quilos a menos e penso que a culpa de tudo isso é minha, minha por ter sido arrogante o suficiente para tentar matar Devon Lancaster e trazer toda essa desgraça para minha família. Meu irmão quase foi estuprado, meu outro irmão sofreu durante quatro meses, eles quase morreram inúmeras vezes. E meu namorado, o garoto que eu amo, está em coma. Ele sempre foi tão bom. Ele fez tudo pelos Hentz. E os Hentz o puseram em coma. Ele não merecia nada disso.
Rowan o fitou por muito tempo com aqueles olhos azuis e arredondados. Estendeu a mão nua, talvez hesitando por um segundo, esperando uma retaliação. Não houve nenhuma. Por isso ele a enlaçou no rosto de Ethan.
Ethan fechou os olhos. A mão era muito mais quente que uma mão normal, quase um órgão pulsante, e se se concentrasse bem poderia ouvir o leve zumbido do corpo de Rowan que indicava sua ascendência bruxa. Lorenzo tinha razão. Ele sempre tinha razão.
Uma pontada na nuca e um arrepio na espinha depois e ele estava vendo estrelas douradas. Sim, Rowie, sugue minhas memórias. Simplesmente veja o que eu fiz. Veja como, no Natal, eu puxei Honey para cima da cama no container e fiz amor com ele repetidas vezes e em como amei aquilo e em como ele amou também. Ele até soltou minhas algemas. E depois, quando tudo terminou, sentiu medo de que eu tentasse fugir, mas eu fiquei na cama e fui algemado de novo porque gostava da sensação da boca dele no meu pau. E então ele voltou no dia seguinte e no dia seguinte e fez a mesma coisa enquanto meus irmãos estavam trancafiados no escuro.
Veja-me na cama com meus dois irmãos. No hotel, no jatinho de Cornelius e em casa, no meu quarto, com Lincoln Spring no quarto de Nick, onde ele praticamente mora agora eu tenho medo que eles fiquem juntos para sempre como Nick ficaria com Spring se eu não o tivesse afugentado eu tenho medo eu tenho tanto medo que tudo volte a ser como antes eu não quero isso eu quero que eles terminem eu quero Nick só para mim assim como Lorenzo e Jules todos ao mesmo tempo ao mesmo tempo ao mesmo tempo porque eu tenho medo medo medo medo medo medo medo medo…
Olhe para mim, veja o que eu sou.
— Eu pago as contas médicas dele — disse afastando-se propositalmente da mão de Rowan. Mais um pouco daquilo, de todos os seus defeitos passando incessantemente em sua mente, e enlouqueceria de vez. — É tudo o que eu posso fazer. Deixe-me tentar esquecer os problemas. O fato de que todos sabem de Oliver. Que minha família é a família mais fotografada e procurada em todo o continente americano. Eu não aguento mais essa exposição. Preciso de privacidade.
— Você não tem uma ilha, ou coisa assim?
— É, tenho uma ilha. Fica no Brasil. Talvez eu passe uma temporada lá.
— Ethan, tudo acabou. Você não percebe? O perigo passou. Por que essa tensão? Acha que eu não percebi que você e Lorenzo vieram para cá com uma comitiva de quinze seguranças armados? Você se vingou dos seus inimigos de forma apocalíptica, você os crucificou.
— Cornelius Goldenschild fez isso. Eu fui a donzela em perigo.
— Eu não estou falando dos Lancaster.
Ethan deu um beijo na bochecha de Rowan. Gostaria de ter tido tempo de fazer amor de novo com ele também. Os dois mais Lorenzo seguiram para fora da mansão. Tinham que atravessar o enorme gramado para chegarem à limusine, onde quatro seguranças os esperavam. Os outros estavam espalhados pelo resto do terreno, perto das janelas e nos limites da propriedade. Agentes de ternos escuros com formações militares que portavam submetralhadoras e tinham seus carros próprios.
— Talvez eu esteja exagerando — disse Ethan ao atingirem o carro.
— Pensei na mesma coisa — disse Lorenzo.
Eram quase seis horas da tarde. Nicholas terminaria o ACEM dali a pouco tempo, mas ele teria que esperar um pouco porque Ethan tinha uma reunião marcada para aquele horário.
Enquanto seguia de volta para o Palácio Real Hentz em sua limusine com seu irmão menor meio adormecido em seu colo, começou a pensar na última conversa que teve com Cornelius. Ele o chamou num canto e com seus olhos dourados e inteligentes revelou-lhe o conteúdo do soro que Honey lhe ministrara nos últimos meses. Claro que não era culpa dele.
Os culpados estão mortos, pensou melancólico. Mas a desgraça deles continua viva em mim.
Como explicar que a linhagem Hentz acabaria com ele?
E mesmo que a provável ascendência de Nicholas fosse verdadeira, não seria a mesma coisa. Nicholas não pertencia ao ramo principal. Não se conheciam seus ancestrais, embora fosse óbvio que foram pessoas comuns e ordinárias. Não os gigantes que foram os ancestrais de Ethan. Como confiar a presidência da Anhert Corporation num futuro filho de Nicholas? E se ele não os tivesse em boa qualidade, deveria dar a presidência a um CEO competente e formado em Harvard, um completo estranho sem Hentz no nome?
Mas que suposição horrenda.
Ainda não contara aos irmãos. Nem sabia se iria contar. Isso poderia aumentar a culpa que Nick sentia por ter deixado que aquele sequestro se alongasse por tanto tempo. Porque, afinal, ele poderia ter ficado em Middleland, contatado Cornelius e vaporizado os Lancaster antes que eles fizessem alguma besteira, como falar sobre os assassinatos que Ethan perpetrou.
É, Ethan não teria mais filhos. A linhagem principal acabaria com ele. Isso era certo. Bom, pelo menos um motivo para nunca deixar Nick se afastar. Ethan teria que ensinar a cada um dos filhos dele como controlar uma corporação poderosíssima. Para tirar o sangue de Nicholas, o Nicholas carismático, irresponsável e absurdamente insolente, teria que esfregá-los com uma flanela até que brilhassem e cheirassem a limpa-vidros. Para que fossem os presidentes, CEOs e diretores-gerais que Ethan precisava que fossem.
E se isso não desse certo, bem, talvez por isso que Samuel tenha tido vinte e sete filhos e quarenta e seis netos ilegítimos. John Fauntleroy deixara uma lista com seus nomes e localizações. Tudo o que Ethan precisaria fazer seria escolher alguém a dedo como quem escolhe um bife no cardápio.
Oh, e havia Lucas Fontanelle também, que morava em Los Angeles com sua mãe que trabalhava numa agência de publicidade pertencente à Anhert. Lucas era um bom garoto. Podia ser bom de cama também.
Pouco antes da seis horas da tarde, estava em seu escritório. Sua companhia era a Juíza Therese Williams, a mulher que lhe deu sua emancipação, a guarda de seu irmão e que quase o jogou na cadeia.
— Juíza Williams — disse cordialmente ao vê-la sentada com elegância em frente a sua escrivaninha. — Perdão pelo atraso.
A juíza usava um elegante terninho que ficava esbelto em seu corpo, mesmo com cinquenta e sete anos. Seu cabelo liso e escuro estava preso num coque complicado e bonito. O tom escuro de seu batom combinava com os olhos inteligentes de corça.
— Ethan — ela disse pausadamente observando-o sentar-se em sua poltrona presidencial. — Fico feliz que esteja vivo.
— Eu também fico feliz, Juíza Williams. Vamos direto ao assunto. Acho que sabe por que está aqui. Antes de ser nomeada juíza, a senhora costumava ser uma advogada de família. Certo?
— Certo. Mas vou ter que recusar sua proposta, Ethan. Há rumores tanto de que eu serei indicada à Suprema Corte quanto de que concorrerei a uma cadeira no Senado.
A Suprema Corte da Califórnia bem que poderia acolher Therese Williams, uma vez que Eleanor Thatcher morrera numa trágica explosão. Mas ela precisaria de uma indicação do Primeiro Ministro. Também havia uma cadeira vaga no Senado após a também triste morte de Marjorie Lancaster.
— Oh, vamos lá, Therese. O que você quer, me diga. Um milhão por ano? Eu te pago um milhão de dólares por ano. Converse com Lauren Mayfair e Liam Stonem. Você vai ver que quem trabalha para a família Hentz nunca fica entediado. Quem sabe você possa descobrir a verdade sobre o que aconteceu no julgamento de Lafferty e sobre meu sequestro.
— Não preciso saber sobre verdades enterradas, Ethan. Deixemos as coisas como estão. É muito melhor.
— Não tem o mínimo de curiosidade? Vamos lá.
Curioso era o fato de aquela mulher tê-lo inocentado de um crime pelo qual ele era culpado. Mas uma vez que virasse sua advogada, teria obrigação de guardar todos os seus segredos. Inclusive o de ter tido conluio no genocídio dos maiores figurões da Califórnia. Que grande escândalo seria se um dia viesse à tona. Derrubaria o homem mais rico do mundo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Ela balançou a cabeça distraidamente. Um milhão de dólares por ano era extremamente atraente, mas não se comparava ao poder que a Suprema Corte oferecia. Ethan teria que resolver isso.
Quando a reunião acabou, ligou para Cornelius e pediu-lhe um favor.
Nicholas Hentz estava parado do lado de fora de uma escola pública. Encostado no muro de pedra, com a mochila pendendo de um dos ombros, usava óculos escuros grandes demais para seu rosto. Fumava um cigarro que acendera usando seu isqueiro Zippo folheado a ouro.
Os olhares de todos os outros adolescentes que esperavam pelos pais após terem terminado o ACEM recaíam sobre ele inevitavelmente uma hora ou outra, tanto por terem curiosidade sobre suas fabulosas aventuras quanto por terem inveja de sua vida. Mas que monte de tolos. Provavelmente só invejavam seu dinheiro. Nem imaginavam as desgraças pelo qual já passara.
Alguém veio falar brevemente com ele. Dizia-se feliz por ele ter voltado a salvo e por seus irmãos estarem vivos. Era muito baixo, tinha talvez uns catorze anos. Um superdotado querendo se livrar logo da escola e entrar na faculdade. Nick simplesmente bagunçou seus cabelos com carinho e sorriu. Depois tragou o cigarro e se afastou.
Pois era de fato essa a imagem que todos tinham dele. Um semideus solitário num mundo cheio de insignificantes com uma aura dourada a brilhar em volta dele. Ah, e os olhares começavam a lhe incomodar, coisa que nunca acontecera antes. Talvez resquício de um tempo onde qualquer olhar demorado já fazia seu coração acelerar, pois tinha medo de ser reconhecido.
Talvez eu fosse mais feliz se não fosse mais famoso. Se ainda tivesse treze anos e meus pais estivessem vivos. Oh, eu tenho que terminar de ler o livro de Huck Finn. Prometi a Lorenzo antes que ele morresse.
Onde estava Ethan?
Ao final da rua, a limusine surgiu, negra e reluzente. Muitos puxavam o saco da limusine Lincoln, mas a Rolls-Royce era tão mais elegante. Quase presidencial. E pela quantidade de seguranças que Ethan insistia que perseguissem Nick o dia inteiro, ele realmente se sentia um presidente.
Havia um homem de preto no início da rua e outro no final dela, mais dois no topo de um prédio em frente à escola e também havia um patrulhando a própria escola. Quem sabe houvesse um fazendo o ACEM na mesma sala que ele. O carro preto que seguia por trás da limusine levaria todos.
Como dizer a Ethan que por favor, mandasse os seguranças embora, pois eu passei quatro meses fugindo das pessoas e não estou pronto para receber atenção total? Não estou pronto para ser observado por pessoas tão parecidas com as que tentaram me matar? Simplesmente como dizer?
Não há como. Todos nós mudamos. Nada dura para sempre.
Ethan estava ligeiramente claustrofóbico e desenvolveria agorafobia se não ocupasse a posição de poder que ocupava. Ele não entrava em elevadores a não ser que precisasse, o que o faria usar muito mais o helicóptero e as escadas de agora em diante. Lorenzo, mais distante que nunca, passava horas trancado em seu quarto tocando piano incessantemente. E Nicholas fumava mais que nunca e de certo desenvolvia oftalmofobia.
Feliz 2015, família Hentz.
O chofer abriu a porta da limusine para ele. Foi uma surpresa encontrar Lincoln lá dentro, e não Ethan. Sentou-se confortavelmente ao lado dele.
— Por que você veio? — indagou dando-lhe um selinho. Mas havia algo estranho em seus olhos verdes. Algo estava errado.
— Pedi a Ethan — ele respondeu. O que o faria superar sua fobia de falar com Ethan para pedir que fosse ele e apenas ele a encontrar Nick após a prova? — Nick, Spring morreu.
Nick ficou em silêncio por vários segundos. Fitava o rosto jovem adolescente a sua frente. Os cabelos compridos de Lincoln se foram a pedido de Nick, mas não havia como mudar os olhos lindos da cor das folhas. Os lábios dele eram quase idênticos aos de Spring, mesmo comprimento e grossura.
Um nó se formava em sua garganta, uma leve ansiedade em seu peito. Deixou que as duas coisas subissem naturalmente, produzindo o som de choro e as lágrimas necessárias à ocasião. Não conseguia pensar em nada.
Mas Lincoln o abraçava e ele também chorava.
— Mesmo que ele me odiasse, eu fico triste por isso.
— Ele não te odiava, não de verdade. O que aconteceu com ele?
— Ele teve pneumonia. Ninguém mais morre disso hoje em dia, mas ele tem AIDS. Ele… tinha AIDS. Por isso morreu. Foi só o que minha mãe disse. Sua fundação fornecia os remédios dele, não era?
— Era. — Nick limpou as lágrimas do rosto. — Era, fornecia, sim. Pro bono. Uma vez o diretor da fundação veio ter comigo dizendo que isso era desperdício de dinheiro, então eu fiz Ethan demiti-lo. Espere… sua mãe?
— Sim. Ela ligou para mim. Falou que Katherine Summer, a mãe de Summer, ligou para ela para falar da morte do filho. Eles vão mandar o corpo para cá. Ela não falou sobre Summer, mas eu presumo que uma vez que tenha que ter sido ela a ligar para cá, ele esteja inconsolável.
— Então você falou com sua mãe. Que o abandonou.
— É, falei. E com meu pai também. Eles querem que eu volte.
— Você quer voltar? Eles te…
— Eu sei o que eles fizeram, Nick. Eu sei melhor que ninguém o que eles fizeram! — A juventude lisa de seu rosto só tornava sua irritação mais difícil de ser levada a sério, mas Nick fazia esforço. — Mas eles também perderam um filho. A proximidade com a morte muda as pessoas. Coisas mundanas não têm mais significado. Sabemos disso melhor que ninguém.
Matamos oito homens, ele disse mentalmente, fazendo um profundo contato visual. Nick fechou os olhos e fitou através do vidro extremamente negro as ruas passando em alta velocidade do lado de fora.
Pegou o telefone fixo da limusine e discou para o motorista.
— Leve-nos ao condomínio Vittart.
Ficaram em silêncio por mais algum tempo enquanto o carro mudava de rumo. Nick não tinha nem coragem de olhar para ele e perguntar o que estava preso em sua garganta, pois temia saber a resposta.
Lincoln segurou sua mão com cuidado mesmo assim.
— Nick, eu nunca vou me esquecer do que tivemos juntos.
— Não, por favor, não seja condescendente como seu irmão foi.
— Eu falo sério. Nunca vou me esquecer. Mas você e eu vamos seguir caminhos diferentes daqui por diante. Eu vou voltar à casa dos meus pais e à Escola St. Nicholas e voltar a ser um Coelhinho que aterroriza loiros novatos e bonitos. E você vai voltar a ser o solteiro mais cobiçado da Califórnia e o adolescente mais rico do mundo. É o que nós somos.
— Oh, pare com isso.
— Nick, eu sei o que você fez com seus irmãos. Na noite em que se reencontraram em Sacramento. Enquanto eu e Pan estávamos na mansão. E sei que fizeram de novo ontem e no jatinho. A questão é que você nunca vai ser só meu. Nunca vai ser só de ninguém. Porque metade de você está com a sua família. E eu, bem… detesto a sua família. Lorenzo é horripilante e Ethan é… na verdade eu nunca serei como ele. Por isso ele me irrita.
— Ele é uma pessoa ótima.
— Eu sei. Por isso nunca serei como ele. Mas tudo bem. Sabe, tenho certeza de que Spring se lembrou de você antes de…
Ele não conseguiu terminar a frase. Nick voltara a chorar em silêncio. Então voltou-se para Lincoln, segurou-lhe o rosto e o beijou com carinho. Os dois continuaram abraçados e com os lábios colados até o carro parar.
O chofer veio abrir a porta. Estavam na entrada do Vittart.
— Se eu tiver algum problema, vou ligar para você. Prometo.
— Beije-me de novo antes.
Ele beijou, longa e desesperadamente. Nicholas mordeu seu pescoço, lembrando-se de como era a sensação do corpo nu dele abaixo do seu próprio, lá naquela imensa cama de dossel na cobertura em Nova York, de como ele gemia e se contorcia enquanto Nicholas tirava sua virgindade.
— Sempre vou te amar.
— Eu também sempre vou te amar. Adeus, Nick.
Nicholas chegou em casa de modo quase anestesiado, sem poder acreditar muito bem no que lhe acabara de acontecer. O segundo irmão Spring que lhe dava o fora quando ainda o amava incondicionalmente. Não era justo. Foi direto ao nonagésimo quarto andar, onde estavam seu quarto e o de Lorenzo, dentre outros recintos.
Lorenzo estava sentado de pernas cruzadas em frente a um elegante baú de madeira, um em que as pessoas costumavam guardar brinquedos. Mas não havia brinquedos naquele. Tanto Nicholas quanto Ethan sabiam que ele guardava memórias da mãe e da vida na Itália ali. Tudo bem.
— Você não vai acreditar no que me aconteceu — contou dramaticamente. Sentou-se no banquinho do piano e começou a brincar com as teclas brancas como porcelana. Eram muito duras. E aquele era realmente um lindo piano. — Lincoln terminou comigo. O segundo Spring. Teria sido mais irônico se isso tivesse acontecido no fim da primavera. Já quis ser ator?
— O quê? — ele indagou distraidamente. Sua voz estava monótona e grave, com uma vibração constante encrustada lá no fundo.
— Eu quero transformar a história de Pan num filme. Relatar toda a infância dele até o momento em que foi achado, é claro que suprimindo o fato de que nós o achamos. Mas eu pensei que na infância ele conheceu Oliver e não existe ninguém nem sequer parecido com Oliver. Exceto você. Você é idêntico a Oliver. Então já pensou em ser ator? Porque eu quero que você seja meu Oliver.
— Não sei. Não sei atuar.
— Eu também não sabia, mas no fim desse mês eu vou viajar à Hollywood para a cerimônia do Emmy e provavelmente vou ganhar. Tudo isso porque Melchior me fez ser escalado como Gwarren na peça dele.
Lorenzo olhou para Nicholas com seus novos olhos azuis. Segurava uma caixa de veludo grande, do tipo onde você guardaria um colar caro.
— Sabe o que é isso? — Estendeu a caixa.
— Não. O quê?
Ele a abriu, revelando uma medalha com inscrições em italiano. Tinha toda a cara de ser de origem militar.
— É uma medalha que o governo italiano deu à minha mãe por seus serviços prestados ao país. Eles a tinham em grande consideração. Eu vi o rosto da minha mãe pela primeira vez horas atrás. E foi numa fotografia. Só agora eu pude parar e ver como essa medalha é bonita. E eu realmente gosto dessa medalha. Tem um bom significado. Minha mãe a mereceu. Mas então você decidiu ir a público e dizer que ela planejava deserdar do trabalho e fugir comigo para escapar de Enzo Granelli.
Nick ficou olhando para ele por um bom tempo, para seu rosto pálido como a neve. O cabelo platinado caía graciosamente por todos os lados, branco com algumas mechas meio douradas. Não importa quão amarrotados ficassem, aqueles cabelos nunca estariam desarrumados.
— Então o governo italiano decidiu revogar a medalha dela. Eles a querem de volta. Quando alguém lhes perguntar sobre Antonella Barcarolli, podem até dizer que ela foi uma espiã, mas é só. Para eles, ela traiu seu país.
— Mas ela…
— Que importa se ela realmente ia deserdar?! — Lorenzo gritou. — Ela não merecia que lhe destruíssem a memória! Ela morreu tentando me salvar, ela fez todas as coisas erradas que fez tentando me salvar!
— Tenho certeza de que ela não se envolveu com Enzo Granelli tentando te salvar.
Nick soube que essa era uma frase que não deveria ser dita no momento em que abriu a boca, mas algo o impeliu a falá-la. Talvez o fato de que, no fundo, realmente achasse isso, mesmo que por educação nunca tenha dito. Estava querendo pedir desculpas, mas algo também o impediu de fazer isso.
Lorenzo simplesmente levantou as sobrancelhas e deu um suspiro.
— Vá embora. Quero ficar com a medalha antes de perdê-la.
Pensou em ver Ethan depois disso. Ele estava em seu escritório, como não podia deixar de ser, sentado à cabeceira da mesa de reuniões, onde uma profusão de projetos e plantas se espalhava. Nick deu uma boa olhada naquilo e após chegar à conclusão de que nunca decifraria o que diabos queriam dizer, perguntou a Ethan.
— Hentzland — ele respondeu finalmente. — É Hentzland! Você me convenceu a fazer, então eu decidi que farei. Há uma área vazia de oitenta mil metros quadrados na periferia de Middleland. Faz fronteira com a floresta e é possível ver o pico Alta Vista de lá.
— Então você vai realmente construir uma casa?
— Não, não vou construir uma casa, vou construir a casa. Hentzland será a maior residência que um dia existiu. Será um castelo, um único e enorme castelo com milhares de quartos e cômodos, com mil lareiras e um milhão de janelas. Terá características dos maiores e mais bonitos castelos de todo o mundo, misturará uma profusão de estilos diferentes, desde o bizantino até o elisabetano, do egípcio ao georgiano. Vou construir um castelo onde Rainha Vitória se deitaria para dormir e se sentiria elegante demais, que faria Maria Antonieta se sentir uma mendiga ao entrar nele com todas as suas joias e Cleópatra pedir para ser mumificada. Veja só, essa é a planta da ala vitoriana, essa é da ala céltica, essa da ala egípcia.
— Que bom para você. Acha que fica pronto até próxima semana?
— É uma obra faraônica e caríssima. Talvez fique pronta em 2020. Eu acho que ainda nem tenho dinheiro suficiente para construí-la. Falando nisso, vou investir sua fortuna na Anhert. Desculpe-me por não ter feito isso antes. Eu fui um idiota. E por que está triste? Foi você quem me convenceu a construir Hentzland, lembra? O que houve? E como foi o ACEM?
Ele ficou mais atencioso comigo. Isso é bom. Mas também é mal porque no momento a última coisa que quero é atenção.
Em palavras curtas, relatou-lhes os últimos acontecimentos. E pensar que menos de uma hora atrás estava terminando o ACEM. E que menos de quarenta e oito horas atrás ainda estavam em perseguição!
— Shh, tenha calma. — Ethan puxou Nicholas para si e o abraçou protetoramente. Nick, por sua vez, afundou o nariz nas roupas dele e sentiu o cheiro que adorava sentir. Não lembrava mais por que se incomodava de vê-lo usando ternos. Ele ficava tão bem neles. Oh, era tão bom não ser mais forte, poder ser fraco e chorar sempre que estivesse magoado pelas menores coisas. — Lorenzo ainda é um garoto de onze anos que age por impulso. Ele vai ficar com raiva agora, mas depois vai se esquecer disso, porque afinal ele sabe o que a mãe dele fez e uma medalha não significa nada. Onze anos é a pior idade. Lembra-se disso?
Nick apenas balançou a cabeça sem olhar para ele.
— Quanto a Lincoln, bem, outros garotos virão. Lincoln era novo demais para você. Você precisa de alguém mais velho. Alguém que possa cuidar de você. Porque você precisa ser cuidado. E não há problema nisso.
Ethan aspirou o cheiro de seu cabelo. Com muita maestria, segurou seu pescoço delicado e depositou um beijo em seus lábios. Os óculos nem incomodavam. As mãos dele foram para sua cintura e os braços a puxaram, colando os dois corpos que pareciam ter sido feitos um para o outro. Ethan mordiscou seus lábios e chupou sua língua com desejo.
Nick gemeu, sentindo-se amolecer. A tensão em seu pescoço foi para o espaço quando Ethan arranhou suas costas do jeito que ele gostava. Puxou-lhe o pescoço para aprofundar o beijo com uma das mãos, enquanto a outra foi parar no meio de suas pernas, onde sentiu-o duro e pronto.
— Vamos fazer amor juntos — sussurrou para o irmão mais velho. A possessividade em seu olhar negro era insuportavelmente excitante. Estava com água na boca. — Só nós dois. Como nos velhos tempos. Simplesmente me ponha de quatro e me foda.
— Sim — ele gemeu deliciosamente, sua voz grave e adulta reverberando nos ouvidos de Nick. Agarrou suas nádegas com as duas mãos, apertando-as sem piedade. — Como nos velhos tempos. Tire as roupas.
Nicholas Hentz foi levado a julgamento pelo sequestro de Lorenzo Barcarolli no dia seguinte. A promotoria argumentou que não havia como saber se o que era dito no vídeo Misery Loves Company e se o que fora dito na entrevista coletiva por Nicholas e seu irmão Ethan Lemnsack era verdade. Disseram que Nicholas havia, de fato, sequestrado seu irmão e que isso era uma violação da justiça.
Bem, de fato era. Nick não tinha guarda sobre Lorenzo e já que Ethan estava desaparecido, esta pertencia ao Estado. Liam Stonem argumentou reafirmando o que já fora dito tanto por Nick quanto por Ethan: que ele agiu baseado em suas emoções, pois não queria ver o irmão com câncer morrer sozinho num país ao qual não ia há dois anos e meio. Compreensível.
Mas a decisão final do juiz só veio quando Lorenzo decidiu ir ao banco de testemunhas. Era esperado com grandes expectativas por todos do tribunal, até mesmo pelo juiz, já que não era visto desde o dia da festa. Não se tinha como saber se era verdade que ele havia sido curado do câncer. Com certeza todos esperavam que estivesse vivo, mas ninguém esperava o que se viu quando Liam Stonem chamou-o como testemunha.
Lorenzo caminhou todo o caminho até o banco de testemunhas sem bengala e sem ajuda. Seus passos eram extremamente silenciosos, quase inaudíveis. Usava óculos escuros para proteger os olhos que só contrastavam com o cabelo muito claro. Com certeza todos pensavam que ele era muito mais alto do que parecia nas fotos. E loiro.
Liam e o promotor o interrogaram. Na vez de Liam, durante dez minutos Lorenzo lhes deu um emocionante relato sobre todos os meses que passou junto a seu irmão Nicholas. Detalhou sobre como implorara a ele que o levasse consigo naquela madrugada do dia 27, pois afinal Nick queria deixá-lo, o que era uma grande mentira, embora eles não precisassem saber disso. Inventou alguns detalhes sobre a viagem a Cingapura, sobre como foram meses terríveis por estar longe de Nicholas. Ele era bem criativo.
— E apesar de saber que estava infringindo a lei, Nicholas decidiu me levar com ele mesmo assim, pois eu insisti nisso. Ele arriscou a própria liberdade por minha causa de um lado e arriscou a própria vida para salvar Ethan do outro. Tudo o que Nicholas fez nos últimos quatro meses de 2014 foi por amor. Ele agiu por amor. Nicholas é uma pessoa maravilhosa. Ele é um herói. E isso é tudo o que eu tenho a dizer. Estou cansado demais agora.
Claro que estava, ele se recuperava de um câncer, afinal.
Foi um julgamento rápido. Ao final, Nicholas Hentz foi condenado a trinta dias de trabalhos comunitários, a começar em fevereiro. Agora ele era um criminoso condenado e sentenciado. Bem, era bastante justo para quem matara nove homens. Nick até pedira a Ethan para saber sobre as famílias dos seguranças inocentes que matou, mas Ethan proibiu terminantemente. Ele não precisava dessa culpa. As famílias ficariam bem.
Após o Primeiro Ministro anunciar o nome que substituiria a falecida juíza da Suprema Corte Eleanor Thatcher, o nome de uma mulher que não era Therese Williams, Ethan a contratou como sua advogada de família em lugar de John Fauntleroy, uma vez que ela não queria arriscar disputar o Senado. O que será que ela faria se soubesse que, através de Cornelius, ele era o responsável por ela não ter sido elevada ao Supremo?
Não importava. Todos os lugares haviam sido substituídos. No dia 3 de janeiro Ethan chamou os dois irmãos para anunciar que no dia seguinte os três iriam viajar para sua ilha particular no Brasil após fazerem uma tour pelo litoral do país. Depois de cinco meses de terror, em que setembro, outubro, novembro e dezembro foram ocupados pela jornada dourada e agosto pela perspectiva de morte de Lorenzo, era algo que eles mereciam. Voltariam dentro de vinte e seis dias, a tempo de a sentença de Nick começar.
Ethan não precisava saber que a casa de Nova Orleans e a antiga mansão de Samuel no condomínio Magellanic já haviam sido adquiridas por Nick através de Lauren Mayfair. Nem que Nick planejava viver em Magellanic a partir de fevereiro. Quem sabe fosse lá que suas próximas aventuras se desenvolveriam. Só quem sabe.
Lorenzo acordou de sobressalto em sua cama. Enfurnado em seus pesados lençóis brancos, estava envolto em escuridão, sabia disso porque as belas cores de seu quarto que vira durante o dia perderam todo o brilho e agora eram quase indistinguíveis do céu negro lá fora.
Se arrastou e apertou o interruptor do abajur, que jorrou uma luz alaranjada. Ah, agora sim. Podia ver as coisas. Também podia tatear para chegar ao relógio digital, mas os irmãos pediram que treinasse sua visão e sua memória para se lembrar do que é o quê.
Apertou um botão no relógio digital. Uma voz eletrônica falou as horas em voz alta. Três horas e trinta e três minutos da manhã. Lorenzo ainda não sabia ler, então aquela era uma cola respeitável.
Sentou-se na cama com o coração palpitando. Ouvia ao longe murmúrios baixos e graves, mais ou menos na mesma frequência que o som dos órgãos internos de Ethan, aquele som que só os bruxos emitiam por motivos desconhecidos. Os murmúrios assemelhavam-se a gemidos de agonia.
Saiu da cama com os pés nus. Piso de mármore frio, gelado, pois ares-condicionados existiam, graças a Deus. Lorenzo tateou suas pantufas com os pés e caminhou até o guarda-roupa. Nicholas sempre deixava conjuntos de roupas para que ele usasse no dia-a-dia sem arriscar parecer que se vestira no escuro, ou coisa assim. Lorenzo ainda não conseguia achar padrões nas roupas. Para ele não havia diferença entre as roupas de Ethan e as de um pedinte. Parecia futilidade em demasiado.
Mas pegou um conjunto de roupas para sair. Calças skinny pretas e calçados com plataformas que apesar de imensamente desconfortáveis, Nick sempre dizia que caíam muito bem nele. Devia ser verdade, já ouvira alguns elogios. A camisa era cheia de cores e tinha inscrições ininteligíveis, ou talvez fossem apenas montes de rabiscos sem sentido. Conseguiu identificar uma letra N, mas foi só. O conjunto vinha com uma profusão de pulseiras e colares que Nick também insistia que caía bem nele, mas não eram necessários agora. Lorenzo não queria exatamente ser visto.
Voltou ao criado-mudo e pegou seu telefone fixo. O único número que conseguira decorar era o nove, pois ele armazenava todas as discagens rápidas. O telefone era bem moderno. Uma vez que Lorenzo clicasse no nove, bastava que falasse em voz alta o nome da pessoa para quem queria telefonar e ele discava automaticamente.
Falou o nome Juan Suarez, o nome do segurança e motorista que Ethan designara para ele. Nick tinha uns seis ou sete seguranças e motoristas diferentes, só que ele só conhecia o nome de um. Os outros o seguiam a distância sem ele saber. Ou talvez soubesse.
— Olá, Juan. Perdão por acordá-lo, mas poderia subir ao meu quarto, por favor?
Desligou o telefone. Talvez Ethan tivesse medo de que Nick fosse seduzir todos os seus seguranças se os conhecesse. Era bem possível.
Ele chegou em menos de um minuto do nonagésimo sexto andar, onde Ethan havia desfeito todas as salas e as transformado em apartamentos funcionais onde todos os seus funcionários pudessem viver, desde os cozinheiros até os faxineiros. Seguranças incluídos. Eles tinham permissão especial para utilizar o elevador particular em casos de emergência.
Juan tinha vinte e poucos anos, mas tinha o rosto liso de um adolescente. Era provavelmente mexicano, mas falava inglês com fluência, ainda melhor que Lorenzo. Seus cabelos eram crespos e escuros e os olhos eram castanhos. Ele talvez fosse atraente. Perguntaria isso a Nicholas algum dia. Ah, quem sabe por isso ele fosse o seu segurança, e não o de Nicholas. Oh, Deus, Nicholas. Ele não tinha jeito.
— Sr. Lorenzo, o que há? Há algum problema?
— Não, não há, Juan, desculpe-me por alarmá-lo. É que eu preciso que você me leve a um lugar. Middleland Hentz Hospital. Não, não estou doente. É que preciso ver um amigo que está.
— Eu acho que eles já terminaram com o horário de visitas.
— Eu sei disso. Mas eu preciso ir mesmo assim. Aliás, Ethan é dono daquele hospital.
— Está bem, então. Vou avisá-lo e…
— Não, ele tampouco pode saber. Diga-me, você sabe dirigir limusines, não sabe? — Pegou seus óculos escuros e os colocou. — Vamos lá. Não precisa pôr seu uniforme. Só vai chamar mais atenção assim.
Lorenzo se perguntou se poderia seduzir aquele jovem adulto, se quisesse. Seria bom saber que era capaz, mesmo sem ter intenção. Vira seu melhor amigo da escola, Henry Beauchamp, mais cedo naquele dia e a despeito do cabelo loiro, dos olhos azuis e da habilidade de enxergar, a primeira coisa que Henry fizera foi beijá-lo de forma quase apaixonada. Depois disse que não fazia a mínima ideia de por que fizera aquilo. Lorenzo acreditou nele. Henry era heterossexual. Mas metade dos Chioren também era e no entanto todos eles demonstraram alguma atração por sua aparência.
Lorenzo sabia que acabaria indo para a cama com cada um deles, um por um. Quer dizer, até que se tornassem novos demais para isso. Tarly e Robbet poderiam esperar alguns anos. Mas Samwell, Daemon e Marco, que meninos adoráveis. Lorenzo mal se lembrara que Marco uma vez colocou seu membro na boca enquanto ainda moravam em Jardim de Ouro. Daemon era fraco e o mais triste de todos pelo que aconteceu a Melchior, mas aparentemente seria satisfatório. Samwell tinha uma namorada. Ele seria o melhor de todos apenas pela conquista. E tinha Hugh e Howl. Lorenzo sempre tivera curiosidade quanto a gêmeos.
É, Lorenzo se divertiria muito com sua nova família. E com Henry também. Henry, cujos desejos pré-adolescentes foram cruelmente testados quando Lorenzo levantara a camisa para mostrar a nova definição do peito. Ele não se controlara em agarrá-lo de novo, dessa vez excitado como nunca.
Em breve estavam na limusine. Lorenzo decidira ir no banco da frente, ao lado de Juan, por estar nervoso demais para ir atrás. Os murmúrios voltaram, inaudíveis apesar de ensurdecedores. Eles o estavam enlouquecendo. Conseguia visualizar imagens apagadas, embora não soubessem o que elas significavam. Sinos que não faziam barulho. E uma canção.
Um leão para o pão trazer, dois leões para dar de comer…
Quem inventara aquela música, afinal? Mistérios do mundo.
— Chegamos ao hospital — disse Juan. Estava nervoso. Não fazia a mínima ideia se fizera bem ou não ao seguir as ordens de seu protegido de onze anos de idade sem contar ao responsável dele.
— Preciso que siga comigo, Juan. Não conseguirei achar o quarto sozinho. Venha comigo.
— Sr. Lorenzo, não acho que é uma boa ideia…
Lorenzo aproximou seu corpo do dele, o corpo que sabia ser delicioso e irresistível. Ele estava aceso já há uns dez minutos, do jeito que Ethan ficava quando Lorenzo se aproximava dele. Segurou o volume dentro de sua calça com delicadeza, embora o aperto fosse de ferro.
— Juan — sussurrou em voz emaciada. — Preciso da sua ajuda.
E desceu seu zíper, apertando a coisa quente e pulsante com a mão antes de metê-la na boca. Ninguém podia resistir à tentação da mulher branca.
Terminou em cinco minutos. Os dois desceram da limusine e entraram no hospital. O ambiente estava tão caótico quando o normal, com médicos correndo para lá e para cá e pacientes meio sonolentos quase dormindo nas cadeiras. Para onde? Para onde? Para a esquerda. Leve-me, Juan.
Foram para a esquerda. Ninguém os viu, ninguém os parou, pois era sagrada aquela missão. Os murmúrios gritavam na mente de Lorenzo, guiando-o como uma vez lhe guiaram as Sombras. E se por acaso aqueles murmúrios fossem as Sombras? Uma versão não visual, mas auditiva delas? Certamente não eram a Luz, que só dava as caras uma vez na vida.
Finalmente atingiram o quarto que Lorenzo desejava. Dentro, deitado numa cama, um anjo caído louro e pálido, quase sem vida. Ele viu as Sombras ao redor dele, barulhentas e azucrinadas. Coisas tão primitivas que era difícil acreditar que Elluryiel de fato precisara delas para se unir a ele.
— Olá, Jules.
A pele de suas pálpebras fechadas estava anêmica, com veias azuis à mostra. Os braços estavam levemente curvados para dentro, como ficam os braços de um cadáver após algum tempo. As complicadas máquinas demonstravam seus sinais vitais fracos. Batimento regular e lento. Lorenzo conseguia visualizar seu coração lutando para bombear o sangue, o cérebro mortificado quase falhando. Ele teria morte cerebral em não mais que uma semana, calculou. Talvez menos. Mas certamente morreria.
Não era à toa que Ethan só viera vê-lo uma vez. Não era falta de consideração. Era que ele pegara um certo trauma de quartos hospitalares.
— Juan — disse olhando para seu segurança. Deveria ir para a cama com ele. O sexo oral não o satisfizera como satisfaria Nicholas, mas ele merecia. — Você tem alguma religião? Ou acredita em alguma coisa?
— Eu… sou católico.
Ah, quer dizer que era mesmo uma cruz no pescoço dele. Lorenzo tinha um crucifixo no pescoço. Prata pura, valiosa e pesada.
— Eu também. Eu acredito que Deus me tocou, Juan. Através de uma de Suas filhas. Por isso eu sobrevivi ao câncer. Realmente acredito nisso. E também acredito que Ele fez isso por um motivo. Veja esse anjo louro. Eu sempre gostei de Jules. Ele era uma ótima pessoa. Um ótimo namorado para Ethan que serviria para mais que ser só o namorado de Ethan.
Lorenzo deu a volta na cama de Jules. Os murmúrios se calaram quando chegou ao quarto, mas havia outro dentro do anjo caído. Um preso, bem preso. As Sombras deixavam a região de seu cérebro, o órgão onde se concentrava todo o ser de qualquer pessoa, bruxa ou não, como fumaça de gelo seco e davam a volta por seu corpo, sugando a vitalidade. Seu rosto estava magro demais. Era possível perceber isso.
Encostou uma mão na testa suada. A quentura era absurda, mas só Lorenzo podia senti-la. Havia um zumbido lá dentro, mas não o que indicava bruxaria, pois Jules era tão normal quanto qualquer um. Era um grito. Um grito desesperado e abafado.
— Eu acho que Deus fez isso por um motivo, Juan.
Segurou a outra mão dele e a apertou. Teve medo de que talvez pudesse quebrar seus ossos, mas não. As vozes disseram para ele ir até lá e ele foi. Eram vozes inteligentes. Não tinham como ser a estúpidas Sombras. Lorenzo fechou os olhos e deixou a mente divagar por um tempo.
Viu-se num campo vazio sob um céu púrpura. Montanhas imensas lá adiante com neve em seus topos, gigantes gelados que veriam o mundo acabar. O campo em si era gramado e a grama de um verde tão vivo quanto o de uma praia. A ventania que batia em seu rosto era gostosa.
— Oi, Jules.
Ele estava sentado numa área florida do gramado, entre milhares de flores amarelas. Margaridas? Não havia como saber numa terra de eterno crepúsculo. Arrancava as flores e depois suas pétalas uma por uma antes de ir para outra. Um garoto tão bonito que cantava uma linda canção.
— Um leão para o pão trazer, dois leões para dar de comer, três leões para a água procurar… Lorenzo. — Ele não se surpreendeu. Olhou-o profundamente com seus olhos cinzentos. Ali, não havia nada que indicasse seu coma. Seu rosto era cheio e dourado. O cabelo estava liso e loiro, mas menos que o de Nick, e comprido como o de uma garota. — Que faz aqui?
— Eu que pergunto isso. Por que está aqui?
— Não consigo achar a saída.
— É porque não existe nenhuma. Você tem que criá-la, Jules.
— Como eu poderia criar uma saída?
— Eu criei uma saída para meu câncer com a ajuda de Nicholas. E você vai criar uma saída para o seu coma com a minha ajuda. Não é difícil. O que você vê no horizonte? Olhe e me diga.
Ele apertou os olhos, fitando as montanhas geladas ao fundo.
— Me vejo com Ethan. Estamos numa praia, eu acho. O céu é muito azul, a água é esverdeada. Um paraíso. Ele me beija. Estamos… casados.
— Ande em direção a esse horizonte. Ele te espera.
Jules olhou para Lorenzo de novo. Quando se levantou, os dois se revelaram quase de mesma altura e compleição delicada. Ele na verdade tinha a altura de Ethan. Seria possível que todos em volta de Lorenzo fossem bonitos? Não se poderia reclamar que estivesse tendo desejos com todos.
— Você mudou — ele disse.
— Eu sei. Todos nós mudamos. Eu não fui o único.
Ele apenas assentiu. Depois deu-lhe as costas e caminhou através do campo gramado em direção ao seu destino. Desapareceu em pouco tempo no horizonte, antes mesmo que a física permitisse isso.
Lorenzo fechou os olhos novamente, deixando que a mente vagasse livre. Ela sempre iria ao lugar certo, não importa o que ele tentasse fazer, porque afinal o destino sabia o que fazia. Ele sempre soube.
Estava de volta no quarto de hospital quando afinal abriu os olhos. Eles estavam pegajosos e ardiam. Lorenzo levou as mãos às bochechas para recolher as lágrimas, mas havia algo errado, não havia? Lágrimas deveriam ser transparentes e menos viscosas. Ou será que não?
— Sr. Lorenzo — murmurou Juan de olhos arregalados. — Você está… está chorando sangue.
Os dois olhavam para as mãos manchadas de Lorenzo. Ainda se lembrava do que Rowan dissera sobre seu sangue poderoso e indestrutível, sobre sua saúde de ferro. Era uma bobagem achar que transfusões sanguíneas pudessem transferir qualquer um de seus poderes a um receptor, mas por que não tentar algo parecido e esperar que sua saúde fosse junto?
Foi por isso que, delicadamente, abriu os lábios de Jules du Pont e deixou escorrer as gotas do sangue que chorara por sua boca. Engula, meu filho. Engula o sangue mágico e chegue ao horizonte.
— Deus me tocou, Juan — sussurrou sinistramente. — Ele me tocou através de Sua filha. Eu só quis fazer o que Ele quis. Leve-me de volta para casa. Você pode passar a noite nu no meu quarto. Deus também sabe que nós dois queremos isso. Porque, afinal, com a mulher branca vem a beleza e o desejo. A deusa deseja os homens. E ela vai tê-los.
Lorenzo Barcarolli acordou na manhã seguinte nos braços de Juan Suarez, que o amara com ardor apaixonado na noite anterior, sem se importar se ele era um menino de onze anos. Ninguém resiste à mulher branca. Passou os dedos delicadamente por seu peito nu, pelos mamilos escuros e decididamente pelo pau amolecido que lhe dera tanto prazer ontem à noite.
Era o dia de viajarem ao Brasil para treparem por um mês inteiro numa ilha paradisíaca. Era óbvio que era para isso.
O telefone tocava. Ainda sonolento, atendeu-o. Era a voz de Ethan.
— Lorenzo, Deus, você não vai acreditar. Jules acordou.
Lorenzo acreditava. Ele acreditava. Sorriu internamente e, sem responder, colocou o telefone no gancho. Transaria com Juan mais uma vez antes de se juntar aos irmãos com uma leve e deliciosa expectativa. Um pensamento agradável. Uma certeza inegável. Pois essa era uma das maiores belezas do mundo. A certeza.
Agora, sim, tudo acabou. E mesmo assim, tenho certeza de que algum dia ainda vai continuar. Pois nós, os Hentz, nunca ficamos entediados. Até a próxima temporada de nossas vidas, vou sentir saudades!
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